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Acalasia e megaesôfago: duas réguas com o mesmo numeral

Acalasia e distúrbios motores do esôfago

O enunciado escreve "acalasia tipo II" sem dizer qual classificação está usando — a manométrica de Chicago mede pressurização, a radiológica de Rezende mede diâmetro, e as duas não apontam para a mesma conduta. Depois cobra o plano da miotomia, que decide o refluxo.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 55 anos apresenta disfagia progressiva, inicialmente para sólidos e depois também para líquidos, associada a regurgitação de alimentos não digeridos e perda de 4 kg em 3 meses. A esofagografia baritada mostra dilatação do corpo esofágico com afilamento distal em 'bico de pássaro'. A endoscopia afasta lesão obstrutiva mecânica. Qual exame confirma o diagnóstico e caracteriza melhor o distúrbio motor subjacente?

02

Como esse tema cai

A acalasia entra na prova brasileira por três portas, e só uma delas é a doença em si. A primeira é a disfagia que não obedece à regra da obstrução mecânica: em vez de começar por carne e pão e só depois alcançar líquidos, ela é paradoxal — atrapalha sólidos e líquidos desde o início e às vezes é pior para o líquido. A segunda é a doença de Chagas, que dá a este país uma segunda causa de acalasia que o resto do mundo quase não vê. A terceira é a mais traiçoeira: um algarismo romano solto no enunciado.

Esse algarismo é o problema. Existem duas classificações consagradas que numeram a acalasia de I a IV — ou de I a III — e elas medem coisas diferentes. A Classificação de Chicago vem da manometria de alta resolução e separa os doentes pelo padrão de pressurização do corpo do esôfago. A classificação radiológica brasileira, conhecida como Rezende–Mascarenhas ou, na variante do mesmo grupo, Ferreira-Santos, vem da esofagografia contrastada e separa os doentes pelo diâmetro do órgão. Um "tipo II" pode ser o de melhor prognóstico com dilatação pneumática, ou pode ser um esôfago de 4 a 7 centímetros. Trocá-los inverte a conduta.

O capítulo resolve três decisões. Qual régua o enunciado está usando, e como reconhecer isso pelo vocabulário. O que o documento nacional manda fazer, com dose e via, antes de qualquer procedimento. E qual miotomia escolher — a laparoscópica com fundoplicatura ou a endoscópica peroral —, sabendo que as duas aliviam a disfagia igual e que a diferença entre elas mora no refluxo, não na disfagia.

Uma advertência de método, porque ela é conteúdo. A acalasia não tem protocolo clínico nacional próprio. A régua brasileira mora em casuísticas de serviço — Uberlândia, Recife, São Paulo, Campinas —, e é por isso que os números divergem entre um artigo e outro: cada serviço opera uma população diferente, com um acesso diferente aos exames. Quando dois números brasileiros discordam, quase sempre a explicação está no denominador, e não na biologia.

03

O que muda decisão

Duas doenças com o mesmo nome, e a sorologia que as separa

Acalasia é a perda dos neurônios inibitórios do plexo mientérico do esôfago distal. O esfíncter esofágico inferior deixa de relaxar, o corpo do esôfago perde o peristaltismo, o alimento fica retido e o órgão dilata. Quando a dilatação é o achado dominante, o quadro ganha o nome de megaesôfago. São o mesmo processo descrito por dois lados: o funcional e o anatômico.

No Brasil há duas causas relevantes. A idiopática, de mecanismo autoimune presumido, é a mesma do resto do mundo. A chagásica é aquisição adquirida: o Trypanosoma cruzi destrói os plexos entéricos, e o doente costuma ter também megacólon, cardiopatia, ou as duas. A diferença é de origem, não de aparência — a disfagia, a regurgitação e a perda de peso são iguais. O que separa as duas na prática é a sorologia, e por isso ela é obrigatória em todo doente brasileiro com acalasia.

A proporção entre elas muda de serviço para serviço, e a variação é grande demais para ser acaso. Em Uberlândia, dos 44 operados por megaesôfago não avançado, 25 (57%) eram chagásicos e 19 (43%) idiopáticos. Em Recife, dos 27 submetidos a miotomia endoscópica, a conta se inverteu: 18 (66,7%) idiopáticos e 9 (33,3%) chagásicos. No ensaio randomizado de São Paulo, 9 de 40 (22,5%) tinham anticorpos anti-T. cruzi. Três serviços públicos brasileiros, três proporções distintas.

O grupo de Uberlândia diz por escrito o que produz a diferença, e a explicação é de referência, não de epidemiologia: a fração idiopática do serviço, 43%, é maior do que os 11,6 a 30,7% relatados por outros serviços brasileiros, e os autores atribuem isso ao hospital ser um dos poucos centros de referência para megaesôfago da região. Quem concentra o caso difícil concentra também o caso sem sorologia positiva. A lição vale para qualquer número de série cirúrgica: a distribuição que você lê é a da porta de entrada daquele serviço.

Para o enunciado, o que importa é o inverso do que a estatística sugere. Não existe proporção nacional confiável a decorar. O que existe é uma regra de conduta: acalasia no Brasil pede sorologia para Chagas, e a sorologia positiva não muda o alívio mecânico da disfagia — muda o que mais precisa ser procurado no mesmo doente, que é o coração e o cólon.

O que a manometria decide, e o subtipo que não existe no Chagas

O diagnóstico manométrico de acalasia repousa em dois achados. O primeiro é o relaxamento incompleto do esfíncter esofágico inferior, medido pela pressão de relaxamento integrada, a IRP, elevada. O segundo é a aperistalse do corpo do esôfago. A Classificação de Chicago 4.0 mantém o conceito de tudo ou nada: para o diagnóstico manométrico conclusivo, o peristaltismo tem de estar ausente.

Com a IRP alterada e o esôfago aperistáltico, o subtipo sai do padrão de pressurização. O tipo I não pressuriza — o esôfago está inerte. O tipo II faz pressurização panesofágica em pelo menos vinte por cento das deglutições, e é o subtipo de melhor resposta a qualquer terapia. O tipo III é o espástico: há contrações prematuras, de padrão distal, com o esôfago ainda contraindo, e é o que menos responde à dilatação.

A versão 4.0 acrescentou uma categoria que a prova ainda está aprendendo a cobrar: o diagnóstico inconclusivo de acalasia. São três situações. Aperistalse com a IRP no limite superior da normalidade. Peristaltismo que reaparece quando a manometria é repetida em outra posição, num doente que parecia tipo I ou II. E IRP alterada com espasmo e peristaltismo presente, num padrão que parecia tipo III. Nenhuma dessas três autoriza tratar como acalasia sem investigar mais.

Aqui entra o ponto brasileiro que não está em nenhum livro internacional. O grupo de Herbella observa que o tipo III não é encontrado na esofagopatia chagásica, porque na doença de Chagas o efeito tônico colinérgico sobre a musculatura lisa do esôfago está comprometido — falta o substrato que produz a contração espástica. Um enunciado que descreve acalasia espástica tipo III num paciente com sorologia positiva está descrevendo, muito provavelmente, duas coisas que não combinam.

A mesma fonte fecha outra armadilha. A Classificação de Chicago 4.0 determina que distúrbio motor primário só deve ser considerado na ausência de doença do refluxo, o que obriga a pHmetria nos casos duvidosos. Só que a acalasia produz pseudorrefluxo: o alimento retido fermenta no esôfago e acidifica o meio sem que exista refluxo gástrico algum. O traçado tem características próprias e o exame não é inútil — mas uma pHmetria positiva num esôfago que não esvazia não prova refluxo, e operar esse doente como refluxo é o desastre que a manometria prévia existe para evitar.

Corte da junção esofagogástrica em duas versões: à esquerda a miotomia feita por fora, seccionando as duas camadas musculares e coberta por uma válvula de fundo gástrico suturada em três pontos; à direita a miotomia feita por dentro, através de um túnel submucoso, seccionando apenas a camada circular e fechada com clipe, sem válvula sobre a área desnudada.
O plano de cada miotomia. Por fora, a secção atravessa as duas camadas musculares e o fundo gástrico é dobrado sobre a mucosa desnudada — a mesma manobra que alivia a disfagia reconstrói uma barreira antirrefluxo. Por dentro, o túnel submucoso preserva a mucosa e a camada longitudinal, secciona só a circular e sai sem válvula: não há como suturar um fundo gástrico a partir da luz.

A régua que sobra quando a manometria de alta resolução não chega

A manometria de alta resolução só chegou à América Latina em 2008, e a chegada foi desigual. O serviço de Recife registra por escrito o motivo de ter usado outra régua: o padrão-ouro para determinar o grau e a gravidade da acalasia é a Classificação de Chicago por manometria de alta resolução, e o exame não está disponível na rede pública de Pernambuco. O serviço de Uberlândia diz o mesmo por outro caminho: de 44 operados, apenas três fizeram manometria de alta resolução, por indisponibilidade do exame no hospital, ainda que 32 tenham feito manometria convencional.

Três em 44 é 6,8%. Vale reter esse número porque ele mede uma distância entre o que a diretriz manda e o que o serviço executa. A régua internacional exige manometria de alta resolução para estadiar a acalasia e para liberar qualquer procedimento antirrefluxo; num hospital universitário federal brasileiro, ao longo de vinte anos, o exame alcançou sete em cada cem operados. A exigência não fica errada por isso. Ela fica inexequível, e quem responde a prova precisa saber qual régua sobra quando isso acontece.

A régua que sobra é radiológica. A esofagografia contrastada mede o diâmetro do esôfago e observa a retenção do contraste, e o Brasil formalizou essa leitura em duas classificações irmãs, publicadas pelos grupos de Rezende e de Ferreira-Santos, hoje usadas quase intercambiavelmente. Na versão registrada pelo serviço de Recife como Rezende–Mascarenhas: tipo I, calibre inalterado, discreta retenção de contraste, abaixo de 4 cm; tipo II, aumento moderado de calibre, retenção de contraste e ondas terciárias, de 4 a 7 cm; tipo III, grande aumento de calibre e hipotonia, de 7 a 10 cm; tipo IV, dolicomegaesôfago, acima de 10 cm.

A versão de Ferreira-Santos registrada pelo grupo de Uberlândia usa os mesmos cortes de diâmetro e acrescenta o tempo de estase: grau I até 4 cm com pequena estase aos 5 minutos; grau II até 7 cm com estase aos 30 minutos; grau III até 10 cm, com alongamento sigmoide e estase significativa com resíduos alimentares; grau IV acima de 10 cm, com resíduos. Os centímetros coincidem; o que a segunda acrescenta é a estase, e é ela que explica por que o grau III já aparece com esôfago em sigmoide.

O resultado prático é que dois sistemas numeram de I a IV a mesma doença medindo eixos diferentes, e a prova nem sempre avisa qual está usando. O vocabulário denuncia. Pressurização panesofágica, contração prematura, IRP e a palavra manometria pertencem a Chicago. Retenção de contraste, ondas terciárias, dolicomegaesôfago, estase aos trinta minutos e o próprio centímetro pertencem à régua radiológica brasileira. E há um sinal decisivo: a Classificação de Chicago não tem tipo IV para acalasia. Um enunciado que fala em tipo IV está, necessariamente, na régua radiológica.

O grau III que troca de lado entre dois artigos da mesma revista

Definido o grau, falta a pergunta que decide a operação: a partir de onde o megaesôfago é avançado? A resposta muda dentro do mesmo periódico, no mesmo ano.

A revisão sistemática brasileira de 2024 define acalasia terminal como o megaesôfago avançado de graus III e IV da classificação de Rezende–Mascarenhas, com dolicomegaesôfago, tortuosidade importante e diâmetro esofágico acima de 6 cm, e estima que isso ocorre em 10 a 15% de todos os doentes. Foi com essa definição que os autores reuniram 1.862 doentes de 14 estudos.

A casuística de Uberlândia, publicada na mesma revista no mesmo ano, chama-se explicitamente de tratamento da acalasia não avançada e excluiu do estudo os doentes com megaesôfago avançado. Só que, entre os 44 incluídos, 22 (50%) eram grau III, 15 (34%) grau II, 6 (14%) grau I e um (2%) sem descrição no prontuário. Metade da coorte de "não avançado" de um artigo cai dentro da definição de "avançado" do outro.

Isso não é detalhe editorial. A taxa de sucesso de 84,1% que a casuística publica para a miotomia laparoscópica em doença não avançada foi medida, em metade dos casos, em esôfagos que a revisão sistemática classificaria como avançados — e a mesma revisão só conclui que a miotomia laparoscópica pode ser feita no avançado depois de ponderar reservas quanto ao resultado tardio. O número apoia a conclusão da revisão melhor do que a rotulação de cada artigo sugere.

Some-se o centímetro. A régua radiológica brasileira coloca a fronteira do grau III em 7 cm; a revisão sistemática usa acima de 6 cm, número que vem das séries estrangeiras que ela reuniu. Um esôfago de 6,5 cm é grau II, não avançado, pela régua brasileira, e grau III, avançado, pelo critério com que a revisão agrupou os 1.862 doentes. A conduta muda de lado no mesmo milímetro, e a divergência é de definição, não de biologia.

O que fazer com isso num enunciado: procurar o número, não o rótulo. Se a vinheta traz o diâmetro em centímetros e a descrição do esôfago — se é tortuoso, se está em sigmoide, se há resíduo alimentar —, ela já disse tudo o que a classificação diria. Se traz apenas "grau III", o resto do enunciado precisa dizer se aquele serviço chama isso de avançado.

O que o documento nacional fixa, e onde ele para

A acalasia não tem protocolo clínico nacional próprio. O único documento brasileiro de Estado que fixa conduta para o esôfago dilatado é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Chagas, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 57, de 30 de outubro de 2018 — e ele alcança apenas o megaesôfago chagásico. O protocolo é explícito quanto ao princípio: megaesôfago e megacólon devem ser manejados de forma semelhante aos casos sem doença de Chagas.

As doses vêm em duas versões dentro do mesmo documento, e a diferença entre elas importa. O corpo do texto recomenda nifedipina 10 mg, por via sublingual, 30 minutos antes de cada refeição, e dinitrato de isossorbida 2,5 a 5 mg, por via sublingual, 15 minutos antes de cada refeição. A Tabela 7, que é a parte que o estudante fotografa, imprime "Nifedipina 10 mg, 30 min antes da refeição" e "Dinitrato de isossorbida 5 mg, 15 min antes da refeição": some a via sublingual das duas, e some o piso de 2,5 mg do nitrato. O texto é a versão completa; a tabela é a que circula.

O protocolo é igualmente claro sobre o alcance dessas drogas. O efeito é essencialmente sintomático, a alta taxa de eventos adversos prejudica a adesão mas não confere maior risco, e a orientação é tentar o uso em quem já não responde às medidas não farmacológicas, suspendendo se houver evento adverso. E vem a contraindicação que a forma cardiodigestiva torna cotidiana: a nifedipina não deve ser usada em cardiopatia grave, pelo risco de hipotensão e de retenção hidrossalina. O doente chagásico com megaesôfago e cardiopatia avançada é exatamente aquele em quem a droga do esôfago está proibida pelo coração.

Antes do remédio vêm as medidas alimentares, e elas são o primeiro item da Tabela 3 do protocolo: mastigar bem, ingerir pequenos volumes por vez, preferir alimentos líquidos e pastosos, evitar irritantes e evitar comer antes de deitar. Não é conselho genérico — é a intervenção que reduz a estase e o risco de broncoaspiração enquanto o doente aguarda o procedimento.

E aqui o documento nacional para. O protocolo diz que os casos com maior intensidade de sintomas podem ser encaminhados a serviços especializados para considerar cirurgia, dilatação pneumática ou aplicação de toxina botulínica, e não estabelece ordem, critério nem preferência entre os três. A Tabela 3 os lista numa sequência — toxina botulínica, depois dilatação, depois cirurgia — que é inventário, não escada terapêutica: lida como ordem de tentativa, ela inverte a hierarquia internacional, na qual a toxina botulínica é a opção de quem não tolera terapia definitiva, e não o primeiro degrau de quem tolera. Quem escolhe entre os três é o serviço, com base no grau, na idade, no risco e no subtipo — e é isso que as seções seguintes resolvem.

O plano da miotomia decide o refluxo, não a disfagia

As duas operações modernas fazem a mesma coisa e por caminhos opostos. A miotomia laparoscópica com fundoplicatura parcial, que no Brasil se chama operação de Heller-Pinotti, entra pelo abdome: disseca o esôfago e os pilares diafragmáticos, faz esofagocardiomiotomia extramucosa de 6 cm no esôfago e 3 cm no estômago e, na modificação de Pinotti, fecha com três planos de sutura — um na parede posterior do esôfago, um na borda esquerda da miotomia e um cobrindo a mucosa desnudada na borda direita. O fundo gástrico dobrado sobre a área aberta é, ao mesmo tempo, a proteção da mucosa e a válvula antirrefluxo.

A miotomia endoscópica peroral, a POEM, descrita em 2010, entra pela boca. Faz-se uma mucosotomia cerca de 10 cm acima da cárdia, disseca-se um túnel submucoso até 2 cm abaixo dela, secciona-se a camada muscular circular dentro do túnel e fecha-se a mucosotomia com clipes. A mucosa nunca é aberta sobre a miotomia, o que dispensa a cobertura — e é justamente por isso que não há como construir uma válvula antirrefluxo a partir da luz.

Essa diferença de plano tem número. O ensaio randomizado brasileiro com 40 doentes virgens de tratamento não encontrou diferença de controle sintomático entre as duas técnicas em 1, 6 e 12 meses. Encontrou diferença de esofagite: aos 12 meses, 11 de 17 (64,7%) no grupo da POEM contra 2 de 18 (11,1%) no grupo da miotomia laparoscópica. Aos 6 meses, 62,5% contra 5,6%; ao mês, 29,4% contra zero. O tempo de anestesia e o tempo de procedimento foram significativamente menores na POEM, e a qualidade de vida melhorou em todos os domínios só nela.

Os denominadores merecem atenção porque não são 20 e 20. Ao longo do seguimento, parte dos doentes recusou a endoscopia porque estava assintomática — aos 12 meses, 17 dos 20 da POEM e 18 dos 20 da laparoscopia fizeram o exame. Quem se recusa por estar sem sintoma sai do denominador levando consigo a maior chance de exame normal, o que empurra as duas taxas para cima. O 64,7% é, portanto, um piso conservador da diferença entre as técnicas, não um teto.

Há um segundo cuidado, e ele salva o número em vez de destruí-lo: esofagite erosiva na endoscopia e refluxo sintomático não são a mesma coisa. Boa parte do refluxo pós-miotomia é assintomática, e o próprio ensaio registra ocorrência de sintomas de refluxo acima de 50% no seu grupo endoscópico, um número que não coincide com os 64,7% da endoscopia. Quando uma fonte secundária cita "64,7% de refluxo após POEM contra 11,1% após Heller-Pinotti", está transportando a taxa de esofagite endoscópica para um lugar em que o leitor entende sintoma — e passa a compará-la com séries que mediram sintoma, o que não é comparável.

A casuística de Uberlândia mostra o outro lado do mesmo problema. Ela registra 9 de 33 (27,2%) de refluxo tardio depois da Heller-Pinotti, diagnosticado pelo quadro clínico e confirmado por endoscopia em um único caso, e os próprios autores ponderam que séries com confirmação objetiva descrevem cerca de 10%. Refluxo aferido por sintoma e refluxo aferido por endoscopia produzem números diferentes na mesma operação — e a comparação honesta é sempre dentro do mesmo método de aferição.

A dilatação pneumática, e a pergunta que inverte com o denominador

A dilatação pneumática por balão é a terapia não cirúrgica de referência, e responde particularmente bem no subtipo II de Chicago. No Brasil ela costuma anteceder a cirurgia — e o que acontece com essa antecedência é a lição desta seção.

Na casuística de Uberlândia, 30 dos 44 operados (68%) já haviam sido dilatados antes da cirurgia: nove com uma dilatação, dez com duas, sete com três e quatro com mais de três. Todos esses 30 acabaram precisando da operação. É a definição operacional de falha terapêutica de uma série inteira, e é o dado que a prova costuma cobrar de maneira invertida, perguntando se a dilatação é definitiva.

A segunda pergunta é mais interessante, porque ela troca de resposta com o denominador. A dilatação prévia aumenta o risco de perfuração da mucosa durante a cirurgia? Houve 8 perfurações intraoperatórias entre os 44 (18%), todas pequenas, diagnosticadas e suturadas no mesmo ato, nenhuma evoluindo para fístula. Dessas oito, cinco tinham sido dilatadas antes. Cinco de oito é 62,5%, e a leitura apressada conclui que a maioria dos perfurados havia sido dilatada, logo a dilatação perfura.

Refaça a conta pelo denominador certo. Entre os 30 dilatados, cinco perfuraram: 16,7%. Entre os 14 não dilatados, três perfuraram: 21,4%. A taxa de perfuração é maior no grupo que nunca foi dilatado, e o teste no artigo dá p = 0,82 — nenhuma associação. A direção da conclusão inverte quando se sai de "quantos dos perfurados foram dilatados" para "quantos dos dilatados perfuraram", e é a segunda pergunta que responde ao que se quis saber.

Um contraponto honesto, porque ele existe e a fonte o registra: os 18% de perfuração dessa série são maiores do que os 1,5 a 9,0% descritos na literatura revisada pelos próprios autores, e o tempo médio de cirurgia, 231 minutos, também é alto — os autores atribuem os dois ao fato de ser um hospital universitário com residentes em formação constante. É uma explicação plausível e não verificada dentro do estudo. Ela não invalida a comparação interna entre dilatados e não dilatados, que usa o mesmo serviço dos dois lados; invalida a transposição direta do 18% para outro contexto.

Quando o esôfago já não serve: a doença avançada

Cerca de 10 a 15% dos doentes com acalasia chegam à fase terminal: esôfago tortuoso, em sigmoide, com grande retenção, quase sempre depois de falha de tratamentos anteriores. A partir daí a discussão deixa de ser sobre relaxar o esfíncter e passa a ser sobre o que fazer com um órgão que não esvazia.

A esofagectomia subtotal ainda é apontada como a principal opção eletiva, e é a mais cara em complicações: a revisão sistemática brasileira registra morbidade de 19 a 69% e mortalidade de 0 a 9% nas séries que reuniu. Contra isso posicionam-se duas alternativas de porte menor. A mucosectomia esofágica preserva a parede e retira a mucosa doente. A esofagocardioplastia de Serra-Dória associa cardioplastia a uma derivação em Y de Roux e é usada sobretudo no megaesôfago recidivado depois de miotomia. As duas ainda são cirurgias de grande porte, porque envolvem anastomose digestiva.

A terceira via é manter o esôfago e apenas ampliar a saída, fazendo miotomia laparoscópica também no avançado. A revisão conclui que isso pode ser feito, com taxas menores de complicação e de mortalidade do que as cirurgias de grande porte, com reservas quanto ao resultado tardio — e a reserva é anatômica: mantém-se in situ uma bolsa inerte, com esvaziamento comprometido, o que acumula risco de regurgitação, broncoaspiração e neoplasia ao longo dos anos.

A escala de Uberlândia mostra como isso se distribui na prática de um serviço de referência. Das 147 operações para acalasia no período, apenas 44 (29,9%) foram a miotomia laparoscópica com fundoplicatura no não avançado. As outras 103 foram 8 miotomias laparoscópicas em doença avançada, 17 miotomias por via aberta, 46 operações de Thal-Hatafuku, 15 Thal-Hatafuku associadas a esofagectomia longitudinal, 14 esofagectomias subtotais e 3 operações de Serra-Dória. A operação que a prova ensina como padrão foi menos de um terço do que o serviço fez.

Uma cautela de leitura sobre a própria revisão. Ela declara 14 estudos e 1.862 doentes, separados em 213 no grupo da miotomia e 1.649 no de grandes cirurgias, e informa que um estudo saiu da metanálise por dados faltantes, restando 13 estudos e 686 doentes. O estudo excluído tinha 963 doentes, e 1.649 menos 963 dá exatamente 686 — ou seja, o total declarado da metanálise contabiliza apenas o braço das grandes cirurgias, embora quatro gráficos de floresta tenham sido gerados, dois deles para o grupo da miotomia. O número que fecha com "13 estudos" é 899, não 686. As contagens por grupo permanecem utilizáveis; o total agregado da metanálise, não.

O câncer que mora dentro do megaesôfago

Toda descrição séria de acalasia inclui uma endoscopia digestiva alta, e ela não está ali para diagnosticar a acalasia. Está ali, nas palavras da casuística de Uberlândia, para afastar a associação com carcinoma escamoso do esôfago — e para excluir a pseudoacalasia, o quadro em que um tumor da junção infiltra o plexo e imita o distúrbio motor.

O mecanismo é a estase. O alimento retido por anos numa bolsa que não esvazia mantém esofagite crônica por fermentação e irritação química, e essa inflamação sustentada é o terreno do carcinoma de células escamosas. Por isso a acalasia figura, ao lado da ingestão de soda cáustica, da tilose e da síndrome de Plummer-Vinson, entre os fatores que puxam a hipótese para o escamoso — e não para o adenocarcinoma, cuja rota é a do refluxo e do esôfago de Barrett.

A consequência prática é uma inversão de leitura que a prova adora. Numa acalasia de longa data, a disfagia é o sintoma de base: ela já existe há anos e é paradoxal, para sólidos e líquidos. Uma mudança de padrão dentro dessa disfagia crônica é o sinal de alarme — quando ela deixa de oscilar e passa a progredir de maneira contínua, quando volta depois de anos de bom resultado cirúrgico, ou quando vem com perda de peso desproporcional ao que o doente vinha comendo. Nesse doente, disfagia nova não é recidiva presumida até prova em contrário: é indicação de endoscopia.

Isso também redefine o que significa "falha de tratamento". A casuística de Uberlândia teve 5 de 33 (15,1%) com disfagia persistente após um ano, e a série de Recife teve um único doente com Eckardt acima de três aos três meses — um doente cuja endoscopia pré-procedimento já sugeria distúrbio espástico e cujo esofagograma era tipo I, isto é, o esôfago menos dilatado da série. A falha da régua radiológica aparece exatamente onde ela é cega: ela mede diâmetro, e espasmo não dilata. O doente que menos dilatava foi o único que a operação não resolveu.

Fecha-se assim o círculo do capítulo. A régua radiológica é a que o serviço público brasileiro consegue aplicar, e responde bem à pergunta "quanto este esôfago já se perdeu". A régua manométrica responde a outra pergunta, "como este esôfago se comporta", e é a única que enxerga o subtipo espástico. Quando as duas estão disponíveis, elas não competem: uma estadia a perda anatômica e decide sobre ressecar; a outra descreve o padrão funcional e decide sobre dilatar. Quando só uma está disponível, é preciso saber o que a outra teria visto.

04

As duas réguas, o escore e a escada, lado a lado

Três tabelas e um escore resolvem quase todo enunciado do tema: a que confronta os dois sistemas que numeram a acalasia, a que traduz o escore de Eckardt em ponto de corte — e mostra que o corte não é lido igual pelas fontes brasileiras —, e a que ordena o que o protocolo nacional apenas lista.

  1. 1Confirmar que a disfagia é paradoxal: para sólidos e líquidos desde o início, às vezes pior para líquidos. Disfagia que começa por carne e pão e progride para líquidos é obstrução mecânica, não distúrbio motor.
  2. 2Pedir sorologia para doença de Chagas em todo doente brasileiro com acalasia — dois testes de princípios diferentes —, e procurar, na sorologia positiva, o coração e o cólon do mesmo doente.
  3. 3Fazer endoscopia digestiva alta antes de qualquer terapia: ela existe para excluir pseudoacalasia por tumor da junção e para afastar carcinoma escamoso já instalado, não para diagnosticar acalasia.
  4. 4Estadiar. Com manometria de alta resolução disponível, sair da IRP e da aperistalse para o subtipo de Chicago. Sem ela, usar a esofagografia contrastada e a classificação radiológica de Rezende–Mascarenhas ou de Ferreira-Santos, e registrar o diâmetro em centímetros no laudo.
  5. 5Iniciar as medidas alimentares do protocolo nacional e, na falta de resposta, a nifedipina sublingual antes das refeições — lembrando que ela está contraindicada na cardiopatia grave, que é frequente no mesmo doente chagásico.
  6. 6Escolher a terapia definitiva pelo grau e pelo subtipo: esôfago não avançado com esfíncter tratável vai para miotomia, laparoscópica com fundoplicatura ou endoscópica peroral; esôfago terminal, tortuoso e em sigmoide entra na discussão de ressecção ou derivação.
  7. 7Reavaliar pelo escore de Eckardt e por peso. Disfagia que muda de padrão depois de anos, ou que volta após bom resultado, é indicação de endoscopia antes de ser rotulada como recidiva.

Grau I — calibre inalterado, abaixo de 4 cm

Discreta retenção de contraste e trânsito lento. O esôfago ainda tem a forma de um esôfago; o que já falhou é a saída. Terapia dirigida ao esfíncter resolve.

Grau II — aumento moderado, 4 a 7 cm

Retenção considerável de contraste e ondas terciárias, com estase por volta dos trinta minutos. É o grau em que a maioria das séries brasileiras opera, e o corpo do esôfago ainda tem atividade motora.

Grau III — grande dilatação e hipotonia, 7 a 10 cm

Estase significativa com resíduo alimentar e alongamento sigmoide inicial. É aqui que os artigos brasileiros discordam sobre chamar de avançado, e é aqui que a escolha entre miotomia e ressecção deixa de ser óbvia.

Grau IV — dolicomegaesôfago, acima de 10 cm

Órgão atônico, alongado e tortuoso, com resíduo permanente. A partir daqui a discussão é sobre o que fazer com uma bolsa que não esvazia, e a régua de Chicago não tem sequer um tipo IV para comparar.

O que o enunciado dizRégua de Chicago (manometria de alta resolução)Régua radiológica brasileira (Rezende–Mascarenhas / Ferreira-Santos)
O que medePadrão de pressurização do corpo do esôfago, com relaxamento incompleto do esfíncter medido pela pressão de relaxamento integradaDiâmetro do esôfago e retenção do contraste na esofagografia, com o tempo de estase na variante Ferreira-Santos
Tipo ISem pressurização — esôfago inerteCalibre inalterado, abaixo de 4 cm, pequena estase aos 5 minutos
Tipo IIPressurização panesofágica; melhor resposta a qualquer terapiaAumento moderado, 4 a 7 cm, ondas terciárias, estase aos 30 minutos
Tipo IIIEspástico, com contrações prematuras; pior resposta à dilatação; não é encontrado na esofagopatia chagásicaGrande dilatação e hipotonia, 7 a 10 cm, alongamento sigmoide, resíduo alimentar
Tipo IVNão existe na classificação de acalasiaDolicomegaesôfago acima de 10 cm, atônico e tortuoso
Vocabulário que denunciaPressurização, contração prematura, IRP, aperistalse, deglutições múltiplas rápidasRetenção de contraste, ondas terciárias, estase, dolicomegaesôfago, o centímetro
Disponibilidade no BrasilChegou à América Latina em 2008; ausente da rede pública em vários estadosEsofagografia contrastada, disponível em qualquer serviço com radiologia

Escore de Eckardt: quatro sintomas, doze pontos — e duas leituras do mesmo corte

PontosPerda de pesoDisfagiaRegurgitaçãoDor retroesternal
0NenhumaNenhumaNenhumaNenhuma
1Menos de 5 kgOcasionalOcasionalOcasional
25 a 10 kgDiáriaDiáriaDiária
3Mais de 10 kgA cada refeiçãoA cada refeiçãoA cada refeição
Leitura A — casuísticas de Uberlândia e de RecifeEscore de 0 a 3 significa remissão; de 4 a 6, falha terapêutica; acima de 6, falha
Leitura B — ensaio randomizado de São PauloEscore igual ou maior que 3 categoriza o doente como sintomático, e a persistência com escore igual ou maior que 3 define falha
Onde as duas discordamNo escore 3 exato: sucesso pela leitura A, falha pela leitura B

A escada que o protocolo nacional lista sem ordenar

DegrauO que éQuem entraO que o dado brasileiro mostra
Medidas alimentaresMastigar bem, pequenos volumes, preferir líquidos e pastosos, evitar irritantes e não comer antes de deitarTodos, desde o diagnósticoÉ o primeiro item da Tabela 3 do protocolo nacional e não sai da prescrição em nenhum degrau seguinte
Nifedipina e dinitrato de isossorbidaRelaxantes do esfíncter esofágico inferior, por via sublingual, antes das refeiçõesSintomas sem resposta às medidas não farmacológicasEfeito essencialmente sintomático; alta taxa de eventos adversos prejudica a adesão; nifedipina proibida na cardiopatia grave
Toxina botulínica no esfíncterInjeção endoscópica que relaxa o esfíncter por mesesQuem não tolera terapia definitiva por risco cirúrgico ou idadeO protocolo a lista antes da dilatação; a hierarquia internacional a reserva para quem não pode ser tratado em definitivo
Dilatação pneumática por balãoRuptura controlada das fibras do esfíncter por balão endoscópicoDoença não avançada, com melhor resposta no subtipo II de ChicagoEm Uberlândia, 30 de 44 operados (68%) haviam sido dilatados antes e todos acabaram na mesa
Miotomia laparoscópica com fundoplicaturaHeller-Pinotti: 6 cm de miotomia no esôfago, 3 cm no estômago e três planos de sutura cobrindo a mucosaDoença não avançada; padrão de referência das séries brasileirasSucesso de 84,1% pelo Eckardt em 44 doentes; refluxo tardio clínico em 9 de 33 (27,2%)
Miotomia endoscópica peroralPOEM: túnel submucoso e secção da camada circular, sem válvula antirrefluxoDoença não avançada; alternativa endoscópica, também aplicável ao subtipo espásticoMesmo controle sintomático da laparoscopia; esofagite aos 12 meses em 11 de 17 (64,7%) contra 2 de 18 (11,1%)
Ressecção e derivaçãoEsofagectomia subtotal, mucosectomia esofágica ou esofagocardioplastia de Serra-DóriaMegaesôfago terminal, tortuoso, em sigmoide, após falha das terapias anterioresMorbidade de 19 a 69% e mortalidade de 0 a 9% nas séries reunidas pela revisão sistemática brasileira

A Classificação de Chicago não tem tipo IV para acalasia. Um enunciado que fala em acalasia tipo IV está, por definição, usando a régua radiológica brasileira, e o resto da vinheta deve ser lido em centímetros.

O corpo do protocolo nacional prescreve nifedipina 10 mg e dinitrato de isossorbida 2,5 a 5 mg por via sublingual; a Tabela 7 do mesmo documento omite a via nas duas linhas e o piso de 2,5 mg do nitrato. O texto é a versão completa.

A revisão sistemática brasileira chama de avançados os graus III e IV, com diâmetro acima de 6 cm; a régua radiológica brasileira coloca a fronteira do grau III em 7 cm. Um esôfago de 6,5 cm muda de categoria conforme a fonte, e com ela muda a operação discutida.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual classificação estadia a acalasia

Manométrica — Classificação de Chicago 4.0

O diagnóstico depende de relaxamento incompleto do esfíncter medido pela pressão de relaxamento integrada e de aperistalse do corpo do esôfago, e o subtipo I, II ou III sai do padrão de pressurização. A versão 4.0 acrescentou a categoria de diagnóstico inconclusivo e determinou que distúrbio motor primário só seja considerado na ausência de doença do refluxo.

Herbella FAM, Malafaia O, Patti MG. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2021;34(4):e1624

Radiológica — Rezende–Mascarenhas e Ferreira-Santos

Os graus I a IV saem do diâmetro do esôfago na esofagografia contrastada, da retenção do contraste e, na variante Ferreira-Santos, do tempo de estase. O serviço de Recife registra ter adotado essa régua porque a manometria de alta resolução não está disponível na rede pública do estado; em Uberlândia, apenas 3 de 44 operados fizeram o exame.

França IR et al. Rev Col Bras Cir. 2022;49:e20223244; Chadu JB Jr et al. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2024;37:e1803

Na prova

O vocabulário do enunciado entrega o sistema. Pressurização panesofágica, contração prematura, pressão de relaxamento integrada e a palavra manometria pertencem a Chicago; retenção de contraste, ondas terciárias, dolicomegaesôfago, estase aos trinta minutos e o diâmetro em centímetros pertencem à régua radiológica. Um detalhe fecha a identificação sozinho: como Chicago não classifica tipo IV de acalasia, qualquer menção a tipo IV é radiológica. Cenário de rede pública, hospital universitário do interior ou doente com sorologia chagásica costuma vir com a régua brasileira; centro terciário com manometria de alta resolução disponível, com a de Chicago.

A partir de que ponto o megaesôfago é avançado

Graus III e IV, acima de 6 cm — revisão sistemática brasileira de 2024

Acalasia terminal é definida como megaesôfago avançado dos graus III e IV de Rezende–Mascarenhas, com dolicomegaesôfago, tortuosidade importante e diâmetro esofágico acima de 6 cm, ocorrendo em 10 a 15% dos doentes. Foi com essa definição que os autores reuniram 1.862 doentes e discutiram esofagectomia, mucosectomia e Serra-Dória.

Chaib PS et al. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2024;37:e1809

Grau III ainda é não avançado — casuística de Uberlândia, mesma revista e mesmo ano

O estudo se apresenta como tratamento da acalasia não avançada e excluiu explicitamente os doentes com megaesôfago avançado, mas metade da coorte incluída era grau III: 22 de 44. Na régua radiológica adotada, o grau III vai até 10 cm, e a fronteira do grau III começa em 7 cm, não em 6.

Chadu JB Jr et al. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2024;37:e1803

Na prova

Quando o enunciado traz o diâmetro em centímetros e a descrição morfológica do esôfago, ele já resolveu a questão sem precisar do rótulo — tortuosidade, formato em sigmoide e resíduo alimentar descrevem doença terminal em qualquer das duas definições. Quando traz apenas o rótulo, procure o que o resto da vinheta pede: se a alternativa em disputa é entre miotomia e esofagectomia, o avaliador está usando a definição que inclui o grau III no avançado; se as alternativas se concentram em qual miotomia fazer, está usando a definição que deixa o grau III de fora. Enunciado que cita nominalmente a revisão sistemática ou fala em acalasia terminal já declarou o recorte.

Qual miotomia é a primeira operação

Miotomia laparoscópica com fundoplicatura parcial — a operação de Heller-Pinotti

A série de Uberlândia relata sucesso de 84,1% pelo escore de Eckardt em 44 doentes, sem óbito e sem complicação precoce, com refluxo tardio clínico em 9 de 33 (27,2%). No ensaio randomizado, esse braço teve esofagite aos 12 meses em 2 de 18 (11,1%). O fundo gástrico dobrado sobre a miotomia é, ao mesmo tempo, proteção da mucosa e válvula antirrefluxo.

Chadu JB Jr et al. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2024;37:e1803; de Moura ETH et al. World J Gastroenterol. 2022;28(33):4875-4889

Miotomia endoscópica peroral — a POEM

No mesmo ensaio randomizado, o controle sintomático foi equivalente em 1, 6 e 12 meses, e o tempo de anestesia e de procedimento foi significativamente menor. A qualidade de vida melhorou em todos os domínios apenas nesse braço. O custo é a esofagite: 11 de 17 (64,7%) aos 12 meses. Sem abertura da mucosa sobre a miotomia, não há como construir válvula antirrefluxo pela luz.

de Moura ETH et al. World J Gastroenterol. 2022;28(33):4875-4889; França IR et al. Rev Col Bras Cir. 2022;49:e20223244

Na prova

O desfecho citado no enunciado revela o recorte. Se o texto fala em alívio da disfagia, em escore de Eckardt ou em tempo de procedimento, as duas técnicas empatam e a diferença cobrada será outra. Se fala em esofagite, pHmetria, uso de inibidor de bomba de prótons no pós-operatório ou em válvula antirrefluxo, o eixo é o refluxo e a assimetria entre as técnicas é grande. Cenário de subtipo espástico ou de doente já operado por via abdominal costuma puxar para a via endoscópica; cenário de rede pública com disponibilidade cirúrgica consolidada, para a laparoscópica.

Onde fica o corte do escore de Eckardt

Escore de 0 a 3 é remissão — casuísticas de Uberlândia e de Recife

Escore menor ou igual a três significa doença sob controle: os estágios 0 e I, que vão de 0 a 3 pontos, têm impacto clínico de remissão, e a falha terapêutica começa no estágio II, de 4 a 6 pontos. Foi com esse corte que a série de Uberlândia contou 37 doentes em remissão e a de Recife contou 26 de 27.

Chadu JB Jr et al. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2024;37:e1803; França IR et al. Rev Col Bras Cir. 2022;49:e20223244

Escore igual ou maior que 3 é sintomático — ensaio randomizado de São Paulo

O protocolo do ensaio categoriza como sintomático o doente com escore maior ou igual a três, e define falha de tratamento como persistência de sintomas com escore maior ou igual a três. O mesmo doente com escore exatamente três está em remissão por um critério e em falha pelo outro.

de Moura ETH et al. World J Gastroenterol. 2022;28(33):4875-4889

Na prova

O corte importa quando a vinheta escolhe justamente o valor três, e enunciado bem construído raramente é ambíguo por acaso. Escore de 0 a 2 é remissão em qualquer leitura; escore de 4 ou mais é falha em qualquer leitura. Quando o número é exatamente três, procure a fonte que o enunciado cita e a linguagem que usa: quem fala em remissão da doença está na leitura das casuísticas; quem fala em doente sintomático ou em falha terapêutica está na do ensaio. E quando o enunciado não cita fonte, o corte que circula na literatura brasileira de casuística é o de menor ou igual a três como sucesso.

06

Caso resolvido

Homem de 52 anos, natural do norte de Minas Gerais, chega ao ambulatório de cirurgia de um hospital universitário com disfagia há cerca de quatro anos. Descreve dificuldade tanto para carne quanto para água desde o começo, e diz que às vezes o líquido "para no peito" mais do que o sólido. Regurgita restos de comida à noite e perdeu 12 kg. Já fez duas dilatações endoscópicas em outro serviço, com alívio de poucos meses cada. Sorologia para doença de Chagas positiva em dois testes de princípios diferentes. Endoscopia digestiva alta com esôfago dilatado, resíduo alimentar, mucosa sem lesão e cárdia de transposição difícil. Esofagografia contrastada mostra esôfago de 8 cm de diâmetro, com grande retenção de contraste e alongamento inicial, sem tortuosidade acentuada. O serviço não dispõe de manometria de alta resolução.
achado
Disfagia paradoxal — para sólidos e líquidos desde o início, às vezes pior para líquidos — é assinatura de distúrbio motor, não de obstrução mecânica. A obstrução começa por carne e pão e só depois alcança líquidos.
achado
Sorologia positiva em dois testes de princípios diferentes fecha a etiologia chagásica. Isso não muda o alívio mecânico da disfagia, mas obriga a procurar o coração e o cólon do mesmo doente antes de qualquer anestesia.
achado
A endoscopia pesquisa pseudoacalasia por tumor da junção e carcinoma sobre a estase crônica. Mucosa sem lesão não exclui infiltração submucosa nem pseudoacalasia: dificuldade de transposição da junção, evolução atípica ou suspeita persistente justificam investigação adicional, como tomografia e ecoendoscopia, conforme o contexto.
estadiamento
Sem manometria de alta resolução, o estadiamento é radiológico. Oito centímetros com grande retenção e alongamento inicial é grau III de Rezende–Mascarenhas, na faixa de 7 a 10 cm. Não há subtipo de Chicago a atribuir: o exame que o define não foi feito.
fronteira
Grau III é a faixa em que as fontes brasileiras discordam sobre o rótulo avançado. A descrição resolve o impasse sem precisar do rótulo: há dilatação e alongamento inicial, mas não tortuosidade acentuada nem formato em sigmoide, isto é, o esôfago ainda tem geometria preservada.
conduta
Com o esôfago ainda não tortuoso, a terapia dirigida ao esfíncter continua indicada: miotomia, laparoscópica com fundoplicatura parcial ou endoscópica peroral. As duas dilatações prévias sem sucesso duradouro reforçam a indicação e não contraindicam a operação — a série brasileira não encontrou associação entre dilatação prévia e perfuração intraoperatória.
conduta
Enquanto aguarda o procedimento, entram as medidas alimentares do protocolo nacional — pequenos volumes, alimentos pastosos, não deitar após comer — que reduzem estase e risco de broncoaspiração. A nifedipina sublingual antes das refeições só entra depois de avaliado o coração: cardiopatia chagásica grave a contraindica.
seguimento
O desfecho se mede pelo escore de Eckardt e pelo peso. Disfagia que volte depois de bom resultado, ou que mude de padrão, é indicação de endoscopia antes de ser tratada como recidiva mecânica.
07

Agora feche você

Mulher de 38 anos, sem antecedentes, com disfagia para sólidos e líquidos há oito meses e perda de 4 kg. Sorologia para doença de Chagas negativa. Endoscopia sem lesão de mucosa e com esôfago pouco dilatado. Esofagografia com esôfago de calibre praticamente normal e discreta retenção de contraste. Encaminhada a um centro terciário, faz manometria de alta resolução: pressão de relaxamento integrada elevada, ausência de peristaltismo normal e contrações prematuras de padrão distal em 40% das deglutições. Ela pergunta se a dilatação com balão resolve, porque leu que essa é a alternativa menos invasiva.
achado
Disfagia paradoxal com perda de peso e sorologia negativa aponta acalasia idiopática. O esofagograma de calibre quase normal seria grau I na régua radiológica — o esôfago ainda não se perdeu.
achado
A manometria muda o eixo da leitura. Pressão de relaxamento integrada elevada e ausência de peristaltismo confirmam acalasia; contrações prematuras de padrão distal em uma fração relevante das deglutições descrevem o subtipo espástico, o tipo III de Chicago.
conduta
A dilatação pneumática é a melhor opção no subtipo espástico? Compare-a com miotomia e explique o principal cuidado de seguimento.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler o algarismo do enunciado na classificação errada Atrai porque os dois sistemas usam I, II e III e ninguém escreve por extenso qual está em uso. O tipo II de Chicago é o de melhor prognóstico com dilatação; o tipo II radiológico é um esôfago de 4 a 7 cm, e a informação de prognóstico simplesmente não está ali. Trocar um pelo outro faz o candidato responder sobre resposta terapêutica lendo uma medida de diâmetro. O sinal que resolve: Chicago não tem tipo IV.
  2. 2Concluir que a dilatação prévia perfura o esôfago na cirurgia Atrai porque a frase verdadeira soa como prova: cinco das oito perfurações da série de Uberlândia ocorreram em doentes já dilatados. Mas o denominador da pergunta é outro. Entre os 30 dilatados, cinco perfuraram, 16,7%; entre os 14 não dilatados, três perfuraram, 21,4%. A taxa é maior em quem nunca foi dilatado, e o teste dá p igual a 0,82. A direção da conclusão inverte quando se troca 'quantos dos perfurados foram dilatados' por 'quantos dos dilatados perfuraram'.
  3. 3Ler a lista do protocolo nacional como escada terapêutica Atrai porque a Tabela 3 do protocolo de Chagas enumera toxina botulínica, depois dilatação, depois tratamento cirúrgico, e listas numeradas parecem sequências. Ela é inventário do que existe, não ordem de tentativa: o próprio texto do documento manda encaminhar ao serviço especializado para considerar cirurgia, dilatação pneumática ou toxina botulínica, sem estabelecer preferência. Lida como escada, a lista promove a toxina botulínica — que a prática internacional reserva a quem não tolera terapia definitiva — a primeira linha de quem tolera.
  4. 4Comparar refluxo medido por sintoma com refluxo medido por endoscopia Atrai porque os números vêm com a mesma etiqueta. Os 64,7% e 11,1% do ensaio randomizado brasileiro são esofagite erosiva na endoscopia aos doze meses; os 27,2% da série de Uberlândia são refluxo diagnosticado pelo quadro clínico, com confirmação endoscópica em um único doente, e os próprios autores lembram que séries com confirmação objetiva descrevem cerca de 10%. Boa parte do refluxo pós-miotomia é assintomática, o que empurra o número medido por endoscopia para cima e o medido por sintoma para baixo, na mesma operação.
  5. 5Aceitar acalasia espástica tipo III num doente com sorologia chagásica positiva Atrai porque tipo III é um subtipo real, cobrado com frequência, e a sorologia positiva parece só acrescentar contexto. Mas na esofagopatia chagásica o efeito tônico colinérgico sobre a musculatura lisa está comprometido, e o padrão espástico do tipo III não é descrito nessa etiologia. Uma vinheta que reúne as duas coisas está pedindo que se questione uma delas — ou a etiologia atribuída, ou o subtipo manométrico.
  6. 6Tomar pHmetria positiva na acalasia como prova de refluxo Atrai porque a Classificação de Chicago 4.0 determina que distúrbio motor primário só seja considerado na ausência de doença do refluxo, o que manda fazer o exame. O alimento retido fermenta dentro do esôfago que não esvazia e acidifica o meio sem refluxo gástrico algum — é o pseudorrefluxo, e o traçado tem características próprias. Interpretar essa acidez como doença do refluxo e indicar fundoplicatura é operar o oposto do problema.
  7. 7Chamar de recidiva a disfagia que volta anos depois da miotomia Atrai porque a doença é crônica, o alívio raramente é total e o rótulo de recidiva explica tudo sem custo. Só que a endoscopia da acalasia existe também para afastar carcinoma escamoso, cuja incidência aumenta com a estase crônica. Mudança de padrão dentro de uma disfagia antiga — perda da flutuação, progressão contínua, perda de peso desproporcional — é indicação de endoscopia antes de qualquer reintervenção mecânica.
  8. 8Esperar que a régua radiológica enxergue espasmo Atrai porque ela é a régua disponível e funciona bem para o que mede. A esofagografia mede diâmetro e estase, e espasmo não dilata: o único doente da série de Recife que permaneceu com escore de Eckardt acima de três aos três meses tinha esofagograma tipo I, o menos dilatado da coorte, e suspeita de distúrbio espástico já na endoscopia prévia. A falha da classificação aparece exatamente onde ela é cega.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro (disfagia para sólidos e líquidos, regurgitação, 'bico de pássaro') é de acalasia; a manometria esofágica de alta resolução confirma o diagnóstico (aperistalse do corpo e relaxamento incompleto do EEI) e classifica os subtipos — correta. pHmetria avalia refluxo, não motilidade. TC de tórax não define o distúrbio motor. Ecoendoscopia é útil para descartar pseudoacalasia/tumor, mas não é o confirmatório do distúrbio. Cintilografia gástrica avalia esvaziamento do estômago, não do esôfago.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Duas réguas numeram a acalasia e medem eixos diferentes: Chicago sai da manometria de alta resolução (pressão de relaxamento integrada elevada mais aperistalse; subtipos I sem pressurização, II com pressurização panesofágica e melhor prognóstico, III espástico e pior resposta à dilatação) e não tem tipo IV; a radiológica brasileira de Rezende–Mascarenhas e Ferreira-Santos sai da esofagografia e mede diâmetro — abaixo de 4 cm, 4 a 7, 7 a 10, acima de 10. Sorologia para Chagas em todo doente brasileiro. Endoscopia para excluir pseudoacalasia e carcinoma escamoso. O protocolo nacional de Chagas fixa nifedipina 10 mg e dinitrato de isossorbida 2,5 a 5 mg por via sublingual antes das refeições, contraindicando a nifedipina na cardiopatia grave, e lista cirurgia, dilatação e toxina botulínica sem ordenar. Miotomia laparoscópica com fundoplicatura e miotomia endoscópica peroral aliviam a disfagia igual; a diferença está no refluxo, porque só a primeira deixa uma válvula.

em 30 dias

Reconstrua o capítulo por três perguntas. Primeira: como identificar a régua pelo vocabulário do enunciado, e por que a menção a tipo IV encerra a dúvida sozinha. Segunda: por que o grau III é chamado de não avançado por uma casuística e de avançado por uma revisão sistemática da mesma revista e do mesmo ano, e o que fazer com um esôfago de 6,5 cm. Terceira: por que a taxa de perfuração intraoperatória entre os dilatados (5 de 30, 16,7%) é menor que entre os não dilatados (3 de 14, 21,4%) enquanto cinco das oito perfurações ocorreram em dilatados — e refaça as duas contas até que a inversão fique óbvia. Depois recite, sem consultar: os cortes de diâmetro da régua radiológica, os quatro sintomas do escore de Eckardt, a divergência sobre o escore 3 exato, e as taxas de esofagite aos doze meses no ensaio randomizado com seus denominadores reais, 11 de 17 e 2 de 18.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 47 anos, procedente do norte de Minas Gerais, chega ao ambulatório com disfagia para sólidos e líquidos há cinco anos, regurgitação de restos alimentares durante a noite e perda de 14 kg. Já fez uma dilatação endoscópica, com alívio de alguns meses. Conduza a anamnese, defina o que pedir e monte a conduta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Acalasia e distúrbios motores do esôfago – Acalasia e megaesôfago: duas réguas com o mesmo numeral — Preparatório para provas | OsceLabs