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Clínica MédicaCardiologia

Cardiomiopatias: o formato não decide nada

Distinguir os fenótipos, identificar sinais de alto risco e escolher a conduta pela etiologia, pelo estágio e pelo risco de morte súbita.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos, previamente hígida, é atendida por síncope durante exercício. Relata história familiar de morte súbita do pai aos 40 anos. PA 124x78 mmHg, FC 72 bpm. Ausculta com sopro sistólico ejetivo que aumenta com a manobra de Valsalva e diminui ao agachar. O ECG mostra sinais de sobrecarga ventricular esquerda e ondas Q septais profundas. Qual é o achado ecocardiográfico esperado e o diagnóstico?

02

Como esse tema cai

O enunciado descreve um coração e usa uma palavra de forma: dilatado, hipertrófico, restritivo. A pergunta que vem depois quase nunca é sobre a forma. É sobre implantar ou não um desfibrilador, sobre operar ou alcoolizar o septo, sobre quem recebe um medicamento caro no sistema público, sobre de quanto em quanto tempo esse doente volta ao ambulatório. Nenhuma dessas decisões sai da palavra que descreve o formato.

Cada uma sai de uma régua diferente, e as réguas brasileiras deste tema são recentes e explícitas: a classificação em estágios evolutivos e o escore de risco da diretriz de cardiomiopatia chagásica de 2023, os fatores de risco e a calculadora de morte súbita da primeira diretriz brasileira de cardiomiopatia hipertrófica, de 2024, e a classe funcional que a comissão nacional de incorporação escolheu como porta de entrada do único medicamento específico da forma infiltrativa. As três se sobrepõem no mesmo doente e cortam em pontos diferentes.

Este capítulo não percorre as três doenças. Ele percorre o ponto em que o formato deixa de bastar e uma segunda régua assume — e mostra, em cada caso, onde essa régua tem um vão, uma assimetria ou um corte que não é fronteira de nada.

03

O que muda decisão

O nome da forma é o chamariz

O enunciado descreve um coração e usa uma palavra de forma: dilatado, hipertrófico, restritivo. A pergunta que vem depois quase nunca é sobre a forma. É sobre implantar ou não um desfibrilador, operar ou alcoolizar o septo, quem recebe um medicamento caro no sistema público, de quanto em quanto tempo esse doente volta ao ambulatório. Nenhuma dessas decisões sai da palavra que descreve o formato.

Há uma razão estrutural para isso. Duas das três formas são pontos de chegada de muitas doenças: o ventrículo dilatado é o destino comum da isquemia, do álcool, da quimioterapia, do periparto e — no Brasil, de modo desproporcional — da doença de Chagas; a parede espessa é o destino comum da hipertensão, da estenose aórtica, da doença de Fabry, do coração de atleta e da deposição de amiloide. E restritiva é uma descrição de fisiologia diastólica que a amiloidose satisfaz enquanto ainda parece hipertrófica ao ecocardiograma.

O que muda entre um doente e outro, então, não é a forma: é qual documento decide o próximo passo. E os três documentos brasileiros que decidem — a diretriz de cardiomiopatia chagásica, a de cardiomiopatia hipertrófica e o relatório de incorporação do estabilizador de transtirretina — foram escritos por grupos diferentes, com finalidades diferentes, e não conversam entre si.

Esquema com um septo de 29 mm no topo e três setas para três destinos, com uma régua de limiares desiguais em 15, 28 e 30 mm embaixo.
O mesmo número, três destinos. As réguas brasileiras que leem a espessura da parede cortam em pontos diferentes, e a distância entre os cortes não é regular: 13 mm entre o limiar diagnóstico e o de fator de risco, e apenas 2 mm entre este e o que escolhe a técnica.

Chagásica: o estágio trata, o escore prognostica

A diretriz brasileira de 2023 organiza a doença de Chagas crônica em cinco caixas: forma indeterminada e os estágios A, B1, B2, C e D da cardiomiopatia. A régua é de estrutura e sintoma. Forma indeterminada é sorologia positiva com eletrocardiograma normal e sem doença estrutural cardíaca ou digestiva, e a diretriz registra que 30% desses doentes desenvolverão cardiomiopatia. O estágio A tem doença estrutural com função sistólica normal e sem sintomas; o B1, eletrocardiograma alterado e função preservada; o B2, disfunção sistólica sem sintomas; o C, disfunção com sintomas prévios ou atuais; o D, sintomas em repouso refratários ao tratamento otimizado.

Repare no que a tabela faz com a fração de ejeção. Ela dá maior ou igual a 55% para a forma indeterminada e para os estágios A e B1, e menor que 55% para B2, C e D. O mesmo corte separa três caixas de outras três — e não separa B2 de C nem C de D. O que separa essas três é sintoma, não número. A tabela acrescenta faixas típicas ("geralmente entre 41% e 54%" no B2, "geralmente menor ou igual a 40%" no C), mas a palavra geralmente é o que impede que sejam lidas como critério: um doente com fração de ejeção de 48% e dispneia aos esforços é estágio C, ainda que 48% caia na faixa dita típica do B2.

Daí a primeira lição operacional do tema: na régua de estágio, o número classifica a estrutura e o sintoma classifica o estágio. Trocar a ordem é o erro que a vinheta procura.

A segunda régua não classifica: prevê. É o escore desenvolvido por Rassi Jr. e colaboradores em 2006, que a diretriz manda aplicar assim que a cardiomiopatia se confirma, com seis variáveis já disponíveis na avaliação inicial: classe funcional III ou IV vale 5 pontos; cardiomegalia na radiografia de tórax, 5; disfunção ventricular esquerda global ou segmentar ao ecocardiograma, 3; taquicardia ventricular não sustentada no Holter de 24 horas, 3; baixa voltagem do complexo QRS em todo o plano frontal, 2; e sexo masculino, 2. As faixas: baixo risco de 0 a 6, intermediário de 7 a 11, alto de 12 a 20, com mortalidade em 10 anos de 10%, 44% e 84%.

A coorte de origem tinha 424 doentes ambulatoriais seguidos em média por 7,9 anos, com 130 óbitos — 31% do total, sendo 87% deles cardiovasculares e 62% mortes súbitas. Aqui aparece o primeiro número que exige atenção: a Tabela 7.1 não repete 424 na linha da coorte original, e sim 331, com a nota de que o modelo multivariado foi aplicado a 331 dos 424, porque os doentes com dados faltantes foram excluídos. As duas leituras convivem no mesmo documento e ambas são verdadeiras: a mortalidade de 31% é 130 sobre 424; a estatística C de 0,84 é dos 331. Quem calcular 130 sobre 331 chega a 39% e a um número que não existe em lugar nenhum.

Dois pontos que valem uma decisão

Some as seis variáveis do escore e o teto é 20. Some as mesmas variáveis para uma mulher e o teto é 18, porque "sexo masculino" vale 2 pontos que ela nunca soma. A diretriz declara isso na seção sobre o Holter: a taquicardia ventricular não sustentada vale 3 pontos "de um total de 18 ou 20 pontos possíveis (mulheres e homens, respectivamente)". E no entanto a faixa de alto risco é apresentada, na Tabela 7.1 e no capítulo de perícia, como 12 a 20 para todo mundo.

A consequência é aritmética e não está escrita em lugar nenhum. Para entrar no alto risco, um homem precisa reunir 10 pontos de achados clínicos e de exame; uma mulher precisa reunir 12. A largura da faixa também difere: nove pontos de folga para ele, sete para ela. O sexo entrou como preditor porque a análise multivariada o encontrou — mas o limiar que a perícia usa para tipificar cardiopatia grave, o mesmo 12, é aplicado aos dois sem correção.

O segundo ponto é mais consequente. O ensaio randomizado multicêntrico brasileiro que compara amiodarona com desfibrilador na prevenção primária inclui doentes com pelo menos um episódio de taquicardia ventricular não sustentada ao Holter e escore maior ou igual a 10 pontos — e aí duas coisas acontecem ao mesmo tempo. A primeira: 10 não é fronteira de nada. As faixas são 0-6, 7-11 e 12-20, e o corte parte a faixa intermediária ao meio, deixando dentro os doentes de 10 e 11 pontos e fora os de 7, 8 e 9, todos igualmente rotulados de risco intermediário. A segunda: o critério de seleção e uma variável do escore são o mesmo achado — a arritmia exigida na porta já entrega 3 dos 10 pontos exigidos em seguida.

Junte as duas com a assimetria de sexo. Um homem com taquicardia ventricular não sustentada e cardiomegalia soma 3 mais 5 mais 2, chega a 10 e entra no ensaio; uma mulher com exatamente os mesmos dois achados soma 3 mais 5, chega a 8 e fica de fora. Os mesmos dois achados, decisões opostas, e o que decide é o sexo — num ensaio desenhado justamente porque, nas palavras da diretriz, "a utilidade do escore em guiar a conduta clínica e terapêutica subsequente ainda resta por ser determinada".

Duas barras de 0 a 20 pontos com as três faixas do escore na largura proporcional; a barra da mulher termina em 18 e uma linha tracejada em 10 marca o corte de entrada do ensaio.
As faixas desenhadas na largura real. O corte que decide quem entra no ensaio nacional cai no meio da faixa intermediária, e não numa fronteira do escore; a barra de baixo mostra por que a mesma faixa pede dois pontos a mais de uma mulher.

Hipertrófica: duas réguas para o mesmo desfibrilador

A diretriz brasileira de 2024 apresenta, lado a lado e sem hierarquia declarada, duas estratégias para decidir sobre o desfibrilador implantável. A primeira é a lista de fatores de risco da Tabela 17: "a presença de pelo menos um fator de risco é suficiente para conferir um risco alto de morte súbita e justificar o implante". A segunda é a calculadora de risco em 5 anos, com três faixas — baixo abaixo de 4%, intermediário de 4 a 6%, alto a partir de 6% — e implante recomendado só na faixa mais alta.

As duas leem os mesmos achados de maneiras incompatíveis, e a diretriz documenta as divergências sem resolvê-las. História familiar de morte súbita, na Tabela 17, é morte atribuível à doença em parente de primeiro ou segundo grau com até 50 anos — e, se de terceiro grau, quando múltiplos. Na lista de variáveis da calculadora, duas páginas antes, é morte súbita em parente de primeiro grau com menos de 40 anos. Um tio que morreu subitamente aos 45 é fator de risco por uma régua e não entra na outra.

A taquicardia ventricular não sustentada repete o padrão: a Tabela 17 manda valorizá-la quando os episódios são frequentes, longos e rápidos (200 batimentos por minuto ou mais), e a calculadora a define como frequência maior que 120. Entre 120 e 200 há uma faixa inteira de arritmia que uma régua conta e a outra despreza. A espessura fecha o conjunto: 28 mm ou mais em qualquer segmento é fator isolado na Tabela 17, enquanto a calculadora usa a espessura máxima como variável contínua. Um septo de 29 mm, sozinho, é alto risco pela primeira régua e pode não ser pela segunda.

A diretriz mede a diferença entre as duas estratégias, e os números merecem ser lidos devagar. Em coortes retrospectivas, a calculadora teve sensibilidade de 33% para identificar quem viria a morrer subitamente, contra 95% da abordagem por fatores. Em especificidade a ordem se inverte: 92% contra 78%, "com o benefício potencial de diminuir 20% dos implantes". E o número necessário para tratar foi "comparável": 6,6 pelos fatores contra 7,2 pela calculadora.

Recalcule o que isso significa em vidas. Cem implantes pela abordagem de fatores, divididos por 6,6, dão 15,2 vidas salvas; a calculadora implanta 20% menos, e 80 dispositivos divididos por 7,2 dão 11,1. Ela retira 20% dos implantes e, junto, 27% das vidas.

Agora recalcule o valor preditivo, passo que a prova cobra e que a diretriz não faz. Adotando como prevalência os próprios 6% que a calculadora usa como fronteira de alto risco, ela tem valor preditivo positivo de 20,8% e negativo de 95,6%; a abordagem por fatores tem 21,6% e 99,6%. Os dois positivos são praticamente iguais: a especificidade superior não compra valor preditivo positivo. Toda a diferença está em dizer com segurança quem não precisa do dispositivo.

E o valor preditivo positivo não é propriedade do teste. Aplicada a uma população ambulatorial com 1% de eventos em 5 anos, a mesma calculadora, com a mesma sensibilidade e a mesma especificidade, cai para 4,0%. O teste não mudou; mudou quem foi testado.

A parede grossa que não é hipertrofia

A diretriz de 2024 dedica uma seção às fenocópias — as doenças que se apresentam como cardiomiopatia hipertrófica sem o serem — e a primeira delas é a amiloidose cardíaca. A amiloidose não engrossa a parede por hipertrofia de miócitos, e sim por deposição extracelular entre eles, e daí vem o sinal mais útil de todos: massa aumentada com voltagem baixa no eletrocardiograma. Na hipertrofia verdadeira, mais músculo gera mais voltagem; no depósito, mais espessura significa mais material elétrico inerte entre o miocárdio e o eletrodo.

A diretriz lista o conjunto que sugere amiloide ao ecocardiograma: desproporção entre voltagem do complexo QRS e grau de espessamento, aumento simétrico da espessura, derrame pericárdico discreto, espessamento do septo interatrial e deformação miocárdica reduzida com preservação apical. Na ressonância, o realce tardio da amiloidose é subendocárdico circunferencial, e o da cardiomiopatia hipertrófica costuma ser mesocárdico e pontual.

Nada disso torna a distinção trivial na vinheta, e um relato brasileiro de 2021 mostra por quê. Mulher de 88 anos, septo de 19 mm, parede posterior de 13 mm, gradiente intraventricular máximo de 70 mmHg — pelo gradiente, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva de manual. O que virou o diagnóstico foi a deformação longitudinal global reduzida a -12,4% com preservação apical e a cintilografia com traçador ósseo mostrando captação de grau II biventricular, que na ausência de proteína monoclonal teve 100% de especificidade para amiloidose por transtirretina.

Vale nomear o condicional, porque é de sentido único e a vinheta abusa disso. Obstrução da via de saída não afasta amiloidose — o caso de 88 anos tinha 70 mmHg. Mas amiloidose também não implica obstrução: a diretriz descreve o espessamento amiloide como concêntrico e não obstrutivo. Achar gradiente não permite concluir doença do sarcômero, e não achá-lo não permite excluí-la.

Há um contraponto honesto que o candidato precisa carregar nas duas direções. A mesma parede espessa que numa mulher de 30 anos com história familiar é quase certamente doença do sarcômero é, numa mulher de 88, quase certamente depósito. Pelos dados que o relatório de incorporação de 2022 reúne, a forma selvagem responde por 90% dos casos, tem razão homem-mulher entre 25 para 1 e 50 para 1 e ocorre praticamente só acima dos 70 anos; a hereditária não tem predileção por sexo e aparece entre os 50 e os 60. O mesmo septo de 19 mm significa coisas diferentes em duas décadas, e é o par que ensina.

Amiloidose por transtirretina: indicação clínica e acesso no SUS

Confirmada a amiloidose por transtirretina, a próxima régua não é médica. É a da comissão nacional de incorporação de tecnologias, e ela recortou a doença de um jeito que nenhuma diretriz clínica recortaria: classe funcional II e III, acima de 60 anos. Fora dessas duas fronteiras o medicamento não entra pelo sistema público, por mais claro que seja o diagnóstico.

A trajetória desse recorte foi documentada três vezes. O relatório nº 600, de março de 2021, recomendou não incorporar por preço elevado e limitação amostral. O nº 795, de dezembro de 2022, recomendou não incorporar de novo, por unanimidade, registrando que entre os dois dossiês "nenhum elemento da pergunta" havia diferido, que não surgiram novos ensaios randomizados nem revisões sistemáticas, e que o demandante "replicou o modelo apresentado no relatório técnico nº 600". O nº 899, de maio de 2024, chegou a recomendação preliminar desfavorável, também unânime — e então mudou.

Duas recomendações da mesma comissão, sobre o mesmo medicamento e do mesmo demandante, quando concordam não são duas evidências: a segunda é a primeira rodada de novo sobre o mesmo dossiê, e o documento diz isso de si mesmo. Vale o mesmo para as limitações — os relatórios de 2022 e de 2024 repetem, em frases quase literais, a restrição de que os dados de eficácia dos doentes que entram em classe II vêm agregados com os de classe I no ensaio pivotal: dois anos, duas equipes redatoras, e a limitação foi reescrita, não resolvida. E as equipes são menos independentes do que parecem: corpos redatores distintos, mas a coordenação e a supervisão trazem os mesmos três nomes nos dois documentos.

O que mudou entre a recusa e a incorporação foi o preço, e o próprio relatório o diz. Durante a consulta pública o demandante enviou nova proposta: R$ 218,59 por cápsula, 79,28% de desconto sobre o preço máximo de venda ao governo sem impostos, de R$ 1.055,11. Isso reduziu a razão de custo-utilidade em 44,38% e o impacto orçamentário incremental em 40,86%, e a razão final ficou em R$ 121.659,66 por ano de vida ajustado pela qualidade, contra um limiar de R$ 120.000,00 para casos especiais.

Faça a conta: 121.659,66 dividido por 120.000 dá 1,0138. A razão final ficou 1,4% acima do limiar, e o relatório a descreve como tendo "alcançado o limiar". O comitê aprovou, e por maioria simples, não por unanimidade. O número que decide não cruzou a linha; foi lido como suficientemente perto dela.

Duas consultas públicas emolduram o contraste. Na de 2022 foram 643 contribuições: as 165 técnico-científicas, todas elas, foram contra a recomendação preliminar desfavorável, e 476 das 478 de experiência também. A recomendação final saiu idêntica, por unanimidade. Na de 2024 foram 975 contribuições, 963 a favor — e a recomendação mudou, mas o relatório atribui a mudança à nova proposta de preço enviada pelo demandante durante a mesma consulta. O canal moveu a decisão quando o fabricante o usou, e não quando 100% das contribuições técnicas o usaram.

Como ler criticamente o modelo econômico sem perder a clínica

Vale abrir o modelo de 2022, porque ele mostra como se constrói o número que depois vira critério clínico. O funil parte da população acima de 60 anos projetada pelo instituto de estatística, aplica prevalência de insuficiência cardíaca e corta sucessivamente em 60% de diagnosticados, 43,10% com fração de ejeção preservada, 13% com depósito amiloide e 78,9% nas classes II e III, antes de aplicar taxas de diagnóstico e de acesso. A cadeia reproduz ao inteiro a partir dos percentuais publicados — com três exceções.

A primeira é a prevalência. O texto informa 1,17% como parâmetro do primeiro ano; a tabela projeta 372.205 doentes sobre 31.693.761 pessoas, o que dá 1,17438%. Quem recalcular com o parâmetro publicado chega a 370.817 e perde 1.388 doentes logo no ano 1. O parâmetro exibido é um arredondamento do parâmetro de trabalho, apresentado como se fosse ele.

A segunda é a taxa de acesso, descrita como variando "de 40% no primeiro ano a 80% no quinto, um aumento de 10% ao ano": a série 40, 50, 60, 70, 80 sobe dez pontos percentuais por ano, e 10% ao ano chegaria a 58,6% — uma diferença de R$ 87 milhões só no quinto exercício. O desconto do medicamento repete o padrão: cai R$ 16,82 por ano, em passos iguais, portanto linear.

A terceira parece erro e não é. A tabela de impacto traz 55, 173, 348, 719 e 1.219 doentes e um total de 2.513; a coluna soma 2.514. O contraste dentro da série resolve: divida o gasto de cada ano pelos doentes daquele ano, por quatro cápsulas diárias e pelo preço daquele ano, e saem 359,7, 359,6, 360,1 e 360,0 dias nos quatro últimos exercícios. O ano do modelo tem 360 dias — doze meses de trinta. Com essa convenção recuperam-se os números sem arredondar (54,57, 172,85, 347,61, 719,17 e 1.218,90), que somam 2.513,08. O total publicado está certo; arredondada está cada linha. E o relatório de 2024 declara o que o de 2022 escondia: o custo mensal de R$ 6.557,70 vem com a nota de que considera "um mês de 30 dias".

A mesma reconstrução expõe outra coisa. A seção de custos de 2022 diz que entraram acompanhamento, hospitalizações, manejo de eventos adversos, fim de vida e transplante. Mas cada linha fecha, à casa decimal, com cápsulas vezes dias vezes preço vezes doentes: o texto descreve um modelo com custos de manejo; a tabela contém apenas o medicamento.

Duas verificações fecham o conjunto. A bula prescreve quatro cápsulas de 20 mg ao dia, e o relatório registra que na primeira submissão "o demandante considerou o uso de quatro cápsulas diárias, entretanto o custo foi calculado com base em três". Confira: R$ 547,89 vezes três cápsulas vezes trinta dias dá exatamente os R$ 49.310,10 publicados; com quatro seriam R$ 65.746,80, e o custo mensal do modelo subestimava a posologia em 25%. Depois, o modelo de 2024 informa ganho de 3,08 anos de vida e 2,43 ajustados pela qualidade, o que embute utilidade de 0,789; as duas razões de 2022 embutem 0,780. Duas rotas, dois documentos, a mesma utilidade implícita.

Conflitos de interesse: transparência e peso da evidência

Nos dois relatórios de incorporação os avaliadores declaram não possuir conflito de interesse, e não há motivo para duvidar disso. O conflito, quando existe, mora um degrau antes: o demandante é o fabricante, e o dossiê econômico é dele — pergunta de pesquisa, busca de evidências, seleção dos estudos, modelo, parâmetros e preço vieram todos da empresa, cabendo à comissão a análise crítica. Os relatórios dizem isso com todas as letras, e é por isso que a leitura crítica do modelo é possível.

O mesmo raciocínio vale, com outro desenho, para as diretrizes de sociedade. A de cardiomiopatia hipertrófica de 2024 tem 27 declarações financeiras contra 25 registros de nada a declarar, com a fabricante do estabilizador de transtirretina citada 13 vezes; a de cardiomiopatia chagásica de 2023 tem 73 registros de nada a declarar contra 13 declarações. Nenhuma escondeu nada. A diferença não está na honestidade dos autores, e sim em qual doença atrai um painel com vínculos: a que tem medicamento patenteado e caro, ou a que se trata com benznidazol e amiodarona.

Integração clínica: etiologia, estágio, risco e tratamento

Recolha o capítulo em quatro perguntas que substituem a palavra da forma. Primeira: qual régua o enunciado está usando? Estágio evolutivo e escore prognóstico são coisas diferentes na mesma doença; fator de risco isolado e calculadora de probabilidade são coisas diferentes na mesma parede; classe funcional para conduta e classe funcional para financiamento são coisas diferentes no mesmo doente.

Segunda: o número do enunciado é fronteira de alguma régua ou cai dentro de uma faixa? Dez pontos no escore de cardiopatia chagásica não é fronteira; 30 mm de septo é o único valor que as duas alternativas da figura de redução septal excluem, porque uma diz acima de 30 e a outra abaixo de 30. O mesmo vale para o realce tardio, que a Tabela 17 rotula como "maior que 15%" e define, na coluna ao lado, como "maior ou igual a 15%": exatamente 15,0% muda de destino conforme a metade da célula que se lê.

Terceira: o achado tem sentido único ou duplo? Voltagem baixa com parede espessa aponta amiloide com força, mas voltagem alta não o exclui nas fases iniciais, e gradiente na via de saída não afasta depósito. Captação cintilográfica de grau II ou III é altamente específica — desde que não haja proteína monoclonal, porque a amiloidose por cadeia leve também capta.

Quarta: de quem é o número? O corte de 12 pontos que a perícia usa para tipificar cardiopatia grave vem de um escore de mortalidade, não de uma lei; a norma que fundamenta a perícia continua sendo a diretriz de cardiopatia grave de 2006, e a de 2023 registra a necessidade urgente de revisá-la. O corte de classe funcional II e III acima de 60 anos veio de um relatório de incorporação, não do ensaio clínico — que randomizou doentes em classe I, II e III — e as agências estrangeiras citadas no mesmo relatório recomendam o medicamento para classes I e II. Classe II é a única que aparece nas duas listas.

04

As réguas, lado a lado

Três tabelas resolvem quase todo enunciado do tema: a que separa o que estadia do que prognostica na cardiomiopatia chagásica, a que confronta as duas maneiras de indicar desfibrilador na cardiomiopatia hipertrófica — mostrando onde a mesma diretriz se contradiz —, e a que reúne a trajetória das três avaliações do estabilizador de transtirretina, para deixar visível o que mudou de uma recusa para a incorporação.

  1. 1Ler a vinheta ignorando a palavra que descreve a forma e procurar o que a pergunta pede: risco de morte, escolha de dispositivo, escolha de técnica, elegibilidade a medicamento ou intervalo de seguimento. É a pergunta que escolhe a régua.
  2. 2Identificar a etiologia antes de estadiar. Ventrículo dilatado em doente brasileiro pede sorologia para Trypanosoma cruzi com dois testes de princípios diferentes; parede espessa em doente acima de 70 anos pede a pergunta do depósito antes da pergunta do sarcômero.
  3. 3Na cardiomiopatia chagásica, estadiar pela estrutura e pelo sintoma: função sistólica global normal com sintoma ausente separa os estágios iniciais; disfunção sem sintoma é B2; disfunção com sintoma prévio ou atual é C; sintoma em repouso refratário é D.
  4. 4Calcular o escore de risco assim que a cardiomiopatia se confirmar, com os seis itens que já existem na avaliação inicial, e lembrar que o teto é 18 para mulheres e 20 para homens embora a faixa de alto risco seja apresentada como 12 a 20 para os dois.
  5. 5Na parede espessa, procurar ativamente os sinais de fenocópia antes de aceitar cardiomiopatia hipertrófica: desproporção entre voltagem e espessura, espessamento simétrico, derrame pericárdico discreto, septo interatrial espessado, deformação reduzida com preservação apical.
  6. 6Diante de suspeita de depósito, pedir cintilografia com traçador ósseo e, no mesmo movimento, pesquisar proteína monoclonal — porque a especificidade da captação de grau II ou III depende de a pesquisa ser negativa.
  7. 7Para indicar desfibrilador na cardiomiopatia hipertrófica, declarar qual estratégia está sendo usada, porque um fator de risco isolado basta numa e a mesma situação pode devolver risco baixo na outra; e reestratificar anualmente, porque o risco acompanha a vida inteira.
  8. 8Antes de discutir redução septal, esgotar o tratamento médico otimizado e confirmar sintoma em classe III ou IV: a figura de escolha entre miectomia e alcoolização só se aplica ao doente obstrutivo, sintomático e refratário.

Ventrículo normal

Cavidade de calibre habitual e parede fina e homogênea. É a referência contra a qual as outras três formas se definem, e a razão pela qual nenhuma delas é diagnóstico por si.

Dilatada

Cavidade grande e parede afinada, com função sistólica global reduzida. Na cardiomiopatia chagásica é o estágio B2 quando não há sintoma e o C quando há; o número que estadia é a fração de ejeção, o que separa B2 de C é o sintoma.

Hipertrófica

Espessamento assimétrico, tipicamente septal, com cavidade pequena e possível obstrução da via de saída. A espessura de 28 mm ou mais é fator de risco isolado; 30 mm é o valor em torno do qual a escolha entre miectomia e alcoolização se decide.

Infiltrada

Espessamento simétrico de ambos os ventrículos, átrios dilatados, septo interatrial espessado e derrame pericárdico discreto. É a forma que se apresenta com máscara hipertrófica e fisiologia restritiva, e a que a voltagem baixa denuncia.

PerguntaEstágios evolutivos (diretriz de cardiomiopatia chagásica, 2023)Escore de risco (mesma diretriz, capítulo 7)
O que medeEstrutura cardíaca e sintoma de insuficiência cardíaca, num instanteProbabilidade de morte por todas as causas em 10 anos
EntradasEletrocardiograma, função sistólica global, presença de sintoma e resposta ao tratamento otimizadoClasse funcional, radiografia de tórax, ecocardiograma, Holter de 24 horas, eletrocardiograma e sexo
SaídaUma de cinco caixas: forma indeterminada, A, B1, B2, C ou DUm total de 0 a 20 pontos em três faixas: 0 a 6, 7 a 11 e 12 a 20
Corte de fração de ejeção55% separa os três primeiros dos três últimos; não separa B2 de C nem C de DNão usa fração de ejeção medida: valoriza disfunção global ou segmentar de forma subjetiva, e vale 3 pontos
Decide o quêConduta terapêutica e a necessidade de tratamento otimizadoIntensidade de seguimento e, no ensaio nacional em curso, elegibilidade a desfibrilador
Depende do sexoNãoSim: sexo masculino vale 2 pontos, então o teto é 18 para mulheres e 20 para homens
Vocabulário que denunciaForma indeterminada, doença estrutural, sintoma em repouso, refratário ao tratamento otimizadoPontos, cardiomegalia à radiografia, baixa voltagem no plano frontal, taquicardia ventricular não sustentada, mortalidade em 10 anos

Duas estratégias para o mesmo desfibrilador, e onde a diretriz de 2024 discorda de si mesma

AchadoAbordagem por fatores de risco (Tabela 17)Calculadora de morte súbita em 5 anos (seção 4.2.6)
Regra de decisãoUm fator basta para conferir alto risco e justificar o implanteImplante recomendado apenas na faixa de risco alto, a partir de 6% em 5 anos
História familiar de morte súbitaParente de 1º ou 2º grau com até 50 anos; de 3º grau, quando múltiplosParente de 1º grau com menos de 40 anos
Taquicardia ventricular não sustentadaValorizar se frequente (3 ou mais), longa (10 ou mais batimentos) e rápida (200 bpm ou mais)Frequência ventricular maior que 120 bpm
Espessura de parede28 mm ou mais em qualquer segmento é fator isoladoEspessura máxima entra como variável contínua, junto de idade, átrio esquerdo e gradiente
Disfunção sistólica, aneurisma apical e realce tardioSão fatores de risco reconhecidos e listadosNão entram no modelo, conforme a própria diretriz registra
Sensibilidade e especificidade medidasSensibilidade 95%, especificidade 78%Sensibilidade 33%, especificidade 92%
Valor preditivo recalculado a 6% de eventos em 5 anosPositivo 21,6% e negativo 99,6%Positivo 20,8% e negativo 95,6%
Número necessário para tratar6,67,2, com 20% menos implantes — e, refeita a conta, 27% menos vidas
Onde não se aplicaNão há restrição etária declaradaNão recomendada abaixo de 16 anos nem após miectomia ou alcoolização

Estabilizador de transtirretina: três avaliações, um ensaio, um preço que mudou

ItemRelatório nº 600 (março de 2021)Relatório nº 795 (dezembro de 2022)Relatório nº 899 (maio de 2024)
DemandanteWyeth Indústria Farmacêutica LtdaWyeth Indústria Farmacêutica LtdaPfizer Brasil Ltda
Evidência clínicaEnsaio pivotal de fase 3, 30 mesesO mesmo ensaio; sem novos estudos randomizados ou revisões sistemáticasO mesmo ensaio, acrescido do estudo de extensão e da bioequivalência da nova apresentação
Modelo econômicoCadeias de Markov, horizonte de 25 anosReplicou o modelo do relatório anteriorReplicou a avaliação econômica da submissão anterior
Preço por cápsulaR$ 547,89, com o custo calculado sobre três cápsulas diáriasR$ 252,35 no 1º ano, caindo R$ 16,82 ao ano até R$ 185,05 no 5ºR$ 218,59 (proposta enviada durante a consulta pública)
Razão de custo por ano ajustado pela qualidadeR$ 931.918,37R$ 473.457,61R$ 121.659,66, contra limiar de R$ 120.000,00 para casos especiais
Impacto orçamentário em 5 anosNão reproduzido neste capítuloR$ 721.787.667,91, com 2.513 doentes tratadosR$ 293.758.609,50, com 101 doentes no 1º ano e 1.634 no 5º
Consulta públicaNão reproduzida neste capítulo643 contribuições; as 165 técnico-científicas todas contra a recusa preliminar975 contribuições, 963 a favor da incorporação
DecisãoNão incorporarNão incorporar, por unanimidadeIncorporar, por maioria simples, para classe funcional II e III acima de 60 anos

A figura da diretriz de 2024 que orienta a escolha da terapia de redução septal opõe "hipertrofia importante septo maior que 30 mm", que favorece miectomia, a "septo menor que 30 mm", que favorece alcoolização. Um septo de exatamente 30,0 mm não está em nenhum dos dois braços, e a decisão volta inteira para o critério compartilhado com o doente, que a mesma figura coloca embaixo das duas colunas.

A Tabela 17 rotula a linha do realce tardio como "maior que 15%" e a define, na coluna de detalhamento, como realce difuso e extenso compreendendo "15% ou mais" da massa total do ventrículo esquerdo. Exatamente 15,0% é fator de risco por uma metade da célula e não é pela outra.

A legenda da figura de fenocópias expande a sigla do movimento sistólico anterior da valva mitral em português, mas rotula o achado dentro da própria figura com a sigla em inglês. É ruído de diagramação, não divergência de conteúdo — e serve de lembrete de que sigla trocada dentro de uma mesma figura raramente é achado clínico.

As agências estrangeiras citadas nos dois relatórios de incorporação não são independentes entre si na mesma medida: o instituto inglês e o consórcio escocês avaliam para sistemas de saúde vizinhos e sob metodologias aparentadas. Contar quatro pareceres internacionais como quatro opiniões independentes superestima a concordância.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual régua indica o desfibrilador na cardiomiopatia hipertrófica

Abordagem por fatores de risco

A presença de ao menos um fator entre história de taquicardia ventricular sustentada sincopal, síncope inexplicada, história familiar de morte súbita, espessura de 28 mm ou mais, fração de ejeção abaixo de 50%, aneurisma apical, realce tardio extenso e taquicardia ventricular não sustentada é suficiente para conferir alto risco e justificar o implante. Sensibilidade de 95% e especificidade de 78% nas coortes retrospectivas reunidas.

Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024, Tabela 17 e seção 4.2.5.1

Calculadora de risco em 5 anos

Uma equação de regressão logística com idade, diâmetro do átrio esquerdo, gradiente máximo da via de saída, síncope inexplicada, taquicardia ventricular não sustentada e história familiar em parente de primeiro grau abaixo de 40 anos devolve uma probabilidade, e o implante é recomendado a partir de 6% em 5 anos. Especificidade de 92% e sensibilidade de 33%. Não incorpora disfunção sistólica, aneurisma apical nem realce tardio, e não se aplica abaixo de 16 anos nem após redução septal.

Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024, seção 4.2.6

Na prova

A vinheta entrega a régua pelo que ela mede. Se o enunciado lista achados isolados e pergunta se há indicação, está na abordagem de fatores — e um só achado basta, o que torna correta a alternativa que indica o dispositivo. Se o enunciado fornece idade, diâmetro atrial e gradiente em números, ou já traz uma probabilidade em porcentagem, está na calculadora, e aí o corte é 6%. O sinal mais confiável é o diâmetro do átrio esquerdo: ele não é fator de risco na lista e só existe como variável do modelo. Enunciado que menciona realce tardio ou aneurisma apical está, ao contrário, obrigatoriamente na lista de fatores, porque o modelo não os enxerga. E, quando as duas réguas aparecem juntas, a diretriz brasileira não hierarquiza: a alternativa correta costuma ser a que reconhece a divergência e mantém a decisão compartilhada com o doente, não a que declara uma régua superior.

Que doente com amiloidose por transtirretina recebe o estabilizador

Recorte brasileiro: classes II e III, acima de 60 anos

A incorporação nacional de 2024 vale para cardiopatia amiloide associada à transtirretina, selvagem ou hereditária, em classe funcional II e III, acima de 60 anos, conforme protocolo clínico do Ministério da Saúde. O recorte foi construído pelo demandante na pergunta de pesquisa e reproduzido nas três submissões.

Conitec, Relatório de recomendação nº 899, maio de 2024, resumo executivo e decisão publicada no Diário Oficial da União de 21 de junho de 2024

Recorte das agências estrangeiras citadas: classes I e II

O relatório de 2024 registra que as agências canadense e escocesa recomendam o medicamento para classes NYHA I e II, com permissão temporária na França e recusa do instituto inglês. O relatório de 2022 havia registrado recusa tanto do instituto inglês quanto do consórcio escocês.

Conitec, Relatório de recomendação nº 899, maio de 2024, seção de recomendações internacionais; e Relatório nº 795, dezembro de 2022, resumo executivo

Na prova

Classe II é a única que aparece nos dois recortes, e é por isso que a vinheta que quer separar quem sabe do que decorou costuma trazer classe I ou classe III. Doente em classe I com diagnóstico fechado não recebe o medicamento pelo sistema público brasileiro, ainda que agências estrangeiras o recomendem nessa faixa; doente em classe III recebe aqui e não estaria coberto pelo recorte canadense ou escocês citado. Guarde também que a limitação metodológica declarada nos três relatórios é justamente da classe II: os dados de eficácia dos doentes que entram em classe II vêm agregados com os de classe I no ensaio pivotal. Enunciado que pergunta "qual a principal limitação da evidência que sustenta a incorporação" está pedindo essa agregação, não o tamanho da amostra.

06

Caso resolvido

Mulher de 54 anos, natural do sudoeste da Bahia, chega ao ambulatório de cardiologia de um hospital universitário encaminhada por alteração eletrocardiográfica encontrada em exame admissional. Refere palpitações ocasionais e cansaço aos grandes esforços, sem dispneia em repouso, sem ortopneia e sem edema. Nega internação prévia. Sorologia para Trypanosoma cruzi reagente em dois testes de princípios diferentes. Eletrocardiograma com bloqueio de ramo direito associado a bloqueio divisional anterossuperior. Radiografia de tórax com índice cardiotorácico de 0,56. Ecocardiograma com hipocinesia da parede inferolateral e fração de ejeção estimada em 47% pelo método de Simpson. Holter de 24 horas com dois episódios de taquicardia ventricular não sustentada. O serviço pergunta se ela deve ser encaminhada para avaliação de desfibrilador.
achado
Sorologia reagente em dois testes de princípios diferentes, em doente procedente de área endêmica, fecha a etiologia chagásica. O bloqueio de ramo direito com bloqueio divisional anterossuperior é o par eletrocardiográfico mais sugestivo da doença, e a hipocinesia segmentar inferolateral acompanha o mesmo padrão de fibrose.
achado
Há doença estrutural, há disfunção sistólica global — 47% está abaixo do corte de 55% — e não há sintoma de insuficiência cardíaca. Cansaço aos grandes esforços sem ortopneia, sem edema e sem internação não caracteriza sintoma de insuficiência cardíaca para efeito de estadiamento. Isso a coloca no estágio B2.
calculo
Escore de risco: classe funcional III ou IV, ausente, zero ponto. Cardiomegalia à radiografia, com índice cardiotorácico maior que 0,50, presente: 5 pontos. Disfunção ventricular global ou segmentar ao ecocardiograma, presente: 3 pontos. Taquicardia ventricular não sustentada ao Holter, presente: 3 pontos. Baixa voltagem do complexo QRS em todo o plano frontal, ausente: zero. Sexo masculino, ausente: zero. Total de 11 pontos.
leitura
Onze pontos é o valor mais alto da faixa intermediária, cuja mortalidade total em 10 anos é de 44%. A doente está a um ponto da faixa de alto risco — e o ponto que falta é justamente o que ela nunca poderá somar, porque vale sexo masculino. Um homem com exatamente os mesmos quatro achados somaria 13 pontos e estaria em alto risco.
conduta
Estágio B2 dirige o tratamento: otimização farmacológica da disfunção ventricular assintomática e seguimento próximo, que a diretriz sugere a cada três ou seis meses para risco intermediário ou alto, em vez de anual. A pergunta do desfibrilador, em prevenção primária, é exatamente a que o ensaio nacional em curso pretende responder, e o escore de 11 pontos a torna elegível ao critério de inclusão de dez pontos ou mais somado à taquicardia ventricular não sustentada documentada.
armadilha
A tentação é usar a faixa "geralmente entre 41% e 54%" da tabela de estágios como se fosse critério e concluir B2 pelo número. O raciocínio chega ao mesmo lugar aqui, mas por sorte: o que define B2 contra C é a ausência de sintoma de insuficiência cardíaca, não o intervalo de fração de ejeção. Se ela tivesse dispneia paroxística noturna com os mesmos 47%, seria estágio C.
07

Agora feche você

Homem de 76 anos, hipertenso de longa data, é encaminhado por dispneia progressiva há dez meses, hoje aos pequenos esforços, e dois episódios de síncope em ortostase. Tem síndrome do túnel do carpo operada bilateralmente há oito e há seis anos, e queixa de hematomas fáceis. Pressão arterial de 104 por 68 mmHg, e refere que o médico da unidade básica suspendeu o anti-hipertensivo há um ano por hipotensão. Eletrocardiograma com ritmo sinusal, complexos de baixa voltagem no plano frontal e má progressão de onda R de V1 a V3. Ecocardiograma com espessura septal de 17 mm, parede posterior de 16 mm, átrios aumentados, espessamento do septo interatrial, derrame pericárdico laminar e fração de ejeção de 52%, com deformação longitudinal global de -11% e preservação dos segmentos apicais. Não há gradiente na via de saída. O residente propõe iniciar investigação de cardiomiopatia hipertrófica e solicitar teste genético para variantes sarcoméricas.
achado
A combinação de parede espessa com baixa voltagem no eletrocardiograma é a desproporção que a diretriz de 2024 lista como indicativa de amiloidose. Na hipertrofia verdadeira, mais massa gera mais voltagem; aqui a massa aumentou e a voltagem caiu, o que aponta material inerte depositado entre os miócitos e o eletrodo.
achado
O restante do conjunto ecocardiográfico é o descrito para depósito e não para sarcômero: espessamento simétrico das duas paredes em vez de assimetria septal, átrios aumentados, septo interatrial espessado, derrame pericárdico discreto e deformação reduzida com preservação apical. Ausência de gradiente na via de saída é coerente com o padrão concêntrico e não obstrutivo.
achado
A história extracardíaca reforça: túnel do carpo bilateral operado anos antes do quadro cardíaco e facilidade de hematomas são manifestações multissistêmicas listadas na diretriz. A suspensão do anti-hipertensivo por hipotensão em hipertenso de longa data é o sinal clínico que mais frequentemente antecede o diagnóstico, e a síncope em ortostase sugere componente disautonômico.
epidemiologia
Idade e sexo pesam. A forma selvagem responde por cerca de 90% dos casos, ocorre quase exclusivamente acima dos 70 anos e tem razão homem-mulher entre 25 para 1 e 50 para 1. Um homem de 76 anos com esse quadro está no centro exato dessa distribuição, o que inverte a probabilidade a priori em relação a um jovem com a mesma espessura de parede.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Estadiar a cardiomiopatia chagásica pela fração de ejeção sozinha Atrai porque a tabela de estágios traz números de fração de ejeção em todas as colunas e o candidato procura a faixa. Só que o corte de 55% separa três estágios de outros três e não distingue B2 de C nem C de D; o que distingue esses é sintoma de insuficiência cardíaca. As faixas "geralmente entre 41% e 54%" e "geralmente menor ou igual a 40%" são descritivas, e a palavra "geralmente" está lá justamente para impedir a leitura como critério. Um doente com 48% e dispneia aos esforços é estágio C, mesmo com o número caindo na faixa típica do B2.
  2. 2Tomar o corte de 10 pontos do ensaio nacional como fronteira do escore Atrai porque soa como um limiar consagrado. As fronteiras do escore são 6-7 e 11-12; o 10 é critério de inclusão de um ensaio clínico específico, que parte a faixa intermediária ao meio e deixa fora doentes de 7, 8 e 9 pontos igualmente rotulados de risco intermediário. Pior: o mesmo ensaio exige taquicardia ventricular não sustentada na porta, e essa arritmia já vale 3 dos 10 pontos que ele exige em seguida. Enunciado que pergunta "qual a faixa de risco deste doente" quer 0-6, 7-11 ou 12-20; enunciado que pergunta "este doente seria elegível ao ensaio" quer o 10.
  3. 3Concluir que a especificidade maior da calculadora protege o doente do implante desnecessário sem custo Atrai porque a frase da diretriz é sedutora: 92% contra 78% de especificidade, com o benefício potencial de diminuir 20% dos implantes. Mas o número necessário para tratar é 7,2 pela calculadora e 6,6 pelos fatores — a calculadora precisa de mais dispositivos por vida salva, e implanta menos deles. Cem implantes pela lista salvam 15,2 vidas; oitenta implantes pela calculadora salvam 11,1. O corte de 20% nos dispositivos custa 27% das vidas. E o valor preditivo positivo das duas, calculado a 6% de eventos em 5 anos, é praticamente idêntico: 21,6% e 20,8%.
  4. 4Ler valor preditivo positivo como propriedade do teste Atrai porque sensibilidade e especificidade realmente não dependem da prevalência, e o candidato transfere a propriedade para o valor preditivo. A mesma calculadora, com os mesmos 33% e 92%, tem valor preditivo positivo de 20,8% numa população com 6% de eventos em 5 anos e de 4,0% numa população com 1%. O teste é o mesmo; quem mudou foi o denominador. Enunciado que descreve rastreio em ambulatório geral e enunciado que descreve avaliação em centro de referência estão perguntando a mesma coisa sobre populações diferentes.
  5. 5Excluir amiloidose porque há obstrução da via de saída Atrai porque a diretriz descreve o espessamento amiloide como tipicamente concêntrico e não obstrutivo, e a obstrução é a marca registrada da cardiomiopatia hipertrófica. A implicação, porém, tem sentido único: amiloidose costuma não obstruir, mas obstrução não afasta amiloidose. O relato brasileiro de 2021 traz gradiente intraventricular máximo de 70 mmHg numa mulher de 88 anos cujo diagnóstico final foi depósito de transtirretina, fechado pela deformação com preservação apical e pela cintilografia de grau II. Idade, simetria e voltagem pesam mais que o gradiente.
  6. 6Confundir dez pontos percentuais com dez por cento no impacto orçamentário Atrai porque o relatório de 2022 escreve, na mesma frase, que a taxa de acesso "varia de 40% no primeiro ano a 80% no quinto" e que isso é "um aumento de 10% ao ano". A série 40, 50, 60, 70, 80 sobe dez pontos percentuais por ano; um crescimento de 10% ao ano chegaria a 58,6% no quinto ano. Aplicado ao gasto de R$ 324,8 milhões do quinto ano, a diferença entre as duas leituras é de R$ 87 milhões. Questão de gestão que peça para projetar um cenário costuma testar exatamente essa troca, e o mesmo cuidado vale para desconto progressivo: o do medicamento cai R$ 16,82 por ano, em passos iguais, o que é linear e não geométrico.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Síncope ao esforço, história familiar de morte súbita, sopro que aumenta com Valsalva (redução da pré-carga acentua a obstrução dinâmica) e diminui ao agachar apontam cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, cujo eco mostra hipertrofia septal assimétrica e SAM. Na cardiomiopatia dilatada o sopro diminuiria com Valsalva. Pericardite constritiva não causa esse sopro dinâmico. Na estenose aórtica valvar o sopro tipicamente diminui com Valsalva (menor fluxo). A displasia arritmogênica acomete predominantemente o VD sem esse sopro característico.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Dilatada, hipertrófica e restritiva nomeiam forma e não decidem conduta; quem decide é uma segunda régua. Na cardiomiopatia chagásica há duas: os estágios evolutivos da diretriz de 2023 (forma indeterminada com 30% de risco de progressão, A, B1, B2, C e D, com fração de ejeção de 55% separando os três primeiros dos três últimos e o sintoma separando B2 de C de D) e o escore de risco de seis variáveis — classe funcional III ou IV com 5 pontos, cardiomegalia 5, disfunção ventricular 3, taquicardia ventricular não sustentada 3, baixa voltagem 2 e sexo masculino 2 —, com faixas 0 a 6, 7 a 11 e 12 a 20 e mortalidade em 10 anos de 10%, 44% e 84%. Teto de 18 para mulheres e 20 para homens. Na cardiomiopatia hipertrófica há outras duas: um fator de risco isolado basta (espessura de 28 mm ou mais, realce tardio de 15% ou mais, disfunção abaixo de 50%, aneurisma apical, síncope, história familiar, arritmia) ou a calculadora em 5 anos com corte de 6%; a primeira tem sensibilidade 95% e especificidade 78%, a segunda 33% e 92%. Parede espessa com baixa voltagem, espessamento simétrico, átrios grandes, septo interatrial espessado e deformação com preservação apical apontam amiloidose; cintilografia de grau II ou III fecha desde que não haja proteína monoclonal. O estabilizador de transtirretina foi incorporado em 2024 para classe funcional II e III acima de 60 anos.

em 30 dias

Reconstrua o capítulo por quatro perguntas. Primeira: por que a fração de ejeção estadia a estrutura mas não separa B2 de C na cardiomiopatia chagásica, e o que acontece com um doente de 48% que tem dispneia. Segunda: refaça a aritmética do escore de risco até que a assimetria fique óbvia — some as seis variáveis para um homem e para uma mulher, confirme os tetos de 20 e 18, e mostre por que um homem com taquicardia ventricular não sustentada e cardiomegalia entra no ensaio nacional com exatamente 10 pontos enquanto uma mulher com os mesmos dois achados fica em 8. Terceira: recalcule os valores preditivos das duas estratégias de indicação de desfibrilador a 6% e a 1% de eventos em 5 anos, e explique por que a especificidade maior da calculadora não melhora o valor preditivo positivo e por que 20% menos implantes custam 27% das vidas quando o número necessário para tratar passa de 6,6 para 7,2. Quarta: percorra a trajetória das três avaliações do estabilizador de transtirretina e nomeie o que mudou entre a recusa unânime e a incorporação por maioria simples — o mesmo ensaio, o mesmo modelo replicado, o mesmo demandante, e um preço de R$ 218,59 por cápsula que deixou a razão final em R$ 121.659,66 contra um limiar de R$ 120.000,00. Depois recite, sem consultar: os cinco estágios evolutivos, os seis itens do escore com suas pontuações, as três faixas com suas mortalidades, os cortes de 28 mm e 30 mm, e as duas definições incompatíveis de história familiar de morte súbita na mesma diretriz.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 74 anos chega ao ambulatório com dispneia aos pequenos esforços há oito meses e dois episódios de tontura ao levantar. Conta que o remédio da pressão foi suspenso porque "a pressão caiu sozinha". Traz um ecocardiograma com paredes espessas e um eletrocardiograma cuja voltagem chama atenção. Conduza a anamnese, decida o que pedir e explique ao doente o que está sendo investigado. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.