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Clínica MédicaCardiologia

Crise hipertensiva

Quem trata número erra a questão. O que separa emergência de elevação importante sem lesão e de pseudocrise não é o valor da pressão — é a existência de lesão aguda de órgão-alvo, e é isso que decide entre UTI, alta e analgesia.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 48 anos, hipertenso em uso irregular de medicação, chega à UPA com cefaleia intensa e PA de 210/130 mmHg. Ao exame neurológico apresenta déficit motor em hemicorpo direito de início há 1 hora e rebaixamento leve do nível de consciência. Qual conduta em relação à pressão arterial é a mais apropriada neste momento?

02

Como esse tema cai

Existe um capítulo desta apostila sobre hipertensão arterial sistêmica: diagnóstico, estratificação, metas, tratamento crônico. Este aqui é outro problema. É o paciente que chega agora, com a pressão muito alta, e a pergunta é o que fazer com ele nos próximos sessenta minutos.

O erro que este texto existe para matar é o mais cobrado da cardiologia: tratar número. Pressão de 220/120 não é diagnóstico de nada — é um dado. O que decide a conduta é a existência de lesão aguda de órgão-alvo. Com lesão aguda, o paciente vai para a UTI e recebe droga intravenosa. Sem lesão aguda, ele recebe medicação oral e alta com retorno marcado. E numa parcela grande dos casos ele nem hipertenso descompensado é: está com dor, com medo, com a bexiga cheia, ou foi medido errado.

Emergência, elevação importante sem lesão de órgão-alvo e pseudocrise são três categorias, não três degraus de uma escala. Não existe 'meia emergência'. Um paciente com 240/130 assintomático e sem lesão aguda está numa categoria menos grave do que outro com 170/100 dissecando a aorta. Quem organiza o raciocínio pelo valor da pressão inverte a prioridade da sala.

A segunda tese é contraintuitiva e vale a questão inteira: baixar rápido faz mal. Quem viveu anos com pressão alta deslocou a curva de autorregulação cerebral, coronariana e renal para cima. Devolver esse paciente a 120/80 em vinte minutos não o normaliza — hipoperfunde. As duas fontes brasileiras dizem a mesma coisa com todas as letras: redução rápida e intensa produz AVC, infarto e cegueira.

As fontes deste capítulo são duas brasileiras de 2025 que não se sobrepõem por acaso. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, aprovado pela Portaria sectics/MS nº 49/2025, cobre o quadro agudo com detalhe — inclusive dose de gestante e critério de encaminhamento da unidade básica. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 (SBC, SBH e SBN) traz o capítulo 11 inteiro sobre crise hipertensiva, e é ela que reescreveu a nomenclatura. As duas divergem em pontos específicos, e é exatamente aí que a prova tem margem — por isso há uma seção só para isso mais adiante.

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O que muda decisão

Três quadros, não três degraus

Crise hipertensiva, na definição da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, é a elevação aguda e importante da pressão arterial, acompanhada ou não de lesão aguda de órgão-alvo. É um guarda-chuva, não um diagnóstico. Debaixo dele moram dois quadros com condutas opostas, e ao lado deles um terceiro que nem crise é.

Emergência hipertensiva é a situação clínica sintomática com elevação acentuada da pressão — a diretriz de 2025 define arbitrariamente como sistólica de 180 mmHg ou mais e/ou diastólica de 110 mmHg ou mais — acompanhada de lesão de órgão-alvo aguda e progressiva. A palavra que carrega o peso é 'progressiva': é dano acontecendo agora, não cicatriz de dano antigo. Hipertrofia ventricular no eletrocardiograma de um hipertenso de vinte anos não é emergência; é lesão crônica. E a diretriz é explícita ao dizer que a emergência pode acontecer com valores menores que esse corte, dependendo da situação — a gestante com 165/110 e cefaleia é o exemplo diário.

O segundo quadro perdeu o nome em 2025. A diretriz brasileira registra que se discute o uso do termo 'urgência hipertensiva' e recomenda que a nomenclatura apropriada passe a ser 'elevação importante da pressão arterial sem lesão progressiva de órgãos-alvo'. Mudou o rótulo porque o rótulo antigo mentia: chamar de urgência algo que se resolve no ambulatório em uma semana empurra o médico para a agulha. O Quadro 11.1 da diretriz põe os dois lado a lado — de um lado, nível pressórico muito alto, sem lesão aguda, sem risco iminente de morte, combinação medicamentosa oral e acompanhamento ambulatorial precoce em 1 a 7 dias; do outro, nível pressórico muito alto, com lesão aguda e progressiva, com risco iminente de morte, medicamentos parenterais e internação em UTI.

O terceiro quadro é a pseudocrise hipertensiva, e é o mais frequente dos três no pronto-socorro. A diretriz a define como elevação da pressão sem lesão de órgão-alvo e sem risco imediato de morte, geralmente em paciente com hipertensão não controlada, oligossintomático ou assintomático, ou provocada por evento emocional, doloroso ou por desconforto — e nomeia enxaqueca, tontura rotatória, cefaleia de origem musculoesquelética e síndrome do pânico. O PCDT do Ministério da Saúde acrescenta à lista a retenção urinária, a hipertensão do avental branco e o erro de técnica de medida. A pressão não é a doença: é o termômetro da dor, da ansiedade ou do manguito errado. Tratar a pressão sem tratar a causa é perseguir o reflexo no espelho.

Repare que as duas fontes brasileiras arrumam a pseudocrise em lugares diferentes da árvore. Na diretriz da SBC, ela é um diagnóstico diferencial da crise hipertensiva, ao lado dela. No PCDT, ela é uma subclassificação da urgência hipertensiva — as 'falsas' urgências. A conduta prática não muda; o que muda é o vocabulário do enunciado.

Os números dão a proporção do problema. A crise hipertensiva responde por 0,45% a 0,59% de todos os atendimentos de emergência hospitalar, e a emergência hipertensiva é apenas 25% das crises — ou seja, três em cada quatro pacientes rotulados de 'crise' não têm lesão aguda. As emergências, diz o PCDT, são menos de 1% das consultas de emergência. Quando a emergência acontece, as manifestações mais frequentes são o AVC isquêmico (39% a 40% dos casos, pelo PCDT) e o edema agudo de pulmão com insuficiência ventricular esquerda (25% a 32%, somado às síndromes coronarianas); a dissecção aguda de aorta é 2% e as emergências da gestação, outros 2%.

E o prognóstico justifica a distinção: a letalidade da emergência hipertensiva não tratada pode chegar a cerca de 80% ao final de um ano, e a sobrevida em cinco anos é maior em quem teve elevação importante sem lesão do que em quem teve emergência. São doenças diferentes com o mesmo número no monitor.

O que conta como lesão aguda de órgão-alvo

Se a lesão aguda é o que define a emergência, então a pergunta clínica inteira é: qual órgão está sendo lesado agora, e como eu comprovo isso? A diretriz de 2025 organiza a resposta órgão por órgão no Quadro 11.3, e é uma lista curta o bastante para decorar.

Cérebro. Encefalopatia hipertensiva, AVC isquêmico, hemorragia intracerebral e hemorragia subaracnoide. Os sintomas que puxam para cá: vertigem, cefaleia, alteração visual, auditiva ou da fala, paresia ou parestesias, confusão mental, agitação, sonolência. No exame: alteração do nível de consciência, convulsão, déficit focal, rigidez de nuca. A investigação é tomografia ou ressonância de crânio, com punção lombar quando a suspeita é de hemorragia subaracnoide com imagem normal. Um detalhe que decide questão: a encefalopatia hipertensiva é edema cerebral difuso, de instalação insidiosa, e cursa com cefaleia holocraniana, náuseas, vômitos, alteração visual, confusão, convulsões generalizadas e hiperreflexia — sem déficit localizado. Se há déficit focal, a hipótese muda para lesão neurológica focal, e a imagem deixa de ser confirmatória e passa a ser obrigatória.

Coração e aorta. Insuficiência cardíaca com edema agudo de pulmão, síndrome coronariana aguda e dissecção aguda de aorta. Sintomas: dor torácica, abdominal, dorsal ou lombar, dispneia, ortopneia, palpitações, edema. No exame: ritmo de galope, estase jugular, congestão pulmonar e periférica, sopros cardíacos e vasculares, assimetria ou ausência de pulsos periféricos, diferença de pressão entre os membros. A investigação é eletrocardiograma, radiografia de tórax, ecocardiograma, saturação de oxigênio, marcadores de necrose miocárdica, peptídeos natriuréticos e, para a aorta, angiotomografia ou ressonância de tórax. Medir a pressão nos dois braços deixa de ser preciosismo aqui: é o que denuncia a dissecção.

Rim. Injúria renal aguda e microangiopatia trombótica. Alteração no volume ou na frequência miccional, urina espumosa ou hematúrica, edema, náuseas, anorexia. O laboratório é sedimento urinário com hematúria dismórfica e/ou proteinúria, relação albuminúria/creatininúria, hemograma, creatinina, ureia, eletrólitos, gasometria venosa e desidrogenase lática — esta última porque a hemólise microangiopática é parte do quadro grave.

Retina. É o órgão que se examina de graça, à beira do leito, e que quase ninguém examina. A retinopatia que conta como lesão aguda é a de graus III e IV de Keith-Wagener-Barker: hemorragias retinianas e exsudatos algodonosos, com papiledema no grau IV. Espasmos e cruzamentos arteriovenosos patológicos são as alterações dos graus iniciais, crônicas, e não caracterizam emergência.

Além disso, todo paciente com suspeita de emergência hipertensiva faz um pacote mínimo: eletrocardiograma, radiografia de tórax, hemograma, troponina, creatinina, urina tipo I e potássio — e teste de gravidez em toda mulher em idade fértil. Essa última linha é do próprio quadro da diretriz e é o tipo de item que a banca transforma em alternativa esquecida.

Duas entidades merecem nome próprio porque aparecem em enunciado. A primeira é a hipertensão acelerada-maligna: emergência com elevação excessiva da pressão e progressão acelerada da doença, caracterizada por lesão microvascular aguda, dano endotelial sistêmico e perda da autorregulação, afetando retina, cérebro, coração, rins e vasos. Os achados característicos são retinopatia grau 4 de Keith-Wagener-Barker, com ou sem injúria renal aguda, e necrose fibrinoide de arteríolas renais. A diretriz de 2025 resolve a velha confusão de vocabulário: 'acelerada' é quando há hemorragias retinianas e exsudatos sem papiledema; 'maligna' é com papiledema; e os termos passaram a ser considerados intercambiáveis, sob a sigla única de hipertensão acelerada-maligna. Sem tratamento, a mortalidade chega a 80% em dois anos. Geralmente, mas não obrigatoriamente, cursa com hipertensão estágio 3.

A segunda é a hipertensão com múltiplos danos aos órgãos-alvo, definida pelo envolvimento de pelo menos três dos quatro sistemas: renal (deterioração rápida da função ou proteinúria), cardíaco (hipertrofia importante, disfunção sistólica, anormalidade de repolarização ou aumento de troponina), neurológico (AVC ou encefalopatia) e hematológico (hemólise microangiopática). É um critério de contagem, e critério de contagem é presente de banca.

Duas imagens circulares de fundo de olho lado a lado: à esquerda um fundo normal, com disco óptico de margens nítidas e arteríolas finas; à direita, hemorragias em chama de vela, manchas algodonosas e disco óptico com margens borradas e elevadas.
A retina é o único leito vascular que se enxerga diretamente. Hemorragias em chama de vela e exsudatos algodonosos correspondem ao grau III de Keith-Wagener-Barker; o papiledema, ao grau IV — e é o papiledema que separa a hipertensão acelerada da maligna. Graus III e IV contam como lesão aguda de órgão-alvo; espasmos e cruzamentos arteriovenosos, não.

Por que baixar rápido faz mal

O cérebro, o coração e o rim mantêm fluxo constante dentro de uma faixa de pressão de perfusão. Quem convive há anos com pressão elevada desloca essa faixa para cima: passa a precisar de uma pressão mais alta para perfundir o mesmo tecido. É adaptação, não doença — e é a razão de o paciente com 200/120 crônico estar andando e conversando.

Derrubar essa pressão depressa joga o paciente para baixo do limite inferior da autorregulação dele. A diretriz brasileira de 2025 formula assim: é importante considerar os riscos da redução rápida e excessiva da pressão, com isquemia irreversível de órgãos-alvo resultante da perda da autorregulação. O PCDT do Ministério da Saúde nomeia os desfechos sem eufemismo: a redução muito rápida e intensa está associada a isquemia em leitos vasculares habituados a níveis pressóricos mais altos, podendo ocasionar AVC, infarto agudo do miocárdio ou cegueira.

Daí sai o teto que a diretriz fixa e que vale para qualquer cenário: não se recomenda a redução aguda e abrupta da pressão em mais de 25% a 30% nas primeiras 2 a 4 horas, pelo risco de isquemia tecidual. E a diretriz nomeia o culpado histórico dessa queda: a nifedipina de liberação rápida, cujo uso é declarado proscrito. É a sentença de morte formal do nifedipino sublingual, que ainda sobrevive em corredor de pronto-socorro e em alternativa de prova.

O motivo de a nifedipina de liberação rápida ter sido banida não é teórico. Ela produz queda abrupta, intensa e imprevisível: o médico não escolhe quanto vai cair nem em quanto tempo, e não há como frear depois de administrada. O PCDT reforça o ponto por outro caminho, ao prescrever captopril e emendar, entre parênteses, a observação de que não é via sublingual — porque a via sublingual foi justamente o vício que se quer desfazer.

Há um segundo argumento, e ele é de evidência, não de fisiologia. A diretriz cita um estudo de coorte retrospectivo em que a recidiva de novas idas à unidade de emergência e a mortalidade foram semelhantes entre pacientes com pressão acentuadamente elevada sem lesão aguda, tratados ou não com terapia anti-hipertensiva aguda. Ou seja: nesse grupo, o tratamento agressivo no pronto-socorro não comprou desfecho nenhum. O PCDT chega ao mesmo lugar: não há evidência de benefícios na redução rápida da pressão em pacientes com hipertensão grave assintomática, e há riscos de complicações isquêmicas.

Essa é a base do princípio que atravessa o capítulo: na emergência hipertensiva, a pressão é reduzida de forma rápida — mas gradual e controlada, com droga titulável, em ambiente monitorizado. 'Rápida' aqui significa em minutos a horas, não em segundos, e nunca até valores normais de largada. Restaurar a normotensão não é a meta da primeira hora em quase nenhum cenário.

A régua geral da emergência — e as exceções que a anulam

Confirmada a lesão aguda, o paciente vai para a UTI, com anti-hipertensivo intravenoso, monitorização da pressão e vigilância da progressão da lesão. Essa é a única recomendação forte, com certeza moderada, do bloco geral da diretriz de 2025 — e é a resposta padrão quando o enunciado pergunta 'onde tratar'.

A régua geral de redução tem três tempos. Reduzir a pressão em até 25% na primeira hora; se o paciente estiver estável, chegar a cerca de 160/100 mmHg nas 2 a 6 horas seguintes; e só então buscar níveis normais nas 24 a 48 horas. O PCDT do Ministério da Saúde escreve a mesma régua com duas particularidades: fala em pressão arterial média — queda de até 25% da PAM na primeira hora — e crava o destino final das 24 a 48 horas em 135/85 mmHg, em vez de 'valores normais'. É uma régua herdada: os mesmos três tempos já estavam no Posicionamento Luso-Brasileiro de 2020, que os tomou do JNC VII.

Vale registrar uma inconsistência interna da diretriz de 2025, porque ela confunde quem estuda por dois trechos diferentes do mesmo documento. O fluxograma (Figura 11.1) e a tabela de recomendações dizem redução de até 25% na primeira hora. A caixa de mensagens principais do fim do capítulo diz redução de 10% a 15% na primeira hora e de 25% nas duas horas seguintes, na maioria das situações. Os dois fraseados descrevem a mesma intenção — descer devagar —, mas o número operacional que aparece no algoritmo, e que o Ministério da Saúde repete, é o teto de 25% na primeira hora.

Essa régua, porém, é a regra dos casos em que a lesão não impõe alvo próprio. E a lista de exceções é grande o bastante para que a régua geral seja quase a minoria. A própria diretriz avisa: a redução em 25% na primeira hora vale exceto em lesões específicas — AVC, dissecção aguda de aorta, pré-eclâmpsia, eclâmpsia e feocromocitoma.

Dissecção aguda de aorta é a exceção mais agressiva, e a única em que se persegue número baixo depressa. O alvo é frequência cardíaca abaixo de 60 bpm e sistólica entre 90 e 120 mmHg, alcançados em 20 minutos — recomendação forte. O PCDT dá a mesma direção com janela um pouco mais larga: sistólica reduzida em 20 a 60 minutos até 100 a 120 mmHg, para reduzir as forças de cisalhamento sobre a aorta. E a ordem das drogas importa mais do que a escolha delas, como se detalha adiante.

AVC isquêmico é a exceção mais cobrada, e tem dois cenários. Com indicação de trombólise: reduzir a pressão para menos de 185/110 mmHg antes do trombolítico, manter abaixo de 180/105 mmHg nas primeiras 24 horas depois, e não realizar a infusão do trombolítico nem a trombectomia se a pressão permanecer em 185/110 mmHg ou mais — recomendação forte. Sem trombólise e sem comorbidades, a pressão só é tratada a partir de 220/120 mmHg, e mesmo assim a redução é de 15% ao longo das primeiras 24 horas. Se houver comorbidade que exija (dissecção, evento coronariano agudo, eclâmpsia, pós-trombólise, edema agudo de pulmão), a redução inicial também é de 15%. A razão do conservadorismo é a mesma de sempre: a autorregulação cerebral está comprometida na fase aguda, e a penumbra isquêmica depende da pressão sistêmica para sobreviver.

Ainda no AVC isquêmico, dois números da fase seguinte caem em prova e quase ninguém decora: iniciar ou reiniciar anti-hipertensivo com segurança em indivíduos neurologicamente estáveis com pressão acima de 140/90 mmHg (recomendação forte), e mirar sistólica entre 120 e 130 mmHg e diastólica entre 70 e 79 mmHg em 7 a 10 dias após o evento — esta com força forte e certeza alta, a mais bem sustentada de todo o capítulo.

AVC hemorrágico se divide pelo valor de entrada. Com sistólica acima de 220 mmHg, a conduta é redução e monitoramento frequente com infusão intravenosa contínua, mirando sistólica abaixo de 180 mmHg — recomendação forte. No hemorrágico de leve a moderada gravidade, com sistólica entre 150 e 220 mmHg, a diretriz de 2025 recomenda reduzir a pressão para menos de 140 mmHg com medicamentos intravenosos — recomendação fraca, certeza moderada. Esse alvo abaixo de 140 mmHg é o ponto de maior discordância entre as fontes do capítulo, e tem seção própria adiante. Já na hemorragia subaracnoide com sistólica acima de 180 mmHg, o que se recomenda é redução gradual e lenta ao longo de 24 a 72 horas.

Encefalopatia hipertensiva tem alvo intermediário: reduzir a pressão em 20% a 25% na primeira hora — mais devagar, portanto, que o teto geral —, porque o objetivo é restaurar a autorregulação cerebral sem hipoperfundir um cérebro já edemaciado. Depois, anti-hipertensivos orais entram mirando 160/100 mmHg em até 48 horas.

Síndrome coronariana aguda tem alvo com piso: sistólica abaixo de 140 mmHg, evitando cair abaixo de 120 mmHg, e diastólica entre 70 e 80 mmHg, ao longo de 24 a 72 horas — recomendação forte com certeza alta. O piso existe porque a perfusão coronariana acontece na diástole: derrubar a diastólica é tirar do miocárdio isquêmico exatamente o que ele precisa.

Crises catecolaminérgicas e edema agudo de pulmão compartilham o alvo mais rápido depois da dissecção: sistólica abaixo de 140 mmHg já na primeira hora.

E a gestação. Na pré-eclâmpsia com sinais de gravidade e na eclâmpsia, o tratamento medicamentoso é urgente. A diretriz de 2025 recomenda iniciar quando a pressão estiver acima de 150-160/100-110 mmHg, mantendo-a entre 120-160/80-100 mmHg, e não aceita tratamento não medicamentoso isolado quando a sistólica passa de 160 mmHg por mais de 15 minutos. O PCDT dá o esquema operacional: nifedipino 10 mg por via oral ou hidralazina 5 mg por via intravenosa, repetidos a cada 20 a 30 minutos enquanto a pressão se mantiver acima de 160 ou 110 mmHg, até a dose total de 30 mg. Sulfato de magnésio é o anticonvulsivante de escolha, indicado sempre que houver risco de convulsão — e o protocolo é explícito: sistólica de 160 mmHg ou mais, ou diastólica de 110 mmHg ou mais, mesmo na ausência de sintomas, já indicam a profilaxia. Durante o tratamento, monitoração fetal; havendo hipotensão com desaceleração ou bradicardia fetal, decúbito lateral esquerdo e aumento da infusão de soro fisiológico.

Ilustração em corte da aorta torácica com dissecção aguda: rasgo na camada íntima e um retalho separando a luz verdadeira de uma falsa luz preenchida por sangue que se propaga ao longo da parede do vaso.
Na dissecção, o que rasga a parede não é só a pressão: é a força de cisalhamento, que depende da velocidade de ejeção do ventrículo esquerdo. Por isso o betabloqueador vem antes do vasodilatador — e o alvo tem dois números, sistólica de 90 a 120 mmHg e frequência abaixo de 60 bpm, em 20 minutos.

As drogas: dose, cenário e a ordem que não se inverte

O Quadro 11.4 da diretriz de 2025 lista os anti-hipertensivos intravenosos, e traz uma informação que muda a prática brasileira: sete das drogas listadas são marcadas como não disponíveis no Brasil — fentolamina, trimetafano, diazóxido, fenoldopam, nicardipina, labetalol e enalaprilato. Justamente labetalol e nicardipina, que as diretrizes internacionais colocam como primeira escolha no AVC, não existem por aqui. Isso não é detalhe de logística: é o que explica por que o arsenal brasileiro é outro.

Nitroprussiato de sódio é o vasodilatador arterial e venoso de referência, indicado na maioria das emergências hipertensivas, inclusive pelo PCDT. Infusão contínua de 0,25 a 10 mcg/kg/min, início de ação imediato e duração de 1 a 2 minutos — é o que o torna titulável minuto a minuto. Os cuidados: intoxicação por cianeto, hipotensão grave, náuseas e vômitos; cautela na injúria renal aguda e na doença hepática; e proteger a solução da luz. Um alerta de leitura: o quadro da diretriz imprime a dose com a unidade 'mg/kg/min', o que é erro tipográfico evidente — o PCDT e o posicionamento de 2020 trazem microgramas por quilo por minuto, que é a unidade correta e a que se usa à beira do leito.

Nitroglicerina é vasodilatador com predomínio venoso, em infusão contínua de 5 a 15 mg/h, início em 2 a 5 minutos. O cenário dela é a insuficiência coronariana e o edema agudo de pulmão, porque melhora a perfusão coronariana e reduz a pré-carga. Efeitos: cefaleia, taquicardia reflexa, taquifilaxia, rubor e meta-hemoglobinemia. No edema agudo de pulmão por emergência hipertensiva, a diretriz recomenda nitroglicerina intravenosa nas primeiras 48 horas — desde que não haja hipotensão, infarto de ventrículo direito ou uso de inibidor da fosfodiesterase tipo 5 (sildenafila, tadalafila) nas 48 horas anteriores. Essa última contraindicação é a que a banca esconde no meio da história clínica.

Metoprolol, betabloqueador seletivo: 5 mg por via intravenosa, repetidos a cada 10 minutos se necessário até 20 mg, início em 5 a 10 minutos, duração de 3 a 4 horas. Cenário: insuficiência coronariana e dissecção aguda de aorta. Contra: bradicardia, bloqueio atrioventricular avançado, insuficiência cardíaca descompensada e broncoespasmo.

Esmolol, betabloqueador seletivo de ação ultrarrápida: ataque de 500 mcg/kg, seguido de infusão de 25 a 50 mcg/kg/min, com incrementos de 25 mcg/kg/min a cada 10 a 20 minutos, até o máximo de 300 mcg/kg/min. Início em 1 a 2 minutos, duração de 1 a 20 minutos. É a droga da dissecção aguda de aorta em combinação com o nitroprussiato, e da hipertensão pós-operatória grave.

Hidralazina, vasodilatador de ação direta: 10 a 20 mg por via intravenosa, ou 10 a 40 mg por via intramuscular a cada 6 horas; início em 10 a 30 minutos, duração de 3 a 12 horas. O cenário dela na diretriz é um só — eclâmpsia — e as precauções explicam por quê: taquicardia, cefaleia, vômitos, piora de angina e de infarto, e cuidado com pressão intracraniana. Na crise hipertensiva da gestante, o PCDT dá a diluição: a ampola de 1 mL a 20 mg/mL é diluída em 19 mL de água destilada, obtendo 1 mg/mL; dose inicial de 5 mg, repetida a cada 20 minutos, máximo de 30 mg.

Furosemida, diurético de alça: 20 a 60 mg, repetidos após 30 minutos, início em 2 a 5 minutos, duração de 30 a 90 minutos. Indicação: edema agudo de pulmão e situações de hipervolemia. Não é anti-hipertensivo de emergência — é tratamento da congestão que acompanha a emergência.

Agora a parte que se erra em prova, que é a ordem e a proibição. Na dissecção aguda de aorta, a sequência é betabloqueador intravenoso de ação rápida e titulável (metoprolol ou esmolol) primeiro, para derrubar a frequência cardíaca e a velocidade de ejeção do ventrículo esquerdo, e só depois o nitroprussiato. Inverter a ordem é iatrogenia: o vasodilatador isolado provoca taquicardia reflexa, aumenta a velocidade de ejeção e amplia a força de cisalhamento sobre a aorta — piora exatamente o mecanismo da doença. Em asmáticos, o substituto é bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico (o PCDT nomeia o verapamil). Analgesia com morfina entra em paralelo, porque a dor sustenta a descarga adrenérgica.

Na crise adrenérgica por feocromocitoma vale a proibição espelhada: não usar betabloqueador isoladamente. Com a vasodilatação beta-adrenérgica bloqueada, a estimulação alfa fica sem oposição e a pressão sobe — além de poder piorar o espasmo coronariano. O bloqueio beta só entra depois do bloqueio alfa. Como a fentolamina não existe no Brasil, a diretriz recomenda doxazosina. Nos casos leves de crise adrenérgica, benzodiazepínicos e nitrato sublingual; nos demais, nitroglicerina e nitroprussiato. O alvo é sistólica abaixo de 140 mmHg na primeira hora.

Na síndrome coronariana aguda, hidralazina, nifedipina e nitroprussiato não estão indicados — os nitratos intravenosos, sim. No edema agudo de pulmão, o PCDT desaconselha a hidralazina, por aumentar o trabalho cardíaco, e o betabloqueador, por reduzir a contratilidade; ficam o diurético de alça e um vasodilatador de fácil titulação, com ventilação não invasiva quando indicada.

Por fim, uma nota de realidade que o PCDT faz questão de registrar: os medicamentos da emergência hipertensiva podem não constar da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, porque correspondem ao ambiente hospitalar — cabe a cada serviço selecioná-los e disponibilizá-los segundo protocolo local. E depois de um período adequado de controle na UTI, geralmente de 8 a 24 horas, a terapia intravenosa é substituída pela via oral.

Elevação importante sem lesão: o que realmente se faz

Este é o cenário mais comum e o que mais gera conduta errada. Paciente com pressão muito alta, sem lesão aguda de órgão-alvo. A diretriz de 2025 é categórica: não há evidências de que ele deva ser tratado em unidade de emergência, e o que se recomenda é a condução ambulatorial — tal qual um paciente com hipertensão não controlada e assintomática.

A primeira medida não é medicamento. É observação clínica por 30 minutos em ambiente calmo, avaliando a resolução dos sintomas e a redução espontânea da pressão. Boa parte dos pacientes resolve aí, sem receber nada, porque o que estava alto era o contexto.

Se, após a observação, não houve redução da pressão nem resolução dos sintomas, entram anti-hipertensivos orais de rápido início de ação e curta duração — a diretriz nomeia clonidina ou captopril —, além do ajuste dos anti-hipertensivos de uso crônico ou do início do tratamento em quem ainda não tratava. Nada de via intravenosa, nada de internação.

O alvo é modesto de propósito: reavaliação ambulatorial em 1 a 7 dias, com sistólica abaixo de 160 e diastólica abaixo de 100 mmHg. É recomendação fraca, com certeza baixa — a diretriz reconhece a fragilidade da evidência e mesmo assim rejeita a prática de derrubar a pressão às pressas no pronto-socorro. Repare que 160/100 não é a meta do hipertenso; é o patamar de segurança para mandar o paciente para casa. A meta de 130/80 é conquista de semanas de ambulatório, não de uma tarde de plantão.

O PCDT do Ministério da Saúde descreve o mesmo caminho com números próprios e um enquadramento de sistema de saúde. O tratamento da urgência hipertensiva, diz o protocolo, é a retirada do fator desencadeante; começa-se com observação em ambiente calmo, com analgésicos e tranquilizantes se necessário, o que por si só pode reduzir a pressão. Recomenda-se redução gradual com anti-hipertensivos orais ao longo de 24 a 48 horas, período que pode se estender por alguns dias, especialmente em idosos. O seguimento ambulatorial se dá em 24 a 48 horas, visando pressão de 160/95 mmHg ou menos em até 48 horas — e o protocolo chama essa estratégia de longo prazo, textualmente, de superior ao tratamento agudo.

Há um subgrupo que o PCDT trata com mais pressa: pacientes com risco de eventos cardiovasculares iminentes pela pressão muito elevada, como quem tem diagnóstico prévio de aneurisma aórtico ou cerebral. Nesses, a pressão deve ser reduzida em um período de horas, ainda assim por via oral, e o protocolo indica captopril 25 mg, se não houver sobrecarga de volume, cujo pico de ação ocorre em 60 a 90 minutos — com a ressalva expressa, entre parênteses no documento, de que não é por via sublingual.

Do lado da atenção primária, o PCDT fixa o critério de encaminhamento, que é conteúdo típico de ENAMED e Revalida: encaminha-se para serviço de urgência e emergência quando são necessários tratamento intravenoso e monitorização contínua — em caso de sistólica de 180 mmHg ou mais e diastólica de 120 mmHg ou mais que persista mesmo após a administração de medicamentos, ou se houver sinais ou sintomas de lesão aguda de órgão-alvo. Ou seja: o encaminhamento não é disparado pelo número isolado, e sim pela persistência apesar do tratamento, ou pela lesão.

E o retorno tem prazo nos dois documentos. Todo paciente atendido por emergência hipertensiva precisa de consulta ambulatorial em sete dias, para verificar se a pressão se manteve controlada, otimizar o tratamento e reforçar a adesão. Quem teve urgência hipertensiva retorna com o médico da atenção primária, que mantém o cuidado longitudinal.

Pseudocrise: o diagnóstico que economiza uma internação

A pseudocrise é o que sobra quando se pergunta 'por que a pressão está alta agora?' em vez de 'quanto está a pressão?'. A resposta costuma estar na história: dor, ansiedade, retenção urinária, enxaqueca, tontura rotatória, cefaleia musculoesquelética, síndrome do pânico. O PCDT acrescenta duas causas que não são do paciente, e sim do processo: a hipertensão do avental branco e o erro na técnica de medida.

O erro de técnica merece atenção porque é o mais barato de corrigir e o mais frequentemente ignorado. O manguito estreito demais para a circunferência do braço superestima a pressão — o paciente obeso 'vira' crise hipertensiva por causa do equipamento. Por isso o PCDT usa a expressão 'falsa crise hipertensiva' logo na definição e remete à técnica correta de medida antes de qualquer conduta. A diretriz de 2025 manda medir a pressão nos dois braços, preferencialmente em ambiente tranquilo, na avaliação da crise.

A conduta na pseudocrise é tratar a causa. Analgesia para a dor, esvaziamento vesical para a retenção, ansiolítico para a crise de ansiedade — o PCDT autoriza benzodiazepínicos de forma aguda, se necessário. E prevê o desfecho: nos casos de urgência hipertensiva sem risco de evento iminente e nas pseudocrises, os pacientes permanecem algumas horas em observação no serviço de saúde e, caso permaneçam assintomáticos e apresentem redução da pressão, podem ser liberados para casa.

Uma sutileza que decide alternativa: sintoma não é sinônimo de lesão. A diretriz de 2025 diz que a primeira medida no paciente com elevação importante da pressão e com sintomas sem relação com lesão aguda é a observação clínica por 30 minutos. Cefaleia, epistaxe, tontura e palpitação — que o PCDT lista como sintomas comumente associados à urgência hipertensiva — não convertem o quadro em emergência. O que converte é o déficit neurológico, a dor torácica com alteração isquêmica, a dispneia com congestão, a creatinina subindo, o fundo de olho com hemorragia e papiledema.

A ESC 2024 descreve o mesmo fenômeno em outra chave, e a formulação é útil de guardar: muitos pacientes que chegam à emergência com dor aguda ou sofrimento têm pressão agudamente elevada que se normaliza quando a dor e o sofrimento são aliviados, em vez de exigir qualquer intervenção específica para baixar a pressão.

Fechando o raciocínio do capítulo inteiro: quando o paciente com pressão muito alta entra na sala, o exame que decide não é o esfigmomanômetro repetido. É o exame neurológico, o eletrocardiograma, a ausculta pulmonar, a creatinina e o fundo de olho. O número já foi dado; o que falta descobrir é se algum órgão está sendo lesado neste momento. Essa é a única pergunta que separa a UTI da sala de espera.

04

Como separar emergência, elevação importante sem lesão e pseudocrise

O caminho é sempre o mesmo, e nenhuma etapa dele começa por escolher droga. Confirme a medida, procure lesão aguda órgão por órgão, classifique, e só então escolha o alvo — que muda conforme o órgão lesado. Os números abaixo são os da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, com as diferenças do PCDT do Ministério da Saúde sinalizadas na própria tabela e nas notas. Os cards mostram a única escala ordinal de verdade deste capítulo: a retinopatia de Keith-Wagener-Barker, que converte um exame de beira de leito em classificação de gravidade.

  1. 1Confirme a medida antes de acreditar nela: manguito adequado à circunferência do braço, ambiente tranquilo, e pressão aferida nos dois membros superiores — assimetria levanta dissecção, manguito estreito fabrica crise que não existe.
  2. 2Pergunte por que a pressão está alta agora. Dor, ansiedade, retenção urinária, enxaqueca, suspensão de anti-hipertensivo, uso de cocaína ou crack, anti-inflamatório, corticoide, descongestionante. A causa muda a conduta mais do que o valor.
  3. 3Procure lesão aguda de órgão-alvo, órgão por órgão: exame neurológico completo, ausculta cardíaca e pulmonar, pulsos e diferença de pressão entre membros, fundo de olho, e o pacote mínimo — eletrocardiograma, radiografia de tórax, hemograma, troponina, creatinina, urina tipo I e potássio. Mulher em idade fértil: teste de gravidez.
  4. 4Há lesão aguda e progressiva? Se sim, é emergência hipertensiva: UTI, anti-hipertensivo intravenoso titulável, monitorização da pressão e vigilância da progressão da lesão.
  5. 5Se é emergência, identifique QUAL órgão — porque o alvo é dele, não da régua geral. Dissecção, AVC isquêmico, AVC hemorrágico, eclâmpsia e feocromocitoma têm alvo e prazo próprios que anulam a regra dos 25%.
  6. 6Se não há lesão aguda: observação clínica por 30 minutos em ambiente calmo, sem medicamento. Boa parte resolve aí — e isso já responde se era pseudocrise.
  7. 7Persistindo pressão alta e sintomas após a observação: anti-hipertensivo oral de rápido início e curta duração (clonidina ou captopril, por via oral e não sublingual), ajuste do esquema crônico ou início de tratamento. Nunca nifedipina de liberação rápida, nunca via intravenosa neste grupo.
  8. 8Marque o retorno antes de dar alta: reavaliação ambulatorial em 1 a 7 dias, com alvo de sistólica abaixo de 160 e diastólica abaixo de 100 mmHg. Quem teve emergência retorna em sete dias e é rastreado para hipertensão secundária.

Retinopatia grau I

Estreitamento arteriolar difuso, com a relação entre calibre de artéria e veia reduzida. É alteração crônica de vaso adaptado à pressão alta. Não caracteriza lesão aguda de órgão-alvo e não transforma o quadro em emergência.

Retinopatia grau II

Soma-se o cruzamento arteriovenoso patológico: a arteríola endurecida comprime a vênula onde as duas se cruzam. Continua sendo marca de doença crônica — é lesão de órgão-alvo do hipertenso de longa data, não da crise de hoje.

Retinopatia grau III

Hemorragias retinianas em chama de vela e exsudatos algodonosos. Aqui a fundoscopia passa a valer como lesão AGUDA de órgão-alvo: graus III e IV entram no quadro de investigação da emergência hipertensiva. Sem papiledema, o quadro se chama hipertensão acelerada.

Retinopatia grau IV

Tudo do grau III mais papiledema — disco óptico elevado, de margens borradas. É o achado característico da hipertensão maligna, ao lado da necrose fibrinoide de arteríolas renais. Havendo papiledema, é obrigatória a neuroimagem para descartar outras causas neurológicas.

CenárioAlvo de PAPrazoOrigem e observação
Emergência — régua geralReduzir até 25%; depois 160/100-110 mmHg; depois valores normais1ª hora; 2 a 6 h; 24 a 48 hDBHA 2025 (recomendação fraca, certeza moderada). O PCDT fala em PA média na 1ª hora e crava 135/85 mmHg nas 24 a 48 h
Encefalopatia hipertensivaReduzir 20% a 25% da PA; depois 160/100 mmHg com droga oral1ª hora; depois até 48 hDBHA 2025. Nitroprussiato, nitroglicerina ou esmolol; cautela com nitratos pela redução do fluxo cerebral
Dissecção aguda de aortaPAS 90-120 mmHg e FC < 60 bpm20 minutosDBHA 2025 (recomendação forte). Betabloqueador primeiro, nitroprussiato só depois dele. O PCDT admite 20 a 60 min para PAS 100-120 mmHg
Crise adrenérgica e edema agudo de pulmãoPAS < 140 mmHg1ª horaDBHA 2025, Figura 11.1. No feocromocitoma, alfabloqueio antes do betabloqueio
Síndrome coronariana agudaPAS < 140 mmHg (evitando < 120) e PAD 70-80 mmHg24 a 72 hDBHA 2025 (forte, certeza alta). Esmolol, metoprolol ou nitroglicerina. Hidralazina, nifedipina e nitroprussiato não indicados
AVC isquêmico com indicação de trombólise< 185/110 mmHg antes; manter < 180/105 mmHg depoisantes do trombolítico; 24 h seguintesDBHA 2025 (forte). Não infundir trombolítico nem fazer trombectomia com PA ≥ 185/110 mmHg
AVC isquêmico sem trombólise e sem comorbidadeSó tratar se PA ≥ 220/120 mmHg; então reduzir 15%primeiras 24 hDBHA 2025 (fraca). O PCDT admite 15% a 25%; a ESC 2024 fala em 10% a 15%
AVC isquêmico — fase de estabilizaçãoPAS 120-130 mmHg e PAD 70-79 mmHg7 a 10 dias após o eventoDBHA 2025 (forte, certeza alta). Reiniciar anti-hipertensivo no paciente neurologicamente estável com PA > 140/90 mmHg
AVC hemorrágico com PAS > 220 mmHgPAS < 180 mmHgfase hiperaguda, infusão IV contínuaDBHA 2025 (forte, certeza moderada). Coincide com o PCDT
AVC hemorrágico leve a moderado, PAS 150-220 mmHgPA < 140 mmHgfase hiperagudaDBHA 2025 (fraca, certeza moderada). O PCDT põe piso em 140 mmHg; a AHA/ASA mira 140 mantendo 130-150 mmHg. Ver bloco de divergências
Hemorragia subaracnoide com PAS > 180 mmHgRedução gradual e lenta da PAS24 a 72 hDBHA 2025 (fraca, certeza moderada)
Pré-eclâmpsia grave e eclâmpsiaTratar acima de 150-160/100-110 mmHg; manter 120-160/80-100 mmHgenquanto a PA se mantiver acima do alvoDBHA 2025, capítulo 10, e PCDT: hidralazina 5 mg IV ou nifedipino 10 mg VO a cada 20-30 min, máximo de 30 mg. Sulfato de magnésio se PAS ≥ 160 ou PAD ≥ 110 mmHg
Elevação importante da PA sem lesão agudaPAS < 160 e PAD < 100 mmHgreavaliação ambulatorial em 1 a 7 diasDBHA 2025 (fraca, certeza baixa). O PCDT propõe 160/95 mmHg ou menos em até 48 h, com seguimento em 24 a 48 h

Nifedipina de liberação rápida (o 'nifedipino sublingual') é declarada PROSCRITA pela diretriz de 2025. O teto que ela viola: não reduzir a PA em mais de 25% a 30% nas primeiras 2 a 4 horas, sob risco de isquemia tecidual.

Labetalol e nicardipina — as drogas que as diretrizes internacionais preferem no AVC — estão marcadas como NÃO disponíveis no Brasil no próprio Quadro 11.4 da diretriz, ao lado de fentolamina, trimetafano, diazóxido, fenoldopam e enalaprilato. Curiosamente, a recomendação brasileira para o AVC hemorrágico cita nicardipina e clevidipina; na prática, sobram esmolol e nitroprussiato.

A diretriz de 2025 traz dois fraseados para a primeira hora: o fluxograma e a tabela de recomendações dizem até 25%; a caixa de mensagens principais diz 10% a 15% na primeira hora e 25% nas duas horas seguintes. O número que circula no algoritmo, e que o PCDT repete, é o teto de 25%.

O limiar numérico difere entre as fontes brasileiras: a diretriz da SBC define emergência a partir de PAS ≥ 180 e/ou PAD ≥ 110 mmHg; o PCDT define crise hipertensiva como PAS ≥ 180 ou PAD ≥ 120 mmHg. Nenhuma das duas usa o número como critério absoluto — a emergência pode ocorrer com valores menores.

O Quadro 11.4 imprime a dose do nitroprussiato como 'mg/kg/min'. É erro de unidade: a dose correta, e a que o PCDT e o posicionamento de 2020 trazem, é em microgramas por quilo por minuto.

Encaminhamento da atenção primária para a emergência, pelo PCDT: quando forem necessários tratamento intravenoso e monitorização contínua — PAS ≥ 180 e PAD ≥ 120 mmHg persistentes mesmo após medicação, ou sinais e sintomas de lesão aguda de órgão-alvo.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Como se chama o quadro sem lesão aguda de órgão-alvo

SBC/SBH/SBN 2025 — o termo 'urgência hipertensiva' foi aposentado

A diretriz registra que se discute o uso do termo e recomenda que a nomenclatura apropriada passe a ser 'elevação importante da PA sem lesão progressiva de órgãos-alvo'. A pseudocrise aparece como diagnóstico diferencial da crise hipertensiva, com definição própria, e não como subtipo de urgência.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, itens 11.1 e 11.2 e Quadro 11.1

Ministério da Saúde 2025 — mantém urgência, com a pseudocrise dentro dela

O PCDT conserva as expressões 'urgência' e 'emergência' hipertensivas, lembrando que foram propostas em 1993 pelo V Joint National Committee, e classifica a pseudocrise como subclassificação das urgências — as 'falsas' urgências, por assintomático ou oligossintomático, dor, ansiedade, desconforto, avental branco ou erro de técnica de medida.

PCDT da Hipertensão Arterial Sistêmica, Conitec/Ministério da Saúde, 2025, item 1.d

ESC 2024 — mantém 'hypertension urgency'

O termo descreve hipertensão grave sem evidência clínica de dano agudo de órgão. Esses pacientes precisam de redução da PA, mas em geral não requerem internação; a redução é obtida melhor com medicação oral, conforme o algoritmo habitual, podendo exigir revisão ambulatorial mais precoce.

2024 ESC Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension, Seção 10.1

AHA/ACC 2025 — desaconselha tanto 'urgência' quanto 'crise'

A diretriz americana sugere abandonar as expressões 'urgência hipertensiva' e 'crise hipertensiva', substituindo-as por 'PA acentuadamente elevada' assintomática, a partir de 180/110 mmHg, e afirma que tratar essa PA acentuadamente elevada assintomática deve ser exceção, e não rotina.

2025 AHA/ACC Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation and Management of High Blood Pressure in Adults

Na prova

Quatro documentos, quatro vocabulários, e a conduta é a mesma nos quatro: sem lesão aguda, medicação oral e retorno precoce. O recorte se identifica pelo enunciado. Menção nominal a uma sociedade ou a um protocolo já entrega o vocabulário esperado. Cenário de unidade básica, encaminhamento, atenção primária ou fluxo do SUS puxa o corpo do Ministério da Saúde, que ainda usa 'urgência hipertensiva' e trata pseudocrise como subtipo dela. Enunciado que se abre com 'segundo a diretriz brasileira de hipertensão' ou que descreve o quadro como 'elevação importante da PA sem lesão de órgão-alvo' está usando o vocabulário de 2025 da SBC. E o próprio conjunto de alternativas denuncia o mundo da questão: se uma delas oferece 'urgência hipertensiva' como categoria e outra oferece 'elevação importante sem lesão de órgão-alvo', a questão está testando a mudança de nomenclatura, não a conduta.

Qual valor de PA define crise hipertensiva

SBC/SBH/SBN 2025 — PAS ≥ 180 e/ou PAD ≥ 110 mmHg

A emergência hipertensiva é definida arbitrariamente por sistólica de 180 mmHg ou mais e/ou diastólica de 110 mmHg ou mais com lesão aguda e progressiva — ou, dependendo da situação, até com valores menores. A diretriz acrescenta que a gravidade não é determinada pelo nível absoluto, e sim pela magnitude da elevação, e que a definição numérica serve de parâmetro de conduta, não de critério absoluto.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, item 11.1 e caixa de mensagens principais do capítulo 11

Ministério da Saúde 2025 — PAS ≥ 180 ou PAD ≥ 120 mmHg

Crises hipertensivas são as grandes elevações pressóricas, arbitrariamente definidas como sistólica maior ou igual a 180 mmHg ou diastólica maior ou igual a 120 mmHg. O mesmo par de números define a urgência hipertensiva, e o protocolo lembra que a emergência pode ocorrer com limiar pressórico menor que o definido para crise.

PCDT da Hipertensão Arterial Sistêmica, Conitec/Ministério da Saúde, 2025, item 1.d

Posicionamento Luso-Brasileiro 2020 — PAS ≥ 180 e PAD ≥ 120 mmHg

O documento que fixou a nomenclatura brasileira anterior descrevia a crise hipertensiva como elevação aguda da PA, geralmente com sistólica de 180 mmHg ou mais e diastólica de 120 mmHg ou mais, com a ressalva de que mais do que os valores é o dano, ou o risco iminente de dano a órgãos-alvo, que distingue emergência de urgência.

Posicionamento Luso-Brasileiro de Emergências Hipertensivas – 2020, Sociedade Brasileira de Cardiologia

Na prova

A diferença está na diastólica: 110 mmHg na diretriz da SBC de 2025, 120 mmHg no protocolo do Ministério da Saúde e no posicionamento de 2020. Isso raramente decide a questão sozinho, e as três fontes dizem em voz alta que o número não é critério absoluto. O detalhe fica útil em dois lugares. Primeiro, quando o enunciado apresenta um paciente com diastólica entre 110 e 119 mmHg e as alternativas discutem se aquilo é ou não crise hipertensiva — aí o corte escolhido pela banca muda o rótulo. Segundo, quando o enunciado cita nominalmente uma das fontes: o vocabulário 'grau' e 'atenção primária' acompanha o corpo do Ministério da Saúde; 'estágio' e 'elevação importante da PA' acompanham o corpo da SBC. Em qualquer dos mundos, um paciente com 200/130 assintomático e sem lesão aguda não é emergência.

Até onde baixar a PA no AVC hemorrágico

SBC/SBH/SBN 2025 — abaixo de 140 mmHg no hemorrágico leve a moderado

Com sistólica entre 150 e 220 mmHg e gravidade leve a moderada, a recomendação é reduzir a PA para menos de 140 mmHg com medicamentos intravenosos (esmolol e bloqueadores de canal de cálcio — nicardipina e clevidipina), com força fraca e certeza moderada. Com sistólica acima de 220 mmHg, o alvo passa a ser sistólica abaixo de 180 mmHg, com infusão contínua e monitoramento frequente, aí sim com recomendação forte.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, tabela de recomendações do capítulo 11

Ministério da Saúde 2025 — abaixo de 180, mas com piso em 140 mmHg

A sistólica deve ser reduzida para menos de 180 mmHg, mas não menos de 140 mmHg, na fase hiperaguda (primeiras 24 horas). Se a sistólica estiver acima de 220 mmHg, a redução deve ser gradual. O protocolo transforma em piso explícito o valor que a diretriz da SBC usa como alvo.

PCDT da Hipertensão Arterial Sistêmica, Conitec/Ministério da Saúde, 2025, item 1.1.1.2

AHA/ASA — de Classe I em 2015 para Classe 2b em 2022

Na hemorragia intracerebral leve a moderada com sistólica de 150 a 220 mmHg, baixar a sistólica até 140 mmHg, mantendo-a entre 130 e 150 mmHg, é seguro e pode ser razoável para melhorar o desfecho funcional — Classe 2b. Em 2015 essa mesma meta era Classe I. E reduzir abaixo de 130 mmHg passou a ser classificado como potencialmente danoso (Classe 3).

2022 AHA/ASA Guideline for the Management of Patients With Spontaneous Intracerebral Hemorrhage (Stroke, 2022), em comparação com a versão de 2015

ESC 2024 — alvo abaixo de 140 mmHg em menos de 6 horas, com sistólica alcançada de 140 a 160 mmHg

Nos ensaios que testaram redução imediata (em menos de 6 horas) para alvo sistólico abaixo de 140 mmHg, a sistólica efetivamente alcançada no grupo de intervenção ficou tipicamente entre 140 e 160 mmHg, com redução do risco de expansão do hematoma. Quedas agudas excessivas da sistólica, maiores que 70 mmHg, podem se associar a injúria renal aguda e deterioração neurológica precoce, e devem ser evitadas.

2024 ESC Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension, Seção 10.2

Na prova

Este é o item com história datada, e a cronologia explica por que os documentos não coincidem. O INTERACT2, de 2013, comparou alvo sistólico abaixo de 140 mmHg em uma hora contra abaixo de 180 mmHg e não reduziu de forma significativa o desfecho primário de morte ou incapacidade grave; ainda assim, sustentou a Classe I de 2015. O ATACH-2, de 2016, testou alvo mais agressivo (110 a 139 mmHg) contra 140 a 179 mmHg, foi interrompido por futilidade, não mostrou diferença em morte ou incapacidade e registrou mais eventos adversos renais no braço intensivo — o que levou ao rebaixamento para Classe 2b em 2022 e à classificação de dano abaixo de 130 mmHg. Em 2023, o INTERACT3 mostrou benefício de um pacote de cuidados que inclui a redução intensiva da PA, o que reacendeu a discussão. Como identificar o recorte no enunciado: questão que cita a diretriz brasileira de 2025 e descreve hemorragia leve a moderada com sistólica entre 150 e 220 mmHg está no mundo do alvo abaixo de 140 mmHg; questão que cita o protocolo do Ministério da Saúde de 2025, ou que oferece uma alternativa mencionando expressamente um piso, está no mundo do 'menos de 180 e não menos de 140'; e alternativa que proponha sistólica abaixo de 130 mmHg está fora de todos os documentos citados aqui. Acima de 220 mmHg os quatro documentos comparados aqui convergem para a redução gradual e monitorizada até menos de 180 mmHg — mas convergência entre eles não é unanimidade brasileira. A Linha de Cuidados em AVC do Ministério da Saúde, anexo da Portaria GM/MS nº 665/2012, quebra em outro número: manda redução agressiva com medicação endovenosa contínua já a partir de sistólica acima de 200 mmHg ou pressão arterial média acima de 150 mmHg e, para sistólica acima de 180 sem evidências de hipertensão intracraniana, mira pressão média de 110 mmHg ou 160 por 90 mmHg — alvo que não aparece em nenhum dos quatro. São dois documentos do mesmo Ministério com cortes diferentes, e é por isso que a pista vale pelo vocabulário e não pelo órgão: enunciado que fale em piso de 140 mmHg está no protocolo de 2025; enunciado que fale em redução agressiva, monitorização invasiva ou pressão de perfusão cerebral está na Linha de Cuidados.

Quanto baixar no AVC isquêmico antes e depois da trombólise

Consenso amplo no candidato à trombólise

Reduzir a PA para menos de 185/110 mmHg antes do trombolítico e mantê-la abaixo de 180/105 mmHg nas primeiras 24 horas seguintes. A diretriz brasileira de 2025 acrescenta a trava operacional com recomendação forte: não realizar a infusão do trombolítico nem a trombectomia se a PA permanecer em 185/110 mmHg ou mais. A ESC 2024 usa os mesmos limiares e estende o alvo de menos de 180/105 mmHg também à trombectomia mecânica.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 e 2024 ESC Guidelines, Seção 10.3

Sem trombólise — a magnitude da redução muda de documento para documento

O gatilho é o mesmo nos três documentos: só tratar a partir de 220/120 mmHg. A magnitude difere. A diretriz brasileira de 2025 recomenda redução de 15% durante as primeiras 24 horas. O PCDT do Ministério da Saúde admite faixa mais larga, de 15% a 25%, mantendo a PA nesse nível nas primeiras 24 horas. A ESC 2024 fala em redução relativa moderada inicial de 10% a 15% ao longo de horas, e afirma que, fora de valores extremos, não há evidência para baixar ativamente a PA.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025; PCDT da HAS, Conitec/MS, 2025; 2024 ESC Guidelines, Seção 10.3

Na prova

O gatilho de 220/120 mmHg e o par 185/110 e 180/105 mmHg são estáveis nas três fontes e é neles que a maioria das questões se resolve. A faixa percentual é o que varia — 10% a 15% na Europa, 15% no documento da SBC, 15% a 25% no protocolo do SUS —, e as três se sobrepõem em 15%, que por isso costuma aparecer em alternativas de qualquer recorte. Para identificar o mundo da questão, olhe o cenário e as alternativas: enunciado de unidade de emergência do SUS, com encaminhamento e protocolo assistencial, acompanha o corpo do Ministério da Saúde; enunciado que menciona trombectomia mecânica, e não só trombólise química, tende ao corpo europeu, que trata a trombectomia explicitamente. E uma pista de conteúdo, não de fonte: alternativa que proponha baixar a PA de um AVC isquêmico com 190/100 mmHg sem indicação de trombólise contraria todos os documentos ao mesmo tempo.

Que droga usar quando o Brasil não tem a droga da diretriz internacional

Corpo internacional — labetalol e nicardipina como primeira escolha

A ESC 2024 indica labetalol ou nicardipina intravenosos para a pré-eclâmpsia com hipertensão grave e cita o labetalol intravenoso, com suas propriedades alfabloqueadoras e a vantagem de permitir titulação evitando taquicardia, nas crises adrenérgicas. Nas emergências neurológicas, labetalol e nicardipina são os agentes de referência dos protocolos de AVC.

2024 ESC Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension, Seções 9.14.4 e 10.4

Corpo brasileiro — nitroprussiato, esmolol, metoprolol, nitroglicerina, hidralazina

O Quadro 11.4 da diretriz brasileira lista labetalol, nicardipina, fentolamina, trimetafano, diazóxido, fenoldopam e enalaprilato com asterisco de não disponíveis no Brasil. Sobram, para a emergência: nitroprussiato de sódio na maioria das situações, nitroglicerina na insuficiência coronariana e no edema agudo de pulmão, metoprolol e esmolol na dissecção e na doença coronariana, hidralazina na eclâmpsia e furosemida na congestão. No feocromocitoma, como a fentolamina não existe aqui, a diretriz recomenda doxazosina.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, Quadro 11.4 e item 11.6.6; PCDT da HAS, Conitec/MS, 2025

Na prova

A causa da diferença aqui não é discordância científica: é disponibilidade de medicamento no país. As duas famílias de documentos concordam sobre o alvo pressórico e sobre a necessidade de droga titulável; divergem sobre qual titulável está ao alcance da mão. O PCDT torna isso explícito ao registrar que os medicamentos da emergência hipertensiva podem não constar da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, por serem de ambiente hospitalar, cabendo a cada serviço selecioná-los. Como isso aparece na prova: alternativa com labetalol ou nicardipina é plausível em questão que cite guideline internacional ou descreva centro terciário, e é distrator típico em questão de banca brasileira que descreva um pronto-socorro do SUS. Vale notar uma inconsistência do próprio documento brasileiro: a recomendação para o AVC hemorrágico cita nicardipina e clevidipina, embora a tabela de medicamentos da mesma diretriz registre a nicardipina como indisponível no país.

06

Caso resolvido

Homem de 64 anos chega ao pronto-socorro trazido pela filha porque a farmácia mediu 226/128 mmHg. Está assintomático — nega cefaleia, dor torácica, dispneia e alteração visual. Hipertenso há 15 anos, parou losartana e hidroclorotiazida há dois meses porque 'a receita venceu'. Exame: lúcido, orientado, sem déficit focal, ausculta cardíaca e pulmonar normais, pulsos simétricos, sem edema. PA de 224/126 mmHg no braço direito e 220/124 mmHg no esquerdo, com manguito adequado, após cinco minutos sentado. O plantonista já prescreveu nitroprussiato de sódio e pediu vaga na UTI.
achado
PA de 224/126 mmHg confirmada com técnica correta e nos dois braços, sem assimetria. O valor preenche o corte de crise hipertensiva nas duas fontes brasileiras. Mas valor não é diagnóstico: o que falta é procurar lesão aguda.
busca de lesão de órgão-alvo
Exame neurológico sem déficit focal, sem alteração do nível de consciência, sem rigidez de nuca. Ausculta pulmonar sem congestão, sem estase jugular, sem galope. Pulsos simétricos e sem diferença de PA entre os membros — isso afasta razoavelmente a dissecção. Peça o pacote mínimo: eletrocardiograma, radiografia de tórax, hemograma, troponina, creatinina, urina tipo I e potássio. E faça o fundo de olho, que é o exame que quase ninguém faz: se houver hemorragias, exsudatos ou papiledema, o caso vira outro.
classificação
Sem lesão aguda e progressiva de órgão-alvo, isto não é emergência hipertensiva. É elevação importante da PA sem lesão de órgão-alvo, que a diretriz de 2025 renomeou e o PCDT ainda chama de urgência hipertensiva. O gatilho aqui é conhecido e está na história: suspensão do anti-hipertensivo há dois meses.
conduta imediata
Suspender o nitroprussiato e cancelar a vaga de UTI. A primeira medida é observação clínica por 30 minutos em ambiente calmo, avaliando a redução espontânea da PA. Não há evidência de que este paciente deva ser tratado em unidade de emergência, e a redução rápida da PA em quem se autorregulou em níveis altos produz AVC, infarto e cegueira.
tratamento
Persistindo a PA elevada após a observação, reintroduza o esquema crônico dele (losartana e hidroclorotiazida) e, se necessário, um oral de rápido início e curta duração — clonidina ou captopril, por via oral. Nada de nifedipina de liberação rápida, que a diretriz declara proscrita, e nada de captopril sublingual, ressalva que o PCDT faz entre parênteses.
alvo e alta
O alvo desta etapa é sistólica abaixo de 160 e diastólica abaixo de 100 mmHg — não 130/80, que é meta de ambulatório e de semanas. Alta com reavaliação ambulatorial marcada em 1 a 7 dias pela diretriz da SBC, ou em 24 a 48 horas pelo PCDT, que mira 160/95 mmHg ou menos em até 48 horas. Antes de liberar, resolva o que causou tudo: renove a receita e confirme como ele vai buscar a medicação.
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Agora feche você

Mulher de 58 anos chega ao pronto-socorro com dor torácica de início súbito há 40 minutos, descrita como 'rasgando', irradiada para o dorso interescapular, de forte intensidade. Hipertensa de longa data, sem acompanhamento. Exame: agitada, sudoreica, PA de 196/112 mmHg no braço direito e 154/88 mmHg no esquerdo, frequência cardíaca de 108 bpm, pulso radial esquerdo diminuído em relação ao direito. Ausculta com sopro diastólico aspirativo em foco aórtico. Eletrocardiograma sem supradesnivelamento de ST. Radiografia de tórax com alargamento de mediastino. Angiotomografia de tórax confirma dissecção aguda de aorta com flap intimal na aorta ascendente.
achado
Dor torácica súbita, lancinante, com irradiação dorsal, diferença de 42 mmHg de sistólica entre os braços, assimetria de pulsos, sopro de insuficiência aórtica e alargamento de mediastino. É a apresentação-livro da dissecção aguda de aorta, confirmada pela angiotomografia.
classificação
Emergência hipertensiva por lesão cardiocirculatória aguda. Aqui a régua geral de reduzir 25% na primeira hora não vale: a dissecção é uma das exceções nominais da diretriz, ao lado do AVC, da pré-eclâmpsia, da eclâmpsia e do feocromocitoma.
destino
UTI, com anti-hipertensivo intravenoso, monitorização da PA e vigilância da progressão da lesão — recomendação forte da diretriz de 2025. Em paralelo, acionamento imediato da cirurgia cardiovascular, porque dissecção de aorta ascendente é indicação cirúrgica.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de emergência hipertensiva um número alto sem lesão aguda Emergência se define por lesão de órgão-alvo aguda e progressiva, não pelo valor da pressão. Um paciente com 240/130 assintomático, com exame neurológico normal, sem congestão e sem alteração de creatinina é elevação importante da PA sem lesão — conduta oral e ambulatorial. A diretriz é explícita: a gravidade não é determinada pelo nível absoluto da PA, e sim pela magnitude de sua elevação, e a definição numérica é parâmetro de conduta, não critério absoluto.
  2. 2Prescrever nifedipina de liberação rápida (o 'nifedipino sublingual') A diretriz de 2025 declara o uso proscrito. O motivo está no teto que ela viola: não se reduz a PA em mais de 25% a 30% nas primeiras 2 a 4 horas, sob risco de isquemia tecidual. A queda com nifedipina de liberação rápida é abrupta, intensa e imprevisível, e não há como freá-la depois de administrada. O oral de resgate, quando é preciso, é clonidina ou captopril — e o PCDT faz questão de anotar entre parênteses que captopril é por via oral, não sublingual.
  3. 3Dar vasodilatador antes do betabloqueador na dissecção de aorta Nitroprussiato isolado gera taquicardia reflexa, eleva a velocidade de ejeção do ventrículo esquerdo e aumenta a força de cisalhamento que propaga a dissecção. A sequência é betabloqueador titulável primeiro (metoprolol ou esmolol), para frequência abaixo de 60 bpm, e nitroprussiato depois. É a mesma lógica de ordem que aparece invertida no feocromocitoma: lá, o alfabloqueio vem antes do betabloqueio, porque betabloquear sozinho deixa o estímulo alfa sem oposição e a pressão sobe.
  4. 4Perseguir 130/80 na primeira hora A meta de 130/80 mmHg é do tratamento crônico e se conquista em semanas de ambulatório. Na emergência, a régua da primeira hora é reduzir até 25%; depois 160/100-110 mmHg em 2 a 6 horas; e só nas 24 a 48 horas os valores normais (135/85 mmHg, pelo PCDT). Na elevação importante sem lesão, o alvo de alta é ainda mais modesto: sistólica abaixo de 160 e diastólica abaixo de 100 mmHg, com retorno em 1 a 7 dias.
  5. 5Baixar a pressão do AVC isquêmico que não vai trombolisar Sem indicação de trombólise e sem comorbidade que exija, a PA só é tratada a partir de 220/120 mmHg, e ainda assim com redução de 15% ao longo das primeiras 24 horas. A autorregulação cerebral está comprometida na fase aguda e a penumbra isquêmica depende da pressão sistêmica. Com indicação de trombólise, a história é outra: abaixo de 185/110 mmHg antes e abaixo de 180/105 mmHg nas 24 horas seguintes, sem infundir o trombolítico enquanto a PA não ceder.
  6. 6Tratar a pressão e não tratar a dor Pseudocrise é elevação da PA sem lesão de órgão-alvo desencadeada por dor, ansiedade, desconforto ou erro de medida — e inclui retenção urinária, enxaqueca, cefaleia musculoesquelética e síndrome do pânico. A conduta é a causa: analgesia, esvaziamento vesical, ansiolítico. Cefaleia, epistaxe, tontura e palpitação são sintomas que acompanham a elevação, não lesão de órgão-alvo, e não convertem o quadro em emergência.
  7. 7Confundir lesão crônica com lesão aguda Hipertrofia ventricular esquerda no eletrocardiograma, doença renal crônica estável, cruzamentos arteriovenosos e espasmos ao fundo de olho são lesões de órgão-alvo do hipertenso de longa data. Nenhuma delas é lesão aguda e progressiva. O que conta na crise é o dano acontecendo agora: déficit neurológico novo, troponina subindo, congestão pulmonar, creatinina em ascensão, hemorragias retinianas com exsudatos e papiledema (graus III e IV de Keith-Wagener-Barker).
  8. 8Esquecer o teste de gravidez e o exame de fundo de olho O quadro de investigação da emergência hipertensiva da diretriz de 2025 fecha com duas linhas que costumam ser puladas: excluir gravidez em mulheres em idade fértil, e a avaliação de retina, que é o único leito vascular examinável diretamente. A gestante muda todo o arsenal — hidralazina e nifedipino no lugar do resto, sulfato de magnésio se a sistólica for de 160 mmHg ou mais, e IECA e BRA formalmente contraindicados.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Há emergência hipertensiva: PA muito elevada com lesão aguda de órgão-alvo (provável evento neurológico agudo). O manejo exige anti-hipertensivo endovenoso titulável com monitorização em ambiente adequado, com redução controlada e gradual da PA (redução abrupta pode piorar a perfusão em território isquêmico/cerebral). Captopril sublingual com queda rápida e não controlada é inadequado e perigoso. Não tratar ignora a lesão de órgão-alvo. Liberar após melhora da cefaleia é inaceitável diante de déficit neurológico e emergência hipertensiva.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Diga em voz alta, sem consultar: o que define emergência hipertensiva (não é o número, é a lesão aguda e progressiva); os três tempos da régua geral (até 25% na 1ª hora, 160/100-110 mmHg em 2 a 6 h, valores normais em 24 a 48 h); os dois números da dissecção (PAS 90-120 mmHg e FC abaixo de 60 bpm, em 20 minutos) e qual droga vem primeiro; os limiares do AVC isquêmico (185/110 antes da trombólise, 180/105 nas 24 h seguintes, 220/120 para tratar quem não trombolisa); e o alvo da elevação importante sem lesão (PAS abaixo de 160, PAD abaixo de 100, retorno em 1 a 7 dias). Feche listando as quatro causas de pseudocrise que você procuraria num paciente com 210/120 e cefaleia.

em 30 dias

Refaça as cinco divergências como se explicasse a um colega de plantão: por que a diretriz brasileira de 2025 aposentou 'urgência hipertensiva' enquanto o Ministério da Saúde e a Europa mantiveram o termo e os americanos querem abandonar também 'crise'; por que a diastólica que define crise é 110 mmHg num documento e 120 mmHg no outro; a linha do tempo do alvo no AVC hemorrágico (INTERACT2 em 2013, Classe I em 2015, ATACH-2 em 2016, Classe 2b em 2022, INTERACT3 em 2023) e onde a fonte brasileira e a americana param; por que a magnitude da redução no AVC isquêmico sem trombólise varia de 10% a 25% conforme o documento; e por que o arsenal brasileiro não tem labetalol nem nicardipina. Depois resolva do zero um caso de emergência hipertensiva por edema agudo de pulmão: destino, alvo da primeira hora, drogas com dose e as duas que não se usam ali.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Sala de emergência de hospital geral, madrugada. Homem de 61 anos, trazido pela esposa, encaminhado pela unidade básica com 232/126 mmHg aferidos na sala de acolhimento. Refere cefaleia occipital há dois dias e refere que 'a pressão sempre foi assim'. Parou de tomar as medicações há um mês. Está ansioso, quer saber se vai ter um derrame e pergunta se não dá para 'tomar aquele remédio embaixo da língua'. Cabe a você medir a pressão com técnica nos dois braços, procurar lesão aguda de órgão-alvo com exame dirigido e exames complementares, decidir entre UTI e alta, e explicar a ele — em linguagem de quem não estudou medicina — por que baixar a pressão depressa pode ser mais perigoso do que deixá-la alta por mais alguns dias. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.