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Clínica MédicaCardiologia

Valvopatias: estenose aórtica e insuficiência mitral

Gravidade, sintomas, complicadores e escolha da intervenção nas três valvopatias mais cobradas — com a insuficiência aórtica remetida ao capítulo próprio.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 70 anos com história de dispneia progressiva aos esforços há 6 meses. Ao exame, ausculta sopro sistólico ejetivo em foco aórtico, com irradiação para as carótidas, pulso carotídeo de baixa amplitude e lentamente ascendente (parvus et tardus). PA 118x82 mmHg, FC 72 bpm. Qual é a valvopatia mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo cobre três lesões valvares do adulto: estenose aórtica, estenose mitral e insuficiência mitral, primária e secundária. A insuficiência aórtica foi remetida ao capítulo próprio para evitar duplicação e permitir abordar separadamente as formas crônica e aguda. O eixo aqui é o algoritmo de cinco passos da atualização brasileira de 2020 — gravidade anatômica, etiologia, sintomas, complicadores e escolha da intervenção — porque é dele que sai o gabarito de quase toda vinheta nacional do tema. Entram também a anticoagulação do valvopata e as profilaxias da febre reumática e da endocardite.

Fica de fora o que já tem dono no acervo. A febre reumática aguda, com os critérios de Jones, o surto e o diagnóstico da cardite, é assunto do capítulo de cardiologia pediátrica, que se declara sobre a complicação não supurativa da faringoamigdalite e para na sequela; aqui começamos onde ele termina, na válvula já lesada do adulto. A endocardite infecciosa tem capítulo próprio, delimitado pelos critérios de Duke e pelo tratamento da infecção instalada — deste capítulo é apenas a profilaxia de quem já tem valvopatia. A diferenciação entre sopro inocente e patológico na criança é do capítulo pediátrico homônimo, que se limita a decidir quem vai ao ecocardiograma.

Também não entram a insuficiência cardíaca em si nem o edema agudo de pulmão: o capítulo de descompensação aguda cita a insuficiência mitral aguda como causa de edema em flush e a estenose aórtica crítica como uma das cinco situações em que se suspende o betabloqueador, mas trata do ventrículo, não da válvula. O capítulo de avaliação pré-operatória usa a lesão valvar como marcador de risco e motivo para adiar cirurgia eletiva, sem nunca dizer o que faz uma estenose ser importante. O de fibrilação atrial fala em fibrilação valvar para decidir anticoagulante, e o de bradiarritmias fixa o prazo de marca-passo depois de cirurgia valvar. Nenhum deles define a valvopatia — é essa definição que falta e que este capítulo entrega.

O recorte de prova é estreito e previsível: a banca dá números de ecocardiograma e pergunta se a lesão é importante; dá um assintomático e pergunta se há complicador; dá um sopro e pergunta qual válvula; dá uma prótese e pergunta qual anticoagulante e qual alvo. Em quase todas, quem sabe a tabela acerta e quem raciocina sem a tabela erra por pouco.

03

O que muda decisão

Cinco passos, e a prova pergunta sempre dentro deles

A atualização brasileira de 2020 organizou as quatro valvopatias no mesmo esqueleto, e reconhecer esse esqueleto vale mais do que decorar lesão por lesão. Passo 1: definir a gravidade anatômica, com achados de exame físico, eletrocardiograma, radiografia e ecocardiograma. Passo 2: definir a etiologia. Passo 3: procurar sintomas atribuíveis à valvopatia. Passo 4: procurar complicadores no paciente assintomático. Passo 5: escolher a intervenção. A sequência não é decorativa: só o paciente com lesão anatomicamente importante entra na conversa de intervenção, e quem é assintomático só ganha indicação se tiver complicador.

A consequência prática é dura e cai em prova. Estenose aórtica moderada, com área entre 1,0 e 1,5 cm² e gradiente médio de 25 a 39 mmHg, não tem indicação de troca valvar isolada — só opera se estiver sendo submetida a outro procedimento cardiovascular invasivo, como revascularização, cirurgia de aorta ascendente ou de outra válvula. A discreta, com área acima de 1,5 cm² e gradiente abaixo de 25 mmHg, só recebe acompanhamento. E a importante assintomática e sem complicador, até a publicação do documento, também só era operada de carona em outra cirurgia cardíaca.

A etiologia parece um passo burocrático e não é. Na estenose mitral, ela decide a técnica: a valvoplastia por cateter-balão é o tratamento de escolha na doença reumática, onde predomina a fusão comissural, e não é opção na degenerativa, porque ali não há comissura fundida para abrir. Na estenose aórtica, a etiologia reumática costuma vir em paciente jovem, que não foi contemplado nos estudos de implante transcateter.

O passo 3 tem uma armadilha de vocabulário. Sintoma tem de ser atribuível à valvopatia, e a diretriz nomeia o paciente de sintomatologia duvidosa como pseudo-assintomático — aquele que jura estar bem porque já reduziu a própria atividade. Para ele, o documento manda usar teste ergométrico ou ergoespirométrico. Enunciado que descreve idoso com estenose aórtica importante que abandonou a caminhada há dois anos e se diz assintomático está pedindo esse passo, não a alta. Por trás de tudo está a epidemiologia que faz a régua nacional divergir da americana: a febre reumática segue como principal causa de valvopatia adquirida no país, com prevalência estimada entre 1 e 7 casos por 1.000 crianças, número que pode ser até dez vezes maior no rastreamento ecocardiográfico — de 10 a 70 por 1.000, ou 1% a 7% das crianças rastreadas.

Estenose aórtica: os números que fecham lesão importante

A definição ecocardiográfica é a mais cobrada do capítulo, e vale memorizá-la nos termos do documento: área valvar aórtica menor ou igual a 1,0 cm² e/ou área indexada menor ou igual a 0,6 cm²/m², na presença de gradiente médio entre ventrículo esquerdo e aorta maior ou igual a 40 mmHg ou velocidade máxima do jato aórtico maior ou igual a 4,0 m/s. O quadro acrescenta um quinto parâmetro que quase ninguém decora: razão das velocidades de fluxo entre a via de saída do ventrículo esquerdo e a valva aórtica menor que 0,25. No estudo hemodinâmico, o corte é gradiente de pico maior ou igual a 50 mmHg.

O exame físico entra com seis achados nomeados: pulso parvus et tardus, sopro sistólico ejetivo com pico telessistólico, hipofonese de segunda e de primeira bulhas, fenômeno de Gallavardin e desdobramento paradoxal da segunda bulha ou segunda bulha única. O fenômeno de Gallavardin é a irradiação do componente de alta frequência do sopro para o foco mitral, onde imita regurgitação — e é a razão pela qual uma vinheta pode descrever sopro em ápice irradiando para axila num paciente com estenose aórtica pura. O deslocamento do pico é o sinal mais útil e o mais esquecido: estenose leve dá pico protossistólico, e quanto mais grave a obstrução, mais tarde o pico. Pico telessistólico com segunda bulha hipofonética fecha gravidade à beira do leito, e vale mais que a intensidade — sopro alto não é sinônimo de estenose grave, e no baixo débito o sopro pode até diminuir.

A etiologia se distribui em três padrões. A degenerativa associa-se à senilidade, com prevalência de 3 a 5% acima dos 75 anos e fatores de risco de aterosclerose. A reumática traz fusão comissural, acometimento mitroaórtico, faixa etária mais jovem e insuficiência aórtica associada — é a combinação mitroaórtica que denuncia a etiologia numa vinheta. A bicúspide tem prevalência de 2% e associação com aortopatia em cerca de 70% dos casos, o que obriga a olhar a aorta ascendente. No Brasil, a pirâmide etária de transição produz pico bimodal, com todas as etiologias em todas as faixas — o que impede o atalho da idade.

Os sintomas clássicos são três, com mecanismo próprio cada um. Dispneia vem da disfunção diastólica do ventrículo hipertrofiado ou da disfunção sistólica por adaptação inadequada à pós-carga. Angina vem do desbalanço entre oferta e consumo no miocárdio hipertrófico, agravada pela queda do gradiente de perfusão quando a pressão diastólica final sobe. Síncope resulta da incapacidade de aumentar o débito quando a resistência periférica cai, pode ser deflagrada por vasodilatador e, em metade dos casos, associa-se a reflexo cardioinibitório.

Baixo fluxo e baixo gradiente: onde a área engana

A situação que mais derruba candidato é a estenose aórtica com área pequena e gradiente baixo, porque os dois números discordam e o reflexo é acreditar no gradiente. A diretriz define a entidade como área menor ou igual a 1,0 cm² com gradiente médio abaixo de 40 mmHg, e a separa em dois cenários que pedem exames diferentes. Com fração de ejeção abaixo de 50%, o exame é o ecocardiograma sob estresse com dobutamina. Reserva contrátil é aumento de pelo menos 20% do volume sistólico ejetado e/ou aumento de mais de 10 mmHg no gradiente médio. Havendo reserva, quem mantém ou reduz a área no pico tem estenose importante — e o documento aceita aumento de até 0,2 cm² como manutenção. Aumento de 0,3 cm² ou mais define estenose moderada, a chamada pseudo-importante, que não se beneficia de troca valvar. Sem reserva contrátil, o caminho é o escore de cálcio por tomografia, e esses pacientes também têm benefício com a intervenção.

Com fração de ejeção preservada, acima de 50%, o rótulo é estenose aórtica paradoxal, e a confirmação exige quatro parâmetros simultâneos: área indexada menor ou igual a 0,6 cm²/m², escore de cálcio valvar elevado, pressão arterial sistólica menor ou igual a 140 mmHg e volume ejetado indexado abaixo de 35 mL/m². O detalhe da pressão arterial é o que a prova esconde: com hipertensão descontrolada, a pós-carga somada falseia a medida, e o exame precisa ser refeito com a pressão controlada antes de rotular o paciente.

Os cortes do escore de cálcio são assimétricos por sexo e valem decorar: acima de 1.300 unidades para mulheres e acima de 2.000 unidades para homens. A diferença reflete a massa valvar média menor na mulher, e é o tipo de número que a banca inverte na alternativa.

Há ainda uma quarta categoria, e o documento é honesto sobre ela. Quem preenche todos os critérios acima porém com volume ejetado indexado normal é definido como estenose normofluxo e baixo gradiente, e sobre ela a diretriz escreve que a entidade foi recentemente descrita, que as evidências são escassas e que esses pacientes aparentam ter benefício quando sintomáticos. É uma das poucas passagens em que o texto declara o próprio limite, e o quadro correspondente ainda carrega asterisco pedindo atenção a possíveis erros de aferição ecocardiográfica nesses cenários. Um documento que desconfia da própria medida é mais confiável, não menos.

O assintomático da estenose aórtica, e o teste que troca de número entre duas páginas

Sem sintoma, a indicação depende de complicador, e a diretriz nomeia dois grupos. No ecocardiograma: fração de ejeção abaixo de 50% e marcadores de mau prognóstico — área abaixo de 0,7 cm², velocidade máxima acima de 5,0 m/s e gradiente médio acima de 60 mmHg. Esses três marcadores são mais rigorosos que os cortes que definem lesão importante: descrevem a valvopatia crítica, e é sobre eles que a intervenção no assintomático se apoia, com classe IIa.

No teste ergométrico, o quadro lista quatro achados: capacidade funcional limitada; resposta pressórica inadequada; arritmias, definidas como taquicardia ventricular ou mais de quatro extrassístoles sucessivas; e infradesnivelamento de ST maior ou igual a 2 mm, horizontal ou descendente. O quadro fecha advertindo que o teste é contraindicado em sintomáticos e em quem tem disfunção ventricular — detalhe que a prova usa para montar alternativa errada, pedindo ergometria em quem já tem angina de esforço.

É aqui que o documento se contradiz, e no número que decide a cirurgia. O texto corrido da seção descreve o achado como hipotensão arterial durante esforço, entre parênteses, queda de 20 mmHg na pressão arterial sistólica. O quadro de complicadores, na página seguinte, define resposta pressórica inadequada de outro jeito: ascensão da pressão sistólica menor do que 20 mmHg ou pressão sistólica com queda maior que 10 mmHg. São dois critérios distintos no quadro, e o texto colou o número 20 do primeiro no fenômeno do segundo.

A diferença tem paciente dentro. Homem com estenose aórtica importante assintomática cuja sistólica cai de 150 para 136 mmHg no pico teve queda de 14 mmHg: preenche o quadro, que pede queda maior que 10, e não preenche o texto, que pede queda de 20. E o paciente cuja sistólica sobe de 130 para 142 mmHg, ganho de 12 mmHg, preenche o quadro pelo critério de ascensão insuficiente e sequer é descrito pelo texto, que só fala em queda. Quem estudou pela prosa devolve para casa dois candidatos a troca valvar.

À esquerda, gráfico de pressão sistólica com duas trajetórias entre repouso e pico do esforço: uma cai de 150 para 136 mmHg e outra sobe de 130 para 142 mmHg. À direita, duas caixas com réguas diferentes: a do texto corrido exige queda de 20 mmHg e não marca nenhum dos dois pacientes; a do quadro aceita ascensão menor que 20 ou queda maior que 10 e marca os dois.
Dois candidatos a troca valvar que a prosa devolve para casa: a queda de 14 mmHg e a ascensão de 12 mmHg preenchem o quadro de complicadores, e nenhuma das duas satisfaz o critério do texto corrido.

A régua a usar em prova é a do quadro: é o formato tabular, onde a diretriz consolida os critérios operacionais, e é o único que distingue os dois fenômenos, ascensão insuficiente e queda franca, que são fisiologicamente diferentes. Alternativa que fale em queda de 20 mmHg como critério único está reproduzindo o parágrafo, não a tabela.

Implante transcateter ou cirurgia: aos 70 anos, as réguas agora se aproximam

A atualização brasileira de 2020 prefere cirurgia de troca valvar aórtica abaixo de 70 anos quando não há contraindicação ou risco cirúrgico elevado, e favorece o implante transcateter em inoperabilidade, fragilidade ou risco elevado. A ESC/EACTS 2025 aproximou a régua internacional da brasileira: reduziu de 75 para 70 anos o corte etário que favorece TAVI na estenose aórtica de valva tricúspide.

Idade não decide sozinha. A escolha deve passar pelo Heart Team e integrar expectativa de vida, durabilidade esperada da prótese, risco cirúrgico, acesso transfemoral, anatomia coronariana e da raiz aórtica, valva bicúspide, necessidade de revascularização ou de outra cirurgia valvar e preferência informada do paciente. Em paciente com menos de 70 anos, baixo risco e anatomia favorável à cirurgia, a troca cirúrgica permanece a resposta mais consistente; a partir de 70 anos, TAVI ganha preferência quando o acesso transfemoral e a anatomia são adequados.

A mudança de 2025 torna obsoleta a fórmula didática de que apenas o Brasil usa 70 anos. O corte agora aparece também na diretriz europeia, mas não transforma TAVI em resposta automática: doença coronariana complexa, aortopatia, outra valvopatia que exija cirurgia, valva bicúspide desfavorável ou longa expectativa de vida podem deslocar a decisão para cirurgia.

Em prova, primeiro identifique a fonte e o ano. A tabela brasileira de 2020 continua importante para questões nacionais, mas a comparação com a coluna europeia antiga não representa mais a ESC/EACTS atual. Em cenários contemporâneos, a resposta deve explicitar decisão compartilhada no Heart Team e estratégia para toda a vida, não apenas o risco operatório imediato.

Três limites permanecem úteis: a via transfemoral é a preferida para TAVI; expectativa de vida muito limitada ou ausência de benefício clínico esperado contraindicam intervenção fútil; e a valvoplastia aórtica por balão não é tratamento definitivo no adulto, servindo como ponte ou paliação em situações selecionadas.

Insuficiência mitral primária: o complicador que muda de corte entre o texto e o quadro

Na insuficiência mitral primária crônica, o sintomático já tem indicação de intervenção — e a diretriz aceita como sintomático o paciente em classe funcional II, mesmo sem limitação das atividades habituais. O assintomático depende de complicador, e é aí que mora a contradição mais consequente do documento.

O texto corrido da seção lista os complicadores assim: fração de ejeção menor que 60%, diâmetro sistólico maior ou igual a 40 mm, pressão sistólica de artéria pulmonar de 50 mmHg ou mais em repouso ou 60 mmHg ou mais ao esforço, e fibrilação atrial de início recente. Duas páginas adiante, o quadro que esse mesmo parágrafo referencia abre com outro corte: fração de ejeção menor ou igual a 60%, ou queda da fração ao longo da evolução ainda dentro da normalidade. O quadro acrescenta volume atrial esquerdo maior ou igual a 60 mL/m² e data a fibrilação: de início recente significa menos de um ano.

A discordância é de um símbolo e cai exatamente sobre o valor mais comum de laudo. A paciente com 60% redondos é complicador pelo quadro e não é pelo texto — e complicador, aqui, é o que transforma acompanhamento em indicação cirúrgica. Não é distinção acadêmica: fração de ejeção normal-baixa nessa doença já significa disfunção, porque a regurgitação para o átrio esquerdo alivia o ventrículo e superestima a contratilidade. É por isso que o corte é 60% e não 50%.

O desempate é possível dentro do próprio documento. O quadro de complicadores traz o sinal de menor ou igual, e o quadro de valvopatia e gravidez, mais de trinta páginas adiante, repete o mesmo critério com o mesmo sinal. Duas ocorrências tabulares contra uma de prosa: em prova, use menor ou igual a 60%.

Sobre o diâmetro, há divergência real entre sociedades, impressa nas colunas do quadro de recomendações. As réguas brasileira e americana indicam intervenção no assintomático com fração de ejeção entre 30 e 60% e/ou diâmetro sistólico maior ou igual a 40 mm; a europeia, na mesma linha, escreve 45 mm. São cinco milímetros que separam operar de acompanhar, e a coluna de origem do enunciado decide qual vale. Vale ainda uma nota de técnica: a plástica é preferível à troca com anatomia favorável e centro experiente, mas na válvula reumática a diretriz lhe dá recomendação bem mais tímida, classe IIb, porque espessamento, fusão comissural e doença subvalvar reduzem a durabilidade do reparo.

Atualização indispensável: a coluna europeia reproduzida no documento brasileiro é anterior à ESC/EACTS 2025. A nova diretriz reforça a cirurgia reparadora como tratamento preferencial da insuficiência mitral primária e introduz recomendação classe I para reparo em pacientes assintomáticos selecionados que preencham critérios diagnósticos e tenham alta probabilidade de reparo durável em centro experiente. Assim, os cortes de 40 versus 45 mm devem ser tratados como comparação histórica do quadro de 2020, não como síntese da recomendação europeia vigente.

Insuficiência mitral secundária não é a mesma doença

A separação entre insuficiência mitral primária e secundária é o corte conceitual mais importante do bloco mitral, e a prova costuma testá-lo sem usar as palavras. Primária é doença da válvula: prolapso, ruptura de cordoalha, sequela reumática, endocardite. Secundária é válvula normal em ventrículo doente — a dilatação afasta os músculos papilares, traciona as cordoalhas e impede a coaptação. Na primária, corrigir a válvula corrige a doença. Na secundária, a válvula é sintoma, e é por isso que todas as recomendações cirúrgicas são fracas.

O quadro de recomendações registra essa fraqueza com franqueza incomum. Para troca ou plástica na forma isquêmica com sintomas em classe funcional III ou pior, as três réguas dão classe IIb; na forma dilatada, o mesmo. Só quando a operação vem associada a revascularização a recomendação sobe para IIa nas réguas brasileira e americana; a europeia sobe a classe I com fração de ejeção acima de 30% e mantém IIa abaixo disso.

A clipagem percutânea entra em sintoma refratário ao tratamento otimizado, com alto risco ou contraindicação à cirurgia, e a régua brasileira lhe dá IIa B, à frente da europeia, que fica em IIb C e restringe a fração de ejeção abaixo de 30%. O quadro de tipo de intervenção acrescenta os parâmetros anatômicos que o Heart Team usa: é considerada principalmente com fração de ejeção maior ou igual a 20% e diâmetro sistólico abaixo de 70 mm.

O que a prova quer da secundária é que você reconheça o antes: o tratamento é o da insuficiência cardíaca otimizado ao máximo, e alternativa que manda operar a válvula de quem tem fração de ejeção de 25% e terapia incompleta está errada por ordem, não por conteúdo. Complicador aqui é agravamento sem outra causa atribuível — pressão pulmonar subindo, diâmetros aumentando, fração de ejeção caindo, sintoma refratário.

Na insuficiência mitral secundária atrial, a ESC/EACTS 2025 acrescentou uma camada própria: cirurgia recebeu recomendação IIa e procedimentos transcateter recomendação IIb em pacientes selecionados. Antes de qualquer intervenção, permanecem obrigatórios tratamento clínico otimizado, definição do mecanismo — ventricular ou atrial — e discussão pelo Heart Team.

Estenose mitral: o escore que decide a técnica

A estenose mitral importante tem definição ecocardiográfica de três linhas: área valvar mitral abaixo de 1,5 cm², gradiente diastólico médio entre átrio e ventrículo esquerdos maior ou igual a 10 mmHg e pressão sistólica de artéria pulmonar maior ou igual a 50 mmHg em repouso ou 60 mmHg ao esforço. No estudo hemodinâmico, o gradiente de 10 mmHg pode ser espontâneo ou obtido após prova com atropina e volume — recurso reservado à discordância entre achados clínicos e ecocardiográficos.

O exame físico é o mais rico do capítulo: fácies mitral, estalido de abertura precoce, primeira e segunda bulhas hiperfonéticas, sopro diastólico em ruflar com reforço pré-sistólico se houver ritmo sinusal, e sinais de congestão. Dois detalhes decidem questão. O reforço pré-sistólico depende da contração atrial e desaparece na fibrilação — vinheta que o descreve em paciente de pulso irregular está inconsistente. E o estalido é tanto mais precoce quanto maior a pressão atrial esquerda. Na radiografia, o apelido cobrado é o sinal da bailarina, a elevação do brônquio fonte esquerdo pelo átrio aumentado, com índice cardiotorácico tipicamente normal.

A escolha da técnica passa pelo escore de Wilkins-Block, que avalia quatro parâmetros: mobilidade dos folhetos, espessamento valvar, grau de calcificação e acometimento do aparato subvalvar. Cada item recebe de um a quatro pontos, e o escore varia de 4 a 16 pontos. Escore menor ou igual a 8 torna o paciente candidato à valvoplastia mitral por cateter-balão, na ausência das três contraindicações: trombo em átrio esquerdo, insuficiência mitral moderada ou importante, e fenômeno embólico recente.

Uma sutileza da faixa intermediária vale nota. O quadro acrescenta ao escore menor ou igual a 8 a exigência de que aparelho subvalvar e calcificação estejam em 2 ou menos cada, e admite escore de 9 a 10 em gestantes ou em alto risco cirúrgico. O rodapé escreve a mesma exigência de outro jeito — pontuações menores que 3 — e, como o escore só assume valores inteiros, as duas redações são idênticas. Não há vão aqui: é o mesmo critério dito duas vezes.

Fora dessa faixa, o caminho é cirúrgico: comissurotomia ou troca por prótese. Na estenose mitral degenerativa, por calcificação do anel, a valvoplastia não se aplica e o tratamento inicial é clínico — controle de frequência com betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio ou ivabradina em ritmo sinusal, associado a diurético. O implante transcateter apoiado no anel calcificado é classe IIb, com mortalidade relatada de até 25% em 30 dias e 54% em 12 meses. O intervalo de reavaliação, por fim, separa as réguas por um fator que surpreende: na estenose mitral não importante a recomendação brasileira é a cada 1 ano, contra 3 a 5 anos da americana e 2 a 3 da europeia — numa população com doença reumática ativa, a progressão é mais rápida.

Anticoagular o valvopata: onde o anticoagulante direto é proibido

A regra-mãe cabe numa frase: o escore CHA2DS2-VASc decide a anticoagulação na fibrilação atrial, exceto na estenose mitral reumática e na prótese mecânica. Nesses dois, não se calcula escore — anticoagula-se. E, nos dois, o anticoagulante oral direto recebe classe III nas três sociedades, o que faz dessa a única linha do quadro em que as colunas coincidem numa proibição.

O alvo de razão normalizada internacional tem um valor padrão e uma lista fechada de exceções. O padrão é 2,0 a 3,0. Passa a 2,5 a 3,5 em quatro situações nomeadas: prótese mecânica em posição mitral, prótese mecânica aórtica associada à fibrilação atrial, estados de hipercoagulabilidade e evento cardioembólico ocorrido com o exame entre 2,0 e 3,0. Fora dessas quatro, inclusive na prótese mecânica aórtica isolada em ritmo sinusal, o alvo é o padrão. A varfarina se inicia com 5 mg/dia abaixo dos 65 anos e 2,5 mg/dia acima dos 65, com controle no terceiro e no quinto dias e ajuste de 10 a 15% da dose semanal.

O estudo que sustenta a proibição do anticoagulante direto na prótese mecânica é o RE-ALIGN, e vale ler os números por paciente. Foram 252 pacientes; o desfecho combinado ocorreu em 9% do braço da dabigatrana contra 5% do braço da varfarina, com razão de risco de 1,94 e intervalo de confiança de 0,64 a 5,86 — intervalo que contém o número 1, ou seja, a diferença de eficácia não alcançou significância. O que decidiu foi o sangramento: 27% contra 12%, diferença de 15 pontos, o equivalente a um sangramento a mais para cada sete pacientes tratados com o anticoagulante direto. A eficácia foi inconclusiva; a segurança, não.

O quadro tem ainda um defeito de preenchimento, e ele cai na linha mais dúbia. Na bioprótese mitral em ritmo sinusal, nos primeiros 3 a 6 meses, a coluna brasileira traz apenas classe IIb para a varfarina e apenas IIb para o ácido acetilsalicílico, sem nível de evidência — enquanto a linha seguinte, da bioprótese aórtica no mesmo período, traz IIb com nível B nas duas. São células sem nível num quadro em que todas as demais o trazem.

Três divergências entre sociedades saem desse mesmo quadro. Para varfarina associada a ácido acetilsalicílico de rotina na prótese mecânica, a régua brasileira dá classe III — não fazer — e a americana dá IIa, considera razoável; só concordam depois de evento tromboembólico com exame em faixa terapêutica, quando ambas sobem para IIa. Para anticoagulação após implante transcateter em ritmo sinusal, a brasileira dá classe III à varfarina, enquanto a americana e a europeia admitem três meses com classe IIb. E, na estenose mitral reumática assintomática com complicadores, a valvoplastia é classe I na brasileira e apenas IIb na americana, restrita à fibrilação atrial.

As duas profilaxias, e o peso que muda três vezes

O valvopata brasileiro carrega duas profilaxias que não se substituem: a da febre reumática, que impede novo surto e nova lesão, e a da endocardite, que impede a infecção da válvula já lesada. A diretriz as separa em seções distintas — mas dentro da primeira ela se contradiz num número que a prova cobra direto.

O corte de peso da benzilpenicilina G benzatina aparece três vezes na atualização de 2020, com três redações. No quadro de profilaxia primária: 600.000 unidades até 25 kg e 1.200.000 acima de 25 kg. No texto corrido da profilaxia secundária, que abre dizendo que são as mesmas doses: 600.000 para crianças com até 27 kg. E no quadro de profilaxia secundária: menos de 25 kg recebe 600.000, mais de 25 kg recebe 1.200.000. A expressão as mesmas doses é o que denuncia o problema — o texto afirma identidade com o quadro anterior e muda o número no mesmo fôlego. Pior ainda para a criança de exatamente 25 kg: o quadro da primária escreve até e acima de, e ela recebe 600.000; o da secundária escreve menos de e mais de, e ela não cabe em nenhuma das duas linhas.

Existe ainda um quarto valor, e ele é o mais usado nas provas: as diretrizes brasileiras de febre reumática de 2009, documento específico do tema, fixam o divisor em 20 kg. Não há como decidir aqui qual é o certo — são dois documentos da mesma sociedade, um específico e mais antigo, outro geral e mais recente. O que o candidato faz é ler a fonte que o enunciado invoca: pediatria e febre reumática tendem a esperar 20 kg; valvopatia do adulto, 25 kg.

O que não muda em régua nenhuma é o intervalo, e é ele que mais cai. A profilaxia secundária se faz a cada 15 dias nos dois primeiros anos após o surto e a cada 21 dias nos anos subsequentes, com a diretriz afirmando textualmente que aplicações mensais não proporcionam proteção adequada em país de alta endemicidade como o nosso. Alternativa que prescreve benzatina mensal está errada. A recorrência com o esquema correto é de 0,3% ao ano, contra 5% ao ano com a penicilina oral — número que sustenta a frase de que a via oral não é alternativa aceitável. Para alérgicos, sulfadiazina, com recorrência de 1,3% ao ano.

A duração também tem duas versões no mesmo documento, e desta vez a discordância é clínica. O quadro é escalonado: sem cardite, até os 18 anos ou 5 anos após o surto, o que for mais longo; com cardite mas sem sequela ou com sequela muito leve, excetuadas as lesões estenóticas, até os 25 anos ou 10 anos após o surto; com sequela grave ou paciente operado, até os 40 anos no mínimo. O texto corrido diz outra coisa: acometimento cardíaco, mesmo discreto, pede profilaxia de preferência por toda a vida. O adolescente com cardite e insuficiência mitral leve fica entre as duas leituras; em prova, vale o quadro.

A profilaxia de endocardite fecha o capítulo com a divergência de recorte mais consequente entre Brasil e exterior. A régua brasileira dá classe I a profilaxia para valvopatia moderada e importante, de qualquer etiologia, e para portadores de prótese, antes de procedimento odontológico com manipulação gengival ou perfuração da mucosa oral. As réguas americana e europeia restringem a um grupo bem menor — prótese valvar, endocardite prévia, cardiopatia congênita não reparada ou corrigida com material protético, e valvopatia do transplantado —, que a diretriz brasileira reserva aos procedimentos geniturinários, gastrointestinais e respiratórios, com classe IIa. Um paciente com dupla lesão mitral reumática moderada recebe amoxicilina no Brasil e não receberia pela régua americana. O documento assume a divergência e a justifica pelo experimento britânico, em que abolir a profilaxia foi seguido de aumento de casos.

O esquema é dose única uma hora antes: amoxicilina 2 g no adulto e 50 mg/kg na criança; em alérgicos, clindamicina 600 mg ou 20 mg/kg. E a parte não farmacológica, que a diretriz considera possivelmente mais eficaz que a antibiótica, tem aritmética própria: a bacteremia do dia a dia, gerada por escovação, fio dental e mastigação, foi calculada como seis vezes maior, ao longo de um ano, que a de uma extração isolada. Com as duas visitas anuais que a profilaxia pressupõe, o antibiótico cobre 2 de 8 unidades de carga bacterêmica anual — um quarto do total. Daí elevar as consultas odontológicas de duas para quatro por ano, com classe I, e contraindicar tatuagem e piercing com classe III.

04

As réguas do tema, com os vãos marcados

A vinheta de valvopatia se resolve na ordem dos cinco passos: a lesão é anatomicamente importante, qual a etiologia, há sintoma atribuível, há complicador, qual a intervenção. Os números de cada passo estão nos quadros da atualização brasileira de 2020 — e em seis pontos o número do quadro não bate com o do texto corrido do mesmo documento, ou não bate com o de outro documento brasileiro. Onde há vão, a redação do enunciado decide.

  1. 1A lesão é anatomicamente importante? Sem isso não há conversa de intervenção. Estenose aórtica moderada e estenose mitral com área acima de 1,5 cm² só operam de carona em outra cirurgia cardíaca.
  2. 2Qual a etiologia? Ela decide a técnica: fusão comissural reumática abre caminho para valvoplastia por balão; calcificação do anel na estenose mitral degenerativa fecha esse caminho.
  3. 3Há sintoma atribuível à valvopatia? Classe funcional II já conta. Na dúvida, teste ergométrico — que é contraindicado em quem já é sintomático ou tem disfunção ventricular.
  4. 4Sem sintoma, há complicador? Fração de ejeção, diâmetro sistólico, pressão pulmonar, fibrilação atrial recente, e os marcadores de valvopatia crítica na estenose aórtica.
  5. 5Qual intervenção? Idade, risco cirúrgico, anatomia e Heart Team. Abaixo de 70 anos, a régua brasileira prefere cirurgia ao implante transcateter.

Um símbolo, um paciente

O texto da insuficiência mitral primária define complicador como fração de ejeção menor que 60%; o quadro que ele referencia escreve menor ou igual a 60%. A paciente com 60% redondos é indicação cirúrgica por um e acompanhamento pelo outro.

O 20 que mudou de fenômeno

No teste ergométrico da estenose aórtica, o texto chama de hipotensão de esforço a queda de 20 mmHg. O quadro define ascensão menor que 20 mmHg ou queda maior que 10 mmHg. O texto pegou o número de um critério e colou no outro.

As mesmas doses, outro peso

O quadro da profilaxia primária divide a benzatina em 25 kg. O texto da secundária abre dizendo que são as mesmas doses e escreve 27 kg. O quadro da secundária volta a 25 kg — e, escrito como menos de e mais de, deixa a criança de 25 kg exatos sem dose.

Todas, menos a própria

O corpo do texto diz que todas as diretrizes atuais preferem o implante transcateter à cirurgia no alto risco. O rodapé do quadro diz europeias e norte-americanas. A brasileira põe cirurgia como primeira escolha abaixo dos 70 anos, então todas não inclui a que está escrevendo.

A célula sem nível

Na bioprótese mitral em ritmo sinusal, a coluna brasileira do quadro de anticoagulação traz IIb sem nível de evidência, para varfarina e para ácido acetilsalicílico. A linha seguinte, da bioprótese aórtica, traz IIb com nível B nas duas.

Vida inteira ou 25 anos

O quadro de duração suspende a profilaxia aos 25 anos na cardite com sequela leve. O parágrafo da mesma seção diz que acometimento cardíaco, mesmo discreto, pede profilaxia de preferência por toda a vida.

O que faz a lesão ser importante

ParâmetroEstenose aórticaEstenose mitralInsuficiência mitral primária
Área valvar≤ 1,0 cm² (indexada ≤ 0,6 cm²/m²)< 1,5 cm²não se aplica
Gradiente médio≥ 40 mmHg≥ 10 mmHgnão se aplica
Velocidade máxima do jato≥ 4,0 m/snão se aplicanão se aplica
Pressão pulmonarnão entra na definição≥ 50 em repouso ou ≥ 60 ao esforço≥ 50 em repouso ou ≥ 60 ao exercício (complicador)
Estudo hemodinâmicogradiente de pico ≥ 50 mmHggradiente ≥ 10 mmHg, espontâneo ou após atropina e volumeindicado na dissociação clinicoecocardiográfica
Complicador no assintomáticofração de ejeção < 50%; área < 0,7 cm²; jato > 5,0 m/s; gradiente > 60 mmHgpressão pulmonar elevada; fibrilação atrial de início recentefração de ejeção ≤ 60%; diâmetro sistólico ≥ 40 mm; volume atrial ≥ 60 mL/m²; fibrilação atrial há menos de 1 ano

Onde o mesmo número aparece diferente no mesmo documento

AssuntoO que diz o texto corridoO que diz o quadroQuem fica no vão
Fração de ejeção que é complicador na insuficiência mitral primáriamenor que 60%menor ou igual a 60%, e o quadro de gestação repete menor ou iguala paciente com 60% redondos
Resposta pressórica anormal na ergometria da estenose aórticahipotensão de esforço, queda de 20 mmHgascensão menor que 20 mmHg ou queda maior que 10 mmHgquem cai 14 mmHg e quem sobe apenas 12 mmHg
Peso que divide a dose de benzatinaaté 27 kg, dito como sendo a mesma dose do quadro anterioraté 25 kg na profilaxia primária; menos de 25 kg na secundáriaa criança entre 25 e 27 kg, e a de exatamente 25 kg na secundária
Duração da profilaxia na cardite com sequela leveprolongada, de preferência por toda a vidaaté os 25 anos ou 10 anos após o último surtoo adolescente com insuficiência mitral leve
Quem prefere o implante transcateter no alto riscotodas as diretrizes atuaisas diretrizes europeias e norte-americanasa própria régua brasileira, que prefere cirurgia abaixo dos 70 anos

Anticoagulação: as linhas em que as três colunas não coincidem

SituaçãoRégua brasileiraRégua americanaRégua europeia
Anticoagulante direto na estenose mitral reumática com fibrilação atrialIII CIII CIII C
Anticoagulante direto na prótese mecânicaIII BIII BIII B
Varfarina com ácido acetilsalicílico de rotina na prótese mecânicaIII C — não fazerIIa B — razoávelsem recomendação
Varfarina após implante transcateter em ritmo sinusalIII BIIb B, por 3 mesesIIb C, por 3 meses
Valvoplastia na estenose mitral reumática assintomática com complicadoresI CIIb C, se fibrilação atrialIIa C, se alto risco tromboembólico
Diâmetro sistólico que indica cirurgia na insuficiência mitral primária assintomática≥ 40 mm≥ 40 mm≥ 45 mm
Reavaliação da estenose mitral não importantea cada 1 anoa cada 3 a 5 anosa cada 2 a 3 anos

Os três marcadores de mau prognóstico da estenose aórtica assintomática — área abaixo de 0,7 cm², velocidade acima de 5,0 m/s e gradiente acima de 60 mmHg — são mais estritos que os cortes que definem lesão importante. Confundir os dois conjuntos é o erro mais comum do tema.

O corte de fração de ejeção na insuficiência mitral é 60%, e não 50%, porque a regurgitação para o átrio esquerdo alivia o ventrículo e superestima a contratilidade. Alternativa que use 50% aqui está trazendo o número de outra doença.

O anticoagulante oral direto é classe III nas três sociedades em apenas duas situações: estenose mitral reumática com fibrilação atrial e prótese mecânica. Fora delas, na fibrilação atrial das demais valvopatias, ele é IIa nas três.

O escore de Wilkins-Block varia de 4 a 16 porque são quatro itens de 1 a 4 pontos. Escore 0 não existe, e alternativa que ofereça faixa começando em zero está errada pela aritmética.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Corte de peso da penicilina benzatina na profilaxia da febre reumática

20 kg

A dose recomendada é de 1.200.000 unidades por via intramuscular profunda nos pacientes acima de 20 kg e 600.000 unidades naqueles abaixo de 20 kg, com intervalo a cada três semanas.

Diretrizes brasileiras para o diagnóstico, tratamento e prevenção da febre reumática. Arq Bras Cardiol. 2009;93(3 supl.4), seção de profilaxia secundária

25 kg

Benzilpenicilina G benzatina: 600.000 unidades até 25 kg, 1.200.000 unidades acima de 25 kg, intramuscular, dose única — no quadro da profilaxia primária; e, no quadro da profilaxia secundária, menos de 25 kg recebe 600.000 e mais de 25 kg recebe 1.200.000.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadros 70 e 72. Arq Bras Cardiol. 2020;115(4):720-775

27 kg

A droga de escolha é a benzilpenicilina G benzatina, nas mesmas doses de 600.000 unidades para crianças com até 27 kg e 1.200.000 unidades acima deste peso, com intervalo máximo de três semanas.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, seção 17.2, texto corrido, p. 761

Na prova

O recorte se identifica pela fonte que o enunciado invoca e pelo cenário. Questão de pediatria, de febre reumática aguda ou de saúde da criança tende a esperar 20 kg, que é o número do documento específico e o mais difundido. Questão ancorada em valvopatia do adulto ou que cite a atualização de 2020 tende a esperar 25 kg. O valor de 27 kg é do texto corrido e não aparece em nenhum quadro; se ele estiver numa alternativa, é distrator. O que não varia em fonte alguma, e portanto é o alvo seguro, é o intervalo: 15 em 15 dias nos dois primeiros anos após o surto e 21 em 21 dias depois, nunca mensal.

Diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo que indica cirurgia na insuficiência mitral primária assintomática

40 mm

Intervenção no assintomático com fração de ejeção entre 30 e 60% e/ou diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo maior ou igual a 40 mm — classe I, nível B nas colunas brasileira e americana.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadro 14, colunas SBC e AHA

45 mm

Na mesma linha do quadro, a coluna europeia registra classe I, nível B, com a ressalva de diâmetro sistólico maior ou igual a 45 mm.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadro 14, coluna ESC

Na prova

Cinco milímetros separam operar de acompanhar, e o paciente com 42 mm satisfaz duas réguas e não a terceira. Enunciado que cite diretriz brasileira, que descreva serviço público nacional ou que não cite fonte espera 40 mm. Enunciado que invoque explicitamente a sociedade europeia espera 45 mm. Repare que o critério de fração de ejeção não muda entre as colunas — só o diâmetro — então, se a vinheta trouxer fração de ejeção baixa, a divergência do diâmetro deixa de importar e a indicação é a mesma nas três.

Ácido acetilsalicílico associado à varfarina de rotina no portador de prótese mecânica

Não fazer de rotina

Varfarina associada a ácido acetilsalicílico rotineiramente em portador de prótese mecânica recebe classe III na coluna brasileira do quadro de anticoagulação.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadro 61, coluna SBC

É razoável

A mesma linha recebe classe IIa, nível B, na coluna americana do mesmo quadro.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadro 61, coluna AHA

Na prova

As duas réguas voltam a concordar numa situação específica, e é essa que o enunciado costuma descrever: depois de evento tromboembólico ocorrido com a razão normalizada internacional dentro da faixa terapêutica, associar o antiagregante é classe IIa nas duas. Vinheta de prótese mecânica sem evento prévio, em uso regular de varfarina bem controlada, que ofereça acrescentar antiagregante, está pedindo a régua brasileira, que responde não. O que nenhuma das duas admite é substituir a varfarina por anticoagulante direto: aí é classe III nas três sociedades.

Quem recebe profilaxia antibiótica de endocardite antes de procedimento odontológico

Toda valvopatia moderada ou importante

Pacientes com valvopatia moderada e importante, assim como portadores de prótese valvar, submetidos a procedimentos odontológicos de alta probabilidade de bacteremia significativa — classe I, nível C.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadro 77

Apenas o grupo de alto risco

As diretrizes americana e europeia restringem a profilaxia ao grupo de risco elevado para endocardite grave: prótese valvar cardíaca, endocardite prévia, cardiopatia congênita não reparada ou corrigida parcialmente ou com material protético, e transplantado cardíaco com valvopatia. É esse grupo que a diretriz brasileira reserva aos procedimentos geniturinários, gastrointestinais, esofágicos e do trato respiratório, com classe IIa.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadro 77 e seção 18.4, que registra a posição americana e europeia e explicita a opção brasileira por divergir

Na prova

É a divergência de recorte mais consequente do capítulo e a que mais aparece em prova nacional, porque o paciente típico brasileiro — cardiopatia reumática com dupla lesão mitral moderada, sem prótese e sem endocardite prévia — está dentro da régua nacional e fora da internacional. Prova brasileira sem citação de fonte espera profilaxia. Enunciado que invoque explicitamente a diretriz americana ou europeia espera que não haja indicação nesse mesmo paciente. O esquema, quando indicado, é dose única uma hora antes: amoxicilina 2 g no adulto, 50 mg/kg na criança.

TAVI ou cirurgia na estenose aórtica: o corte de 70 anos após a ESC/EACTS 2025

Brasil 2020: cirurgia abaixo de 70 anos

Em baixo risco e idade abaixo de 70 anos, sem indicação específica em contrário, a cirurgia é a primeira escolha e o implante transcateter deve ser evitado pela incerteza de durabilidade.

Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadro 26

ESC/EACTS 2025: TAVI favorecida a partir de 70 anos

A diretriz europeia reduziu de 75 para 70 anos o corte que favorece TAVI na estenose aórtica de valva tricúspide, sempre dentro de decisão do Heart Team e avaliação anatômica e de expectativa de vida.

2025 ESC/EACTS Guidelines for the management of valvular heart disease

Na prova

Abaixo de 70 anos, baixo risco e longa expectativa de vida favorecem cirurgia, salvo contraindicações anatômicas ou clínicas. A partir de 70 anos, TAVI transfemoral ganha preferência na valva tricúspide quando a anatomia é adequada. Em qualquer idade, Heart Team, anatomia, durabilidade, doença coronariana, aortopatia, outras cirurgias necessárias e preferência do paciente podem mudar a resposta.

06

Caso resolvido

Mulher de 58 anos, professora, comparece a consulta de rotina. Nega dispneia, dor torácica ou palpitação, e mantém caminhadas de 40 minutos cinco vezes por semana sem limitação. Ausculta com sopro holossistólico em ápice, grau 3/6, irradiando para a axila, primeira bulha hipofonética e terceira bulha presente. Sem edema, sem estase jugular, pulso regular a 72 batimentos por minuto. Eletrocardiograma em ritmo sinusal, com sobrecarga atrial esquerda. Ecocardiograma transtorácico: prolapso do folheto posterior da mitral com insuficiência mitral importante, fração de ejeção de 60%, diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo de 42 mm, volume atrial esquerdo de 58 mL/m², pressão sistólica de artéria pulmonar de 38 mmHg.
primeiro, o passo 1 e o passo 2
A lesão é anatomicamente importante — o laudo diz insuficiência mitral importante, e o exame físico concorda: sopro holossistólico em ápice com irradiação axilar, primeira bulha hipofonética pela falha de coaptação e terceira bulha por hiperfluxo diastólico através da mitral. A etiologia é prolapso do folheto posterior, ou seja, doença da própria válvula: trata-se de insuficiência mitral primária, não secundária. Esse par de decisões já elimina qualquer alternativa que proponha manejo de insuficiência cardíaca como etapa prévia.
depois, o passo 3
Ela é assintomática, e o documento aceita como sintomático até o paciente em classe funcional II. Aqui não há classe funcional II disfarçada: ela mantém 40 minutos de caminhada cinco vezes por semana sem limitação, o que afasta o pseudo-assintomático que reduziu a própria atividade. Como não há dúvida sobre sintoma, o teste ergométrico não é necessário. A decisão passa integralmente para o passo 4.
agora o passo 4, que é onde o caso é decidido
O quadro de complicadores da insuficiência mitral primária lista quatro achados ecocardiográficos e um eletrocardiográfico. Ela preenche dois. Fração de ejeção de 60% satisfaz o critério de menor ou igual a 60% do quadro — e é exatamente aqui que ela escaparia se fosse aplicado o texto corrido da mesma diretriz, que escreve menor que 60%. Diâmetro sistólico de 42 mm satisfeito o critério de 40 mm ou mais. Não preenche os outros três: volume atrial de 58 mL/m² fica abaixo dos 60 exigidos, pressão pulmonar de 38 mmHg fica abaixo de 50, e o ritmo é sinusal, sem fibrilação atrial.
confira o desempate antes de decidir
Como o documento diverge de si mesmo no corte de fração de ejeção, vale checar de que lado está o peso. O quadro de complicadores traz menor ou igual, e o quadro de valvopatia e gravidez, trinta páginas adiante, repete menor ou igual ao descrever a mesma condição. Duas ocorrências tabulares contra uma única de prosa. Some-se a isso que o diâmetro sistólico, sozinho, já é complicador pelas réguas brasileira e americana — mesmo quem descartasse a fração de ejeção chegaria à mesma indicação por esse caminho.
o passo 5, e a técnica
Insuficiência mitral primária importante em paciente assintomática com complicador tem indicação de intervenção, classe I nível B nas três réguas quando há fração de ejeção entre 30 e 60% e diâmetro sistólico aumentado. A técnica de escolha é a plástica valvar, não a troca, porque a etiologia é prolapso do folheto posterior — a lesão degenerativa mais favorável ao reparo — e a paciente tem 58 anos, idade em que evitar prótese e anticoagulação vitalícia pesa muito. O documento condiciona a plástica a centro com experiência, e é essa a única ressalva relevante aqui.
o que mudaria com a régua europeia
Se o enunciado invocasse explicitamente a sociedade europeia, o diâmetro de 42 mm deixaria de contar, porque ali o corte é 45 mm. Restaria a fração de ejeção de 60%, que se mantém como critério nas três colunas. A indicação, portanto, sobreviveria — mas por um só complicador em vez de dois. Vale reter o raciocínio: quando a vinheta traz dois complicadores independentes, a divergência entre sociedades costuma não mudar o desfecho; quando traz um só, e ele é justamente o diâmetro, muda.
07

Agora feche você

Homem de 67 anos, aposentado, procura o pronto atendimento após episódio de síncope durante caminhada. Relata que há cerca de um ano vinha sentindo aperto no peito ao subir ladeira, sintoma que atribuiu à idade e contornou reduzindo o passo. Exame físico: pressão arterial de 118 por 76 mmHg, frequência de 68 batimentos por minuto, pulso carotídeo de ascensão lenta e amplitude reduzida, sopro sistólico ejetivo em foco aórtico grau 4/6 com pico tardio, irradiando para carótidas e também audível em ápice, segunda bulha hipofonética. Eletrocardiograma com sobrecarga de câmaras esquerdas e alteração de repolarização. Ecocardiograma: área valvar aórtica de 0,8 cm², área indexada de 0,45 cm²/m², gradiente médio de 52 mmHg, velocidade máxima do jato de 4,6 m/s, fração de ejeção de 56%, valva trivalvular com calcificação difusa. Escore de risco cirúrgico estimado em 2,4%, angiotomografia com acesso femoral viável e sem doença coronariana obstrutiva.
primeiro, feche o passo 1 pelos números
Liste, um a um, os cinco parâmetros ecocardiográficos que a diretriz usa para definir estenose aórtica importante e diga quais deles este paciente preenche. Depois explique por que a área indexada é informação separada da área absoluta e em que tipo de paciente ela decide sozinha. Diga também se este é um caso de baixo fluxo e baixo gradiente e justifique com os dois números que respondem a essa pergunta.
depois traduza o exame físico
Nomeie o achado do pulso carotídeo usando o termo do documento e explique o mecanismo que o produz. Explique por que o pico do sopro é tardio e o que isso indica sobre a gravidade. Diga por que a segunda bulha está hipofonética. Por fim, explique por que o sopro também é audível em ápice sem que exista insuficiência mitral, nomeando o fenômeno.
resolva o passo 3, que é o ponto de virada
Decida se este paciente é sintomático ou assintomático e justifique com dois elementos da história. Explique o que a diretriz chama de pseudo-assintomático e por que a frase sobre reduzir o passo na ladeira importa mais do que a negativa espontânea de sintoma. Em seguida, diga se há indicação de teste ergométrico neste caso e cite a linha do quadro que responde a isso.
explique cada sintoma pelo mecanismo
O paciente teve angina e depois síncope. Explique o mecanismo da angina neste contexto sem invocar obstrução coronariana — lembre que a angiotomografia não mostrou doença obstrutiva — usando os dois componentes que a diretriz descreve. Explique o mecanismo da síncope de esforço e diga qual proporção dos casos a diretriz associa a reflexo cardioinibitório. Diga também que classe de medicamento pode deflagrar síncope neste paciente.
escolha a intervenção e defenda a idade
Diga qual é a intervenção de primeira escolha para este paciente segundo a régua brasileira e escreva a justificativa em uma frase que contenha a idade. Depois construa o argumento contrário: qual evidência a metanálise citada pelo documento oferece a favor do implante transcateter em baixo risco, e por que a diretriz brasileira não a estende a este paciente. Cite a média etária dos estudos e o segundo motivo, ligado à prótese. Diga por fim o que mudaria na sua resposta se ele tivesse 78 anos e fosse frágil.
feche com a profilaxia que ele passa a precisar
Este paciente é agora um valvopata com lesão importante. Diga se ele tem indicação de profilaxia de endocardite antes de procedimento odontológico com manipulação gengival pela régua brasileira, e se teria pela régua americana, justificando a diferença de recorte. Escreva o esquema com medicação, dose e momento da administração. Termine listando as três medidas não farmacológicas que a diretriz classifica como classe I ou classe III e explique, com a aritmética da bacteremia do dia a dia, por que o documento diz que a prevenção não farmacológica pode ser mais eficaz que o antibiótico.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de estenose aórtica não importante a que tem área pequena e gradiente baixo É o erro de maior rendimento em banca, porque parece rigor. Área menor ou igual a 1,0 cm² com gradiente médio abaixo de 40 mmHg não afasta gravidade — define a entidade de baixo fluxo e baixo gradiente, que precisa de exame adicional antes de qualquer conclusão. Com fração de ejeção reduzida, o exame é o ecocardiograma sob estresse com dobutamina; sem reserva contrátil, escore de cálcio valvar. Com fração de ejeção preservada, é a forma paradoxal, que exige quatro parâmetros simultâneos, entre eles pressão sistólica menor ou igual a 140 mmHg e volume ejetado indexado abaixo de 35 mL/m². Vinheta típica: homem de 74 anos com dispneia, área de 0,9 cm², gradiente de 32 mmHg e fração de ejeção de 38%. A alternativa que atrai é repetir o exame em um ano.
  2. 2Usar 50% como corte de fração de ejeção na insuficiência mitral O número vem por contaminação da insuficiência cardíaca e da estenose aórtica, onde 50% de fato marca disfunção. Na insuficiência mitral primária, o corte é 60%, e a razão é fisiológica: parte do volume ejetado vai para o átrio esquerdo, contra pressão baixa, o que reduz a pós-carga e superestima a fração de ejeção medida. Fração normal-baixa nessa doença já é disfunção instalada, e esperar chegar a 50% é operar tarde. O detalhe que fecha a armadilha é que o próprio documento oscila entre menor que 60% e menor ou igual a 60% — use menor ou igual, que é a forma dos quadros, inclusive o de gestação.
  3. 3Confundir os cortes que definem lesão importante com os que indicam cirurgia no assintomático São dois conjuntos de números na estenose aórtica e a prova os embaralha de propósito. Definem lesão importante: área menor ou igual a 1,0 cm², gradiente médio maior ou igual a 40 mmHg, velocidade maior ou igual a 4,0 m/s. Indicam intervenção no assintomático, como marcadores de valvopatia crítica: área abaixo de 0,7 cm², velocidade acima de 5,0 m/s, gradiente acima de 60 mmHg. Um paciente pode ter lesão importante e não ter nenhum marcador crítico — é o assintomático sem complicador, que a diretriz só opera de carona em outra cirurgia cardíaca. Alternativa que indique troca valvar para assintomático com área de 0,9 cm² e gradiente de 45 mmHg, sem mais nada, está errada.
  4. 4Prescrever benzatina mensal na profilaxia secundária A vinheta descreve adolescente com cardite reumática e a alternativa oferece penicilina benzatina uma vez por mês, que soa familiar por hábito assistencial. A diretriz é explícita em sentido contrário: aplicações mensais não proporcionam proteção adequada em país de alta endemicidade, e o esquema é a cada 15 dias nos dois primeiros anos após o surto e a cada 21 dias nos anos seguintes, com intervalo máximo de três semanas. Enquanto os pesos oscilam entre documentos, o intervalo não oscila em nenhum — é o alvo mais seguro do tema. E a via oral, com fenoximetilpenicilina, tem recorrência de 5% ao ano contra 0,3% da benzatina, razão pela qual não é alternativa aceitável.
  5. 5Indicar valvoplastia por balão na estenose mitral degenerativa O candidato memoriza o escore de Wilkins-Block, encontra uma válvula pouco espessada em idoso e indica o balão. O passo que ele pulou é a etiologia. A valvoplastia abre comissuras fundidas, e na estenose mitral degenerativa não há fusão comissural — há calcificação do anel, que pode estender-se à base dos folhetos. O tratamento inicial ali é clínico, com controle de frequência por betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio ou ivabradina em ritmo sinusal, associado a diurético; a cirurgia fica para o refratário e traz dificuldade técnica com disjunção atrioventricular, lesão de circunflexa e sangramento de parede. Repare também que a calcificação do anel é comum: cerca de 10% dos idosos a têm, e de 1 a 2% desses desenvolvem estenose — algo como 1 a 2 idosos em cada mil.
  6. 6Oferecer anticoagulante direto ao portador de estenose mitral reumática com fibrilação atrial A alternativa vem embalada em modernidade e é classe III nas três sociedades. A diretriz manda aplicar o escore CHA2DS2-VASc para decidir anticoagulação, exceto em dois grupos, e esses dois grupos são justamente onde o anticoagulante direto está proibido: estenose mitral reumática e prótese mecânica. Neles não se calcula escore nem se discute — anticoagula-se com varfarina. O alvo é 2,0 a 3,0, e sobe para 2,5 a 3,5 apenas em prótese mecânica mitral, prótese mecânica aórtica com fibrilação atrial, estado de hipercoagulabilidade e evento embólico ocorrido com o exame já em faixa terapêutica.
  7. 7Pedir teste ergométrico ao paciente que já tem sintoma O teste ergométrico é ferramenta do assintomático e do pseudo-assintomático — aquele que reduziu a própria atividade e jura estar bem. O quadro de complicadores da estenose aórtica encerra com a contraindicação explícita: em pacientes sintomáticos e naqueles com disfunção ventricular esquerda. Vinheta com angina aos esforços e estenose aórtica importante não precisa de teste para nada: já tem indicação inequívoca de intervenção pelo passo 3. Guarde junto os quatro achados que tornam o teste positivo quando ele é indicado, porque a prova troca os números: capacidade funcional limitada, ascensão da sistólica menor que 20 mmHg ou queda maior que 10 mmHg, taquicardia ventricular ou mais de quatro extrassístoles sucessivas, e infradesnivelamento de ST maior ou igual a 2 mm horizontal ou descendente.
  8. 8Tratar a insuficiência mitral secundária como se fosse doença da válvula Vinheta de miocardiopatia dilatada com fração de ejeção de 25% e regurgitação mitral importante, e a alternativa oferece plástica valvar. O erro é de ordem: a válvula é normal, quem está doente é o ventrículo, e a diretriz registra essa fraqueza dando classe IIb à cirurgia isolada nas formas isquêmica e dilatada, nas três colunas. A recomendação só sobe quando a operação vem associada a revascularização. Antes de qualquer discussão cirúrgica vem terapia otimizada da insuficiência cardíaca, e a clipagem percutânea entra em sintoma refratário com alto risco cirúrgico, considerada principalmente com fração de ejeção de pelo menos 20% e diâmetro sistólico abaixo de 70 mm.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O sopro sistólico ejetivo em foco aórtico com irradiação para carótidas associado a pulso parvus et tardus é clássico de estenose aórtica. A insuficiência mitral gera sopro holossistólico em foco mitral irradiado para axila. A insuficiência aórtica produz sopro diastólico aspirativo e pulso amplo (célere). A estenose mitral cursa com sopro diastólico em ruflar e reforço pré-sistólico. O prolapso mitral cursa com clique mesossistólico seguido de sopro tardio.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar, os cinco números que definem estenose aórtica importante e, ao lado, os três marcadores de valvopatia crítica que indicam intervenção no assintomático — e diga em uma frase por que os dois conjuntos não podem ser confundidos. Depois escreva o corte de fração de ejeção que é complicador na insuficiência mitral primária nas duas redações do documento e diga qual paciente cai no vão entre elas. Termine escrevendo os dois critérios de resposta pressórica anormal na ergometria, calculando o que acontece com um paciente cuja sistólica sobe de 130 para 142 mmHg e com outro cuja sistólica cai de 150 para 136 mmHg.

em 30 dias

Resolva quatro vinhetas em voz alta, dizendo em cada passo qual documento e qual ano está usando. Primeira: homem de 66 anos, estenose aórtica importante sintomática, baixo risco e acesso femoral viável — compare a resposta brasileira de 2020 com a ESC/EACTS 2025 e justifique por que cirurgia ainda tende a prevalecer. Segunda: mulher com insuficiência mitral primária importante assintomática e alta probabilidade de reparo durável — explique por que a diretriz europeia de 2025 não pode ser substituída pela antiga comparação de 40 versus 45 mm. Terceira: mulher de 34 anos com estenose mitral reumática e escore de Wilkins-Block favorável — escolha a técnica e liste as contraindicações a afastar. Quarta: adolescente com cardite reumática e insuficiência mitral leve — escreva o esquema de profilaxia secundária com dose, intervalo e duração pela fonte nacional. Ao final, reconstrua a anticoagulação nas situações em que as sociedades não coincidem.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você atende no ambulatório de cardiologia de um hospital secundário, com acesso a eletrocardiograma, radiografia de tórax, ecocardiograma transtorácico com Doppler, teste ergométrico e referência terciária para cirurgia cardíaca e procedimentos transcateter. Recebe uma mulher de 61 anos encaminhada da unidade básica por sopro cardíaco descoberto em consulta de rotina, sem queixa espontânea. Conduza a consulta: colha o que decide o caso — tempo de evolução do sopro, história de faringoamigdalite de repetição ou de febre reumática na infância, capacidade de esforço atual comparada à de dois anos atrás e o que ela deixou de fazer, dispneia, angina, síncope, palpitação, hemoptise, uso de medicações e antecedente de procedimento odontológico recente. Examine dirigido: caracterize o sopro por foco, tempo, formato, irradiação e pico, avalie o pulso carotídeo, procure estalido de abertura, hiperfonese ou hipofonese das bulhas, sinais de congestão e de insuficiência cardíaca direita. Depois interprete o eletrocardiograma e o ecocardiograma em voz alta seguindo os cinco passos, dizendo em cada um qual número está usando, e feche com a decisão: acompanhar com qual intervalo, ou encaminhar para qual intervenção, e qual profilaxia ela passa a precisar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Valvopatias: estenose aórtica e insuficiência mitral — Preparatório para provas | OsceLabs