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Clínica MédicaCardiologia

Fibrilação atrial

Reconhecer a FA no eletro é o degrau fácil. A prova cobra as três decisões seguintes: anticoagular por escore, escolher entre frequência e ritmo, e saber quando a cardioversão é segura — com uma régua que acabou de trocar.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 65 anos, hipertensa, em consulta de rotina apresenta ao exame físico pulso irregularmente irregular, sem padrão definido. O ECG mostra ausência de ondas P, com ondas fibrilatórias na linha de base e intervalos R-R irregulares. FC 96 bpm. Qual é o diagnóstico eletrocardiográfico?

02

Como esse tema cai

Fibrilação atrial é a arritmia sustentada mais comum do adulto e um dos temas mais previsíveis da prova: a vinheta quase sempre entrega o diagnóstico de bandeja — pulso irregular, eletro sem onda P — e cobra uma de três decisões. Anticoagular ou não? Controlar frequência ou perseguir o ritmo sinusal? Posso cardioverter agora ou preciso preparar? Quem domina essas três bifurcações resolve a imensa maioria das questões.

A régua acabou de trocar. A Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial de 2025 (SOBRAC/SBC) aposentou a II Diretriz de 2016 e trouxe duas mudanças com cara de pegadinha: o escore de risco embólico perdeu o sexo feminino — de CHA2DS2-VASc para CHA2DS2-VA — e a janela para cardioverter sem anticoagulação prévia encolheu de 48 para 24 horas. As bancas vão conviver anos com as duas réguas; este capítulo ensina as duas e, mais importante, ensina a identificar qual delas está no enunciado.

No SUS, o cenário tem uma camada a mais: não existe PCDT de fibrilação atrial, e os anticoagulantes diretos foram avaliados e não incorporados pela Conitec em 2016 — o anticoagulante da farmácia pública é a varfarina, com controle de INR. A diretriz de 2025 coloca os DOACs como primeira escolha; a rede dispensa varfarina. Questão ambientada em UBS cobra o mundo do INR; questão de 'melhor conduta' sem restrição de acesso, o mundo dos DOACs.

03

O que muda decisão

O diagnóstico e a classificação que a banca usa

O eletro da FA tem três assinaturas: intervalos RR irregularmente irregulares, ausência de onda P e uma linha de base tremida por ondas f de baixa amplitude e frequência alta. O diagnóstico exige documentação eletrocardiográfica — ECG de 12 derivações ou traçado de monitor de pelo menos 30 segundos. Palpitação com pulso irregular no consultório é suspeita forte, mas sem traçado não há diagnóstico, e nenhuma decisão de anticoagulação crônica deve nascer sem ele.

A classificação temporal da diretriz de 2025: paroxística é a FA que termina — espontaneamente ou por cardioversão — em até 7 dias; persistente dura mais de 7 dias e menos de 1 ano; persistente de longa duração passa de 1 ano, mas com a estratégia de controle do ritmo ainda em jogo; permanente é aquela em que médico e paciente decidiram não perseguir mais o ritmo sinusal. Repare que 'permanente' é uma decisão terapêutica, não um fato eletrofisiológico: se a dupla mudar de ideia — por exemplo, indicando ablação —, a FA se reclassifica.

Duas etiquetas menores que a prova começou a usar: o primeiro episódio detectado, que não diz nada sobre cronicidade (pode ser paroxística de anos passando despercebida); e a FA subclínica — episódios de alta frequência atrial flagrados por marca-passo, CDI ou dispositivo vestível, sem sintomas e sem ECG de superfície. FA subclínica não herda automaticamente a conduta da FA clínica: a decisão de anticoagular é individualizada pela carga de arritmia e pelo risco embólico do paciente.

Uma regra atravessa o capítulo inteiro e derruba distrator atrás de distrator: o tipo de FA não decide anticoagulação. Paroxística embolia como persistente. Quem decide é o escore de risco — e é dele que trata a próxima seção.

Anticoagular: a FA valvar primeiro, o CHA2DS2-VA depois

O porquê da anticoagulação cabe numa frase: átrio que fibrila não contrai, sangue estagna no apêndice atrial esquerdo, forma-se trombo, e o trombo embólico prefere o cérebro. O AVC cardioembólico é o desfecho que a anticoagulação previne — a varfarina bem conduzida corta o risco em cerca de dois terços, efeito maior do que o de qualquer outra intervenção deste capítulo.

Antes de calcular qualquer escore, uma triagem obrigatória: existe FA 'valvar'? O termo, na prova, significa duas situações — prótese valvar mecânica ou estenose mitral reumática moderada a grave. Nelas o risco embólico é tão alto que a anticoagulação é automática, sem escore, e o anticoagulante é obrigatoriamente a varfarina: os DOACs são contraindicados — o ensaio que testou dabigatrana em prótese mecânica (re-ALIGN) foi interrompido por excesso simultâneo de trombose e sangramento.

Para todo o resto — a FA não valvar —, a diretriz de 2025 adota o CHA2DS2-VA: insuficiência cardíaca (1), hipertensão (1), idade de 65 a 74 anos (1), idade a partir de 75 (2), diabetes (1), AVC/AIT/embolia prévia (2) e doença vascular — infarto prévio, doença arterial periférica, placa aórtica complexa (1). Máximo de 8 pontos. O corte: escore 2 ou mais indica anticoagulação; escore 1 é zona de decisão individualizada, pesando qual é o fator e a preferência do paciente; escore 0 dispensa anticoagulação — com reavaliação periódica, porque idade e comorbidade só andam numa direção.

O que mudou e por quê: o 'Sc' era o sexo feminino, que somava 1 ponto. A evidência acumulada mostrou que o sexo é modificador de risco — amplifica o efeito dos outros fatores — e não fator independente; mulher sem nenhuma outra comorbidade não tem risco embólico que justifique anticoagular. A diretriz brasileira de 2025 seguiu a ESC de 2024 e aboliu o ponto. Consequência prática: acabou o corte diferente para homem e mulher, e a mulher 'perdeu' um ponto em relação à conta antiga — na imensa maioria das vinhetas a conduta não muda, e a seção de divergências mostra exatamente quando muda.

Com o que anticoagular: na FA não valvar, DOAC é a primeira escolha — eficácia no mínimo igual à da varfarina com menos hemorragia intracraniana, sem monitorização laboratorial e com menos interações. A varfarina (INR alvo de 2 a 3) fica para quando o DOAC é contraindicado — prótese mecânica, estenose mitral moderada/grave, disfunção renal avançada — ou simplesmente indisponível, que é a realidade da farmácia do SUS. E uma exclusão que despenca em prova: AAS não é anticoagulante de FA. Antiagregação não previne cardioembolia de forma aceitável e sangra de qualquer jeito; 'AAS para o risco embólico' é distrator, nunca conduta.

O HAS-BLED completa a avaliação: estima o risco de sangramento somando hipertensão descontrolada, função renal ou hepática alterada, AVC prévio, sangramento prévio, INR lábil, idade avançada e uso de álcool ou de drogas que sangram (AINE, antiagregante). O papel dele é apontar o que corrigir — ajustar a pressão, trocar o AINE, encurtar o intervalo das consultas —, nunca vetar a anticoagulação. Escore alto pede vigilância mais próxima; quem sangra muito é, em geral, o mesmo que embolia muito.

Ilustração do coração em corte mostrando trombo no apêndice atrial esquerdo e o trajeto do êmbolo até o cérebro.
O caminho que a anticoagulação interrompe: estase no apêndice atrial esquerdo, trombo e embolia cerebral — o AVC cardioembólico é o desfecho que define toda a conduta antitrombótica da FA.

Sala de emergência: instável ou estável, menos ou mais de 24 horas

O primeiro gesto diante de FA aguda não é calcular escore — é procurar instabilidade: hipotensão ou choque, dor torácica isquêmica, congestão pulmonar com edema agudo, rebaixamento de consciência. Qualquer um presente, a conduta é cardioversão elétrica sincronizada imediata, com sedação e anticoagulação iniciada em paralelo. Instabilidade não espera três semanas de nada — o risco embólico da cardioversão sem preparo é real, mas o paciente morrendo do débito baixo é mais real ainda.

No paciente estável, a pergunta seguinte é 'há quanto tempo?'. FA com menos de 24 horas de início bem documentado pode ser cardiovertida — elétrica ou farmacológica — sem o preparo de três semanas. Aqui mora a mudança de 2025: a janela clássica era de 48 horas, e a diretriz brasileira a encurtou para 24, acompanhando a europeia de 2024, porque a evidência mostrou trombo atrial e embolia se formando mais cedo do que se supunha. Início sem hora confiável conta como mais de 24 horas — na dúvida, trate como longa.

FA com 24 horas ou mais (ou início indeterminado), estável: dois caminhos equivalentes. O tradicional — anticoagulação plena por 3 semanas e cardioversão eletiva. O rápido — ecocardiograma transesofágico agora: sem trombo no apêndice, cardioverte em seguida, anticoagulando desde o momento da decisão. O ETE não substitui a anticoagulação; ele só substitui a espera.

Depois de toda cardioversão — elétrica, química ou espontânea —, anticoagulação por no mínimo 4 semanas. O átrio que volta ao ritmo sinusal fica 'atordoado' (stunning): a mecânica contrátil demora dias a semanas para acompanhar o eletro, e o período pós-reversão segue trombogênico. Passadas as 4 semanas, quem manda é o CHA2DS2-VA: escore que indica anticoagulação mantém o remédio por tempo indefinido, mesmo com o paciente 'curado' no eletro. Reverter o ritmo não reverte o risco — a FA que já aconteceu tende a voltar, muitas vezes sem sintoma.

Controle de frequência: a estratégia de base

Controlar a frequência é a estratégia de fundo de quase todo paciente com FA — e a estratégia definitiva do idoso pouco sintomático, do átrio muito dilatado, da FA de anos. O alvo é leniente: frequência de repouso abaixo de 110 bpm, porque o controle estrito não mostrou vantagem clínica no ensaio RACE II. Aperta-se o alvo — em torno de 80 — quando persistem sintomas ou aparece disfunção ventricular atribuível à taquicardia.

A escolha da droga é raciocínio de meia dúzia de linhas que rende questão inteira. Betabloqueador é a primeira escolha geral. Diltiazem e verapamil são alternativas eficazes — mas proibidos na insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, porque o inotropismo negativo descompensa o ventrículo que já não contrai. Digoxina entra como adjuvante: paciente sedentário, ICFEr, ou quando o betabloqueador sozinho não alcança o alvo — lembrando que ela controla frequência de repouso e pouco faz no esforço. Amiodarona para controlar frequência é último recurso: tóxica demais para uso crônico com esse fim e, pior, pode reverter o ritmo de surpresa num paciente de FA longa não anticoagulado — transformando o 'controle de frequência' numa cardioversão química sem preparo.

Na prática de emergência: paciente estável com resposta ventricular rápida recebe a droga venosa (betabloqueador ou diltiazem, conforme o perfil), busca-se o alvo, e a decisão sobre ritmo fica para o segundo tempo — com a janela das 24 horas e o escore na mesa.

Controle de ritmo: para quem e com o quê

Quem se beneficia de perseguir o ritmo sinusal: o sintomático apesar de frequência controlada, o jovem, o primeiro episódio, a FA com causa corrigida (hipertireoidismo tratado, pós-operatório), e a insuficiência cardíaca que descompensa com a perda da sístole atrial. A virada da década foi o controle precoce de ritmo: no ensaio EAST-AFNET 4, pacientes com FA diagnosticada há menos de 1 ano tratados com estratégia de ritmo desde o início tiveram menos desfechos cardiovasculares. A era do 'tanto faz ritmo ou frequência', herdada do AFFIRM, acabou para o recém-diagnosticado — no paciente com FA de menos de 1 ano, a diretriz de 2025 favorece tentar o ritmo.

Reversão farmacológica: a linha divisória é a cardiopatia estrutural. Coração estruturalmente normal — propafenona, que é também a droga do 'comprimido de bolso' (pill-in-the-pocket): dose única oral autoadministrada no início da crise, desde que a primeira vez tenha sido testada em ambiente monitorizado. Cardiopatia estrutural presente — ICFEr, hipertrofia importante, isquemia — a escolha é amiodarona, mais lenta para reverter, porém segura onde os bloqueadores de canal de sódio matam.

Manutenção do ritmo segue a mesma lógica: sem cardiopatia, propafenona ou sotalol (este exige vigilância do intervalo QT); com cardiopatia, amiodarona — a mais eficaz de todas e a mais tóxica no longo prazo: tireoide, pulmão, fígado, córnea e pele cobram a conta, o que a torna droga de exceção no jovem.

Ablação por cateter — o isolamento elétrico das veias pulmonares — deixou de ser último recurso: é opção de primeira linha na FA paroxística sintomática, antes mesmo do antiarrítmico se o paciente preferir, e indicação forte após falha de droga. Na FA com ICFEr, a ablação melhora desfechos duros, não só sintomas. Um detalhe que a banca adora: a anticoagulação depois da ablação segue o CHA2DS2-VA, não o aparente sucesso do procedimento — ablação bem-sucedida não suspende anticoagulante de quem tem escore alto.

Resta o paciente que precisa de anticoagulação e não pode recebê-la de jeito nenhum — sangramento maior recorrente, por exemplo. Para ele existe a oclusão percutânea do apêndice atrial esquerdo: fecha-se mecanicamente o sítio onde nascem mais de 90% dos trombos da FA não valvar. É alternativa para contraindicação verdadeira e permanente à anticoagulação, não atalho para quem dá trabalho de anticoagular.

04

Da chegada ao PS à receita de alta: o algoritmo em seis passos

A sequência abaixo resolve a vinheta típica — FA aguda no pronto-socorro — e termina na decisão que a banca mais cobra: quem sai de casa anticoagulado, com o quê, e por quanto tempo.

  1. 1Confirme a FA no traçado: RR irregularmente irregular, sem onda P, linha de base com ondas f.
  2. 2Procure instabilidade (hipotensão/choque, dor isquêmica, congestão/EAP, rebaixamento): presente, cardioversão elétrica sincronizada imediata, anticoagulando em paralelo.
  3. 3Estável: triagem de FA valvar — prótese mecânica ou estenose mitral moderada/grave → anticoagulação com varfarina, sem calcular escore.
  4. 4FA não valvar: calcule o CHA2DS2-VA — ≥2 anticoagula (DOAC preferencial; varfarina se contraindicação ou indisponibilidade); 1 individualiza; 0 dispensa e reavalia periodicamente.
  5. 5Quer reverter o ritmo? Menos de 24 h documentadas: pode cardioverter já. 24 h ou mais, ou início incerto: 3 semanas de anticoagulação plena OU ETE sem trombo — e só então a cardioversão.
  6. 6Depois de qualquer reversão: anticoagulação por no mínimo 4 semanas; a partir daí, o escore — e não o ritmo do eletro — decide quem mantém o anticoagulante para sempre.

CHA2DS2-VA 0 — sem anticoagulação

Risco embólico baixo: nenhum antitrombótico — nem AAS. Reavalie a cada consulta: o escore só cresce com o tempo.

CHA2DS2-VA 1 — individualizar

Zona de decisão compartilhada: pese qual é o fator, a preferência do paciente e o risco de sangramento corrigível.

CHA2DS2-VA ≥2 — anticoagular

Anticoagulação oral por tempo indefinido: DOAC preferencial na FA não valvar; varfarina quando contraindicado ou indisponível.

Componente (CHA2DS2-VA, diretriz 2025)Pontos
C — Insuficiência cardíaca / disfunção ventricular1
H — Hipertensão arterial1
A2 — Idade ≥ 75 anos2
D — Diabetes mellitus1
S2 — AVC, AIT ou embolia sistêmica prévia2
V — Doença vascular (IAM prévio, DAP, placa aórtica)1
A — Idade 65–74 anos1
Máximo8

Qual anticoagulante para qual paciente

CenárioEscolhaPor quê
FA não valvar, função renal adequadaDOAC (primeira linha na diretriz 2025)Eficácia igual ou superior à varfarina, menos hemorragia intracraniana, sem INR
Prótese valvar mecânicaVarfarina, sempreDOAC contraindicado — RE-ALIGN interrompido por trombose e sangramento
Estenose mitral reumática moderada/graveVarfarina, sempreFA 'valvar': risco embólico altíssimo, DOACs sem eficácia demonstrada
Disfunção renal avançada / diáliseVarfarinaDOACs dependem de depuração renal
Tratamento pela rede pública (SUS)Varfarina com INR 2–3DOACs não incorporados (CONITEC 2016); varfarina é o item da RENAME
Contraindicação absoluta e permanente a anticoagularOclusão percutânea do apêndice atrial esquerdoFecha o sítio de origem da maioria dos trombos

As drogas da FA: frequência × ritmo

DrogaPapelQuando evitar
BetabloqueadorPrimeira escolha para frequênciaBroncoespasmo ativo, descompensação aguda grave
Diltiazem / verapamilFrequência (alternativa eficaz)Proibidos na ICFEr — inotrópicos negativos
DigoxinaFrequência, como adjuvante (sedentário, ICFEr)Pouco efeito no esforço; janela terapêutica estreita
PropafenonaReversão e manutenção do ritmo; 'comprimido de bolso'Qualquer cardiopatia estrutural
SotalolManutenção do ritmo sem cardiopatia significativaQT longo; vigiar eletrólitos e o intervalo QT
AmiodaronaRitmo com cardiopatia estrutural; frequência só como último recursoToxicidade crônica (tireoide, pulmão, fígado); pode reverter FA longa sem preparo anticoagulante

HAS-BLED alto não contraindica anticoagulação: aponta os fatores de sangramento a corrigir (pressão, INR lábil, AINE, álcool) e pede vigilância mais próxima.

O escore é dinâmico: paciente de escore 0 hoje cruza o corte quando fizer 65 anos ou ganhar a primeira comorbidade — reavalie a cada encontro.

FA subclínica de dispositivo (marca-passo, wearable) não recebe automaticamente a conduta da FA clínica: individualize pela carga de arritmia e pelo risco do paciente.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual escore: CHA2DS2-VA ou CHA2DS2-VASc?

CHA2DS2-VA — Diretriz Brasileira 2025 e ESC 2024

O sexo feminino saiu do escore por ser modificador, e não fator independente, de risco. Corte único para homens e mulheres: ≥2 anticoagula, 1 individualiza, 0 dispensa.

Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025 (DOI 10.36660/abc.20250618); 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation.

CHA2DS2-VASc — II Diretriz Brasileira de 2016 e ACC/AHA/ACCP/HRS 2023

Mulher soma 1 ponto pelo sexo, e os cortes compensam a diferença: anticoagulação indicada com ≥2 em homens e ≥3 em mulheres (o documento americano ancora no risco anual ≥2%).

Magalhães LP e cols., Arq Bras Cardiol 2016 (DOI 10.5935/abc.20160055); Joglar JA e cols., 2023 ACC/AHA/ACCP/HRS Guideline.

Na prova

O recorte se identifica pelo nome do escore no enunciado (com ou sem o 'Sc' final), pelo ano da diretriz citada e pelas alternativas: corte diferente para homem e mulher só existe no mundo VASc. Na aritmética, quase toda vinheta pontua para o mesmo lado nas duas réguas — o sexo só decide a conduta na mulher cujo único fator além dele somaria 1 ponto, e é exatamente essa paciente que denuncia qual régua a banca usou.

DOAC de primeira linha × varfarina como o que o SUS dispensa

DOACs preferenciais — SOBRAC/SBC 2025

Primeira escolha na FA não valvar: eficácia no mínimo igual à da varfarina, menos hemorragia intracraniana, sem monitorização de INR e com menos interações.

Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025.

Varfarina — a opção incorporada ao SUS

A CONITEC avaliou apixabana, rivaroxabana e dabigatrana e decidiu pela não incorporação (Portaria SCTIE/MS nº 11/2016), citando o custo e a disponibilidade de varfarina eficaz e barata. Não há PCDT de FA; a causa da distância entre a diretriz e a prateleira é econômica e de incorporação, não de eficácia.

CONITEC/MS, Relatório de recomendação sobre anticoagulantes diretos na FA não valvar, 2016.

Na prova

Cenário de UBS, farmácia pública ou INR na vinheta situa a questão no mundo da varfarina — inclusive nos cuidados que só ela exige (interações, TTR, ajuste de dose). Enunciado que pede a melhor opção farmacológica sem restrição de acesso, ou que descreve paciente com INR lábil apesar de boa adesão, conversa com o mundo dos DOACs. Prova de instituição pública tende à conduta executável no SUS; as alternativas costumam entregar o recorte.

Janela para cardioverter sem anticoagulação prévia: 48 ou 24 horas?

24 horas — Diretriz Brasileira 2025, acompanhando a ESC 2024

A janela encurtou porque trombo atrial e embolia foram documentados já no primeiro dia de arritmia; acima de 24 h, exige-se 3 semanas de anticoagulação ou ETE antes da reversão.

Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025; 2024 ESC Guidelines.

48 horas — régua clássica, mantida nos documentos de 2016 (Brasil) e 2023 (EUA)

A II Diretriz Brasileira e o guideline americano vigente conservam as 48 horas como limite tradicional para reversão sem preparo prolongado.

Magalhães LP e cols., 2016; Joglar JA e cols., 2023 ACC/AHA/ACCP/HRS Guideline.

Na prova

Vinheta com FA de poucas horas não separa as réguas — as duas permitem reverter. O divisor é a FA de 30 a 47 horas: banca na régua nova exige 3 semanas ou ETE; banca na régua clássica ainda autoriza a reversão direta. Ano da diretriz citada no enunciado e a presença de uma alternativa 'anticoagular 3 semanas e reverter eletivamente' ao lado de 'cardioverter agora' denunciam qual limite o avaliador tem em mente.

06

Caso resolvido

Mulher, 68 anos, hipertensa e diabética em uso irregular das medicações, procura o pronto-socorro por palpitações iniciadas há 3 dias. Exame: PA 128×82 mmHg, FC ~132 bpm com pulso irregularmente irregular, sem dispneia, sem dor torácica, ausculta pulmonar limpa. ECG: RR irregular, ausência de ondas P, linha de base com ondas f.
achado
Fibrilação atrial com resposta ventricular rápida, hemodinamicamente estável — sem hipotensão, isquemia, congestão ou rebaixamento. Nada de choque elétrico imediato: instabilidade é o único atalho para a cardioversão de urgência, e ela não está aqui.
escore
CHA2DS2-VA: hipertensão (1) + diabetes (1) + idade 65–74 (1) = 3. Bem acima do corte de 2 — anticoagulação oral por tempo indefinido está indicada independentemente do que aconteça com o ritmo. Na régua antiga (VASc) ela somaria 4 com o sexo; a conduta seria a mesma.
janela
Três dias de arritmia — muito além das 24 horas da diretriz de 2025 (e além até das 48 da régua clássica). Cardioverter agora, mesmo estável, seria disparar o trombo que o apêndice atrial teve tempo de sobra para formar.
conduta imediata
Controle de frequência (betabloqueador, na ausência de contraindicação) mirando o alvo leniente de repouso <110 bpm, e início da anticoagulação ainda no PS — DOAC como primeira escolha; varfarina com INR 2–3 se o seguimento for pela rede pública.
programação
Cardioversão eletiva após 3 semanas de anticoagulação plena — ou antecipada por ETE sem trombo, mantendo o anticoagulante. Depois da reversão, no mínimo 4 semanas de anticoagulação; e, com escore 3, o anticoagulante fica para sempre, com ritmo sinusal ou sem ele.
07

Agora feche você

Homem, 76 anos, com insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida conhecida, chega ao pronto-socorro com palpitações e dispneia progressiva há 4 horas. Exame: PA 78×50 mmHg, FC 148 bpm irregular, sonolento, estertores crepitantes até os terços médios. ECG: fibrilação atrial com resposta ventricular rápida.
achado
FA aguda com três marcadores de instabilidade ao mesmo tempo: hipotensão, congestão pulmonar e rebaixamento do sensório — a arritmia está derrubando o débito de um ventrículo que já era ruim.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Isentar a FA paroxística de anticoagulação A duração do episódio parece proporcional ao risco — é intuitivo e está errado. Paroxística embolia como persistente; quem decide anticoagulação é o CHA2DS2-VA, nunca o tipo de FA. O distrator 'não anticoagular porque reverteu sozinho' cai em prova todo ano.
  2. 2AAS como 'anticoagulação leve' A alternativa com AAS atrai porque soa como meio-termo prudente para o paciente que sangra ou que reluta. Antiagregação não previne cardioembolia de forma aceitável e sangra de qualquer jeito — na FA, AAS não é opção antitrombótica para nenhum escore.
  3. 3DOAC na prótese mecânica ou na estenose mitral grave 'DOAC é mais moderno e mais seguro' vale para a FA não valvar — e o examinador conta com a generalização indevida. Na prótese mecânica a dabigatrana foi testada (RE-ALIGN) e o estudo parou por excesso de trombose e sangramento; nas duas situações 'valvares' a resposta é varfarina, sempre.
  4. 4Cardioverter FA de início incerto porque o paciente 'está estável' Estabilidade autoriza esperar — não autoriza reverter. Sem 24 horas bem documentadas (48 na régua clássica), a reversão exige 3 semanas de anticoagulação ou ETE sem trombo. O paciente estável e sintomático que 'quer resolver logo' é a isca clássica para a embolia iatrogênica.
  5. 5Diltiazem ou verapamil na ICFEr São ótimos controladores de frequência — em coração com fração de ejeção preservada. Na ICFEr o inotropismo negativo descompensa; a alternativa atrai porque a droga é 'de FA', e o detalhe da fração de ejeção fica escondido na vinheta. Betabloqueador titulado (e digoxina como adjuvante) é o caminho.
  6. 6Bloquear o nó AV na FA pré-excitada (WPW) FA irregular de QRS largo e bizarro em paciente jovem: betabloqueador, verapamil, digoxina e adenosina são todos contraindicados — bloquear o nó joga toda a condução pela via acessória e degenera em fibrilação ventricular. O caminho é cardioversão elétrica (ou antiarrítmico que aja na via acessória).
  7. 7Suspender anticoagulação porque o HAS-BLED deu alto O escore de sangramento existe para corrigir fatores — pressão, INR lábil, AINE, álcool — e intensificar vigilância, não para vetar o anticoagulante. Quem pontua alto para sangrar costuma pontuar alto para embolizar; a suspensão troca um risco tratável por um AVC.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A fibrilação atrial caracteriza-se por ausência de ondas P, presença de ondas fibrilatórias e intervalos R-R irregularmente irregulares, correspondendo ao pulso descrito. O flutter atrial tem ondas F em 'dente de serra' e geralmente resposta ventricular regular. A taquicardia sinusal mantém ondas P e ritmo regular. A extrassistolia ventricular tem batimentos ectópicos com QRS largo sobre ritmo de base identificável. O BAV Mobitz I mostra alongamento progressivo do PR até bloqueio de um QRS, com ondas P presentes.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Monte de cabeça o CHA2DS2-VA — os sete componentes e os pontos de cada um — e aplique a três pacientes inventados por você. Depois refaça a conta na régua antiga (VASc): em qual mulher a conduta mudaria, e por quê exatamente nela?

em 30 dias

Reconstrua em voz alta o fluxo do PS: o que torna a FA instável e o que isso dispara; estável com menos de 24 h × com mais de 24 h; o que vem antes e depois de toda cardioversão (3 semanas ou ETE, 4 semanas, crônico pelo escore); e onde varfarina continua obrigatória mesmo no mundo dos DOACs.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Pronto-socorro, 2 h da manhã: senhora de 68 anos, hipertensa, com palpitações desde anteontem e pulso irregular a 130 bpm. Conduza o caso — frequência, ritmo e anticoagulação, na ordem certa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Fibrilação atrial — Preparatório para provas | OsceLabs