215 min de leitura

Clínica MédicaCardiologia

Taquiarritmias no pronto-socorro

Taquiarritmias supraventriculares e ventriculares no pronto-socorro

Instável ou estável, QRS estreito ou largo: as duas perguntas que resolvem a vinheta

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos, previamente hígida, apresenta início súbito de palpitações regulares e rápidas há 30 minutos. Está consciente, PA 118x76 mmHg, FC 190 bpm. O ECG mostra taquicardia de QRS estreito, regular, sem ondas P visíveis. Após tentativa de manobra vagal sem sucesso, qual é a droga de escolha para reversão?

02

Como esse tema cai

Taquicardia com pulso é o tema em que a banca troca conhecimento por sequência. A vinheta entrega um monitor e um paciente, e a resposta sai de duas perguntas feitas nessa ordem: o paciente está instável? E o QRS é estreito ou largo? A primeira decide se o próximo gesto é elétrico ou farmacológico; a segunda decide qual droga. Quatro caixas — estreito regular, estreito irregular, largo regular, largo irregular — cobrem quase todo o que se cobra, e errar de caixa é o que separa a alternativa certa das outras quatro.

Este capítulo trata da taquicardia com pulso. Taquicardia ventricular sem pulso e fibrilação ventricular são ritmos de parada e estão no capítulo de PCR e suporte avançado de vida; fibrilação atrial tem capítulo próprio nesta apostila, com o escore embólico, a janela de cardioversão e a escolha do anticoagulante. Aqui entram a taquicardia supraventricular por reentrada, o flutter, a taquicardia atrial, a taquicardia ventricular monomórfica e polimórfica, a torsades de pointes e a fibrilação atrial pré-excitada — esta última porque é a caixa em que bloquear o nó atrioventricular mata.

A régua brasileira tem uma particularidade que vale saber antes de estudar: na coleção de diretrizes da SOBRAC, que vai de 2002 a 2026, o documento dedicado às arritmias cardíacas em geral do adulto é justamente o mais antigo — os posteriores tratam de fibrilação atrial, de dispositivos cardíacos implantáveis, de arritmias na criança e de tempestade elétrica. Não há, portanto, uma diretriz nacional atual só sobre taquicardia supraventricular e ventricular. O que governa o pronto-socorro brasileiro é a soma de três documentos — o Protocolo AC14/AC15 do SAMU 192, publicado pelo Ministério da Saúde; a seção 5.9 da Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar da SBC de 2019, que é o texto nacional mais completo sobre o assunto; e, para a arritmia ventricular que se repete, o Posicionamento sobre Tempestade Elétrica de 2026, da SBC com a SOBRAC.

A farmácia explica boa parte das diferenças com o que se lê em livro estrangeiro. A Rename 2024 lista, no Componente Básico, amiodarona injetável, verapamil injetável, lidocaína injetável e sulfato de magnésio a 10% e 50%; não lista adenosina, diltiazem, esmolol, sotalol nem procainamida. E os antiarrítmicos de classe ia não têm comercialização no Brasil — a diretriz de 2019 diz isso com todas as letras sobre a procainamida e a ajmalina, e a tabela de Vaughan-Williams do posicionamento de 2026 traz a linha da classe ia vazia na coluna das medicações disponíveis no país. É por isso que o algoritmo brasileiro do QRS largo termina em amiodarona onde o europeu termina em procainamida.

03

O que muda decisão

Pergunta 1: o paciente está instável — e é a arritmia que o deixou assim?

Instabilidade, aqui, não é impressão: é uma lista. O protocolo AC14 do Ministério da Saúde nomeia alteração do nível de consciência, dor torácica, hipotensão ou outros sinais de choque, insuficiência cardíaca aguda, dispneia, congestão pulmonar e queda da saturação. A diretriz da SBC de 2019 usa praticamente a mesma lista em outra ordem — alteração do nível de consciência, pressão sistólica abaixo de 90 mmHg ou choque com má perfusão periférica, congestão pulmonar e dor precordial anginosa. Um item presente basta, e o próximo gesto é elétrico.

A diretriz acrescenta um filtro que a prova adora: é consenso entre especialistas que, salvo disfunção ventricular importante, só frequências acima de 150 bpm produzem sintomas de comprometimento hemodinâmico. Uma taquicardia de 115 bpm num paciente hipotenso quase nunca é a causa da hipotensão — é a resposta a ela. Daí a segunda metade da pergunta: existe relação causal entre a arritmia e os sintomas? Sepse, hemorragia digestiva, hipovolemia e dor produzem taquicardia sinusal reacional, e nesses casos tratar a arritmia é tratar o sintoma errado.

A frase que resume a seção está no texto da SBC: cabe sempre tratar o indivíduo, e não o eletrocardiograma. Taquicardia sinusal com onda P normal e frequência que varia com o estímulo não recebe cardioversão nem droga que bloqueia o nó — recebe volume, antibiótico, analgesia ou o que a causa pedir. O distrator clássico monta um paciente séptico a 130 bpm e oferece 'cardioversão elétrica sincronizada' como resposta enérgica.

Vale distinguir instabilidade de gravidade. Palpitação, tontura e dispneia leve são sintomas desconfortáveis e não são sinais de comprometimento hemodinâmico; o paciente sintomático mas estável tem tempo para o eletrocardiograma de 12 derivações, e é esse traçado — não a tira do monitor — que abre a segunda pergunta.

Instável: cardioversão sincronizada, com a carga da caixa certa

Instável é cardioversão elétrica sincronizada imediata, sob sedação, independentemente do ritmo — a diretriz brasileira dá a isso classe de recomendação I. Sedação, sim, se o paciente estiver consciente; atraso, não. A palavra que o examinador esconde é 'sincronizada': o aparelho precisa estar em modo SYNC para que o choque caia sobre o QRS e não sobre a onda T, e a maioria dos monitores sai do modo sincronizado sozinha depois de cada disparo — reativar o SYNC antes de cada nova tentativa é passo do procedimento, não detalhe.

As cargas iniciais do protocolo do Ministério da Saúde seguem a caixa do ritmo. QRS estreito e regular: 50 a 100 J, bifásico ou monofásico. QRS estreito e irregular, que na prática é fibrilação atrial: 120 a 200 J no bifásico, 200 J no monofásico. QRS largo e regular: 100 J, bifásico ou monofásico. Não revertendo, aumenta-se a carga gradativamente. A diretriz da SBC de 2019 dá, para o QRS largo instável, 100 a 200 J no monofásico ou 100 J no bifásico, com escalonamento — números vizinhos, mesma lógica.

Há um buraco no protocolo nacional que é preciso conhecer para não cair nele: a tabela do AC14 lista carga para estreito regular, estreito irregular e largo regular, e não lista carga para QRS largo irregular. A regra que preenche o vazio está no corpo da diretriz da SBC: taquicardia ventricular polimórfica deve ser sempre tratada como fibrilação ventricular, ou seja, desfibrilação — choque não sincronizado — com 200 J no bifásico ou 360 J no monofásico. O motivo é mecânico: no ritmo polimórfico o QRS muda de eixo e de morfologia a cada batimento, e o aparelho não encontra onda R constante para sincronizar. Tentar sincronizar o insincronizável trava o desfibrilador e desperdiça o único tratamento que funciona.

Duas regras de segurança fecham o bloco. A primeira: o paciente estável que recebeu um antiarrítmico até a dose máxima e não reverteu passa a ser tratado como instável — a diretriz é explícita em mandar seguir para a cardioversão em vez de empilhar a segunda droga. A segunda: com exceção da adenosina, não se administram vários antiarrítmicos em sequência, porque cada um tem potencial pró-arrítmico e todos causam hipotensão e bradicardia depois que a arritmia cede.

Painel com quatro tiras de ritmo estilizadas: taquicardia de QRS estreito regular, de QRS estreito irregular, de QRS largo regular e de QRS largo irregular com morfologia que se torce.
As quatro caixas do algoritmo. A largura do QRS separa as colunas, a regularidade separa as linhas — e cada quadrante tem carga, droga e armadilha próprias.

QRS estreito e regular: manobra vagal, adenosina, e o que a resposta ensina

QRS abaixo de 120 ms e ritmo regular, no paciente estável: a primeira tentativa é a manobra vagal. A Valsalva se faz com o paciente forçando a expiração contra a glote fechada — dorso da mão sobre a boca, nariz ocluído, mão do profissional no abdome criando resistência. A massagem do seio carotídeo se faz em decúbito dorsal com o pescoço hiperestendido, pressão firme abaixo do ângulo da mandíbula, na altura da cartilagem tireóidea, por 5 a 10 segundos; sem resposta, repete-se do outro lado depois de 2 minutos. É resposta do tipo tudo ou nada: assim que a frequência cai, interrompe-se.

As contraindicações da massagem carotídea caem em prova e são duas listas que convém não misturar. A diretriz da SBC contraindica formalmente diante de sopro carotídeo, e ainda diante de acidente vascular cerebral ou isquêmico transitório prévio (salvo imagem de carótidas sem doença aterosclerótica), infarto nos últimos 6 meses e história de arritmia ventricular grave. O protocolo do Ministério da Saúde acrescenta o recorte pragmático do pré-hospitalar: não fazer em pessoa acima de 60 anos, com sopro à ausculta, ou com possibilidade de vasculopatia. Toda massagem é feita sob monitorização eletrocardiográfica e pressórica.

Falhando a manobra, adenosina: 6 mg em bolus intravenoso rápido, seguidos de 20 mL de solução salina e elevação do membro por 10 a 20 segundos — a droga tem meia-vida abaixo de 10 segundos e sem o flush não chega ao coração antes de acabar. Não revertendo em 1 a 2 minutos, 12 mg; o protocolo do SAMU admite uma terceira dose de 12 mg. Três ajustes que rendem questão: metade da dose se o acesso for central; 3 mg de dose inicial em uso de dipiridamol ou carbamazepina e no coração transplantado; e ineficácia em quem usa metilxantinas. A diretriz manda evitar em asmáticos — broncoespasmo é efeito colateral conhecido —, e lista como contraindicações absolutas o bloqueio atrioventricular de segundo ou terceiro grau, a disfunção do nó sinusal e a fibrilação atrial pré-excitada.

O que a adenosina faz vale tanto quanto o que ela trata. A droga produz quatro respostas possíveis, e cada uma é um diagnóstico. Se a frequência cai e a onda P aparece, era taquicardia sinusal. Se o bloqueio transitório do nó revela atividade atrial rápida por trás dos QRS — ondas em serrote, ondas P atriais —, era flutter ou taquicardia atrial, e a arritmia volta quando a droga acaba. Se a taquicardia simplesmente termina, o circuito dependia do nó atrioventricular: reentrada nodal ou reentrada atrioventricular por via acessória. Se nada acontece, o diagnóstico segue aberto. Por isso a adenosina é chamada de droga diagnóstica: no pronto-socorro, a conduta imediata não depende do diagnóstico preciso, mas o traçado de 12 derivações registrado no episódio orienta o cardiologista depois.

Sobre a epidemiologia da caixa: a taquicardia de QRS estreito regular mais frequente é a por reentrada nodal, com mais de metade dos casos; vêm em seguida a por reentrada atrioventricular e a taquicardia atrial. É útil porque explica a taxa de sucesso — quanto mais o circuito depende do nó, mais a manobra vagal e a adenosina funcionam.

Depois da adenosina: verapamil, diltiazem, betabloqueador — e a trava da função ventricular

Não revertendo com manobra e adenosina, entram os demais bloqueadores do nó atrioventricular. A diretriz brasileira mantém verapamil e diltiazem como tratamento de primeira linha nesse ponto: verapamil 2,5 a 5 mg intravenoso lento, repetíveis 5 a 10 mg após 15 a 30 minutos até o total de 20 mg; diltiazem 0,25 mg/kg em 2 minutos, com 0,35 mg/kg após 15 minutos. Betabloqueadores são alternativa — metoprolol 5 mg intravenoso lento até 15 mg, propranolol 1 mg a cada 5 minutos até 5 mg —, com menos ensaios randomizados de reversão por trás. O protocolo do SAMU, que trabalha com o que a ambulância carrega, vai direto ao metoprolol 5 mg a cada 5 minutos, até 15 mg.

A trava que decide a alternativa é a função ventricular. Verapamil, diltiazem e betabloqueador são inotrópicos negativos e estão contraindicados na insuficiência cardíaca, no choque cardiogênico, na hipotensão e nos graus avançados de bloqueio atrioventricular. A diretriz manda evitar bloqueador de canal de cálcio e betabloqueador intravenosos diante de sinais clínicos de disfunção — área cardíaca aumentada, edema de membros inferiores, hepatomegalia, turgência jugular a 45 graus, história de insuficiência cardíaca. Nesse paciente, as drogas usadas são amiodarona e digoxina.

Um número da própria diretriz ajuda a calibrar expectativa: num estudo citado, a probabilidade de reversão de taquicardia supraventricular regular foi de 95% com diltiazem 0,25 mg/kg, contra 59,6% com adenosina de 6 mg e 64,91% com 12 mg. Isso não desbanca a adenosina do primeiro lugar — meia-vida de segundos e efeito que passa sozinho valem muito em quem pode ser cardiopata —, mas explica por que o bloqueador de canal de cálcio não é droga de segunda classe nesta caixa.

Magnésio, aqui, não tem papel: a diretriz registra que não há evidência consistente de benefício do magnésio nas taquicardias de QRS estreito. Guarde o magnésio para a caixa polimórfica.

QRS estreito e irregular: fibrilação atrial, flutter e a multifocal

QRS estreito e ritmo irregular é, até prova em contrário, fibrilação atrial — e a fibrilação atrial tem capítulo próprio nesta apostila, onde moram o escore de risco embólico, a janela para cardioverter e a escolha do anticoagulante. Para o algoritmo da sala de emergência bastam dois pontos: instável, cardioversão sincronizada com 120 a 200 J bifásicos; estável, controle de frequência com betabloqueador ou bloqueador de canal de cálcio intravenoso — recomendação de classe IIa e nível de evidência A na diretriz de 2019 —, respeitada a mesma trava de função ventricular da seção anterior.

O flutter atrial anda junto. A diretriz brasileira de fibrilação atrial de 2025 trata flutter e fibrilação em conjunto e não abre seção própria para o flutter típico, de modo que a regra operacional continua sendo a da diretriz de 2019: os dois compartilham o grupo de maior risco cardioembólico e a decisão se organiza pelas mesmas variáveis — tempo de arritmia, função ventricular, terapia antitrombótica prévia e presença de pré-excitação. No traçado, o flutter costuma ser regular, e é por isso que ele aparece nas duas linhas da tabela: entra na caixa 'estreito regular' e se revela quando a adenosina desmascara as ondas em serrote.

A terceira arritmia irregular de QRS estreito é a taquicardia atrial multifocal, que a diretriz lista ao lado da fibrilação e do flutter. Ela vive no paciente pneumopata descompensado e não responde a bloqueio do nó como as outras: o tratamento é o da doença de base. Não é ritmo de cardioversão.

QRS largo: assuma taquicardia ventricular

QRS igual ou maior que 120 ms muda o padrão de risco. Cerca de 80% das taquicardias de QRS largo têm origem ventricular, e em quem tem cardiopatia estrutural esse valor pode atingir 90%. A diretriz brasileira transforma isso em regra com classe de recomendação I: a taquicardia de QRS largo deve ser interpretada como taquicardia ventricular enquanto o diagnóstico não estiver esclarecido. O paciente com infarto prévio, insuficiência cardíaca ou cardiopatia chagásica e QRS largo é taquicardia ventricular até que se prove o contrário — e provar o contrário não é tarefa da sala de emergência.

Há um corolário que a banca cobra em frase invertida: a estabilidade hemodinâmica não diferencia taquicardia ventricular de supraventricular. Taquicardia ventricular monomórfica em coração razoável pode conversar, andar e manter pressão; taquicardia supraventricular a 200 bpm em coração ruim pode chocar. Concluir 'está estável, logo é supraventricular' é o erro de raciocínio mais caro do capítulo.

No instável, a conduta é a mesma das outras caixas: cardioversão elétrica sincronizada, 100 J bifásicos segundo a diretriz, com escalonamento; e se o paciente perder o pulso, o atendimento migra para o algoritmo de parada, com choque não sincronizado de alta energia. No estável e monomórfico, o Brasil usa amiodarona: 150 mg intravenosos em 10 minutos como dose de ataque, repetíveis — o protocolo do SAMU admite até o total de 450 mg —, seguidos de manutenção de 1 mg/min por 6 horas e 0,5 mg/min nas 18 horas seguintes, com teto diário de 2,2 g. Atenção à hipotensão durante a infusão, sobretudo em disfunção sistólica acentuada.

Duas regras negativas fecham a caixa, e as duas são classe III na diretriz de 2019. Verapamil não deve ser usado em taquicardia de complexo largo, a menos que haja certeza de origem supraventricular — dado num ritmo que é ventricular em 80% das vezes, verapamil é hipotensão e colapso. E adenosina não deve ser usada em taquicardia de complexo largo irregular ou polimórfica. Repare no recorte: no QRS largo monomórfico e regular de etiologia indeterminada, a mesma diretriz considera a adenosina segura e útil como diagnóstico e tratamento, com classe IIb. Regular e monomórfico, pode; irregular ou polimórfico, não.

Quando a droga falha na taquicardia de complexo largo monomórfica, a diretriz manda cardioverter — classe IIa. Não existe segunda tentativa farmacológica de rotina nesta caixa.

Polimórfica e torsades de pointes: a caixa em que o magnésio manda

Taquicardia ventricular polimórfica é a exceção que não se cardioverte: a diretriz manda tratá-la sempre como fibrilação ventricular, com desfibrilação imediata de 200 J bifásicos ou 360 J monofásicos. Não sincroniza, não escalona a partir de 100 J, não tenta droga primeiro no instável.

A torsades de pointes é o subtipo definido pela mudança cíclica e progressiva do eixo e da morfologia do QRS — o traçado que parece torcer em torno da linha de base. Costuma ser autolimitada e recorrente, e é isso que a diferencia da fibrilação ventricular. Ocorre em QT longo, congênito ou adquirido, e os fatores predisponentes são a lista de sempre: drogas que prolongam o QT, hipocalemia, hipomagnesemia, hipocalcemia e bradicardia.

No paciente instável com torsades, o tratamento é desfibrilação — a morfologia mutável impede a sincronização. No estável, a primeira linha é sulfato de magnésio intravenoso, e ele se dá mesmo com magnésio sérico normal: 1 a 2 g da solução a 50% em 5 a 20 minutos, com mais 2 g após 15 minutos se necessário, e infusão contínua de 3 a 20 mg/min em alguns casos. Repõe-se potássio mirando o limite superior da normalidade, ainda que o valor esteja normal. Suspendem-se as drogas que alongam o QT — antiarrítmicos, antibióticos, antipsicóticos, o que houver.

Não respondendo ao magnésio, sobretudo se o paciente estiver bradicárdico, entra o marca-passo transvenoso provisório com estimulação atrial ou ventricular entre 100 e 120 bpm: acelerar encurta o QT e desfaz o fenômeno R sobre T. O isoproterenol, que aumenta a frequência, serve de ponte até o marca-passo estar posicionado.

Há uma inversão que vale decorar. Diante de taquicardia ventricular polimórfica sem QT longo, a principal causa é isquemia — e aí a lógica se inverte: a diretriz registra que o magnésio não é efetivo na prevenção da polimórfica sem QT longo, ao passo que a amiodarona é, junto do betabloqueador. Com QT longo, magnésio e nada de droga que alongue mais o QT; sem QT longo, cateterismo e amiodarona. A mesma morfologia no monitor pede condutas opostas conforme o intervalo QT do traçado basal.

Fibrilação atrial pré-excitada: a caixa que mata por bloqueio do nó

QRS largo, ritmo irregular, frequência altíssima e morfologia que muda de batimento a batimento em paciente jovem: é fibrilação atrial conduzida por via acessória. O mecanismo do desastre é simples de entender e por isso é fácil de lembrar. Na pré-excitação existem duas estradas entre átrio e ventrículo — o nó atrioventricular, que segura a frequência, e a via acessória, que não segura. Bloquear o nó fecha a estrada lenta e joga toda a atividade atrial caótica pela via rápida, acelerando a resposta ventricular até a degeneração em fibrilação ventricular.

A regra brasileira é classe III, o grau mais forte de proibição: não usar agentes que bloqueiam o nó atrioventricular — adenosina, bloqueadores de canal de cálcio, betabloqueadores e digitálicos — em paciente com pré-excitação em fibrilação atrial ou flutter. A adenosina, aliás, tem a fibrilação atrial pré-excitada entre suas contraindicações absolutas, ao lado do bloqueio atrioventricular avançado e da disfunção do nó sinusal.

O tratamento de escolha é a cardioversão elétrica, estável ou não. Para reversão farmacológica e controle de frequência no paciente estável com menos de 48 horas de arritmia, a diretriz brasileira admite propafenona, amiodarona, procainamida e ibutilida — e é justamente a amiodarona dessa lista que o documento europeu do mesmo ano proíbe, o que rende a seção de divergências. Passadas as 48 horas com estabilidade, a diretriz manda consultar o especialista.

Duas pistas denunciam a caixa na vinheta: a irregularidade num QRS largo, que é rara fora daqui, e a frequência absurda — a fibrilação atrial pré-excitada costuma passar de 200 bpm, porque nada está segurando a condução. Um eletrocardiograma prévio com PR curto e onda delta fecha o raciocínio, e o desfecho depois da sala de emergência é estudo eletrofisiológico com ablação da via acessória.

Quando a arritmia volta: tempestade elétrica

Tempestade elétrica é a definição que o posicionamento brasileiro de 2026 fixou: três ou mais episódios de taquicardia ventricular sustentada, fibrilação ventricular ou choques apropriados do cardiodesfibrilador implantável em 24 horas, separados por pelo menos 5 minutos. Aparece em 4% a 40% dos portadores de cardiodesfibrilador, tem mortalidade que chega a 14% nas primeiras 48 horas e, na comparação com quem teve episódio isolado de taquicardia ou fibrilação ventricular, multiplica por 2,4 o risco de morte na internação. Na cardiopatia chagásica crônica, uma metanálise citada no documento dá incidência de 9,1% ao ano — dado que importa num país onde Chagas é causa comum de arritmia ventricular.

A frase mais útil do posicionamento é uma advertência sobre o próprio algoritmo deste capítulo: a abordagem tradicional de taquiarritmia de QRS largo orientada pelo suporte avançado de vida geralmente não é a mais adequada na tempestade elétrica. O motivo é o tônus simpático — cada choque aumenta a descarga adrenérgica, que torna o coração mais suscetível a nova arritmia, que gera novo choque. O tratamento, portanto, não é mais do mesmo: é quebrar o ciclo.

Os pilares são quatro. Betabloqueador, que é o que difere este quadro dos outros: um ensaio randomizado comparou propranolol 40 mg a cada 6 horas com metoprolol 50 mg a cada 6 horas, ambos sobre infusão de amiodarona, e ao fim de 24 horas 90% do grupo propranolol estava livre da tempestade, contra 53,3% do grupo metoprolol. Amiodarona como antiarrítmico de primeira linha, com lidocaína em segundo — a lidocaína é opção na tempestade isquêmica e tem reversão de apenas 8% a 30% fora da isquemia. Sedação, que também é medida antiadrenérgica, do ansiolítico ao propofol e à intubação nos casos refratários. E a correção do gatilho: isquemia, insuficiência cardíaca descompensada, tireotoxicose, distúrbio eletrolítico, droga pró-arrítmica.

Três exceções fecham o capítulo, e todas invertem a regra geral. Se o ritmo é polimórfico com QT longo adquirido — cerca de 7% das tempestades são polimórficas —, a amiodarona é contraindicada, porque alonga ainda mais o QT; entram magnésio, potássio e overdrive pacing. Na síndrome de Brugada e no QT curto, a primeira linha é isoproterenol, e as drogas habituais podem piorar o quadro. E no portador de cardiodesfibrilador com terapias inapropriadas, desativar o choque precede qualquer outra intervenção — se não houver programador à mão, um ímã sobre o dispositivo suspende as terapias.

04

Da porta ao destino: o algoritmo em sete passos

A sequência abaixo resolve a vinheta típica de taquicardia com pulso. Ela se bifurca duas vezes — na instabilidade e na largura do QRS — e as tabelas trazem as cargas, as doses e o que cada resposta à adenosina significa.

  1. 1Monitorize, dê oxigênio se necessário, obtenha acesso venoso e procure causa reversível (5H e 5T). Confirme que a frequência é maior que 100 bpm e que os sintomas vêm da arritmia — taquicardia sinusal reacional se trata pela causa.
  2. 2Procure instabilidade: alteração do nível de consciência, hipotensão ou choque, dor torácica anginosa, insuficiência cardíaca aguda com congestão, queda de saturação. Um item basta.
  3. 3Instável: cardioversão elétrica SINCRONIZADA imediata sob sedação, na carga da caixa (estreito regular 50–100 J; estreito irregular 120–200 J bifásico; largo regular 100 J), reativando o SYNC a cada tentativa. Ritmo polimórfico é exceção: DESFIBRILAÇÃO não sincronizada, 200 J bifásicos.
  4. 4Estável: ECG de 12 derivações. QRS < 120 ms e regular → manobra vagal (Valsalva ou massagem carotídea, respeitadas as contraindicações) → adenosina 6 mg em bolus rápido com flush de 20 mL → 12 mg → 12 mg.
  5. 5Sem reversão, com função ventricular preservada: verapamil, diltiazem ou betabloqueador intravenoso. Com disfunção ventricular ou insuficiência cardíaca: amiodarona ou digoxina. Uma droga até a dose máxima — não empilhe antiarrítmicos.
  6. 6QRS ≥ 120 ms: trate como taquicardia ventricular. Monomórfica estável → amiodarona 150 mg em 10 minutos. Polimórfica com QT longo → sulfato de magnésio, potássio, retirada das drogas que alongam o QT, overdrive pacing. Irregular e larguíssima em jovem → fibrilação atrial pré-excitada: NENHUM bloqueador do nó, cardioversão elétrica.
  7. 7Falhou a droga no QRS largo monomórfico, ou o paciente instabilizou a qualquer momento: cardioversão elétrica. Perdeu o pulso: algoritmo de parada, choque não sincronizado.

Estreito e regular

Reentrada nodal em mais da metade dos casos. Manobra vagal, adenosina 6 → 12 mg, depois verapamil/diltiazem ou betabloqueador se a função ventricular permitir. Instável: 50 a 100 J sincronizados.

Estreito e irregular

Fibrilação atrial até prova em contrário — capítulo próprio nesta apostila. Também flutter de condução variável e taquicardia atrial multifocal do pneumopata. Instável: 120 a 200 J bifásicos.

Largo e regular

Taquicardia ventricular em 80% dos casos, 90% com cardiopatia estrutural. Estável: amiodarona 150 mg em 10 min. Instável: 100 J sincronizados. Verapamil é classe III aqui.

Largo e irregular

A caixa perigosa: TV polimórfica/torsades ou fibrilação atrial pré-excitada. Polimórfica instável, desfibrilar. Torsades, magnésio. Pré-excitada, NENHUM bloqueador do nó — cardioversão elétrica.

Caixa do ritmoEnergia inicial (protocolo AC14 do MS)
QRS estreito e regular50 a 100 J (bifásico ou monofásico)
QRS estreito e irregular120 a 200 J bifásico; 200 J monofásico
QRS largo e regular100 J (bifásico ou monofásico)
QRS largo e irregular / polimórficoNão consta do protocolo do MS. Pela diretriz SBC 2019: desfibrilação NÃO sincronizada, 200 J bifásicos ou 360 J monofásicos
Sem reversãoAumentar a carga gradativamente; reativar o SYNC antes de cada novo choque sincronizado

As drogas da taquicardia com pulso (doses da diretriz SBC 2019)

DrogaQuando entraDoseQuando evitar
AdenosinaTSV estável de QRS estreito regular, após manobra vagal; e como diagnóstico no QRS largo monomórfico regular6 mg IV em bolus rápido + 20 mL de salina e elevação do membro; repetir 12 mg. Metade da dose em acesso central; 3 mg em uso de dipiridamol ou carbamazepina e no transplantadoBAV de 2º ou 3º grau, disfunção do nó sinusal, FA pré-excitada (absolutas). Evitar no asmático; ineficaz em uso de metilxantinas
Verapamil / diltiazemTSV estável refratária à adenosina ou recorrente, com função ventricular preservadaVerapamil 2,5–5 mg IV lento, repetir 5–10 mg em 15–30 min até 20 mg. Diltiazem 0,25 mg/kg em 2 min, depois 0,35 mg/kgInsuficiência cardíaca, choque cardiogênico, hipotensão, BAV avançado. Classe III em QRS largo sem certeza de origem supraventricular
Betabloqueador IVAlternativa à adenosina refratária; controle de frequência na FA/flutterMetoprolol 5 mg IV lento até 15 mg; propranolol 1 mg a cada 5 min até 5 mgMesmas contraindicações do bloqueador de cálcio; pode precipitar broncoespasmo
AmiodaronaTV monomórfica estável; TSV e FA/flutter com disfunção ventricular; primeira linha na tempestade elétricaAtaque 150 mg IV em 10–20 min, repetível; manutenção 1 mg/min por 6 h e 0,5 mg/min por 18 h. Máximo 2,2 g/diaHipotensão na infusão rápida; CONTRAINDICADA quando o QT é longo ou o ritmo é polimórfico — alonga o QT
Sulfato de magnésioTorsades de pointes / TV polimórfica com QT longo, mesmo com magnésio sérico normal1 a 2 g da solução a 50% em 5–20 min; mais 2 g após 15 min se necessárioSem evidência de benefício nas taquicardias de QRS estreito; não previne TV polimórfica SEM QT longo
LidocaínaTV monomórfica estável e tempestade elétrica isquêmica, como segunda linha1 a 1,5 mg/kg em bolus; manutenção 1–4 mg/min; máximo 3 mg/kgEfeito pró-arrítmico; reversão de apenas 8% a 30% fora do contexto isquêmico
ProcainamidaPrimeira escolha de vários algoritmos internacionais no QRS largo estável20 mg/min até reversão, hipotensão, alargamento do QRS > 50% do basal ou 17 mg/kgClasse IA não tem comercialização no Brasil — a diretriz nacional registra a ausência e coloca a amiodarona no lugar

O que a resposta à adenosina (ou à manobra vagal) diagnostica

Resposta observadaO que eraO que fazer em seguida
A frequência cai e a onda P sinusal apareceTaquicardia sinusalProcurar e tratar a causa (febre, dor, hipovolemia, sepse, anemia, tireotoxicose). Não bloquear o nó
Surge bloqueio transitório e aparece atividade atrial rápida por trás dos QRSFlutter atrial ou taquicardia atrialControle de frequência; a arritmia volta quando a droga acaba. Decidir ritmo × frequência e antitrombótico como na FA
A taquicardia terminaCircuito dependente do nó AV: reentrada nodal ou reentrada atrioventricularObservar recorrência; encaminhar para estudo eletrofisiológico e ablação conforme sintomas
Nada aconteceDiagnóstico ainda aberto — inclusive TV com QRS aparentemente estreitoRever largura e regularidade no ECG de 12 derivações; considerar bloqueador do nó com função ventricular preservada, ou cardioversão

Sincronizar é passo do procedimento: a maioria dos monitores sai do modo SYNC depois de cada disparo, e a nova tentativa exige reativá-lo.

Uma droga por vez: com exceção da adenosina, a diretriz brasileira desaconselha antiarrítmicos sucessivos — dose máxima sem reversão significa tratar o paciente como instável e cardioverter.

Sem QT longo, taquicardia ventricular polimórfica aponta para isquemia: aí o magnésio não previne recorrência, e amiodarona e betabloqueador previnem. O QT do traçado basal inverte a conduta.

O protocolo AC14 do Ministério da Saúde não lista energia para o QRS largo irregular; a lacuna se preenche pela regra da SBC de tratar ritmo polimórfico como fibrilação ventricular, com choque não sincronizado.

Adenosina e diltiazem não constam da Rename 2024; amiodarona injetável, verapamil injetável, lidocaína injetável e sulfato de magnésio constam, todos no Componente Básico.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Amiodarona na fibrilação atrial pré-excitada: permitida ou proibida?

SBC 2019 — amiodarona entre as opções farmacológicas

Na FA e no flutter com pré-excitação, o tratamento de escolha é a cardioversão elétrica; propafenona, amiodarona, procainamida e ibutilida devem ser usadas para reversão farmacológica e controle de frequência nos pacientes estáveis com menos de 48 horas de arritmia. A proibição de classe III do Quadro 5.11 alcança adenosina, bloqueadores de cálcio, betabloqueadores e digitálicos — a amiodarona não está nessa lista.

Atualização da Diretriz de RCP e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da SBC — 2019, seção 5.9.2C e Quadro 5.11.

ESC 2019 — amiodarona intravenosa é classe III na FA pré-excitada

A diretriz europeia de taquicardia supraventricular do mesmo ano incluiu a amiodarona intravenosa entre os fármacos não recomendados e potencialmente danosos na FA pré-excitada, ao lado de digoxina, betabloqueadores, diltiazem e verapamil — classe III, nível de evidência B. O racional é que a amiodarona intravenosa também deprime o nó atrioventricular e há relatos de fibrilação ventricular após sua infusão em pré-excitação.

2019 ESC Guidelines for the management of patients with supraventricular tachycardia (Eur Heart J 2020;41(5):655-720), conforme revisão de acesso aberto no Europe PMC (PMC6955050).

Na prova

As duas réguas concordam no essencial — a cardioversão elétrica é o tratamento de escolha e adenosina, bloqueador de cálcio, betabloqueador e digital são proibidos. A divergência aparece só num ponto: o paciente ESTÁVEL, pré-excitado, com menos de 48 horas de arritmia, em que se cogita reversão farmacológica. Enunciado que cita a diretriz brasileira, ou que oferece 'propafenona, amiodarona ou procainamida' como bloco, está na régua nacional; enunciado que traz a amiodarona isolada entre as opções proibidas está na europeia. Em qualquer recorte, a alternativa segura é a cardioversão elétrica — e nenhuma das duas réguas admite bloqueador do nó.

Taquicardia ventricular monomórfica estável: procainamida ou amiodarona?

Brasil — amiodarona por primeira escolha, por disponibilidade

A diretriz de 2019 registra que procainamida (Estados Unidos) e ajmalina (Europa) não estão disponíveis comercialmente no país, sendo importadas diretamente por alguns serviços, e conclui que a amiodarona intravenosa passa a ser a droga de primeira escolha para as taquiarritmias de QRS largo no nosso meio. O posicionamento de 2026 confirma o quadro ao listar a classe IA de Vaughan-Williams sem nenhuma medicação disponível no Brasil.

Atualização da Diretriz de RCP da SBC — 2019, seção 5.9.4A; Posicionamento sobre Tempestade Elétrica — 2026 (Arq Bras Cardiol 2026;123(4):e20260215), Tabela 1.

ESC 2019 — procainamida IIa, amiodarona rebaixada a IIb

Depois do PROCAMIO, a diretriz europeia manteve a procainamida intravenosa em classe IIa e rebaixou a amiodarona intravenosa de classe I para IIb no manejo agudo do QRS largo. No ensaio, com 74 randomizados e 62 analisados, o desfecho primário de evento cardíaco adverso maior em 40 minutos ocorreu em 3 de 33 (9%) com procainamida e 12 de 29 (41%) com amiodarona, e a taquicardia terminou em 40 minutos em 22 (67%) contra 11 (38%). O próprio artigo registra que o cálculo amostral pedia 302 pacientes e que o recrutamento foi interrompido pelo comitê diretor após quase 6 anos — a base do rebaixamento é um estudo pequeno e encerrado antes do previsto.

Ortiz M e cols., PROCAMIO, Eur Heart J 2017;38(17):1329-1335; 2019 ESC Guidelines for the management of patients with supraventricular tachycardia.

Na prova

O recorte se identifica pela droga que aparece nas alternativas. Prova que oferece procainamida como opção está no mundo europeu pós-PROCAMIO; prova brasileira raramente oferece, porque a droga não é comercializada no país — e quando oferece, costuma ser distrator de indisponibilidade. Enunciado ambientado em pronto-socorro do SUS, com 'a conduta possível neste serviço', pede amiodarona 150 mg em 10 minutos. Enunciado que pergunta 'qual a melhor opção farmacológica' citando diretriz europeia pede procainamida.

Qual manobra vagal, e quanto ela reverte

Documentos brasileiros — Valsalva clássica e massagem carotídea, cerca de 25%

O protocolo AC14 do Ministério da Saúde manda realizar manobra de Valsalva ou massagem do seio carotídeo e informa que revertem cerca de 25% das taquicardias supraventriculares. A diretriz da SBC de 2019 descreve as duas técnicas em detalhe e registra que a revisão Cochrane de 2015 não encontrou evidência definitiva a favor ou contra a Valsalva, apontando necessidade de padronização da técnica.

Protocolos de Suporte Avançado de Vida — SAMU 192 (Ministério da Saúde, 2016), Protocolo AC14; Atualização da Diretriz de RCP da SBC — 2019, seção 5.9.1B.

REVERT 2015 — Valsalva modificada reverte 43% contra 17% da padrão

O ensaio randomizado britânico comparou a Valsalva padrão semirreclinada com a mesma manobra seguida de decúbito dorsal e elevação passiva das pernas, com esforço padronizado de 40 mmHg por 15 segundos nos dois grupos. Em 214 pacientes por grupo, o retorno ao ritmo sinusal em 1 minuto ocorreu em 37 (17%) com a manobra padrão e 93 (43%) com a modificada, sem eventos adversos graves. O estudo excluiu fibrilação e flutter atrial.

Appelboam A e cols. REVERT trial. Lancet 2015;386(10005):1747-53.

Na prova

Alternativa que descreve a Valsalva com elevação passiva das pernas e decúbito ao final do esforço está no recorte do ensaio REVERT; alternativa que descreve a Valsalva sentada clássica ou a massagem do seio carotídeo está no recorte dos documentos brasileiros. As duas estão certas como primeira tentativa — a diferença é a taxa de sucesso que o enunciado espera. Cuidado com o número: o percentual do ensaio vale para taquicardia supraventricular, não para fibrilação ou flutter atrial, que foram excluídos do estudo.

06

Caso resolvido

Mulher, 34 anos, previamente hígida, chega ao pronto-socorro com palpitações de início súbito há 40 minutos, referindo desconforto torácico leve e tontura. Exame: PA 118×74 mmHg, FC 188 bpm, consciente e orientada, ausculta pulmonar limpa, sem turgência jugular. ECG de 12 derivações: taquicardia regular, QRS de 80 ms, sem ondas P identificáveis.
estabilidade
Nenhum critério de instabilidade: pressão preservada, consciência preservada, sem congestão pulmonar, sem dor anginosa. Palpitação e tontura são sintomas desconfortáveis, não sinais de comprometimento hemodinâmico — há tempo para o ECG de 12 derivações e para a via farmacológica.
caixa
QRS de 80 ms, portanto abaixo de 120 ms, e ritmo regular: caixa estreito-regular. A aposta estatística é taquicardia por reentrada nodal, responsável por mais da metade dessas taquicardias, seguida da reentrada por via acessória e da taquicardia atrial.
primeira tentativa
Manobra vagal sob monitorização: Valsalva com expiração forçada contra resistência. Em paciente de 34 anos sem sopro carotídeo, sem AVC prévio e sem infarto recente, a massagem do seio carotídeo também é permitida — mas o protocolo do SAMU restringe a massagem acima dos 60 anos e diante de suspeita de vasculopatia, e a Valsalva é a manobra sem essa lista.
adenosina
Não revertendo: adenosina 6 mg em bolus intravenoso rápido, imediatamente seguidos de 20 mL de solução salina e elevação do membro. Sem reversão em 1 a 2 minutos, 12 mg. Avisar a paciente sobre o desconforto torácico transitório e a sensação de morte iminente evita que ela interprete o efeito como piora.
leitura do traçado
Registrar a tira durante a injeção. Se a taquicardia terminar, o circuito dependia do nó atrioventricular. Se surgir bloqueio transitório revelando ondas em serrote, era flutter — e a conduta muda para controle de frequência e avaliação antitrombótica. Se a frequência apenas cair mostrando onda P sinusal, o ritmo era sinusal e a causa está em outro lugar.
plano B
Persistindo, e com função ventricular preservada nesta paciente jovem: verapamil 2,5 a 5 mg intravenosos lentos ou diltiazem 0,25 mg/kg — uma droga só, até a dose máxima. Sem reversão, trata-se como instável e cardioverte-se com 50 a 100 J sincronizados, sob sedação. Alta com encaminhamento a eletrofisiologista: reentrada nodal sintomática e recorrente tem ablação como tratamento definitivo.
07

Agora feche você

Homem, 22 anos, chega ao pronto-socorro com palpitações e pré-síncope iniciadas há 20 minutos durante um jogo de futebol. Exame: PA 92×58 mmHg, FC em torno de 240 bpm, pálido e sudoreico, mas orientado. Monitor e ECG: taquicardia de QRS largo, francamente IRREGULAR, com complexos que variam de largura e amplitude batimento a batimento. Um eletrocardiograma trazido pela família, feito em consulta esportiva no ano passado, mostra PR curto com empastamento inicial do QRS.
achado
QRS largo + ritmo irregular + frequência próxima de 240 bpm em jovem, com ECG prévio mostrando PR curto e onda delta: fibrilação atrial conduzida por via acessória. A largura e a irregularidade juntas praticamente excluem taquicardia supraventricular com aberrância comum e apontam para pré-excitação.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Cardioverter a taquicardia sinusal do paciente chocado A alternativa atrai porque a frequência está alta e o paciente está mal. Mas a taquicardia sinusal com onda P normal e RR que varia com o estímulo é resposta, não causa: em sepse, hemorragia e hipovolemia, choque elétrico não corrige nada e retira o único mecanismo compensatório que sobrou. A diretriz brasileira resume — tratar o indivíduo, não o eletrocardiograma. E o filtro numérico ajuda: salvo disfunção ventricular importante, é consenso que só frequências acima de 150 bpm produzem comprometimento hemodinâmico.
  2. 2Concluir que é supraventricular porque o paciente está estável A vinheta descreve QRS largo, paciente conversando e pressão normal, e a alternativa oferece verapamil 'já que é supraventricular'. A diretriz é explícita em dizer que instabilidade hemodinâmica NÃO diferencia taquicardia ventricular de supraventricular. QRS largo é taquicardia ventricular até prova em contrário — classe I —, e verapamil em complexo largo sem certeza de origem supraventricular é classe III: bloqueio do nó num ritmo ventricular produz hipotensão e colapso.
  3. 3Bloquear o nó AV na fibrilação atrial pré-excitada QRS largo, ritmo irregular, frequência acima de 200 bpm em paciente jovem: adenosina, verapamil, diltiazem, betabloqueador e digital são todos classe III. Fechar a via lenta joga a fibrilação atrial inteira pela via acessória e degenera em fibrilação ventricular. O tratamento de escolha é a cardioversão elétrica. A pista está na combinação irregularidade + QRS largo + frequência absurda, e um ECG prévio com PR curto e onda delta fecha o caso.
  4. 4Sincronizar a taquicardia ventricular polimórfica Parece coerente: paciente com pulso, logo cardioversão sincronizada. Só que na polimórfica o QRS muda de eixo e de morfologia a cada batimento e o aparelho não acha onda R para sincronizar — o choque não sai. A diretriz manda tratar a polimórfica sempre como fibrilação ventricular: desfibrilação não sincronizada, 200 J bifásicos ou 360 J monofásicos. É a única caixa em que o modo SYNC atrapalha.
  5. 5Dar amiodarona na torsades de pointes A amiodarona é a droga reflexa da taquicardia ventricular brasileira, e por isso a alternativa passa despercebida. Só que a torsades nasce de QT longo e a amiodarona alonga o QT — o posicionamento brasileiro de 2026 a contraindica formalmente na tempestade elétrica associada a QT longo ou a ritmo polimórfico, e a diretriz de 2019 já mandava evitar no QT longo as drogas da mesma família de efeito. A primeira linha é sulfato de magnésio, mesmo com magnesemia normal, mais reposição de potássio, retirada das drogas que alongam o QT e, se persistir, overdrive pacing entre 100 e 120 bpm.
  6. 6Empilhar antiarrítmicos até algum funcionar A sequência 'adenosina, depois amiodarona, depois betabloqueador' parece persistência clínica e é receita de hipotensão e bradicardia pós-reversão, além de somar efeitos pró-arrítmicos. Com exceção da adenosina, a diretriz brasileira desaconselha antiarrítmicos sucessivos: uma droga até a dose máxima e, sem reversão, o paciente passa a ser tratado como instável — cardioversão elétrica.
  7. 7Injetar adenosina sem flush, ou esquecer os ajustes de dose A meia-vida da adenosina é de menos de 10 segundos: sem os 20 mL de salina em bolus e a elevação do membro, a droga é metabolizada antes de chegar ao coração, e a 'falha da adenosina' da vinheta é falha de técnica. Os ajustes que a banca cobra: metade da dose em acesso central, 3 mg iniciais em uso de dipiridamol ou carbamazepina e no coração transplantado, ineficácia em quem usa metilxantinas, e cautela no asmático.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é de taquicardia supraventricular paroxística (QRS estreito, regular, sem ondas P), estável hemodinamicamente. Após falha da manobra vagal, a adenosina endovenosa em bolus rápido é a droga de escolha por bloquear transitoriamente o nó AV e interromper o circuito de reentrada. A amiodarona é reservada para arritmias mais complexas ou refratárias. O metoprolol pode ser usado, mas não é a primeira escolha imediata para reversão aguda. O verapamil é alternativa, porém a adenosina é preferida pela meia-vida ultracurta e segurança. A digoxina tem início de ação lento, inadequado na urgência.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória a árvore inteira: instável (um item da lista basta) contra estável; e, dentro do estável, as quatro caixas com carga, droga e proibição de cada uma. Depois escreva as três frases 'classe III' da diretriz brasileira — verapamil em QRS largo sem certeza de origem supraventricular, adenosina em complexo largo irregular ou polimórfico, e bloqueador do nó na FA pré-excitada — e, ao lado de cada uma, o desfecho que ela evita.

em 30 dias

Monte duas colunas: 'polimórfica COM QT longo' e 'polimórfica SEM QT longo'. Na primeira, magnésio mesmo com magnesemia normal, potássio, retirada das drogas que alongam o QT, overdrive pacing a 100–120 bpm, amiodarona contraindicada. Na segunda, isquemia como causa principal, cateterismo, amiodarona e betabloqueador, magnésio sem papel preventivo. Termine revisando as doses que caem literalmente: adenosina 6 → 12 mg com flush de 20 mL, amiodarona 150 mg em 10 minutos com teto de 2,2 g/dia, magnésio 1–2 g da solução a 50%, e as cargas 50–100 / 120–200 / 100 J.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Plantão de sábado à noite: o monitor da sala vermelha apita 210 bpm num homem de 58 anos com infarto prévio, que chegou queixando palpitação. O QRS é largo. Conduza — estabilidade, caixa, droga e destino, na ordem certa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Taquiarritmias supraventriculares e ventriculares no pronto-socorro – Taquiarritmias no pronto-socorro — Preparatório para provas | OsceLabs