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Clínica MédicaCardiologia

Angina estável: o exame que a própria sociedade pediu, e o SUS negou

Angina estável e doença coronariana crônica

Da probabilidade pré-teste ao exame funcional ou anatômico, com tratamento antianginoso, prevenção de eventos e indicação criteriosa de revascularização.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 58 anos, hipertenso, procura a UBS com dor torácica retroesternal em aperto que surge aos esforços moderados (subir dois lances de escada) e cede em cerca de 5 minutos com o repouso, há 2 meses, sem alteração do padrão. Está assintomático no momento, com exame físico e sinais vitais normais. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?

02

Como esse tema cai

O acervo cobre com folga o que acontece quando a placa rompe: infarto com e sem supradesnivelamento, dor torácica na emergência, avaliação pré-operatória de quem já foi revascularizado. O que faltava era o intervalo entre esses eventos — o paciente que tem angina há meses, que não está em risco imediato, e cuja conduta se decide no ambulatório com um pedido de exame.

Esse vão aparecia de um jeito peculiar: quatro capítulos de outras apostilas constroem vinhetas em cima de angina estável como premissa dada. Um descreve um homem de 79 anos com doença arterial coronariana em uso de quatro fármacos; outro lista angina estável entre os critérios de doença cardiovascular estabelecida; um terceiro põe um paciente com angina estável conhecida em crise hipertensiva; o quarto decide a suspensão de antiagregantes de quem levou stent por angina estável há quatro meses. Todos gastam o diagnóstico; nenhum diz como se chega a ele, nem o que decide se aquele paciente recebe stent.

O recorte deste capítulo é, portanto, o caminho até a premissa: como se estima a probabilidade antes do exame, qual exame se escolhe em cada faixa, o que o resultado autoriza fazer, e por que a régua brasileira de acesso não coincide com a régua da diretriz. O manejo da fase aguda, a interpretação do eletrocardiograma e a decisão perioperatória ficam com os capítulos que já os têm.

03

O que muda decisão

Síndrome coronariana crônica: o que entra no capítulo

A diretriz brasileira de 2014 chamava o tema de doença coronária estável. A de 2025 chama de síndrome coronariana crônica, e a troca não é preferência de redação: o termo antigo aparece 63 vezes no texto de 2014 e nenhuma vez no de 2025, enquanto o novo aparece 133 vezes no de 2025 e nenhuma no de 2014. A expressão angina estável sobreviveu, mas encolheu de 34 para 7 ocorrências, e passou a designar um sintoma dentro da síndrome, não a doença inteira.

A razão declarada é clínica. Chamar de estável uma placa que pode romper amanhã sugere um estado, e o que existe é um processo com períodos de estabilidade clínica. O mesmo doente atravessa a fronteira das síndromes agudas e volta, e volta diferente: com stent, com disfunção ventricular, com um território revascularizado e outro não. A diretriz de 2025 organiza o capítulo em torno dessa trajetória, e é por isso que dedica espaço a cenários que a de 2014 mal mencionava, como o paciente revascularizado assintomático e o paciente com angina sem obstrução epicárdica.

Para quem faz prova, a consequência é operacional: o vocabulário do enunciado diz qual régua o avaliador está usando. Uma questão que fala em doença coronária estável, classe funcional e teste ergométrico está ancorada na geração anterior de diretriz e costuma cobrar conduta clássica. Uma questão que fala em síndrome coronariana crônica, probabilidade pré-teste e angiotomografia está ancorada na geração atual e costuma cobrar escolha de exame. São recortes diferentes do mesmo tema, e reconhecer qual deles está em jogo economiza mais tempo do que decorar qualquer lista.

A substituição do nome não veio sozinha. Comparadas frase a frase, as duas diretrizes compartilham apenas cinco sentenças longas idênticas, e quatro delas são títulos de referência bibliográfica copiados da lista de 2014. A única frase clínica que atravessou os onze anos intacta descreve a farmacologia do verapamil — redução da condução atrioventricular, efeito inotrópico negativo, relaxamento da musculatura lisa vascular. O mecanismo de um bloqueador de canal de cálcio não envelhece; o resto do documento foi reescrito.

E foi reescrito com material que não existia. Reserva de fluxo fracionada não aparece nenhuma vez em 2014 e aparece 25 vezes em 2025. O mesmo vale para os inibidores de PCSK9 (25 menções), o análogo de GLP-1 (19), a colchicina (15), a rivaroxabana em dose vascular (15) e os inibidores de SGLT2 (9), todos com zero menções na versão anterior. A ivabradina saltou de 5 para 40 menções e a trimetazidina, de 11 para 47. Quando um documento troca o nome do objeto, importa seis classes de fármaco novas e conserva uma única frase clínica, o que houve foi revisão de evidência, não atualização de capa.

A probabilidade pré-teste é o número que escolhe o exame

Antes de decidir qual exame pedir, é preciso estimar quanto de doença já se espera encontrar. Essa estimativa — idade, sexo e as características da dor — é a probabilidade pré-teste, e ela não é um detalhe metodológico: é o parâmetro que define se qualquer exame vale a pena. Um exame só é útil quando o resultado consegue mover a probabilidade para o outro lado do limiar de decisão. Nas pontas da régua, não move.

Num paciente de probabilidade muito baixa, um resultado positivo tem chance razoável de ser falso e um negativo apenas confirma o que já se supunha; o exame custa dinheiro, expõe a radiação e não altera a conduta. Num paciente de probabilidade alta, a pergunta deixa de ser anatômica: já se assume que há placa, e o que interessa é saber se ela limita fluxo e se o território isquêmico justifica intervir. Sobra a faixa intermediária, e é exatamente ali que as diretrizes posicionam a angiotomografia.

Barra horizontal de probabilidade pré-teste dividida em três faixas, com a faixa central destacada como a janela de indicação da angiotomografia.
A indicação da angiotomografia não é uma propriedade do exame, e sim da posição do paciente nesta régua. Nas pontas, o resultado quase não move a probabilidade; no meio, move.

A convergência internacional sobre isso é o pano de fundo do processo brasileiro. O instituto britânico que avalia tecnologias recomenda a angiotomografia como estratégia de primeira linha na dor torácica estável, reservando os testes funcionais para resultados inconclusivos. As sociedades americanas e a europeia recomendam o exame como avaliação inicial, com ênfase em probabilidade pré-teste baixa a intermediária. A diretriz brasileira de imagem cardiovascular de 2024 classifica o exame como opção inicial adequada para o sintomático sem doença conhecida nessa mesma faixa.

Vale separar duas coisas que o aluno costuma fundir. A angiotomografia enxerga anatomia, não isquemia. Ela mostra se há placa e quanto ela estreita a luz; não diz, por si, se aquele estreitamento rouba fluxo sob esforço. Daí a assimetria de desempenho que o relatório nacional compilou: uma das revisões sistemáticas incluídas registrou sensibilidade de 95% e especificidade de apenas 42% para a angiotomografia, contra sensibilidade de 86% e especificidade de 92% quando a imagem é acoplada ao cálculo de reserva de fluxo. Sensibilidade alta com especificidade baixa descreve com precisão um exame de exclusão: quando vem normal, encerra a investigação; quando vem alterado, frequentemente ainda não decide nada.

É essa a leitura que o enunciado costuma testar. Diante de dor torácica estável em paciente de risco intermediário, a angiotomografia normal permite parar. A angiotomografia que mostra estenose de grau incerto não autoriza levar ao cateterismo por si só — pede complemento funcional. Trocar essas duas frases de lugar é o erro mais frequente do tema.

Angiotomografia: anatomia, isquemia e necessidade de avaliação funcional

O achado mais instrutivo do relatório nacional está numa comparação que ele faz em duas direções. Contra a angiografia coronariana invasiva, a angiotomografia se associou a menos revascularizações — razão de chances de 0,69, com intervalo de confiança de 0,55 a 0,88. Contra o cuidado padrão, a mesma angiotomografia se associou a mais revascularizações — razão de chances de 1,48, com intervalo de 1,04 a 2,11. Os dois resultados são estatisticamente significativos e apontam para lados opostos.

Ícone de tomógrafo ao centro com duas setas opostas levando a dois quadros, e abaixo uma régua com dois intervalos de confiança em lados opostos da linha de nenhuma diferença.
O mesmo exame, medido contra o mesmo desfecho, muda de sinal conforme o que ele substitui: troca o cateterismo e a revascularização cai; troca a conduta conservadora e a revascularização sobe. Os dois intervalos excluem o valor neutro, em lados opostos.

Não há paradoxo. O que muda é o que o exame substitui. Quando entra no lugar do cateterismo diagnóstico, ele intercepta pacientes que iriam à sala de hemodinâmica e sairiam de lá com um stent que talvez não precisassem; menos gente chega ao cateter, menos gente é tratada durante ele. Quando entra no lugar de conduzir clinicamente sem imagem anatômica, ele revela placas que ninguém teria visto, e parte delas termina tratada. O sinal do efeito não é uma propriedade do exame; é uma propriedade da comparação.

Esse é o tipo de frase que separa quem entendeu de quem decorou, e é também o gancho de vinheta preferido dos avaliadores. Um enunciado que diga que a angiotomografia reduz revascularizações está certo se o comparador for o cateterismo e errado se for a conduta conservadora — e não é possível responder sem ler qual comparador o enunciado estabeleceu.

Nos desfechos que realmente importam, a história é mais sóbria. Nas metanálises que os avaliadores do relatório de 2026 conduziram, para eventos cardiovasculares maiores não houve diferença significativa nem contra o cateterismo (razão de chances 0,97, intervalo de 0,68 a 1,39) nem contra o cuidado padrão (0,78, de 0,51 a 1,19). Para infarto não fatal, nada em nenhuma das duas comparações. Para mortalidade cardiovascular, nada. A única redução isolada apareceu no acidente vascular cerebral contra o cateterismo (0,50, de 0,25 a 0,98), com um limite superior encostado no valor neutro e certeza da evidência classificada como baixa — o tipo de resultado que se relata, mas sobre o qual não se constrói recomendação.

Note a estrutura: o exame muda o que se faz, não o que acontece com o doente. Ele desloca procedimentos entre estratégias, e as curvas de evento seguem juntas. Essa é a mesma lição que o grande ensaio de estratégia invasiva contra tratamento clínico consolidou na doença crônica, e que a diretriz de 2025 discute em nove passagens: na síndrome coronariana crônica, revascularizar melhora sintoma; a sobrevida se ganha com o tratamento clínico bem feito.

Custo-efetividade não substitui indicação clínica

O relatório traz duas avaliações econômicas da mesma tecnologia, no mesmo país, no mesmo documento — e elas apontam vencedores opostos. Na conta do demandante, a angiotomografia foi dominante contra os testes funcionais, com razão de custo-efetividade incremental de R$ 209,48 por infarto evitado. Na conta refeita pelos avaliadores, os testes funcionais é que dominaram a angiotomografia, com razão de menos R$ 1.166,50. Mesma pergunta, sinal invertido.

A tentação é atribuir a inversão ao preço do exame novo. Não é isso. O demandante custeou a angiotomografia em R$ 610,18; os avaliadores adotaram R$ 550,00 — ou seja, na conta que ela perdeu, estava mais barata. O resultado inteiro migrou para o outro lado da comparação: o comparador custava R$ 658,36 na conta do demandante e R$ 316,70 na dos avaliadores, uma diferença de 2,08 vezes.

E a diferença não é econômica, é clínica. O demandante somou os três exames funcionais como se todo paciente fizesse os três. Os avaliadores assumiram que todos fazem o teste ergométrico, seguido de cintilografia em metade dos casos e de ecocardiograma de estresse na outra metade. Com os preços da tabela do SUS que o próprio relatório cita — teste ergométrico R$ 30,00, ecocardiograma de estresse R$ 165,00 e cintilografia miocárdica R$ 408,52 —, a média resultante é R$ 316,76.

Barras horizontais com combinações de exames funcionais comparadas a uma linha vertical tracejada no valor da angiotomografia; apenas a barra que soma os três exames ultrapassa a linha.
Sob os preços da tabela do SUS citados no próprio relatório, nenhuma combinação de até dois exames funcionais custa mais que a angiotomografia. Só a soma dos três cruza a linha — e é essa a suposição que faz o exame parecer barato.

A aritmética fecha o argumento. O limiar que decide o sinal do custo incremental é o próprio preço da angiotomografia, R$ 550,00. O par mais caro de exames funcionais, ergométrico com cintilografia, custa R$ 438,52 — abaixo. Ergométrico com ecocardiograma de estresse, R$ 195,00 — muito abaixo. Só a soma dos três, R$ 603,52, ultrapassa a angiotomografia. Ou seja: a conclusão de que a angiotomografia economiza dinheiro depende de admitir que praticamente todo paciente investigado faz ergométrico, cintilografia e ecocardiograma de estresse, os três. É uma suposição sobre a prática clínica, não sobre preço, e é ela que sustenta o resultado.

Vale registrar uma discordância interna sem transformá-la em acusação. O texto do relatório calcula a média dos exames funcionais em R$ 316,76, que é o valor aritmeticamente correto; o quadro de resultados imprime R$ 316,70. A razão publicada, menos R$ 1.166,50, reproduz exatamente o valor do quadro — com o valor do texto sairia menos R$ 1.166,20. A diferença é de trinta centavos numa razão de mil e cento e sessenta e seis reais, não muda decisão nenhuma, e serve apenas para mostrar qual dos dois números foi o que efetivamente rodou.

Como interpretar os modelos econômicos

Documento longo tem erro de transcrição, e saber distinguir o erro real do falso alarme é uma competência de leitura que a prova cobra indiretamente, quando apresenta números para interpretar. O relatório oferece os dois tipos.

A primeira conta que não fecha é um valor de significância. Para infarto não fatal contra o cuidado padrão, o relatório publica razão de chances de 0,97 com intervalo de 0,57 a 1,68 e valor de significância de 0,15. Com essa estimativa e esse intervalo, o valor teria de ser 0,91: o intervalo cobre folgadamente o valor neutro. Para que 0,15 fosse compatível com aquela largura de intervalo, a razão de chances precisaria ser 0,67 ou 1,49 — um terço distante do que está impresso. E há de onde o número veio: 0,15 é exatamente o valor de significância publicado duas linhas adiante, para mortalidade cardiovascular, onde a razão de chances de 0,53 com intervalo de 0,23 a 1,24 realmente produz 0,14. O número foi transportado da linha vizinha.

A segunda é um algarismo trocado dentro de uma tabela de custos. Nos três blocos da tabela do demandante, o custo incremental deveria ser a diferença entre as duas células de custo. Em dois blocos ele é, à vírgula: R$ 610,18 menos R$ 867,80 dá menos R$ 257,62, impresso; R$ 1.378,14 menos R$ 1.833,84 dá menos R$ 455,70, impresso. No terceiro, R$ 602,86 menos R$ 932,79 dá menos R$ 329,93, mas o que está impresso é menos R$ 339,93 — um dígito. E o erro andou: a razão publicada para aquele desfecho, R$ 829,10, é exatamente 339,93 dividido por 0,41, ao passo que o valor correto seria R$ 804,71. A razão está 3% superestimada, e os dois blocos irmãos provam que a regra da tabela é a subtração.

A terceira é uma soma de seleção de estudos. O fluxo declarado reconcilia perfeitamente até certa altura: 2.467 registros do PubMed mais 2 do Embase mais 262 do Scopus dão os 2.731 anunciados; menos 85 duplicatas, 2.646; menos 2.544 excluídos na triagem, menos 15 indisponíveis, menos 7 por duplicidade de dados, mais 11 achados por busca manual, dão exatamente os 91 textos completos declarados. Aí o relatório afirma que 70 foram excluídos após leitura pareada — mas os motivos itemizados somam 30, 8, 10, 11, 9 e 1, isto é, 69. E 91 menos 69 dá os 22 estudos incluídos que o próprio relatório publica; 91 menos 70 daria 21. A itemização está certa e o total do texto é que escorregou, o que se prova sem sair do documento.

Agora as duas que não são erro. A primeira é outro valor de significância, na mesma série de metanálises do relatório de 2026: hospitalização contra o cateterismo aparece com razão de chances de 0,96, intervalo de 0,59 a 1,59 e significância de 0,78, enquanto o recálculo dá 0,87. Parece o mesmo defeito, mas não é. Perto do valor neutro, a significância é extremamente sensível a arredondamento: com a razão de chances impressa com duas casas, mover 0,03 na estimativa desloca a significância em quase um décimo. Aqui a estimativa e o intervalo são mutuamente coerentes, e a diferença cabe no arredondamento — ao contrário do caso do 0,15, que exigiria mudar a estimativa em um terço.

A segunda é uma questão de direção, não de magnitude. Em duas tabelas econômicas, uma coluna de incremento aparece com o sinal contrário ao que as células de origem produzem — no bloco de infarto do demandante, o incremento de efetividade é impresso como negativo onde as células dão positivo; no bloco do cateterismo dos avaliadores, o incremento de custo é impresso como positivo onde as células dão negativo. Em ambos os casos a magnitude fecha ao centavo e a razão publicada é reproduzível a partir do número impresso. Chamar isso de estimativa defeituosa seria inventar um defeito: o que está trocado é a convenção de sentido da subtração, e os blocos vizinhos mostram qual convenção o documento pretendia usar.

Da evidência à decisão de incorporação

Ao ler um relatório de incorporação, o reflexo treinado é procurar dinheiro de fabricante chegando à decisão. Neste caso ele não chega, e vale dizer por quê, porque a cadeia corre num sentido incomum.

O demandante é a Sociedade Brasileira de Cardiologia — a mesma entidade que assina a diretriz nacional do tema. A avaliação foi feita por um núcleo de avaliação de tecnologias de uma universidade estadual, cujos autores declaram, em uma linha, não possuir conflito de interesses com a matéria. E a deliberação, em 3 de julho de 2026, foi desfavorável à incorporação, por maioria simples, fundamentada em incertezas da avaliação econômica, do impacto orçamentário e da capacidade de implementação. Não há fabricante financiando o pedido, e o recomendante disse não a quem pediu.

O que existe é uma circularidade institucional, e ela merece nome. No quadro em que o relatório compila as recomendações de agências que apoiam a tecnologia, entre o instituto britânico, as sociedades americanas e a europeia, figura também a diretriz de imagem cardiovascular da própria Sociedade Brasileira de Cardiologia. O demandante aparece, portanto, na lista de corroboração do próprio pedido. E na linha da agência reguladora nacional de saúde suplementar, a célula correspondente à posição do demandante traz literalmente não relatado pelo demandante: quem pediu apresentou as posições favoráveis e omitiu a do regulador nacional, que os avaliadores acrescentaram por conta própria.

Sobre declarações de interesse, convém refinar a leitura em vez de contar linhas. A diretriz de 2025 registra 30 declarações financeiras contra 38 registros de nada a declarar entre os especialistas — 44%, uma densidade alta. Mas as contrapartes declaradas são Novo Nordisk (20 menções), Novartis (12), Daiichi Sankyo (11), Servier (10), AstraZeneca (9), Lilly (7) e Bayer (6): indústria farmacêutica. Fabricantes de equipamento de imagem quase não aparecem — uma menção a cada um de três deles, nenhuma para os dois maiores. A densidade é real e o mercado é real, só que é o mercado do tratamento medicamentoso, não o do tomógrafo que estava sendo decidido. Densidade de declaração não é, por si, conflito sobre o que se decide — é preciso olhar para quem declara o quê.

Para a prova, o que fica é a régua de acesso: no SUS, a angiotomografia coronariana não está incorporada como exame de primeira linha na suspeita de doença coronariana estável, e a recomendação preliminar de 2026 foi contrária. Enunciado de concurso brasileiro que pergunte pela estratégia disponível na rede pública está cobrando o teste funcional, não a tomografia — por mais que a diretriz da sociedade e as agências internacionais apontem para o outro lado.

O tratamento, e o que mudou nele em onze anos

O tratamento da síndrome coronariana crônica tem duas camadas que a prova cobra separadamente, e confundi-las é erro de conceito, não de memória. A camada antianginosa trata sintoma. A camada preventiva trata desfecho. Um fármaco pode ser excelente numa e irrelevante na outra.

Na camada antianginosa, o betabloqueador continua sendo a primeira escolha, e os bloqueadores de canal de cálcio permanecem a alternativa quando ele é contraindicado ou insuficiente. É aqui que mora a única frase clínica que atravessou as duas diretrizes intacta: o verapamil reduz a condução atrioventricular, tem efeito inotrópico negativo e relaxa a musculatura lisa vascular, aumentando o fluxo coronariano e reduzindo a pós-carga. Cada um desses quatro efeitos é uma contraindicação ou uma indicação em potencial, e a prova gosta de cobrar exatamente a combinação proibida — verapamil somado a betabloqueador em quem já tem bradicardia ou disfunção ventricular.

Os antianginosos de segunda linha ganharam espaço mensurável: a ivabradina passou de 5 para 40 menções entre as duas diretrizes, e a trimetazidina, de 11 para 47. A lógica é a de somar mecanismos distintos — redução de frequência sem efeito inotrópico negativo, no caso da ivabradina — em quem permanece sintomático com a primeira linha otimizada. Nitratos seguem como alívio, não como modificador de prognóstico.

A camada de prevenção é a que mudou de fisionomia. Antiagregação e estatina em dose alta continuam sendo o esqueleto, mas ao redor deles entraram classes que a diretriz anterior sequer citava: inibidores de PCSK9 e ezetimiba para quem não atinge a meta lipídica, colchicina em dose baixa pelo componente inflamatório residual, rivaroxabana em dose vascular somada ao ácido acetilsalicílico em subgrupos de alto risco isquêmico, e os inibidores de SGLT2 e análogos de GLP-1, que entraram pela porta do diabetes e ficaram pelo desfecho cardiovascular. Nenhum deles alivia angina; todos alteram desfecho.

A terceira decisão é a de revascularizar. Aqui a diretriz de 2025 incorpora a lição dos ensaios de estratégia: na doença crônica, a revascularização melhora sintoma e qualidade de vida, e não demonstrou reduzir mortalidade em comparação com o tratamento clínico otimizado. O ensaio que randomizou pacientes a angioplastia ou procedimento simulado, discutido em quatro passagens da diretriz atual e ausente da anterior, é a versão mais desconfortável dessa lição. A consequência prática é a que o enunciado testa: paciente com angina crônica controlada com fármaco não tem indicação de cateterismo para procurar lesão para tratar. A indicação de revascularizar nasce de sintoma refratário ao tratamento clínico otimizado, ou de anatomia de alto risco documentada, não de achado incidental.

É por isso que a escolha do exame e a escolha do tratamento estão amarradas. Pedir uma imagem anatômica em quem não teria conduta alterada pelo resultado produz exatamente o efeito que o relatório mediu contra o cuidado padrão: mais revascularização, sem menos evento. O exame não é errado; o momento é.

Como reconhecer a estratégia correta na prova

Reduzido ao osso, o tema entrega quatro tipos de questão, e cada um tem uma chave curta.

O primeiro tipo dá uma vinheta de dor torácica e pergunta qual exame pedir. A chave é a probabilidade pré-teste: nas pontas, nenhum exame de imagem muda conduta; no meio, a angiotomografia é a escolha das diretrizes e o teste funcional é a escolha da rede pública brasileira. Ler qual das duas réguas o enunciado invoca — diretriz ou disponibilidade no SUS — resolve a maioria dos casos.

O segundo dá um resultado de exame e pergunta o próximo passo. A chave é lembrar que a angiotomografia é exame de exclusão: normal encerra; alterada de grau incerto pede complemento funcional ou avaliação de reserva de fluxo, não cateterismo automático.

O terceiro dá um paciente crônico e pergunta pelo tratamento. A chave é separar as duas camadas: se a pergunta é sobre angina, a resposta está entre betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio, nitrato e os antianginosos de segunda linha; se a pergunta é sobre prognóstico, a resposta está entre antiagregante, estatina e as classes novas. Responder prognóstico quando se perguntou sintoma é o erro clássico.

O quarto apresenta números — razões de chances, intervalos, razões de custo-efetividade — e pergunta o que se pode concluir. A chave é a mesma das três contas deste capítulo: verificar se o intervalo cruza o valor neutro, verificar contra o que a intervenção foi comparada, e desconfiar de qualquer resultado cuja direção mude quando o comparador muda. Um efeito que troca de sinal com o comparador não é um efeito do exame; é um efeito da estratégia que ele substitui.

04

As réguas, lado a lado

Três tabelas resolvem a maior parte dos enunciados: a que escolhe o exame pela probabilidade pré-teste, a que traduz o resultado em conduta, e a que separa o que trata sintoma do que muda desfecho. A quarta serve para ler os números que o enunciado apresenta sem se deixar levar pelo comparador.

  1. 1Confirmar que a dor é crônica e estável: semanas a meses, desencadeada por esforço previsível, aliviada por repouso ou nitrato. Dor em repouso, prolongada ou em crescendo sai deste capítulo e entra no de síndrome aguda.
  2. 2Estimar a probabilidade pré-teste por idade, sexo e características da dor. É este número, e não a intensidade do sintoma, que decide se algum exame vale a pena.
  3. 3Probabilidade muito baixa: nenhum exame de imagem muda conduta. Investigar causa não coronariana e tratar fatores de risco.
  4. 4Probabilidade baixa a intermediária: é a janela da angiotomografia pelas diretrizes, e a do teste funcional pela disponibilidade no SUS. Identificar qual das duas réguas o enunciado invoca.
  5. 5Probabilidade alta: a pergunta deixa de ser anatômica. Buscar isquemia com teste funcional, ou seguir para estudo invasivo se há sintoma refratário ou instabilidade.
  6. 6Resultado normal em exame de exclusão encerra a investigação. Resultado alterado de grau incerto pede complemento funcional ou reserva de fluxo, não cateterismo automático.
  7. 7Instituir tratamento em duas camadas simultâneas: antianginosa para o sintoma, preventiva para o desfecho. Revascularizar só por sintoma refratário ao tratamento otimizado ou por anatomia de alto risco documentada.

Qual exame, em qual faixa, e por quê

Probabilidade pré-testeExame indicadoO que o resultado resolve
Muito baixaNenhum exame de imagemNada: positivo tem alta chance de ser falso, negativo confirma o esperado
Baixa a intermediária (régua das diretrizes)Angiotomografia coronarianaExclui doença obstrutiva com valor preditivo negativo alto; alterada, frequentemente ainda não decide
Baixa a intermediária (régua do SUS em 2026)Teste ergométrico, com imagem funcional se inconclusivoMesma pergunta, ferramenta disponível: a angiotomografia não está incorporada como primeira linha
AltaTeste funcional; estudo invasivo se sintoma refratárioA placa já é presumida; o que falta saber é se ela limita fluxo
Estenose de grau incerto em qualquer faixaReserva de fluxo fracionada ou teste funcionalConverte achado anatômico em decisão: só a limitação de fluxo justifica intervir

As duas camadas do tratamento — o que cada fármaco faz e não faz

CamadaFármacosEfeito que a prova cobra
Antianginosa, primeira linhaBetabloqueadorAlivia sintoma reduzindo consumo de oxigênio; não é o que muda mortalidade na doença crônica
Antianginosa, alternativaBloqueador de canal de cálcioVerapamil reduz condução atrioventricular, é inotrópico negativo e relaxa vaso: combinação com betabloqueador é a armadilha
Antianginosa, segunda linhaIvabradina, trimetazidina, nitrato de longa açãoSomam mecanismo ao esquema em quem segue sintomático; nitrato é alívio, não prognóstico
Preventiva, esqueletoAntiagregante e estatina de alta potênciaReduzem evento; não aliviam angina
Preventiva, entrantes de 2025Ezetimiba, inibidor de PCSK9, colchicina, rivaroxabana em dose vascular, inibidor de SGLT2, análogo de GLP-1Ausentes por completo da diretriz de 2014; todos atuam em desfecho, nenhum em sintoma
RevascularizaçãoAngioplastia ou cirurgiaMelhora sintoma e qualidade de vida; não demonstrou reduzir mortalidade contra tratamento clínico otimizado na doença crônica

Os números do relatório de 2026, e o que cada um autoriza dizer

Desfecho e comparadorResultado publicadoLeitura
Revascularização contra cateterismoRazão de chances 0,69 (0,55 a 0,88)Reduz: intercepta quem iria à hemodinâmica e sairia tratado
Revascularização contra cuidado padrãoRazão de chances 1,48 (1,04 a 2,11)Aumenta: revela placa que ninguém teria visto. Mesmo exame, sinal oposto
Eventos cardiovasculares maiores, ambos os comparadores0,97 (0,68 a 1,39) e 0,78 (0,51 a 1,19)Sem diferença: o exame muda o que se faz, não o que acontece
Acidente vascular cerebral contra cateterismo0,50 (0,25 a 0,98)Único achado isolado, com limite superior encostado no neutro e certeza baixa
Custo-efetividade contra testes funcionaisR$ 209,48 pelo demandante; menos R$ 1.166,50 pelos avaliadoresVencedores opostos; a diferença mora no preço atribuído ao comparador, não ao exame

Os preços usados na aritmética do limiar são os da tabela de procedimentos do SUS citados dentro do próprio relatório: teste ergométrico R$ 30,00, ecocardiograma de estresse R$ 165,00, cintilografia miocárdica R$ 408,52 e angiotomografia R$ 550,00.

A recomendação preliminar desfavorável de julho de 2026 é preliminar: foi submetida a consulta pública, e a posição final pode diferir. O que já é definitivo para efeito de prova é que, até essa data, o exame não estava incorporado como primeira linha no SUS.

As razões de chances reproduzidas nas tabelas são as do relatório. Uma delas vem acompanhada de valor de significância aritmeticamente incompatível com a própria estimativa, discutido no núcleo; a conclusão de ausência de diferença não muda por causa disso.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A angiotomografia coronariana deve ser o exame de primeira linha na suspeita de doença coronariana estável

Deve, e é a estratégia inicial recomendada

As diretrizes reunidas no próprio relatório convergem: o instituto britânico recomenda oferecer a angiotomografia de 64 canais ou superior como primeira linha na dor torácica estável, priorizando-a em detrimento dos testes funcionais, que ficam reservados a resultados inconclusivos. As sociedades americanas e a europeia recomendam o exame como avaliação inicial no sintomático de probabilidade pré-teste baixa a intermediária, e a diretriz brasileira de imagem cardiovascular de 2024 o classifica como opção inicial adequada nessa mesma faixa.

Quadro de recomendações de agências do relatório preliminar da Conitec, 2026, compilando o instituto britânico, as sociedades americanas, a europeia e a diretriz brasileira de imagem cardiovascular de 2024

Não deve, ao menos não com a evidência e a conta apresentadas

A deliberação de 3 de julho de 2026 foi desfavorável à incorporação, por maioria simples, com fundamento em incertezas da avaliação econômica, do impacto orçamentário, da capacidade de implementação no SUS e da delimitação dos critérios de uso e da população elegível. Nos desfechos clínicos duros, o relatório não encontrou diferença significativa em eventos cardiovasculares maiores, infarto não fatal ou mortalidade, com certeza da evidência classificada como baixa a muito baixa.

Recomendação inicial da Conitec, 153ª reunião ordinária do Comitê de Produtos e Procedimentos, relatório preliminar de 2026

Na prova

O enunciado avisa qual régua quer pelo verbo e pelo cenário. Quando pergunta o que está recomendado ou cita diretriz, cobra a primeira posição. Quando pergunta o que está disponível na rede pública, o que o SUS oferece, ou situa o caso numa unidade básica, cobra a segunda. Concurso brasileiro que descreve fila e disponibilidade quase sempre quer o teste funcional.

Qual é o custo real da estratégia funcional com que a angiotomografia deve ser comparada

A soma dos três exames funcionais

A avaliação econômica submetida custeou a estratégia comparadora somando os exames funcionais, chegando a R$ 658,36 por paciente — acima dos R$ 610,18 atribuídos à angiotomografia. Com esse custo, a angiotomografia resulta dominante nos três desfechos avaliados, com razões de custo-efetividade muito abaixo do limiar adotado.

Avaliação econômica apresentada pelo demandante, reproduzida na Tabela 2 do relatório preliminar de 2026

Um exame para todos, mais um segundo exame para metade

Os avaliadores refizeram a conta assumindo que todos realizam o teste ergométrico, seguido de cintilografia em metade dos casos e de ecocardiograma de estresse na outra metade, resultando em R$ 316,76 por paciente. Com esse custo, e com a angiotomografia até mais barata (R$ 550,00), a estratégia funcional passa a dominar, com razão de menos R$ 1.166,50 por infarto não fatal.

Avaliação econômica realizada pelos pareceristas, Quadro 18 do relatório preliminar de 2026

Na prova

Enunciado que apresente duas razões de custo-efetividade opostas para a mesma tecnologia está cobrando a leitura do comparador, não a aritmética. A pergunta a fazer é sempre a mesma: o que exatamente o modelo assumiu que o paciente do grupo controle faz? Aqui a inversão inteira cabe nessa suposição, porque o preço atribuído ao exame novo caiu nas duas contas e ele perdeu na segunda mesmo assim.

Revascularizar o paciente com angina crônica estável reduz mortalidade

Não reduz; melhora sintoma

A diretriz de 2025 discute em nove passagens o ensaio randomizado de estratégia invasiva contra tratamento clínico otimizado e o seguimento estendido para mediana de 5,7 anos, sem demonstração de diferença de mortalidade. Discute ainda, em quatro passagens, o ensaio que comparou angioplastia a procedimento simulado. O benefício documentado é sintomático e de qualidade de vida.

Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2025

Subgrupos anatômicos e funcionais ainda justificam intervir

A mesma diretriz ressalva que subestudos apontam benefício em pacientes com isquemia miocárdica extensa, insuficiência cardíaca e anatomia de alto risco, e mantém indicação de revascularização nesses cenários e no sintoma refratário ao tratamento clínico otimizado. Observa também que a proporção de pacientes tratados cirurgicamente no ensaio de estratégia foi de 28%, provavelmente concentrando os casos mais graves.

Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2025, seções de revascularização e de tratamento cirúrgico

Na prova

A divergência é de recorte, não de fato: as duas posições convivem no mesmo documento. O enunciado sinaliza qual quer pela descrição do paciente. Angina controlada com fármaco, sem isquemia extensa documentada, cobra a primeira posição. Sintoma refratário, disfunção ventricular ou lesão de tronco cobra a segunda. Vinheta que não descreve tentativa de otimização clínica quase sempre quer que se reconheça que falta otimizar.

06

Caso resolvido

Homem de 58 anos, hipertenso e ex-tabagista, procura a unidade básica por dor retroesternal em aperto que aparece ao subir dois lances de escada ou ao caminhar apressado, cede em cerca de cinco minutos de repouso e vem se repetindo, sempre igual, há quatro meses. Nega dor em repouso, dor noturna, síncope ou dispneia progressiva. Ao exame, pressão de 138 por 86, frequência de 72, ausculta cardíaca e pulmonar normais, sem sopros, sem edema. Eletrocardiograma de repouso sem alterações isquêmicas. Está em uso de losartana e não faz uso de estatina nem de antiagregante.
achado
A dor é típica e estável: desencadeada por esforço previsível, com limiar constante, aliviada por repouso em poucos minutos, sem mudança de padrão em quatro meses. Nenhum elemento de instabilidade — nada em repouso, nada em crescendo, nada prolongado. Isso posiciona o caso como síndrome coronariana crônica e o retira do território das síndromes agudas, onde a conduta seria completamente outra.
raciocínio
Homem de 58 anos com dor típica, hipertenso e ex-tabagista, cai na faixa intermediária de probabilidade pré-teste. Este é o número que decide, e não a intensidade do sintoma: é justamente na faixa intermediária que um exame consegue deslocar a probabilidade para o outro lado do limiar de decisão. Se estivesse em probabilidade muito baixa ou muito alta, o exame de imagem não mudaria a conduta.
exame
Duas respostas corretas convivem, e o cenário escolhe. Pelas diretrizes nacional e internacionais, a angiotomografia coronariana é a estratégia inicial nesta faixa. Pela disponibilidade na rede pública brasileira em 2026, a estratégia é o teste ergométrico, com imagem funcional se inconclusivo — porque a recomendação preliminar sobre incorporar a angiotomografia como primeira linha foi desfavorável. O caso se passa numa unidade básica, e a resposta esperada é o teste funcional.
interpretação
Se a angiotomografia estivesse disponível e viesse normal, a investigação estaria encerrada: o valor preditivo negativo alto é a força do método. Se viesse mostrando estenose de grau incerto, o passo seguinte não seria o cateterismo, e sim avaliação funcional ou reserva de fluxo — porque a especificidade baixa faz com que boa parte dos achados anatômicos não corresponda a lesão que limita fluxo.
conduta
Independentemente do exame, o tratamento começa agora e em duas camadas simultâneas. Camada antianginosa: betabloqueador como primeira escolha, com nitrato de ação rápida para alívio das crises. Camada preventiva: antiagregante e estatina de alta potência, que este paciente ainda não usa, mais controle pressórico e cessação definitiva do tabagismo.
conduta
Não há indicação de encaminhar para cateterismo neste momento. A indicação de revascularizar nasce de sintoma refratário ao tratamento clínico otimizado ou de anatomia de alto risco documentada — e este paciente sequer iniciou o tratamento otimizado. Levar ao cateter agora reproduziria exatamente o excesso de revascularização que se mede quando a estratégia anatômica substitui a conduta conservadora.
seguimento
Reavaliar em quatro a seis semanas com o esquema otimizado, verificando se o limiar de esforço melhorou. Persistência do sintoma apesar do tratamento otimizado é o gatilho para escalonar: acrescentar antianginoso de segunda linha e, então sim, considerar estratégia invasiva. Mudança de padrão — dor em repouso, mais frequente, mais prolongada — muda o capítulo e exige avaliação de urgência.
07

Agora feche você

Mulher de 66 anos, diabética tipo 2 e dislipidêmica, é atendida em ambulatório de cardiologia com dor torácica aos médios esforços há cerca de seis meses, estável em intensidade e limiar. Traz uma angiotomografia coronariana feita por convênio, que descreve placa mista em terço proximal da artéria descendente anterior determinando estenose estimada entre 50% e 69%, sem outras lesões relevantes. Está em uso de metformina, atorvastatina e ácido acetilsalicílico, e não recebeu antianginoso até agora.
achado
Complete: classifique o padrão da dor e diga por que ele posiciona o caso na síndrome coronariana crônica, e não numa síndrome aguda. Identifique o elemento da história que torna essa distinção segura.
raciocínio
Complete: explique por que uma estenose descrita entre 50% e 69% na angiotomografia é, isoladamente, um achado indeciso. Relacione a resposta ao par sensibilidade e especificidade que caracteriza o método como exame de exclusão.
exame
Complete: indique qual é o passo seguinte diante desse laudo e justifique por que não é o cateterismo. Nomeie as duas alternativas que convertem um achado anatômico incerto em decisão.
conduta
Complete: prescreva a camada antianginosa que falta a esta paciente e justifique a escolha de primeira linha. Diga o que fazer se ela apresentasse bradicardia importante que contraindicasse essa escolha, e qual associação deveria ser evitada nesse cenário.
conduta
Complete: avalie a camada preventiva já em uso e diga o que ainda pode ser acrescentado, considerando a condição de base da paciente. Explique por que nenhuma dessas medidas alivia a dor torácica.
raciocínio
Complete: suponha que a paciente pergunte se colocar um stent na lesão descrita vai fazê-la viver mais. Responda com base no que os ensaios de estratégia mostraram na doença crônica, e diga qual é o benefício que de fato se pode prometer.
seguimento
Complete: defina o critério objetivo que, no seguimento, faria você mudar de estratégia e considerar revascularização. Diferencie esse critério de uma simples mudança no laudo de imagem.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Concluir que a angiotomografia reduz revascularização sem olhar o comparador Atrai porque é o resultado mais divulgado e porque soa como virtude do exame. O relatório mostra os dois sinais: razão de chances de 0,69 contra o cateterismo e de 1,48 contra o cuidado padrão, ambos significativos. A direção pertence à comparação, não à tecnologia. Diante de qualquer afirmação de que um exame reduz um procedimento, a primeira pergunta é o que ele estava substituindo.
  2. 2Tratar angiotomografia alterada como indicação de cateterismo Atrai porque a imagem mostrou a placa e parece natural ir confirmar. Mas o exame tem sensibilidade alta com especificidade baixa — uma das revisões incluídas registrou 95% contra 42% —, o que significa que boa parte dos achados não corresponde a lesão que limita fluxo. Estenose de grau incerto pede avaliação funcional ou reserva de fluxo. Levar ao cateter todo achado anatômico é justamente o mecanismo do excesso de revascularização medido contra o cuidado padrão.
  3. 3Responder pela diretriz quando o enunciado perguntou pela rede pública Atrai porque a diretriz da sociedade e as agências internacionais recomendam a angiotomografia como primeira linha, e essa é a resposta que o candidato estudou. Só que a recomendação preliminar de julho de 2026 foi desfavorável à incorporação no SUS. Quando a vinheta situa o paciente numa unidade da rede pública ou pergunta pela conduta disponível, a resposta esperada é o teste funcional.
  4. 4Somar verapamil a betabloqueador em quem tem bradicardia ou disfunção ventricular Atrai porque ambos são antianginosos e a lógica de somar mecanismos parece boa. A frase que atravessou as duas diretrizes intacta explica por que não: o verapamil reduz a condução atrioventricular e tem efeito inotrópico negativo. Somado a um betabloqueador, empilha os dois efeitos no mesmo paciente. A combinação a preferir, quando é preciso associar, é com di-hidropiridínico.
  5. 5Oferecer estatina ou colchicina como resposta a uma pergunta sobre angina Atrai porque são as condutas mais modernas e as mais citadas na diretriz nova. Nenhuma das duas alivia angina. Quando o enunciado descreve sintoma persistente apesar do tratamento e pergunta o próximo passo, a resposta está na camada antianginosa. Trocar as camadas é o erro de conceito mais comum do tema.
  6. 6Pedir exame de imagem em paciente de probabilidade muito baixa ou muito alta Atrai porque pedir exame parece sempre a conduta mais segura. Nas pontas da régua o resultado quase não desloca a probabilidade: no extremo baixo, o positivo tem grande chance de ser falso; no extremo alto, o achado anatômico já era esperado e a pergunta relevante passou a ser funcional. Exame que não muda conduta não é cautela, é custo e radiação.
  7. 7Ler um valor de significância sem conferir se ele combina com o intervalo Atrai porque o número vem impresso e parece verificado. No relatório de 2026, um dos resultados publica razão de chances de 0,97 com intervalo de 0,57 a 1,68 e significância de 0,15 — combinação aritmeticamente impossível, já que aquele intervalo corresponde a 0,91. Conferir se o intervalo cruza o valor neutro é mais confiável que confiar no valor impresso, e resolve a questão do mesmo jeito: não houve diferença.
  8. 8Chamar de doença coronária estável o que a régua atual chama de síndrome coronariana crônica Atrai porque o termo antigo ainda circula. Não é erro clínico, mas é pista perdida: o vocabulário do enunciado indica qual geração de diretriz o avaliador está usando, e portanto qual conduta ele espera. Vocabulário antigo tende a cobrar conduta clássica; vocabulário atual tende a cobrar escolha de exame e as classes preventivas novas.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor precordial desencadeada por esforço, com duração curta e alívio com repouso, estável há 2 meses, é o quadro clássico de angina estável. Não é IAMCST, que cursa com dor prolongada em repouso e instabilidade. A pericardite tem dor ventilatório-dependente que piora ao deitar e melhora inclinando-se para frente. A dissecção de aorta provoca dor lancinante, súbita, com irradiação para o dorso e assimetria de pulsos.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

A doença que se chamava coronária estável agora se chama síndrome coronariana crônica, e a troca sinaliza processo, não estado. A decisão inteira do ambulatório depende de um número anterior a qualquer exame: a probabilidade pré-teste, estimada por idade, sexo e características da dor. Nas pontas dessa régua, nenhum exame de imagem muda conduta. Na faixa baixa a intermediária, as diretrizes indicam a angiotomografia coronariana; a rede pública brasileira, em 2026, ainda oferece o teste funcional, porque a recomendação preliminar sobre a incorporação foi desfavorável. A angiotomografia enxerga anatomia, não isquemia: sensibilidade alta e especificidade baixa fazem dela exame de exclusão — normal encerra, alterada de grau incerto pede complemento funcional. E o efeito dela sobre revascularização troca de sinal conforme o comparador: reduz contra o cateterismo, aumenta contra o cuidado conservador, sem diferença em eventos duros nos dois casos. No tratamento, duas camadas separadas: antianginosa para o sintoma, com betabloqueador na frente, e preventiva para o desfecho, com antiagregante e estatina no esqueleto. Revascularizar melhora sintoma; não demonstrou reduzir mortalidade na doença crônica.

em 30 dias

Reconstrua o capítulo por seis perguntas. Primeira: por que trocar doença coronária estável por síndrome coronariana crônica, e o que essa troca revela sobre qual diretriz o enunciado está usando? Segunda: por que um exame só é útil na faixa intermediária de probabilidade, e o que acontece com o poder de decisão do resultado nas duas pontas? Terceira: por que a angiotomografia é exame de exclusão, e qual par de números — sensibilidade e especificidade — justifica essa classificação? Quarta: como o mesmo exame pode reduzir revascularização numa comparação e aumentá-la em outra, e o que isso ensina sobre ler qualquer resultado sem o comparador? Quinta: onde exatamente mora a divergência entre as duas avaliações econômicas do relatório de 2026 — no preço do exame novo ou no do comparador —, e que suposição sobre a prática clínica sustenta a conta que favorece a incorporação? Sexta: quais fármacos tratam a angina, quais mudam o desfecho, e por que responder um quando se perguntou o outro é erro de conceito? Se conseguir responder as seis em voz alta, sem consultar, o tema está fechado.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 58 anos chega à unidade básica contando que, há quatro meses, sente um aperto no peito sempre que sobe dois lances de escada, e que passa quando ele para. Colha a história, defina a probabilidade antes de pedir qualquer exame e decida o que pedir na rede pública. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Angina estável e doença coronariana crônica – Angina estável: o exame que a própria sociedade pediu, e o SUS negou — Preparatório para provas | OsceLabs