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Clínica MédicaCardiologia

Insuficiência aórtica: a quarta lesão, que a tabela nomeia e quase não ensina

Insuficiência aórtica crônica: sopro diastólico, sinais periféricos e os três gatilhos da troca valvar

Reconhecimento clínico e ecocardiográfico, definição de gravidade e gatilhos para intervenção na insuficiência aórtica crônica e aguda.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 47 anos com febre há três semanas dá entrada com dispneia súbita e hipotensão. Exame: taquicárdico, estertores difusos, terceira bulha, sopro diastólico curto em borda esternal esquerda. Pressão arterial de 90 por 70 mmHg, sem pulso amplo e sem sinais periféricos. Ecocardiograma: insuficiência aórtica importante, ventrículo esquerdo de dimensões normais e fração de ejeção preservada, com vegetação em cúspide aórtica. Qual é a conduta quanto ao momento da intervenção?

02

Como esse tema cai

O capítulo cobre a insuficiência aórtica crônica do adulto: como reconhecê-la no exame físico, como a diretriz brasileira gradua a gravidade, quais são os três gatilhos de cirurgia e de quanto em quanto tempo se reavalia quem ainda não os atingiu. A forma aguda entra ao final, pelo contraste, porque é a que mais se confunde com a crônica na vinheta e a que tem prazo de horas.

Ficam fora: estenose aórtica, estenose mitral e insuficiência mitral, que têm capítulo próprio nesta apostila; endocardite infecciosa, tratada em capítulo separado; e a técnica cirúrgica, que não é objeto de prova de acesso direto. A febre reumática entra apenas como etiologia, na medida em que ela muda o limiar de indicação.

A régua usada é a Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias, de 2020, que é a que as bancas nacionais cobram. As posições americana e europeia aparecem onde a própria diretriz brasileira as imprime lado a lado — e elas divergem em pontos que valem questão.

03

O que muda decisão

Insuficiência aórtica no conjunto das valvopatias

O coração esquerdo tem duas valvas e cada uma falha de dois modos, o que dá quatro lesões: estenose aórtica, insuficiência aórtica, estenose mitral e insuficiência mitral. As duas estenoses e a regurgitação mitral produzem sopro sistólico; só a insuficiência aórtica e a estenose mitral produzem sopro diastólico. A prova de residência trata as quatro como se tivessem o mesmo peso, e o candidato costuma chegar com três bem estudadas e uma quase em branco.

A assimetria não é impressão. Na Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias de 2020, contadas as menções por extenso e por sigla ao longo das cinquenta e seis páginas, a insuficiência mitral aparece 115 vezes, a estenose mitral 101, a estenose aórtica 67 e a insuficiência aórtica 38. A lesão deste capítulo é a menos citada das quatro no documento que serve de régua a todas elas, com razão de 3,03 vezes contra a regurgitação mitral.

Quatro barras verticais de alturas decrescentes; as três primeiras preenchidas em cinza e a última, a mais baixa, apenas em contorno.
As quatro lesões do coração esquerdo, na proporção em que a diretriz brasileira fala de cada uma. A barra vazia é a insuficiência aórtica.

Essa lesão tem uma particularidade que a torna cara na prova: o exame físico dela é o mais rico da cardiologia e, ao mesmo tempo, não gradua gravidade. A diretriz lista treze sinais com nome próprio para a insuficiência aórtica e não pendura limiar em nenhum deles. Todos os números que decidem conduta vêm do ecocardiograma. Quem estuda só os epônimos reconhece a doença e não sabe o que fazer com ela; quem estuda só os diâmetros não reconhece a doença na vinheta.

O capítulo trata da forma crônica, que é a que a diretriz organiza em cinco passos e a que as bancas usam mais. A forma aguda aparece no fim, separada, porque é outra doença, com outro exame físico e outro prazo.

A fisiologia que explica o exame inteiro: uma sístole que volta

Na insuficiência aórtica, parte do volume ejetado retorna ao ventrículo esquerdo durante a diástole, através da valva aórtica que não fecha. O ventrículo passa a receber, a cada ciclo, o sangue que vem do átrio esquerdo somado ao que voltou da aorta. Para ejetar esse volume somado sem elevar a pressão de enchimento, ele se dilata e acrescenta sarcômeros em série: é a hipertrofia excêntrica, o remodelamento típico da sobrecarga de volume.

Duas consequências vêm daí e explicam quase tudo o que se apalpa. Primeira: o volume ejetado por batimento fica grande, o que eleva a pressão sistólica. Segunda: parte dele escapa de volta na diástole, o que derruba a pressão diastólica. A diferença entre as duas, a pressão de pulso, se alarga — e é essa pressão de pulso alargada, não o sopro, que produz a coleção de sinais periféricos com nome de gente.

A dilatação é também a razão de a doença ser silenciosa por décadas. Enquanto o ventrículo consegue acomodar o volume regurgitante aumentando de tamanho, o paciente não tem sintoma e a fração de ejeção permanece normal. O preço aparece depois: a dilatação progressiva acaba comprometendo a contratilidade, e a queda da fração de ejeção nesta doença já sinaliza dano estabelecido, não início de problema. É por isso que a diretriz não espera a fração cair para agir e usa também os diâmetros como gatilho.

A angina merece nota, porque é contraintuitiva numa doença sem obstrução coronariana. A diretriz de 2020 a atribui à redução da reserva miocárdica e registra que ela pode ocorrer à noite: durante o sono a bradicardia alonga a diástole, e diástole mais longa significa mais tempo de regurgitação e menor pressão de perfusão coronariana. A dispneia vem do aumento da pressão diastólica final transmitida ao capilar pulmonar; a síncope, do baixo débito efetivo.

O sopro, o de hiperfluxo e os treze nomes que a diretriz lista uma vez

O achado central é um sopro diastólico aspirativo decrescente, que começa logo após a segunda bulha e vai perdendo intensidade, com segunda bulha hipofonética. Ele é de alta frequência e de baixa intensidade, o que o torna fácil de perder: procura-se com o diafragma, na borda esternal esquerda, com o paciente sentado e inclinado para a frente, em apneia expiratória.

Junto dele costuma haver um sopro mesossistólico de hiperfluxo, gerado pelo volume aumentado que atravessa uma valva aórtica que não está estenosada. A diretriz o lista como característica da própria insuficiência aórtica importante. Interpretá-lo como estenose aórtica associada é um erro clássico, e a vinheta que descreve os dois sopros no mesmo paciente costuma estar testando exatamente isso.

Há ainda o sopro de Austin-Flint, que a diretriz descreve com o mecanismo por extenso: o jato regurgitante não permite a abertura plena da valva mitral e gera um sopro diastólico em ruflar. O ruflar diastólico é o som da estenose mitral — de modo que a insuficiência aórtica importante consegue imitar, na ausculta, a outra lesão de sopro diastólico. Diferenciar as duas é trabalho da segunda bulha e dos sinais periféricos.

O quadro de diagnóstico traz, num único item, os sinais de pressão de pulso aumentada: pulso em martelo de água ou de Corrigan, sinal de Musset, sinal de Becker, dança das artérias, sinal de Muller, sinal de Quincke, sinal de Rosenbach, sinal de Gerhard, sinal de Traube, sinal de Duroziez, sinal de Mayne e sinal de Hill. Contados no arquivo inteiro, cada um desses nomes aparece exatamente uma vez nas cinquenta e seis páginas. Nenhum carrega limiar, nenhum reaparece nos passos seguintes e nenhum entra na tabela de recomendações. São listados e nunca mais usados.

A leitura prática disso vale como regra de estudo: os epônimos servem para reconhecer a doença na vinheta e para explicar a fisiologia da pressão de pulso alargada. Eles não graduam nada. Quem procura no exame físico o número que decide operar não vai achar, porque ele não está lá.

A gravidade vem do ecocardiograma — e dois critérios dele não coincidem

O primeiro passo da diretriz, chamado de diagnóstico de insuficiência aórtica importante, entrega os números que graduam a lesão, e todos são ecocardiográficos: vena contracta maior que 0,6 cm, largura do jato maior que 0,65 cm, área do jato de ao menos 60%, fração regurgitante de ao menos 50%, volume regurgitante de ao menos 60 mL por batimento e área efetiva do orifício regurgitante de ao menos 0,30 cm².

Duas observações sobre essa lista. A primeira é de rótulo: a linha da área do jato imprime uma porcentagem e não diz do que ela é porcentagem. Nas tabelas equivalentes da valva mitral, no mesmo documento, o parâmetro correspondente aparece nomeado como percentual da área do átrio esquerdo. Na tabela da aórtica o denominador não está impresso, e quem tentar aplicar o número precisa saber, por fora, contra o que medir.

Duas curvas que se cruzam uma única vez sobre um eixo horizontal, com um pequeno círculo vazio no ponto de cruzamento.
Dois critérios de gravidade que só concordam num ponto: acima dele manda um, abaixo dele manda o outro.

A segunda observação é aritmética, e o documento não a imprime. Fração regurgitante é o volume regurgitante dividido pelo volume sistólico total. Os dois critérios listados lado a lado — volume de ao menos 60 mL e fração de ao menos 50% — só marcam o mesmo paciente quando o volume sistólico total vale exatamente 120 mL, que é sessenta dividido por meio. Abaixo desse volume total, a fração é o critério mais frouxo e captura pacientes que o volume não captura; acima dele, a relação se inverte. A diretriz publica os dois números e nunca o ponto onde se cruzam.

Um ventrículo muito dilatado ejeta volume sistólico total alto, e é justamente o paciente mais dilatado, o que mais interessa, que pode ter volume regurgitante acima de 60 mL com fração abaixo de 50%. Na prova o efeito prático é que um critério isolado não define gravidade: quando a vinheta traz só um dos dois, ela testa se o candidato sabe que os parâmetros ecocardiográficos são lidos em conjunto, e não em cascata.

Há ainda um terceiro ponto, que só aparece quando se compara o primeiro passo com o quarto. O passo do diagnóstico define a lesão importante por fração regurgitante de ao menos 50%; o quadro de complicadores lista, entre os achados de ressonância magnética, fração regurgitante maior que 33%. Mesmo parâmetro, mesmo nome, dois valores separados por razão de 1,52 vezes — e o limiar menor governa o passo posterior, de modo que quem tem 40% não passa do primeiro degrau e nunca chega ao quarto, onde 40% já contaria.

A reconciliação muda o tamanho do achado sem apagá-lo: os 50% estão sob o cabeçalho do ecocardiograma e os 33% sob o da ressonância, e as duas técnicas quantificam regurgitação por caminhos diferentes. O que sobra é mais fino que um erro de digitação — o documento não avisa que os dois não são comparáveis, usa para ambos o mesmo nome e não traz nota que impeça o leitor de os pôr na mesma régua. Quem souber que a modalidade muda o limiar não perde tempo procurando qual dos dois estaria errado.

Etiologia: no Brasil, a causa mais comum não é a da diretriz estrangeira

O segundo passo classifica a causa, e a primeira linha é a etiologia reumática, com três marcas: alta prevalência no Brasil, associação frequente com lesão da valva mitral e ocorrência em adultos jovens. A consequência prática para a vinheta é imediata: adulto jovem, sopro diastólico aórtico e alguma lesão mitral concomitante é doença reumática até prova em contrário, e o antecedente de amigdalites de repetição na infância pesa.

A segunda linha é a valva aórtica bicúspide, também frequente em adultos jovens, com um dado que decide conduta: 40% dos casos cursam com alteração da aorta — aneurisma, dissecção ou coarctação. Bicúspide, portanto, não é diagnóstico só de valva; obriga a olhar a aorta ascendente. A diretriz coloca no quadro de complicadores, sob angiotomografia, a combinação de valva bicúspide com indicação de intervenção e raiz da aorta maior que 45 mm.

A terceira linha reúne as doenças que deformam a geometria da raiz da aorta e regurgitam a valva por fora dela: hipertensão arterial sistêmica, dissecção da aorta ascendente, síndrome de Marfan, espondilite anquilosante, aortite sifilítica, osteogênese imperfeita, síndrome de Ehlers-Danlos, síndrome de Reiter, estenose subaórtica e comunicação interventricular com prolapso da cúspide aórtica. A quarta é a aterosclerótica, típica do idoso e geralmente associada à estenose aórtica. As demais causas ficam numa linha de restos: endocardite infecciosa, degeneração mixomatosa, lesões traumáticas e artrite reumatoide.

Guardar essa ordem tem valor de prova porque a régua de conduta muda com ela. A diretriz brasileira é a única das três que imprime a comparação, e é a única a partir o limiar de diâmetro ventricular por etiologia, dando ao paciente reumático números diferentes dos do não reumático. Uma classificação que em outro país seria curiosidade epidemiológica, aqui entra na decisão cirúrgica.

As três portas da cirurgia, e a sobretaxa de cinco milímetros do reumático

A tabela de recomendações da insuficiência aórtica tem três condições que abrem a porta da troca valvar. A primeira é sintoma, com força de classe um e evidência B. A segunda é fração de ejeção abaixo de 50%, também classe um e evidência B. A terceira são os diâmetros ventriculares, e essa cai para classe dois A — recomendação razoável, não obrigatória.

Os diâmetros vêm partidos por etiologia na coluna brasileira. Para o paciente não reumático, a porta abre com diâmetro diastólico final maior que 70 mm, ou diâmetro sistólico final maior que 50 mm, ou diâmetro sistólico final indexado maior que 25 mm por metro quadrado. Para o reumático, os números sobem exatamente cinco milímetros em cada um: diâmetro diastólico final maior que 75 mm ou sistólico final maior que 55 mm — e, nessa linha, o critério indexado não é oferecido.

A justificativa está na prosa, e é honesta em citar o que a sustenta: um estudo nacional com 75 pacientes assintomáticos com insuficiência aórtica reumática, no qual indicar cirurgia pelo surgimento de sintomas, mesmo em quem já tinha diâmetro diastólico acima de 75 mm e sistólico acima de 55 mm com função ventricular normal, produziu melhora de qualidade de vida, regressão da dilatação e sobrevida de 90,6% em dez anos. Do outro lado, a prosa registra que estudos com predomínio de doença não reumática encontraram desfechos compostos de até 19% ao ano acima de 50 mm de diâmetro sistólico.

Vale notar o que a inferência faz com o dado. O estudo brasileiro mostra que operar tarde ainda funciona no paciente reumático; a tabela converte isso em licença para esperar mais cinco milímetros. São coisas diferentes: a primeira é medida de resultado cirúrgico, a segunda é regra de espera. A diretriz não esconde essa passagem, e é por explicitá-la que o candidato consegue defender a conduta numa prova discursiva.

A régua indexada, o operador que muda e o paciente que fica de fora

A prosa da diretriz explica por que indexar o diâmetro pela superfície corpórea é melhor que usar o valor absoluto: um mesmo diâmetro de 52 mm significa coisas diferentes num homem de um metro e noventa e cinco e numa mulher de um metro e cinquenta e cinco. O texto diz que a indexação é mais apropriada sobretudo para mulheres, e ancora isso num estudo com 246 pacientes assintomáticos.

Aparecem aí duas assimetrias miúdas e verificáveis. A primeira é de operador: a prosa relata que valores iguais ou superiores a 25 mm por metro quadrado se associaram a desfechos negativos, enquanto as duas tabelas do documento imprimem maior que 25. O paciente com exatamente 25 satisfaz o estudo e não satisfaz a tabela — diferença que na prática some, mas que muda a leitura literal de um enunciado que traga o valor cravado.

A segunda é de condicional, e pesa mais. O quadro de complicadores lista o diâmetro sistólico indexado maior que 25 sem nenhum qualificador de etiologia, como se valesse para todos. A tabela de recomendações oferece o critério indexado apenas na linha do não reumático. A régua que a prosa recomenda para o corpo pequeno é a que a tabela deixa de oferecer justamente ao paciente que a própria diretriz descreve como jovem, brasileiro e reumático.

Não há como saber, pelo documento, se a omissão é intencional. O que se pode afirmar é o que está impresso: duas tabelas divergem sobre a quem o critério indexado se aplica, e a divergência recai sobre a etiologia mais comum do país. Para a prova, a leitura segura é a da tabela de recomendações, que carrega classe e evidência.

Mesmos números, letras diferentes: o que a linha comparativa mostra

A tabela de recomendações põe três colunas lado a lado: a sociedade brasileira, a americana e a europeia. Nas duas primeiras linhas há acordo perfeito. Sintoma é classe um evidência B nas três. Fração de ejeção abaixo de 50% é classe um evidência B nas três.

A terceira linha é onde a comparação fica interessante. Para os diâmetros ventriculares, as três colunas imprimem os mesmos três números no cenário não reumático: diastólico maior que 70 mm, sistólico maior que 50 mm, sistólico indexado maior que 25 mm por metro quadrado. E as forças saem diferentes: classe dois A evidência B na brasileira, classe dois A evidência C na americana, classe dois A evidência B na europeia. Os números estão congelados; só a letra da evidência se moveu, e ela se moveu numa coluna só.

Isso desarma a ideia de que divergência entre diretrizes é sempre divergência de número. Aqui não é: é de confiança na mesma base. Como a banca brasileira cobra a régua brasileira, o candidato responde pelos números da coluna nacional.

Há ainda uma célula que só a coluna brasileira preenche. Para o implante valvar transcateter nesta lesão, o documento registra classe dois B evidência C em sintomáticos com expectativa de vida acima de um ano e contraindicação ou risco proibitivo à cirurgia convencional, com asterisco pedindo discussão em equipe. As colunas americana e europeia trazem travessão — nenhuma recomendação. E, uma tabela antes, o próprio documento escreve sobre o mesmo procedimento que ele requer estudos que validem sua indicação. Recomenda com ressalva e, na página anterior, diz que falta evidência.

Seguimento do assintomático: intervalo conforme a gravidade

Quem tem insuficiência aórtica importante, sem sintoma e sem complicador, não opera: acompanha. A tabela de acompanhamento individualizado diz de quanto em quanto tempo, e é aí que aparece o desencontro. Para essa exata condição, a coluna brasileira recomenda reavaliação clínica e ecocardiográfica a cada 0,5 a 1 ano, a americana idem, e a europeia a cada 3 a 6 meses.

Três barras horizontais empilhadas; as duas primeiras iguais e longas, a terceira tracejada e com metade do comprimento, cortada por uma linha vertical.
O intervalo de reavaliação para a mesma condição, nas três sociedades. A linha vertical marca onde a mais curta termina e as outras duas ainda seguem.

Duas coisas se somam nessa linha. A primeira é de unidade: duas células falam em anos e a terceira em meses, na mesma linha da mesma tabela, obrigando o leitor a converter antes de comparar. Convertidas, elas mostram que o intervalo mais frouxo da coluna europeia, seis meses, é o mais apertado das outras duas — a sociedade europeia nunca é mais lenta, e pode ser duas vezes mais rápida.

A segunda é o que acontece nas linhas de baixo. Para lesão moderada, as três concordam em 1 a 2 anos. Para a discreta, a brasileira e a americana dizem 3 a 5 anos e a europeia repete 1 a 2 anos — dá à lesão discreta o mesmo relógio da moderada, e não separa as duas. As três réguas concordam no meio e divergem nas duas pontas, o oposto do que a intuição espera.

O número a guardar é o brasileiro: semestral a anual no importante assintomático sem complicadores, 1 a 2 anos no moderado, 3 a 5 anos no discreto.

Unidades e limiares: conferir antes de decidir

As tabelas de acompanhamento têm todas o mesmo desenho: a linha da lesão moderada traz uma faixa entre dois limites, e a linha da lesão discreta traz um limiar único com sinal de menor. Na tabela da insuficiência mitral primária, a linha moderada lista área efetiva do orifício regurgitante de 0,2 a 0,39 cm². A linha discreta, logo abaixo, imprime área efetiva do orifício regurgitante menor que 0,2 a 0,39 mm².

São dois defeitos numa célula só. O primeiro é a faixa: a linha de baixo carrega o intervalo inteiro da linha de cima, com um sinal de menor colado na frente, gerando um critério que não se pode aplicar — menor que uma faixa não é um limiar. O segundo é a unidade: centímetro quadrado virou milímetro quadrado, e a diferença entre os dois é de cem vezes, o que torna o valor fisicamente impossível para um orifício regurgitante.

O defeito é isolado, e dá para provar que é. Contadas as ocorrências no documento inteiro, o símbolo de centímetro quadrado aparece 36 vezes e o de milímetro quadrado aparece uma única vez — nessa célula. As outras quatro células da mesma linha discreta estão bem formadas: vena contracta menor que 0,3 cm, fração regurgitante menor que 30%, volume regurgitante menor que 30 mL por batimento. Quatro certas, uma quebrada, e é possível dizer exatamente qual.

O valor correto está duas tabelas adiante, no mesmo documento. A tabela de acompanhamento da insuficiência aórtica escreve a linha discreta como área efetiva do orifício regurgitante menor que 0,10 cm² — limiar único, unidade certa, sem faixa herdada. A tabela irmã faz exatamente o que a defeituosa deveria ter feito, o que permite recuperar a forma correta sem sair da fonte.

Nada disso muda conduta: ninguém decide operar uma insuficiência mitral discreta. Serve para o que é mais útil na prova: tabela impressa não é oráculo. Quando um número não fecha com a fisiologia, vale conferir a tabela análoga antes de mudar a resposta.

Insuficiência aórtica aguda: outra fisiologia, outra urgência

Uma busca que devolve zero também informa. A tabela de recomendações da insuficiência aórtica não tem nenhuma linha farmacológica: só troca valvar cirúrgica e implante transcateter. Não há vasodilatador, não há inibidor da enzima conversora, não há betabloqueador. A palavra vasodilatador aparece perto desta lesão em uma única situação no documento, e é numa tabela de risco de gestação, ao lado de dieta hipossódica e da manutenção da profilaxia da doença reumática.

A pergunta clássica — vasodilatador adia a cirurgia na forma crônica grave assintomática? — é respondida por ausência: não há recomendação para isso. Tratar hipertensão arterial em quem tem a lesão é outra coisa, e continua indicado; o erro é oferecer droga como alternativa à operação quando um dos três gatilhos já abriu.

A forma aguda merece o fecho porque a vinheta que a traz costuma parecer a crônica. As causas são endocardite infecciosa e dissecção da aorta ascendente. Como não houve tempo de dilatar, o ventrículo é de tamanho e complacência normais: o volume regurgitante entra num compartimento rígido e a pressão diastólica final dispara.

O quadro se inverte ponto a ponto. Não há pressão de pulso alargada, porque não houve tempo de aumentar o volume ejetado, e a pressão sistólica costuma estar baixa. Não há os sinais periféricos com nome próprio. O sopro diastólico é curto e discreto, porque a pressão do ventrículo iguala rápido a da aorta, e pode passar despercebido. Em compensação há taquicardia, edema agudo de pulmão e choque. A conduta é cirurgia de urgência, e nenhum dos limiares de diâmetro discutidos aqui se aplica — eles foram construídos para o ventrículo que teve décadas para crescer.

04

Do sopro à decisão: os cinco degraus da diretriz, na ordem em que a prova usa

A diretriz brasileira organiza a insuficiência aórtica em cinco passos, e a vinheta de prova quase sempre entrega os degraus fora de ordem. O caminho seguro é sempre o mesmo: confirmar que a lesão é anatomicamente importante, nomear a causa, procurar sintoma, procurar complicador e só então decidir entre operar e reavaliar. Pular a etiologia é o erro que mais custa em questão brasileira, porque é ela que fixa o limiar de diâmetro.

  1. 1Confirme que a lesão é anatomicamente importante antes de qualquer conduta. O exame físico reconhece a doença mas não a gradua: quem gradua é o ecocardiograma, com vena contracta acima de 0,6 cm, fração regurgitante de ao menos 50%, volume regurgitante de ao menos 60 mL por batimento e orifício regurgitante efetivo de ao menos 0,30 cm². Lesão discreta ou moderada não abre porta cirúrgica nenhuma.
  2. 2Nomeie a etiologia. Adulto jovem com lesão mitral associada aponta para doença reumática, que a diretriz descreve como de alta prevalência no Brasil. Valva bicúspide, também em jovem, obriga a medir a aorta ascendente. Idoso com estenose aórtica associada sugere causa aterosclerótica. Doença de raiz aórtica reúne hipertensão, síndrome de Marfan, espondilite anquilosante e aortite sifilítica.
  3. 3Procure sintoma. Dispneia, angina — inclusive noturna, pela bradicardia do sono — e síncope. Sintoma atribuível à valvopatia é indicação de troca valvar com a força máxima da diretriz, classe um evidência B, e encerra a discussão sobre diâmetros.
  4. 4Procure complicador em quem não tem sintoma. Fração de ejeção abaixo de 50% é o primeiro e vale classe um. Depois vêm os diâmetros: no não reumático, diastólico acima de 70 mm ou sistólico acima de 50 mm ou sistólico indexado acima de 25 mm por metro quadrado; no reumático, diastólico acima de 75 mm ou sistólico acima de 55 mm. Some a raiz da aorta acima de 45 mm na valva bicúspide com indicação de intervenção.
  5. 5Decida. Com sintoma ou com qualquer complicador, troca valvar cirúrgica. Sem sintoma e sem complicador, acompanhamento clínico e ecocardiográfico a cada seis meses a um ano, sem droga para adiar a cirurgia — a tabela de recomendações da diretriz não tem linha farmacológica alguma.

Primeiro degrau: importante ou não

Sinal periférico bonito não gradua lesão. Antes de discutir cirurgia, confirme pelo ecocardiograma que a regurgitação é anatomicamente importante. Lesão moderada com dez epônimos no exame continua sendo lesão moderada, e o que ela pede é agenda de retorno, não sala cirúrgica.

Segundo degrau: a causa muda o número

No Brasil a etiologia entra na conta. O paciente reumático tem limiar de diâmetro cinco milímetros acima do não reumático nas duas medidas, e não recebe da tabela de recomendações o critério indexado pela superfície corpórea. Deixar a etiologia de fora faz o candidato indicar cirurgia cedo demais no jovem reumático.

Terceiro degrau: sintoma encerra a conversa

Dispneia, angina ou síncope atribuíveis à valvopatia indicam troca valvar com a força máxima, e nesse momento os diâmetros deixam de importar. A angina noturna é a pegadinha: sem coronariopatia, ela vem da diástole alongada pela bradicardia do sono.

Quarto degrau: complicador no assintomático

Fração de ejeção abaixo de 50% já é dano estabelecido nesta doença, não início de problema, e por isso a diretriz não espera por ela sozinha: os diâmetros ventriculares abrem a porta antes. Raiz da aorta acima de 45 mm em valva bicúspide entra na mesma decisão.

Quinto degrau: operar ou remarcar

Sem sintoma e sem complicador, a conduta é retorno clínico e ecocardiográfico a cada seis meses a um ano. Não existe droga recomendada para adiar a cirurgia: a tabela de recomendações desta lesão não tem nenhuma linha farmacológica, só troca valvar e implante transcateter.

Os três gatilhos de cirurgia, com a força que a diretriz brasileira dá a cada um

GatilhoNúmerosClasse e evidência
Sintoma atribuível à valvopatiaDispneia, angina ou síncopeClasse um, evidência B
Disfunção ventricularFração de ejeção abaixo de 50%Classe um, evidência B
Diâmetros, não reumáticoDiastólico acima de 70 mm, ou sistólico acima de 50 mm, ou sistólico indexado acima de 25 mm por metro quadradoClasse dois A, evidência B
Diâmetros, reumáticoDiastólico acima de 75 mm, ou sistólico acima de 55 mmClasse dois A, evidência B
Implante transcateterSintomático, sobrevida esperada acima de um ano, risco cirúrgico proibitivoClasse dois B, evidência C

Crônica e aguda: o mesmo nome, dois exames físicos opostos

AtributoCrônicaAguda
Tamanho do ventrículoMuito dilatado, hipertrofia excêntricaNormal, sem tempo de dilatar
Pressão de pulsoAlargada, com sistólica alta e diastólica baixaEstreita, com sistólica frequentemente baixa
Sinais periféricos com nome próprioPresentes e abundantesAusentes
Sopro diastólicoLongo, aspirativo, decrescenteCurto e discreto, fácil de perder
Causa típicaReumática, bicúspide, doença de raizEndocardite infecciosa, dissecção de aorta
Prazo da condutaAnos de acompanhamento programadoCirurgia de urgência

Os limiares de diâmetro são de classe dois A, não de classe um: a diretriz os chama de razoáveis, não de obrigatórios. Sintoma e fração de ejeção abaixo de 50% é que carregam a força máxima. Enunciado que pede a conduta mais fortemente indicada está pedindo um destes dois, não o diâmetro.

O critério indexado pela superfície corpórea aparece com dois recortes diferentes dentro do mesmo capítulo da diretriz: o quadro de complicadores o lista sem qualquer qualificador de etiologia, e a tabela de recomendações o oferece apenas na linha do paciente não reumático. Para responder prova, vale a tabela de recomendações.

O intervalo de reavaliação do assintomático sem complicadores é de seis meses a um ano na régua brasileira e na americana, e de três a seis meses na europeia. Como duas colunas usam anos e uma usa meses na mesma linha, o desencontro só aparece depois de converter as unidades.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O limiar de diâmetro ventricular no paciente reumático assintomático

Partir o limiar por etiologia, somando cinco milímetros ao reumático

A régua brasileira separa as duas populações: no não reumático indica troca valvar com diâmetro diastólico final acima de 70 mm ou sistólico final acima de 50 mm; no reumático, exige diastólico acima de 75 mm ou sistólico acima de 55 mm. A justificativa impressa é um estudo nacional com setenta e cinco pacientes assintomáticos com doença reumática, no qual operar pelo surgimento de sintomas, mesmo acima desses diâmetros e com função normal, deu sobrevida de noventa vírgula seis por cento em dez anos.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias de 2020, quadro de complicadores e tabela de recomendações da insuficiência aórtica.

Um único conjunto de números, sem separar por etiologia

As colunas americana e europeia, tais como a própria diretriz brasileira as reproduz, imprimem um só conjunto de limiares para todos: diâmetro diastólico acima de 70 mm ou sistólico acima de 50 mm ou sistólico indexado acima de 25 mm por metro quadrado. Não há linha separada para doença reumática, o que é coerente com a epidemiologia daqueles países, onde a causa dominante é degenerativa ou de raiz aórtica.

Colunas comparativas americana e europeia impressas na tabela de recomendações da diretriz brasileira de 2020.

Na prova

Quando o enunciado disser explicitamente que segue a sociedade brasileira, ou quando a vinheta trouxer um adulto jovem com lesão mitral associada e história de amigdalites de repetição, a etiologia reumática está marcada e o candidato deve usar 75 e 55 milímetros. Quando a vinheta trouxer valva bicúspide, doença de raiz aórtica ou idoso com estenose associada, valem 70 e 50 milímetros e o critério indexado também está disponível. Um enunciado com diâmetro sistólico de 52 milímetros muda de resposta conforme a causa, e é exatamente por isso que ele é escolhido pelas bancas: ele fica entre os dois limiares.

De quanto em quanto tempo reavaliar o assintomático com lesão importante sem complicadores

A cada seis meses a um ano

A régua brasileira e a americana recomendam reavaliação clínica e ecocardiográfica com intervalo de meio ano a um ano para o paciente com insuficiência aórtica importante, assintomático e sem complicadores. As duas células estão escritas em anos na tabela comparativa.

Tabela de acompanhamento individualizado da insuficiência aórtica, diretriz brasileira de 2020, colunas brasileira e americana.

A cada três a seis meses

A coluna europeia da mesma tabela recomenda intervalo de três a seis meses para a mesma condição, escrito em meses. Convertido, o intervalo mais longo dessa coluna coincide com o mais curto das outras duas, de modo que a régua europeia nunca reavalia mais devagar e pode reavaliar com o dobro da frequência.

Tabela de acompanhamento individualizado da insuficiência aórtica, diretriz brasileira de 2020, coluna europeia.

Na prova

A resposta de prova brasileira é semestral a anual. O detalhe que distingue o candidato preparado é perceber que a mesma linha da mesma tabela mistura duas unidades, anos numa ponta e meses na outra, e que a comparação só faz sentido depois de converter. Se o enunciado citar a régua europeia de forma explícita, a resposta muda para três a seis meses. Nas linhas de lesão moderada as três colunas concordam em um a dois anos, e é nas pontas que elas se afastam.

Implante valvar transcateter na insuficiência aórtica

Cabe em nicho estreito, com classe dois B e evidência C

A régua brasileira registra recomendação de classe dois B com evidência C para o implante transcateter em pacientes sintomáticos, com expectativa de vida acima de um ano e com contraindicação ou risco proibitivo à cirurgia convencional, marcando ainda a necessidade de discussão em equipe multiprofissional.

Tabela de recomendações da insuficiência aórtica, coluna brasileira, diretriz de 2020.

Sem recomendação, e faltam estudos que validem a indicação

As colunas americana e europeia da mesma tabela trazem apenas travessão para esse procedimento nesta lesão, isto é, nenhuma recomendação. A própria diretriz brasileira, na tabela imediatamente anterior, escreve sobre o mesmo procedimento que ele requer estudos que validem sua indicação, colocando a cirurgia de troca valvar como tratamento de escolha.

Tabela de intervenção e tabela de recomendações da insuficiência aórtica, diretriz brasileira de 2020.

Na prova

O tratamento de escolha da insuficiência aórtica crônica importante é a troca valvar cirúrgica, e é essa a resposta esperada em qualquer enunciado que não descreva risco cirúrgico proibitivo. O implante transcateter só entra quando a vinheta construir explicitamente o nicho: sintomático, inoperável ou de altíssimo risco, com sobrevida esperada superior a um ano. Alternativa que ofereça transcateter como primeira escolha em paciente operável está errada.

06

Caso resolvido

Mulher de 26 anos, natural do interior do Nordeste, encaminhada por sopro detectado em consulta pré-natal anterior. Refere amigdalites de repetição na infância e um episódio de artrite migratória aos onze anos, sem seguimento. Nega dispneia, angina e síncope, e mantém rotina de trabalho doméstico pesado sem limitação. Pressão arterial de 145 por 45 mmHg em ambos os braços. Pulso radial de ascensão rápida e alta amplitude. Ausculta com sopro diastólico aspirativo decrescente em borda esternal esquerda, sopro mesossistólico no foco aórtico e sopro sistólico suave em foco mitral. Ecocardiograma: insuficiência aórtica importante, com vena contracta de 0,7 cm e volume regurgitante de 68 mL por batimento; insuficiência mitral discreta; fração de ejeção de 61%; diâmetro diastólico final de 68 mm e diâmetro sistólico final de 52 mm. Superfície corpórea de 1,55 metro quadrado.
Passo 1
Confirme que a lesão é anatomicamente importante antes de qualquer outra coisa. Vena contracta de 0,7 cm supera o limiar de 0,6 cm e volume regurgitante de 68 mL por batimento supera o de 60 mL. A lesão é importante, e só por isso os passos seguintes fazem sentido. Os sinais periféricos de pressão de pulso alargada reforçam o reconhecimento, mas não entram na graduação.
Passo 2
Nomeie a etiologia, porque é ela que fixa o limiar. Mulher jovem, amigdalites de repetição, artrite migratória na infância e insuficiência mitral associada compõem o quadro de doença reumática, que a diretriz brasileira descreve como de alta prevalência no país, frequente em adultos jovens e habitualmente acompanhada de lesão mitral. Este passo é o que a maioria dos candidatos pula.
Passo 3
Procure sintoma. Ela nega dispneia, angina e síncope, e mantém atividade física pesada sem limitação, o que torna improvável sintoma não relatado. Sem sintoma, o gatilho de classe um por sintoma não se aplica, e a decisão passa a depender inteiramente dos complicadores.
Passo 4
Procure complicador com a régua da etiologia certa. A fração de ejeção de 61% está acima de 50%, então não há disfunção. O diâmetro diastólico de 68 mm não alcança os 75 mm exigidos no reumático, e o sistólico de 52 mm não alcança os 55 mm. Pela régua do não reumático, 52 mm já teria aberto a porta cirúrgica; pela do reumático, não abre. O critério indexado, que daria 33,5 mm por metro quadrado nesta paciente, é o que a tabela de recomendações não oferece na linha reumática.
Passo 5
Decida. Sem sintoma e sem complicador pela régua aplicável, a conduta é acompanhamento clínico e ecocardiográfico a cada seis meses a um ano, sem droga para adiar cirurgia. Registre em prontuário a etiologia e os diâmetros atuais, porque a próxima decisão dependerá da variação deles. Oriente procura imediata se surgir dispneia aos esforços habituais, angina ou síncope.
07

Agora feche você

Homem de 44 anos, previamente hígido, dá entrada no pronto-socorro com dispneia de início súbito há seis horas, febre de 38,6 graus há duas semanas e mal-estar. Nega dor torácica de forte intensidade. Ao exame: taquipneico, saturação de 88% em ar ambiente, pressão arterial de 92 por 68 mmHg, frequência cardíaca de 128 batimentos por minuto, extremidades frias. Ausculta pulmonar com estertores crepitantes difusos até os ápices. Ausculta cardíaca com terceira bulha e um sopro diastólico curto e discreto em borda esternal esquerda, difícil de caracterizar em meio à taquicardia. Não há pulso de ascensão rápida, não há dança das artérias e a pressão de pulso é estreita. Ecocardiograma à beira do leito: insuficiência aórtica importante, ventrículo esquerdo de dimensões normais, fração de ejeção preservada, imagem móvel aderida à cúspide aórtica.
Passo 1
Comece pelo que está ausente, não pelo que está presente. Insuficiência aórtica importante com pressão de pulso estreita, sem nenhum dos sinais periféricos e com sopro diastólico curto é o retrato da forma aguda. Escreva por que a ausência desses sinais, longe de afastar o diagnóstico, o confirma.
Passo 2
Explique o ventrículo de dimensões normais. Diga por que um ventrículo que não teve tempo de dilatar transforma o mesmo volume regurgitante em pressão diastólica final muito elevada, e ligue isso ao edema pulmonar que a ausculta mostra e à terceira bulha.
Passo 3
Nomeie a etiologia provável e o que a sustenta na vinheta. Relacione a febre de duas semanas, o mal-estar e a imagem móvel aderida à cúspide, e diga qual é o segundo diagnóstico que precisa ser afastado numa insuficiência aórtica aguda e o que na história pesa contra ele aqui.
Passo 4
Decida sobre os limiares. Escreva por que os diâmetros ventriculares da diretriz não ajudam neste paciente e por que aguardar dilatação seria erro. Diga qual é a conduta quanto ao momento da intervenção e o que se faz enquanto ela é preparada.
Passo 5
Feche com os exames que faltam e o que cada um responde. Liste o que precisa ser colhido antes de qualquer antimicrobiano e por quê, e diga qual exame de imagem complementar você pediria para avaliar a valva e a aorta ascendente antes da sala cirúrgica.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler o sopro sistólico como estenose aórtica associada O sopro mesossistólico de hiperfluxo é característica da própria insuficiência aórtica importante e não significa que a valva também esteja estenosada: ele é gerado pelo volume aumentado que atravessa uma valva de área normal. A vinheta que descreve sopro diastólico aspirativo mais sopro sistólico no foco aórtico num jovem está descrevendo uma lesão só. Diagnosticar dupla lesão aórtica aí é o erro que a questão quer.
  2. 2Achar que o ruflar no ápice fecha estenose mitral O sopro de Austin-Flint é um ruflar diastólico no ápice produzido pelo jato regurgitante aórtico, que atrapalha a abertura da valva mitral. A diretriz descreve o mecanismo por extenso justamente porque a confusão é esperada. O que separa os dois é o resto do quadro: pressão de pulso alargada e sinais periféricos apontam para a aórtica, e a primeira bulha hiperfonética com estalido de abertura aponta para a mitral.
  3. 3Usar os limiares do não reumático num paciente reumático Diâmetro sistólico final de 52 milímetros num assintomático com função normal indica troca valvar se a etiologia for bicúspide ou de raiz aórtica, e não indica se a etiologia for reumática, porque nesse caso o limiar é 55. Um único número, duas condutas opostas, e a chave está na frase da história clínica que dá a causa. Essa é a armadilha mais rentável do assunto em banca brasileira.
  4. 4Esperar a fração de ejeção cair para indicar cirurgia Nesta lesão a fração de ejeção só cai quando o dano miocárdico já se instalou, porque a dilatação compensa por décadas. Por isso a diretriz oferece três gatilhos e não um: sintoma, fração abaixo de 50% e diâmetros. Candidato que responde acompanhar num paciente com diâmetro sistólico de 58 milímetros só porque a fração está em 57% está usando o gatilho errado.
  5. 5Oferecer vasodilatador para adiar a cirurgia A tabela de recomendações da insuficiência aórtica não tem nenhuma linha farmacológica: só troca valvar cirúrgica e implante transcateter. Não existe recomendação de vasodilatador, inibidor da enzima conversora ou betabloqueador para retardar a operação em quem já tem indicação. Tratar hipertensão arterial coexistente é outra coisa e permanece indicado.
  6. 6Aplicar os limiares crônicos à insuficiência aórtica aguda Na forma aguda o ventrículo tem tamanho normal, e nenhum dos limiares de diâmetro se aplica porque eles foram construídos para o ventrículo que teve décadas para crescer. Endocardite ou dissecção de aorta com edema agudo de pulmão e hipotensão pedem cirurgia de urgência mesmo com diâmetros normais. Esperar dilatação nesse cenário custa o paciente.
  7. 7Procurar pressão de pulso alargada na forma aguda Os sinais periféricos com nome próprio dependem de volume ejetado aumentado, que exige um ventrículo dilatado. Na apresentação aguda não houve tempo para isso: a pressão de pulso é estreita, a sistólica costuma estar baixa e o sopro diastólico é curto e discreto. Descartar insuficiência aórtica aguda por ausência de sinal de Musset é inverter o raciocínio.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é de insuficiência aórtica aguda por endocardite infecciosa, e o dado que a define é o conjunto do que está ausente: não há pressão de pulso alargada, não há sinais periféricos e o sopro diastólico é curto. Isso ocorre porque o ventrículo tem tamanho e complacência normais e recebe o volume regurgitante num compartimento rígido, o que dispara a pressão diastólica final e produz edema pulmonar e choque sem qualquer dilatação. Os limiares de diâmetro ventricular da diretriz foram construídos para o ventrículo que teve décadas para crescer e não têm aplicação nesta apresentação: esperar que os diâmetros aumentem significa perder o paciente. A conduta é intervenção cirúrgica de urgência, com antibioticoterapia iniciada após a coleta de hemoculturas e mantida no perioperatório. Diâmetros normais e fração preservada aqui não são sinal de reserva, e sim consequência do curto tempo de evolução.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reconte, sem olhar, os três gatilhos de cirurgia da insuficiência aórtica crônica importante e a força de cada um: sintoma atribuível à valvopatia e fração de ejeção abaixo de 50% carregam classe um evidência B, e os diâmetros ventriculares carregam classe dois A. Em seguida escreva os quatro números do não reumático e os dois do reumático, lembrando que a diferença entre as duas colunas é de exatamente cinco milímetros em cada medida e que o critério indexado pela superfície corpórea aparece apenas na linha do não reumático. Feche recitando os três achados de ausculta que aparecem juntos nesta lesão — o sopro diastólico aspirativo decrescente, o sopro mesossistólico de hiperfluxo e o ruflar de Austin-Flint no ápice — e diga em voz alta por que nenhum dos três, nem os treze sinais periféricos com nome próprio, gradua a gravidade.

em 30 dias

Monte de memória a tabela de duas colunas que separa a forma crônica da aguda, linha a linha: tamanho do ventrículo, pressão de pulso, presença dos sinais periféricos, duração do sopro diastólico, causa típica e prazo da conduta. Depois refaça a conta que a diretriz não imprime: volume regurgitante de 60 mililitros e fração regurgitante de 50% descrevem o mesmo paciente apenas quando o volume sistólico total vale 120 mililitros, e acima ou abaixo disso os dois critérios discordam. Termine revisando o intervalo de reavaliação do assintomático sem complicadores na régua brasileira, seis meses a um ano, e por que ele difere da coluna europeia, que usa três a seis meses e por isso nunca reavalia mais devagar que as outras duas.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Adulto jovem encaminhado por sopro, sem queixa alguma. Colha a história com atenção especial a infecções de garganta na infância, artrite migratória e episódios febris prolongados, procure no exame físico a pressão de pulso e os sinais periféricos que a acompanham, distinga os sopros que podem coexistir nesta lesão e defina a etiologia antes de discutir qualquer limiar de cirurgia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Insuficiência aórtica crônica – Insuficiência aórtica: a quarta lesão, que a tabela nomeia e quase não ensina — Preparatório para provas | OsceLabs