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Hérnia de hiato: a que se opera por refluxo e a que se opera sem ele
Hérnia de hiato e cirurgia antirrefluxo (tipos I a IV, hérnia paraesofágica)
O capítulo de refluxo do acervo escreve hérnia de hiato sete vezes e fundoplicatura treze, e não escreve paraesofágica nenhuma vez. O capítulo de abdome agudo atípico escreve a tríade de Borchardt três vezes e não escreve o nome da hérnia que a produz. A diretriz brasileira de diagnóstico do refluxo, coassinada pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva, tem 220 menções a refluxo em 7.274 palavras e zero menções à hérnia hiatal.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Uma banca apresenta os seguintes dados sobre reparo de hérnia paraesofágica: na análise bruta de uma base hospitalar nacional com 41.723 doentes, a mortalidade foi de 3,2% nas operações de urgência e de 0,37% nas eletivas; numa série de trinta doentes operados de urgência comparados a cento e noventa e nove eletivos, as diferenças de complicação deixaram de ser significativas após pareamento por escore de propensão; e um modelo de decisão estimou em cerca de 1,1% ao ano a probabilidade de o portador assintomático precisar de operação de urgência. Qual conclusão é sustentada por esse conjunto?
Como esse tema cai
Este capítulo trata da hérnia de hiato do adulto — a de deslizamento e as paraesofágicas, tipos dois, três e quatro — e da operação que as corrige: a hiatoplastia com fundoplicatura. Trata de duas decisões que a prova separa e a prática mistura: quem tem refluxo e vai à mesa porque o remédio deixou de bastar, e quem vai à mesa por causa da hérnia em si, com ou sem refluxo, porque o estômago subiu para o tórax e pode torcer. Não trata do manejo clínico do refluxo, que tem capítulo próprio na clínica, nem da hérnia diafragmática congênita, nem das hérnias da parede abdominal.
A vaga aparece por escrito em três documentos diferentes. O capítulo de refluxo do acervo escreve hérnia de hiato em sete passagens e fundoplicatura em treze, e não escreve paraesofágica, vólvulo gástrico nem hiatoplastia uma única vez. O capítulo de abdome agudo atípico escreve a tríade de Borchardt em três passagens e não escreve o nome da hérnia que a produz. E a diretriz brasileira de diagnóstico do refluxo, coassinada pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva, atravessa 7.274 palavras com duzentas e vinte ocorrências de refluxo e nenhuma de hérnia hiatal ou de fundoplicatura.
A conta do acervo fecha do mesmo jeito. Sessenta questões usam algum destes termos e cinquenta e três estão em trilha de prova. Trinta e uma delas estão catalogadas como cirurgia do aparelho digestivo ou urgência cirúrgica, contra vinte de gastroenterologia clínica — a maioria é cirúrgica, e o único capítulo que carrega o assunto é clínico.
O que muda decisão
Cinco por cento da doença respondem por quase toda a urgência
A classificação anatômica tem quatro tipos e a prova cobra os quatro, mas eles não têm o mesmo peso. A hérnia de deslizamento, tipo um, leva a junção esofagogástrica para cima e é o achado banal da endoscopia. As paraesofágicas são as outras três: no tipo dois a junção fica no lugar e o fundo gástrico rola para o tórax ao lado do esôfago; no tipo três, o misto, junção e fundo sobem juntos; no tipo quatro sobe também outra víscera. A revisão de dois mil e quinze fixa a proporção: a hérnia paraesofágica é 5% de todas as hérnias hiatais.
Os outros 95% são o tipo um, e esse complemento não é escrito em lugar nenhum da revisão. A razão de dezenove para um explica por que as duas metades do assunto quase nunca aparecem no mesmo texto: o tipo um é assunto do refluxo, medicado e endoscopado; os cinco por cento restantes são assunto da sala de cirurgia, e é neles que mora o estômago intratorácico que torce.
O tipo três é o que a mesma revisão chama de verdadeira hérnia paraesofágica, nascida da combinação de um deslizamento com um rolamento. E o exame que o separa do tipo dois não é a tomografia nem a endoscopia — é o esofagograma baritado, que mostra onde está a junção em relação ao diafragma. Fundo no tórax com junção abaixo do hiato é tipo dois; os dois no tórax, tipo três.
A manometria esofágica entra por outro motivo: não faz o diagnóstico da hérnia, escolhe a válvula. Motilidade preservada admite fundoplicatura total; hipocontratilidade acentuada empurra para a parcial. A revisão brasileira de dois mil e seis a lista como parâmetro de motilidade no pré-operatório da cirurgia antirrefluxo e como referência para esclarecer disfagia depois dela.

A mesma régua em direções contrárias, conforme o desfecho
O argumento clássico para operar antes da urgência tem um número: a mortalidade da urgência contra a da eletiva. O modelo de decisão de dois mil e dois, sobre a amostra hospitalar nacional americana de mil novecentos e noventa e sete, mediu 5,4% na urgência e 1,4% na eletiva. Nove anos depois, a mesma base, lida entre dois mil e seis e dois mil e oito com 41.723 doentes, mediu 3,2% na urgência e 0,37% na eletiva.
Nas duas leituras a mortalidade caiu, em ritmos diferentes: a eletiva por um fator de 3,8 e a de urgência por 1,7. O efeito sobre a régua depende de qual desfecho se lê. Em diferença absoluta, o abismo encolheu 29%, de quatro pontos percentuais para 2,83. Em razão, mais que dobrou, de 3,9 vezes para 8,6. Mesma base, mesmo procedimento, lados opostos conforme se subtraia ou se divida.
Há uma terceira leitura, que desmancha as duas. A série de dois mil e dezenove que compara trinta operações de urgência com cento e noventa e nove eletivas escreve, na discussão, que a diferença de complicações deixa de ser significativa depois do pareamento por escore de propensão — e cita um trabalho em que a mortalidade dez vezes maior da urgência deixava de ser independente na análise ajustada. O título desse artigo é, literalmente, o argumento a favor do reparo eletivo.
O deslize aqui não é de número, é de uso. A comparação bruta compara doentes; a ajustada compara doentes de risco equivalente. Se a urgência seleciona quem é mais velho e mais doente, é esperado que a diferença encolha ao ajustar — isso fecha e não desmente o dado bruto. O que não se sustenta é citar as 8,6 vezes como benefício de operar mais cedo o mesmo doente: esse benefício é o que a análise ajustada mede, e é ele que some.

O risco anual que se partiu em quatro unidades diferentes
A conduta expectante numa hérnia paraesofágica conhecida se apoia num número: a chance de precisar de operação de urgência. Ele circula em unidades incompatíveis. O modelo de dois mil e dois fixou 1,1% ao ano; a revisão de dois mil e vinte e cinco escreve aproximadamente 1% ao ano; a série de dois mil e dezenove escreve de 0,7% a 7%, intervalo de dez vezes, sem dizer em que período. E o trabalho estadual americano citado na análise da amostra nacional escreve que 53% das internações por estômago intratorácico foram de urgência — proporção de internações, não risco anual.
A quinta forma é derivada: se 74,2% das 41.723 operações foram eletivas, 25,8% foram de urgência — cerca de 10.765 operações, complemento que o artigo não imprime. A sexta é a mais estreita: entre os operados por vólvulo gástrico agudo, 61,1% foram à mesa nas primeiras vinte e quatro horas — proporção de operações, numa série cujo critério de inclusão já era a urgência.
O que a média medida faz com essas réguas é o ponto. A idade média ponderada do operado por vólvulo agudo é de 75,3 anos. A série brasileira de setenta doentes operados com tela tem média de sessenta e três, e a de quinze tem média de quarenta e seis: o caso brasileiro operado é doze a vinte e nove anos mais jovem que o caso mundial de urgência, e cruza o limiar da indicação sem alcançar a descrição clássica que o justifica.
E o caso ideal ainda estoura o prazo. Dentro da própria série de vólvulo agudo — doentes com diagnóstico feito, no hospital, com indicação de urgência —, 38,9% não foram operados nas primeiras vinte e quatro horas e 11,8% foram operados depois de trinta dias. O funil publicado doente a doente soma exatamente 532 casos e cem por cento, e é dentro dele que o tempo se perde.
A tríade que a literatura cita e a própria tabela não encontra
A tríade de Borchardt — dor epigástrica com distensão, esforço de vômito improdutivo e impossibilidade de passar a sonda nasogástrica — é o que a prova cobra e o que os enunciados descrevem. A introdução da revisão de dois mil e vinte e cinco escreve que essa apresentação clássica é relatada em menos de 70% dos casos. A tabela de sintomas do mesmo artigo, sobre cento e cinquenta e sete estudos e 654 casos, registra a tríade completa em 112 deles: 17,1%.
A distância entre o que o artigo cita e o que ele mede é de 4,1 vezes, e não é comentada. O complemento também não é impresso: a tríade está ausente em 82,9% dos casos. As peças isoladas são muito mais frequentes que o conjunto — dor epigástrica em 71,1%, vômitos em 58,7%, náusea em 50,3%, dor torácica em 18,7% e hematêmese em 13,1%.
Uma dessas células não fecha com o próprio denominador. Dor epigástrica, náusea, dor torácica, hematêmese e a tríade batem com os seiscentos e cinquenta e quatro, a menos de cinco centésimos de ponto. Os vômitos, não: 387 sobre 654 são 59,17%, e a tabela imprime 58,7% — o que exigiria trezentos e oitenta e quatro casos, ou um denominador de seiscentos e cinquenta e nove. São três casos de folga numa tabela cujas outras linhas fecham.
A terceira medida vem do Brasil e é de outra ordem de grandeza. A série do hospital universitário paulista, trinta e oito doentes ao longo de trinta e quatro anos, teve apenas quatro casos agudos, e a tríade completa apareceu em dois deles — 50%. Três leituras: menos de 70% citado, 17,1% medido em seiscentos e cinquenta e quatro casos, 50% medido em quatro. Os dois maiores números vêm dos dois menores denominadores.
Metade dos casos não diz que hérnia era
A mesma revisão publica a distribuição por tipo de hérnia em setecentos e dois doentes: tipo dois em quatorze casos, tipo três em duzentos e vinte e dois, tipo quatro em cento e dez, e tipo não informado em trezentos e cinquenta e seis. A soma fecha e os percentuais somam cem: 2,0%, 31,6%, 15,7% e 50,7%. Metade da casuística de uma revisão sobre hérnia paraesofágica não registra qual hérnia era.
O número que a prova precisa não é nenhum dos quatro impressos. Entre os trezentos e quarenta e seis casos com tipo informado, o tipo três responde por 64,2%, o tipo quatro por 31,8% e o tipo dois por 4,1%. A fonte imprime 31,6% e não imprime os 64,2%. A diferença não é cosmética: 31,6% faz o tipo três parecer um terço do problema, e 64,2% mostra que ele é quase dois terços dele.
O que transforma isso em achado é que a mesma tabela renormaliza o eixo de rotação e não renormaliza o tipo de hérnia. Na linha do eixo, com 75,3% de casos não informados, imprime os brutos e, entre parênteses, os renormalizados. Na linha do tipo, com 50,7% de não informados, imprime só os brutos — dois problemas idênticos de dado faltante, tratados de modos diferentes a poucas linhas de distância.
Há ainda um tipo que não pode aparecer por construção: o tipo um. A revisão exclui, por critério, a hérnia de deslizamento — e é ela que responde por 95% de todas as hérnias hiatais. A classificação de quatro tipos que a prova cobra tem, na literatura da urgência, o seu membro mais comum estruturalmente ausente.
Três séries, três décadas, o mesmo três para um
O eixo em que o estômago torce tem dois nomes. Na rotação organoaxial ele gira em torno do eixo longitudinal que liga cárdia e piloro; na mesenteroaxial, em torno do transversal, perpendicular a esse. O primeiro é o comum, o segundo é o que mais estrangula. A proporção entre eles aparece em três fontes que não se citam.
O relato brasileiro de dois mil e dois traz a referência de livro-texto: organoaxial em 60% dos casos, mesenteroaxial em 30%, misto no resto — o que, renormalizado entre os dois eixos nomeados, dá 66,7% contra 33,3%. A série paulista de trinta e oito doentes teve vinte organoaxiais, sete mesenteroaxiais e onze inclassificáveis: entre os vinte e sete classificados, 74,07% contra 25,93%. A revisão mundial de dois mil e vinte e cinco, com duzentos e setenta e três casos classificados, imprime 73,99% contra 26,01%.
As duas medidas de doente real caem a oito centésimos de ponto percentual uma da outra, com denominadores de vinte e sete e de duzentos e setenta e três. Vale dizer o que essa coincidência é e o que não é. Com vinte e sete casos, o intervalo de confiança em torno de 74% vai de cerca de cinquenta e quatro a oitenta e nove por cento: a concordância na terceira casa é coincidência aritmética, não confirmação cruzada. O que converge é a ordem de grandeza — perto de três para um nas duas séries, contra dois para um do livro.
Para a prova, a leitura útil é a do erro de dois para um. A referência de sessenta e trinta por cento é a mais citada nos textos e subestima o predomínio organoaxial em cerca de sete pontos depois de renormalizada. Quem decora sessenta e trinta e quem decora três para um acerta a mesma alternativa; quem soma as duas versões erra o denominador.
O funil de complicações em que nenhuma é cirúrgica
A tabela de complicações da revisão registra 1.989 eventos. As quatro mais frequentes são trombose venosa profunda com 24,6%, infarto do miocárdio com 21,4%, tromboembolismo pulmonar com 18,8% e acidente vascular encefálico com 17,4% — somadas, mil seiscentos e trinta e seis eventos, 82,25% do total. O artigo escreve que as quatro respondem por mais de 80% e a conta confere.
As complicações que se esperaria de uma operação sobre o estômago de um idoso não estão lá. Infecção de ferida operatória aparece em doze casos, 0,6%; hemorragia intra-abdominal em oito, 0,4%; pneumonia em vinte e três, 1,2%. A causa não informada leva cento e setenta e cinco eventos, 8,8%. Uma distribuição em que o acidente vascular encefálico é catorze vezes mais frequente que a pneumonia não descreve uma enfermaria: descreve o que dois bancos administrativos enormes codificaram.
A graduação de gravidade tem o mesmo sintoma. Os graus vão de dois a cinco e somam os 1.989 eventos, mas o grau um está inteiramente ausente — zero ocorrências. Numa escala cujo primeiro degrau é o mais comum de qualquer série cirúrgica, o zero significa que só foi contado o que já exigiu intervenção. Os graus três e quatro respondem por 86,1% dos eventos graduados.
Três números competem pela mesma taxa. O bruto — 1.989 complicações em 9.010 doentes — dá 22,08%. A média ponderada dá 32,0%. A meta-análise de proporções dá 30%, com intervalo de 23% a 37%. E o grau cinco, o óbito, aparece em vinte casos: 1,0% das complicações contra 0,22% dos doentes. Essa divergência fecha e não é contradição: os denominadores diferem, 1.989 contra 9.010, razão de 4,5 vezes. Quem lê 1,0% como mortalidade da operação erra por essa razão exata.
Quatro linhas em que a média fica fora do intervalo
A tabela que compara os dois períodos da revisão traz, para cada variável, o valor total e os de mil novecentos e noventa a dois mil e quinze e de dois mil e dezesseis a dois mil e vinte e quatro. Uma média ponderada tem de cair entre as duas parcelas que a compõem. Em quinze linhas conferidas, quatro não caem.
O volume de estômago intratorácico é 84,1% no total, com 78,4% e 80,1% nos períodos. Os leucócitos são 15.056 no total, com 17.291 e 17.417 — o total fica abaixo dos dois. As readmissões são 11,0%, com 56,9% e 11,5% — de novo abaixo das duas. E a recorrência é 22,2%, com 16,4% e 8,9% — acima das duas. As outras onze linhas, entre elas idade, mortalidade e complicações, caem no intervalo.
O texto acompanha a tabela com a mesma folga. O parágrafo que explica a mortalidade mais alta no período recente aparece duas vezes, com redação quase idêntica. As idades que ele cita são 77,6 e 70,1 anos; a tabela imprime 77,7 e 70,2. E a mesma discussão escreve, num parágrafo, que readmissão e recorrência pioraram e, quatro parágrafos adiante, que as duas melhoraram significativamente depois de dois mil e quinze. Os números dizem melhora: 56,9% para 11,5% e 16,4% para 8,9%.
O corpo do estudo também é contado de três maneiras: os resultados falam em cento e setenta e um estudos e 15.178 doentes; a discussão, em cento e sessenta e sete e 14.989; e as limitações usam 15.178 ao escrever que 14.861 doentes são 97,9% da amostra. Nada disso invalida as proporções, que fecham dentro de cada tabela — mas obriga a citar cada número com a tabela de onde saiu.
A busca que abre a porta e encontra o quarto vazio
A revisão de dois mil e vinte e cinco declara, na elegibilidade, que nenhuma restrição de idioma ou geografia foi aplicada. A tabela de estratégias mostra o que essa declaração produziu: 1.049 registros em seis fontes — uma base europeia de resumos com quinhentos e catorze, uma norte-americana com cento e oitenta e três, um índice comercial com cento e dez, uma base de ciência com oitenta e três, a biblioteca virtual regional com cento e cinquenta e sete e a biblioteca eletrônica latino-americana com dois.
Uma base estrangeira responde sozinha por 49,0% do material identificado; a latino-americana, por 0,19%. Entre os cento e setenta e um estudos que sobraram, o Brasil aparece com quatro, 2,3%, empatado com Austrália, Canadá, Índia e Turquia. Somando Brasil, Colômbia, Cuba e México, a América Latina inteira dá sete estudos, 4,1%.
Há uma dedução a fazer aqui, e ela é deste capítulo, não da fonte. Os critérios aceitam relato de caso — e relato de caso é 82,5% do material incluído. O relato brasileiro de volvo gástrico agudo perfurado, publicado em periódico nacional indexado em dois mil e dois, preenche esses critérios. Se entrou entre os quatro estudos brasileiros, a tabela não permite saber; se não entrou, o motivo mais provável é que a busca que declarou não restringir geografia recuperou dois registros da única base que o indexava.
O efeito prático é sobre a validade externa, e a própria revisão o registra: quatro países respondem por noventa dos cento e setenta e um estudos e por 97,9% dos doentes. Números de complicação e de mortalidade colhidos desse corpo descrevem, em boa medida, a prática de quatro sistemas de saúde.
A tela que erodiu em treze por cento e a que não erodiu em nenhum
O calcanhar da correção da grande hérnia hiatal é a recidiva, e o reforço do hiato com prótese é a resposta clássica — que traz consigo o medo de erosão da tela para o esôfago. Duas séries brasileiras publicadas na mesma revista, com dois anos de distância, mediram isso e chegaram a resultados opostos.
A série paulista de dois mil e dez operou quinze doentes com tela de polipropileno ou de poliéster, seguimento médio de cinco anos. Em dois a tela migrou para o lúmen do esôfago, causando disfagia; o artigo escreve em apenas dois pacientes e não imprime a proporção, que é de 13,33%. A de Campinas, de dois mil e doze, operou setenta doentes com seguimento médio de quarenta e nove meses em oitenta e cinco por cento deles, e registra nenhuma complicação da prótese.
A tentação é atribuir a diferença ao tempo de observação, e a conta desmente: o seguimento da série que teve erosão é 22% mais longo que o da que não teve. O que separa as duas é a técnica, e ela está descrita. A de Campinas corta a prótese em U, sutura um cateter de silicone na borda côncava que ficaria em contato com o esôfago e recobre a tela com omento, impedindo o contato com o fundo gástrico e com a válvula. A outra aplica a tela direto sobre a crura. Não são a mesma operação — e é isso que fecha a divergência.
O denominador também pesa: setenta contra quinze, e nenhuma das duas tem tamanho para excluir uma erosão de poucos por cento. Para a prova o que importa é o par: reforço com prótese reduz recidiva e traz risco de erosão e estenose, e esse risco depende do desenho e da interposição de tecido entre a tela e o esôfago.
Quando a operação falha, e o que a prova pergunta então
A falha da fundoplicatura tem uma faixa larga e uma média. O trabalho de dois mil e dezenove, publicado em periódico brasileiro por um serviço chileno, escreve que a falha média relatada é de quase 18%, com faixa de 3% a 33% — intervalo de onze vezes —, e que de 4,5% a 20% desses doentes precisam de reoperação. A falha é de 5% a 12% em quem não tem esôfago de Barrett e de 12% a 39% em quem tem, cerca de três vezes mais; no obeso, a recorrência de sintomas chega a 31,3%.
O mesmo artigo tem um funil que não fecha. Declara cento e quatro doentes reoperados, dos quais cinquenta com Barrett de segmento longo e sessenta com obesidade mórbida. Cinquenta mais sessenta são cento e dez — seis a mais que o total declarado. A leitura que reconcilia é a de grupos não exclusivos, com seis doentes obesos e barrettianos ao mesmo tempo, mas o texto não diz isso.
O recado clínico é o que a banca cobra: re-fundoplicatura tem os piores resultados de todos os desfechos medidos — sintomas, esofagite endoscópica, manometria e pHmetria de vinte e quatro horas. E a conduta muda no doente com Barrett de segmento longo e no obeso, em que a fundoplicatura associada a gastrectomia distal em Y de Roux supera a simples refeitura da válvula, ao custo de morbidade maior.
Há um último dado, medido numa série pediátrica brasileira, que vale para o adulto pela lógica: a avaliação da válvula baseada apenas na presença de sintomas é instrumento ineficaz de monitorização no pós-operatório tardio. Quem só pergunta se a azia voltou não detecta o desmanche. É a mesma razão pela qual a série de dois mil e doze exigiu endoscopia ou radiografia contrastada de todos os seus setenta doentes.
Quatro decisões, na ordem em que a hérnia as cobra
A sequência abaixo separa o doente que vai à mesa por causa do refluxo do doente que vai por causa da hérnia. Cada passo tem uma pergunta própria e um exame próprio, e trocar a ordem entre eles é o erro que a prova cobra com mais frequência.
Primeiro: descobrir onde está a junção esofagogástrica
A pergunta anatômica vem antes da pergunta funcional. O esofagograma baritado mostra a posição da junção esofagogástrica em relação ao diafragma e é o que separa o tipo dois do tipo três; a endoscopia mostra esofagite, esôfago de Barrett, estenose e as erosões do fundo herniado que sangram. Um deslizamento acima de três centímetros já se associa a esfíncter inferior mais curto e a mais refluxo à pHmetria do que a ausência de hérnia. Sem essa etapa não se sabe qual das duas doenças está na frente.
Segundo: decidir se a indicação é o refluxo ou é a hérnia
São duas portas distintas. Pela porta do refluxo, a indicação brasileira é a intolerância ao controle clínico prolongado, a doença complicada com esôfago de Barrett, ulceração ou estenose, e a queixa atípica comprovadamente ligada a refluxo não ácido — e o ponto crucial declarado é a tolerância do doente ao tratamento continuado, não um número. Pela porta da hérnia, a indicação é o sintoma da própria hérnia: disfagia, saciedade precoce, dor torácica pós-prandial, dispneia posicional e anemia ferropriva por erosões do fundo. Anemia ferropriva sem outra causa em portador de hérnia volumosa é indicação, não achado.
Terceiro: reconhecer a hérnia que virou urgência
Dor epigástrica intensa e súbita, esforço de vômito improdutivo e sonda nasogástrica que não progride formam a tríade clássica, presente em cerca de um sexto dos casos medidos e ausente em quatro quintos deles. A imagem que fecha é o nível hidroaéreo retrocardíaco no tórax, ou o estômago inteiro acima do diafragma. Ausência da tríade não afasta: o achado que mais aparece é a dor epigástrica isolada. Vólvulo gástrico em hérnia paraesofágica é emergência cirúrgica, e a rotação organoaxial é a comum enquanto a mesenteroaxial estrangula com mais frequência.
Quarto: escolher a válvula e o reforço do hiato
A operação tem três tempos: reduzir o conteúdo e ressecar o saco, fechar o hiato e confeccionar a válvula. A manometria escolhe a válvula — motilidade preservada admite fundoplicatura total, hipocontratilidade acentuada pede parcial. O reforço do fechamento com prótese reduz recidiva em grandes hérnias e traz risco de erosão e de estenose, medido em treze por cento numa série brasileira de quinze doentes com tela aplicada direto sobre a crura e em zero numa de setenta com tela em U recoberta por omento. Recidiva sintomática pede reoperação; re-fundoplicatura tem os piores resultados funcionais de todas as opções.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Um vírgula um por cento ao ano, a régua do modelo
O modelo de decisão construído sobre a amostra hospitalar nacional americana de mil novecentos e noventa e sete fixou em 1,1% a probabilidade anual de o portador de hérnia paraesofágica em conduta expectante precisar de operação de urgência. É o número que sustenta a recomendação de observar a hérnia assintomática e o único da série com unidade de tempo explícita.
Front Surg. 2015;2:13, seção de tratamento, reproduzindo o modelo de Ann Surg 2002
Aproximadamente um por cento ao ano, a régua da revisão
A revisão sistemática de dois mil e vinte e cinco abre a introdução escrevendo que aproximadamente um por cento dos portadores de hérnia paraesofágica apresenta sintomas agudos e requer cirurgia de urgência anualmente. É a mesma ordem de grandeza do modelo, arredondada, e citada como fato estabelecido.
World J Emerg Surg. 2025;20:41, introdução
De zero vírgula sete a sete por cento, a faixa sem período
A série de dois mil e dezenove escreve que o risco aproximado de necessitar de operação de urgência num portador de hérnia paraesofágica é de 0,7% a 7%. São dez vezes de amplitude num único intervalo, e a frase não declara em que período. Usada como se fosse anual, a ponta superior transforma conduta expectante em risco de sete por cento ao ano.
JSLS. 2019;23(2):e2019.00017, introdução
Cinquenta e três por cento, mas de internações
O trabalho estadual americano citado na análise da amostra nacional registra que mais da metade das internações por estômago intratorácico foi de urgência, e que 66% dessas internações de urgência receberam alta sem qualquer operação. É proporção de internações, não risco de evento, e a segunda metade da frase muda o sentido da primeira.
Surg Endosc. 2014;28(12):3473-8, discussão, citando série do estado de Nova York de 2002 a 2006
Na prova
Se a alternativa oferecer cerca de um por cento ao ano, nenhuma banca a considerará errada — é a régua que virou consenso de texto. O que muda é a unidade por trás. Guarde que existe uma faixa publicada de 0,7% a 7% sem período declarado, e que os números que parecem grandes, como cinquenta e três por cento ou sessenta e um por cento, não são risco anual e sim proporção de internações e de operações. Confundir as unidades é o erro que a questão de conduta expectante costuma armar.
Bruta, na leitura antiga: 5,4% contra 1,4%
O modelo de dois mil e dois, sobre a base de mil novecentos e noventa e sete, mediu mortalidade de 5,4% na operação de urgência e de 1,4% na eletiva. Foi com esse par que se concluiu, à época, que a urgência era menos mortal do que se supunha e que a conduta expectante era estratégia razoável no assintomático ou pouco sintomático.
Front Surg. 2015;2:13, seção de tratamento
Bruta, na leitura recente: 3,2% contra 0,37%
A mesma base hospitalar, lida entre dois mil e seis e dois mil e oito com 41.723 doentes, mediu 3,2% na urgência e 0,37% na eletiva. Nas duas leituras a mortalidade caiu; a diferença absoluta encolheu de quatro para 2,83 pontos percentuais, e a razão entre elas subiu de 3,9 para 8,6 vezes.
Surg Endosc. 2014;28(12):3473-8, resultados
Ajustada: a diferença deixa de existir
A série de trinta doentes de urgência contra cento e noventa e nove eletivos registra que as diferenças significativas de complicação desaparecem depois do pareamento por escore de propensão, e cita um trabalho em que a mortalidade dez vezes maior da urgência deixou de ser associação independente na análise ajustada. A leitura dos autores é que pode não haver benefício adicional em converter a urgência em eletiva em mãos experientes.
JSLS. 2019;23(2):e2019.00017, discussão
Na prova
A alternativa que disser que a urgência tem morbidade e mortalidade maiores está certa em qualquer banca — é o que todas as análises brutas mostram. O cuidado é com a alternativa que transforma isso em benefício de operar antes: as análises pareadas por risco não sustentam essa segunda leitura. Se a questão pedir a magnitude, dê a bruta; se pedir a conclusão sobre indicar cirurgia eletiva no assintomático, lembre que o modelo de decisão favorece a observação.
Mais da metade seria assintomática
A revisão de dois mil e quinze escreve que alguns estudos sugerem que mais da metade dos portadores de hérnia paraesofágica é assintomática, e acrescenta, no mesmo trecho, que o número verdadeiro permanece desconhecido por falta de estudos populacionais. É a base do argumento a favor de observar.
Front Surg. 2015;2:13, incidência e apresentação clínica
Um em duzentos e setenta seria assintomático
A mesma revisão relata a série de duzentos e setenta doentes operados em que duzentos e sessenta e nove eram sintomáticos, com mediana de quatro sintomas: pirose em 65%, saciedade precoce em 50%, dor torácica em 48%, dispneia em 48%, disfagia em 48%, regurgitação em 47% e anemia em 41%. A conclusão dos autores é que o doente verdadeiramente assintomático é raro.
Front Surg. 2015;2:13, incidência e apresentação clínica, citando série de 270 doentes
A reconciliação está na própria fonte
As duas afirmações distam cento e trinta e cinco vezes uma da outra, e o texto explica por quê antes de acusar: todos os duzentos e setenta doentes da série foram operados por hérnia sintomática, de modo que a série não tem população capaz de estimar a fração assintomática. Não é contradição, é denominador. O deslize seria citar o um em duzentos e setenta como prova de que a hérnia raramente é silenciosa.
Front Surg. 2015;2:13, limitação declarada da série de 270 doentes
Na prova
Aqui as duas respostas aparecem impressas no mesmo parágrafo da mesma fonte, e a banca costuma usar a versão que serve à sua pergunta. Se o enunciado discute conduta expectante, a resposta esperada é que boa parte é assintomática; se discute a avaliação pré-operatória, é que o sintoma existe e passa despercebido. Nas duas, a chave é que sintoma de hérnia grande é insidioso e costuma ser atribuído à idade.
Caso resolvido
- primeiro, ler a tríade como mecânica e não como conjunto raro
- Dor epigástrica intensa e súbita, esforço de vômito improdutivo e sonda que não progride são a tríade completa, e ela está presente. O valor dela aqui não é estatístico e sim mecânico: a sonda que não passa localiza a obstrução acima da cárdia e é o sinal que separa este quadro de uma gastroparesia, de uma pancreatite e de uma úlcera perfurada. A tríade completa aparece em menos de um quinto dos casos medidos, de modo que a sua presença fecha, mas a sua ausência não afastaria.
- segundo, usar a imagem simples que já está feita
- Nível hidroaéreo retrocardíaco numa radiografia de tórax, num doente com hérnia de hiato conhecida e sonda que não progride, é estômago intratorácico. Não é preciso tomografia para indicar a operação nesse cenário, embora ela seja útil quando disponível e o doente estiver estável. O eletrocardiograma sem isquemia e a troponina normal já retiram a síndrome coronariana da frente da fila, e a dor retroesternal em idoso justifica ter feito os dois.
- terceiro, nomear a hérnia antes de nomear a torção
- O vólvulo gástrico agudo do adulto é quase sempre secundário, e a causa mais frequente é a hérnia paraesofágica. Descrever apenas vólvulo gástrico deixa o diagnóstico pela metade, porque a operação corrige as duas coisas: destorce e reduz o estômago, e depois fecha o hiato para que ele não suba de novo. O eixo mais provável é o organoaxial, que responde por cerca de três quartos dos casos classificados nas duas séries que os classificaram.
- quarto, ler a anemia microcítica como parte da doença
- Hemoglobina de 10,2 com volume corpuscular de 76 fentolitros numa portadora de hérnia volumosa não é achado incidental: é anemia ferropriva por erosões da mucosa do fundo gástrico herniado, que ficam no ponto em que o estômago cruza o hiato. Anemia aparece em 41% dos doentes de uma série de duzentos e setenta operados eletivamente. Neste caso ela é retrospectiva — indica que a hérnia já vinha cobrando havia meses, e que a indicação eletiva existia antes desta madrugada.
- quinto, indicar a operação e não a descompressão isolada
- A conduta é reposição volêmica, correção do que der para corrigir em minutos e laparotomia ou laparoscopia de urgência para redução, avaliação da viabilidade gástrica e reparo do hiato. A tentativa de descompressão endoscópica ou por sonda não substitui a operação num quadro com taquicardia, hipotensão relativa e lactato elevado. Nas séries mundiais, 61,1% dos doentes chegam à mesa nas primeiras vinte e quatro horas — e o terço restante é onde a mortalidade se acumula.
- sexto, calibrar a expectativa de desfecho
- A idade média do doente operado por vólvulo agudo em série mundial é de 75,3 anos, quase exatamente a desta paciente. A taxa de complicação pós-operatória fica entre 22% e 32% conforme o denominador, e a mortalidade de trinta dias entre 3% e 5,7%. As complicações mais frequentes registradas não são cirúrgicas e sim vasculares — trombose venosa profunda, infarto, tromboembolismo e acidente vascular encefálico somam mais de oitenta por cento dos eventos. Profilaxia de tromboembolismo e vigilância cardiovascular no pós-operatório não são detalhe.
Agora feche você
- Passo 1
- Qual é o tipo anatômico mais provável desta hérnia, e qual exame de imagem definiria isso de forma inequívoca caso houvesse dúvida entre o tipo dois e o tipo três?
- Passo 2
- Pelas indicações brasileiras de tratamento cirúrgico do refluxo, qual delas este doente preenche, e por que a presença da hérnia de quatro centímetros não é, por si só, a indicação?
- Passo 3
- Qual exame ainda falta antes de marcar a operação, e o que exatamente a sua resposta muda na técnica que será realizada?
- Passo 4
- Se a esofagite fosse Los Angeles grau A e a pHmetria mostrasse exposição ácida normal com sintomas persistentes, o que isso mudaria na indicação e por quê?
- Passo 5
- Qual é a faixa de falha relatada para a fundoplicatura, e o que se deve dizer a este doente sobre a chance de precisar voltar ao remédio ou a uma segunda operação?
- Passo 6
- Que método de seguimento pós-operatório se deve programar, e por que a entrevista clínica isolada é insuficiente para detectar o desmanche da válvula?
Onde a banca derruba
- 1Esperar o nome da hérnia aparecer no enunciado Nas questões do acervo, os termos deste capítulo aparecem em vinte e quatro enunciados e em quarenta e duas alternativas, sendo vinte e oito delas em questões cujo enunciado não traz o termo em nenhum lugar. Treze questões têm o termo dentro da alternativa correta, e todas as treze são de trilha de prova. O enunciado entrega uma senhora de setenta e poucos anos com dor epigástrica e vômito que não vem; o nome só aparece na hora de escolher.
- 2Tratar a tríade de Borchardt como critério de entrada A tríade completa aparece em 17,1% dos casos medidos numa revisão de seiscentos e cinquenta e quatro doentes e está ausente em 82,9% deles. Dor epigástrica isolada aparece em 71,1%. Exigir os três elementos para pensar em vólvulo gástrico descarta quatro em cada cinco casos. O elemento que mais vale é o mecânico, e não a soma: sonda nasogástrica que não progride num doente com dor epigástrica e distensão já basta.
- 3Confundir a régua do refluxo com a régua da hérnia A indicação brasileira de operar refluxo é a intolerância ao tratamento clínico prolongado, a doença complicada e a queixa atípica por refluxo não ácido — nenhuma delas menciona tamanho de hérnia. A indicação de operar a hérnia paraesofágica é o sintoma dela: disfagia, saciedade precoce, dispneia posicional, anemia ferropriva. Um doente pode ter as duas indicações e nenhuma delas prediz a outra.
- 4Ler o percentual de complicação sem o denominador Na tabela de complicações da revisão sistemática, o óbito aparece como 1,0% — mas esse 1,0% é vinte em 1.989 complicações, não vinte em 9.010 doentes, que daria 0,22%. A mortalidade de trinta dias que o mesmo artigo reporta é 5,7% pela média ponderada e 3% pela meta-análise. Quatro números para o mesmo assunto, com denominadores que diferem por 4,5 vezes.
- 5Achar que a tela é sempre segura ou sempre perigosa Duas séries brasileiras da mesma revista, com dois anos de distância, mediram erosão de tela em 13,3% de quinze doentes e em zero de setenta. O seguimento da série que teve erosão foi vinte e dois por cento mais longo, o que exclui o tempo como explicação. O que difere é a técnica: prótese em U com cateter de silicone na borda côncava e recobrimento por omento, contra tela aplicada direto sobre a crura.
- 6Monitorar a válvula só pela pergunta sobre azia A série brasileira que avaliou o pós-operatório tardio da fundoplicatura registra que a avaliação da válvula baseada apenas na presença de sintomas é instrumento ineficaz de monitorização. Desmanche da válvula e recidiva anatômica ocorrem sem que o doente volte a queixar-se de pirose. O seguimento que a série de setenta doentes usou combinou entrevista com endoscopia ou radiografia contrastada em todos.
Os três achados medem coisas diferentes e só brigam quando se troca uma pela outra. A comparação bruta compara doentes; a pareada compara doentes de risco equivalente. Se a urgência seleciona quem é mais velho e mais doente, é esperado que a diferença encolha ao ajustar — isso reconcilia a base hospitalar com a série pareada sem que nenhuma delas esteja errada. O erro seria usar a razão bruta como se fosse o benefício de antecipar a operação no mesmo doente, porque esse benefício é justamente o que a análise ajustada mede e não encontra. Dizer que a urgência não tem pior prognóstico ignora que a diferença bruta é real e enorme, e que a série pareada tem trinta doentes de um lado. Descartar o modelo de decisão inverte a lógica: ele é o único dos três que estima risco prospectivo de evento, e é dele que sai a régua de cerca de um por cento ao ano. E contraindicar conduta expectante por idade contraria o próprio modelo, que a recomenda no assintomático ou pouco sintomático.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Homem de 72 anos, com hérnia hiatal volumosa conhecida, é internado por dor epigástrica súbita e vômitos. Encontra-se estável, com lactato normal e sem sinais de irritação peritoneal. A tomografia confirma estômago intratorácico com rotação em torno do eixo longitudinal que liga cárdia e piloro. Qual é o eixo da rotação e qual é a implicação prática dessa classificação?
A rotação em torno do eixo longitudinal cardiopilórico é a organoaxial, e a perpendicular a ele é a mesenteroaxial. Duas séries independentes convergem na proporção: entre os casos efetivamente classificados, cerca de três quartos são organoaxiais e um quarto mesenteroaxiais — 74,07% numa série brasileira de trinta e oito doentes e 73,99% numa revisão mundial com duzentos e setenta e três casos classificados. A referência de livro-texto que circula, de sessenta contra trinta por cento, renormaliza para dois terços contra um terço e subestima o predomínio em cerca de sete pontos. A implicação prática é que o eixo comum não é o mais perigoso: o mesenteroaxial, mais raro, é o que mais frequentemente estrangula. Nada disso muda a indicação de operar, porque estabilidade clínica não é permissão para observar vólvulo agudo — muda apenas a expectativa de achado intraoperatório.
Mulher de 70 anos é investigada por dispneia aos esforços e saciedade precoce. Tem anemia com hemoglobina de 9,8 gramas por decilitro e volume corpuscular médio de 74 fentolitros, ferritina baixa. Colonoscopia e endoscopia não mostram lesão neoplásica; a endoscopia descreve hérnia hiatal volumosa com erosões lineares na mucosa gástrica ao nível do estreitamento diafragmático. Qual é a interpretação correta desse conjunto?
As erosões lineares na mucosa gástrica no ponto em que o estômago cruza o hiato são a lesão descrita classicamente no fundo herniado, e produzem perda crônica de sangue com anemia ferropriva. Numa série de duzentos e setenta doentes operados eletivamente por hérnia paraesofágica, anemia estava presente em 41%, ao lado de saciedade precoce em 50% e de dispneia em 48% — os três sintomas que este caso reúne. A anemia ferropriva sem outra causa numa portadora de hérnia volumosa é indicação de correção, não achado a acompanhar. Prosseguir com cápsula endoscópica faz sentido quando as duas endoscopias são normais, o que não é o caso: a fonte foi vista. Anemia de doença crônica não cursa com ferritina baixa e microcitose desse grau. Repor ferro sem tratar a fonte devolve o problema em meses. E esofagite de refluxo é lesão esofágica, não gástrica, e não explica erosões no nível do diafragma.
Homem de 63 anos submetido a fundoplicatura total há três anos por doença do refluxo com esôfago de Barrett de segmento longo apresenta recidiva de pirose diária, refratária a inibidor de bomba de prótons em dose dobrada. Endoscopia mostra desmanche parcial da válvula com esofagite erosiva e Barrett persistente. pHmetria confirma exposição ácida patológica. Não é obeso. Considerando a literatura sobre falha da fundoplicatura, qual conduta tem o melhor respaldo?
O trabalho que reuniu cento e quatro doentes reoperados após falha da fundoplicatura mostra que a simples refeitura da válvula produz os piores resultados em todos os desfechos medidos — sintomas, esofagite endoscópica, manometria e pHmetria de vinte e quatro horas. No subgrupo com Barrett de segmento longo, os melhores resultados vieram da fundoplicatura associada a gastrectomia distal em Y de Roux, e os autores recomendam esse procedimento apesar de sua morbidade maior. É por isso que a opção de refazer apenas a válvula, embora seja a mais executada na prática, não é a mais bem respaldada aqui. Manter o bloqueador ácido num doente que já falhou com dose dobrada mantém a exposição ácida documentada. Esofagectomia não é indicada por segmento longo sem displasia de alto grau ou neoplasia. E a ablação por radiofrequência trata o epitélio metaplásico, não a falha mecânica da válvula, de modo que não corrige o refluxo que a produziu.
Mulher de 74 anos, hipertensa, procura o pronto-socorro com dor epigástrica e retroesternal intensa iniciada há quatro horas, contínua, com ânsia de vômito persistente sem eliminação de conteúdo. Refere endoscopia há dois anos que evidenciou hérnia de hiato volumosa. Ao exame está descorada, taquicárdica, com abaulamento e dor no epigástrio, sem defesa nos demais quadrantes. A equipe tenta passar sonda nasogástrica e encontra resistência, sem progressão. Eletrocardiograma sem alterações isquêmicas. A radiografia de tórax mostra nível hidroaéreo retrocardíaco. Qual é o diagnóstico mais provável?
Vários dados do caso apontam para abdome agudo alto, mas quase nenhum separa as causas entre si. Quem separa é a combinação de esforço de vômito improdutivo com sonda nasogástrica que não progride: essa dupla localiza a obstrução acima da cárdia e é mecânica, não inflamatória. Some a ela o nível hidroaéreo retrocardíaco, que é estômago dentro do tórax, e a hérnia de hiato volumosa conhecida, que é a causa secundária mais frequente de vólvulo gástrico no adulto. Pancreatite não impede a sonda de passar. A perfuração esofágica costuma vir depois de vômito com eliminação de conteúdo, não de esforço improdutivo, e produz enfisema e derrame, não nível hidroaéreo retrocardíaco. O eletrocardiograma sem isquemia afasta o infarto de parede inferior como explicação primária. E a úlcera perfurada dá pneumoperitônio e defesa difusa, não abaulamento epigástrico localizado com sonda travada. A tríade descrita é a de Borchardt, presente em cerca de um sexto dos casos medidos — sua presença fecha, mas sua ausência não afastaria.
Homem de 58 anos foi submetido a fundoplicatura laparoscópica há quatro anos por doença do refluxo gastroesofágico. Está assintomático, sem pirose e sem uso de medicação. Comparece para consulta de rotina e pergunta se precisa de algum exame. Qual é a conduta correta quanto ao seguimento da válvula antirrefluxo?
Em paciente assintomático após fundoplicatura, sem Barrett, disfagia, anemia, perda ponderal ou outro sinal de alarme informado, não há recomendação de endoscopia, contraste ou pHmetria periódicos apenas para documentar a anatomia da válvula. O seguimento é clínico, e exames objetivos são indicados se surgirem sintomas, suspeita de complicação, falha terapêutica ou outra indicação independente. Alterações anatômicas assintomáticas descritas em séries observacionais não demonstram benefício de rastreamento universal nem autorizam reoperação preventiva. Fontes: https://www.sages.org/publications/guidelines/multi-society-consensus-conference-and-guideline-on-the-treatment-of-gastroesophageal-reflux-disease-gerd/ ; https://academic.oup.com/dote/article/37/12/doae090/7833419
Homem de 61 anos realiza esofagograma baritado por disfagia intermitente. O exame demonstra o fundo gástrico herniado para o tórax, ao lado do esôfago, enquanto a junção esofagogástrica permanece abaixo do diafragma. Qual é a classificação anatômica desta hérnia hiatal?
O que define o tipo é a posição da junção esofagogástrica em relação ao diafragma, e é exatamente isso que o esofagograma baritado mostra melhor do que qualquer outro exame. Junção no lugar com fundo gástrico ao lado do esôfago é a hérnia paraesofágica pura. Na de deslizamento, a junção é que sobe e o fundo acompanha em continuidade. Na mista, junção e fundo estão ambos acima do diafragma — é a mais comum das paraesofágicas, respondendo por cerca de dois terços dos casos em que o tipo foi registrado numa revisão sistemática recente. O tipo com víscera adicional exige que outro órgão, como cólon ou intestino delgado, tenha subido junto, o que o enunciado não descreve. E a tomografia é útil na urgência e para planejamento, mas não é necessária para essa classificação: quem responde a pergunta anatômica aqui é o contraste.
Homem de 49 anos com pirose e regurgitação típicas há sete anos usa inibidor de bomba de prótons em dose plena. Fica assintomático com a medicação e volta a ter pirose diária em poucos dias sempre que tenta suspendê-la. Endoscopia recente mostra esofagite erosiva de Los Angeles grau B e hérnia hiatal de quatro centímetros, sem esôfago de Barrett. A pHmetria de vinte e quatro horas confirma exposição ácida patológica com boa correlação entre sintoma e refluxo. Ele deseja interromper o uso contínuo do medicamento. Considerando as indicações brasileiras de tratamento cirúrgico do refluxo, qual é a conduta mais adequada?
A revisão brasileira que organiza as indicações escreve que o ponto crucial da indicação cirúrgica é a tolerância do paciente ao tratamento clínico prolongado, e acrescenta que os melhores resultados funcionais aparecem justamente em quem respondeu bem ao remédio mas se tornou dependente dele para manter-se assintomático. É a descrição literal deste doente, que ainda tem esofagite erosiva e pHmetria patológica documentando a doença. Manter o remédio para sempre é uma opção legítima que o texto manda oferecer, mas não é a conduta quando o doente já a recusou duas vezes e pede alternativa. O tamanho da hérnia não é indicação: as três indicações brasileiras são intolerância ao controle clínico prolongado, formas complicadas com esôfago de Barrett, ulceração ou estenose, e queixa atípica por refluxo não ácido — nenhuma menciona centímetros. Procinético não muda o cenário de dependência já estabelecido. E a impedanciopHmetria serve para o sintoma que persiste apesar do bloqueio ácido, não para quem já tem exposição ácida patológica comprovada.
Mulher de 68 anos é encaminhada para avaliação de hérnia hiatal mista volumosa, com disfagia e saciedade precoce há um ano. Foi programada correção laparoscópica com hiatoplastia e fundoplicatura. Qual exame pré-operatório tem como função principal definir se a válvula será total ou parcial?
Cada exame do arsenal pré-operatório responde a uma pergunta diferente, e a pergunta sobre o tipo de válvula é de motilidade. A manometria mede o tônus dos esfíncteres e a atividade motora do corpo esofágico: motilidade preservada admite fundoplicatura total, e hipocontratilidade acentuada empurra para a válvula parcial. A revisão brasileira acrescenta um segundo motivo para pedi-la antes: quando aparece disfagia no pós-operatório, o traçado prévio serve de referência e aumenta a chance de esclarecer a causa. O contraste define a anatomia e o tipo da hérnia, mas não diz nada sobre motilidade. A endoscopia procura esofagite, Barrett, estenose e as erosões do fundo herniado. A pHmetria documenta exposição ácida e é dispensável quando já existe disfagia, que sozinha basta como indicação. A tomografia ajuda no planejamento de hérnias muito grandes e na urgência, sem papel na escolha da válvula.
Uma revisão sistemática sobre vólvulo gástrico agudo secundário a hérnia paraesofágica publica, em seiscentos e cinquenta e quatro casos, os seguintes sintomas: dor epigástrica em 71,1%, vômitos em 58,7%, náusea em 50,3%, dor torácica em 18,7%, hematêmese em 13,1% e tríade de Borchardt completa em 17,1%. A introdução do mesmo artigo afirma que a apresentação clássica é relatada em menos de setenta por cento dos casos. Qual é a leitura correta desses dados para a prática?
A tabela e a introdução do mesmo artigo divergem por um fator de cerca de quatro vezes: menos de setenta por cento é o que a literatura citada afirma, e 17,1% é o que os seiscentos e cinquenta e quatro casos do próprio levantamento mostram. O complemento, que o artigo não imprime, é que a tríade está ausente em 82,9% dos casos. A consequência prática é direta: exigir os três elementos descarta quatro em cada cinco doentes. O que sobra com frequência é a dor epigástrica, em 71,1%, seguida dos vômitos. Dizer que os dados não permitem conclusão joga fora a informação mais útil da tabela. Dizer que a divergência é arredondamento não se sustenta diante de uma razão de quatro vezes. E hematêmese, presente em 13,1%, é o achado menos frequente da lista — sua ausência não afasta nada. O elemento de maior valor isolado permanece o mecânico: sonda nasogástrica que não progride.
Em um exercício, duas séries não randomizadas de reparo de grande hérnia hiatal com prótese apresentam os seguintes resultados: 15 pacientes, seguimento médio de cinco anos e duas migrações da tela; 70 pacientes, seguimento médio de 49 meses e nenhuma complicação protética registrada. Qual interpretação é sustentada apenas por esses dados?
Foram observados 13,3% de eventos na primeira série e zero na segunda. Não há comparação controlada que isole material, técnica, seleção dos pacientes ou acompanhamento. Cinco anos equivalem a 60 meses, mais que 49; ainda assim, a diferença de duração não estabelece uma causa. Zero eventos em 70 pacientes não demonstra risco zero, e tamanho amostral não cria proteção biológica. O resultado pode gerar hipóteses, sem comprová-las.
Sobre a hérnia de hiato por deslizamento, assinale a afirmativa correta.
Na hérnia por deslizamento a junção esofagogástrica migra para o tórax, o que favorece o refluxo, mas o achado isolado não é indicação operatória: quem define a cirurgia é a doença do refluxo e sua refratariedade ou complicação. Descrever fundo gástrico ao lado do esôfago com junção tópica é a definição da hérnia paraesofágica, e essa troca de definições é a pegadinha mais comum. O volvo gástrico é complicação da paraesofágica, não da de deslizamento.
Mulher de 71 anos apresenta hérnia de hiato paraesofágica volumosa, com mais de um terço do estômago no tórax, saciedade precoce, anemia ferropriva e episódios de dor torácica pós-prandial. Qual a conduta?
Hérnia paraesofágica volumosa e sintomática tem indicação cirúrgica pelo risco de volvo gástrico, encarceramento e sangramento crônico da mucosa herniada, e o reparo inclui reduzir o conteúdo, ressecar o saco, fechar o hiato e acrescentar uma válvula para evitar refluxo pós-operatório. Tratar com inibidor de bomba é o erro de quem enxerga apenas o componente ácido, sem perceber que o problema aqui é mecânico. Dilatação do hiato não existe como tratamento.
Durante cirurgia antirrefluxo por hérnia de hiato volumosa, o cirurgião observa que, após ampla dissecção mediastinal, não é possível posicionar pelo menos 2 a 3 cm de esôfago abdominal sem tensão. Qual é a conduta?
O esôfago curto adquirido decorre da fibrose por inflamação crônica, e insistir em uma válvula sob tensão é a receita para migração intratorácica e recidiva precoce, que é a complicação mais temida da cirurgia antirrefluxo em hérnias volumosas. A solução consagrada é a gastroplastia de alongamento, que cria um segmento de neoesôfago a partir da pequena curvatura gástrica e permite montar a válvula sem tensão abaixo do diafragma. Esofagectomia é desproporcional para doença benigna, e a gastropexia isolada não controla o refluxo.
Sobre a classificação das hérnias de hiato, qual afirmativa está correta?
O tipo I, por deslizamento, é o mais comum e caracteriza-se pela migração da junção esofagogástrica para o tórax, sendo o mais associado a refluxo. O tipo II é a paraesofágica pura, com a junção em posição normal e o fundo gástrico herniado ao lado do esôfago; o tipo III é misto, com migração da junção e do fundo; e o tipo IV inclui outras vísceras no saco, como cólon, baço ou pâncreas. Trocar o tipo I pelo tipo II é o erro mais frequente e desorganiza todo o raciocínio sobre indicação cirúrgica.
Qual achado radiológico é característico da hérnia de hiato paraesofágica volumosa na radiografia simples de tórax?
O estômago herniado para o mediastino posterior produz, na radiografia de tórax, uma imagem com nível hidroaéreo situada atrás da silhueta cardíaca, achado que frequentemente permite a suspeita diagnóstica em exames feitos por outro motivo. A confirmação e o detalhamento anatômico vêm da tomografia e da radiografia contrastada. Hipertransparência com ausência de trama vascular corresponde a pneumotórax, e velamento homogêneo sugere derrame ou atelectasia extensa, achados que às vezes são confundidos com a hérnia quando não se busca o nível hidroaéreo retrocardíaco.
Sobre o uso de tela na crurorrafia do hiato esofágico em hérnias paraesofágicas volumosas, qual afirmativa é a mais adequada?
O reforço do hiato com tela reduz a recidiva anatômica precoce em algumas séries, mas o benefício não se mantém consistentemente a longo prazo, e o risco de erosão para o esôfago ou para o estômago, com complicações que podem exigir esofagectomia, mantém o tema em debate; por isso o uso ficou restrito a defeitos grandes e casos selecionados, com preferência por materiais absorvíveis ou biológicos. Usar tela em toda hérnia de hiato é excesso injustificável, e ela nunca substitui a crurorrafia, funcionando apenas como reforço da sutura dos pilares.
Paciente de 70 anos com hérnia paraesofágica conhecida chega ao pronto-socorro com dor epigástrica intensa e súbita, ânsia de vômito sem conseguir vomitar e impossibilidade de progressão da sonda nasogástrica. Qual é o diagnóstico e a conduta?
A tríade de dor epigástrica intensa, ânsia de vômito improdutiva e impossibilidade de passar sonda nasogástrica, descrita por Borchardt, caracteriza o volvo gástrico e é uma emergência cirúrgica, pela isquemia e pelo risco de perfuração. Em paciente com hérnia paraesofágica conhecida, o reconhecimento precisa ser imediato. Confundir com gastroenterite ou pancreatite é o erro que consome as horas em que o estômago ainda é viável. O infarto entra no diferencial de dor epigástrica no idoso e deve ser afastado, mas não explica a impossibilidade de passagem da sonda.
Mulher de 68 anos com hérnia de hiato paraesofágica volumosa apresenta anemia ferropriva crônica, sem sangramento visível e com colonoscopia normal. Qual é a explicação mais provável?
As lesões de Cameron são erosões ou úlceras lineares na mucosa gástrica, no ponto em que o estômago herniado é comprimido pelo anel diafragmático, e resultam de trauma mecânico somado a isquemia local; são causa clássica de anemia ferropriva crônica e de sangramento oculto em portadores de hérnias volumosas. Reconhecê-las importa porque a correção cirúrgica da hérnia resolve a anemia, e porque elas passam despercebidas quando a endoscopia não examina cuidadosamente essa transição. A colonoscopia normal, no caso, já direciona a investigação para o trato digestivo alto.
Quais etapas técnicas são essenciais para uma fundoplicatura adequada?
A operação reconstrói a barreira antirrefluxo por etapas: reduzir a hérnia e obter esôfago abdominal suficiente, excisar o saco herniário, aproximar os pilares para fechar o hiato alargado e confeccionar uma válvula curta e frouxa, tradicionalmente calibrada sobre sonda para evitar constrição. Omitir a crurorrafia é a falha técnica que mais se associa a migração da válvula e recidiva precoce. E a válvula longa e apertada é a receita de disfagia persistente, motivo pelo qual a técnica moderna insiste no oposto, com fundoplicatura de cerca de 2 cm e sem tensão.
Paciente de 86 anos, com múltiplas comorbidades e alto risco cirúrgico, apresenta hérnia paraesofágica volumosa com episódios recorrentes de obstrução e vômitos. Qual é a alternativa terapêutica mais adequada?
No paciente muito idoso e frágil com hérnia sintomática, a estratégia é o procedimento mais curto que resolva o problema mecânico: reduzir o conteúdo e fixar o estômago à parede abdominal com gastropexia, eventualmente associada a gastrostomia, o que previne novo volvo com menor tempo cirúrgico e menor morbidade. Insistir na reconstrução completa é submeter um paciente frágil a um procedimento longo com risco desproporcional. Manter apenas dieta e medicação em quem já tem obstrução recorrente ignora o risco de volvo e estrangulamento, e a idade isolada não contraindica intervenção.
Quais são as etapas técnicas fundamentais na correção cirúrgica da hérnia de hiato paraesofágica volumosa?
A operação segue etapas encadeadas: reduzir o conteúdo, excisar completamente o saco herniário do mediastino, que é o passo que mais reduz a recidiva por eliminar a tração e a superfície de deslizamento, obter comprimento suficiente de esôfago abdominal sem tensão, fechar os pilares e acrescentar a válvula antirrefluxo, já que a dissecção do hiato desorganiza a barreira natural. Deixar o saco no mediastino é a falha técnica classicamente associada à recorrência, e omitir a válvula transforma o paciente operado de hérnia em paciente com refluxo.
Mulher de 74 anos, assintomática, realiza radiografia de tórax de rotina que evidencia imagem com nível hidroaéreo retrocardíaco. A tomografia confirma hérnia de hiato paraesofágica volumosa, com metade do estômago no tórax. Qual é a conduta mais adequada?
A conduta em hérnia paraesofágica mudou: o risco anual de complicação aguda em pacientes assintomáticos é bem menor do que se supunha, e a mortalidade da cirurgia eletiva em idosos não é desprezível, o que tornou a indicação profilática de rotina obsoleta. A decisão passou a ser individualizada, pesando idade, comorbidades e sintomas, e a operação é claramente indicada nos sintomáticos e na complicação aguda. Indicar urgência para toda hérnia volumosa é o excesso que a literatura corrigiu, e dilatação do hiato não é procedimento existente.
Sobre a recidiva após correção cirúrgica de hérnia de hiato paraesofágica volumosa, qual afirmativa é correta?
Quando o seguimento inclui exames de imagem sistemáticos, as taxas de recidiva anatômica são altas, mas boa parte é pequena e assintomática, de modo que a decisão de reoperar se apoia em sintomas e em complicações, e não no achado radiológico isolado. Reoperar toda recidiva de imagem é o erro que expõe pacientes a uma cirurgia tecnicamente mais difícil e com resultados inferiores aos da primeira operação. A excisão completa do saco e o reparo sem tensão, incluindo o alongamento esofágico quando necessário, são justamente os fatores que reduzem a recorrência.
Paciente com hérnia de hiato paraesofágica volumosa refere dispneia aos esforços e sensação de plenitude pós-prandial precoce, com função cardíaca e pulmonar normais na investigação. Qual é a explicação mais provável?
Uma hérnia paraesofágica volumosa ocupa espaço no mediastino e no hemitórax, comprimindo o parênquima pulmonar e reduzindo a complacência, além de limitar o enchimento das câmaras cardíacas, o que produz dispneia de esforço em paciente com coração e pulmões estruturalmente normais; a plenitude precoce decorre do próprio estômago herniado e angulado. Reconhecer esse mecanismo importa porque a correção cirúrgica melhora esses sintomas, e porque a investigação cardiológica e pulmonar repetidamente normal costuma atrasar o diagnóstico correto.
Qual é a diferença anatômica fundamental entre a hérnia de hiato tipo II e a tipo III?
A hérnia tipo II é a paraesofágica pura, em que a junção esofagogástrica se mantém ancorada abaixo do diafragma e apenas o fundo gástrico ascende ao lado do esôfago, enquanto a tipo III é mista, com migração da junção e do fundo, sendo a apresentação mais frequente entre as paraesofágicas volumosas. A tipo IV é a que inclui outras vísceras, como cólon, baço ou pâncreas. Confundir a posição da junção é o que gera erro no planejamento cirúrgico, pois é ela que determina a necessidade e o tipo de válvula antirrefluxo a ser confeccionada.
Qual é o tipo de hérnia hiatal que exige atenção especial pelo risco de volvo gástrico e encarceramento?
Na hérnia por deslizamento, a mais comum, a junção esofagogástrica sobe para o tórax e o problema clínico é o refluxo. Já na paraesofágica o fundo gástrico se insinua para o mediastino ao lado do esôfago, o que abre a possibilidade de volvo gástrico, obstrução, isquemia e perfuração, complicações que justificam a indicação cirúrgica em pacientes sintomáticos e a atenção redobrada em quadros agudos de dor torácica com vômitos improdutivos. As demais hérnias citadas pertencem à parede abdominal e não guardam relação com o hiato diafragmático.
Qual estrutura anatômica contribui de forma decisiva para a barreira antirrefluxo e é comprometida na hérnia hiatal?
A competência antirrefluxo depende de um conjunto: o esfíncter esofágico inferior, o pinçamento externo exercido pelos pilares diafragmáticos, o segmento intra-abdominal do esôfago e o ângulo agudo entre esôfago e fundo gástrico. A hérnia hiatal desloca a junção para o tórax, separa o esfíncter do reforço diafragmático e retifica o ângulo, o que explica sua associação com refluxo e por que a cirurgia antirrefluxo inclui obrigatoriamente a redução da hérnia e a hiatoplastia. O esfíncter superior e o cricofaríngeo pertencem ao mecanismo de deglutição faríngea.
Qual é a condição predisponente mais frequentemente associada ao volvo gástrico no adulto?
A hérnia paraesofágica de grande volume é a principal condição predisponente no adulto: o estômago migra para o tórax e, com frouxidão dos ligamentos de fixação, pode rodar sobre seu eixo. Por isso a hérnia paraesofágica sintomática ou volumosa costuma ter indicação cirúrgica mesmo sem refluxo, justamente pelo risco de complicações mecânicas. Atribuir ao Helicobacter pylori ou à doença péptica engana porque são as condições gástricas mais lembradas, mas não têm relação com a mecânica da torção.
Homem de 68 anos apresenta dor epigástrica intensa de início súbito, náuseas com esforço para vomitar sem conseguir eliminar conteúdo, e impossibilidade de passagem de sonda nasogástrica. Qual o diagnóstico?
Dor epigástrica súbita, ânsia de vômito improdutiva e impossibilidade de passar sonda nasogástrica compõem a tríade de Borchardt, característica do volvo gástrico, emergência que pode evoluir para estrangulamento e necrose. A pancreatite engana porque também cursa com dor epigástrica intensa e vômitos, mas ali o vômito é produtivo e a sonda passa sem obstáculo — é justamente essa impossibilidade mecânica de progredir a sonda que aponta a torção e obriga à imagem urgente.
Paciente com volvo gástrico agudo e sinais de instabilidade hemodinâmica, com tomografia mostrando pneumatose da parede gástrica. Qual a conduta?
Pneumatose da parede gástrica com instabilidade indica sofrimento isquêmico, e a conduta é cirúrgica imediata: distorcer, avaliar a viabilidade, ressecar o que estiver necrótico e corrigir o defeito diafragmático que permitiu a torção, com gastropexia quando indicada. Programar procedimento eletivo engana porque o volvo crônico intermitente de fato pode ser abordado eletivamente, e a extrapolação dessa conduta para a forma aguda com isquemia é fatal — a mortalidade sobe drasticamente com o atraso.
Sobre os tipos de hérnia de hiato, qual afirmativa está correta?
A hérnia por deslizamento, com migração da junção esofagogástrica, é a mais frequente e sua indicação cirúrgica se apoia no refluxo refratário ou complicado. A paraesofágica mantém a junção em posição e hernia o fundo gástrico ao lado do esôfago, com risco mecânico de encarceramento, volvo e isquemia — por isso a indicação cirúrgica segue outra lógica. Inverter as frequências engana porque a paraesofágica é a mais dramática e memorável, mas é a menos comum.
Qual é a classificação do volvo gástrico em que o estômago roda ao redor de um eixo que une a cárdia ao piloro, resultando em posição invertida com a grande curvatura acima da pequena?
No volvo organoaxial o estômago gira em torno do eixo longitudinal que une a cárdia ao piloro, resultando na inversão das curvaturas: é o tipo mais frequente e o mais associado a defeitos diafragmáticos, como a hérnia paraesofágica e a eventração. O mesenteroaxial gira em torno do eixo perpendicular, que liga a pequena à grande curvatura, sendo mais comum em crianças e frequentemente intermitente — confundir os eixos é o erro mais comum nessa classificação.
Paciente idosa refere, há meses, plenitude pós-prandial, dor torácica intermitente, disfagia ocasional e episódios de vômitos que se resolvem espontaneamente. A radiografia de tórax mostra imagem aérea com nível hidroaéreo retrocardíaca. Qual a hipótese?
Sintomas intermitentes de plenitude, dor torácica, disfagia e vômitos autolimitados, com imagem aérea e nível hidroaéreo retrocardíaco, sugerem estômago intratorácico com volvo crônico intermitente, forma que se apresenta de modo insidioso, ao contrário do quadro agudo dramático. Pensar em abscesso pulmonar engana porque a imagem com nível hidroaéreo no tórax é sugestiva, mas ali haveria febre, tosse e escarro purulento, e a localização retrocardíaca com sintomas digestivos aponta para o estômago.
Qual complicação pode ocorrer em hérnia paraesofágica volumosa e explicar anemia ferropriva crônica no paciente?
As úlceras de Cameron são erosões lineares na mucosa gástrica no ponto em que o estômago cruza o anel diafragmático, provavelmente por trauma mecânico e isquemia, e sangram de forma crônica e oculta, explicando anemia ferropriva de causa aparentemente indefinida. Reconhecê-las evita investigações repetidas sem diagnóstico. Pensar em varizes gástricas engana porque a topografia é a mesma, mas ali o contexto é de hipertensão portal, ausente nesse cenário.
Qual exame confirma o diagnóstico de volvo gástrico com maior precisão em paciente estável?
A tomografia define a anatomia da torção, o defeito diafragmático associado, o nível da obstrução e sinais de sofrimento parietal, sendo o exame de escolha em paciente estável, complementada pelo estudo contrastado quando necessário. A endoscopia engana porque pode ser diagnóstica e às vezes terapêutica em casos selecionados, mas insuflar um estômago torcido e sob tensão arrisca perfuração. Cintilografia e manometria avaliam função e não têm papel na emergência.
Homem de 70 anos com hérnia paraesofágica volumosa assintomática, sem anemia e sem sintomas obstrutivos, com risco cirúrgico elevado. Qual a conduta?
A conduta na hérnia paraesofágica evoluiu: o reparo profilático em pacientes assintomáticos e de alto risco cirúrgico deixou de ser obrigatório, e a decisão é individualizada, ponderando o risco anual de complicação aguda contra o risco operatório. Indicar cirurgia para todos engana quem lembra apenas do risco de volvo e estrangulamento, que motivava a recomendação clássica. O inibidor de bomba trata refluxo, mas não corrige o defeito anatômico nem previne complicações mecânicas.
Após correção cirúrgica de volvo gástrico associado a hérnia paraesofágica, qual procedimento adicional pode ser realizado para reduzir a recorrência?
Após reduzir o estômago e fechar o defeito hiatal, a gastropexia ajuda a manter a víscera na posição correta e reduz a recorrência, podendo-se associar uma fundoplicatura conforme a competência da junção e o quadro de refluxo. Piloroplastia e vagotomia engana quem associa cirurgia gástrica aos procedimentos clássicos da doença péptica, mas eles não têm relação com a mecânica do volvo. Esofagectomia é procedimento de grande porte sem qualquer indicação nesse contexto.
Homem de 74 anos procura o pronto-socorro com dor epigástrica intensa, náuseas com esforço para vomitar sem eliminar conteúdo e distensão abdominal alta iniciadas há seis horas. Tem hérnia hiatal volumosa conhecida. Ao exame: desconfortável, taquicárdico com 116 bpm, pressão arterial 102x64 mmHg, abdome pouco distendido e doloroso no epigástrio. A tentativa de passagem de sonda nasogástrica não progride. A radiografia de tórax mostra imagem gástrica intratorácica com nível hidroaéreo retrocardíaco. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
A tríade de dor epigástrica intensa, esforço para vomitar sem conseguir e impossibilidade de passar sonda nasogástrica, em paciente com hérnia hiatal volumosa e estômago intratorácico à radiografia, caracteriza volvo gástrico, emergência cirúrgica pelo risco de estrangulamento e necrose. O infarto inferior pode simular dor epigástrica, mas não impede a passagem da sonda nem produz estômago intratorácico com nível. A pancreatite cursa com dor em faixa e elevação de amilase e lipase, sem obstrução mecânica à sonda. A úlcera perfurada apresenta abdome em tábua com pneumoperitônio, e não imagem gástrica retrocardíaca.
Homem de 68 anos chega ao pronto-socorro com dor epigástrica intensa de início súbito, vômitos incoercíveis que se tornaram improdutivos e distensão do andar superior do abdome há 6 horas. Ao exame apresenta PA 108x66 mmHg, FC 116 bpm, abdome com distensão localizada em epigástrio, dor à palpação e a equipe não consegue progredir a sonda nasogástrica além do esôfago distal. A radiografia mostra grande bolha gástrica distendida no andar superior do abdome, com nível hidroaéreo elevado. A hipótese diagnóstica mais provável é:
A tríade de dor epigástrica súbita, vômitos improdutivos e impossibilidade de passar sonda nasogástrica caracteriza volvo gástrico, emergência com risco de isquemia e perfuração que exige descompressão e correção cirúrgica urgente. A obstrução pilórica por úlcera cursa com vômitos de retenção de instalação progressiva e permite a passagem da sonda. A pancreatite leve não impede a passagem da sonda nem produz distensão gástrica maciça isolada. A gastroenterite cursa com vômitos produtivos, diarreia e sem obstrução mecânica.
Homem de 52 anos é acompanhado no ambulatório por pirose e regurgitação diárias há cinco anos, com resposta parcial ao inibidor de bomba de prótons em dose otimizada e boa adesão comprovada. Nega disfagia progressiva, perda ponderal e sangramento. Ao exame, índice de massa corporal de 33 kg/m², abdome globoso, sem massas palpáveis. A endoscopia mostra esofagite erosiva e hérnia de hiato de 4 cm, sem esôfago de Barrett, e a pHmetria confirma exposição ácida patológica com correlação sintomática. A conduta adequada é:
Refluxo com sintomas persistentes apesar de tratamento clínico otimizado, com documentação objetiva por endoscopia e pHmetria e presença de hérnia de hiato significativa, é situação em que se discute a cirurgia antirrefluxo, sempre com avaliação da motilidade esofágica e decisão compartilhada, associada ao controle do peso. Escalonar indefinidamente a dose sem reavaliação não resolve. Suspender a medicação e manter apenas medidas posturais deixa a esofagite sem tratamento. A dilatação endoscópica trata estenoses, não o mecanismo do refluxo.
Mulher de 71 anos procura ambulatório com plenitude pós-prandial, dor torácica e episódios de vômitos, sem disfagia importante. Refere piora após grandes refeições e dispneia leve ao deitar. Ao exame apresenta índice de massa corporal de 32 kg/m², abdome globoso e ausculta pulmonar com redução do murmúrio na base esquerda. A radiografia de tórax mostra imagem com nível hidroaéreo retrocardíaco e a endoscopia evidencia grande porção do estômago acima do diafragma, com a junção esofagogástrica em posição normal. A hipótese diagnóstica é:
A presença de grande porção do estômago acima do diafragma com a junção esofagogástrica em posição normal caracteriza hérnia de hiato paraesofágica, que pode complicar com volvo gástrico, obstrução e isquemia, sendo a correção cirúrgica indicada em pacientes sintomáticos. A hérnia por deslizamento desloca a própria junção esofagogástrica e associa-se ao refluxo. A acalasia produz dilatação esofágica com afilamento distal em bico de pássaro. O divertículo epifrênico é uma bolsa no esôfago distal, e não herniação gástrica intratorácica.
Uma mulher de 76 anos chega ao pronto-socorro com dor epigástrica intensa de início súbito, ânsia de vômito improdutiva e impossibilidade de passagem de sonda nasogástrica. Está taquicárdica, com pressão arterial de 100x60 mmHg e abdome pouco distendido, com dor à palpação epigástrica. A radiografia de tórax mostra grande bolha aérea retrocardíaca com nível hidroaéreo, e a tomografia confirma estômago rodado sobre seu eixo dentro do tórax. Qual é o diagnóstico e a conduta?
A tríade de Borchardt, com dor epigástrica súbita, vômitos improdutivos e impossibilidade de passar sonda nasogástrica, associada a estômago intratorácico rodado, define volvo gástrico, emergência com risco de estrangulamento e necrose que exige descompressão e correção cirúrgica urgente. Úlcera perfurada cursa com pneumoperitônio e abdome em tábua, sem bolha intratorácica. Pancreatite não impede a passagem de sonda nem produz esse achado radiológico. Obstrução por bridas cursa com distensão de delgado e vômitos produtivos.
Homem, 63 anos, com passado de cirurgia bariátrica, apresenta há 2 dias dor epigástrica intensa, vômitos e incapacidade de eructar. PA 128/80 mmHg, FC 104 bpm, T 37,4 °C. A tentativa de passagem de sonda nasogástrica não progride. Radiografia de tórax: nível hidroaéreo em região retrocardíaca. Tomografia: estômago rodado no eixo organoaxial, com herniação para o mediastino posterior, sem pneumoperitônio. Qual o diagnóstico e a conduta?
A tríade de Borchardt — dor epigástrica intensa, vômitos improdutivos e impossibilidade de passar a sonda nasogástrica — associada a estômago rodado e herniado para o mediastino define volvo gástrico, urgência cirúrgica pelo risco de estrangulamento e necrose, exigindo descompressão e correção com redução, gastropexia ou hiatoplastia. A gastroparesia diabética não impede a passagem de sonda nem provoca rotação gástrica. A estenose péptica cursa com disfagia progressiva e não gera vômito improdutivo com rotação gástrica. O refluxo gastroesofágico grave não explica o achado tomográfico de torção. A hérnia hiatal por deslizamento é frequentemente assintomática, mas aqui há torção com obstrução, o que exclui conduta expectante.
Mulher, 72 anos, hipertensa, relata plenitude pós-prandial e dispneia aos esforços há 8 meses, com dois episódios de vômitos incoercíveis no último mês. Nega disfagia. PA 138x82 mmHg, FC 82 bpm, SatO2 96%, IMC 29 kg/m². Hb 10,2 g/dL (VR 12–16); VCM 74 fL (VR 80–100). Radiografia de tórax mostra nível hidroaéreo retrocardíaco e a tomografia confirma hérnia de hiato tipo III, com dois terços do estômago intratorácico. Qual a conduta?
A redução da hérnia com hiatoplastia e fundoplicatura por laparoscopia é a conduta correta: hérnia paraesofágica sintomática, com anemia ferropriva por erosões de Cameron e episódios obstrutivos, tem indicação cirúrgica eletiva pelo risco de encarceramento e volvo. O inibidor de bomba com reavaliação anual só se justifica em hérnia paraesofágica verdadeiramente assintomática. A gastrostomia como método de fixação foi abandonada como tratamento primário e não corrige o defeito hiatal. A dilatação com balão trata estenose de lúmen, não defeito diafragmático. A esofagectomia é desproporcional em doença benigna com esôfago íntegro.
Homem, 71 anos, com cifose acentuada, chega ao pronto-socorro com dor epigástrica intensa há 6 horas, vômitos improdutivos e impossibilidade de passagem de sonda nasogástrica. PA 96x58 mmHg, FC 122 bpm, FR 26 ipm, T 37,4 °C, SatO2 94%. Abdome com distensão epigástrica e dor à palpação, sem irritação peritoneal. Radiografia de tórax mostra víscera oca distendida no hemitórax esquerdo com nível hidroaéreo. Qual o diagnóstico mais provável?
Volvo gástrico é o diagnóstico correto: dor epigástrica súbita, vômitos improdutivos e impossibilidade de passar a sonda compõem a tríade de Borchardt, e o estômago distendido no tórax indica rotação sobre hérnia paraesofágica, com risco de estrangulamento. A ruptura espontânea do esôfago produziria pneumomediastino e enfisema subcutâneo, não víscera oca distendida no tórax. A perfuração de úlcera cursaria com pneumoperitônio e abdome em tábua, ausentes. A obstrução pilórica crônica evolui com vômitos de retenção por semanas e permite a passagem da sonda. A isquemia mesentérica não explica a víscera intratorácica nem a tríade descrita.
Mulher, 72 anos, com plenitude pós-prandial, dispneia após refeições e anemia há 1 ano, apresenta episódio de dor torácica intensa com vômitos improdutivos há 6 horas. PA 108x66 mmHg, FC 112 bpm, T 37,2 °C. Hb 9,8 g/dL (VR 12–16). A radiografia de tórax mostra nível hidroaéreo retrocardíaco; a tomografia evidencia estômago intratorácico com rotação organoaxial e sofrimento de parede. Qual a conduta indicada?
Hérnia paraesofágica com volvo gástrico organoaxial, vômitos improdutivos, dor torácica e sinais de sofrimento de parede caracteriza a tríade de Borchardt e constitui emergência cirúrgica, com redução do estômago, ressecção do saco herniário e hiatoplastia. O tratamento clínico com inibidor de bomba ignora a isquemia iminente e a possibilidade de necrose gástrica. A dilatação do hiato não é procedimento existente para esse fim e agravaria a lesão. A sonda nasogástrica pode ser tentada para descompressão inicial, mas não substitui a correção cirúrgica. A gastrostomia isolada não corrige o defeito hiatal nem trata o sofrimento parietal.
Mulher, 71 anos, com hérnia hiatal volumosa conhecida, apresenta há 8 horas dor epigástrica intensa, vômitos improdutivos e sensação de plenitude. PA 108x66 mmHg, FC 116 bpm, T 37,3 graus Celsius. Há distensão epigástrica e a passagem de sonda nasogástrica não é possível. A radiografia de tórax mostra imagem aérea retrocardíaca com nível hidroaéreo e a tomografia confirma estômago intratorácico com rotação. Qual o diagnóstico e a conduta?
O volvo gástrico é o diagnóstico, sugerido pela tríade de dor epigástrica, vômitos improdutivos e impossibilidade de passar sonda nasogástrica em portadora de hérnia hiatal volumosa, com confirmação tomográfica, exigindo abordagem cirúrgica de urgência pelo risco de isquemia e perfuração. A gastroenterite não impede a passagem de sonda nem produz estômago intratorácico rodado. O infarto de parede inferior não explica os achados radiológicos. A pancreatite cursa com elevação de enzimas e dor irradiada em faixa. A úlcera não complicada não causa obstrução mecânica com essa apresentação.
Homem, 71 anos, com hérnia hiatal volumosa conhecida, chega ao pronto-socorro com dor epigástrica intensa há 6 horas, náuseas com esforços de vômito improdutivos e distensão do andar superior do abdome. PA 104x64 mmHg, FC 118 bpm, T 37,2 °C, SatO2 94%. Tentativa de passagem de sonda nasogástrica é malsucedida. Radiografia de tórax mostra grande víscera aérea retrocardíaca com dois níveis hidroaéreos. Qual a principal hipótese diagnóstica?
O vólvulo gástrico é a hipótese principal e reúne a tríade de Borchardt: dor epigástrica súbita, esforço de vômito sem produção e impossibilidade de passar sonda nasogástrica, em paciente com hérnia paraesofágica e imagem de víscera aérea retrocardíaca com dois níveis. A perfuração de úlcera cursaria com abdome em tábua e pneumoperitônio subdiafragmático, não com câmara gástrica intratorácica. A síndrome de Boerhaave produz enfisema subcutâneo e derrame pleural esquerdo após vômito efetivo, e não obstrução à sondagem. A pancreatite aguda não explica a impossibilidade de sondagem nem a imagem torácica. A dilatação gástrica por gastroparesia permite a passagem da sonda e alivia com ela.
Idoso tem estômago herniado pelo hiato e episódio agudo de obstrução por torção, com dor epigástrica e distensão. Qual diagnóstico é mais provável?
A hérnia paraesofágica pode complicar com volvo gástrico. Estômago herniado pelo hiato pode rodar e obstruir, causando dor intensa e arcadas improdutivas; pode ameaçar perfusão. Referência: https://www.sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-surgical-treatment-of-hiatal-hernias/
Paciente com hérnia hiatal grande tem dor intensa e arcadas sem conseguir vomitar; TC mostra rotação do estômago intratorácico e obstrução. Qual diagnóstico é mais provável?
A torção do estômago herniado corresponde a volvo. Estômago herniado pelo hiato pode rodar e obstruir, causando dor intensa e arcadas improdutivas; pode ameaçar perfusão. Referência: https://www.sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-surgical-treatment-of-hiatal-hernias/
Pessoa com grande hérnia paraesofágica apresenta dor súbita, incapacidade de esvaziar o estômago e torção gástrica demonstrada em imagem. Qual diagnóstico é mais provável?
O estômago rodado gera obstrução aguda. Estômago herniado pelo hiato pode rodar e obstruir, causando dor intensa e arcadas improdutivas; pode ameaçar perfusão. Referência: https://www.sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-surgical-treatment-of-hiatal-hernias/
Paciente com estômago parcialmente intratorácico evolui com volvo obstrutivo, sem lesão esofágica primária. Qual diagnóstico é mais provável?
O defeito hiatal permitiu herniação e rotação gástrica. Estômago herniado pelo hiato pode rodar e obstruir, causando dor intensa e arcadas improdutivas; pode ameaçar perfusão. Referência: https://www.sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-surgical-treatment-of-hiatal-hernias/
Em paciente com o padrão do terceiro painel, dor súbita, distensão e tentativas improdutivas de vomitar, qual complicação preocupa?

Grande componente gástrico intratorácico pode rodar e obstruir.
No segundo painel, o fundo gástrico sobe ao lado do esôfago e a junção permanece baixa. Qual tipo de hérnia hiatal é ilustrado?

A herniação do fundo com junção relativamente preservada caracteriza o tipo II.
Qual característica do quarto painel sustenta a classificação como hérnia hiatal tipo IV?

Há alça intestinal acima do diafragma, além do estômago.
Uma hérnia hiatal pode favorecer refluxo gastroesofágico. Qual alteração anatômica está associada a essa condição?
Na hérnia hiatal, parte do estômago ultrapassa o hiato em direção ao tórax, podendo comprometer a organização da barreira antirrefluxo. Referência: NIDDK/NIH. Symptoms & Causes of GER & GERD (2020). https://www.niddk.nih.gov/health-information/digestive-diseases/acid-reflux-ger-gerd-adults/symptoms-causes
Qual prioridade considera risco de estrangulamento e perfuração?

Quadro agudo obstrutivo pode ameaçar viabilidade do estômago e exige manejo especializado.
Qual complicação é sugerida pelo conjunto?

Rotação gástrica com obstrução pode complicar hérnia paraesofágica.
Qual órgão está rotacionado na imagem descrita?

O achado é rotação do estômago intratorácico.
Se lactato aumentar e surgirem sinais de choque, qual hipótese ganha urgência?

Deterioração circulatória e metabólica pode acompanhar comprometimento vascular.
Qual sintoma indica dificuldade de esvaziamento no episódio?

Ânsia sem vômito efetivo pode ocorrer em obstrução por volvo.
Paciente de 76 anos tem hérnia hiatal tipo III descoberta incidentalmente. Após avaliação dirigida, não há anemia, dispneia atribuível à hérnia, disfagia, refluxo objetivo ou microaspiração. Ele prefere evitar cirurgia e aceita acompanhamento. Segundo a SAGES, qual estratégia pode ser razoável?
A ausência real de sintomas deve ser confirmada. Em paciente informado, sem achados adicionais que favoreçam reparo, vigilância é uma opção; é necessário orientar retorno se surgirem sintomas. Referências: SAGES. Guidelines for the Surgical Treatment of Hiatal Hernias, 2024 — https://www.sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-surgical-treatment-of-hiatal-hernias/
Mulher de 69 anos com grande hérnia hiatal nega azia e é descrita no encaminhamento como assintomática. Entretanto, apresenta dispneia pós-prandial e anemia ferropriva sem outra causa identificada após investigação. Qual revisão da classificação é adequada?
A avaliação deve procurar sintomas mecânicos, anemia e repercussões respiratórias. Atribuir esses achados à hérnia exige considerar outras causas, mas a falta de azia não define ausência de sintomas. Referências: SAGES. Guidelines for the Surgical Treatment of Hiatal Hernias, 2024 — https://www.sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-surgical-treatment-of-hiatal-hernias/
Idoso informado optou por vigilância de hérnia paraesofágica assintomática. Qual mudança clínica deve motivar procura imediata de atendimento?
A escolha de vigilância deve incluir sinais de alarme. Dor intensa de início agudo e vômitos sugerem complicação mecânica e não devem aguardar consulta eletiva. Referências: SAGES. Guidelines for the Surgical Treatment of Hiatal Hernias, 2024 — https://www.sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-surgical-treatment-of-hiatal-hernias/
Paciente será submetido a reparo eletivo de hérnia hiatal tipo III. Ao discutir a associação de fundoplicatura, qual balanço deve ser apresentado?
A SAGES sugere benefício da fundoplicatura associada ao reparo dos tipos II–IV, com baixa certeza da evidência. A decisão deve considerar sintomas e possíveis efeitos adversos. Referências: SAGES. Guidelines for the Surgical Treatment of Hiatal Hernias, 2024 — https://www.sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-surgical-treatment-of-hiatal-hernias/
Na tomografia de uma paciente com hérnia pelo hiato esofágico, identificam-se estômago e segmento do cólon transverso no mediastino. Qual classificação anatômica melhor corresponde ao achado?
A presença de outro órgão abdominal no conteúdo de uma hérnia hiatal caracteriza o tipo IV. A classificação anatômica deve ser integrada à avaliação clínica. Referências: SAGES. Guidelines for the Surgical Treatment of Hiatal Hernias, 2024 — https://www.sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-surgical-treatment-of-hiatal-hernias/
Antes do reparo eletivo de hérnia hiatal, um paciente pergunta se a diretriz SAGES de 2024 determina o uso obrigatório de tela para prevenir recidiva em todos os casos. Qual resposta é correta?
O ponto avaliado é a interpretação de uma recomendação com evidência incerta: não se deve converter ausência de consenso em obrigatoriedade ou proibição. Referências: SAGES. Guidelines for the Surgical Treatment of Hiatal Hernias, 2024 — https://www.sages.org/publications/guidelines/guidelines-for-the-surgical-treatment-of-hiatal-hernias/
Em portador do primeiro padrão, a indicação de cirurgia está sendo considerada por sintomas atribuídos a refluxo, mas não há evidência objetiva de DRGE. Qual princípio é apropriado? Imagem didática do acervo OsceLabs.

Hérnia por deslizamento isolada não comprova que todo sintoma seja causado por refluxo.
Uma pessoa com o padrão do segundo painel é chamada de assintomática, mas relata saciedade precoce, dispneia pós-prandial e anemia sem causa definida. Qual atitude é adequada? Imagem didática do acervo OsceLabs.

A ausência de pirose não significa ausência de repercussão da hérnia paraesofágica.
Qual diferença anatômica separa o terceiro painel do segundo? Imagem didática do acervo OsceLabs.

O terceiro combina componente por deslizamento com componente paraesofágico.
Observe o primeiro painel. Qual estrutura migrou acima do diafragma junto ao estômago proximal? Imagem didática do acervo OsceLabs.

Seu deslocamento cranial caracteriza o componente por deslizamento.
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A hérnia paraesofágica é 5% de todas as hérnias hiatais; os outros 95% são o tipo um, de deslizamento. O exame que separa o tipo dois do tipo três é o esofagograma baritado, porque mostra onde está a junção esofagogástrica. A manometria não faz diagnóstico: escolhe entre fundoplicatura total e parcial. A indicação brasileira de operar refluxo é intolerância ao tratamento clínico prolongado, doença complicada com esôfago de Barrett, ulceração ou estenose, e queixa atípica por refluxo não ácido. A indicação de operar a hérnia é o sintoma dela: disfagia, saciedade precoce, dispneia posicional, dor pós-prandial e anemia ferropriva por erosões do fundo herniado. Vólvulo gástrico em hérnia paraesofágica é emergência: dor epigástrica súbita, esforço de vômito improdutivo e sonda nasogástrica que não progride, com nível hidroaéreo retrocardíaco na radiografia de tórax.
em 30 dias
A tríade de Borchardt completa aparece em 17,1% dos casos medidos e está ausente em 82,9% — a peça isolada mais frequente é a dor epigástrica, em 71,1%. O eixo organoaxial responde por cerca de três quartos dos vólvulos classificados em duas séries independentes, e o mesenteroaxial pelo quarto restante, com maior tendência a estrangular. O risco anual de operação de urgência em hérnia paraesofágica conhecida é de cerca de um por cento; números maiores que circulam são proporções de internação ou de operação, não risco anual. A mortalidade da urgência supera a da eletiva em toda análise bruta — 5,4% contra 1,4% na leitura antiga, 3,2% contra 0,37% na recente — e a diferença deixa de ser significativa após pareamento por risco. A falha da fundoplicatura é de quase 18% em média, com faixa de 3% a 33%, três vezes mais frequente no esôfago de Barrett, e a re-fundoplicatura tem os piores resultados funcionais. Reforço do hiato com prótese reduz recidiva e traz risco de erosão que depende do desenho e da interposição de omento.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Este capítulo se aprende de verdade num atendimento em que a paciente idosa chega com dor epigástrica e não consegue vomitar, e o dado que decide não está na queixa e sim na sonda que não passa e na radiografia de tórax que já está pronta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
