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Clínica MédicaCardiologia

Endocardite infecciosa

A prova cobra duas coisas com números fechados: somar os critérios de Duke — que ganharam duas versões novas em 2023 — e dizer quem recebe profilaxia antibiótica, porque a régua brasileira é mais larga que a europeia.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 48 anos, com quadro de febre prolongada, perda de peso e sopro cardíaco novo de insuficiência mitral. Antecedente de procedimento dentário sem profilaxia há 3 semanas. Ao exame apresenta manchas de Janeway nas palmas e petéquias. Hemoculturas positivas para Streptococcus do grupo viridans. Qual é o exame complementar fundamental para confirmar o diagnóstico e identificar vegetações?

02

Como esse tema cai

Endocardite infecciosa é um tema em que a régua brasileira e a régua internacional cuidam de metades diferentes do assunto. O Ministério da Saúde não tem protocolo clínico de endocardite: o documento nacional que trata do tema é a Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, de 2020 — e ela cuida de prevenção, não de diagnóstico. Quem define o que é endocardite continua sendo o corpo internacional dos critérios de Duke. Saber de onde vem cada metade já resolve boa parte das questões: pergunta sobre quem toma amoxicilina antes do dentista é régua brasileira; pergunta sobre somar critério maior e menor é régua internacional.

E a régua internacional se partiu em duas em 2023. No mesmo ano saíram os critérios Duke-ISCVID e a diretriz europeia de endocardite, com seu próprio conjunto de critérios. As duas versões aumentaram a sensibilidade em relação aos critérios de Duke modificados de 2000, mas não são iguais: a europeia tem dois critérios maiores, a do ISCVID tem três, porque criou um critério maior cirúrgico. A aritmética final, essa sim, é a mesma nas duas — e é a mesma desde 1994.

Na profilaxia, o Brasil é deliberadamente mais largo. A diretriz brasileira indica profilaxia antibiótica para todo portador de valvopatia moderada ou importante e para todo portador de prótese valvar antes de procedimento odontológico com sangramento; a europeia de 2023 restringe a profilaxia a um grupo de alto risco e coloca a doença valvar reumática e a degenerativa num grupo intermediário, que recebe só medidas gerais. A diferença tem causa epidemiológica: a sequela reumática ainda é etiologia valvar de peso no Brasil, e os estreptococos respondem por pelo menos metade das endocardites adquiridas na comunidade no país, segundo a própria diretriz brasileira. A diretriz europeia parte de uma população em que a valvopatia degenerativa domina.

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O que muda decisão

Quando suspeitar — e por que o Brasil suspeita mais cedo

A pergunta que abre o raciocínio é sempre a mesma: este paciente tem febre sem foco e alguma coisa dentro do coração para o germe grudar? As predisposições que a versão de 2023 dos critérios lista como critério menor dão o mapa: endocardite prévia, prótese valvar, plastia valvar prévia, cardiopatia congênita, regurgitação ou estenose mais que leve de qualquer etiologia, dispositivo cardíaco eletrônico implantável endovascular, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva e uso de droga injetável.

No Brasil, a linha 'regurgitação ou estenose mais que leve de qualquer etiologia' pesa mais do que parece: a sequela reumática segue entre as principais causas de valvopatia no país, ao lado do prolapso da valva mitral, e é um substrato clássico para endocardite. Um adulto jovem com sopro conhecido desde a infância e febre arrastada é, aqui, uma suspeita de endocardite até prova em contrário.

A apresentação varia com o germe. Estafilococo costuma dar quadro agudo, com febre alta, sepse e destruição valvar rápida; estreptococo do grupo viridans costuma dar quadro arrastado, de semanas, com febre baixa, emagrecimento, anemia e um sopro que apareceu ou mudou. Os sinais periféricos famosos — nódulos de Osler, lesões de Janeway, manchas de Roth, hemorragias conjuntivais — são úteis quando presentes, mas contam como critério menor, nunca fecham diagnóstico, e a maioria dos pacientes não os tem.

Um detalhe de leitura que vale ponto: sopro novo só conta como critério se for de fato novo. Piora ou mudança de sopro preexistente não basta. E o achado de ausculta virou critério menor explícito em 2023, com uma condição — vale como critério de exame físico quando o ecocardiograma não está disponível.

Duas complicações mudam a cabeça do plantonista e aparecem muito em vinheta: embolia (acidente vascular cerebral, infarto esplênico, infarto pulmonar séptico na endocardite de câmaras direitas) e insuficiência cardíaca por destruição valvar aguda. Febre mais evento embólico em paciente com cardiopatia estrutural é endocardite até que se prove o contrário.

Corte do coração esquerdo com vegetação na valva mitral e fragmentos se soltando para a circulação arterial, alcançando cérebro, baço e extremidades.
A vegetação é ao mesmo tempo foco infeccioso e fonte de êmbolos: por isso febre arrastada e evento embólico caminham juntos na endocardite.

Hemocultura: o exame que a pressa estraga

A hemocultura é o critério maior mais acessível e o mais fácil de perder. Uma dose de antibiótico dada antes da coleta pode negativar o exame e empurrar o caso para o grupo de endocardite com hemocultura negativa, em que o diagnóstico passa a depender de sorologia, PCR e imagem. Em suspeita de endocardite, a ordem é coletar primeiro.

O número de conjuntos depende do germe. Micro-organismo que costuma causar endocardite — chamado de típico — fecha critério maior com dois ou mais conjuntos positivos. Micro-organismo que causa endocardite ocasional ou raramente — não típico — só fecha critério maior com três ou mais conjuntos. Guardar esses dois números resolve uma família inteira de questões.

A lista de típicos cresceu em 2023: Staphylococcus aureus, Staphylococcus lugdunensis, Enterococcus faecalis, todas as espécies de estreptococo exceto Streptococcus pneumoniae e Streptococcus pyogenes, Granulicatella e Abiotrophia, Gemella e o grupo HACEK (Haemophilus, Aggregatibacter actinomycetemcomitans, Cardiobacterium hominis, Eikenella corrodens e Kingella kingae). Quando há material protético intracardíaco, entram também estafilococos coagulase-negativos, Corynebacterium striatum e C. jeikeium, Serratia marcescens, Pseudomonas aeruginosa, Cutibacterium acnes, micobactérias não tuberculosas e Candida.

A mudança operacional mais importante de 2023 é o que saiu: os critérios de Duke modificados de 2000 exigiam intervalo entre as coletas e punções venosas separadas para o critério maior. A versão de 2023 removeu essa exigência. Punção em sítios diferentes continua fortemente recomendada como boa prática — só deixou de ser condição para pontuar. Em compensação, o documento definiu o que é um conjunto: um par colhido ao mesmo tempo, um frasco de aeróbio e um de anaeróbio, e o conjunto é positivo se crescer em pelo menos um dos frascos.

Quando as hemoculturas ficam negativas por três dias ou mais e a suspeita persiste, o caminho é ampliar o alvo: sorologia para Bartonella e Coxiella burnetii, PCR no sangue para Tropheryma whipplei, Bartonella e Coxiella, prolongamento da incubação até 14 dias e, conforme o caso, sorologia para Brucella e hemocultura para micobactérias. Três desses agentes entraram como critério maior próprio em 2023: PCR positiva no sangue para Coxiella burnetii, Bartonella ou Tropheryma whipplei fecha critério maior sozinha, assim como IgG antifase I de Coxiella acima de 1:800 e IgG de Bartonella henselae ou B. quintana igual ou acima de 1:800 por imunofluorescência indireta.

Imagem: o eco começa, mas raramente termina

O ecocardiograma transtorácico é o primeiro exame e o mais disponível, mas tem sensibilidade limitada, principalmente em prótese valvar e em abscesso perivalvar. A diretriz europeia de 2023 subiu o transesofágico para recomendação classe I na suspeita de endocardite mesmo quando o transtorácico já foi positivo — com uma exceção: endocardite isolada de valva nativa de câmaras direitas com transtorácico de boa qualidade e achado inequívoco. Transtorácico negativo com suspeita mantida nunca encerra a investigação.

O que conta como critério maior de imagem, na versão de 2023 do ISCVID: ecocardiograma ou tomografia cardíaca mostrando vegetação, perfuração de folheto, aneurisma de folheto, abscesso, pseudoaneurisma ou fístula intracardíaca; regurgitação valvar nova e significativa em comparação com imagem anterior; ou deiscência parcial nova de prótese em comparação com imagem anterior. Repare no 'em comparação com imagem anterior' — sem exame prévio, esses dois últimos não se sustentam.

A medicina nuclear entrou de vez. Captação metabólica anormal no PET/CT com fluordesoxiglicose marcada com flúor-18 envolvendo valva nativa ou prótese, enxerto de aorta ascendente, eletrodos de dispositivo ou outro material protético é critério maior — mas só a partir de 3 meses do implante da prótese. Dentro dos 3 meses, a mesma captação vale como critério menor, porque a inflamação pós-operatória ainda confunde a leitura.

A tomografia cardíaca também subiu de posto: na diretriz europeia de 2023 é recomendação classe I para paciente com suspeita de endocardite de valva nativa. Vale lembrar o limite prático: tomografia negativa não afasta endocardite, porque vegetação pequena pode passar despercebida.

Somando os critérios: definida, possível, rejeitada

A aritmética não mudou desde os critérios originais e é idêntica nas duas versões de 2023. Endocardite definida por critério clínico: dois critérios maiores, ou um maior mais três menores, ou cinco menores. Endocardite possível: um maior mais um menor, ou três menores. Endocardite rejeitada: diagnóstico alternativo firme que explique o quadro; ausência de recidiva apesar de menos de 4 dias de antibiótico; ausência de evidência de endocardite na cirurgia ou na autópsia com menos de 4 dias de antibiótico; ou simplesmente não atingir nem os critérios de possível.

Há um segundo caminho para 'definida' que a prova adora esconder: o critério anatomopatológico. Micro-organismo identificado em vegetação, tecido cardíaco, prótese explantada, enxerto de aorta ascendente, dispositivo cardíaco ou êmbolo arterial — por cultura, coloração, PCR, sequenciamento ou hibridização in situ — fecha endocardite definida sem precisar somar nada. O mesmo vale para endocardite ativa identificada histologicamente nesses materiais.

'Possível' não é 'descartada'. É a categoria que obriga a continuar: repetir hemocultura, escalar imagem, procurar germe fastidioso. Tratar 'possível' como negativa é o erro clínico mais caro do tema.

O critério maior cirúrgico é a novidade exclusiva dos critérios Duke-ISCVID de 2023: evidência de endocardite documentada por inspeção direta durante cirurgia cardíaca conta como critério maior mesmo sem confirmação por imagem, histologia ou microbiologia. A diretriz europeia de 2023 não tem esse critério — por isso ela tem dois critérios maiores e a do ISCVID tem três.

Profilaxia antibiótica: a régua brasileira, indicação por indicação

A diretriz brasileira de 2020 organiza a profilaxia em três blocos de recomendação, e a prova cobra os três. Recomendação classe I: paciente com valvopatia moderada ou importante e paciente com prótese valvar que serão submetidos a procedimento odontológico com alta probabilidade de bacteremia significativa. Recomendação classe IIa, em duas situações, ambas restritas a quem tem risco elevado de endocardite grave: procedimento geniturinário ou gastrointestinal com lesão de mucosa, e procedimento esofágico ou de via respiratória com lesão de mucosa.

Risco elevado de endocardite grave, na definição do próprio documento, é uma lista fechada: prótese valvar cardíaca, endocardite prévia, cardiopatia congênita não reparada, corrigida parcialmente ou corrigida com material protético, e transplantado cardíaco com valvopatia.

A recomendação classe III — ou seja, não fazer — é a parte que mais derruba candidato, porque reúne justamente os pacientes que 'parecem' cardiopatas: prolapso da valva mitral sem regurgitação, pós-revascularização miocárdica, pós-implante de stent, sopro cardíaco inocente, portador de marca-passo ou desfibrilador, doença de Kawasaki e febre reumática sem disfunção valvar. Nenhum deles recebe profilaxia, para procedimento odontológico, respiratório, geniturinário ou gastrointestinal. Também é classe III profilaxia antes de procedimento que não envolve risco de bacteremia.

Qual procedimento odontológico conta? Aqueles que envolvem manipulação de tecido gengival, da região periodontal ou perfuração da mucosa oral. Não contam: anestesia local em tecido não infectado, radiografia odontológica, colocação ou remoção de aparelho ortodôntico, ajuste de aparelho, colocação de peças em aparelho, queda natural de dente de leite e sangramento por trauma de mucosa oral ou lábio.

O esquema é dose única, uma hora antes do procedimento. Sem alergia à penicilina, amoxicilina 2 g no adulto e 50 mg/kg na criança, por via oral; se a via oral não for possível, ampicilina 2 g ou 50 mg/kg, ou cefazolina ou ceftriaxona 1 g no adulto e 50 mg/kg na criança. Com alergia à penicilina, clindamicina 600 mg no adulto e 20 mg/kg na criança, ou azitromicina ou claritromicina 500 mg no adulto e 15 mg/kg na criança. Para procedimento com incisão ou biópsia de mucosa de via respiratória, como cirurgia otorrinolaringológica, o esquema é o mesmo da boca.

A escolha da amoxicilina não é casual: ela tem absorção adequada por via oral e cobre o estreptococo do grupo viridans, que é o alvo, e é medicamento de uso corrente na atenção básica — o que faz a recomendação ser executável numa UBS, e não apenas num centro terciário.

A profilaxia que a diretriz brasileira coloca em primeiro lugar não é antibiótica

Este é o ponto que quase todo resumo corta e que a diretriz brasileira trata como prioridade. O documento é explícito: bacteremias espontâneas do dia a dia superam em muito as provocadas por tratamento dentário. Escovar os dentes produz bacteremia em até 50% das vezes, o fio dental em 20% a 68%, a própria mastigação em 7% a 51%. Um cálculo de bacteremia acumulada ao longo de um ano estimou que a bacteremia cotidiana é seis vezes maior que a de uma extração dentária isolada — e trabalhos epidemiológicos recentes não mostram relação entre tratamento dentário nas duas semanas anteriores e episódios de endocardite.

A conclusão prática que a diretriz tira disso é que manter boa saúde bucal previne mais endocardite do que a dose de antibiótico antes do dentista. Por isso a profilaxia não farmacológica tem recomendação classe I: reforçar a necessidade de boa higiene bucal em todas as consultas médicas e manter consultas odontológicas trimestrais — quatro por ano, contra as duas recomendadas para a população geral. Boa parte das afecções odontológicas que mais causam endocardite, como gengivite e lesão periapical, é oligossintomática, e o paciente não vai reclamar delas.

E há três recomendações classe III que costumam surpreender: tatuagem, piercing em pele e piercing em língua ou mucosa são contraindicados no valvopata. O trajeto do piercing só deixa de ser fonte contínua de bacteremia quando termina de epitelizar, e a literatura registra endocardites — algumas fatais — associadas a esses implantes.

Febre reumática e endocardite: duas profilaxias que não se confundem

É a troca mais cobrada do tema. A profilaxia secundária da febre reumática previne novo surto reumático causado por estreptococo do grupo A, é contínua e dura anos. A profilaxia de endocardite previne bacteremia pontual de um procedimento, é dose única e acaba no mesmo dia. Droga diferente, ritmo diferente, objetivo diferente.

Na febre reumática, a droga de escolha é a benzilpenicilina G benzatina intramuscular: 600.000 UI abaixo de 25 kg e 1.200.000 UI acima de 25 kg, a cada 15 dias nos dois primeiros anos após o surto e a cada 21 dias nos anos seguintes, com recorrência de 0,3% ao ano. A fenoximetilpenicilina 250 mg por via oral duas vezes ao dia tem recorrência de 5% ao ano e a diretriz é explícita ao dizer que ela não deve ser usada como alternativa à penicilina benzatina. Para alérgicos à penicilina, sulfadiazina — 500 mg ao dia abaixo de 25 kg, 1 g ao dia acima — com recorrência de 1,3% ao ano. Para alérgicos à penicilina e à sulfa, eritromicina 250 mg duas vezes ao dia, esquema empírico e de uso excepcional.

A duração depende de ter havido cardite e de quão grave foi a sequela, e a regra é sempre 'o que for mais longo'. Sem cardite, até os 18 anos ou 5 anos após o último surto. Com cardite e sem sequela ou com sequela valvar muito leve — excluídas as lesões estenóticas, mesmo leves —, até os 25 anos ou 10 anos após o último surto. Com cardite e sequela grave, ou depois de cirurgia cardíaca, até os 40 anos no mínimo, e por toda a vida se houver exposição ocupacional a estreptococos.

Uma armadilha específica tem recomendação classe III na diretriz brasileira: suspender a profilaxia da febre reumática depois de cirurgia cardíaca com implante de prótese valvar, mesmo com as demais valvas sem lesão aparente. Trocar a valva não apaga o risco de novo surto reumático — e o paciente que trocou valva agora acumula as duas profilaxias, a contínua da febre reumática e a pontual da endocardite antes de procedimento.

Depois do diagnóstico: time, cirurgia e o degrau oral

A diretriz europeia de 2023 organiza o cuidado em torno de um time de endocardite, com cardiologista, infectologista, microbiologista, cirurgião cardíaco e imagem — e diz para não atrasar a cirurgia esperando o time se reunir.

As indicações cirúrgicas continuam nas mesmas três categorias, e a prova cobra os nomes: insuficiência cardíaca, infecção não controlada e prevenção de eventos embólicos. O que mudou em 2023 foi o relógio e a régua da vegetação. Cirurgia urgente passou a significar dentro de 3 a 5 dias. E as três faixas de tamanho de vegetação da versão de 2015 — acima de 10 mm, acima de 15 mm e acima de 30 mm — foram reduzidas a uma só: acima de 10 mm. Endocardite protética precoce, definida como a que ocorre dentro de 6 meses da cirurgia valvar, ganhou recomendação classe I de cirurgia com troca de prótese e desbridamento completo.

Do lado do antibiótico, a novidade de 2023 é o degrau oral. Com base no ensaio POET, a diretriz europeia passou a considerar, com recomendação classe IIa e nível de evidência A, a troca da via endovenosa para a oral depois de 10 dias — ou 7 dias quando houve cirurgia — desde que critérios clínicos e laboratoriais estejam preenchidos e não haja dúvida sobre absorção ou adesão. Antes da troca, ecocardiograma transesofágico.

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Critérios de Duke-ISCVID 2023: como somar, e as tabelas de profilaxia

Os critérios existem para transformar uma suspeita em uma categoria com consequência: definida trata, possível investiga, rejeitada procura outro diagnóstico. A soma abaixo é a mesma nas duas versões de 2023; o que muda entre elas é a lista de critérios maiores.

  1. 1Colha hemocultura antes de qualquer antibiótico — três conjuntos, cada conjunto um par de frascos aeróbio e anaeróbio.
  2. 2Peça ecocardiograma transtorácico e programe o transesofágico: na diretriz europeia de 2023 ele é classe I mesmo com transtorácico positivo.
  3. 3Conte os critérios maiores: microbiológico, de imagem e, nos critérios Duke-ISCVID, o cirúrgico.
  4. 4Conte os menores: predisposição, febre, fenômeno vascular, fenômeno imunológico, achado microbiológico aquém do maior, PET/CT dentro de 3 meses da prótese e sopro regurgitante novo à ausculta quando não há eco.
  5. 5Aplique a soma: 2 maiores, ou 1 maior mais 3 menores, ou 5 menores fecham endocardite definida.
  6. 6Se der 1 maior mais 1 menor, ou 3 menores, é endocardite possível — a investigação continua, não encerra.
  7. 7Se as hemoculturas seguirem negativas por 3 dias ou mais com suspeita mantida, parta para sorologia e PCR de Bartonella, Coxiella burnetii e Tropheryma whipplei.
TipoCritérioO que conta na versão de 2023
MaiorMicrobiológico — hemoculturaGerme típico em 2 ou mais conjuntos; germe não típico em 3 ou mais conjuntos. Sem exigência de intervalo entre coletas nem de punções separadas.
MaiorMicrobiológico — testes laboratoriaisPCR ou sequenciamento no sangue para Coxiella burnetii, Bartonella spp. ou Tropheryma whipplei; IgG antifase I de Coxiella acima de 1:800 ou isolamento em um único conjunto; IgG de Bartonella henselae ou quintana igual ou acima de 1:800 por imunofluorescência indireta.
MaiorImagem — eco e tomografia cardíacaVegetação, perfuração ou aneurisma de folheto, abscesso, pseudoaneurisma ou fístula intracardíaca; regurgitação nova e significativa comparada a imagem anterior; deiscência parcial nova de prótese comparada a imagem anterior.
MaiorImagem — PET/CT com flúor-18Captação metabólica anormal em valva nativa ou prótese, enxerto de aorta ascendente, eletrodos ou outro material protético, a partir de 3 meses do implante.
MaiorCirúrgico (só nos critérios Duke-ISCVID)Endocardite documentada por inspeção direta durante cirurgia cardíaca, sem confirmação por imagem, histologia ou microbiologia.
MenorPredisposiçãoEndocardite prévia, prótese valvar, plastia valvar prévia, cardiopatia congênita, regurgitação ou estenose mais que leve de qualquer etiologia, dispositivo cardíaco eletrônico endovascular, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, uso de droga injetável.
MenorFebreTemperatura documentada acima de 38,0 °C.
MenorFenômenos vascularesÊmbolo arterial, infarto pulmonar séptico, abscesso cerebral ou esplênico, aneurisma micótico, hemorragia intracraniana, hemorragia conjuntival, lesões de Janeway, púrpura purulenta.
MenorFenômenos imunológicosFator reumatoide positivo, nódulos de Osler, manchas de Roth, glomerulonefrite por imunocomplexos.
MenorMicrobiológico aquém do maiorHemocultura positiva para germe compatível sem preencher o critério maior; cultura, PCR ou sequenciamento positivo em sítio estéril que não seja tecido cardíaco, prótese ou êmbolo arterial.
MenorImagemCaptação anormal no PET/CT dentro de 3 meses do implante de prótese, enxerto, eletrodos ou outro material protético.
MenorExame físicoRegurgitação valvar nova identificada à ausculta quando o ecocardiograma não está disponível. Piora ou mudança de sopro preexistente não basta.

Classificação final e o que ela obriga

CategoriaComo se chegaConsequência
Definida — critério anatomopatológicoMicro-organismo identificado, ou endocardite ativa demonstrada, em vegetação, tecido cardíaco, prótese explantada, enxerto de aorta ascendente, dispositivo cardíaco ou êmbolo arterial.Fecha o diagnóstico sem somar critérios clínicos.
Definida — critério clínico2 maiores; ou 1 maior + 3 menores; ou 5 menores.Tratamento completo de endocardite e avaliação de indicação cirúrgica.
Possível1 maior + 1 menor; ou 3 menores.A investigação continua: repetir hemocultura, escalar imagem, procurar germe fastidioso.
RejeitadaDiagnóstico alternativo firme; ou ausência de recidiva apesar de menos de 4 dias de antibiótico; ou ausência de evidência na cirurgia ou autópsia com menos de 4 dias de antibiótico; ou não atingir os critérios de possível.Procurar outra causa para a febre.

Profilaxia antibiótica de endocardite — indicações no Brasil (SBC, 2020)

RecomendaçãoSituação
Classe IValvopatia moderada ou importante, e portador de prótese valvar, antes de procedimento odontológico com alta probabilidade de bacteremia significativa.
Classe IIaRisco elevado de endocardite grave antes de procedimento geniturinário ou gastrointestinal com lesão de mucosa.
Classe IIaRisco elevado de endocardite grave antes de procedimento esofágico ou de via respiratória com lesão de mucosa.
Classe IIIProlapso mitral sem regurgitação, pós-revascularização miocárdica, pós-stent, sopro inocente, marca-passo ou desfibrilador, doença de Kawasaki, febre reumática sem disfunção valvar — em qualquer desses procedimentos.
Classe IIIQualquer procedimento que não envolva risco de bacteremia.
Definição de risco elevado de endocardite gravePrótese valvar cardíaca; endocardite prévia; cardiopatia congênita não reparada, corrigida parcialmente ou corrigida com material protético; transplantado cardíaco com valvopatia.

Esquemas antes de procedimento odontológico — dose única 1 hora antes (SBC, 2020)

Via e situaçãoMedicaçãoCriançaAdulto
OralAmoxicilina50 mg/kg2 g
Oral, alergia à penicilinaClindamicina20 mg/kg600 mg
Oral, alergia à penicilinaAzitromicina ou claritromicina15 mg/kg500 mg
Parenteral (EV ou IM)Ampicilina50 mg/kg2 g
Parenteral (EV ou IM)Cefazolina ou ceftriaxona50 mg/kg1 g
Parenteral (EV ou IM), alergia à penicilinaClindamicina20 mg/kg600 mg

Profilaxia secundária da febre reumática — contínua, e não substitui a de endocardite (SBC, 2020)

MedicaçãoDose e intervaloRecorrência anual
Benzilpenicilina G benzatina (escolha)600.000 UI abaixo de 25 kg; 1.200.000 UI acima de 25 kg — a cada 15 dias nos 2 primeiros anos após o surto, a cada 21 dias nos anos seguintes0,3%
Fenoximetilpenicilina250 mg por via oral, 2 vezes ao dia5% — a diretriz diz que não deve ser usada como alternativa à penicilina benzatina
Sulfadiazina (alergia à penicilina)500 mg/dia abaixo de 25 kg; 1 g/dia acima de 25 kg1,3%
Eritromicina (alergia à penicilina e à sulfa)250 mg por via oral, 2 vezes ao diaEsquema empírico, de uso excepcional

Duração da profilaxia secundária da febre reumática (SBC, 2020) — vale o prazo mais longo

CategoriaDuração
Sem cardite — artrite ou coreia purasAté os 18 anos ou 5 anos após o último surto
Com cardite, sem sequela ou com sequela valvar muito leve (excluídas as lesões estenóticas, mesmo leves)Até os 25 anos ou 10 anos após o último surto
Com cardite e sequela grave; ou submetido a cirurgia cardíacaAté os 40 anos no mínimo; por toda a vida se houver exposição ocupacional a estreptococos
Depois de cirurgia cardíaca com implante de prótese valvarSuspender a profilaxia é recomendação classe III — ela continua

O documento do ISCVID escreve o corte da Coxiella burnetii como IgG antifase I acima de 1:800 e o da Bartonella como IgG igual ou acima de 1:800 — sinais diferentes no mesmo quadro. O corte da Coxiella vem dos critérios de Duke modificados de 2000; o da Bartonella é novo em 2023. Os dois ficam como estão.

A febre conta como critério menor acima de 38,0 °C. O documento traz o equivalente em Fahrenheit, 100,4 °F, que corresponde exatamente a 38,0 °C — temperatura de 38,0 °C redonda, portanto, não fecha o critério.

Conjunto de hemocultura é um par colhido ao mesmo tempo, um frasco de aeróbio e um de anaeróbio; o conjunto é positivo se crescer em pelo menos um frasco. A exigência de punções em sítios diferentes saiu do critério em 2023, mas segue fortemente recomendada como boa prática.

PET/CT com menos de 3 meses de implante de prótese conta como critério menor; com 3 meses ou mais, como maior. A diretriz europeia de 2023 não repete essa regra dos 3 meses no texto do critério.

Regurgitação nova e deiscência de prótese só valem como critério maior em comparação com imagem anterior. Sem exame prévio, esses dois achados não se sustentam.

A diretriz brasileira de 2020 escreve dose única uma hora antes do procedimento. A profilaxia para procedimento de via respiratória com incisão ou biópsia de mucosa usa o mesmo esquema do procedimento odontológico.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quem recebe profilaxia antibiótica antes de procedimento odontológico

Valvopatia moderada ou importante e prótese valvar — Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2020

Recomendação classe I para todo portador de valvopatia moderada ou importante, de qualquer etiologia — reumática ou degenerativa —, e para todo portador de prótese valvar, antes de procedimento odontológico com manipulação de gengiva, região periodontal ou perfuração de mucosa oral. O documento registra que os estreptococos causam pelo menos metade das endocardites adquiridas na comunidade no país e que a sequela reumática segue entre as principais etiologias valvares brasileiras.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – SBC, 2020, item 18 e Quadro 77.

Apenas o grupo de alto risco — Sociedade Europeia de Cardiologia, 2023

Cria dois grupos. Alto risco: endocardite prévia, prótese valvar, dispositivo de assistência ventricular e cardiopatia congênita — excluídas as anomalias valvares congênitas isoladas — como a cianótica não tratada ou tratada com shunt paliativo, conduto ou prótese. Risco intermediário: doença valvar reumática, doença valvar degenerativa não reumática, anomalias valvares congênitas incluindo valva aórtica bicúspide, dispositivo cardíaco eletrônico implantável e cardiomiopatia hipertrófica. Profilaxia antibiótica só para o grupo de alto risco; o intermediário recebe apenas medidas preventivas gerais.

Diretriz de endocardite da ESC, 2023, conforme reproduzida no documento de endosso da NVVC (Neth Heart J, 2025).

Nenhuma profilaxia — posição britânica do NICE registrada pela diretriz brasileira

O órgão britânico propôs não realizar profilaxia de endocardite em nenhuma ocasião. A diretriz brasileira registra que, depois disso, observou-se queda na prescrição de profilaxia antes de tratamento dentário seguida de aumento do número de casos de endocardite — e é esse dado que ela usa para justificar manter a profilaxia no Brasil.

Posição do NICE descrita e referenciada na Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – SBC, 2020, item 18.

Na prova

A causa da diferença é epidemiológica antes de tudo: a diretriz brasileira parte de uma população em que a sequela reumática ainda pesa e o estreptococo responde por metade das endocardites comunitárias; a europeia parte de uma população em que a valvopatia degenerativa domina. Há também diferença de data — 2020 contra 2023. Para identificar o recorte: enunciado que fala de UBS, valvopatia reumática, programa do SUS ou cita a Sociedade Brasileira de Cardiologia usa o corpo brasileiro. Enunciado que usa o vocabulário 'risco alto' e 'risco intermediário', ou cita a ESC, usa o corpo europeu — esse par de rótulos só existe no documento de 2023. As alternativas também denunciam: distrator com prolapso mitral sem regurgitação, marca-passo ou pós-stent está testando a lista classe III brasileira. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

Clindamicina como alternativa na alergia à penicilina

Clindamicina mantida — Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2020

Para alérgicos à penicilina, clindamicina 600 mg no adulto e 20 mg/kg na criança, por via oral ou parenteral, em dose única uma hora antes; azitromicina ou claritromicina 500 mg no adulto e 15 mg/kg na criança são as outras opções.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – SBC, 2020, Quadro 78.

Clindamicina retirada — Sociedade Europeia de Cardiologia, 2023

A diretriz de 2023 tirou a clindamicina das opções de profilaxia por causa de estudos de reações adversas, principalmente infecção por Clostridioides difficile.

Diretriz de endocardite da ESC, 2023, conforme reproduzida no documento de endosso da NVVC (Neth Heart J, 2025).

Clindamicina reintroduzida no endosso holandês, 2025

O grupo de trabalho holandês manteve clindamicina 600 mg por via oral como primeira alternativa na alergia confirmada à penicilina, argumentando que apenas um dos estudos citados avaliou a clindamicina como agente profilático. O mesmo grupo retirou doxiciclina e azitromicina do esquema por falta de ponto de corte de sensibilidade padronizado, e cefalexina por risco de reação cruzada.

Peijster AJL, van Nieuwkoop C, et al. Neth Heart J. 2025;34(Supl 1):1-13.

Na prova

A causa aqui é de evidência de segurança somada a data: o dado de reação adversa que motivou a retirada é posterior a 2020. Para identificar o recorte: enunciado que menciona Clostridioides difficile, risco de reação adversa ou 'diretriz de 2023' está no corpo europeu. Enunciado brasileiro, de consultório odontológico ou de atenção básica, com alternativas listando azitromicina e claritromicina ao lado da clindamicina, está no Quadro da diretriz brasileira — essa combinação de três macrolídeo-lincosamida na mesma lista só aparece no documento nacional.

Profilaxia antes de procedimento gastrointestinal ou geniturinário

Manter, com recomendação IIa — Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2020

O documento reconhece que as diretrizes americana e europeia deixaram de indicar profilaxia antes de intervenções nesses sítios por falta de evidência adequada, e ainda assim opta por manter a indicação, com classe IIa, para pacientes com risco elevado de endocardite grave submetidos a procedimento geniturinário ou gastrointestinal com lesão de mucosa — justificando a escolha pela gravidade do desfecho. Acrescenta que, havendo infecção instalada nesses tratos, o tratamento deve incluir antibiótico com ação contra enterococo.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – SBC, 2020, item 18.4 e Quadro 77.

Considerar, com recomendação IIb — Sociedade Europeia de Cardiologia, 2023

Depois de anos sem indicar, a diretriz de 2023 trouxe recomendação nova de classe IIb, nível C, para considerar profilaxia antibiótica sistêmica em pacientes de alto risco submetidos a procedimento diagnóstico ou terapêutico invasivo dos tratos respiratório, gastrointestinal e geniturinário, da pele e do sistema musculoesquelético. O grupo de trabalho holandês não endossou essa recomendação, por considerar a evidência insuficiente.

Diretriz de endocardite da ESC, 2023, e o endosso da NVVC (Neth Heart J, 2025).

Na prova

Nenhum dos dois lados tem evidência forte — a diferença é de como cada documento decide na ausência dela: o brasileiro ancorou na gravidade do desfecho em 2020, o europeu se reaproximou em 2023 com uma classe fraca. Para identificar o recorte: se o enunciado descreve colonoscopia com biópsia ou cistoscopia em portador de prótese valvar e as alternativas trazem 'classe IIa', é o corpo brasileiro. Se falam em 'considerar' e listam pele e sistema musculoesquelético junto com os tratos, é o corpo europeu de 2023 — a menção a procedimento cutâneo e musculoesquelético não existe no documento brasileiro.

Qual conjunto de critérios diagnósticos de 2023 está sendo cobrado

Critérios Duke-ISCVID, 2023 — três critérios maiores

Microbiológico, de imagem e cirúrgico. O critério de imagem nomeia os achados que valem: vegetação, perfuração ou aneurisma de folheto, abscesso, pseudoaneurisma, fístula intracardíaca, regurgitação nova, deiscência de prótese. O PET/CT só é maior a partir de 3 meses do implante da prótese; dentro dos 3 meses é critério menor. O critério cirúrgico, exclusivo desta versão, aceita a inspeção direta durante cirurgia cardíaca como critério maior.

Fowler VG Jr, Durack DT, Selton-Suty C, et al. Clin Infect Dis. 2023;77(4):518-526.

Critérios da diretriz europeia, 2023 — dois critérios maiores

Não tem o critério cirúrgico. O critério de imagem é mais amplo e menos específico: lesões anatômicas e metabólicas características de endocardite, valvares, perivalvares, periprotéticas ou em material estranho, detectadas por ecocardiograma, tomografia cardíaca, PET/CT com flúor-18 ou cintilografia com leucócitos marcados. Não repete a ressalva dos 3 meses para o PET/CT.

Diretriz de endocardite da ESC, 2023, conforme reproduzida e comparada no documento de endosso da NVVC (Neth Heart J, 2025).

Na prova

A causa é de desenho e finalidade: os critérios do ISCVID foram construídos para dar uma definição reprodutível em pesquisa, e por isso nomeiam achado por achado; a diretriz europeia foi construída para orientar conduta à beira do leito, e escreveu um critério de imagem guarda-chuva. Estudos de validação mostram que as duas versões ganham sensibilidade sobre os critérios de Duke modificados de 2000, e que a versão do ISCVID preserva melhor a especificidade. Para identificar o recorte: alternativa que trata inspeção cirúrgica como critério maior só existe no ISCVID; alternativa que cita cintilografia com leucócitos marcados só existe na europeia. E se o enunciado disser apenas 'critérios de Duke modificados', está falando da versão de 2000 — confira se alguma alternativa exige intervalo entre as coletas de hemocultura, exigência que só existe naquela versão.

06

Caso resolvido

Homem de 34 anos, com estenose mitral reumática conhecida desde os 19, procura a UBS com febre diária há três semanas, sudorese noturna e perda de 4 kg. Fez extração de dois molares há cerca de cinco semanas, sem profilaxia antibiótica. Ao exame: temperatura de 38,6 °C, sopro diastólico em foco mitral já conhecido e um sopro sistólico em foco mitral que não constava do último registro. Duas manchas avermelhadas e indolores nas palmas. Encaminhado ao hospital, colhem-se três conjuntos de hemocultura antes de qualquer antibiótico; os três crescem Streptococcus sanguinis. O ecocardiograma transtorácico mostra vegetação de 11 mm no folheto anterior da mitral.
critério maior microbiológico
Streptococcus sanguinis é estreptococo, e todas as espécies de estreptococo exceto S. pneumoniae e S. pyogenes são micro-organismos típicos na versão de 2023. Germe típico fecha critério maior com dois ou mais conjuntos positivos — aqui foram três. Primeiro critério maior fechado.
critério maior de imagem
Vegetação ao ecocardiograma é achado nomeado no critério maior de imagem. Segundo critério maior fechado.
soma
Dois critérios maiores fecham endocardite definida por critério clínico. Não é preciso somar os menores — mas eles existem e reforçam: predisposição (estenose mitral mais que leve), febre acima de 38,0 °C e lesões de Janeway como fenômeno vascular.
o que a extração dentária muda — e o que não muda
A extração é a porta de entrada plausível e o paciente tinha indicação classe I de profilaxia pela diretriz brasileira: valvopatia importante antes de procedimento com manipulação de tecido gengival. Mas o dado da extração não entra na conta dos critérios: nem os de Duke modificados nem os de 2023 têm critério de 'procedimento recente'. Ele explica o caso, não o diagnostica.
próximo passo
Ecocardiograma transesofágico: na diretriz europeia de 2023 ele é classe I mesmo com transtorácico positivo, fora do caso de endocardite isolada de valva nativa direita com transtorácico de boa qualidade. Ele procura abscesso perivalvar e mede melhor a vegetação — e vegetação acima de 10 mm entra na discussão de prevenção de embolia, uma das três categorias de indicação cirúrgica.
e a febre reumática
Estenose mitral reumática significa que ele deveria estar em profilaxia secundária com benzilpenicilina benzatina — com cardite e sequela estenótica, até os 40 anos no mínimo. Essa profilaxia é contínua, previne novo surto reumático e não substitui a dose única antes do dentista. São duas coisas diferentes, e a extração sem cobertura mostra que a segunda faltou.
07

Agora feche você

Mulher de 66 anos, hipertensa, submetida a troca da valva aórtica por bioprótese há 7 semanas. Vem ao pronto-socorro com febre há 10 dias, sem foco aparente, e mal-estar. Ao exame, temperatura de 38,4 °C, sem sopro novo detectável, sem estigmas periféricos. Colhem-se três conjuntos de hemocultura antes do antibiótico: dois crescem Staphylococcus epidermidis com o mesmo perfil de sensibilidade. O ecocardiograma transtorácico não mostra vegetação. Um PET/CT com flúor-18 mostra captação anormal ao redor da bioprótese.
achado 1 — o germe
Estafilococo coagulase-negativo em dois conjuntos. Fora de material protético ele seria germe não típico, e precisaria de três conjuntos para fechar critério maior. Mas há prótese valvar: na versão de 2023, na presença de material protético intracardíaco, os estafilococos coagulase-negativos entram na lista de típicos — e dois conjuntos bastam.
achado 2 — a imagem nuclear
Captação anormal no PET/CT ao redor da prótese, com 7 semanas de implante, ou seja, dentro dos 3 meses. Pela regra do ISCVID, dentro dos 3 meses a captação vale como critério menor, não maior, porque a inflamação pós-operatória ainda confunde a leitura.
achado 3 — os demais menores
Prótese valvar é predisposição, e a temperatura de 38,4 °C é febre acima de 38,0 °C. Somando com o PET/CT precoce, são três critérios menores.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Dar a primeira dose de antibiótico antes de colher hemocultura Atrai porque febre alta e paciente séptico pedem pressa, e porque o antibiótico parece o gesto responsável. O custo é caro e silencioso: a hemocultura negativa apaga o critério maior mais acessível e joga o caso no grupo de endocardite com hemocultura negativa, que passa a depender de sorologia, PCR e imagem. Em suspeita de endocardite, os três conjuntos vêm primeiro.
  2. 2Usar dois conjuntos de hemocultura para qualquer germe O número 2 grudou na memória de todo mundo, mas ele vale só para micro-organismo típico. Germe que causa endocardite ocasional ou raramente precisa de três ou mais conjuntos positivos para fechar critério maior. E a lista de típicos muda quando há material protético intracardíaco: aí entram estafilococo coagulase-negativo, Cutibacterium acnes, Candida e outros que, em valva nativa, seriam não típicos.
  3. 3Tratar ecocardiograma transtorácico negativo como exclusão Atrai porque o eco é o exame que 'vê' a vegetação, e um exame normal soa tranquilizador. Mas o transtorácico tem sensibilidade limitada, sobretudo em prótese e em abscesso perivalvar. A diretriz europeia de 2023 subiu o transesofágico para classe I mesmo com transtorácico positivo — o que diz tudo sobre o que ela pensa de um transtorácico negativo com suspeita mantida.
  4. 4Achar que 'endocardite possível' é 'endocardite descartada' Atrai porque a palavra soa como dúvida encerrada. Possível é 1 maior mais 1 menor, ou 3 menores, e é justamente a categoria que manda continuar: repetir hemocultura, escalar imagem, procurar germe fastidioso. Só 'rejeitada' encerra — e ela exige diagnóstico alternativo firme, ou ausência de recidiva apesar de menos de 4 dias de antibiótico.
  5. 5Prescrever profilaxia para marca-passo, stent, prolapso mitral sem regurgitação ou pós-revascularização Atrai porque todos esses pacientes 'têm coisa no coração' e porque o médico prefere errar para o lado de dar. A diretriz brasileira coloca todos eles em recomendação classe III — não fazer —, junto com sopro inocente, doença de Kawasaki e febre reumática sem disfunção valvar. Antibiótico sem indicação tem custo: alergia, seleção de resistência e infecção por Clostridioides difficile.
  6. 6Confundir a profilaxia da febre reumática com a profilaxia da endocardite Atrai porque as duas envolvem penicilina e o mesmo paciente valvopata. São coisas distintas: benzilpenicilina benzatina intramuscular a cada 15 ou 21 dias, por anos, previne novo surto reumático; amoxicilina 2 g em dose única uma hora antes previne bacteremia de um procedimento. E existe uma pegadinha específica com recomendação classe III: suspender a profilaxia da febre reumática depois da troca valvar por prótese.
  7. 7Somar 'extração dentária recente' como critério Atrai porque a vinheta coloca a extração ali de propósito e ela realmente explica a porta de entrada. Nem os critérios de Duke modificados nem as versões de 2023 têm critério de procedimento recente. O procedimento entra na história e na discussão de profilaxia — nunca na conta dos critérios.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é de endocardite infecciosa (febre, sopro novo, fenômenos vasculares, hemoculturas positivas para viridans após procedimento dentário). O ecocardiograma, especialmente o transesofágico, é fundamental para identificar vegetações valvares e integra os critérios de Duke. A radiografia de tórax é inespecífica. O ECG de esforço é contraindicado e sem valor diagnóstico aqui. A cintilografia miocárdica avalia isquemia/viabilidade, não vegetações. O cateterismo cardíaco não é ferramenta diagnóstica de vegetação e pode inclusive deslocar êmbolos.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite a soma sem olhar: 2 maiores, ou 1 maior mais 3 menores, ou 5 menores fecham endocardite definida; 1 maior mais 1 menor, ou 3 menores, fecham possível. Depois diga os números da hemocultura — 2 conjuntos para germe típico, 3 para não típico — e as duas doses brasileiras de dose única uma hora antes: amoxicilina 2 g no adulto sem alergia, clindamicina 600 mg no adulto alérgico à penicilina.

em 30 dias

Escreva de memória a lista classe III da diretriz brasileira, a que NÃO recebe profilaxia: prolapso mitral sem regurgitação, pós-revascularização, pós-stent, sopro inocente, marca-passo ou desfibrilador, doença de Kawasaki e febre reumática sem disfunção valvar. Em seguida, monte duas colunas comparando a régua brasileira de 2020 (valvopatia moderada ou importante e prótese) com a europeia de 2023 (só alto risco; reumática e degenerativa ficam no intermediário), e escreva a causa da diferença numa frase. Feche revisando a regra dos 3 meses do PET/CT e a duração da profilaxia secundária da febre reumática por categoria.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 41 anos chega ao pronto-socorro com febre há 25 dias, cansaço aos esforços e dois episódios de calafrio com tremor. Tem sopro cardíaco conhecido desde a adolescência e nunca fez acompanhamento. Fez tratamento de canal há um mês e meio. Está febril, taquicárdico e com um sopro que o acompanhante diz estar mais alto que o de sempre. Conduza a investigação: o que colher, em que ordem, e como classificar o caso ao fim. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Endocardite infecciosa — Preparatório para provas | OsceLabs