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Clínica MédicaCardiologia

Hipertensão arterial sistêmica

O número que diagnostica não é o número que trata: fecha-se HAS com 140/90 no consultório e trata-se para 130/80. Quem troca os dois erra a questão inteira.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Paciente de 62 anos em uso de captopril para hipertensão retorna referindo tosse seca persistente, sem outros sintomas respiratórios, iniciada após introdução da medicação. Qual é o mecanismo responsável por esse efeito adverso?

02

Como esse tema cai

Hipertensão é o diagnóstico mais comum do ambulatório brasileiro e um dos mais mal feitos. Três decisões concentram tudo o que a prova cobra: este paciente tem hipertensão (e com qual medida você provou isso)? Qual o risco cardiovascular dele? Qual é a meta e com quantos comprimidos se chega lá? Se você acertar essas três, acerta a questão mesmo sem decorar o resto.

A tese do capítulo é uma frase só: o número que diagnostica não é o número que trata. No consultório, hipertensão é PAS de 140 mmHg ou mais e/ou PAD de 90 mmHg ou mais. A meta do tratamento é abaixo de 130/80. São dois números diferentes, com funções diferentes, e a banca adora oferecer a alternativa 'iniciar anti-hipertensivo porque a PA está 134/86'. Na maioria absoluta dos casos, isso está errado.

O eixo aqui é ambulatorial. Crise hipertensiva — emergência, o que sobrou da antiga urgência, drogas intravenosas — é assunto de outro capítulo; deste, sai apenas a fronteira: como reconhecer que o paciente atravessou para o outro lado. Hipertensão na gestação e o aprofundamento de cada causa secundária também ficam fora; aqui entra só o gatilho que faz você investigar.

As duas referências brasileiras são de 2025 e não dizem exatamente a mesma coisa. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025 (SBC, SBH e SBN) reescreveu a classificação e cravou meta única de 130/80 para todo hipertenso. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, publicado no mesmo ano, manteve a tabela antiga e uma meta escalonada. Onde elas divergem é exatamente onde a prova tem margem para cobrar — e por isso a divergência tem seção própria mais adiante.

03

O que muda decisão

A medida é o exame

Não existe diagnóstico de hipertensão melhor que a medida que o originou. Antes de discutir estágio, risco ou droga, o paciente precisa ter sido medido direito — e a diretriz de 2025 descreve o procedimento passo a passo justamente porque é aqui que a maior parte do erro acontece.

O preparo: braço nu, apoiado na altura do coração, palma da mão voltada para cima. Ambiente silencioso e com temperatura confortável. Trinta minutos sem fumar, comer ou tomar cafeína, e noventa minutos sem exercício físico. Paciente sentado, costas apoiadas na cadeira, pernas descruzadas, pés no chão, bexiga vazia, em silêncio por pelo menos cinco minutos.

A execução: manguito sem folgas, 2 a 3 cm acima da fossa cubital, com o meio da bolsa inflável centralizado sobre a artéria braquial. Na técnica auscultatória, estima-se a sistólica por palpação, insufla-se 20 a 30 mmHg acima desse valor, desinsufla-se devagar (cerca de 2 mmHg por segundo), registra-se a sistólica no primeiro som e a diastólica no desaparecimento dos sons.

O número que vale: realizam-se três medidas com um minuto de intervalo e usa-se a média das duas últimas. A primeira é descartada — ela quase sempre é a mais alta. Se a diferença entre as medidas passar de 10 mmHg, fazem-se medidas adicionais. A DBHA 2025 recomenda formalmente equipamento automático de braço validado, com força forte, porque ele reduz erro de observador e o efeito do avental branco.

Duas armadilhas mecânicas valem dinheiro em prova: manguito estreito demais para o braço superestima a pressão (obeso 'vira hipertenso' por causa do equipamento), e a suspeita de coarctação de aorta ou de doença arterial periférica exige medir os quatro membros, não só um braço.

Ilustração de paciente sentado tendo a pressão arterial medida com postura correta: costas apoiadas, pés no chão, pernas descruzadas e braço nu apoiado na altura do coração com a palma para cima.
A posição correta não é detalhe de enfermagem: braço na altura do coração, costas apoiadas, pés no chão e cinco minutos de repouso mudam o valor medido em mmHg suficientes para reclassificar o paciente de estágio.

Diagnóstico: 140/90 no consultório e os quatro números de fora dele

No consultório, o diagnóstico é PAS de 140 mmHg ou mais e/ou PAD de 90 mmHg ou mais, confirmado em duas ocasiões diferentes, com intervalo de dias a semanas. A classificação usa o maior valor entre sistólica e diastólica — 138/96 é estágio 1 pela diastólica, não é 'quase normal'.

Existem duas exceções que fecham o diagnóstico numa consulta só: pressão substancialmente elevada, ou seja, estágio 3 (180/110 ou mais), e presença de lesão de órgão-alvo ou doença cardiovascular estabelecida. Nesses dois casos não se pede confirmação em segunda visita nem medida fora do consultório: o achado já é suficiente.

Fora do consultório os limiares são outros, e este é o ponto de consenso entre a SBC e o Ministério da Saúde — ambos os documentos de 2025 usam os mesmos quatro valores. mapa de 24 horas: 130/80 ou mais. mapa na vigília: 135/85 ou mais. mapa no sono: 120/70 ou mais. MRPA: 130/80 ou mais. Os números são menores porque fora do consultório não há efeito de avental branco e a média incorpora períodos de repouso.

Daí saem os dois fenótipos discordantes. Hipertensão do avental branco é pressão elevada no consultório (140/90 ou mais) e normal fora dele (abaixo de 130/80 na mapa de 24 horas ou na MRPA); a prevalência é de 7% a 15% e ela é mais comum no estágio 1 e nas formas sistólica ou diastólica isolada. Hipertensão mascarada é o inverso — normal no consultório, elevada fora — com prevalência de 8% a 22%, mais frequente em diabéticos e obesos. A mascarada é a perigosa: o risco cardiovascular dela é semelhante ao da hipertensão sustentada, e ela passa despercebida em quem só é medido na consulta.

Em paciente já tratado os termos mudam de nome (hipertensão do avental branco não controlada, mascarada não controlada) e o limiar muda de lugar: nos tratados, a diretriz de 2025 considera elevada a pressão de 130/80 ou mais, tanto no consultório quanto fora dele — porque nesse cenário o que está sendo avaliado não é diagnóstico, é meta.

Duas formas merecem nome próprio. Hipertensão sistólica isolada: PAS de 140 mmHg ou mais com PAD abaixo de 90 — típica do idoso, por enrijecimento arterial, e classificada em estágio 1, 2 ou 3 pelo valor da sistólica. Hipertensão diastólica isolada: PAS abaixo de 140 com PAD de 90 ou mais, mais comum no adulto jovem, classificada pelo valor da diastólica.

A classificação mudou em 2025 — e o Ministério da Saúde não seguiu

A DBHA 2025 fez duas mudanças na tabela. Primeira: aposentou a categoria 'PA ótima'; aquela faixa foi absorvida pela nova 'PA normal', que agora é PAS abaixo de 120 e PAD abaixo de 80. Segunda: alargou a pré-hipertensão, que passou a cobrir PAS de 120 a 139 e/ou PAD de 80 a 89 — engolindo o que a diretriz de 2020 chamava de 'PA normal' (120-129/80-84). A intenção declarada é identificar mais cedo quem está em risco.

Os estágios não mudaram: estágio 1 é 140-159 e/ou 90-99; estágio 2 é 160-179 e/ou 100-109; estágio 3 é 180 ou mais e/ou 110 ou mais.

O PCDT do Ministério da Saúde, de 2025, manteve a tabela da diretriz de 2020: PA ótima abaixo de 120/80, normal 120-129/80-84, normal alta 130-139/85-89, e hipertensão em graus 1, 2 e 3 com exatamente os mesmos cortes de 140/90, 160/100 e 180/110. Ou seja: no Brasil, em 2025, um paciente com 124/82 é 'pré-hipertenso' para a SBC e 'PA normal' para o Ministério da Saúde. E a diretriz da SBC fala em 'estágios', o PCDT fala em 'graus'.

Na prática terapêutica isso muda pouco — o gatilho para droga na zona cinzenta é 130-139/80-89 com alto risco nos dois documentos. O que muda é o rótulo, e rótulo é exatamente o que enunciado de múltipla escolha testa. Se a questão citar a fonte, siga a fonte citada. Se não citar, a resposta padrão de prova de residência é a diretriz da SBC.

O PCDT também define o ritmo do rastreamento na atenção primária, que é conteúdo típico de ENAMED e Revalida: PA entre 140/90 e 159/99 exige confirmação com duas medições, em intervalo de 7 a 14 dias. PA de 160/100 ou mais tem indicação de consulta médica imediata. E PA de 180/110 ou mais, ou qualquer evidência de doença cardiovascular ou lesão de órgão-alvo, fecha o diagnóstico numa consulta só.

Estratificar risco: o escore mudou, o que se procura não

A DBHA 2025 manda estratificar todo indivíduo com PA de 130/80 ou mais — não só o hipertenso. A avaliação clínica e complementar busca quatro coisas: fatores de risco cardiovascular, lesão de órgão-alvo, doença cardiovascular estabelecida e doença renal crônica. Depois disso, aplica-se o escore.

Aqui houve troca de ferramenta. A DBHA 2025 recomenda o escore prevent, da American Heart Association, com força forte e certeza alta. Ele estima risco em 10 e em 30 anos, para pessoas de 30 a 79 anos, e foi escolhido por ser o único que incorpora a síndrome cardiorrenal e metabólica — além das variáveis clássicas, ele usa taxa de filtração glomerular estimada, relação albuminúria/creatininúria e hemoglobina glicada. O PCDT do Ministério da Saúde, por sua vez, adotou a calculadora da iniciativa HEARTS, da OPAS e da OMS, por ser mais simples e ter melhor adesão na atenção primária. Quem já tem doença cardiovascular estabelecida não precisa de escore nenhum: é risco muito alto por definição.

Os exames de rotina de todo hipertenso, pelo Quadro 4.3 da diretriz, são: análise de urina; potássio plasmático; creatinina plasmática com estimativa da taxa de filtração glomerular pelo CKD-EPI; relação proteinúria/creatininúria ou albuminúria/creatininúria; glicemia de jejum e hemoglobina glicada (se houver risco de diabetes ou síndrome metabólica); colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos; ácido úrico plasmático; e eletrocardiograma convencional. É uma lista curta e cobrável — repare que ecocardiograma não é rotina.

Lesão de órgão-alvo tem critérios numéricos, e eles caem. No coração, pelo eletrocardiograma: índice de Sokolow-Lyon (onda S de V1 somada à onda R de V5 ou V6) acima de 35 mm; onda R de aVL de 11 mm ou mais; índice de Cornell (S de V3 somada a R de aVL) acima de 28 mm em homens e acima de 20 mm em mulheres. Pelo ecocardiograma, índice de massa ventricular esquerda de 116 g/m² ou mais em homens e 96 g/m² ou mais em mulheres, indexado por superfície corpórea.

Nos grandes vasos: índice tornozelo-braquial abaixo de 0,9; presença de placa na ultrassonografia de carótidas; velocidade de onda de pulso carotídeo-femoral de 10 m/s ou mais. No rim: doença renal crônica a partir do estágio 3a, ou seja, filtração glomerular abaixo de 60 mL/min/1,73 m², e albuminúria de 30 mg/24 h ou mais, ou relação albuminúria/creatininúria de 30 mg/g ou mais. Na retina: retinopatia hipertensiva pela classificação de Keith-Wagener-Barker.

A avaliação de lesão de órgão-alvo se repete pelo menos anualmente, e a cada 6 a 12 meses se a pressão não estiver controlada ou já houver lesão na avaliação inicial. Albuminúria e velocidade de onda de pulso são os parâmetros que respondem mais rápido ao tratamento — de semanas a poucos meses —, o que os torna úteis para mostrar ao paciente que o esforço está valendo.

Ilustração com cinco alvos da hipertensão dispostos ao redor de uma artéria em corte: coração com ventrículo esquerdo espessado, rim com vasos estreitados, olho com arteríolas da retina, cérebro com vasos perfurantes e artéria de membro inferior.
Lesão de órgão-alvo não é conceito abstrato: cada alvo tem um exame e um número de corte. Encontrar qualquer um deles já confirma o diagnóstico numa consulta só e desloca o paciente para risco alto.

Metas: 130/80 é o alvo, não o diagnóstico

A DBHA 2025 unificou a meta e essa é a mudança mais cobrável do documento: pressão abaixo de 130/80 para todo paciente com hipertensão, independentemente de o risco cardiovascular ser baixo, moderado ou alto — força forte, certeza alta. A mesma meta vale para quem tem 130-139/80-89 com alto risco, para o diabético, para o portador de doença renal crônica, para o coronariopata, para a hipertensão resistente e refratária, e para a maioria dos idosos.

Existe uma válvula de escape explícita: quem não tolerar a meta de 130/80 deve ter a pressão reduzida até o menor valor tolerado. Isso não é permissão para desistir cedo — é reconhecimento de que hipotensão sintomática, síncope, injúria renal aguda e hipercalemia são desfechos reais, especialmente abaixo de 120/70.

No idoso, a recomendação é abaixo de 130/80 para a maioria, com força forte e certeza alta. A exceção é nominal: idoso frágil, muito idoso ou com condição que comprometa a expectativa de vida — nesses, reduzir até o menor valor tolerado. Em quem usa muitos medicamentos, a diretriz pede revisão periódica de cada droga e o menor número possível de comprimidos por dia, preferindo combinações em dose única diária.

Na hipertensão sistólica isolada a meta se restringe, na prática, à sistólica: a diastólica já está abaixo de 90 e cai junto, e não faz sentido perseguir um número diastólico que a fisiologia do paciente não comporta. O acompanhamento precisa ser mais frequente nesse grupo.

Na doença arterial coronariana, a diretriz vai um passo além e resolve uma dúvida comum: reduzir até 120/70 não aumenta risco cardiovascular, e o paciente assintomático que já está abaixo de 120/70 não precisa suspender nem reduzir o anti-hipertensivo. Sempre que possível, confirme o alcance da meta com medida fora do consultório, por mapa ou MRPA.

O PCDT do Ministério da Saúde propõe outro caminho para o mesmo destino: meta inicial abaixo de 140/90 para todos, independentemente de comorbidade e risco; se o tratamento for bem tolerado, a meta passa a 130/80 nos menores de 65 anos, sobretudo com diabetes, doença renal crônica, coronariopatia ou antecedente de AVC/AIT. Entre 65 e 79 anos, reduzir primeiro a sistólica para a faixa de 130 a 140 mmHg, e só depois abaixo de 130 se houver tolerância e nenhum sinal de hipoperfusão; a diastólica vai abaixo de 80, mas sem levar sistólica e diastólica abaixo de 120/70. Na gestante, o PCDT delimita a sistólica entre acima de 120 e abaixo de 160, e a diastólica entre acima de 80 e abaixo de 110, porque tanto hipertensão quanto hipotensão induzida prejudicam a perfusão placentária.

Quando começar e com quantos comprimidos

As medidas não medicamentosas entram para todo mundo com PA de 120/80 ou mais, com força forte e certeza alta: não fumar, dieta DASH, IMC entre 18 e 24,9 kg/m², redução da ingestão de sódio, aumento da ingestão de potássio (exceto na doença renal crônica), atividade física aeróbica regular e baixa ingestão de álcool.

O fármaco tem dois gatilhos, e só dois. Pressão de 140/90 ou mais: iniciar tratamento medicamentoso, ponto. Pressão de 130-139/80-89 com alto risco cardiovascular: iniciar após três meses de medidas não medicamentosas. Fora dessas duas situações, na zona cinzenta, não se prescreve anti-hipertensivo.

A escolha entre um e dois comprimidos é uma lista fechada, e vale decorar. Monoterapia é indicada em quatro situações: pressão de 130-139/80-89 com alto risco; hipertensão estágio 1 de baixo risco (aqui o médico pode optar por associação, se julgar melhor); indivíduo frágil; e muito idoso, com 80 anos ou mais, ou com hipotensão ortostática sintomática. Para todo o resto — estágio 1 de risco moderado ou alto, estágio 2 e estágio 3 — a recomendação é começar já com associação dupla, em doses baixas, preferencialmente em comprimido único.

As classes preferenciais são três: diuréticos tiazídicos ou similares, inibidores da ECA ou bloqueadores do receptor da angiotensina, e bloqueadores dos canais de cálcio. A combinação inicial recomendada é um inibidor da ECA ou BRA associado a um bloqueador de canal de cálcio e/ou a um diurético tiazídico. Nunca se associa inibidor da ECA com BRA.

Betabloqueador não é primeira linha genérica em hipertensão. Ele entra por indicação específica: insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e outras arritmias, doença arterial coronariana, hipertensão em paciente em hemodiálise, e algumas situações particulares (enxaqueca, tremor essencial, mulher que deseja engravidar, varizes esofágicas).

A ordem de escalonamento importa: alcance as doses plenas da combinação de dois antes de acrescentar o terceiro. A quarta droga preferencial é a espironolactona, na faixa de 25 a 50 mg por dia — no SUS, se houver intolerância ou falha, seguem-se um simpatolítico (metildopa 500 a 1.500 mg/dia ou clonidina 0,2 a 0,6 mg/dia) ou um betabloqueador.

O seguimento tem prazo definido: revisão a cada quatro semanas até atingir a meta. Antes de subir dose ou acrescentar classe, verifique adesão — a falta de adesão é a causa mais frequente de pressão não controlada. E a diretriz nomeia o outro vilão: inércia terapêutica, que é o médico ver a pressão fora da meta e não mudar nada.

Resistente, refratária e secundária

Hipertensão arterial resistente, pela DBHA 2025, é a pressão de consultório que permanece acima da meta proposta para aquele paciente em uso de três ou mais classes de anti-hipertensivos com ações sinérgicas, em doses máximas preconizadas ou toleradas — preferencialmente um diurético tiazídico ou similar, um inibidor do sistema renina-angiotensina-aldosterona (IECA ou BRA) e um bloqueador de canal de cálcio de ação prolongada — por pelo menos 30 a 60 dias, e depois de afastadas as causas de pseudorresistência. Atenção: também é considerado resistente o paciente que atingiu o controle da pressão, mas precisou de quatro ou mais anti-hipertensivos para isso.

Hipertensão refratária é um subgrupo da resistente verdadeira: pressão que segue acima da meta apesar de cinco ou mais anti-hipertensivos, incluindo preferencialmente um antagonista do receptor mineralocorticoide (espironolactona, ou eplerenona se houver efeito colateral hormonal) e um diurético tiazídico similar de ação prolongada, como clortalidona ou indapamida.

Antes de rotular, exclua pseudorresistência — são quatro causas, e elas aparecem em ordem de frequência: falha na técnica de medida, efeito do avental branco, inércia terapêutica e falta de adesão. Por isso a diretriz recomenda confirmar o diagnóstico preferencialmente com mapa, ou com MRPA se a mapa não estiver disponível. Em números: a prevalência de resistente é de 6% a 18%, e o estudo brasileiro ReHOT encontrou 11,7%; entre os resistentes, de 3,6% a 17,6% são refratários.

Hipertensão secundária responde por 5% a 10% dos casos e não se investiga por rotina — investiga-se diante de indício vindo da história, do exame físico ou dos exames iniciais. Os gatilhos que a diretriz nomeia: hipertensão resistente ou refratária; início súbito ou piora sem causa aparente antes dos 30 ou depois dos 55 anos; hipopotassemia; nódulo adrenal; e uso de hormônios, medicamentos ou substâncias que elevam a pressão.

Cada suspeita tem um rastreio. Doença renal parenquimatosa (edema, anemia, creatinina e ureia elevadas, sedimento urinário alterado): creatinina com filtração estimada, ultrassonografia renal, sumário de urina e albuminúria. Estenose de artéria renal (sopro abdominal, edema agudo de pulmão súbito, piora da função renal ao bloquear o sistema renina-angiotensina, assimetria renal maior que 1,5 cm): ultrassonografia com Doppler como rastreio, angiotomografia ou angiorressonância, com arteriografia convencional como padrão-ouro. Hiperaldosteronismo primário (resistente ou refratária, com ou sem hipopotassemia, com ou sem nódulo adrenal): dosagem de aldosterona e de renina plasmática, seguida de testes confirmatórios.

Feocromocitoma se anuncia pela tríade de hipertensão paroxística com cefaleia, sudorese e palpitações; o rastreio é metanefrinas plasmáticas livres e metanefrinas fracionadas urinárias. Apneia obstrutiva do sono (ronco na maioria das noites, pausas ou engasgos, sonolência diurna, sono não reparador, nictúria, cefaleia matinal) tem a polissonografia como padrão-ouro, com índice de apneia-hipopneia de 30 ou mais eventos por hora definindo forma grave. Coarctação de aorta dá pulsos diminuídos ou ausentes em membros inferiores, sistólica pelo menos 10 mmHg maior nos membros superiores que nos inferiores e sopro interescapular; confirma-se por angiotomografia ou, preferencialmente, angiorressonância da aorta.

E pergunte sempre o que o paciente está tomando: anti-inflamatórios não esteroidais, corticoides, anticoncepcionais, descongestionantes nasais, esteroides anabolizantes, eritropoetina e drogas ilícitas sobem a pressão ou impedem seu controle — e nenhum deles aparece se você não perguntar.

A fronteira com a crise hipertensiva

Estágio 3, ou seja, 180/110 ou mais, não é emergência hipertensiva por definição. Emergência se define por lesão de órgão-alvo aguda em curso, não pelo valor da pressão. Um paciente com 210/120 assintomático e sem lesão aguda é um hipertenso estágio 3 mal controlado, não um paciente de UTI.

A DBHA 2025 aposentou o termo 'urgência hipertensiva'. O que sobrou chama-se elevação importante da pressão sem lesão de órgão-alvo aguda, e a conduta é ambulatorial: reavaliação em 1 a 7 dias, com alvo de sistólica abaixo de 160 e diastólica abaixo de 100 mmHg. É recomendação fraca, com certeza baixa — o que significa que a diretriz reconhece a fragilidade da evidência, mas rejeita a prática de baixar a pressão às pressas no pronto-socorro.

A emergência hipertensiva, essa sim, vai para UTI, com anti-hipertensivo intravenoso, monitorização da pressão e vigilância da progressão da lesão. O PCDT do Ministério da Saúde dá as balizas de redução: queda de até 25% da pressão arterial média na primeira hora, algo em torno de 160/100-110 mmHg entre 2 e 6 horas, e cerca de 135/85 mmHg nas 24 a 48 horas seguintes.

Duas condutas que ainda aparecem como distratores e estão erradas: nifedipina sublingual — abandonada, por queda abrupta e imprevisível — e internar ou medicar por via intravenosa alguém que só tem número alto, sem lesão aguda. Baixar pressão depressa em quem se autorregulou em níveis altos produz AVC, infarto e cegueira.

04

Como fechar o diagnóstico e escolher a meta

O caminho é sempre o mesmo e tem oito passos. Medir direito, confirmar, classificar, estratificar, definir a meta, escolher o esquema, revisar em quatro semanas e não aceitar pressão fora da meta sem mudar alguma coisa. Os números abaixo são os da DBHA 2025 (SBC/SBH/SBN), com as diferenças do PCDT do Ministério da Saúde sinalizadas nas notas.

  1. 1Meça com técnica: 5 minutos de repouso, braço nu na altura do coração, três medidas com 1 minuto de intervalo — e registre a média das duas últimas, nunca a primeira.
  2. 2Média de 140/90 ou mais? Repita em outra consulta, com intervalo de dias a semanas. Exceção: 180/110 ou mais, ou lesão de órgão-alvo / doença cardiovascular já estabelecida fecham o diagnóstico numa consulta só.
  3. 3Sempre que possível, confirme fora do consultório: MAPA de 24 h a partir de 130/80, vigília a partir de 135/85, sono a partir de 120/70, MRPA a partir de 130/80. É isso que separa hipertensão sustentada de avental branco e revela a mascarada.
  4. 4Classifique pelo maior valor, sistólico ou diastólico: pré-hipertensão, estágio 1, 2 ou 3.
  5. 5Estratifique o risco de todo indivíduo com 130/80 ou mais: fatores de risco, lesão de órgão-alvo, doença cardiovascular, doença renal crônica, mais o escore PREVENT (a calculadora HEARTS, no PCDT). Peça os exames de rotina, incluindo eletrocardiograma.
  6. 6Defina a meta: abaixo de 130/80 para todo hipertenso, independentemente do risco. Se não tolerar, reduza até o menor valor tolerado.
  7. 7Escolha o esquema: monoterapia só nas quatro situações listadas (130-139/80-89 de alto risco; estágio 1 de baixo risco; frágil; 80 anos ou mais / hipotensão ortostática sintomática). Para todo o resto, dupla combinação em dose baixa, preferencialmente em comprimido único, com IECA ou BRA associado a bloqueador de canal de cálcio e/ou diurético tiazídico.
  8. 8Reveja a cada 4 semanas até a meta. Fora da meta: cheque adesão e técnica antes de subir dose, complete as doses plenas da dupla antes de entrar com a terceira classe, e a quarta droga é a espironolactona.

Pré-hipertensão

120-139 e/ou 80-89 mmHg. Medidas não medicamentosas para todos. Fármaco só se a PA estiver em 130-139/80-89 com alto risco cardiovascular, e ainda assim depois de 3 meses de mudança de estilo de vida.

Estágio 1

140-159 e/ou 90-99 mmHg. Já é hipertensão e já entra fármaco. Monoterapia só se o risco for baixo; risco moderado ou alto começa com dupla combinação.

Estágio 2

160-179 e/ou 100-109 mmHg. Dupla combinação de largada, em dose baixa e preferencialmente em comprimido único. Confirmação exige visitas mais próximas entre si.

Estágio 3

180 mmHg ou mais e/ou 110 mmHg ou mais. Diagnóstico numa consulta só, sem esperar segunda medida. Não é emergência por si — emergência exige lesão de órgão-alvo aguda.

Categoria ou métodoPAS (mmHg)PAD (mmHg)O que dispara
PA normal (consultório)< 120e < 80Só prevenção; reavaliação periódica
Pré-hipertensão (consultório, DBHA 2025)120-139e/ou 80-89Medidas não medicamentosas para todos; fármaco só em 130-139/80-89 com alto risco, após 3 meses
HA estágio 1 (consultório)140-159e/ou 90-99Confirmar em 2ª ocasião e tratar; mono se baixo risco, dupla se risco moderado ou alto
HA estágio 2 (consultório)160-179e/ou 100-109Tratar já com dupla combinação; visitas de confirmação mais próximas
HA estágio 3 (consultório)≥ 180e/ou ≥ 110Diagnóstico em uma única consulta; dupla combinação
MAPA — média de 24 horas≥ 130e/ou ≥ 80Confirma hipertensão fora do consultório
MAPA — vigília≥ 135e/ou ≥ 85Confirma hipertensão fora do consultório
MAPA — sono≥ 120e/ou ≥ 70Confirma hipertensão fora do consultório
MRPA≥ 130e/ou ≥ 80Confirma hipertensão fora do consultório
Meta de tratamento (DBHA 2025)< 130e < 80Vale para todo hipertenso, qualquer risco; se não tolerar, o menor valor tolerado

Os quatro limiares de MAPA e MRPA são idênticos na DBHA 2025 e no PCDT do Ministério da Saúde de 2025 — é o ponto de consenso do capítulo e o mais seguro de decorar.

O PCDT do Ministério da Saúde não usa 'pré-hipertensão': mantém PA ótima (< 120/80), normal (120-129/80-84) e normal alta (130-139/85-89), e fala em graus 1, 2 e 3 em vez de estágios.

Em paciente já tratado, o valor de referência muda de função: considera-se elevado 130/80 ou mais dentro e fora do consultório, porque aí o que se avalia é meta, não diagnóstico.

Lesão de órgão-alvo ou doença cardiovascular estabelecida dispensam a confirmação em segunda visita e dispensam a medida fora do consultório.

Abaixo de 120/70 aumenta o risco de hipotensão sintomática, síncope, injúria renal aguda e hipercalemia. Não é meta a perseguir — mas, no coronariopata assintomático que já está lá, também não se reduz a medicação.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A partir de que valor alguém é hipertenso?

Brasil — 140/90

Hipertensão é PAS de 140 mmHg ou mais e/ou PAD de 90 mmHg ou mais na medida de consultório, confirmada em duas ocasiões. A faixa de 120-139/80-89 é pré-hipertensão: recebe medidas não medicamentosas, e fármaco apenas em 130-139/80-89 com alto risco cardiovascular, depois de três meses.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 (SBC/SBH/SBN), Quadro 3.2 e capítulo 5

Estados Unidos — 130/80

Hipertensão começa em 130/80. Estágio 1 é 130-139/80-89 e estágio 2 é 140/90 ou mais. No estágio 1 com risco estimado abaixo de 7,5% em 10 anos pelo escore PREVENT, o fármaco entra se a pressão continuar em 130/80 ou mais após 3 a 6 meses de mudança de estilo de vida.

2025 AHA/ACC Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation and Management of High Blood Pressure in Adults

Europa — 140/90, com uma faixa intermediária

Hipertensão permanece em 140/90 ou mais. Entre 120-139/70-89 criou-se a categoria 'pressão elevada', em que o fármaco depende do risco e da resposta a três meses de estilo de vida. O alvo de sistólica para quem é tratado é a faixa de 120-129 mmHg.

2024 ESC/ESH Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension

Na prova

Três documentos vigentes, dois cortes. A AHA/ACC 2025 desce o diagnóstico para 130/80 — estágio 1 de 130-139/80-89 e estágio 2 a partir de 140/90 —, escolhendo rotular o risco mais cedo e apoiar a decisão de tratar no escore PREVENT; a Diretriz Brasileira de 2025 e a ESC/ESH 2024 mantêm 140/90 na medida de consultório, confirmada em duas ocasiões, com a faixa intermediária nomeada pré-hipertensão (120-139/80-89) ou pressão elevada (120-139/70-89), pesando o custo de rotular e medicar populações inteiras e a capacidade de seguimento que isso exige. Boa parte da confusão vem de 130/80 aparecer nos três textos com papéis distintos: nos Estados Unidos é corte diagnóstico; no Brasil é meta de tratamento, limiar das medidas fora do consultório e gatilho de fármaco na zona cinzenta (130-139/80-89 com alto risco cardiovascular, após três meses de medidas não medicamentosas). Citação nominal da AHA/ACC, uso do PREVENT ou o vocabulário de “estágio 1” e “estágio 2” revelam o corte de 130/80; citação da diretriz brasileira ou do PCDT, cenário de UBS, exigência de confirmação em duas ocasiões e o vocabulário de “pré-hipertensão” revelam o de 140/90. Se as alternativas classificam uma PA de 134/86 tanto como hipertensão estágio 1 quanto como pré-hipertensão, é o próprio par que está pedindo a identificação da fonte no enunciado.

Qual é a meta pressórica — e para quem

SBC/SBH/SBN 2025 — meta única de 130/80

Abaixo de 130/80 para todo paciente com hipertensão, independentemente de o risco cardiovascular ser baixo, moderado ou alto (força forte, certeza alta). Vale também para a maioria dos idosos, para diabético, doença renal crônica, coronariopata e hipertensão resistente. Quem não tolerar: reduzir até o menor valor tolerado.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, capítulo 5 (metas terapêuticas) e capítulo 9 (idosos)

Ministério da Saúde 2025 — meta escalonada

Meta inicial abaixo de 140/90 para todos. Se bem tolerado, passa a 130/80 nos menores de 65 anos, sobretudo com diabetes, doença renal crônica, coronariopatia ou AVC/AIT prévio. Entre 65 e 79 anos, reduzir a sistólica primeiro para a faixa de 130-140 mmHg e só depois abaixo de 130 se houver tolerância, sem levar a pressão abaixo de 120/70.

PCDT da Hipertensão Arterial Sistêmica, Conitec/Ministério da Saúde, 2025, item 10.1

Na prova

Os dois documentos são brasileiros, de 2025, e diferem no desenho da titulação. A DBHA propõe meta única abaixo de 130/80 para todo hipertenso, independentemente do risco (força forte, certeza alta), com “menor valor tolerado” para quem não alcança; o PCDT do Ministério da Saúde parte de abaixo de 140/90 para todos e escalona — 130/80 nos menores de 65 anos, sobretudo com diabetes, doença renal crônica, coronariopatia ou AVC/AIT prévio, e nos de 65 a 79 anos sistólica primeiro na faixa de 130-140 mmHg antes de apertar, sem levar a pressão abaixo de 120/70 —, escalonamento coerente com uma rede de retornos espaçados, titulação lenta e risco relevante de hipotensão e queda. O desenho da vinheta identifica o documento: idade entre 65 e 79 anos, atenção primária, citação do Ministério da Saúde ou do PCDT e ênfase em tolerância apontam para a meta escalonada; citação da SBC, do capítulo de metas terapêuticas, ou paciente de alto risco em seguimento especializado, apontam para a meta única. Duas alternativas plausíveis com 140/90 e 130/80 costumam se resolver por esse par idade + cenário, e alvo abaixo de 120/70 não é objetivo em nenhum dos dois.

Como se chama e onde começa a zona cinzenta

Pré-hipertensão ampliada (SBC 2025)

PAS de 120 a 139 e/ou PAD de 80 a 89. A categoria 'PA ótima' foi extinta e absorvida pela 'PA normal' (abaixo de 120/80). A faixa 120-129/80-84, que era 'normal' em 2020, virou pré-hipertensão.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, Quadro 3.2

PA normal alta (Ministério da Saúde 2025)

Mantém a tabela de 2020: ótima abaixo de 120/80, normal 120-129/80-84 e normal alta 130-139/85-89. Repare que a diastólica da faixa intermediária começa em 85, não em 80.

PCDT da Hipertensão Arterial Sistêmica, Conitec/Ministério da Saúde, 2025, Quadro 1

Na prova

Dois documentos brasileiros oficiais, do mesmo ano, dão nomes diferentes ao mesmo paciente: a DBHA 2025 extinguiu a “PA ótima”, absorveu-a em “PA normal” (abaixo de 120/80) e chamou de pré-hipertensão toda a faixa de 120-139/80-89; o PCDT do Ministério da Saúde manteve a tabela de 2020 — ótima abaixo de 120/80, normal 120-129/80-84 e normal alta 130-139/85-89 —, em que a diastólica da faixa intermediária começa em 85, não em 80. O vocabulário do enunciado entrega qual foi adotado: “pré-hipertensão” e “estágios 1 a 3” são da SBC; “PA ótima”, “PA normal alta” e “graus 1, 2 e 3” são do PCDT. Vale reparar no detalhe aritmético, porque às vezes ele é a questão inteira: uma PA de 124/82 é pré-hipertensão pela SBC e apenas “normal” pela tabela do PCDT. A conduta não se move em nenhum dos dois — fármaco na zona cinzenta só em 130-139/80-89 com alto risco cardiovascular —, então a divergência é de rótulo, não de decisão.

Com que pressão se diz que a hipertensão é resistente

SBC 2025 — acima da meta individual

Pressão acima da meta proposta para aquele paciente (ou seja, 130/80, na prática) com três ou mais classes sinérgicas em doses máximas preconizadas ou toleradas, por pelo menos 30 a 60 dias, afastada a pseudorresistência. Também é resistente quem só controlou com quatro ou mais drogas. Refratária: acima da meta com cinco ou mais drogas, incluindo um antagonista mineralocorticoide e um tiazídico similar de ação prolongada.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, item 12.1

Ministério da Saúde 2025 — ancorada em 140/90

Resistente: pressão que permanece em 140/90 ou mais apesar de três ou mais classes em doses máximas. Resistente controlada: abaixo de 140/90, mas com quatro ou mais drogas. Refratária: 140/90 ou mais mesmo com cinco ou mais drogas.

PCDT da Hipertensão Arterial Sistêmica, Conitec/Ministério da Saúde, 2025, Quadro 2

Na prova

O esqueleto é idêntico nos dois documentos: três ou mais classes sinérgicas em doses máximas preconizadas ou toleradas para resistente, quatro ou mais para a resistente já controlada, cinco ou mais (incluindo antagonista mineralocorticoide e tiazídico similar de ação prolongada) para refratária, sempre depois de afastar pseudorresistência. Só muda o número de referência: a SBC ancora na meta proposta para aquele paciente — 130/80 na prática, com o critério de pelo menos 30 a 60 dias em dose máxima — e o PCDT ancora no corte fixo de 140/90. Citação da diretriz da SBC, meta individualizada, ou o intervalo de 30 a 60 dias, apontam para o primeiro; citação do Ministério da Saúde, do PCDT, ou dos quadros ancorados em 140/90, apontam para o segundo. Isso raramente decide a questão sozinho, mas explica como dois gabaritos aparentemente conflitantes podem estar corretos cada um em sua fonte: um paciente com 136/86 em três drogas em dose máxima é resistente pela SBC e simplesmente controlado pelo PCDT.

06

Caso resolvido

Homem de 56 anos, motorista, comparece à UBS para renovar exame ocupacional. Assintomático. Traz aferição de farmácia com 150/94 mmHg feita há um mês. Fuma 15 cigarros por dia há 30 anos, IMC 29 kg/m². Pai infartou aos 61 anos. Não usa medicamentos. Na consulta, após cinco minutos de repouso, você faz três medidas: 154/96, 148/92 e 146/92 mmHg.
achado
O valor a registrar é a média das duas últimas medidas: 147/92 mmHg. A primeira aferição (154/96) é descartada, e a medida da farmácia não substitui a medida técnica.
classificação
147/92 mmHg é hipertensão estágio 1 (140-159 e/ou 90-99). Não é estágio 3, e ele não tem lesão de órgão-alvo nem doença cardiovascular conhecida — logo, o diagnóstico ainda não está fechado com uma consulta só.
confirmação
Marque nova consulta em dias a semanas para segunda medida e, se disponível, solicite MAPA ou MRPA. O critério fora do consultório é 130/80 na média de 24 horas, 135/85 na vigília, 120/70 no sono e 130/80 na MRPA. É isso que vai separar hipertensão sustentada de avental branco.
estratificação
Ele já tem PA acima de 130/80, então estratifique agora: peça análise de urina, potássio, creatinina com TFGe pelo CKD-EPI, relação albuminúria/creatininúria, glicemia de jejum e HbA1c, perfil lipídico, ácido úrico e eletrocardiograma. Tabagismo, sobrepeso e história familiar de doença coronariana precoce já pesam; aplique o escore PREVENT.
meta
Abaixo de 130/80 mmHg. A meta não depende de o risco dele ser baixo, moderado ou alto — é a mesma para todo hipertenso na DBHA 2025.
conduta
Medidas não medicamentosas desde já: cessação do tabagismo, dieta DASH, redução de sódio, aumento de potássio, atividade física e perda de peso. Confirmado o diagnóstico, inicia-se anti-hipertensivo — estágio 1 com risco moderado ou alto começa com dupla combinação em dose baixa (IECA ou BRA associado a bloqueador de canal de cálcio ou diurético tiazídico), preferencialmente em comprimido único. Revisão em quatro semanas.
07

Agora feche você

Mulher de 84 anos, mora sozinha, caminha com bengala após fratura de fêmur no ano passado, perdeu 6 kg em um ano e refere tontura ao levantar-se. Hipertensa há 20 anos, em uso de losartana 50 mg pela manhã. Na consulta, PA sentada de 158/78 mmHg (média das duas últimas de três medidas) e, em pé após um minuto, 132/72 mmHg com tontura. Creatinina 1,3 mg/dL, potássio 4,2 mEq/L, ECG com índice de Sokolow-Lyon de 39 mm.
achado
PA sentada de 158/78 mmHg é hipertensão sistólica isolada em estágio 1 pela sistólica (140-159), com diastólica abaixo de 90 — padrão típico do idoso, por enrijecimento arterial. A queda de 26 mmHg de sistólica ao ficar em pé, com tontura, caracteriza hipotensão ortostática sintomática.
lesão de órgão-alvo
Sokolow-Lyon de 39 mm ultrapassa o corte de 35 mm: há hipertrofia ventricular esquerda pelo eletrocardiograma. Isso é lesão de órgão-alvo estabelecida e coloca a paciente em risco alto, independentemente de escore.
fragilidade
Idade de 84 anos, perda de peso não intencional, marcha comprometida após fratura e hipotensão ortostática sintomática compõem o quadro de fragilidade — categoria que a diretriz trata à parte, tanto na meta quanto no esquema.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Usar a primeira medida, ou uma medida só São três medidas com um minuto de intervalo, e o valor que vale é a média das duas últimas. A primeira quase sempre é a mais alta. Se a diferença entre medidas passar de 10 mmHg, faça medidas adicionais. Questão que dá três valores e pergunta a conduta está testando isso, não a conduta.
  2. 2Tratar farmacologicamente a pré-hipertensão de baixo risco Pressão em 132/86 com risco baixo recebe medidas não medicamentosas e reavaliação, não anti-hipertensivo. O fármaco na faixa 130-139/80-89 só entra com alto risco cardiovascular, e ainda assim depois de três meses de mudança de estilo de vida. Essa é a alternativa que a banca oferece contando com quem confundiu meta de tratamento com corte diagnóstico.
  3. 3Chamar 190/115 assintomático de emergência hipertensiva Emergência se define por lesão de órgão-alvo aguda em curso, nunca pelo valor da pressão. Sem lesão aguda, é elevação importante da pressão: reavaliação ambulatorial em 1 a 7 dias, com alvo de sistólica abaixo de 160 e diastólica abaixo de 100. Nada de via intravenosa, nada de nifedipina sublingual, nada de internar.
  4. 4Achar que a hipertensão do avental branco é a perigosa É a mascarada. Pressão normal no consultório e elevada fora dele tem risco cardiovascular semelhante ao da hipertensão sustentada, e passa despercebida em quem só é medido na consulta — daí o peso da MAPA e da MRPA em diabéticos e obesos, os grupos onde ela é mais frequente.
  5. 5Rotular hipertensão resistente sem excluir pseudorresistência Antes do rótulo, quatro causas precisam cair: técnica de medida errada, efeito do avental branco, inércia terapêutica e falta de adesão. A diretriz manda confirmar preferencialmente com MAPA. E lembre que a definição exige doses máximas preconizadas ou toleradas por 30 a 60 dias — três drogas em dose baixa não caracterizam resistência.
  6. 6Colocar betabloqueador como primeira linha As classes preferenciais são diurético tiazídico ou similar, IECA ou BRA, e bloqueador de canal de cálcio. Betabloqueador entra por indicação específica: insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e arritmias, doença coronariana, hemodiálise, e algumas situações particulares como enxaqueca, tremor essencial e mulher que deseja engravidar. E nunca associe IECA com BRA.
  7. 7Pedir ecocardiograma como exame de rotina A rotina inicial é análise de urina, potássio, creatinina com TFGe pelo CKD-EPI, relação albuminúria/creatininúria, glicemia de jejum e HbA1c quando indicado, perfil lipídico, ácido úrico e eletrocardiograma. Ecocardiograma, ultrassonografia de carótidas e velocidade de onda de pulso avaliam lesão de órgão-alvo, mas não compõem a lista de rotina.
  8. 8Investigar causa secundária em todo hipertenso São 5% a 10% dos casos, e a investigação parte de indício, não de rotina. Os gatilhos são objetivos: hipertensão resistente ou refratária, início ou piora súbita antes dos 30 ou depois dos 55 anos, hipopotassemia, nódulo adrenal, e uso de substâncias que elevam a pressão. Sem indício, não se rastreia.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tosse seca é efeito adverso clássico dos inibidores da ECA (captopril), decorrente do acúmulo de bradicinina, que a ECA normalmente degrada. O broncoespasmo por bloqueio beta-adrenérgico ocorre com betabloqueadores, não com IECA. A hipopotassemia é efeito de diuréticos e não causa tosse. O depósito pulmonar é toxicidade da amiodarona (fibrose), com quadro diferente. A hipotensão postural não explica tosse seca.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os números sem consultar: diagnóstico de consultório 140/90 em duas ocasiões; MAPA 24 h 130/80, vigília 135/85, sono 120/70, MRPA 130/80; estágios 140-159/90-99, 160-179/100-109 e 180/110 ou mais; meta 130/80 para todos. Depois, diga em voz alta as quatro situações em que se usa monoterapia e por que a média das duas últimas de três medidas é o valor que vale.

em 30 dias

Refaça as quatro divergências como se estivesse explicando a um colega: por que o Brasil diagnostica em 140/90 e os Estados Unidos em 130/80; por que a SBC crava meta única de 130/80 e o Ministério da Saúde escalona; por que 'pré-hipertensão' e 'PA normal alta' não cobrem a mesma faixa; e por que resistente e refratária mudam de número entre as duas fontes brasileiras. Feche resolvendo um caso de hipertensão resistente do zero: exclua pseudorresistência, confirme com MAPA, escolha a quarta droga e liste os gatilhos de causa secundária que você investigaria naquele paciente.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Ambulatório de atenção primária. Homem de 48 anos, pedreiro, vem buscar resultado de exames pedidos pela enfermagem depois de duas aferições alteradas na sala de acolhimento. Diz que não sente nada e que só quer 'o papel do trabalho'. Cabe a você medir a pressão com técnica, decidir se há diagnóstico de hipertensão, estratificar o risco com o que tem na unidade e explicar a ele — em linguagem de quem não estudou medicina — por que um número que não dói precisa de tratamento contínuo. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hipertensão arterial sistêmica — Preparatório para provas | OsceLabs