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Infertilidade conjugal: seis aniversários e um exame com três réguas

Doze meses definem a condição, mas o portão do encaminhamento abre em datas diferentes — e o espermograma tem três valores de referência em vigor ao mesmo tempo no Brasil.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 34 anos, sem filhos, procura a UBS por não conseguir engravidar após 14 meses de tentativas com relações sexuais regulares e sem uso de contraceptivos. Refere ciclos menstruais regulares de 28 dias. Nega antecedentes de cirurgias pélvicas ou infecções. O parceiro tem 36 anos e é hígido. Exame ginecológico normal. Considerando a definição de infertilidade e a propedêutica inicial do casal na atenção básica, a conduta mais adequada é:

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Como esse tema cai

Este capítulo trata da investigação básica do casal infértil: a definição e seus prazos, o tripé de exames que a propedêutica exige, o calendário do ciclo em que cada exame cabe, as três réguas em vigor para o espermograma e a escada de três níveis pela qual o Sistema Único de Saúde encaminha esse casal. Ele não ensina tratamento de reprodução assistida, que aparece aqui só como destino do encaminhamento e como limite ético.

Quase todo vizinho deste capítulo já cita infertilidade como consequência e para por ali. O fator ovulatório crônico é de Síndrome dos ovários policísticos; a fisiologia da fase lútea que sustenta a dosagem de progesterona está em Fisiologia do ciclo menstrual e o eixo hipotálamo-hipófise-ovário; a investigação da paciente que não menstrua é de Amenorreia primária e secundária; a doença que mais adoece a tuba é de Doença inflamatória pélvica; a sequela tubária que vira implantação errada é de Gravidez ectópica; o rastreio que evita a cicatriz é de Cervicite por gonococo e clamídia; a lesão que a laparoscopia estadia é de Endometriose; a distorção da cavidade é de Miomatose uterina; o sangramento que denuncia patologia intracavitária é de Sangramento uterino anormal e PALM-COEIN; a dor progressiva que sugere endometriose é de Dismenorreia primária e secundária; o arrependimento pós-laqueadura tem sua lei em Esterilização cirúrgica; o dispositivo que a mulher retira quando decide engravidar é de Contracepção de longa duração; e a queda de reserva que fecha a janela é de Climatério e menopausa.

Deste capítulo saem duas devoluções concretas. Para Doença inflamatória pélvica: aquele capítulo fecha afirmando que as sequelas aumentam com o número de episódios sem trazer o número que prova a escalada, e ele existe na página 248 do Caderno de Atenção Básica nº 26 — 11%, 34% e 54% de infertilidade após um, dois, e três ou mais episódios. Para Esterilização cirúrgica: o consentimento diz que o procedimento é de difícil reversão, e o protocolo municipal de Belo Horizonte de 2022 nomeia as portas que o Sistema Único de Saúde abre depois — reversão de vasectomia entre os tratamentos de nível secundário e terciário, e salpingotripsia bilateral encaminhada a reprodução humana com corte de conduta aos 37 anos.

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O que muda decisão

Doze meses, e o que a palavra está medindo

O Caderno de Atenção Básica nº 26 define infertilidade como a ausência de gravidez em um casal após um ano ou mais de atividade sexual regular e sem uso de medidas anticonceptivas. O protocolo da Febrasgo repete o mesmo prazo e acrescenta a exceção que decide questão: a propedêutica se antecipa para seis meses em mulheres acima de 35 anos, e pode ser imediata diante de oligomenorreia, amenorreia, endometriose avançada ou qualquer condição que já limite a fertilidade por si.

Quatro rótulos convivem e não são sinônimos. Infertilidade primária é a ausência de gestação prévia; secundária, a falha que se instalou depois de uma ou mais gestações — e a gestação anterior conta mesmo que não tenha resultado em nascido vivo. Estéril é quem tem incapacidade definitiva de conceber: azoospermia, ausência de útero. Subfértil é quem tem quadro potencialmente reversível, como oligoastenospermia ou anovulação. Uma quinta entrada, o abortamento habitual, tem definição própria no documento federal — três ou mais interrupções naturais consecutivas de gestações de até 20 semanas —, e não é o mesmo problema.

Duas grandezas explicam por que doze meses e não outro número. Fecundabilidade é a probabilidade de engravidar em um ciclo menstrual, em torno de 20%; fecundidade é a de chegar a uma gestação a termo naquele ciclo, em torno de 15%. A curva acumulada que a Febrasgo publica é previsível: cerca de 50% dos casais engravidam em três meses, 60% em seis e aproximadamente 85% em um ano. O corte de doze meses não descreve doença — ele separa os 85% que já resolveram dos 15% que ainda não.

A partir daí as duas fontes brasileiras dizem coisas de tamanhos diferentes sobre esperar mais um ano. A Febrasgo afirma que, entre os que não engravidaram no primeiro ano, 92% concebem no segundo — o que levaria o acumulado de 24 meses a 98,8%. O Caderno federal, falando da infertilidade sem causa encontrada depois de propedêutica completa, registra probabilidade de concepção em torno de 3% ao mês e diz que cerca de dois terços desses casais concebem sem tratamento. As duas frases não se contradizem porque não descrevem a mesma população: uma inclui todo casal que passou de doze meses, a outra só o que chegou ao fim da investigação sem diagnóstico.

Vale fazer a conta que o Caderno não faz. A 3% ao mês, o acumulado chega a 30,6% em doze meses, 51,9% em 24 e 66,6% em 36. Os dois terços que o documento cita só se realizam se o horizonte for de três anos — a única leitura em que as duas frases da mesma página fecham entre si, e uma informação de conduta, porque define o que se promete ao casal na sala.

Seis aniversários, e o que cada um compra

Nenhum tema de ginecologia tem tantos cortes etários vindos de documentos diferentes, e todos estão em vigor ao mesmo tempo no Brasil. São seis: 30, 35, 37, 40, 45 e 50 anos. Cada um pertence a um documento distinto e muda uma coisa distinta. Confundir de qual deles a questão está falando é o erro mais frequente do tema.

Aos 30 muda o critério de encaminhamento do Caderno de Atenção Básica nº 26: abaixo dessa idade, a atenção básica só encaminha mulher com mais de dois anos de vida sexual ativa sem anticoncepção; dos 30 aos 40, com mais de um ano; acima de 40, com mais de seis meses. Aos 35 muda o gatilho da propedêutica no protocolo da Febrasgo — abaixo, investiga-se depois de um ano; acima, depois de seis meses — e muda também o destino do encaminhamento no protocolo municipal de Belo Horizonte: diante de obstrução tubária, mulher de até 35 anos vai para videolaparoscopia, e acima de 35 vai direto para reprodução humana.

Aos 37 muda o número de embriões que a Resolução CFM nº 2.320/2022 autoriza transferir: até dois com até 37 anos e até três acima disso — com embriões euploides ao diagnóstico genético limitados a dois em qualquer idade, e a idade da doadora valendo nas doações de oócitos. Aos 40 fecha a faixa de alta prioridade da fila municipal, que vai de 36 a menos de 40 anos. Aos 45 o protocolo municipal deixa de encaminhar por idade avançada. E aos 50 está o teto da mesma resolução do CFM para a candidata à gestação, com exceções mediante fundamentação técnica.

Duas consequências práticas saem dessa lista. A primeira é que um único aniversário compra meses de fila: a mulher de 29 anos e onze meses, no décimo terceiro mês de tentativa, não preenche o critério de encaminhamento do Caderno; um dia depois, preenche. O aniversário adianta o portão em onze meses — cerca de onze ciclos, que a 3% ao mês valeriam 28,5% de chance de concepção espontânea. A segunda é que o mesmo achado anatômico muda de tratamento por causa de data de nascimento: obstrução tubária aos 35 é caso cirúrgico, e aos 36 é caso de fertilização in vitro.

Há ainda um vão administrativo dentro da própria fila municipal: a alta prioridade cobre de 36 a menos de 40 anos, a baixa prioridade cobre de 42 a 45, e 40 e 41 anos não aparecem em faixa nenhuma. Não é pegadinha de prova — é lembrete de que a escada de prioridade é administrativa, não clínica, e de que quem redige a vinheta costuma cobrar o corte clínico, não o de fila.

O tripé, e o calendário que ele exige

A recomendação final do protocolo da Febrasgo cabe em uma frase: a avaliação diagnóstica deve incluir função ovulatória, estrutura e patência tubária e análise do sêmen. Três perguntas, três exames, e nenhum deles substitui outro. É por isso que a resposta a quase toda vinheta de abertura do tema é investigar o casal, e não a mulher — investigar só um dos dois é errar por omissão antes de errar por exame.

O que quase nunca se ensina junto é que os três exames não moram no mesmo calendário. FSH, LH e estradiol basais são colhidos no terceiro dia do fluxo, isoladamente; a contagem de folículos antrais, entre o segundo e o quinto dia. A histerossalpingografia é feita na fase folicular, depois do fluxo e antes da ovulação — a janela clássica é do sétimo ao décimo dia. A progesterona do meio da fase lútea é colhida cerca de sete dias antes da menstruação esperada. O hormônio antimülleriano é a exceção que simplifica: pode ser medido em qualquer dia do ciclo.

Some as janelas de um único ciclo de 28 dias e o problema aparece sozinho: as dosagens basais ocupam os dias 2 a 5, a histerossalpingografia ocupa os dias 7 a 10, a progesterona ocupa o dia 21. Um ciclo comporta os três — desde que a paciente consiga três deslocamentos e três agendamentos em três semanas, sendo um deles um exame contrastado com sala e radiologista. Perder qualquer janela empurra aquele exame para o ciclo seguinte, ou seja, um mês inteiro por agendamento perdido.

O relógio do parceiro é outro, e mais longo. O protocolo da Febrasgo determina que, diante de primeira análise seminal anormal, o teste de confirmação seja repetido idealmente em três meses, para completar o ciclo de formação dos espermatozoides — com a exceção explícita de que alteração grave, como azoospermia ou oligozoospermia severa, se repete o mais rapidamente possível. O Caderno federal, para o mesmo caso, manda repetir com intervalo de pelo menos 15 dias. Um relógio de 90 dias e um de 15 dias para o mesmo exame, no mesmo país.

Junte as duas escalas e o desenho da investigação fica óbvio. O ciclo da mulher tem 28 dias e o do homem tem cerca de 90: por isso o espermograma é o primeiro exame a pedir — é o que demora mais para dar uma segunda resposta. Adiar o espermograma para depois da propedêutica feminina não atrasa uma consulta, atrasa um trimestre.

Um espermograma, três réguas

O espermograma é o primeiro exame específico do fator masculino, e é aqui que a prova mais separa quem leu de quem decorou. Existem, em vigor no Brasil, três conjuntos de valores de referência para o mesmo exame, e eles não são versões arredondadas uns dos outros.

O Caderno de Atenção Básica nº 26 lista concentração normal acima de 20 milhões por mililitro, motilidade de 50% ou mais, vitalidade de 75% ou mais e morfologia de mais de 50% de formas normais. O protocolo da Febrasgo e o de Belo Horizonte trazem outra lista, atribuída à Organização Mundial da Saúde: concentração acima de 15 milhões, motilidade progressiva de 32%, vitalidade de 58% e morfologia acima de 4% pelo critério estrito de Kruger. A sexta edição do manual da própria Organização, de 2021, publica ainda outra: concentração 16 milhões, motilidade total 42% e progressiva 30%, vitalidade 54% e formas normais 4%.

A diferença mais escandalosa está na morfologia, e ela não é aritmética: é de método. Os 50% do Caderno vêm de uma leitura antiga de formas normais; os 4% da Organização vêm do critério estrito, em que mesmo homem fértil raramente ultrapassa 15%. Os dois números não são a mesma medida em escalas distintas — são medidas diferentes com o mesmo nome, e é por isso que o valor não pode viajar de um documento para o outro.

Dá para medir o estrago, porque a sexta edição publica a distribuição completa dos homens cujas parceiras conceberam naturalmente em até doze meses. Aplicando os cortes do Caderno a essa distribuição: o corte de concentração de 20 milhões cai perto do 8º centil, o de motilidade de 50% perto do 16º centil, e o de vitalidade de 75% perto do 42º centil — ou seja, quatro em cada dez homens de fertilidade comprovada seriam rotulados de necrozoospérmicos por esse limiar. O corte de morfologia de 50% fica acima do 97,5º centil da mesma população. Os centis são marginais e não podem ser multiplicados entre si.

Quatro réguas com os cortes de três documentos. Concentração: 15, 16 e 20 milhões por mililitro. Motilidade: 30 e 32 por cento progressiva, 42 total e 50 por cento. Vitalidade: 54, 58 e 75 por cento. Morfologia: 4 por cento nos dois documentos recentes e 50 por cento no Caderno. Os cortes do Caderno caem nos centis 8, 16, 42 e acima de 97,5.
Três documentos em vigor publicam cortes diferentes para o mesmo espermograma; o de vitalidade do Caderno cai no centil 42 da população fértil, e o de morfologia, acima do centil 97,5.

Falta a advertência que a própria sexta edição faz e que quase nenhum resumo reproduz: o quinto centil daquela distribuição não representa um limite entre homens férteis e inférteis. É o valor abaixo do qual estão 5% de uma população de referência, útil para situar um paciente, não para classificá-lo. O manual chega a dizer que limites de decisão seriam mais úteis que intervalos de referência, e que os dados disponíveis ainda não permitem estabelecê-los.

Duas notas de coleta fecham a seção, e as duas já foram enunciado. O Caderno pede abstinência sexual de três a sete dias; o manual da Organização pede no mínimo dois e no máximo sete. E o Caderno é categórico onde a prova gosta de cobrar: espermograma anormal não é conclusão, porque a produção espermática é extremamente variável no mesmo indivíduo, e nenhuma decisão se toma com um único exame.

A progesterona que a prova pede e o protocolo racionou

Documentar ovulação é a primeira perna do tripé, e a vinheta quase sempre a testa pela progesterona do meio da fase lútea. A lógica é direta: progesterona em quantidade só aparece se houve formação de corpo lúteo, e corpo lúteo só se forma depois da ruptura folicular. Um valor lúteo alto prova que ovulou naquele ciclo; um valor baixo não prova o contrário — prova que, naquele dia, não havia corpo lúteo funcionante.

Daí vem a armadilha mais cobrada do tema, e ela é de calendário. A fase lútea é a parte estável do ciclo, com cerca de 14 dias em quase todas as mulheres; o que varia entre um ciclo de 28 e um de 35 dias é a fase folicular. No ciclo de 35 dias, o 21º dia ainda é fase folicular ou periovulatória, e um resultado baixo ali não diz nada sobre ovulação. A regra que resolve todas as versões da questão não é um número de dia, é uma contagem para trás — sete dias antes da menstruação esperada, o que dá o 21º dia no ciclo de 28 e o 28º dia no ciclo de 35.

O corte também é objeto de divergência. As referências que circulam nas provas usam 3 ng/mL; o protocolo da Febrasgo pede valores maiores que 18 nmol/L, ou maiores que 5 ng/mL, e ainda recomenda no mínimo duas medidas em dias alternados. A conversão confirma que não se trata de artefato de unidade: com massa molar de 314,46, 18 nmol/L equivalem a 5,66 ng/mL, e 3 ng/mL equivalem a 9,54 nmol/L. Os dois cortes diferem por um fator de 1,67, e a faixa entre 3 e 5 ng/mL é o território em que as réguas discordam: 1,2 e 2,1 são anovulatórios pelas duas, 12 é ovulatório pelas duas, e 4 é a única zona ambígua.

E há o dado que quase ninguém carrega para a sala de prova: as duas fontes brasileiras que ensinam esse exame não o recomendam de rotina. A Febrasgo afirma, na mesma frase em que o descreve como talvez o método mais adequado, que a relação custo-benefício da dosagem seriada não é favorável à prática clínica. O protocolo municipal de Belo Horizonte é mais direto: manda que o diagnóstico de anovulação seja eminentemente clínico, baseado no histórico menstrual, e diz que excepcionalmente pode-se usar a dosagem sérica de progesterona — que, de fato, não aparece na lista de propedêutica do nível primário daquele município.

A conclusão não é que a prova esteja errada, e sim que ela cobra outra coisa. A banca testa a fisiologia — a progesterona lê o corpo lúteo, e o dia da coleta se conta da menstruação para trás. O protocolo organiza um serviço, e um serviço prefere a informação que o histórico menstrual já dá de graça. O aluno que só leu o protocolo erra a questão; o que só leu o compêndio pede na unidade básica um exame que ela não oferece.

O fator tubário, a prova de Cotte e a hidrossalpinge

O fator tuboperitoneal responde por mais de 30% das causas femininas segundo o Caderno federal, e a histerossalpingografia é o teste-padrão para permeabilidade tubária na recomendação final da Febrasgo — com a videolaparoscopia reservada para diagnosticar fatores peritoneais, avaliar endometriose avançada ou confirmar patologia tubária já suspeitada. A ordem importa: laparoscopia como primeiro exame da propedêutica é distrator clássico, não conduta.

O exame tem dois achados que a vinheta usa. O primeiro é a prova de Cotte, que é positiva quando o contraste extravasa livremente para a cavidade peritoneal, provando patência; prova de Cotte negativa significa ausência de extravasamento, isto é, obstrução. O segundo é a dilatação das porções distais das tubas, que caracteriza hidrossalpinge. Quando os dois aparecem juntos e de forma bilateral, o diagnóstico é obstrução tubária distal bilateral com hidrossalpinge, e a paciente não é candidata a tentativas espontâneas nem a repetição imediata do exame.

A conduta que a questão cobra tem duas camadas. A camada clínica é que a hidrossalpinge não se resolve indo direto para fertilização in vitro: o líquido tubário reflui para a cavidade e reduz a taxa de implantação, e por isso a tuba comprometida é abordada — salpingectomia ou oclusão tubária proximal — antes do ciclo de fertilização. A camada administrativa é a do protocolo municipal: obstrução tubária em mulher de até 35 anos vai para videolaparoscopia com autorização de internação hospitalar; acima de 35, vai direto para reprodução humana.

Há um caso vizinho com regra própria: a salpingotripsia bilateral — a laqueadura prévia, com arrependimento posterior. O mesmo protocolo municipal manda solicitar espermograma e histerossalpingografia e encaminhar para reprodução humana quando a mulher tem até 37 anos, e solicitar apenas o espermograma quando tem mais de 37. É um detalhe que interessa a quem faz aconselhamento de esterilização: o caminho de volta que o Sistema Único de Saúde oferece à mulher laqueada não é a recanalização, é a fertilização in vitro; e ao homem vasectomizado o mesmo protocolo oferece reversão de vasectomia, listada entre os tratamentos do nível secundário e do terciário.

Para dimensionar o risco tubário que se está prevenindo, o Caderno de Atenção Básica nº 26 publica na página 248 a escalada que quase nenhum texto sobre doença inflamatória pélvica reproduz: após um, dois, e três ou mais episódios, a proporção de mulheres acometidas por infertilidade é de 11%, 34% e 54%. O segundo episódio é o caro — triplica o risco, com 3,09 vezes o valor do primeiro; o terceiro multiplica por mais 1,59, somando 4,91 vezes entre um episódio e três. É o número que justifica tratar doença inflamatória pélvica com limiar diagnóstico baixo.

Três degraus: quem faz o quê, e quem não passa

A assistência à infertilidade no Sistema Único de Saúde é hierarquizada em três níveis, e o protocolo municipal de Belo Horizonte descreve essa hierarquia atribuindo-a expressamente à Portaria nº 426/GM: atenção primária nos centros de saúde, média complexidade nos ambulatórios de infertilidade, alta complexidade em serviço de referência — que naquele município é o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, por convênio, e que é também referência estadual.

O nível primário faz consulta ginecológica com citopatológico em dia, espermograma, ultrassonografia transvaginal, FSH e LH no terceiro dia do ciclo para toda paciente acima de 35 anos, prolactina, TSH e um bloco de sorologias — toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, anti-HIV, HBsAg, anti-HCV, HTLV e VDRL. A terapêutica desse nível é inteira de orientação: hábitos de vida, período fértil, peso, tabagismo, e relatório do médico assistente liberando a gravidez quando há comorbidade.

O nível secundário oferece indução de ovulação com monitorização ultrassonográfica, inseminação intrauterina homóloga e heteróloga, propedêutica tubária com histerossalpingografia, e a urologia que corrige varicocele e reverte vasectomia. O nível terciário acrescenta fertilização in vitro convencional e com injeção intracitoplasmática de espermatozoide, videolaparoscopia, video-histeroscopia cirúrgica, ovodoação, cessão temporária de útero e congelamento de embriões — com o congelamento de óvulos restrito a casos oncológicos.

A escada desce em complexidade de decisão e sobe em burocracia de acesso, e o protocolo diz isso sem eufemismo. Para subir do primeiro para o segundo degrau, o casal já deve ter feito toda a propedêutica básica; para subir do segundo para o terceiro, já deve ter feito a cirurgia indicada e os tratamentos menos complexos. E há uma lista de situações que não se encaminham enquanto não resolvidas: mais de 45 anos, mais de três cesarianas prévias, comorbidades de alto risco gestacional, distúrbios psiquiátricos que comprometam o desempenho domiciliar, relacionamento conjugal instável e condições socioeconômicas precárias.

O mesmo documento lista os três erros de encaminhamento que mais recebe: casal encaminhado sem nenhuma propedêutica, nem mesmo o exame ginecológico de rotina; casal com contraindicação absoluta de gravidez, que deveria ter sido acolhido e orientado na unidade; e casal empurrado do segundo para o terceiro nível sem o que cabia ao segundo. O Caderno federal já avisava por que essa escada aperta: existem poucos serviços públicos especializados em reprodução humana assistida, e a maioria está concentrada nas regiões Sudeste e Sul.

O que não se pede — e por quê

Metade das alternativas erradas do tema é um exame real, existente e disponível, que simplesmente não pertence à propedêutica básica. A Febrasgo é explícita item a item, e vale guardar a razão de cada exclusão, porque é a razão que a questão testa.

A curva de temperatura corporal basal não é recomendada: aproximadamente 20% dos ciclos ovulatórios ocorrem sem registrar curva bifásica, o gráfico é difícil de padronizar, o momento que ele aponta não corresponde ao pico de LH, e o método gera estresse emocional que afeta o comportamento sexual do casal. A análise do muco cervical pelo escore de Insler tem correlação difícil com ciclos ovulatórios e também não é recomendada. O teste pós-coito, de Sims-Huhner, é controverso e não utilizado.

A biópsia de endométrio e a ultrassonografia seriada para documentar ovulação não são usadas de rotina por baixa correlação com prognóstico gestacional. A histeroscopia não deve ser oferecida como parte da investigação inicial — é método de confirmação de achados feitos por outros métodos, e via terapêutica. A pesquisa de anticorpos antiespermatozoide não deve ser oferecida, porque não há tratamento eficaz que a decisão possa acionar. A fragmentação de DNA espermático tem ponto de corte definido — valores iguais ou acima de 36% no teste de Tunel indicam anormalidade —, mas não está indicada de rotina porque não modifica o tratamento do casal.

No homem, a sequência é igualmente rígida. Espermograma primeiro, sempre. Cariótipo com pesquisa de microdeleções do cromossomo Y, biópsia testicular, ultrassonografia transretal de próstata e vesícula seminal, ultrassonografia de bolsa testicular, espermocultura com antibiograma e avaliação hormonal com FSH e testosterona vêm depois, e o Caderno federal os coloca fora do âmbito da atenção básica. Vinheta que oferece cariótipo ou biópsia testicular como exame inicial do homem hígido está oferecendo o quarto passo como se fosse o primeiro.

No lado feminino, os testes de reserva ovariana têm uso definido e limitado. O hormônio antimülleriano é a melhor medida disponível da reserva e pode ser dosado em qualquer dia do ciclo; as faixas do protocolo são baixa resposta abaixo de 0,5 a 1,0 ng/mL, normal entre 1,0 e 2,8 e risco de hiper-resposta acima de 2,8. A contagem de folículos antrais classifica baixa resposta abaixo de quatro folículos de 2 a 11 mm e hiper-resposta acima de dezesseis. FSH ideal abaixo de 8 mUI/mL, mau prognóstico acima de 15. São preditores de resposta ao estímulo, não testes diagnósticos — e o próprio protocolo lembra que a idade permanece o parâmetro isolado mais correlacionado à chance de gestação.

Quantos são, e por que a conta muda de tamanho

A prevalência da infertilidade conjugal aparece em duas faixas nos documentos brasileiros, e elas quase não se encostam. O Caderno de Atenção Básica nº 26 diz que a Organização Mundial da Saúde e diversas sociedades científicas estimam que 8 a 15% dos casais em idade reprodutiva tenham algum problema de infertilidade. O protocolo da Febrasgo abre afirmando que a condição está presente em 15% a 20% dos casais, e o protocolo municipal de Belo Horizonte repete essa segunda faixa palavra por palavra.

A repetição não é coincidência: a lista de referências do protocolo municipal tem quatro itens, e os quatro são documentos da Febrasgo. O município herdou a faixa da sociedade de especialidade junto com o resto do conteúdo clínico, ainda que a arquitetura da sua rede venha de portaria federal. São duas linhagens documentais, não duas medições do mesmo objeto.

O tamanho da divergência fica visível quando se aplica cada faixa a um denominador conhecido. O Censo de 2022 contou 54.263.253 mulheres de 15 a 49 anos no Brasil. Contando um casal por mulher nessa faixa — um teto do universo de casais, não uma medida dele —, a faixa federal cobre de 4,34 a 8,14 milhões de pessoas, com razão de 1,88 vez entre os extremos da mesma frase. Do piso federal ao teto da sociedade vai-se de 4,34 a 10,85 milhões: 6,51 milhões de pessoas de diferença, decididas pela escolha do documento.

A distribuição das causas tem armadilha própria. A Febrasgo estima 35% de fator feminino, 30% de masculino, 20% de ambos e 15% sem diagnóstico. O Caderno federal traz duas frases que parecem brigar: cita levantamento de Porto Alegre de 1991 com 66,6% de causas femininas e 18,3% de masculinas, e logo adiante afirma que o fator masculino pode estar envolvido em 30 a 50% dos casos. Não há contradição: 18,3% é fator masculino isolado numa série antiga de serviço de referência, e 30 a 50% é fator masculino envolvido, isolado ou em associação. Pela conta da própria Febrasgo, 30% isolado mais 20% de ambos dão exatamente 50%.

Uma última cautela aritmética, porque ela já foi enunciado. Os fatores femininos que a Febrasgo itemiza — tubário 14%, ovulatório 6%, reserva ovariana 6%, endometriose 7%, uterino 1% e múltiplas causas 13% — somam 47%, e não os 35% da manchete do mesmo protocolo. Os dois conjuntos não estão sobre o mesmo denominador: a manchete é de fator feminino isolado, e a itemização inclui as pacientes em que o fator feminino coexiste com o masculino. Somar as duas listas é fabricar um número que nenhuma fonte escreveu.

04

As réguas do tema, lado a lado

Três tabelas resolvem quase todo enunciado de infertilidade conjugal: a que diz quando começar e para onde mandar, a que diz em que dia do ciclo cada exame cabe, e a que diz qual documento está por trás do valor de referência do espermograma que a questão colocou entre parênteses.

  1. 1Confirmar que se trata de infertilidade: doze meses de relações regulares sem contracepção, ou seis meses se a mulher tem mais de 35 anos, ou imediatamente diante de amenorreia, oligomenorreia, endometriose avançada ou outra condição que já limite a fertilidade.
  2. 2Anamnese do casal, junta e separada: tempo de tentativa, primária ou secundária, frequência de relações, uso de lubrificantes e duchas, história menstrual, obstétrica, cirurgias pélvicas, doença inflamatória pélvica, exposições ocupacionais, tabagismo, álcool e drogas; no homem, caxumba, torção de cordão, criptorquidia, trauma, hernioplastia, vasectomia e uso de anabolizantes.
  3. 3Exame físico dos dois: pressão, peso e altura, tireoide e exame ginecológico com especular e toque bimanual na mulher; caracteres sexuais, volume e consistência testicular e pesquisa ativa de varicocele no homem.
  4. 4Espermograma como primeiro exame específico do fator masculino, com abstinência ejaculatória dentro da janela do documento que se está seguindo, e com a regra de que um exame isolado não conclui nada.
  5. 5Documentar ovulação: história menstrual primeiro; progesterona do meio da fase lútea colhida sete dias antes da menstruação esperada quando indicada.
  6. 6Avaliar cavidade e patência tubária: ultrassonografia transvaginal e histerossalpingografia na fase folicular, entre o sétimo e o décimo dia do ciclo.
  7. 7Reserva ovariana quando muda conduta: FSH e estradiol do terceiro dia, contagem de folículos antrais entre o segundo e o quinto dia, hormônio antimülleriano em qualquer dia.
  8. 8Tratar o que é tratável no degrau em que se está, e só então encaminhar — com resumo clínico e com a propedêutica básica completa.

Um espermograma, três réguas em vigor

ParâmetroCaderno de Atenção Básica nº 26 (2013)Febrasgo nº 46 e protocolo de Belo HorizonteOMS, 6ª edição (2021), 5º centilOnde o corte do Caderno cai na distribuição da 6ª edição
Volume1,5 a 5 mL≥ 1,5 mL1,4 mLpiso no 6º centil; teto no 84º
Concentração> 20 milhões/mL> 15 milhões/mL16 milhões/mL8º centil
Total no ejaculadonão consta> 40 milhões39 milhões
Motilidade≥ 50% móveis32% progressiva (A + B)42% total e 30% progressiva16º centil (motilidade total)
Vitalidade≥ 75% vivos58%54%42º centil
Morfologia> 50% de formas normais> 4% (critério estrito de Kruger)4%acima do 97,5º centil
Leucócitos< 1 milhão por cm³< 1 milhão/mLmantido em 1 milhão/mL
pH7,2 a 8,0≥ 7,2≥ 7,2
Abstinência3 a 7 diasnão constamínimo 2 e máximo 7 dias
Repetir o exame alteradointervalo de pelo menos 15 diasidealmente em 3 meses

Seis aniversários, seis documentos, seis consequências

IdadeDocumentoO que muda naquele dia
30 anosCaderno de Atenção Básica nº 26o tempo exigido para encaminhar cai de mais de dois anos para mais de um ano
35 anosProtocolo Febrasgo nº 46a propedêutica se antecipa de doze para seis meses de tentativa
35 anosProtocolo de Belo Horizonte, 2022obstrução tubária deixa de ir para videolaparoscopia e passa a ir para reprodução humana
37 anosResolução CFM nº 2.320/2022o limite de embriões transferidos sobe de dois para três
37 anosProtocolo de Belo Horizonte, 2022na salpingotripsia bilateral, deixa-se de pedir histerossalpingografia antes de encaminhar
40 anosCaderno de Atenção Básica nº 26o tempo exigido para encaminhar cai de mais de um ano para mais de seis meses
45 anosProtocolo de Belo Horizonte, 2022idade avançada passa a impedir o encaminhamento para tratamento de infertilidade
50 anosResolução CFM nº 2.320/2022teto da candidata à gestação por reprodução assistida, com exceção fundamentada

Em que dia do ciclo cada exame cabe

ExameMomentoO que responde
FSH, LH e estradiol basais3º dia do fluxo, isoladamenteeixo e reserva; hipogonadismo hipo ou hipergonadotrófico
Contagem de folículos antrais2º ao 5º diaresposta esperada ao estímulo ovariano
Histerossalpingografiafase folicular, 7º ao 10º diacavidade uterina e patência tubária (prova de Cotte)
Progesterona do meio da fase lútea7 dias antes da menstruação esperadahouve ou não formação de corpo lúteo naquele ciclo
Hormônio antimüllerianoqualquer dia do cicloreserva ovariana; melhor medida isolada disponível
Prolactina e TSHqualquer diacausas endócrinas de disfunção ovulatória
Espermogramaapós 2 a 7 dias de abstinênciafator masculino; repetir antes de concluir

O prazo que define a doença e o prazo que abre o encaminhamento são coisas diferentes. A definição fecha em doze meses para todo mundo, e em seis meses acima dos 35 anos; o critério de encaminhamento do Caderno de Atenção Básica nº 26 é escalonado por idade e exige mais de dois anos abaixo dos 30, mais de um ano dos 30 aos 40 e mais de seis meses dos 40 aos 50.

Independentemente do tempo de união, o mesmo Caderno manda encaminhar de imediato o casal com fator impeditivo de concepção — obstrução tubária bilateral, amenorreia prolongada, azoospermia — e o casal com duas ou mais interrupções gestacionais subsequentes.

O Caderno prescreve, antes de prosseguir para a investigação de causas, um período de três meses de orientação dirigida: identificar o período fértil, concentrar as relações nele e eliminar lubrificantes, duchas e qualquer fator que atrapalhe o depósito ou a migração do sêmen.

A conta que sai daí é o vão do tema. A mulher de 28 anos é infértil pela definição no mês 12, cumpre a orientação até o mês 15 e só alcança o critério de encaminhamento no mês 24: sobram nove meses de espera, que a 3% ao mês valem 24,0% de chance de concepção espontânea. Se ela faz 30 anos nesse intervalo, o portão cai de 24 para 12 meses e o aniversário adianta onze meses de fila.

A progesterona lútea prova ovulação e não prova o contrário: valor alto confirma corpo lúteo, valor baixo só informa que naquele dia não havia corpo lúteo funcionante — e pode ser apenas erro de data em ciclo longo.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantos casais brasileiros são inférteis

8 a 15% dos casais em idade reprodutiva

O documento federal de atenção básica atribui a estimativa à Organização Mundial da Saúde e a diversas sociedades científicas, e registra explicitamente que não há dados exatos quanto à incidência da infertilidade conjugal no Brasil e que ela varia conforme a região geográfica.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde sexual e saúde reprodutiva. Cadernos de Atenção Básica, nº 26. Brasília, 2013, p. 248.

15% a 20% dos casais

O protocolo da sociedade de especialidade abre com essa faixa e espera aumento de 5% a 10% na infertilidade nas próximas décadas; o protocolo municipal de Belo Horizonte reproduz a mesma faixa na introdução, e sua lista de referências é composta apenas por documentos da própria Febrasgo.

Lamaita RM, Amaral MC, Cota AM, Ferreira MC. Propedêutica básica da infertilidade conjugal. FEMINA 2020;48(5):311-5 (Protocolo Febrasgo – Ginecologia, nº 46); e Prefeitura de Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo Infertilidade Conjugal. Belo Horizonte, 2022, p. 5.

Na prova

O enunciado que traz prevalência quase sempre a copia da fonte que ele próprio cita, e o candidato não precisa escolher entre as faixas — precisa reconhecer que ambas existem e que se sobrepõem apenas em 15%. Quando a questão vier de banca que se apoia em documento do Ministério da Saúde, a faixa esperada é de 8 a 15%; quando vier de material de sociedade de especialidade, é de 15% a 20%. O recorte do avaliador está em saber que o número não é uma medição brasileira, e sim uma estimativa importada, e por isso ele raramente é o núcleo da questão.

Quais valores de referência valem para o espermograma

Concentração acima de 20 milhões/mL, motilidade de 50% e morfologia acima de 50%

O documento federal de atenção básica lista esses parâmetros como os mais comumente aceitos como normais, com vitalidade de 75% ou mais e volume de 1,5 a 5 mL, e nomeia como hiperespermia o volume acima de 5 mL.

Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, nº 26 — Saúde sexual e saúde reprodutiva. Brasília, 2013, p. 254.

Concentração acima de 15 milhões/mL, motilidade progressiva de 32% e morfologia acima de 4%

A sociedade de especialidade atribui esses valores à Organização Mundial da Saúde e acrescenta total acima de 40 milhões no ejaculado, vitalidade de 58% e leucócitos abaixo de 1 milhão por mililitro; o protocolo municipal de Belo Horizonte reproduz a lista item a item.

Protocolo Febrasgo – Ginecologia, nº 46, FEMINA 2020;48(5):311-5; e Prefeitura de Belo Horizonte, Protocolo Infertilidade Conjugal, 2022, p. 12.

Concentração de 16 milhões/mL, motilidade total de 42% e progressiva de 30%, morfologia de 4%

A sexta edição do manual publica o quinto centil de homens cujas parceiras conceberam naturalmente em até doze meses, com intervalo de confiança para cada parâmetro, e adverte que esse centil não representa limite entre homens férteis e inférteis.

World Health Organization. WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen, sixth edition. Geneva: WHO; 2021, tabela 8.3, p. 213 da numeração impressa.

Na prova

A questão bem escrita informa o valor de referência entre parênteses, e aí o candidato só precisa comparar. A questão que não informa está cobrando a régua da sociedade de especialidade, que é a mais difundida no material didático brasileiro: concentração acima de 15 milhões por mililitro, motilidade progressiva de 32% e morfologia acima de 4% pelo critério estrito. O recorte do avaliador está em perceber quando o enunciado usa uma régua antiga: um enunciado que chame de oligozoospermia uma concentração de 18 milhões por mililitro está lendo pelo documento de 2013, e é isso que ele quer que se reconheça.

Em quanto tempo se repete um espermograma alterado

Pelo menos 15 dias entre os dois exames

O documento federal afirma que nenhuma conclusão deve ser tomada com base em apenas um exame, exige no mínimo dois exames para avaliação adequada da espermatogênese e fixa o intervalo mínimo em quinze dias.

Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, nº 26 — Saúde sexual e saúde reprodutiva. Brasília, 2013, p. 253-254.

Idealmente três meses, salvo alteração grave

O protocolo da sociedade determina que o teste de confirmação seja repetido idealmente em três meses após o diagnóstico de base, para completar o ciclo de formação dos espermatozoides, e abre exceção para azoospermia ou oligozoospermia severa, que devem ser repetidas o mais rapidamente possível.

Protocolo Febrasgo – Ginecologia, nº 46, FEMINA 2020;48(5):311-5; texto idêntico em Prefeitura de Belo Horizonte, Protocolo Infertilidade Conjugal, 2022, p. 12.

Na prova

Quando o enunciado trouxer a repetição como alternativa, o intervalo esperado é de cerca de três meses, com a justificativa fisiológica de completar o ciclo de formação dos espermatozoides — e a exceção de repetir imediatamente diante de azoospermia ou oligozoospermia severa também é cobrada. O recorte do avaliador está em rejeitar a alternativa que manda repetir o exame no mesmo mês como se fosse conduta padrão, e em rejeitar com mais força ainda a alternativa que conclui o caso com um exame só.

06

Caso resolvido

Mulher de 34 anos e parceiro de 36 anos procuram a unidade básica por infertilidade primária há 18 meses. Ela tem ciclos regulares de 28 dias, índice de massa corporal de 23 kg/m², nega dismenorreia importante e nega doença inflamatória pélvica conhecida; ele é hígido, sem antecedente de criptorquidia, caxumba ou cirurgia inguinal. O espermograma do parceiro é normal. A progesterona colhida no 21º dia foi de 11 ng/mL. A histerossalpingografia, realizada entre o sétimo e o décimo dia do ciclo, mostrou cavidade uterina de contornos normais, ausência de prova de Cotte bilateralmente e dilatação das porções distais das tubas.
O prazo
Dezoito meses de tentativa sem contracepção já ultrapassam os doze meses da definição. Como ela tem 34 anos, ainda não se aplica a antecipação para seis meses do protocolo da Febrasgo, que vale acima dos 35 — mas isso é irrelevante aqui, porque o prazo já foi cumprido com folga. Pelo critério de encaminhamento do documento federal, ela está na faixa dos 30 aos 40 anos, que exige mais de um ano: também cumprido.
As duas pernas que já responderam
O espermograma normal fecha, por ora, o fator masculino — com a ressalva de que exame único não conclui nada e de que qualquer alteração futura pediria repetição em cerca de três meses. A progesterona de 11 ng/mL no 21º dia de um ciclo de 28 dias é meio de fase lútea legítimo e está acima de qualquer das réguas em uso, seja o corte de 3 ng/mL das provas, seja o de 5 ng/mL do protocolo: houve corpo lúteo funcionante, e o fator ovulatório está afastado.
O que a histerossalpingografia diz
Ausência de prova de Cotte significa que o contraste não extravasou para a cavidade peritoneal de nenhum dos lados: as tubas estão obstruídas distalmente. A dilatação das porções distais completa o quadro de hidrossalpinge bilateral. Cavidade uterina normal exclui, no mesmo exame, o fator uterino grosseiro. O diagnóstico é fator tuboperitoneal, que responde por mais de 30% das causas femininas.
O que não se faz
Não se repete a histerossalpingografia no mesmo ciclo alegando espasmo tubário, porque o achado é bilateral e vem acompanhado de dilatação estrutural. Não se libera o casal para mais doze meses de tentativas espontâneas, porque a obstrução bilateral é fator impeditivo de concepção — e o próprio documento federal manda encaminhar esse casal independentemente do tempo de união. E não se manda direto para fertilização in vitro sem tratar a hidrossalpinge.
A conduta
Abordar a tuba comprometida antes do ciclo de fertilização, por salpingectomia ou oclusão tubária proximal, porque o líquido da hidrossalpinge reflui para a cavidade e reduz a implantação. Como ela tem 34 anos, o protocolo municipal de Belo Horizonte roteia obstrução tubária em mulher de até 35 anos para videolaparoscopia, com autorização de internação hospitalar; a fertilização in vitro entra depois, no nível terciário, se a cirurgia não resolver.
O aniversário que mudaria o destino
Se a mesma paciente, com o mesmo exame, tivesse 36 anos, o mesmo protocolo a encaminharia diretamente para reprodução humana em vez de videolaparoscopia — e ela entraria na faixa de alta prioridade da fila, que vai de 36 a menos de 40 anos. O achado anatômico é idêntico; o que muda o caminho é a data de nascimento.
07

Agora feche você

Mulher de 28 anos, nuligesta, procura a unidade básica de saúde por não conseguir engravidar após 14 meses de relações sexuais regulares e sem contracepção. Refere ciclos menstruais regulares e previsíveis, com intervalo de 35 dias e fluxo de quatro dias. Nega dismenorreia, galactorreia e hirsutismo. Índice de massa corporal de 22 kg/m²; exame ginecológico normal. O espermograma do parceiro, de 30 anos, é normal. A histerossalpingografia não mostrou alterações. Foi solicitada progesterona sérica no 21º dia do ciclo, com resultado de 1,9 ng/mL, e o laboratório informa como referência para fase lútea média valores acima de 3 ng/mL.
Ela é infértil?
Complete: quantos meses a definição exige, e por que a idade dela não antecipa esse prazo.
O que está errado na coleta
Complete: em que fase do ciclo cai o 21º dia numa mulher que menstrua a cada 35 dias, e qual regra de contagem substitui o número fixo.
Qual o próximo passo
Complete: quando repetir a dosagem, e o que se espera encontrar se ela de fato ovula.
O que não fazer agora
Complete: cite duas condutas que a vinheta convida a tomar e que seriam erradas neste momento.
Ela pode ser encaminhada hoje?
Complete: o que o critério de encaminhamento por idade do documento federal exige de uma mulher abaixo de 30 anos, e o que muda se ela fizer aniversário no mês que vem.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Colher a progesterona no 21º dia de um ciclo de 35 dias O 21º dia só é meio de fase lútea em ciclo de 28 dias. Em ciclo de 35 dias, o 21º ainda é fase folicular ou periovulatória, e um valor baixo ali não diz nada sobre ovulação. A contagem é sempre para trás, sete dias antes da menstruação esperada — o que dá o 28º dia num ciclo de 35. Concluir anovulação e iniciar indutor com esse resultado é o erro que a questão está armando.
  2. 2Confundir o prazo que define a doença com o prazo que abre o encaminhamento Doze meses definem infertilidade, e seis meses acima dos 35 anos antecipam a propedêutica. Mas o critério de encaminhamento do documento federal é outro e é escalonado: mais de dois anos abaixo dos 30, mais de um ano dos 30 aos 40, mais de seis meses dos 40 aos 50. A alternativa que manda esperar mais doze meses porque o casal ainda não completou 24 está trocando a definição pelo critério administrativo.
  3. 3Investigar apenas a mulher O fator masculino está envolvido em 30 a 50% dos casos, e o espermograma é o exame com o relógio mais longo — repetição ideal em três meses. Alternativa que propõe iniciar só pelos exames femininos porque a causa seria predominantemente feminina erra duas vezes: na epidemiologia e no cronograma.
  4. 4Oferecer cariótipo ou biópsia testicular como exame inicial do homem Microdeleções do cromossomo Y, biópsia testicular, ultrassonografia transretal, espermocultura e dosagem hormonal existem e têm indicação — depois do espermograma, e fora do âmbito da atenção básica. Colocá-los como primeiro exame de homem hígido é oferecer o quarto passo no lugar do primeiro.
  5. 5Somar as porcentagens de causa até fechar cem Os itens do fator feminino do protocolo da Febrasgo somam 47%, e a manchete do mesmo documento diz 35%. Não é erro de conta: a manchete é de fator feminino isolado e a itemização inclui as pacientes com fator feminino associado ao masculino. Somar as duas listas, ou fechar 100% com elas, fabrica um número que nenhuma fonte escreveu.
  6. 6Tratar o quinto centil da Organização Mundial da Saúde como fronteira entre fértil e infértil A sexta edição do manual afirma isso em texto: o quinto centil dos homens da população de referência não representa limite entre homens férteis e inférteis. Ele é o valor abaixo do qual estão 5% de quem conseguiu conceber naturalmente em até doze meses. A alternativa que declara infertilidade masculina a partir de um único número abaixo da referência está lendo o manual ao contrário do que ele pede.
  7. 7Mandar hidrossalpinge direto para fertilização in vitro Prova de Cotte negativa com dilatação distal bilateral é obstrução tubária com hidrossalpinge, e a tuba comprometida é abordada antes do ciclo de fertilização — salpingectomia ou oclusão tubária. Repetir a histerossalpingografia no mesmo ciclo alegando espasmo tubário, ou liberar o casal para tentativas espontâneas por mais um ano, são os dois distratores clássicos do achado.
  8. 8Pedir na unidade básica o exame que a unidade básica não faz O documento federal lista para a atenção básica sorologias, glicemia, citologia e o espermograma quando houver possibilidade de solicitá-lo; progesterona, histerossalpingografia e dosagens hormonais aparecem como âmbito da atenção especializada. O protocolo municipal vai além e chama a progesterona sérica de recurso excepcional. A conduta correta na vinheta de atenção primária costuma ser iniciar a investigação do casal com o que existe ali, não listar o exame ideal.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Infertilidade define-se por ausência de gravidez após 12 meses de tentativas regulares sem contracepção (6 meses se mulher ≥35 anos). Aos 14 meses, a investigação está indicada e deve ser do casal: espermograma do parceiro (fator masculino responde por parcela significativa), avaliação da ovulação e da permeabilidade tubária na mulher. Investigar só a mulher ignora o fator masculino. Encaminhar direto para FIV sem investigar a causa é inadequado. Aguardar mais 12 meses posterga investigação já indicada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória seis coisas. Os dois prazos que definem infertilidade e o corte de idade que separa um do outro. As três pernas do tripé da propedêutica. O dia do ciclo de cada exame, com a regra de contagem para trás da progesterona lútea. As três réguas do espermograma e qual delas usa critério estrito de Kruger. O que a prova de Cotte negativa significa e o que se faz antes da fertilização quando há hidrossalpinge. E os três níveis da rede, com o que cada um oferece.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva quatro cenários em voz alta antes de conferir. Mulher de 28 anos, ciclos de 35 dias, progesterona de 1,9 ng/mL no 21º dia: qual a conduta e por quê. Casal com 14 meses de tentativa, ela com 29 anos, ambos hígidos, na unidade básica: o que se pede primeiro e o que se responde a quem sugere encaminhar para fertilização in vitro. Espermograma com concentração de 18 milhões por mililitro e 6% de formas normais: normal ou alterado, e segundo qual documento. Mulher de 34 anos com prova de Cotte negativa bilateral e dilatação distal: diagnóstico, conduta cirúrgica e destino do encaminhamento se ela tivesse 36 anos.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Numa consulta de planejamento reprodutivo, treine a sequência que os documentos desenham e que a pressa costuma atropelar: atenda o casal junto e depois cada um separado, pergunte a frequência das relações e o uso de lubrificantes e duchas antes de pedir qualquer exame, examine o parceiro procurando varicocele, e peça o espermograma no mesmo dia em que pede os exames dela — porque é o exame cujo segundo resultado demora um trimestre. Antes de encaminhar, diga em voz alta o que a espera vale: a 3% ao mês, os meses de fila não são tempo morto, e cerca de um quarto dos casais concebe espontaneamente numa janela de nove meses. E termine explicando qual degrau da rede vai atender aquele casal, e o que precisa estar pronto para que ele suba de degrau. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.