Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

Câncer de pâncreas e tumores periampulares: a régua é vascular, e a drenagem que parece cuidar é a que cobra

A vinheta é sempre a mesma — icterícia indolor e progressiva, colúria, acolia, emagrecimento, vesícula palpável que não dói. O capítulo de icterícia obstrutiva leva o aluno até a porta e para nela: manda pedir a tomografia em fases e diz que é ela que decide entre operação, neoadjuvância e paliação. Este capítulo começa onde aquele termina, e a primeira surpresa é que quem decide não é o tamanho do tumor, é a circunferência do vaso.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 62 anos, com diagnóstico de adenocarcinoma de cabeça de pâncreas, sem sinais de doença metastática ou invasão vascular à tomografia, é considerada candidata a tratamento cirúrgico com intenção curativa. Qual é a operação classicamente indicada para tumores ressecáveis da cabeça do pâncreas?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do adenocarcinoma da cabeça do pâncreas e dos demais tumores periampulares no adulto — a decisão de ressecar, a de drenar antes e a de não fazer nem uma coisa nem outra. Ele existe porque a apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo tinha, até aqui, o câncer de esôfago com capítulo próprio, o câncer gástrico com capítulo próprio e os tumores hepáticos com capítulo próprio — e o pâncreas, que dá nome à operação mais característica da especialidade, não tinha nenhum. É a célula vazia de uma grade oncológica que já estava desenhada em três das quatro colunas.

A vaga foi aberta por escrito pelo vizinho. O capítulo de icterícia obstrutiva desta mesma apostila nomeia os quatro tumores periampulares, ensina que a tomografia em fases mede a relação do tumor com a artéria mesentérica superior, o tronco celíaco e a veia porta, e encerra dizendo que é o exame que decide se o caso vai para duodenopancreatectomia, para neoadjuvância ou para paliação. Ele prescreve o exame e nomeia os três destinos, e então para — porque nenhum dos três tinha capítulo para onde rotear. O que segue é esse destino.

Há um segundo motivo para o capítulo: o tumor pancreático costuma ser apresentado pelo padrão clínico, não pelo nome. Icterícia progressiva, colúria, acolia, perda ponderal e vesícula distendida indolor localizam uma obstrução distal e levantam suspeita de tumor periampular. A resolução não depende de encontrar a palavra “pâncreas” no enunciado, mas de reconhecer o padrão, pedir tomografia em protocolo pancreático e usar a relação com artérias e veias para definir ressecabilidade.

03

O que muda decisão

Quatro tumores, uma operação — e é por isso que o diagnóstico costuma ser pós-operatório

A revisão sistemática brasileira sobre drenagem biliar abre com a definição que organiza o tema: as neoplasias periampulares representam cinco por cento dos cânceres digestivos, com pico na sétima década de vida e predomínio masculino de dois para um. O quadro mais comum é icterícia, perda de peso e dor abdominal — e a mesma fonte quantifica: icterícia em setenta a oitenta por cento dos doentes, dor abdominal em trinta e três por cento.

Periampular não é um tumor, é um endereço. Quatro doenças desembocam no mesmo ponto e produzem o mesmo quadro: adenocarcinoma de cabeça de pâncreas, colangiocarcinoma distal, ampuloma e adenocarcinoma de duodeno periampular. O de cabeça de pâncreas é o mais frequente e o pior, e os quatro recebem a mesma operação — quando apresentação e operação coincidem, o diferencial só se fecha no laudo do espécime.

Isso muda o que a prova pode cobrar. Ela não pode pedir que você distinga ampuloma de colangiocarcinoma distal na beira do leito, porque nem o cirurgião distingue antes de operar. O que ela cobra é o passo anterior — reconhecer o padrão periampular e não confundi-lo com a obstrução alta — e o passo posterior, que é decidir a conduta. O sinal de Courvoisier, vesícula distendida e indolor, funciona nessa fronteira: a vesícula só se distende quando a obstrução é recente, progressiva e distal, o que aponta para tumor e afasta o cálculo crônico, que a deixaria fibrosada.

A exceção técnica está no bloco de divergências e vale antecipar: a papilectomia endoscópica tem morbidade e mortalidade menores que as do Whipple em todas as faixas, e mesmo assim fica restrita a lesões benignas e pequenas, porque a recidiva chega a trinta e cinco por cento. É o primeiro exemplo, aqui, do número mais bonito não ser o que decide.

A régua é vascular, e não é o tamanho do tumor

O erro mais comum é transportar para o pâncreas a lógica em que o diâmetro tumoral decide sozinho. A ressecabilidade anatômica é definida principalmente pela relação com o tronco celíaco, a artéria mesentérica superior, a artéria hepática comum e o eixo porta–veia mesentérica superior, além da busca de metástases. A tomografia deve informar graus de contato, irregularidade ou oclusão venosa e se há segmento proximal e distal que permita reconstrução; escrever apenas “contato vascular” é insuficiente.

A fonte brasileira de dois mil e oito enuncia a consequência dessa régua em uma frase: o índice de ressecabilidade do carcinoma pancreático é da ordem de dez a vinte por cento, por doença localmente avançada ou metástase a distância ao diagnóstico. Não é estatística de acesso ao serviço; é a descrição de uma doença que cresce colada em vasos e dissemina cedo.

A série de trezentos e dez doentes da Santa Casa de São Paulo permite medir isso num serviço real. Dela, apenas trinta e oito puderam ser submetidos a duodenopancreatectomia e seguidos adequadamente — os outros duzentos e setenta e dois foram excluídos, na maioria por doença localmente avançada ou metastática ao diagnóstico. Trinta e oito sobre trezentos e dez é doze vírgula três por cento, dentro da faixa clássica e perto do piso dela. É raro um artigo entregar numerador e denominador do funil inteiro; este entrega, e a soma fecha.

Contato venoso e contato arterial não são categorias binárias. Pela régua atual, contato com veia mesentérica superior ou porta de até 180°, sem irregularidade do contorno, ainda cabe como ressecável. Contato venoso maior que 180°, contato menor com deformidade, ou trombose curta, desde que exista vaso reconstruível acima e abaixo, define doença borderline ressecável e geralmente conduz a tratamento neoadjuvante antes da tentativa de ressecção. Do lado arterial, contato de até 180° com a artéria mesentérica superior ou contato curto reconstruível com a hepática comum também pode ser borderline; contato maior que 180° com mesentérica superior ou tronco celíaco caracteriza doença localmente avançada. O ponto não é “veia pode e artéria não pode”, mas o grau, a deformidade e a possibilidade de reconstrução.

A drenagem biliar antes da operação: um condicional que a prova costuma inverter

Aqui está a divergência central do capítulo, e ela tem forma de armadilha lógica. A drenagem biliar pré-operatória foi desenvolvida a partir dos anos sessenta com um raciocínio impecável: a icterícia obstrutiva e a hiperbilirrubinemia foram identificadas como fatores de risco para complicação peri e pós-operatória; logo, baixar a bilirrubina antes deveria reduzi-las. Os defensores acrescentam a lista de danos da colestase — disfunção hepática, má absorção de lipídios e vitaminas lipossolúveis, coagulopatia, colangite, nefropatia e, em estágio final, insuficiência hepática.

A revisão sistemática de dois mil e dezoito testou esse raciocínio contra oito estudos, com mil cento e dezesseis doentes, amostras de quarenta e oito a duzentos e oitenta e idade média de quarenta e oito a sessenta e nove anos. Entre os oito há um único ensaio clínico randomizado, holandês, com cento e noventa e seis doentes; os outros sete são coortes. A conclusão vem em uma linha: a intervenção pré-operatória leva a mais complicação infecciosa e mais sangramento.

O condicional que a banca inverte é este. O aluno lê a vinheta, vê bilirrubina total muito alta e conclui que o número alto indica drenar. Não indica. O nível de bilirrubina não é o gatilho; o gatilho é o plano. Drena-se quando há colangite instalada, quando o doente vai receber neoadjuvância antes da cirurgia, ou quando existe um atraso inevitável até a operação. Fora dessas situações, o número alto é motivo para operar, não para puncionar. É o mesmo formato de régua condicional da acalasia e da estenose de carótida: uma diz se, a outra diz quando, e elas não competem.

Vale notar de onde vem a bilirrubina que assusta. Na série da Santa Casa, a mediana dos operados foi de quinze vírgula seis, com extremos de zero vírgula dois a trinta e oito — um doente com trinta e oito foi ressecado. É esse o ponto que a alternativa de prova testa quando oferece drenar como rotina.

A assimetria da conjunção: o dano reproduz entre estudos, o benefício aparece uma vez

O que faz essa revisão valer mais do que a sua própria conclusão é o modo como ela tabula os oito estudos, porque a tabulação expõe uma assimetria que a frase final não transmite. Do lado do dano: quatro dos oito observaram maior taxa de sangramento nos drenados; três dos oito, maior taxa de cultura de bile positiva no grupo da intervenção; e dois estudos cada apontaram infecção de sítio e de cavidade, e vazamento biliopancreático, mais comuns no grupo da drenagem.

Do lado oposto, o placar é outro. O desfecho óbito e a taxa de reoperação foram observados em maior quantidade no grupo controle, isto é, favorecendo a drenagem — em um estudo cada. Um de oito, e um de oito.

Ponha as duas colunas lado a lado e a leitura muda de natureza. Quatro, três, dois e dois de oito é um sinal que reproduz entre séries independentes: quatro desenhos diferentes, em quatro países, encontraram a mesma direção para sangramento. Um de oito e um de oito é um sinal que aparece uma vez e não se repete — o padrão esperado quando se testam muitos desfechos e algum deles se move por acaso.

A conjunção é o achado. Não é que a drenagem tenha sido provada nociva por um estudo grande; é que a punição converge e o benefício espalha. E há um detalhe honesto: os desfechos que aparecem uma vez são justamente os dois mais duros, óbito e reoperação. Quem quiser defender a drenagem pode dizer que a única sinalização de mortalidade apontou a favor dela — mas não que isso reproduziu, porque não reproduziu.

O funil que não fecha, e o número que a álgebra recupera

A mesma revisão traz duas contabilidades do próprio processo de seleção, e só uma delas fecha. Nos resultados, a conta é limpa: foram encontrados cento e noventa e seis estudos, cento e noventa e três foram excluídos, sobraram três, e a esses três somaram-se outros cinco obtidos por busca manual nas referências — três mais cinco igual a oito, que é o total declarado no resumo. Cento e noventa e seis menos cento e noventa e três dá três. Fecha.

Nos métodos, a mesma seleção é contada por itens. Das cento e noventa e seis referências, quarenta e seis foram obtidas para leitura. Dessas, quarenta e dois foram excluídas por não abordarem a neoplasia periampular ou por não compararem drenagem com operação precoce; nove por serem relatos de caso; sete por serem revisões; uma por estar em andamento. Somadas, as exclusões dão cinquenta e nove.

Cinquenta e nove exclusões não cabem num conjunto de quarenta e seis. Quarenta e seis menos cinquenta e nove dá menos treze, e o artigo diz que sobraram três. Aplicar as mesmas exclusões às cento e noventa e seis referências também não resolve: dá cento e trinta e sete, e não três. Nenhuma das duas leituras fecha.

A álgebra recupera o número que faltava. Se as exclusões itemizadas são cinquenta e nove e o resíduo é três, o conjunto de partida tinha de ser sessenta e dois, não quarenta e seis — sessenta e dois é exatamente cinquenta e nove mais três. O número que escorregou é o quarenta e seis, impresso duas vezes com o mesmo valor. Nada disso invalida a revisão: os oito estudos e os mil cento e dezesseis doentes estão nominalmente listados numa tabela, com país, ano, tamanho e desenho, e é dessa tabela que saem os números clínicos deste capítulo.

Aritmética da série brasileira: os inteiros que o artigo publica e os que ele deixa implícitos

A série de trinta e oito duodenopancreatectomias é pequena e por isso é didática: em amostra desse tamanho, cada percentual impresso devolve um inteiro exato, e dá para conferir o artigo por dentro. Fístula pancreática pós-operatória, pelas definições do grupo internacional de estudo, teve prevalência de quinze vírgula oito por cento. Quinze vírgula oito por cento de trinta e oito é seis vírgula zero — seis doentes. O artigo confirma: seis doentes foram diagnosticados com fístula.

O artigo detalha os graus: três de grau A, dois de grau B e um de grau C. Fístula clinicamente significante é a de grau B ou C, ou seja, três doentes — e a prevalência impressa delas é sete vírgula nove por cento, que é três sobre trinta e oito. Fecha ao segundo decimal, nos dois casos.

As margens seguem a mesma lógica e são o dado prognóstico da série: vinte e três ressecções foram pR zero e quinze foram pR um, considerando pR um como margem a menos de um milímetro. Quinze sobre trinta e oito dá trinta e nove vírgula cinco por cento de margens comprometidas, número que o artigo imprime, e vinte e três mais quinze fecha o denominador. Uma ressecção com intenção curativa em cada duas vírgula cinco terminou com margem positiva, e esses doentes tiveram sobrevida significativamente menor.

Há um terceiro grupo de inteiros, o dos subgrupos de invasão angiolinfática: nove sem invasão e sem linfonodo comprometido, quatorze com invasão e sem linfonodo, e quinze com invasão e com linfonodo. A soma dos três dá trinta e oito, e os dois primeiros somam vinte e três, que é o número de doentes sem linfonodo comprometido na tabela. Todos os totais fecham.

Sete vírgula nove por cento, duas vezes, para duas coisas que não têm relação

Este é o tipo de coincidência que engana leitor apressado, e vale isolá-la porque a prova gosta de números repetidos. O mesmo artigo imprime sete vírgula nove por cento em dois lugares diferentes do texto, para dois fatos que não se comunicam.

O primeiro sete vírgula nove por cento é a prevalência de fístula pancreática clinicamente significante, isto é, três doentes com fístula de grau B ou C entre trinta e oito operados. O segundo aparece no fim do seguimento: apenas três doentes estavam vivos e considerados curados ao término da pesquisa, dois no grupo sem invasão angiolinfática e um no grupo com linfonodo comprometido. Três sobre trinta e oito é o mesmo sete vírgula nove por cento.

São o mesmo quociente porque compartilham numerador e denominador por acaso — três em trinta e oito — e nada mais. Um mede uma complicação técnica precoce, o outro mede cura oncológica ao fim do seguimento. Ler os dois como se fossem o mesmo fenômeno, ou supor que os três sobreviventes são os três com fístula, é um erro que a aritmética permite e a clínica proíbe. Percentual igual não é fato igual, e a checagem que separa os dois é sempre a mesma: pergunte quem é o numerador.

A renormalização por subgrupo mostra por que o número global esconde o que interessa. Entre os quatorze com invasão angiolinfática e sem linfonodo comprometido, todos os quatorze faleceram — e apenas um por causa não oncológica, sepse por neutropenia febril durante a quimioterapia. Entre os nove sem invasão, dois estavam vivos: vinte e dois vírgula dois por cento. A distância entre sete vírgula nove global e vinte e dois vírgula dois num subgrupo é o argumento inteiro do artigo, e ela só aparece quando se troca o denominador.

O mesmo número de cirurgiões impresso com dois percentuais diferentes

A pesquisa de prática padrão brasileira convidou sessenta cirurgiões e recebeu cinquenta e dois questionários, taxa de resposta de oitenta e seis vírgula sete por cento. Fecha. Todo o resto do artigo deveria estar sobre o denominador cinquenta e dois, e quase todo está.

Conferi dez pares antes de acusar qualquer coisa, e dez fecham: vinte e quatro fazem o Whipple clássico, quarenta e seis vírgula dois por cento; quarenta e três usam a linfadenectomia padrão, oitenta e dois vírgula sete; quarenta e nove fazem sempre pancreatojejunostomia, noventa e quatro vírgula dois; vinte e nove usam dois drenos, cinquenta e cinco vírgula oito; seis usam somatostatina e quarenta e seis não usam, onze vírgula cinco e oitenta e oito vírgula cinco, que somam cinquenta e dois e cem por cento. Oito fazem linfadenectomia estendida; trinta e nove usam via antecólica, setenta e cinco exatos.

Dois pares não fecham. O primeiro está na mesma frase do pancreatojejunostomia: o texto diz que quarenta e nove fazem anastomose em alça única e imprime setenta e oito vírgula nove por cento ao lado. Mas quarenta e nove sobre cinquenta e dois é noventa e quatro vírgula dois — o valor da metade anterior da frase. Setenta e oito vírgula nove sobre cinquenta e dois pediria quarenta e um. Não fecho este par com nenhum denominador declarado, e não atribuo causa: o texto não distingue entre número repetido da cláusula anterior e percentual de outra base.

O segundo par fecha por álgebra. O artigo diz que trinta e oito cirurgiões, setenta e três por cento, fizeram mais de cinquenta duodenopancreatectomias na vida — e isso fecha —, mas que apenas doze, vinte e oito vírgula oito, fizeram mais de vinte no ano anterior, definição de alto volume. Doze sobre cinquenta e dois é vinte e três vírgula um, não vinte e oito vírgula oito. Esse percentual sobre cinquenta e dois dá quatorze vírgula nove oito, isto é, quinze cirurgiões. Aqui o inteiro que fecha existe e é único, e o que escorregou é o doze.

O que os brasileiros fazem na mesa, e a única régua numérica que a prova cobra

A pesquisa de prática vale por descrever o que se faz aqui, e não o que um consenso estrangeiro recomenda. O Whipple clássico é feito por menos da metade dos respondentes; a preservação pilórica divide o restante. A discussão registra o argumento contra a preservação: quando a linfadenectomia regional é necessária, ela aumenta o retardo de esvaziamento gástrico e pode deixar linfadenectomia incompleta em até nove por cento.

O retardo de esvaziamento gástrico é a complicação de maior faixa do tema, de dezenove a sessenta e um por cento, e é o motivo pelo qual a via de reconstrução gástrica aparece nas questões. Três quartos dos cirurgiões usam a via antecólica. A drenagem abdominal profilática foi feita por todos, sem exceção, e a maioria usa dois drenos — dado que contraria a tendência internacional de reduzir drenos.

A régua numérica que vale decorar é a da linfadenectomia. O grupo internacional de estudo em cirurgia pancreática descreveu quais estações nodais compõem a linfadenectomia padrão, e o artigo enuncia o critério de adequação em duas partes: o número de linfonodos retirados deve ser igual ou maior que quinze para estadiamento patológico adequado, e o quociente nodal deve ser igual ou menor que zero vírgula dois. Quinze é o número que aparece em alternativa.

E há a cessão explícita sobre a linfadenectomia estendida, onde prática e evidência se separam dentro do mesmo texto. O artigo escreve que ela acrescenta diarreia, retardo de esvaziamento e desnutrição por denervação, que a padrão tem menor morbidade com os mesmos benefícios, e que não há evidência de benefício da estendida — e no mesmo parágrafo registra que oito cirurgiões, quinze vírgula quatro por cento, ainda a realizam. O documento mede a distância entre o que recomenda e o que a própria amostra faz.

O contraponto honesto: o maior número da lista é o que menos decide sozinho

A série de ressecção do eixo mesentérico-portal é a que traz os percentuais mais altos deste capítulo, e é a que menos autoriza conclusão sozinha — pelo motivo mais simples que existe, o tamanho do denominador. Foram dez ressecções venosas. A morbidade foi de sessenta por cento e a mortalidade de dez por cento.

Dez por cento de mortalidade sobre dez casos é um caso, e o artigo diz isso com todas as letras. Sessenta por cento de morbidade são seis doentes; a complicação mais frequente ocorreu em três casos, trinta por cento; a ressecção foi tangencial em três. Em oitenta por cento havia perviedade do eixo no seguimento.

Nenhum desses números está errado, e o artigo é transparente ao imprimir contagem ao lado de percentual em todas as linhas — que é exatamente a prática que faltou aos dois pares do artigo anterior. O ponto é outro: num denominador de dez, um óbito vale dez pontos, e o intervalo de confiança de qualquer uma dessas taxas é largo o bastante para conter valores muito distantes. A série descreve a viabilidade da técnica num serviço brasileiro; não serve para comparar mortalidade entre serviços.

O mesmo artigo cita sobrevida em cinco anos após ressecção venosa entre oito vírgula quatro e dezoito por cento, faixa que se sobrepõe ao redor de vinte por cento relatado pela fonte de dois mil e oito, e à mediana de treze meses da série da Santa Casa. Três medidas, três desenhos, e nenhuma contradiz a outra.

O mimético benigno, e um denominador que escorrega no resumo

A obstrução biliar maligna tem um sósia benigno que a prova usa como distrator, e vale conhecê-lo pela série do mesmo serviço que produziu a casuística de duodenopancreatectomia — quatro dos cinco autores se repetem. A síndrome de Mirizzi é icterícia obstrutiva por cálculo impactado na bolsa de Hartmann ou no ducto cístico, que comprime a via biliar por fora; nos graus avançados há fístula colecistobiliar.

Os números descrevem uma doença rara dentro de outra comum. Entre três mil seiscentos e noventa e um doentes tratados de litíase vesicular em quase doze anos, vinte e três tiveram a síndrome — zero vírgula seis por cento — e treze tinham graus III ou IV, zero vírgula trinta e cinco por cento. Fecha.

O escorregão está no resumo, e é de referência, não de conta: ele escreve que a incidência foi de zero vírgula seis por cento, vinte e três casos, e que os graus III e IV perfizeram zero vírgula trinta e cinco por cento deste número. Deste número, ao pé da letra, é dos vinte e três — e treze sobre vinte e três dá cinquenta e seis vírgula cinco, não zero vírgula trinta e cinco. O percentual está certo; o antecedente do pronome aponta para o denominador errado.

O restante da série é um bom exercício de trocar denominador de propósito, e ali o artigo acerta três vezes seguidas. Icterícia em onze dos treze; dos onze ictéricos, sessenta e três vírgula seis por cento tiveram bilirrubina acima de três — segundo denominador, os onze. Colangiopancreatografia em sete dos treze, e ela sugeriu o diagnóstico em cinquenta e sete vírgula um por cento das vezes — terceiro denominador, os sete. Sobra uma contradição: colangite é dada em trinta e oito vírgula quatro por cento, o que sobre treze são cinco doentes, mas o texto fala em dois dos sete com colangite. Cinco e sete não podem ser o mesmo grupo, e o artigo não diz qual vale.

Como o tema chega na prova, e o que fazer quando a doença não está escrita

Esquema do pâncreas em vista frontal com massa na cabeça, via biliar dilatada, vesícula distendida sem cálculos e dois vasos apenas tangenciando a massa.
A massa na porção larga da glândula obstrui a via biliar por fora e distende uma vesícula sem cálculos — e o que decide a ressecção é o quanto ela encosta nos dois vasos vizinhos, não o seu diâmetro.

A vinheta clássica não contém a palavra pâncreas. Ela descreve mulher ou homem na sexta ou sétima década com icterícia indolor e progressiva de algumas semanas, colúria, acolia fecal, perda de quatro a nove quilos, ausência de febre e de calafrio, e com frequência vesícula palpável e indolor. O rótulo — neoplasia periampular, adenocarcinoma da cabeça do pâncreas, duodenopancreatectomia — aparece na alternativa correta, e só ali.

Isso tem consequência prática de leitura. A vinheta pode entregar o quadro antes de nomear a doença: icterícia progressiva, colúria, acolia, emagrecimento e vesícula distendida conduzem ao diagnóstico sindrômico e ao próximo passo. O caminho seguro é reconhecer primeiro a obstrução distal suspeita de neoplasia, depois localizar e estadiar com tomografia apropriada; escolher uma alternativa apenas porque ela contém o nome familiar do tumor inverte o raciocínio.

As três formas em que o tema é cobrado são estáveis. A primeira é o próximo exame: diante da icterícia indolor com vesícula palpável, a resposta é tomografia com contraste em fases, no protocolo de pâncreas — não ultrassonografia repetida, não colangiopancreatografia como primeiro passo. A segunda é a conduta pré-operatória, e a esperada é ressecar sem drenagem biliar de rotina, com as exceções de colangite, neoadjuvância planejada e atraso inevitável. A terceira é o nome da operação para qualquer dos quatro periampulares.

Quando a tomografia descreve contato vascular, a resposta depende de três detalhes: quantos graus da circunferência estão envolvidos, se o contorno venoso está preservado e se existe segmento reconstruível. Até 180° de contato venoso sem deformidade pode permanecer ressecável; envolvimento venoso reconstruível com maior contato ou irregularidade e contato arterial limitado compõem o grupo borderline; contato arterial maior que 180° ou oclusão venosa não reconstruível caracterizam doença localmente avançada. O diâmetro isolado da massa não substitui essa descrição.

04

Quatro situações vasculares, e o que cada uma autoriza fazer

Os quatro cartões separam ressecável, borderline ressecável, localmente avançado e metastático. A mudança entre eles depende do vaso envolvido, dos graus de contato, da deformidade venosa e da possibilidade de reconstrução — não apenas da presença de contato nem do diâmetro da massa. A drenagem biliar é uma decisão paralela: entra na colangite, quando haverá neoadjuvância ou quando se prevê atraso relevante até a operação; não é rotina apenas porque a bilirrubina está alta.

Ressecável — sem contato arterial e veia preservada

Não há contato com tronco celíaco, artéria mesentérica superior nem artéria hepática comum. No eixo porta–veia mesentérica superior pode não haver contato ou existir contato de até 180° sem irregularidade do contorno venoso. Sem metástase, é doença anatomicamente ressecável e pode seguir para cirurgia de saída após estadiamento e avaliação multidisciplinar. A bilirrubina elevada, isoladamente, não indica drenagem pré-operatória de rotina.

Borderline ressecável — contato limitado ou vaso reconstruível

É borderline ressecável quando há contato com veia mesentérica superior ou porta maior que 180°, contato de até 180° com irregularidade do contorno, ou trombose curta, desde que a reconstrução venosa seja factível. Também entram contato de até 180° com a artéria mesentérica superior, contato limitado e reconstruível com a artéria hepática comum e anatomias arteriais variantes comprometidas que alterem o plano. O objetivo é tratamento neoadjuvante e reavaliação, buscando aumentar a chance de margem negativa; reconstrução venosa pode fazer parte da operação posterior.

Localmente avançado — artéria extensa ou veia não reconstruível

Contato tumoral maior que 180° com artéria mesentérica superior ou tronco celíaco, envolvimento arterial não reconstruível, invasão da aorta ou oclusão do eixo porta–mesentérico sem possibilidade de reconstrução caracterizam doença localmente avançada. Não é indicação de pancreatectomia imediata: inicia-se tratamento sistêmico, com reavaliação em centro especializado. Como haverá intervalo prolongado até qualquer possibilidade de operação, a drenagem biliar passa a ser considerada quando a obstrução persiste.

Doença a distância — paliação da icterícia

Há metástase hepática ou implante peritoneal. A operação curativa sai de cena e o objetivo passa a ser a icterícia e a obstrução duodenal, por prótese endoscópica ou por derivação biliodigestiva, conforme a expectativa e o acesso do serviço. É o cenário majoritário no momento do diagnóstico, e é o que explica por que a ressecabilidade é de dez a vinte por cento: a doença cresce colada em vaso e dissemina antes de doer.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Drenagem biliar antes da operação: o raciocínio fisiológico contra o desfecho medido

Drenar — a fisiologia da colestase justifica

A icterícia obstrutiva e a hiperbilirrubinemia foram identificadas como fatores de risco para complicação peri e pós-operatória, e a colestase produz disfunção hepática, comprometimento da absorção de lipídios e vitaminas lipossolúveis, coagulopatia, colangite, nefropatia e, em estágio final, insuficiência hepática. A drenagem foi desenvolvida desde os anos sessenta com o objetivo declarado de reduzir essa morbimortalidade e melhorar a qualidade de vida.

Lucena e Barros, 2018, introdução

Não drenar de rotina — os oito estudos medem o contrário

Entre oito estudos com mil cento e dezesseis doentes, quatro observaram maior taxa de sangramento nos drenados, três maior taxa de cultura de bile positiva no grupo da intervenção, e dois cada apontaram infecção de sítio e de cavidade e vazamento biliopancreático mais comuns na drenagem. A conclusão do documento é que a intervenção pré-operatória leva a maior taxa de complicações infecciosas e de sangramento.

Lucena e Barros, 2018, resultados e conclusão

A ressalva que o próprio documento registra

O mesmo artigo escreve que a drenagem é ponto discutido há décadas e que até o momento não existe definição concreta acerca do seu benefício ou malefício, e registra que os desfechos óbito e reoperação apareceram em maior quantidade no grupo controle — em um estudo cada. É o único sinal a favor da drenagem na tabela, e ele não se repete.

Lucena e Barros, 2018, introdução e resultados

Na prova

Não marque drenar como conduta de rotina em doente ictérico com tumor ressecável, por mais alta que esteja a bilirrubina do enunciado. A drenagem entra quando o enunciado dá colangite, quando declara neoadjuvância planejada, ou quando descreve um atraso inevitável até a cirurgia. Se nenhum dos três está escrito, a alternativa que encaminha direto à ressecção é a esperada. Quando duas alternativas mandam operar e uma delas acrescenta drenar antes sem justificar, a que não drena é a melhor.

Linfadenectomia estendida: o texto que recomenda contra e a amostra que ainda faz

Padrão — menos morbidade e o mesmo resultado a longo prazo

O grupo internacional de estudo em cirurgia pancreática descreveu a extensão e as estações nodais da linfadenectomia padrão. A morbidade da estendida inclui diarreia, retardo de esvaziamento gástrico e desnutrição por denervação do plexo celíaco e do território ao redor da artéria mesentérica superior. A padrão está associada a redução de morbidade com os mesmos benefícios em longo prazo, e não há evidência de benefício da estendida.

Torres e cols., 2017, discussão

Estendida — o que quinze vírgula quatro por cento ainda pratica

No mesmo estudo, oito dos cinquenta e dois cirurgiões respondentes, quinze vírgula quatro por cento, declararam ainda realizar linfadenectomia estendida. O documento imprime esse número imediatamente após afirmar que não há evidência de benefício, e é a medida da distância entre a recomendação e a prática dentro da própria amostra que ele descreve.

Torres e cols., 2017, discussão

Na prova

Alternativa que ofereça linfadenectomia estendida como forma de melhorar sobrevida está errada. A resposta é a linfadenectomia padrão do grupo internacional, e o número que costuma aparecer para adequação de estadiamento é quinze linfonodos. Se o enunciado citar quociente nodal, o valor de referência é zero vírgula dois ou menos.

Preservação do piloro: menos ressecção contra linfadenectomia completa

Preservar — evita a gastrectomia e as suas sequelas

O procedimento com preservação pilórica evita as complicações ligadas ao Whipple clássico, como síndrome de dumping e diarreia, e é praticado por parte substancial dos cirurgiões brasileiros respondentes — o clássico foi declarado por vinte e quatro dos cinquenta e dois, quarenta e seis vírgula dois por cento.

Torres e cols., 2017, resultados e discussão

Não preservar quando há linfadenectomia regional

O artigo cita autores que sustentam que a preservação do piloro não tem valor na operação por câncer da cabeça do pâncreas e que, quando a linfadenectomia regional é necessária, a ressecção com preservação do estômago mas sem o piloro deveria ser preferida, para reduzir o retardo de esvaziamento gástrico, que tem faixa de dezenove a sessenta e um por cento, e para evitar linfadenectomia incompleta em até nove por cento.

Torres e cols., 2017, discussão

Na prova

Este é o ponto do tema em que não existe alternativa única correta em abstrato, e a banca costuma perguntar a consequência, não a preferência. Se o enunciado descreve retardo de esvaziamento gástrico como complicação, o vínculo esperado é com a preservação pilórica. Se o enunciado exige linfadenectomia regional, o argumento do artigo é contra preservar.

Papilectomia endoscópica: os números melhores que não sustentam a indicação

A favor pelos números imediatos

A papilectomia endoscópica tem morbidade de dezenove a trinta e três por cento e mortalidade de zero a três por cento, contra morbidade de vinte e sete a cinquenta e dois por cento e mortalidade de três a nove por cento da operação de Whipple. Nas duas medidas imediatas ela ganha.

Lucena e Barros, 2018, introdução

Contra, pelo desfecho que só aparece depois

A mesma fonte registra que ela apresenta alta recidiva, alcançando trinta e cinco por cento, e por isso é restrita a lesões benignas e pequenas, abaixo de dois centímetros. O número que decide não é o da complicação da semana seguinte, é o da recidiva do ano seguinte.

Lucena e Barros, 2018, introdução

Na prova

Alternativa que ofereça papilectomia endoscópica para adenocarcinoma periampular está errada, mesmo quando o enunciado enfatiza que a morbidade dela é menor. O critério não é a morbidade comparada, é a natureza e o tamanho da lesão.

Ressecção venosa: viável, e com margem que a própria fonte questiona

Ressecar a veia e reconstruir

Há séries brasileiras de ressecção do eixo mesentérico-portal com reconstrução por anastomose primária dos cotos vasculares ou com uso da veia esplênica para restabelecer o fluxo. Numa delas, em oitenta por cento dos casos havia perviedade do eixo no seguimento, e a sobrevida em cinco anos ficou entre oito vírgula quatro e dezoito por cento.

Amico e cols., 2014; Garcia e cols., 2008

A ressalva impressa na própria fonte técnica

A fonte que descreve a técnica escreve que o percentual de margens com comprometimento tumoral nessas ressecções é elevado e que a melhoria de sobrevida em tempo ou em qualidade ainda não está bem estabelecida. Ela ensina como fazer e registra que não sabe se vale — o que é o oposto de uma recomendação.

Garcia e cols., 2008, seção de técnica

Na prova

Contato com o eixo venoso mesentérico-portal não é sinônimo de irressecabilidade, e alternativa que declare o doente irressecável só por isso está errada. Envolvimento arterial extenso é outra história, e ali a alternativa que retira o doente da mesa é a esperada.

06

Caso resolvido

Mulher de 68 anos, aposentada, procura ambulatório de cirurgia geral encaminhada da atenção primária por icterícia. Refere que há cerca de três semanas notou a pele e os olhos amarelos, de forma progressiva, com urina escura e fezes claras. Perdeu quatro quilos no período, sem dieta. Nega febre, calafrio e dor abdominal em qualquer momento. Nega antecedente de cólica biliar. Hipertensa, em uso de losartana. Ao exame: regular estado geral, ictérica, temperatura axilar 36,4 °C, pressão arterial 138 x 84 mmHg, frequência cardíaca 78 bpm. Abdome flácido, indolor à palpação, sem defesa; palpa-se, em hipocôndrio direito, massa arredondada, lisa, móvel e indolor. Ultrassonografia trazida pela paciente: dilatação de vias biliares intra e extra-hepáticas, colédoco de 15 mm, vesícula distendida sem cálculos em seu interior, cabeça do pâncreas mal caracterizada por interposição gasosa. Bilirrubina total 14,8 mg/dL, com predomínio de direta; fosfatase alcalina e gama-glutamil transferase elevadas; transaminases discretamente elevadas.
primeiro, nomeie o padrão sem depender de ver a massa
Icterícia obstrutiva de padrão distal, com forte suspeita de neoplasia periampular. Três dados fecham o padrão e nenhum deles é a massa pancreática, que a ultrassonografia não conseguiu ver: a dilatação simultânea de vias intra e extra-hepáticas com colédoco largo, que coloca a obstrução abaixo da desembocadura do ducto cístico; a vesícula distendida sem cálculos, que é o sinal de Courvoisier; e a ausência absoluta de dor e de febre em três semanas, que afasta cálculo impactado e colangite.
segundo, explique por que a vesícula distendida vale como argumento
A vesícula que conviveu anos com cálculos fica fibrosada e não se distende. Para ela inflar, a obstrução precisa ser recente, progressiva e situada abaixo do ducto cístico — que é exatamente o perfil do tumor periampular. É por isso que o achado funciona nos dois sentidos: aponta para tumor e afasta litíase crônica. Note que ele não distingue qual dos quatro periampulares é, e não precisa distinguir.
terceiro, escolha o próximo exame e diga o que se procura nele
Tomografia de abdome com contraste em fases, no protocolo de pâncreas. Não é para confirmar a icterícia, que já está confirmada, nem para repetir a ultrassonografia que falhou por gás. É para responder três perguntas de conduta: onde está a massa, qual a relação dela com a artéria mesentérica superior, o tronco celíaco e o eixo venoso portal e mesentérico, e se há metástase hepática ou implante peritoneal. A ecoendoscopia entra depois, quando a lesão é pequena ou quando o diagnóstico histológico vai mudar a conduta.
quarto, decida sobre a drenagem biliar — e diga por que a bilirrubina não decide
Não drenar. A paciente não tem colangite, não há neoadjuvância programada e não há atraso declarado até a cirurgia. Bilirrubina de quatorze vírgula oito é alta e não muda essa resposta: a série brasileira citada neste capítulo tem mediana de quinze vírgula seis entre operados e um extremo de trinta e oito. Drenar aqui somaria o risco medido na revisão de oito estudos — mais sangramento, mais cultura de bile positiva, mais infecção de sítio e de cavidade — sem o contrapeso que só apareceu em um estudo de oito.
quinto, diga qual é a operação e por que ela não depende do subtipo
Duodenopancreatectomia, com ou sem preservação pilórica. A operação é a mesma para adenocarcinoma de cabeça de pâncreas, colangiocarcinoma distal, ampuloma e adenocarcinoma de duodeno periampular, porque os quatro desembocam no mesmo ponto e exigem a mesma ressecção em bloco. É por isso que o diagnóstico diferencial entre eles é frequentemente pós-operatório, e é por isso que a prova não pede que você o faça antes.
sexto, informe o padrão brasileiro de linfadenectomia com os dois números
Linfadenectomia padrão do grupo internacional de estudo em cirurgia pancreática, praticada por quarenta e três dos cinquenta e dois cirurgiões brasileiros da pesquisa de prática, oitenta e dois vírgula sete por cento. A adequação do estadiamento se mede por dois critérios: pelo menos quinze linfonodos retirados e quociente nodal de zero vírgula dois ou menos. Linfadenectomia estendida não acrescenta benefício em longo prazo e acrescenta diarreia, retardo de esvaziamento e desnutrição por denervação.
sétimo, antecipe a complicação mais provável e a de maior faixa
A complicação de maior faixa numérica é o retardo de esvaziamento gástrico, de dezenove a sessenta e um por cento, e é a que se vincula à preservação pilórica. A fístula pancreática é a que a série de trinta e oito quantifica: quinze vírgula oito por cento no total, seis doentes, dos quais três de grau A, dois de grau B e um de grau C — ou seja, sete vírgula nove por cento de fístulas clinicamente significantes. Análogo de somatostatina não é rotina no Brasil: quarenta e seis dos cinquenta e dois cirurgiões, oitenta e oito vírgula cinco por cento, não o utilizam.
oitavo, diga o que a operação não resolve, com número
Mesmo ressecada com intenção curativa, a doença tem prognóstico ruim, e é honesto dizê-lo. Na série de trinta e oito, a sobrevida mediana foi de treze meses, quinze doentes tiveram margem comprometida — trinta e nove vírgula cinco por cento —, e ao término do seguimento apenas três estavam vivos. Entre os quatorze com invasão angiolinfática e sem linfonodo comprometido, nenhum sobreviveu. A ressecção é a única chance de cura e continua sendo uma chance pequena, e a alternativa de prova que promete cura pela operação isolada está errada.
07

Agora feche você

Homem de 71 anos chega ao pronto-socorro com icterícia há duas semanas, colúria e acolia, associadas a febre de 38,6 °C com calafrio iniciada há 36 horas e a dor em hipocôndrio direito. Perdeu seis quilos em dois meses. Ao exame: taquicárdico, hipotenso, ictérico, doloroso à palpação do hipocôndrio direito. Bilirrubina total 11,2 mg/dL com predomínio de direta, leucocitose com desvio, proteína C reativa muito elevada. Tomografia de abdome com contraste em fases: massa de 3,2 cm na cabeça do pâncreas, com contato de aproximadamente um terço da circunferência da veia mesentérica superior e sem contato com a artéria mesentérica superior nem com o tronco celíaco; vias biliares intra e extra-hepáticas dilatadas; fígado sem lesões focais; sem implantes peritoneais visíveis.
Passo 1
Este doente tem indicação de drenagem biliar antes da operação? Responda dizendo qual dado do enunciado é o gatilho, e explique por que a bilirrubina de onze vírgula dois não teria sido gatilho suficiente sozinha — citando a mediana e o extremo de bilirrubina da série brasileira de trinta e oito operados.
Passo 2
Classifique a situação vascular descrita e diga qual dos quatro cartões de critério ela ocupa. Explique por que o contato de um terço da circunferência venosa não retira o doente da mesa e o que teria de mudar no laudo para retirá-lo, nomeando as duas artérias que mudam a resposta.
Passo 3
Compare este doente com a mulher do caso resolvido em três eixos: presença ou não de colangite, situação vascular e conduta pré-operatória. Diga em qual dos três eixos eles divergem de forma decisiva e por quê.
Passo 4
O enunciado descreve massa de três vírgula dois centímetros. Explique, em duas frases, por que esse número não entra na classificação de ressecabilidade e qual medida entra no lugar dele.
Passo 5
Suponha que a tomografia fosse refeita e mostrasse envolvimento de mais da metade da circunferência da artéria mesentérica superior. Diga o que muda na conduta cirúrgica e, especificamente, o que muda na decisão sobre drenagem biliar — e por que a mudança na drenagem é consequência da primeira, e não uma decisão independente.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Procurar o nome da doença no enunciado antes de raciocinar A armadilha é esperar que o enunciado nomeie o tumor. A combinação de icterícia progressiva, colúria, acolia, emagrecimento e vesícula palpável indolor já localiza uma obstrução distal suspeita de neoplasia periampular. O raciocínio deve fechar o padrão clínico, escolher a tomografia em protocolo pancreático e só então procurar a alternativa que nomeia a doença junto com o próximo passo correto.
  2. 2Decidir a drenagem biliar pelo valor da bilirrubina Bilirrubina alta é o achado que mais parece pedir drenagem e é o que menos a indica. A série da Santa Casa operou doentes com mediana de quinze vírgula seis e extremo de trinta e oito. O gatilho da drenagem é o plano de tratamento — colangite instalada, neoadjuvância programada, atraso inevitável — e não o número. Alternativa que justifique a drenagem citando o valor da bilirrubina está usando o argumento errado, mesmo quando por acaso acerta a conduta.
  3. 3Classificar a ressecabilidade pelo tamanho do tumor É o hábito que vem do nódulo pulmonar e do nódulo hepático, e aqui não funciona. O eixo é a proporção da circunferência vascular comprometida, na artéria mesentérica superior, no tronco celíaco e no eixo venoso portal e mesentérico, mais a presença de metástase hepática ou de implante peritoneal. Um tumor pequeno colado na artéria mesentérica superior sai da mesa; um tumor maior que apenas encosta na veia pode ser ressecado com reconstrução.
  4. 4Ler sete vírgula nove por cento como se fosse sempre a mesma coisa Na série de trinta e oito, sete vírgula nove por cento é a prevalência de fístula pancreática clinicamente significante, três doentes, e também a proporção de vivos ao fim do seguimento, outros três doentes. São o mesmo quociente por coincidência de numerador e denominador, e medem fatos sem relação. Sempre que dois percentuais iguais aparecem no mesmo artigo, a pergunta é quem é o numerador de cada um.
  5. 5Somar exclusões sem conferir se elas cabem no conjunto de partida A revisão sistemática da drenagem diz que quarenta e seis referências foram obtidas para leitura e depois lista exclusões que somam cinquenta e nove. Cinquenta e nove não cabe em quarenta e seis, e o resíduo declarado é três. O conjunto que faz a lista fechar é sessenta e dois. O hábito de somar os itens de um funil antes de citá-lo custa trinta segundos e evita repetir um número que o próprio artigo não sustenta.
  6. 6Aceitar um percentual sem conferir contra o inteiro impresso ao lado Na pesquisa de prática brasileira, dez pares de contagem e percentual fecham sobre o denominador de cinquenta e dois, e dois não fecham: quarenta e nove com setenta e oito vírgula nove por cento, quando quarenta e nove sobre cinquenta e dois dá noventa e quatro vírgula dois, e doze com vinte e oito vírgula oito por cento, quando doze sobre cinquenta e dois dá vinte e três vírgula um. Conferir os dez que fecham é o que dá autoridade para apontar os dois que não fecham.
  7. 7Confundir obstrução baixa com obstrução alta pelo padrão da vesícula A vesícula distendida e indolor aponta obstrução distal, recente e progressiva, perfil do tumor periampular. O colangiocarcinoma hilar faz o inverso: vias intra-hepáticas dilatadas, colédoco fino e vesícula vazia. E o cálculo crônico deixa a vesícula fibrosada, que não se distende. Três padrões diferentes de vesícula para o mesmo sintoma de icterícia, e o exame de imagem só serve se lido com essa pergunta na cabeça.
  8. 8Tomar uma taxa de uma série de dez como comparável a outras séries Mortalidade de dez por cento numa série de dez ressecções venosas é um óbito. Morbidade de sessenta por cento são seis doentes. Os números estão corretos e o artigo é transparente ao imprimir a contagem ao lado do percentual, mas num denominador de dez cada evento move a taxa em dez pontos. A série descreve viabilidade técnica num serviço; não compara mortalidade entre serviços, e alternativa que a use para isso está fazendo uso indevido de um dado honesto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a duodenopancreatectomia (gastroduodenopancreatectomia / cirurgia de Whipple) é a operação padrão para tumores ressecáveis da cabeça do pâncreas e periampulares, removendo cabeça do pâncreas, duodeno, vesícula, colédoco distal e, na clássica, o antro gástrico. A pancreatectomia distal com esplenectomia é para tumores de corpo/cauda, não da cabeça. A pancreatectomia central é para lesões benignas/de baixo grau do colo/corpo, não para adenocarcinoma. Gastrectomia total é operação para câncer gástrico, não pancreático. A enucleação é reservada a lesões pequenas, benignas e superficiais (ex.: insulinoma), sem margem/linfadenectomia oncológica — inadequada para adenocarcinoma.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar nada, escreva: (1) os quatro tumores periampulares e a razão pela qual o diferencial entre eles costuma ser pós-operatório; (2) as três estruturas vasculares que definem ressecabilidade e a razão pela qual o diâmetro do tumor não entra; (3) as três situações em que a drenagem biliar pré-operatória está indicada, e a frase de uma linha que explica por que o valor da bilirrubina não é uma delas; (4) o placar de oito estudos da revisão sistemática, separando quantos encontraram dano com a drenagem e quantos encontraram benefício, e diga qual dos dois lados reproduz entre séries; (5) os dois números da adequação da linfadenectomia padrão e a faixa do retardo de esvaziamento gástrico.

em 30 dias

Pegue a paciente do caso resolvido — 68 anos, icterícia indolor progressiva de três semanas, quatro quilos perdidos, vesícula palpável indolor, colédoco de 15 mm, bilirrubina 14,8 — e mude um dado por vez, dizendo em voz alta o que muda na conduta e por quê. Acrescente febre com calafrio: o que entra que não estava. Troque a vesícula distendida por vesícula vazia com vias intra-hepáticas dilatadas e colédoco fino: qual doença passa a encabeçar a lista e por que a operação muda. Acrescente ao laudo tomográfico contato com metade da circunferência da artéria mesentérica superior: o doente sai da mesa, e o que acontece com a indicação de drenagem como consequência. Troque a idade por 34 anos e a história por cólicas biliares de repetição com icterícia intermitente: qual diagnóstico benigno entra, e qual foi a incidência dele numa casuística brasileira de três mil seiscentos e noventa e um doentes com litíase. Por fim, mantenha tudo e apenas informe que a paciente vai receber quimioterapia antes da cirurgia: diga o que essa única frase muda na decisão sobre drenagem biliar, e por que ela muda.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você está no ambulatório de cirurgia geral de um hospital do Sistema Único de Saúde que tem tomógrafo, endoscopia e centro cirúrgico, mas cuja equipe de cirurgia hepatobiliopancreática opera dois dias por mês. Chega uma mulher de 68 anos, encaminhada da unidade básica com um pedido de parecer que diz apenas icterícia a esclarecer. Ela conta que ficou amarela devagar, que a urina escureceu e as fezes clarearam, que emagreceu sem querer e que não sentiu dor nenhuma em momento algum — e insiste que deve ser do fígado, porque uma irmã teve hepatite. Traz uma ultrassonografia feita há dez dias. Conduza a consulta do começo: colha a história com atenção ao que ela nega tanto quanto ao que refere, examine o abdome procurando um achado específico e diga em voz alta o que ele significa, interprete a ultrassonografia dizendo o que nela localiza o nível da obstrução, defina o próximo exame e explique à paciente, em linguagem que ela entenda, por que ele é necessário e o que vai ser decidido com ele. Se ela perguntar se não seria melhor colocar uma sonda para desentupir e tirar o amarelo antes de qualquer cirurgia, responda com a razão clínica, e não com a autoridade da conduta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Câncer de pâncreas e tumores periampulares: a régua é vascular, e a drenagem que parece cuidar é a que cobra — Preparatório para provas | OsceLabs