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Clínica MédicaCardiologia

Dislipidemias e risco cardiovascular

Dislipidemias e prevenção cardiovascular / risco global

Duas perguntas resolvem quase toda questão de dislipidemia: em que categoria de risco este paciente está, e qual é a meta de LDL dessa categoria. Droga, dose e quando associar são consequência — não o ponto de partida.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 58 anos, hipertenso e diabético, é atendido na Unidade Básica de Saúde para consulta de rotina. Assintomático. PA 138x84 mmHg, IMC 27 kg/m². Traz exames: LDL-colesterol 130 mg/dL, HbA1c 7,2%, TFG estimada 78 mL/min/1,73m², sem albuminúria. Segundo as diretrizes atuais de prevenção cardiovascular, além do controle glicêmico e pressórico, qual é a conduta mais apropriada quanto ao manejo do risco cardiovascular na APS?

02

Como esse tema cai

Este é o capítulo de prevenção. O paciente aqui é, na maior parte do tempo, alguém que ainda não teve evento nenhum: chega ao ambulatório com um exame de sangue na mão e a pergunta é quanto risco ele carrega e o que fazer com o lipídio dele. Quem já infartou entra apenas como a faixa de maior risco, com a meta que lhe cabe — o manejo do evento agudo é dos capítulos de síndrome coronariana e de insuficiência cardíaca.

A cadeia de raciocínio tem três elos e a prova cobra os três. Primeiro: medir direito, o que em 2025 já não significa a mesma coisa que significava há dez anos. Segundo: estratificar, que é encaixar o paciente numa das cinco categorias de risco — e saber quais achados o colocam direto na categoria alta sem que se precise calcular nada. Terceiro: tratar, que é perseguir a meta de LDL daquela categoria com uma intensidade de terapia proporcional.

A referência brasileira mudou de patamar. A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose é de 2025 (Sociedade Brasileira de Cardiologia), e ela reescreveu quase tudo o que se decorava: criou uma quinta categoria de risco, trocou a calculadora, baixou as metas de LDL, passou a exigir também uma redução percentual mínima e adiantou a terapia combinada para a primeira linha em quem tem risco alto.

Do outro lado está o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, que é de 2019 e trabalha com outra lógica inteira: outro escore, nenhuma meta numérica de LDL e uma lista de medicamentos que não inclui ezetimiba nem inibidor de PCSK9. Não é descuido nem atraso burocrático apenas — é uma decisão de incorporação com relatório público, e por isso a diferença entre os dois documentos ganhou seção própria mais adiante. Numa questão de prova, saber de qual dos dois mundos o enunciado está falando vale mais do que decorar qualquer número isolado.

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O que muda decisão

Medir: quando, em quem, e a pergunta do jejum

A resposta sobre jejum mudou, e o ano importa: desde a diretriz brasileira de 2025, para a avaliação inicial é aceitável colher o perfil lipídico sem jejum — recomendação forte, certeza moderada. A ressalva é populacional e prática: a coleta sem jejum é especialmente bem-vinda em crianças e idosos, em quem a punção em jejum é mais difícil. A amostra deve ser colhida idealmente com o paciente em condição metabólica estável, ou seja, fora de infecção aguda, de internação por evento agudo, de gestação recente ou de mudança abrupta de peso.

Existe um número que desfaz a comodidade: se os triglicérides vierem acima de 440 mg/dL numa amostra sem jejum, colhe-se de novo com jejum de 12 horas. O laboratório é obrigado a informar no laudo se houve jejum e a apresentar os valores de referência das duas condições — porque os cortes de triglicérides são diferentes conforme o estado.

Os valores de referência da Tabela 3.1 da diretriz são curtos e caem: colesterol total abaixo de 190 mg/dL; triglicérides abaixo de 150 mg/dL em jejum e abaixo de 175 mg/dL sem jejum; HDL-c acima de 40 mg/dL. O LDL-c e o não-HDL-c não têm valor de referência único — eles têm meta, e a meta depende da categoria de risco. Isso é a espinha do capítulo: não existe 'LDL normal', existe LDL adequado para aquele risco.

O LDL-c pode ser calculado pela fórmula de Friedewald, subtraindo do colesterol total o HDL-c e mais um quinto dos triglicérides. Ela deixa de valer quando os triglicérides passam de 400 mg/dL, e aí se usa o colesterol não-HDL, que é simplesmente colesterol total menos HDL-c e cuja meta é sempre 30 mg/dL acima da meta de LDL-c daquela categoria. Guardar essa regra do 'mais trinta' resolve a coluna inteira do não-HDL sem decorar cinco números novos.

Quando rastrear. Na infância e adolescência, a diretriz é explícita: rastreamento universal entre 9 e 11 anos e entre 17 e 21 anos, preferencialmente em jejum e independentemente de história familiar; rastreamento seletivo entre 2 e 8 e entre 12 e 16 anos para quem tem fator de risco, com destaque para história familiar de hipercolesterolemia ou de doença cardiovascular prematura. Nessa faixa, o perfil lipídico é feito após 8 a 9 horas de jejum.

No adulto, a diretriz não fixa uma idade de partida em recomendação separada — mas fixa indiretamente, e o número operacional é 30 anos: é a idade a partir da qual ela manda calcular o risco cardiovascular pelo escore prevent, e não se calcula risco sem ter o lipídio. Antes dos 30, dosa-se por indicação: história familiar de doença cardiovascular prematura (antes dos 55 anos em homens, dos 65 em mulheres), suspeita de hipercolesterolemia familiar, diabetes, obesidade grave, doença renal crônica ou doença inflamatória crônica.

Uma dosagem nova entrou na rotina e vale registrar: a diretriz recomenda medir lipoproteína(a) ao menos uma vez na vida em todos os indivíduos. Não há meta terapêutica de Lp(a) — ela serve para estratificar. Acima de 50 mg/dL (ou 125 nmol/L) é fator agravante de risco; acima de 180 mg/dL (ou 390 nmol/L) joga o paciente direto para a categoria de risco alto. O valor de referência é abaixo de 75 nmol/L, equivalente a 30 mg/dL, e o ensaio preferencial é o independente de isoforma, com resultado em nmol/L.

Estratificar: cinco categorias, e quem entra sem calculadora

A diretriz de 2025 categoriza o risco cardiovascular aterosclerótico em cinco faixas: baixo, intermediário, alto, muito alto e extremo. A quinta é nova — 'risco extremo' não existia na versão anterior e é um dos pontos-chave declarados do documento. A lógica de fundo é que risco é variável contínua, e as categorias existem para tornar a recomendação operacional, não porque a natureza tenha degraus.

A calculadora mudou. A diretriz brasileira adota o escore prevent, da American Heart Association, para indivíduos de 30 a 79 anos sem doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida. Ele estima risco em 10 e em 30 anos e foi escolhido por incorporar a dimensão cardiorrenal e metabólica: além das variáveis clássicas, entra a taxa de filtração glomerular estimada, a relação albuminúria/creatininúria e a hemoglobina glicada. Para adultos jovens a partir dos 30 anos, o cálculo em 30 anos é oportuno — não existem limiares definidos para essa estimativa, e o uso é de conscientização e adesão, não de indicação de fármaco.

Os cortes do escore são três e resolvem metade das questões: abaixo de 5% em 10 anos é baixo; de 5% a menos de 20% é intermediário; 20% ou mais é alto. Só que o escore é o último recurso, não o primeiro. A ordem correta é procurar primeiro os achados que classificam sozinhos — e só cair na calculadora se nenhum deles estiver presente. Esse é o erro de sequência mais frequente na prova: calcular escore em quem já tinha carteirinha de risco alto.

Entram direto em risco muito alto: doença aterosclerótica significativa em qualquer território — coronário, cerebrovascular ou vascular periférico — com obstrução de 50% ou mais; evento aterosclerótico prévio manifesto; revascularização arterial; escore de cálcio coronário acima de 300 unidades Agatston; e diabetes tipo 2 com um estratificador de muito alto risco ou com três ou mais estratificadores de alto risco.

Entram direto em risco alto: LDL-c igual ou maior que 190 mg/dL, independentemente de qualquer outra coisa — porque a exposição cumulativa a lipoproteína aterogênica ao longo da vida já fez o estrago antes de a calculadora perceber; lipoproteína(a) acima de 180 mg/dL (ou 390 nmol/L); aterosclerose subclínica, que inclui placa carotídea com estenose abaixo de 50%, escore de cálcio acima de 100 unidades Agatston ou percentil acima de 75, placa em angiotomografia de coronárias com estenose abaixo de 50%, e aneurisma de aorta abdominal; diabetes tipo 2 em homem com 50 anos ou mais e mulher com 56 anos ou mais; e diabetes tipo 2 de qualquer idade com um ou dois estratificadores de alto risco e nenhum de muito alto risco.

Entra direto em risco intermediário quem tem LDL-c entre 160 e 189 mg/dL, e o diabético tipo 2 mais jovem (homem abaixo de 50, mulher abaixo de 56) sem estratificador algum. Baixo risco exige as três condições juntas: escore abaixo de 5% em 10 anos, nenhum fator agravante e ausência de diabetes tipo 2.

Os fatores agravantes são a peça que move o paciente de faixa e a lista é fechada: história familiar de doença cardiovascular prematura; adiposidade, doença hepática esteatótica metabólica e síndrome metabólica; condições inflamatórias crônicas; transplante de órgãos; fatores agravantes específicos das mulheres; lipoproteína(a) acima de 50 mg/dL ou 125 nmol/L; e proteína C-reativa ultrassensível igual ou maior que 2,0 mg/L. Um agravante sobe uma categoria: risco calculado baixo com agravante vira intermediário, e risco calculado intermediário com agravante vira alto.

A categoria extrema tem definição aritmética. É extremo quem tem dois ou mais eventos cardiovasculares ateroscleróticos maiores, ou um evento maior somado a pelo menos duas condições de alto risco. Eventos maiores são: síndrome coronariana aguda nos últimos 12 meses, infarto do miocárdio prévio, acidente vascular cerebral isquêmico e doença arterial periférica sintomática (claudicação com índice tornozelo-braquial abaixo de 0,85, ou revascularização, ou amputação prévia). Condições de alto risco são: idade de 65 anos ou mais, hipercolesterolemia familiar, revascularização cirúrgica ou percutânea fora do evento maior, diabetes, hipertensão arterial, doença renal crônica com filtração de 15 a 59 mL/min/1,73 m², tabagismo atual, evento agudo há menos de 2 anos, e LDL-c persistentemente igual ou maior que 100 mg/dL apesar de estatina em dose máxima tolerada com ezetimiba.

Um detalhe conceitual que a diretriz faz questão de dizer: ela abandona a divisão binária entre 'prevenção primária' e 'prevenção secundária' e trabalha com um contínuo de risco. Isso não é retórica — é o que permite que um paciente sem evento nenhum, com LDL de 210 mg/dL, receba a mesma meta de quem tem placa documentada.

Ilustração de uma artéria em corte longitudinal mostrando quatro estágios da aterosclerose ao longo da vida: parede lisa, estria gordurosa, placa com capa fibrosa estreitando a luz e placa volumosa com capa fina e fissura, com partículas de lipoproteína se acumulando progressivamente na parede.
A aterosclerose começa na primeira década de vida e a carga aterogênica é cumulativa. É por isso que um LDL-c de 190 mg/dL classifica o paciente como de risco alto sem que se calcule escore nenhum: o tempo de exposição já fez o trabalho que a calculadora de 10 anos não enxerga.

As metas: um número por categoria, e uma redução percentual junto

A diretriz brasileira de 2025 faz as duas coisas ao mesmo tempo, e essa é a resposta para a pergunta 'meta ou redução percentual?' no recorte nacional: o LDL-c tem meta absoluta por categoria e, simultaneamente, uma redução percentual mínima a partir do valor basal. Quem está longe da meta precisa cumprir as duas, e quem já está perto do alvo continua devendo o percentual.

As metas de LDL-c, da Tabela 5.1: risco baixo, abaixo de 115 mg/dL; risco intermediário, abaixo de 100; risco alto, abaixo de 70; risco muito alto, abaixo de 50; risco extremo, abaixo de 40. As reduções percentuais: pelo menos 30% nos riscos baixo e intermediário, e pelo menos 50% nos riscos alto, muito alto e extremo.

O colesterol não-HDL é meta coprimária e sai da regra do mais trinta: abaixo de 145, 130, 100, 80 e 70 mg/dL, na mesma ordem de categorias. Ele importa especialmente na hipertrigliceridemia, porque nessa condição a partícula de LDL vem enriquecida de triglicéride e empobrecida de colesterol — o LDL-c medido subestima a carga aterogênica real. A diretriz o coloca como alvo adicional, a ser perseguido depois de alcançada a meta de LDL-c. A ApoB é meta secundária: abaixo de 100, 90, 70, 55 e 45 mg/dL.

A base de evidência das metas é honesta e a diretriz declara: os alvos não foram testados diretamente em ensaios clínicos desenhados para eles — foram derivados de subanálises pelo LDL-c alcançado. O que está bem estabelecido é a relação: para cada 39 mg/dL (1 mmol/L) de redução de LDL-c, o risco relativo de eventos cardiovasculares maiores cai cerca de 20% a 25%, sem que se tenha encontrado um piso abaixo do qual o benefício desapareça. É essa linearidade sem piso que justifica metas cada vez mais baixas nas categorias de maior risco.

No risco baixo há um gatilho farmacológico próprio, e ele é fácil de esquecer porque não é a meta: recomenda-se introduzir hipolipemiante em indivíduo de baixo risco cujo LDL-c permaneça persistentemente acima de 145 mg/dL apesar das medidas de estilo de vida. Ou seja — mesmo no baixo risco existe um número que faz prescrever.

Tratamento não farmacológico é para todos e não some do checklist só porque a prova gosta de droga: dieta com padrão cardioprotetor, atividade física aeróbica regular, controle de peso, cessação do tabagismo e limitação de álcool. Na hipertrigliceridemia, o álcool e o carboidrato refinado deixam de ser conselho genérico e viram intervenção terapêutica direta.

Estatinas: potência é percentual, não miligrama

A definição brasileira de intensidade é funcional, não uma lista: terapia de alta intensidade é a que reduz o LDL-c, em média, 50% ou mais; terapia de moderada intensidade é a que reduz entre 30% e 50%. Quem decora a definição pelo percentual não erra nunca, porque a mesma droga muda de faixa conforme a dose.

A tradução em droga e dose é a tabela americana, e é ela que aparece nas alternativas. Alta intensidade: atorvastatina 40 a 80 mg por dia e rosuvastatina 20 a 40 mg por dia. Moderada intensidade: atorvastatina 10 a 20 mg, rosuvastatina 5 a 10 mg, sinvastatina 20 a 40 mg, pravastatina 40 a 80 mg, lovastatina 40 mg, fluvastatina 80 mg e pitavastatina 1 a 4 mg. Sinvastatina 80 mg por dia é dose proscrita, por risco desproporcional de toxicidade muscular — o próprio protocolo do Ministério da Saúde marca o 80 mg com ressalva de toxicidade aumentada.

Repare no que a tabela revela sobre o SUS: nenhuma dose de sinvastatina chega a alta intensidade. A estatina mais disponível na atenção básica brasileira é, por construção, uma estatina de intensidade moderada. Isso não é um detalhe de farmácia — é o que torna a meta de LDL abaixo de 70 mg/dL difícil de alcançar em monoterapia numa unidade básica de saúde, e é a raiz da divergência de acesso discutida adiante.

Os ganhos absolutos de mortalidade justificam a insistência: metanálises mostram que, para cada 39 mg/dL de redução de LDL-c, as estatinas diminuem a mortalidade por todas as causas em 10% e os eventos cardiovasculares em torno de 22%. Regimes mais potentes conferem cerca de 15% de redução adicional de eventos em relação aos menos potentes.

Sobre o efeito diabetogênico, que costuma virar distrator: há de fato aumento de incidência de diabetes tipo 2 com estatina, maior com drogas potentes em doses altas, em idosos e em quem já tem resistência insulínica. A magnitude está calibrada: seria preciso tratar 255 pessoas por 4 anos para produzir um caso novo de diabetes. A redução absoluta de risco cardiovascular supera esse efeito, e ele não é motivo para não prescrever nem para suspender.

Ezetimiba e anti-PCSK9: a ordem de entrada mudou

A mudança conceitual de 2025 é a migração de 'estatina de alta intensidade' para 'tratamento hipolipemiante de alta intensidade'. Em vez do escalonamento clássico — sobe a estatina até a dose máxima tolerada, depois acrescenta ezetimiba, depois considera anti-PCSK9 — a diretriz recomenda começar combinado nas categorias de maior risco. A justificativa declarada é o desempenho real: registros mostram inércia terapêutica, baixa adesão e taxas ruins de alcance de meta com a estratégia sequencial.

As recomendações por categoria são diretas. Risco alto: terapia inicial com estatina de alta intensidade e ezetimiba. Risco muito alto: estatina de alta intensidade e ezetimiba, potencialmente com terapia anti-PCSK9, para atingir a meta. Risco extremo: estatina de alta intensidade, ezetimiba e terapia anti-PCSK9 como terapia inicial. Hipercolesterolemia familiar ou LDL-c igual ou maior que 190 mg/dL: estatina de alta intensidade com ezetimiba já de largada. E quem não atinge a meta com estatina de alta intensidade mais ezetimiba recebe anti-PCSK9 ou ácido bempedoico.

Os percentuais de redução dão a escala do que cada degrau entrega. Estatina de alta intensidade isolada: cerca de 50%. Somada à ezetimiba: até 65%. Somada à ezetimiba e a terapia anti-PCSK9: acima de 85% — o regime mais potente disponível. Estatina de moderada intensidade com ezetimiba acrescenta 20% a 25% em relação à estatina sozinha, e estatina de moderada intensidade com ácido bempedoico e ezetimiba chega a 60%, alternativa útil em quem não tolera alta intensidade.

Os ensaios que sustentam cada peça: o improve-IT mostrou que ezetimiba 10 mg somada a sinvastatina 40 mg reduziu o LDL-c em 24% adicionais e os eventos vasculares maiores em 7,2% ao longo de 7 anos. O RACING mostrou que rosuvastatina 10 mg com ezetimiba foi não inferior a rosuvastatina 20 mg isolada, com mais pacientes na meta e menos descontinuação por intolerância — o argumento clínico de que combinar cedo é melhor do que empurrar a dose. O fourier (evolocumabe) reduziu o LDL-c em 59% e os eventos maiores em 15%; o odyssey Outcomes (alirocumabe) reduziu o LDL-c em até 62,7% e os eventos maiores em 15%.

E a realidade brasileira de acesso, que a própria diretriz descreve sem rodeios no item sobre o cenário nacional: nos serviços públicos brasileiros há disponibilização basicamente de sinvastatina; a atorvastatina fica reservada ao componente de alto custo; a ezetimiba é disponibilizada em poucos centros de cardiologia; e os inibidores de PCSK9 ficam restritos ao custeio particular pelo paciente. O protocolo do Ministério da Saúde não preconiza ezetimiba, com base na decisão de não incorporação da Conitec (Portaria SCTIE/MS nº 34, de 2018), e registra que os anti-PCSK9 deveriam aguardar mais tempo de experiência de uso antes de serem avaliados para incorporação.

O que o SUS oferece pelo protocolo, então, é isto: as estatinas atorvastatina, fluvastatina, lovastatina, pravastatina e sinvastatina; os fibratos bezafibrato, ciprofibrato, etofibrato, fenofibrato e genfibrozila; e o ácido nicotínico, este reservado a quem tem indicação de estatina mas é intolerante ou tem contraindicação e não preenche critério para fibrato. Ezetimiba e inibidores de PCSK9 não estão na lista.

Hipertrigliceridemia: dois cortes decidem a conduta

O primeiro corte é 150 mg/dL em jejum, ou 175 mg/dL sem jejum: acima disso o triglicéride é anormal. Mas anormal não é sinônimo de tratar o triglicéride — na hipertrigliceridemia leve a moderada, as metas de LDL-c e de não-HDL-c têm prioridade, e a droga é a estatina, pela redução de risco cardiovascular. É o erro clássico: ver triglicéride de 280 mg/dL e prescrever fibrato quando o que aquele paciente precisava era de estatina.

Na faixa de 150 a 499 mg/dL em paciente com doença cardiovascular aterosclerótica ou alto risco, a diretriz recomenda com força forte que a estatina seja a terapia de escolha. Nessa mesma faixa, o icosapenta etila 4 g/dia tem recomendação condicional para reduzir eventos maiores, com a ressalva explícita de que não está disponível no Brasil. E há uma recomendação forte contra: formulações de EPA com DHA não devem ser usadas para prevenir eventos cardiovasculares nessa população.

O segundo corte é 500 mg/dL, e ele muda a natureza do problema: aí o alvo deixa de ser risco cardiovascular e passa a ser risco de pancreatite aguda. Em triglicérides iguais ou maiores que 500 mg/dL de forma persistente apesar de medidas de estilo de vida, a recomendação forte é fibrato, com o objetivo de reduzir o risco de pancreatite, e a meta é manter o valor abaixo de 500. A diretriz é igualmente clara no negativo: abaixo de 500 mg/dL, fibrato não se usa nem para risco cardiovascular nem para prevenção de pancreatite.

O corte de gravidade que aparece na literatura genética é 885 mg/dL: acima dele a hipertrigliceridemia é considerada grave, e é o valor que dispara a suspeição de síndrome da quilomicronemia familiar — condição rara, recessiva, com pancreatite recorrente, xantomas eruptivos, lipemia retiniana e dor abdominal, cujo escore de suspeição (escore de Moulin) pontua triglicérides acima de 885 mg/dL em jejum em três dosagens consecutivas, ou acima de 1.770 mg/dL em pelo menos uma ocasião.

Uma associação é proscrita e cai: genfibrozila nunca se associa a estatina, pela alta incidência de rabdomiólise. Quando é preciso combinar fibrato com estatina, o fibrato é o fenofibrato, por menor risco de miopatia. O protocolo do Ministério da Saúde formaliza isso nos próprios critérios de inclusão: a genfibrozila é reservada a quem é intolerante ou refratário à estatina.

Antes de escalar fármaco, procure a causa secundária, porque ela costuma explicar o número inteiro: álcool, diabetes descompensado, hipotireoidismo, síndrome nefrótica, obesidade, e medicamentos. O protocolo do Ministério da Saúde chega a excluir do tratamento o paciente com hipotireoidismo descompensado (TSH acima de 10 mcUI/mL) — corrigir a tireoide vem antes de tratar o lipídio.

Segurança: o que é mialgia, o que é rabdomiólise e quando não suspender

Comece pelo enquadramento correto, porque a prova adora exagerar o efeito adverso: a prevalência real de intolerância às estatinas varia de 4% a 21%, é sistematicamente menor em ensaios randomizados do que em coortes, e a conclusão de uma análise com mais de 4 milhões de pacientes é que ela é frequentemente superestimada. Existe efeito nocebo documentado. Risco de injúria muscular grave: abaixo de 0,1%.

A regra de monitorização é enxuta. Dosa-se CK antes de iniciar, para ter valor basal. Depois disso não se dosa CK de rotina — só se surgirem sintomas musculares (dor, sensibilidade, rigidez, cãibra, fraqueza, fadiga localizada ou generalizada), se a dose subir, ou se entrar uma droga com potencial de interação. Dosa-se ALT antes de iniciar, e depois só se houver sintoma ou sinal de hepatotoxicidade: fadiga, inapetência, dor abdominal, urina escura ou icterícia.

A escada de conduta muscular, que é onde a questão se decide. Assintomático com CK abaixo de 3 vezes o limite superior da normalidade: não se suspende nem se muda posologia. Assintomático ou com sintoma tolerável e CK entre 3 e 7 vezes: não é preciso suspender — troca-se para regime de baixa intensidade e monitora-se a CK a cada 4 a 6 semanas. Sintoma muscular intolerável com CK entre 3 e 7 vezes: suspensão transitória, com investigação ampliada. CK acima de 7 vezes o limite, com ou sem sintoma: suspender por 4 a 6 semanas e redosar.

Diante de dor muscular intolerável, mede-se a CK imediatamente. Se a CK vier acima de 7 vezes o limite, ou persistentemente acima de 3 vezes, investigam-se TSH e T4 livre, velocidade de hemossedimentação e fator antinuclear; e, na presença de sintoma intolerável, pedem-se também ureia, creatinina e mioglobinúria. Achada causa secundária, corrige-se a causa e reintroduz-se a estatina em dose baixa com escalonamento progressivo.

Rabdomiólise tem definição numérica e não é sinônimo de dor muscular com CK alta: considera-se rabdomiólise quando há elevação assintomática de CK acima de 50 vezes o limite superior da normalidade, ou quando há dor muscular associada a CK acima de 10 vezes o limite com disfunção renal (elevação da creatinina sérica de 0,5 mg/dL ou mais) e mioglobinúria. Fora disso, os quadros de sintoma muscular relacionado a estatina de 0 a 4 costumam ser autolimitados e não deixam sequela.

No fígado, o número que separa observar de suspender é 3 vezes. Elevações leves de ALT, até 3 vezes o valor de referência, ocorrem em 0,5% a 2,0% dos usuários, mais com drogas potentes ou doses altas — e nesse contexto não se recomenda suspender a medicação: reavaliam-se as enzimas em 4 a 6 semanas. Quando há elevação acima de 3 vezes o valor de referência em duas ocasiões consecutivas, aí sim suspende-se ou reduz-se a dose; e diante de ALT/AST acima de 3 vezes com aumento concomitante de bilirrubina total, reduz-se ou suspende-se. Uma alternativa razoável, se a elevação for menor que 3 vezes, é manter a dose original ou reduzida, ou trocar por estatina de outra via metabólica, como a pravastatina. O protocolo do Ministério da Saúde trabalha com dois cortes mais grosseiros e igualmente cobráveis: suspender diante de CPK 10 vezes acima do normal ou de transaminases 3 vezes acima do normal.

Três situações em que não se suspende, e todas viram alternativa errada em prova. Não se suspende estatina em paciente com insuficiência cardíaca, mesmo avançada ou descompensada — não há evidência que justifique, e estudos observacionais sugerem aumento de mortalidade e de hospitalização após a suspensão, sobretudo em idosos. Não se suspende por elevação leve e isolada de transaminase. E não se suspende por mialgia tolerável com CK normal ou minimamente elevada.

As interações que importam são as de CYP3A4, que metaboliza atorvastatina, lovastatina e sinvastatina: antifúngicos azólicos, macrolídeos, inibidores de protease, amiodarona, verapamil e diltiazem elevam a exposição à estatina. Itraconazol com sinvastatina ou lovastatina é contraindicado — aumento de até 20 vezes na exposição. Em quem usa ciclosporina, a dose máxima é rosuvastatina 5 mg ou atorvastatina 10 mg; em transplantados, evitam-se sinvastatina e lovastatina com inibidores de calcineurina ou de mTOR. Quando a interação é inevitável, prefere-se estatina de outra via: pravastatina, fluvastatina ou rosuvastatina.

Hipercolesterolemia familiar: a suspeita é um número, não uma impressão

A hipercolesterolemia familiar é comum o bastante para ser procurada ativamente. No ELSA-Brasil, a prevalência estimada pelos critérios da Dutch Lipid Clinic Network foi de 3,8 por mil, ou 1 em cada 263 pessoas — mais frequente em mulheres (1:244) que em homens (1:333), e mais elevada entre pessoas pardas (1:204) e pretas (1:156) do que entre brancas (1:417).

O gatilho de investigação, pela diretriz de 2025, é numérico e tem duas portas. Primeira porta: criança com LDL-c persistentemente igual ou maior que 160 mg/dL, ou adulto com LDL-c persistentemente igual ou maior que 190 mg/dL, sem causa secundária aparente, e com pelo menos um familiar de primeiro grau igualmente afetado, ou com doença arterial coronária prematura, ou quando a história familiar não está disponível (adoção, por exemplo). Segunda porta, que dispensa história familiar: criança com LDL-c persistentemente igual ou maior que 190 mg/dL, ou adulto com LDL-c persistentemente igual ou maior que 250 mg/dL, sem causa secundária.

Duas definições operacionais dentro desses critérios: 'persistente' significa confirmado em pelo menos duas dosagens separadas; e 'doença arterial coronária prematura' é antes dos 55 anos em homens e antes dos 65 em mulheres. As causas secundárias a afastar antes de pensar em genética são hipotireoidismo, síndrome nefrótica, doença hepática colestática e medicamentos.

Confirmada a suspeita, o teste genético é o método recomendado, e o painel deve incluir LDLR, APOB e PCSK9 — mais as variantes bialélicas de LDLRAP1 da forma recessiva — além de ABCG5/ABCG8 (sitosterolemia) e LIPA (deficiência de lipase ácida lisossomal), que são fenocópias com tratamento diferente. Identificada a variante no caso-índice, faz-se rastreamento em cascata: teste da variante conhecida em todos os parentes de primeiro grau, estendendo-se a parentes de segundo grau se os primeiros não estiverem disponíveis, e seguindo pela família extensa até que todos os indivíduos sob risco tenham sido testados.

O peso da hipercolesterolemia familiar na estratificação é triplo e cai em questão: ela consta como condição de alto risco no critério de risco extremo; um portador com escore de cálcio acima de 100 unidades Agatston deve ser classificado como de risco muito alto (enquanto para a população geral o corte é acima de 300); e o próprio LDL-c igual ou maior que 190 mg/dL, que caracteriza boa parte desses pacientes, já classifica em risco alto sozinho.

Na forma homozigótica, o LDL-c costuma passar de 400 mg/dL, com xantomas precoces e risco cardiovascular ainda na infância. Na heterozigótica, o tratamento com estatina começa entre 8 e 10 anos; nas crianças com forma bialélica, terapia de alta intensidade já ao diagnóstico. Crianças com hipercolesterolemia familiar que iniciam estatina precocemente têm menos eventos que os próprios pais.

No SUS, o caminho é outro instrumento: o protocolo do Ministério da Saúde usa os critérios da Organização Mundial da Saúde, um escore de pontos que soma história familiar, história clínica, exame físico (xantoma tendinoso, arco córneo antes dos 45 anos) e faixas de LDL-c — 8 pontos para LDL-c igual ou maior que 330 mg/dL, 5 pontos para 250 a 329, 3 pontos para 190 a 249 e 1 ponto para 155 a 189. Mais de 8 pontos é diagnóstico definitivo, 6 a 8 é provável e 3 a 5 é possível. E há uma consequência prática: o diagnóstico definitivo de hiperlipidemia familiar é, por si só, critério de inclusão no protocolo — ou seja, é uma das portas de entrada para o componente especializado de assistência farmacêutica, independentemente de escore de risco.

04

Da estratificação à meta em sete passos

O caminho é sempre o mesmo: medir, procurar quem entra direto, calcular só se ninguém entrou direto, aplicar os agravantes, ler a meta na categoria e escolher a intensidade proporcional. Os números abaixo são os da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025 (SBC); onde o protocolo do Ministério da Saúde toma outro caminho, isso está nas notas.

  1. 1Colha o perfil lipídico. Para a avaliação inicial não é preciso jejum; se os triglicérides vierem acima de 440 mg/dL sem jejum, repita com 12 horas de jejum. Peça lipoproteína(a) ao menos uma vez na vida.
  2. 2Procure primeiro quem entra em risco MUITO ALTO sem calculadora: evento aterosclerótico prévio, obstrução de 50% ou mais em qualquer território, revascularização, escore de cálcio acima de 300 UA, ou diabetes tipo 2 com estratificador de muito alto risco (ou três ou mais de alto risco).
  3. 3Depois quem entra em risco ALTO sem calculadora: LDL-c igual ou maior que 190 mg/dL, Lp(a) acima de 180 mg/dL, aterosclerose subclínica (placa carotídea abaixo de 50%, cálcio acima de 100 UA ou percentil acima de 75, placa coronária abaixo de 50%, aneurisma de aorta abdominal), ou diabetes tipo 2 em homem com 50 anos ou mais / mulher com 56 anos ou mais.
  4. 4Se ninguém entrou direto, calcule pelo escore PREVENT (30 a 79 anos): abaixo de 5% é baixo, de 5% a menos de 20% é intermediário, 20% ou mais é alto. LDL-c de 160 a 189 mg/dL já classifica como intermediário sem cálculo.
  5. 5Aplique os fatores agravantes — história familiar de doença cardiovascular prematura, adiposidade/MASLD/síndrome metabólica, doença inflamatória crônica, transplante, fatores específicos das mulheres, Lp(a) acima de 50 mg/dL, PCR ultrassensível de 2,0 mg/L ou mais. Um agravante sobe uma categoria.
  6. 6Cheque o risco EXTREMO: dois ou mais eventos ateroscleróticos maiores, ou um evento maior somado a duas ou mais condições de alto risco.
  7. 7Leia a meta na categoria e escolha a intensidade: baixo e intermediário exigem redução de pelo menos 30%; alto, muito alto e extremo exigem pelo menos 50% — o que, na prática, significa estatina de alta intensidade ou terapia combinada desde o início. Persiga o não-HDL-c depois de atingido o LDL-c.

Risco baixo — LDL-c < 115 mg/dL

Escore abaixo de 5% em 10 anos, sem fator agravante e sem diabetes tipo 2 (e LDL-c abaixo de 160). Redução mínima de 30%. Não-HDL-c abaixo de 145. Fármaco entra se o LDL-c persistir acima de 145 mg/dL apesar do estilo de vida.

Risco intermediário — LDL-c < 100 mg/dL

Escore de 5% a menos de 20%, ou escore baixo com um agravante, ou LDL-c de 160 a 189 mg/dL, ou diabetes tipo 2 em homem abaixo de 50 / mulher abaixo de 56 sem estratificadores. Redução mínima de 30%. Não-HDL-c abaixo de 130.

Risco alto — LDL-c < 70 mg/dL

Escore de 20% ou mais, ou intermediário com agravante, ou aterosclerose subclínica, ou LDL-c igual/maior que 190, ou Lp(a) acima de 180 mg/dL, ou diabetes tipo 2 por idade ou com 1 a 2 estratificadores. Redução mínima de 50%. Terapia inicial: estatina de alta intensidade com ezetimiba.

Risco muito alto — LDL-c < 50 mg/dL

Evento aterosclerótico prévio manifesto, doença com obstrução de 50% ou mais, revascularização, escore de cálcio acima de 300 UA, ou diabetes tipo 2 com estratificador de muito alto risco. Redução mínima de 50%. Não-HDL-c abaixo de 80. Estatina de alta intensidade com ezetimiba, considerando anti-PCSK9.

Risco extremo — LDL-c < 40 mg/dL

Dois ou mais eventos ateroscleróticos maiores, ou um evento maior somado a duas ou mais condições de alto risco (idade de 65 anos ou mais, hipercolesterolemia familiar, revascularização prévia fora do evento, diabetes, hipertensão, doença renal crônica, tabagismo, evento há menos de 2 anos, LDL-c de 100 ou mais apesar de estatina máxima com ezetimiba). Terapia inicial tripla.

Categoria de riscoMeta de LDL-cRedução mínima de LDL-cMeta de não-HDL-cMeta de ApoB
Baixo< 115 mg/dL≥ 30%< 145 mg/dL< 100 mg/dL
Intermediário< 100 mg/dL≥ 30%< 130 mg/dL< 90 mg/dL
Alto< 70 mg/dL≥ 50%< 100 mg/dL< 70 mg/dL
Muito alto< 50 mg/dL≥ 50%< 80 mg/dL< 55 mg/dL
Extremo< 40 mg/dL≥ 50%< 70 mg/dL< 45 mg/dL

A meta de não-HDL-c é sempre a meta de LDL-c mais 30 mg/dL. Decorada a regra, a coluna inteira sai de graça — e ela é o alvo que importa na hipertrigliceridemia, quando o LDL-c medido subestima a carga aterogênica.

Alta intensidade não é uma dose, é um percentual: reduz o LDL-c em 50% ou mais (atorvastatina 40-80 mg, rosuvastatina 20-40 mg). Moderada intensidade reduz de 30% a 50% (atorvastatina 10-20, rosuvastatina 5-10, sinvastatina 20-40, pravastatina 40-80). Nenhuma dose de sinvastatina chega a alta intensidade.

Valores de referência que não dependem de categoria: colesterol total abaixo de 190 mg/dL; triglicérides abaixo de 150 mg/dL em jejum e abaixo de 175 mg/dL sem jejum; HDL-c acima de 40 mg/dL; Lp(a) abaixo de 75 nmol/L (30 mg/dL), sem meta terapêutica.

O protocolo do Ministério da Saúde não usa nenhum destes alvos: ele estratifica pelo Escore de Risco Global (derivado de Framingham), inclui no tratamento quem tem risco superior a 10% em 10 anos, doença aterosclerótica manifesta, hipercolesterolemia familiar definitiva ou diabetes com fator de risco associado — e declara que o tratamento se baseia no paciente sob risco, e não na busca de um LDL-c alvo.

Triglicérides iguais ou maiores que 500 mg/dL mudam o objetivo do tratamento: o alvo passa a ser prevenir pancreatite, com fibrato, mantendo o valor abaixo de 500. Abaixo de 500 mg/dL, fibrato não tem indicação nem para risco cardiovascular nem para pancreatite.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Meta numérica de LDL ou redução percentual — o que se persegue

SBC 2025 — as duas coisas, simultaneamente

Cada categoria tem meta absoluta de LDL-c (115, 100, 70, 50 e 40 mg/dL) e, ao mesmo tempo, uma redução percentual mínima a partir do basal: pelo menos 30% no risco baixo e intermediário, pelo menos 50% no alto, muito alto e extremo. O documento admite que as metas não foram testadas diretamente em ensaios desenhados para elas — foram derivadas de subanálises pelo LDL-c alcançado — e sustenta o percentual na relação linear entre redução de LDL-c e redução de eventos.

Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (SBC), item 5.1 e Tabela 5.1

Ministério da Saúde 2019 — nenhuma das duas: trata-se o risco

O protocolo diz textualmente que o tratamento se baseia no paciente sob risco e não na busca do LDL-C alvo. A entrada no protocolo é por critério de risco (risco superior a 10% em 10 anos pelo escore, doença aterosclerótica manifesta, hipercolesterolemia familiar definitiva ou diabetes com fator de risco), e não por um número de colesterol a ser atingido. O documento argumenta que a terapia agressiva com alvo de 70 mg/dL não demonstrou benefício sobre mortalidade geral ou cardiovascular nos ensaios que revisou.

PCDT da Dislipidemia, Conitec/Ministério da Saúde, 2019, itens 7.2 e 6

AHA/ACC 2018 — a intensidade da droga é o comando

A recomendação americana organiza a decisão pela intensidade da estatina, e não por um alvo numérico: alta intensidade quando se quer redução de 50% ou mais, moderada quando 30% a menos de 50%. O risco em prevenção primária é calculado pelas pooled cohort equations, com faixas de abaixo de 5%, 5 a menos de 7,5%, 7,5 a menos de 20% e 20% ou mais, em adultos de 40 a 75 anos com LDL-c entre 70 e 190 mg/dL.

2018 AHA/ACC Guideline on the Management of Blood Cholesterol e 2019 ACC/AHA Guideline on the Primary Prevention of Cardiovascular Disease

ESC/EAS — meta numérica somada a redução de 50%

As metas de 2019 foram mantidas na atualização de 2025: abaixo de 116 mg/dL no risco baixo, abaixo de 100 no moderado, abaixo de 70 no alto e abaixo de 55 no muito alto, com redução de pelo menos 50% do basal nas duas faixas superiores, e abaixo de 40 mg/dL na faixa de risco extremo. É o desenho mais próximo do brasileiro de 2025 — com o alvo do muito alto risco em 55 e não em 50 mg/dL.

2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias

Na prova

O recorte se denuncia pelo vocabulário do enunciado. Se aparecer um alvo numérico de LDL por categoria, o mundo é o das sociedades — brasileira ou europeia — e a diferença entre elas está no muito alto risco: 50 mg/dL no documento brasileiro, 55 no europeu. Se a alternativa fala em 'estatina de alta intensidade' sem citar número de LDL, o vocabulário é o americano. Se o cenário é unidade básica de saúde, dispensação pelo SUS ou o enunciado cita o Ministério da Saúde, o protocolo nacional não persegue alvo nenhum — ele define quem trata pelo risco. Cenário de prova oficial do MEC tende a conduta SUS; nas demais bancas, veja o que as próprias alternativas revelam: um distrator que menciona ezetimiba de rotina só faz sentido no mundo das sociedades.

Qual calculadora de risco usar — e por que a de outra população erra

SBC 2025 — escore PREVENT

Para indivíduos de 30 a 79 anos sem doença cardiovascular estabelecida, o escore PREVENT, da American Heart Association, com força forte. Estima risco em 10 e em 30 anos e incorpora variáveis cardiorrenais e metabólicas ausentes dos escores clássicos: taxa de filtração glomerular estimada, relação albuminúria/creatininúria e hemoglobina glicada. Cortes: abaixo de 5%, de 5% a menos de 20%, e 20% ou mais.

Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (SBC), item 4.2 e Tabela 4.1

Ministério da Saúde 2019 — Escore de Risco Global, derivado de Framingham

O protocolo adota o Escore de Risco Global, refinamento do escore de Framingham publicado por D'Agostino em 2008, com algoritmos separados por sexo, e traz a tabela de cálculo em apêndice. O corte operacional é risco superior a 10% em 10 anos como critério de inclusão no tratamento, e risco superior a 20% como marcador de muito alto risco para terapia mais agressiva. O documento reconhece as limitações do escore em jovens e em diabéticos.

PCDT da Dislipidemia, Conitec/Ministério da Saúde, 2019, item 3 e Apêndice B

AHA/ACC — pooled cohort equations

Risco aterosclerótico em 10 anos pelas pooled cohort equations, para adultos de 40 a 75 anos com LDL-c entre 70 e 190 mg/dL, com quatro faixas: abaixo de 5%, de 5% a menos de 7,5%, de 7,5% a menos de 20% e 20% ou mais. A faixa intermediária é onde entram os fatores potencializadores de risco e o escore de cálcio para decidir.

2019 ACC/AHA Guideline on the Primary Prevention of Cardiovascular Disease

ESC/EAS — SCORE2 e SCORE2-OP, calibrados por região

O SCORE original foi substituído pelo SCORE2 e, para pessoas com 70 anos ou mais, pelo SCORE2-OP. A característica distintiva é a recalibração por região de risco cardiovascular do continente — o mesmo perfil de fatores produz risco estimado diferente conforme o país. Limiares: abaixo de 2% é baixo, de 2% a menos de 10% é moderado, de 10% a menos de 20% é alto, e 20% ou mais é muito alto.

2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias

Na prova

A causa da divergência é técnica e vale entender, porque explica o resto: escore de risco é modelo estatístico ajustado sobre uma coorte concreta, e a probabilidade que ele devolve depende da incidência de base daquela população. Aplicado em população com incidência diferente, o mesmo perfil de fatores gera estimativa deslocada — por isso a Europa recalibrou o SCORE2 por região em vez de exportar um número único. O Brasil não tem escore próprio validado em coorte nacional: a sociedade adotou um escore americano recente (PREVENT) e o Ministério da Saúde continua com outro escore americano, mais antigo (Framingham/ERG). Isso é o que está em jogo nas questões que perguntam qual a limitação de aplicar determinado escore a determinado paciente: a limitação mora na população de derivação, não na matemática do modelo. Para identificar o recorte: PREVENT no enunciado indica o documento brasileiro de 2025; menção a Framingham ou ERG indica o protocolo do Ministério da Saúde; pooled cohort indica corpo americano; SCORE2 indica corpo europeu.

Ezetimiba e inibidores de PCSK9: recomendados pela diretriz, ausentes do SUS

SBC 2025 — combinação desde a primeira prescrição

Em risco alto, terapia inicial com estatina de alta intensidade e ezetimiba. Em risco muito alto, o mesmo, potencialmente com anti-PCSK9. Em risco extremo, estatina de alta intensidade com ezetimiba e anti-PCSK9 já de início. Na hipercolesterolemia familiar ou LDL-c igual ou maior que 190 mg/dL, estatina de alta intensidade com ezetimiba de largada. O argumento é de desempenho: a estratégia sequencial produz inércia terapêutica e taxas ruins de alcance de meta.

Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (SBC), item 1.6 e item 7.13

Conitec/Ministério da Saúde — ezetimiba não incorporada, PCSK9 aguardando

O protocolo não preconiza ezetimiba como terapia hipolipemiante, em conformidade com a decisão de não incorporação da Conitec (Portaria SCTIE/MS nº 34, de 2018). Os motivos declarados no relatório foram que a indicação proposta era ampla demais e que a evidência em associação com estatina apresentava inconsistências, com sugestão de reavaliar o fármaco em populações mais específicas — alto risco e intolerância à estatina. Sobre evolocumabe e alirocumabe, o protocolo conclui que são medicamentos registrados no Brasil apenas em 2016, com segurança de médio e longo prazo ainda não estabelecida para uso em saúde pública, e sugere aguardar mais experiência de uso antes de avaliar a incorporação.

PCDT da Dislipidemia, Conitec/Ministério da Saúde, 2019, item 7.2 (ezetimiba e inibidores de PCSK9)

A própria SBC, descrevendo o que existe na ponta

A diretriz de 2025 registra que, nos serviços brasileiros de saúde pública, geralmente há disponibilização apenas de sinvastatina, com a atorvastatina reservada ao alto custo e a ezetimiba disponível em poucos centros de cardiologia, enquanto os inibidores de PCSK9 ficam restritos ao custeio particular pelos pacientes. Acrescenta que exames de controle, de segurança e de perfil lipídico, frequentemente não são realizados de rotina — o que dificulta tanto o alcance de metas quanto a prevenção dos eventos adversos raros.

Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (SBC), item 2.4

Na prova

A causa aqui tem nome e documento: não é atraso de conhecimento, é decisão de incorporação de tecnologia com relatório público — avaliação de custo-efetividade e de robustez da evidência para uso em escala populacional, formalizada em portaria. As sociedades internacionais e a brasileira não estão erradas quando recomendam ezetimiba precoce; elas respondem a outra pergunta, que é qual o melhor tratamento disponível, e não qual tratamento o sistema público consegue sustentar para milhões de pessoas. Para identificar o recorte no enunciado: unidade básica de saúde, dispensação na farmácia do SUS, 'medicamento disponível na rede' ou menção ao Ministério da Saúde apontam para a lista do protocolo — sinvastatina, atorvastatina, pravastatina, lovastatina, fluvastatina, fibratos e ácido nicotínico. Centro terciário, ambulatório de lípides, 'melhor conduta' sem restrição de recurso, ou alternativas que citam anti-PCSK9 e ácido bempedoico apontam para o corpo das sociedades. Uma alternativa que ofereça ezetimiba na UBS denuncia sozinha em que mundo a questão foi escrita.

Estatina em prevenção primária depois dos 75 anos

USPSTF — evidência insuficiente acima de 75 anos

A US Preventive Services Task Force afirma não haver evidência suficiente para iniciar tratamento de dislipidemia em adultos acima de 75 anos sem história de doença cardiovascular prévia. A posição é citada pela própria diretriz brasileira ao discutir o tema, e se apoia na escassez de participantes dessa faixa etária nos ensaios de prevenção primária.

US Preventive Services Task Force, citada na Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (SBC), item 9.9

SBC 2025 — tratar por categoria de risco, individualizando a dose

A diretriz recomenda tratar idosos de risco alto ou muito alto, com metas semelhantes às dos não idosos, e faz uma recomendação forte, de certeza moderada, para individualizar as doses de hipolipemiante após os 75 anos conforme fragilidade, comorbidades, expectativa de vida e polifarmácia. Reconhece que a associação entre colesterol e evento se atenua com a idade, que o escore PREVENT foi desenhado até os 79 anos, e que os escores antigos superestimavam benefício por não considerarem risco competitivo de morte não cardiovascular.

Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (SBC), itens 4.8, 9.7 e 9.9

Evidência específica da faixa — EWTOPIA 75 e o ensaio em curso

O EWTOPIA 75 avaliou ezetimiba em idosos acima de 75 anos e mostrou redução do desfecho primário, de desfechos secundários e de revascularização coronária, sem diferença em morte por todas as causas ou acidente vascular cerebral. O STAREE, ensaio randomizado com quase 10 mil pessoas de 70 anos ou mais sem doença cardiovascular, diabetes ou demência, compara atorvastatina 40 mg a placebo em desfechos cardiovasculares e em sobrevida livre de incapacidade — é o estudo desenhado para resolver a questão, e seus resultados ainda não foram publicados.

EWTOPIA 75 e protocolo do STAREE, ambos citados na Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 (SBC), item 9.9

Na prova

O que separa as posições não é discordância sobre fisiopatologia, é ausência de ensaio: a faixa acima de 75 anos em prevenção primária foi sub-representada nos estudos que sustentam todo o resto do capítulo, e a agência americana de rastreamento aplica um critério mais estrito de evidência do que uma sociedade de especialidade. Para identificar o recorte: quando o enunciado descreve idoso frágil, com polifarmácia, expectativa de vida limitada ou em cuidado paliativo, o vocabulário é o de individualização e o eixo da questão costuma ser desprescrição. Quando descreve idoso funcional com doença aterosclerótica documentada, saiu da prevenção primária e caiu na categoria de muito alto risco, onde não há divergência alguma — inclusive quanto a não suspender estatina de quem já usa.

06

Caso resolvido

Mulher de 52 anos comparece à consulta de rotina, assintomática, sem doença conhecida. Não fuma, pressão arterial de 118/74 mmHg, IMC de 24 kg/m². Traz perfil lipídico colhido sem jejum: colesterol total 288 mg/dL, HDL-c 54 mg/dL, triglicérides 148 mg/dL, LDL-c 204 mg/dL. Refere que o pai infartou aos 49 anos. TSH normal, função renal e hepática normais, sem uso de medicamentos.
a coleta
A amostra sem jejum é válida para avaliação inicial desde a diretriz brasileira de 2025. Os triglicérides de 148 mg/dL estão abaixo do corte de 440 mg/dL que obrigaria a recoleta em jejum de 12 horas, e abaixo de 400 mg/dL, então o LDL-c calculado por Friedewald é confiável. Não é preciso repetir o exame em jejum — é preciso repetir para confirmar persistência, que é outra coisa.
a categoria de risco
LDL-c igual ou maior que 190 mg/dL classifica em risco alto por si só. Não se calcula escore PREVENT nesta paciente: ela entrou direto pela porta do LDL-c, mesmo com pressão normal, sem tabagismo, sem diabetes e com IMC normal. Calcular o escore aqui daria um número baixo e enganoso — é exatamente o erro de sequência que a estratificação em degraus existe para impedir.
a meta
Risco alto: LDL-c abaixo de 70 mg/dL e redução de pelo menos 50% do valor basal. Com basal de 204 mg/dL, 50% de redução levaria a 102 mg/dL — insuficiente. As duas exigências valem juntas, e aqui a meta absoluta é a mais dura: é preciso chegar abaixo de 70, o que significa reduzir cerca de 66%. O não-HDL-c (288 menos 54, ou seja, 234 mg/dL) tem meta abaixo de 100 mg/dL.
a terapia
Redução de 66% não se obtém com estatina isolada — alta intensidade entrega em torno de 50%. A recomendação para LDL-c igual ou maior que 190 mg/dL é terapia inicial com estatina de alta intensidade associada a ezetimiba, combinação que chega a até 65% e ainda assim pode exigir intensificação. Medidas de estilo de vida entram junto, não antes. No SUS, a ezetimiba não está incorporada — a conduta factível na rede é estatina, e o caso justifica encaminhamento a serviço de referência em lípides.
a suspeita que não pode passar
Adulta com LDL-c persistentemente igual ou maior que 190 mg/dL, sem causa secundária aparente (TSH normal, sem síndrome nefrótica, sem colestase, sem medicamento), e com familiar de primeiro grau com doença arterial coronária prematura — o pai infartou aos 49, abaixo dos 55 anos — preenche o critério de suspeição de hipercolesterolemia familiar. Confirma-se a persistência com uma segunda dosagem e oferece-se teste genético, com rastreamento em cascata dos parentes de primeiro grau se uma variante for identificada. Os filhos dela entram no rastreamento seletivo da infância.
07

Agora feche você

Homem de 41 anos, motorista, procura a unidade básica de saúde com queixa de dor abdominal em faixa que já ocorreu duas vezes no último ano, sempre após fim de semana com ingestão alcoólica intensa. Diabetes tipo 2 diagnosticado há 4 anos, em uso irregular de metformina; hemoglobina glicada de 10,2%. IMC de 33 kg/m². Perfil lipídico em jejum de 12 horas: colesterol total 402 mg/dL, HDL-c 28 mg/dL, triglicérides 1.180 mg/dL. Amilase e lipase normais no momento, abdome sem sinais de irritação peritoneal. TSH de 3,1 mUI/L.
achado
Hipertrigliceridemia grave — 1.180 mg/dL, muito acima do corte de 500 mg/dL e acima de 885 mg/dL, com história de dois episódios de dor abdominal em faixa desencadeados por álcool. O LDL-c não pode ser calculado por Friedewald, porque os triglicérides passam de 400 mg/dL; usa-se o colesterol não-HDL, que aqui é 374 mg/dL. Há duas causas secundárias ativas e evidentes: diabetes descompensado (hemoglobina glicada de 10,2%) e etilismo. O hipotireoidismo está afastado.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Calcular escore de risco em quem já entrou direto É o erro de sequência mais caro do capítulo. Paciente com evento prévio, obstrução de 50% ou mais, escore de cálcio acima de 300, LDL-c igual ou maior que 190 mg/dL ou Lp(a) acima de 180 mg/dL já tem categoria definida — a calculadora só entra quando nenhum critério classificatório está presente. Aplicá-la nesses casos devolve um número baixo e falsamente tranquilizador, porque escore de 10 anos não enxerga exposição cumulativa a lipoproteína aterogênica.
  2. 2Tratar o valor de LDL sem antes definir a categoria Não existe 'LDL normal'. Um LDL-c de 95 mg/dL é meta cumprida no risco intermediário e é fracasso terapêutico no risco muito alto, onde o alvo é abaixo de 50. A questão que oferece 'LDL dentro da faixa de referência do laboratório, manter conduta' explora exatamente isso — a faixa impressa no laudo não é meta de ninguém.
  3. 3Exigir jejum para o perfil lipídico inicial Desde a diretriz brasileira de 2025 é aceitável colher sem jejum na avaliação inicial, com recomendação forte, especialmente em crianças e idosos. O jejum de 12 horas volta a ser obrigatório apenas quando os triglicérides sem jejum vierem acima de 440 mg/dL. Atrasar a avaliação de um paciente por causa de jejum é conduta desatualizada — e o corte de triglicéride muda com o estado: abaixo de 150 mg/dL em jejum, abaixo de 175 sem jejum.
  4. 4Suspender estatina por transaminase levemente elevada Elevações de ALT até 3 vezes o valor de referência ocorrem em 0,5% a 2,0% dos usuários e não indicam suspensão: reavaliam-se as enzimas em 4 a 6 semanas. Suspende-se ou reduz-se a dose quando a elevação passa de 3 vezes em duas ocasiões consecutivas, ou quando vem acompanhada de aumento de bilirrubina total. Também não se suspende estatina de paciente com insuficiência cardíaca, mesmo descompensada — a suspensão se associa a mais mortalidade e mais internação.
  5. 5Chamar qualquer mialgia com CK alta de rabdomiólise Rabdomiólise tem definição numérica: CK acima de 50 vezes o limite superior da normalidade de forma assintomática, ou dor muscular com CK acima de 10 vezes o limite associada a disfunção renal (aumento de creatinina de 0,5 mg/dL ou mais) e mioglobinúria. Fora disso, mialgia com CK abaixo de 3 vezes não faz suspender nada, e CK de 3 a 7 vezes com sintoma tolerável pede troca para regime de baixa intensidade com monitorização a cada 4 a 6 semanas, não abandono da terapia.
  6. 6Prescrever fibrato para triglicéride de 200 a 400 mg/dL Na hipertrigliceridemia leve a moderada, a prioridade são as metas de LDL-c e de não-HDL-c, e a droga é a estatina. A diretriz brasileira recomenda explicitamente contra o uso de fibrato para reduzir risco cardiovascular ou risco de pancreatite quando os triglicérides estão abaixo de 500 mg/dL. O fibrato entra a partir de 500 mg/dL persistente, e o objetivo declarado ali é pancreatite.
  7. 7Associar genfibrozila a estatina Associação proscrita, por alta incidência de rabdomiólise. O protocolo do Ministério da Saúde formaliza a restrição nos critérios de inclusão: genfibrozila é para quem é intolerante ou refratário à estatina. Quando a combinação de fibrato com estatina for necessária, o fibrato é o fenofibrato, por menor risco de miopatia.
  8. 8Achar que sinvastatina em dose alta é terapia de alta intensidade Intensidade é percentual de redução, não miligrama: alta intensidade reduz 50% ou mais, e nenhuma dose de sinvastatina alcança isso — ela é moderada intensidade em 20 a 40 mg, e a dose de 80 mg é proscrita por toxicidade. Alta intensidade, na prática, é atorvastatina 40 a 80 mg ou rosuvastatina 20 a 40 mg. Essa é também a raiz do problema de acesso: a estatina mais disponível na atenção básica brasileira não é, por construção, de alta intensidade.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Diabético com essa faixa etária e fator de risco associado é classificado como alto/muito alto risco cardiovascular; as diretrizes recomendam estatina em intensidade moderada a alta independentemente de sintomas, com meta de LDL agressiva. Manter só estilo de vida subtrata um paciente de alto risco. AAS em prevenção primária universal para diabéticos foi abandonado pelo risco de sangramento superar o benefício na maioria. Angiotomografia não é exame de rotina na APS para decisão de estatina. Fibrato não é primeira escolha para redução de risco cardiovascular quando o alvo é o LDL.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite as cinco metas de LDL-c em ordem decrescente — 115, 100, 70, 50, 40 — e diga em voz alta qual categoria pertence a cada uma, com a redução percentual exigida (30% nas duas primeiras, 50% nas três últimas). Depois liste, sem consultar, os cinco achados que classificam o paciente sem calculadora: evento prévio ou obstrução de 50% ou mais, escore de cálcio acima de 300, LDL-c igual ou maior que 190, Lp(a) acima de 180 mg/dL e aterosclerose subclínica. Feche com os dois cortes de triglicéride que mudam conduta: 150 (em jejum) e 500.

em 30 dias

Reconstrua o capítulo por três decisões encadeadas num paciente inventado: (1) medir — precisa de jejum? qual o corte que obriga a repetir? (2) estratificar — ele entra direto em alguma categoria, ou vai para o PREVENT? tem fator agravante que o suba uma faixa? (3) tratar — qual a meta, quanto por cento é preciso reduzir, e isso se alcança com estatina isolada ou exige combinação? Em seguida, teste as duas fronteiras que a prova mais explora: a segurança (CK de 3, 7, 10 e 50 vezes o limite; transaminase de 3 vezes) e o acesso (o que existe no SUS e o que a diretriz recomenda, com a portaria da Conitec que explica a diferença).

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 57 anos, hipertenso em uso de losartana, chega ao ambulatório com exames de rotina para 'ver o colesterol'. Não fuma há 3 anos, é sedentário, IMC de 29 kg/m². Nunca teve evento cardiovascular. Traz perfil lipídico colhido sem jejum: colesterol total 246 mg/dL, HDL-c 38 mg/dL, triglicérides 210 mg/dL, LDL-c 166 mg/dL. Creatinina de 1,4 mg/dL, relação albuminúria/creatininúria de 62 mg/g, hemoglobina glicada de 6,1%. Traga a história completa, decida em que categoria de risco ele está e o que dispara essa classificação, defina a meta de LDL-c e de não-HDL-c, e escolha a terapia — dizendo o que muda se o atendimento for numa unidade básica de saúde. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.