Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

Hérnia de hiato: a que se opera por refluxo e a que se opera sem ele

Hérnia de hiato e cirurgia antirrefluxo (tipos I a IV, hérnia paraesofágica)

O capítulo de refluxo do acervo escreve hérnia de hiato sete vezes e fundoplicatura treze, e não escreve paraesofágica nenhuma vez. O capítulo de abdome agudo atípico escreve a tríade de Borchardt três vezes e não escreve o nome da hérnia que a produz. A diretriz brasileira de diagnóstico do refluxo, coassinada pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva, tem 220 menções a refluxo em 7.274 palavras e zero menções à hérnia hiatal.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Uma banca apresenta os seguintes dados sobre reparo de hérnia paraesofágica: na análise bruta de uma base hospitalar nacional com 41.723 doentes, a mortalidade foi de 3,2% nas operações de urgência e de 0,37% nas eletivas; numa série de trinta doentes operados de urgência comparados a cento e noventa e nove eletivos, as diferenças de complicação deixaram de ser significativas após pareamento por escore de propensão; e um modelo de decisão estimou em cerca de 1,1% ao ano a probabilidade de o portador assintomático precisar de operação de urgência. Qual conclusão é sustentada por esse conjunto?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da hérnia de hiato do adulto — a de deslizamento e as paraesofágicas, tipos dois, três e quatro — e da operação que as corrige: a hiatoplastia com fundoplicatura. Trata de duas decisões que a prova separa e a prática mistura: quem tem refluxo e vai à mesa porque o remédio deixou de bastar, e quem vai à mesa por causa da hérnia em si, com ou sem refluxo, porque o estômago subiu para o tórax e pode torcer. Não trata do manejo clínico do refluxo, que tem capítulo próprio na clínica, nem da hérnia diafragmática congênita, nem das hérnias da parede abdominal.

A vaga aparece por escrito em três documentos diferentes. O capítulo de refluxo do acervo escreve hérnia de hiato em sete passagens e fundoplicatura em treze, e não escreve paraesofágica, vólvulo gástrico nem hiatoplastia uma única vez. O capítulo de abdome agudo atípico escreve a tríade de Borchardt em três passagens e não escreve o nome da hérnia que a produz. E a diretriz brasileira de diagnóstico do refluxo, coassinada pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva, atravessa 7.274 palavras com duzentas e vinte ocorrências de refluxo e nenhuma de hérnia hiatal ou de fundoplicatura.

A conta do acervo fecha do mesmo jeito. Sessenta questões usam algum destes termos e cinquenta e três estão em trilha de prova. Trinta e uma delas estão catalogadas como cirurgia do aparelho digestivo ou urgência cirúrgica, contra vinte de gastroenterologia clínica — a maioria é cirúrgica, e o único capítulo que carrega o assunto é clínico.

03

O que muda decisão

Cinco por cento da doença respondem por quase toda a urgência

A classificação anatômica tem quatro tipos e a prova cobra os quatro, mas eles não têm o mesmo peso. A hérnia de deslizamento, tipo um, leva a junção esofagogástrica para cima e é o achado banal da endoscopia. As paraesofágicas são as outras três: no tipo dois a junção fica no lugar e o fundo gástrico rola para o tórax ao lado do esôfago; no tipo três, o misto, junção e fundo sobem juntos; no tipo quatro sobe também outra víscera. A revisão de dois mil e quinze fixa a proporção: a hérnia paraesofágica é 5% de todas as hérnias hiatais.

Os outros 95% são o tipo um, e esse complemento não é escrito em lugar nenhum da revisão. A razão de dezenove para um explica por que as duas metades do assunto quase nunca aparecem no mesmo texto: o tipo um é assunto do refluxo, medicado e endoscopado; os cinco por cento restantes são assunto da sala de cirurgia, e é neles que mora o estômago intratorácico que torce.

O tipo três é o que a mesma revisão chama de verdadeira hérnia paraesofágica, nascida da combinação de um deslizamento com um rolamento. E o exame que o separa do tipo dois não é a tomografia nem a endoscopia — é o esofagograma baritado, que mostra onde está a junção em relação ao diafragma. Fundo no tórax com junção abaixo do hiato é tipo dois; os dois no tórax, tipo três.

A manometria esofágica entra por outro motivo: não faz o diagnóstico da hérnia, escolhe a válvula. Motilidade preservada admite fundoplicatura total; hipocontratilidade acentuada empurra para a parcial. A revisão brasileira de dois mil e seis a lista como parâmetro de motilidade no pré-operatório da cirurgia antirrefluxo e como referência para esclarecer disfagia depois dela.

Quatro esquemas em fila mostram o mesmo diafragma com sua abertura, o esôfago descendo e o estômago em posições diferentes: primeiro a junção sobe sozinha; depois só o fundo do estômago sobe ao lado do esôfago; depois junção e estômago sobem juntos; por último uma alça intestinal acompanha o estômago acima do diafragma.
Os quatro tipos na mesma escala. O que muda de um painel para o outro é a posição da junção esofagogástrica em relação ao diafragma — e é essa posição que o esofagograma baritado mostra.

A mesma régua em direções contrárias, conforme o desfecho

O argumento clássico para operar antes da urgência tem um número: a mortalidade da urgência contra a da eletiva. O modelo de decisão de dois mil e dois, sobre a amostra hospitalar nacional americana de mil novecentos e noventa e sete, mediu 5,4% na urgência e 1,4% na eletiva. Nove anos depois, a mesma base, lida entre dois mil e seis e dois mil e oito com 41.723 doentes, mediu 3,2% na urgência e 0,37% na eletiva.

Nas duas leituras a mortalidade caiu, em ritmos diferentes: a eletiva por um fator de 3,8 e a de urgência por 1,7. O efeito sobre a régua depende de qual desfecho se lê. Em diferença absoluta, o abismo encolheu 29%, de quatro pontos percentuais para 2,83. Em razão, mais que dobrou, de 3,9 vezes para 8,6. Mesma base, mesmo procedimento, lados opostos conforme se subtraia ou se divida.

Há uma terceira leitura, que desmancha as duas. A série de dois mil e dezenove que compara trinta operações de urgência com cento e noventa e nove eletivas escreve, na discussão, que a diferença de complicações deixa de ser significativa depois do pareamento por escore de propensão — e cita um trabalho em que a mortalidade dez vezes maior da urgência deixava de ser independente na análise ajustada. O título desse artigo é, literalmente, o argumento a favor do reparo eletivo.

O deslize aqui não é de número, é de uso. A comparação bruta compara doentes; a ajustada compara doentes de risco equivalente. Se a urgência seleciona quem é mais velho e mais doente, é esperado que a diferença encolha ao ajustar — isso fecha e não desmente o dado bruto. O que não se sustenta é citar as 8,6 vezes como benefício de operar mais cedo o mesmo doente: esse benefício é o que a análise ajustada mede, e é ele que some.

Dois pares de colunas comparam mortalidade de urgência e de operação programada em dois períodos. No par mais antigo as colunas são altas e a distância entre elas é grande em altura; no par mais recente ambas encolhem, a distância em altura diminui, e a curva que liga uma à outra fica mais longa.
As duas leituras da mesma base hospitalar. Da esquerda para a direita as duas mortalidades caem; a distância entre elas encolhe em pontos percentuais e cresce em número de vezes.

O risco anual que se partiu em quatro unidades diferentes

A conduta expectante numa hérnia paraesofágica conhecida se apoia num número: a chance de precisar de operação de urgência. Ele circula em unidades incompatíveis. O modelo de dois mil e dois fixou 1,1% ao ano; a revisão de dois mil e vinte e cinco escreve aproximadamente 1% ao ano; a série de dois mil e dezenove escreve de 0,7% a 7%, intervalo de dez vezes, sem dizer em que período. E o trabalho estadual americano citado na análise da amostra nacional escreve que 53% das internações por estômago intratorácico foram de urgência — proporção de internações, não risco anual.

A quinta forma é derivada: se 74,2% das 41.723 operações foram eletivas, 25,8% foram de urgência — cerca de 10.765 operações, complemento que o artigo não imprime. A sexta é a mais estreita: entre os operados por vólvulo gástrico agudo, 61,1% foram à mesa nas primeiras vinte e quatro horas — proporção de operações, numa série cujo critério de inclusão já era a urgência.

O que a média medida faz com essas réguas é o ponto. A idade média ponderada do operado por vólvulo agudo é de 75,3 anos. A série brasileira de setenta doentes operados com tela tem média de sessenta e três, e a de quinze tem média de quarenta e seis: o caso brasileiro operado é doze a vinte e nove anos mais jovem que o caso mundial de urgência, e cruza o limiar da indicação sem alcançar a descrição clássica que o justifica.

E o caso ideal ainda estoura o prazo. Dentro da própria série de vólvulo agudo — doentes com diagnóstico feito, no hospital, com indicação de urgência —, 38,9% não foram operados nas primeiras vinte e quatro horas e 11,8% foram operados depois de trinta dias. O funil publicado doente a doente soma exatamente 532 casos e cem por cento, e é dentro dele que o tempo se perde.

A tríade que a literatura cita e a própria tabela não encontra

A tríade de Borchardt — dor epigástrica com distensão, esforço de vômito improdutivo e impossibilidade de passar a sonda nasogástrica — é o que a prova cobra e o que os enunciados descrevem. A introdução da revisão de dois mil e vinte e cinco escreve que essa apresentação clássica é relatada em menos de 70% dos casos. A tabela de sintomas do mesmo artigo, sobre cento e cinquenta e sete estudos e 654 casos, registra a tríade completa em 112 deles: 17,1%.

A distância entre o que o artigo cita e o que ele mede é de 4,1 vezes, e não é comentada. O complemento também não é impresso: a tríade está ausente em 82,9% dos casos. As peças isoladas são muito mais frequentes que o conjunto — dor epigástrica em 71,1%, vômitos em 58,7%, náusea em 50,3%, dor torácica em 18,7% e hematêmese em 13,1%.

Uma dessas células não fecha com o próprio denominador. Dor epigástrica, náusea, dor torácica, hematêmese e a tríade batem com os seiscentos e cinquenta e quatro, a menos de cinco centésimos de ponto. Os vômitos, não: 387 sobre 654 são 59,17%, e a tabela imprime 58,7% — o que exigiria trezentos e oitenta e quatro casos, ou um denominador de seiscentos e cinquenta e nove. São três casos de folga numa tabela cujas outras linhas fecham.

A terceira medida vem do Brasil e é de outra ordem de grandeza. A série do hospital universitário paulista, trinta e oito doentes ao longo de trinta e quatro anos, teve apenas quatro casos agudos, e a tríade completa apareceu em dois deles — 50%. Três leituras: menos de 70% citado, 17,1% medido em seiscentos e cinquenta e quatro casos, 50% medido em quatro. Os dois maiores números vêm dos dois menores denominadores.

Metade dos casos não diz que hérnia era

A mesma revisão publica a distribuição por tipo de hérnia em setecentos e dois doentes: tipo dois em quatorze casos, tipo três em duzentos e vinte e dois, tipo quatro em cento e dez, e tipo não informado em trezentos e cinquenta e seis. A soma fecha e os percentuais somam cem: 2,0%, 31,6%, 15,7% e 50,7%. Metade da casuística de uma revisão sobre hérnia paraesofágica não registra qual hérnia era.

O número que a prova precisa não é nenhum dos quatro impressos. Entre os trezentos e quarenta e seis casos com tipo informado, o tipo três responde por 64,2%, o tipo quatro por 31,8% e o tipo dois por 4,1%. A fonte imprime 31,6% e não imprime os 64,2%. A diferença não é cosmética: 31,6% faz o tipo três parecer um terço do problema, e 64,2% mostra que ele é quase dois terços dele.

O que transforma isso em achado é que a mesma tabela renormaliza o eixo de rotação e não renormaliza o tipo de hérnia. Na linha do eixo, com 75,3% de casos não informados, imprime os brutos e, entre parênteses, os renormalizados. Na linha do tipo, com 50,7% de não informados, imprime só os brutos — dois problemas idênticos de dado faltante, tratados de modos diferentes a poucas linhas de distância.

Há ainda um tipo que não pode aparecer por construção: o tipo um. A revisão exclui, por critério, a hérnia de deslizamento — e é ela que responde por 95% de todas as hérnias hiatais. A classificação de quatro tipos que a prova cobra tem, na literatura da urgência, o seu membro mais comum estruturalmente ausente.

Três séries, três décadas, o mesmo três para um

O eixo em que o estômago torce tem dois nomes. Na rotação organoaxial ele gira em torno do eixo longitudinal que liga cárdia e piloro; na mesenteroaxial, em torno do transversal, perpendicular a esse. O primeiro é o comum, o segundo é o que mais estrangula. A proporção entre eles aparece em três fontes que não se citam.

O relato brasileiro de dois mil e dois traz a referência de livro-texto: organoaxial em 60% dos casos, mesenteroaxial em 30%, misto no resto — o que, renormalizado entre os dois eixos nomeados, dá 66,7% contra 33,3%. A série paulista de trinta e oito doentes teve vinte organoaxiais, sete mesenteroaxiais e onze inclassificáveis: entre os vinte e sete classificados, 74,07% contra 25,93%. A revisão mundial de dois mil e vinte e cinco, com duzentos e setenta e três casos classificados, imprime 73,99% contra 26,01%.

As duas medidas de doente real caem a oito centésimos de ponto percentual uma da outra, com denominadores de vinte e sete e de duzentos e setenta e três. Vale dizer o que essa coincidência é e o que não é. Com vinte e sete casos, o intervalo de confiança em torno de 74% vai de cerca de cinquenta e quatro a oitenta e nove por cento: a concordância na terceira casa é coincidência aritmética, não confirmação cruzada. O que converge é a ordem de grandeza — perto de três para um nas duas séries, contra dois para um do livro.

Para a prova, a leitura útil é a do erro de dois para um. A referência de sessenta e trinta por cento é a mais citada nos textos e subestima o predomínio organoaxial em cerca de sete pontos depois de renormalizada. Quem decora sessenta e trinta e quem decora três para um acerta a mesma alternativa; quem soma as duas versões erra o denominador.

O funil de complicações em que nenhuma é cirúrgica

A tabela de complicações da revisão registra 1.989 eventos. As quatro mais frequentes são trombose venosa profunda com 24,6%, infarto do miocárdio com 21,4%, tromboembolismo pulmonar com 18,8% e acidente vascular encefálico com 17,4% — somadas, mil seiscentos e trinta e seis eventos, 82,25% do total. O artigo escreve que as quatro respondem por mais de 80% e a conta confere.

As complicações que se esperaria de uma operação sobre o estômago de um idoso não estão lá. Infecção de ferida operatória aparece em doze casos, 0,6%; hemorragia intra-abdominal em oito, 0,4%; pneumonia em vinte e três, 1,2%. A causa não informada leva cento e setenta e cinco eventos, 8,8%. Uma distribuição em que o acidente vascular encefálico é catorze vezes mais frequente que a pneumonia não descreve uma enfermaria: descreve o que dois bancos administrativos enormes codificaram.

A graduação de gravidade tem o mesmo sintoma. Os graus vão de dois a cinco e somam os 1.989 eventos, mas o grau um está inteiramente ausente — zero ocorrências. Numa escala cujo primeiro degrau é o mais comum de qualquer série cirúrgica, o zero significa que só foi contado o que já exigiu intervenção. Os graus três e quatro respondem por 86,1% dos eventos graduados.

Três números competem pela mesma taxa. O bruto — 1.989 complicações em 9.010 doentes — dá 22,08%. A média ponderada dá 32,0%. A meta-análise de proporções dá 30%, com intervalo de 23% a 37%. E o grau cinco, o óbito, aparece em vinte casos: 1,0% das complicações contra 0,22% dos doentes. Essa divergência fecha e não é contradição: os denominadores diferem, 1.989 contra 9.010, razão de 4,5 vezes. Quem lê 1,0% como mortalidade da operação erra por essa razão exata.

Quatro linhas em que a média fica fora do intervalo

A tabela que compara os dois períodos da revisão traz, para cada variável, o valor total e os de mil novecentos e noventa a dois mil e quinze e de dois mil e dezesseis a dois mil e vinte e quatro. Uma média ponderada tem de cair entre as duas parcelas que a compõem. Em quinze linhas conferidas, quatro não caem.

O volume de estômago intratorácico é 84,1% no total, com 78,4% e 80,1% nos períodos. Os leucócitos são 15.056 no total, com 17.291 e 17.417 — o total fica abaixo dos dois. As readmissões são 11,0%, com 56,9% e 11,5% — de novo abaixo das duas. E a recorrência é 22,2%, com 16,4% e 8,9% — acima das duas. As outras onze linhas, entre elas idade, mortalidade e complicações, caem no intervalo.

O texto acompanha a tabela com a mesma folga. O parágrafo que explica a mortalidade mais alta no período recente aparece duas vezes, com redação quase idêntica. As idades que ele cita são 77,6 e 70,1 anos; a tabela imprime 77,7 e 70,2. E a mesma discussão escreve, num parágrafo, que readmissão e recorrência pioraram e, quatro parágrafos adiante, que as duas melhoraram significativamente depois de dois mil e quinze. Os números dizem melhora: 56,9% para 11,5% e 16,4% para 8,9%.

O corpo do estudo também é contado de três maneiras: os resultados falam em cento e setenta e um estudos e 15.178 doentes; a discussão, em cento e sessenta e sete e 14.989; e as limitações usam 15.178 ao escrever que 14.861 doentes são 97,9% da amostra. Nada disso invalida as proporções, que fecham dentro de cada tabela — mas obriga a citar cada número com a tabela de onde saiu.

A busca que abre a porta e encontra o quarto vazio

A revisão de dois mil e vinte e cinco declara, na elegibilidade, que nenhuma restrição de idioma ou geografia foi aplicada. A tabela de estratégias mostra o que essa declaração produziu: 1.049 registros em seis fontes — uma base europeia de resumos com quinhentos e catorze, uma norte-americana com cento e oitenta e três, um índice comercial com cento e dez, uma base de ciência com oitenta e três, a biblioteca virtual regional com cento e cinquenta e sete e a biblioteca eletrônica latino-americana com dois.

Uma base estrangeira responde sozinha por 49,0% do material identificado; a latino-americana, por 0,19%. Entre os cento e setenta e um estudos que sobraram, o Brasil aparece com quatro, 2,3%, empatado com Austrália, Canadá, Índia e Turquia. Somando Brasil, Colômbia, Cuba e México, a América Latina inteira dá sete estudos, 4,1%.

Há uma dedução a fazer aqui, e ela é deste capítulo, não da fonte. Os critérios aceitam relato de caso — e relato de caso é 82,5% do material incluído. O relato brasileiro de volvo gástrico agudo perfurado, publicado em periódico nacional indexado em dois mil e dois, preenche esses critérios. Se entrou entre os quatro estudos brasileiros, a tabela não permite saber; se não entrou, o motivo mais provável é que a busca que declarou não restringir geografia recuperou dois registros da única base que o indexava.

O efeito prático é sobre a validade externa, e a própria revisão o registra: quatro países respondem por noventa dos cento e setenta e um estudos e por 97,9% dos doentes. Números de complicação e de mortalidade colhidos desse corpo descrevem, em boa medida, a prática de quatro sistemas de saúde.

A tela que erodiu em treze por cento e a que não erodiu em nenhum

O calcanhar da correção da grande hérnia hiatal é a recidiva, e o reforço do hiato com prótese é a resposta clássica — que traz consigo o medo de erosão da tela para o esôfago. Duas séries brasileiras publicadas na mesma revista, com dois anos de distância, mediram isso e chegaram a resultados opostos.

A série paulista de dois mil e dez operou quinze doentes com tela de polipropileno ou de poliéster, seguimento médio de cinco anos. Em dois a tela migrou para o lúmen do esôfago, causando disfagia; o artigo escreve em apenas dois pacientes e não imprime a proporção, que é de 13,33%. A de Campinas, de dois mil e doze, operou setenta doentes com seguimento médio de quarenta e nove meses em oitenta e cinco por cento deles, e registra nenhuma complicação da prótese.

A tentação é atribuir a diferença ao tempo de observação, e a conta desmente: o seguimento da série que teve erosão é 22% mais longo que o da que não teve. O que separa as duas é a técnica, e ela está descrita. A de Campinas corta a prótese em U, sutura um cateter de silicone na borda côncava que ficaria em contato com o esôfago e recobre a tela com omento, impedindo o contato com o fundo gástrico e com a válvula. A outra aplica a tela direto sobre a crura. Não são a mesma operação — e é isso que fecha a divergência.

O denominador também pesa: setenta contra quinze, e nenhuma das duas tem tamanho para excluir uma erosão de poucos por cento. Para a prova o que importa é o par: reforço com prótese reduz recidiva e traz risco de erosão e estenose, e esse risco depende do desenho e da interposição de tecido entre a tela e o esôfago.

Quando a operação falha, e o que a prova pergunta então

A falha da fundoplicatura tem uma faixa larga e uma média. O trabalho de dois mil e dezenove, publicado em periódico brasileiro por um serviço chileno, escreve que a falha média relatada é de quase 18%, com faixa de 3% a 33% — intervalo de onze vezes —, e que de 4,5% a 20% desses doentes precisam de reoperação. A falha é de 5% a 12% em quem não tem esôfago de Barrett e de 12% a 39% em quem tem, cerca de três vezes mais; no obeso, a recorrência de sintomas chega a 31,3%.

O mesmo artigo tem um funil que não fecha. Declara cento e quatro doentes reoperados, dos quais cinquenta com Barrett de segmento longo e sessenta com obesidade mórbida. Cinquenta mais sessenta são cento e dez — seis a mais que o total declarado. A leitura que reconcilia é a de grupos não exclusivos, com seis doentes obesos e barrettianos ao mesmo tempo, mas o texto não diz isso.

O recado clínico é o que a banca cobra: re-fundoplicatura tem os piores resultados de todos os desfechos medidos — sintomas, esofagite endoscópica, manometria e pHmetria de vinte e quatro horas. E a conduta muda no doente com Barrett de segmento longo e no obeso, em que a fundoplicatura associada a gastrectomia distal em Y de Roux supera a simples refeitura da válvula, ao custo de morbidade maior.

Há um último dado, medido numa série pediátrica brasileira, que vale para o adulto pela lógica: a avaliação da válvula baseada apenas na presença de sintomas é instrumento ineficaz de monitorização no pós-operatório tardio. Quem só pergunta se a azia voltou não detecta o desmanche. É a mesma razão pela qual a série de dois mil e doze exigiu endoscopia ou radiografia contrastada de todos os seus setenta doentes.

04

Quatro decisões, na ordem em que a hérnia as cobra

A sequência abaixo separa o doente que vai à mesa por causa do refluxo do doente que vai por causa da hérnia. Cada passo tem uma pergunta própria e um exame próprio, e trocar a ordem entre eles é o erro que a prova cobra com mais frequência.

Primeiro: descobrir onde está a junção esofagogástrica

A pergunta anatômica vem antes da pergunta funcional. O esofagograma baritado mostra a posição da junção esofagogástrica em relação ao diafragma e é o que separa o tipo dois do tipo três; a endoscopia mostra esofagite, esôfago de Barrett, estenose e as erosões do fundo herniado que sangram. Um deslizamento acima de três centímetros já se associa a esfíncter inferior mais curto e a mais refluxo à pHmetria do que a ausência de hérnia. Sem essa etapa não se sabe qual das duas doenças está na frente.

Segundo: decidir se a indicação é o refluxo ou é a hérnia

São duas portas distintas. Pela porta do refluxo, a indicação brasileira é a intolerância ao controle clínico prolongado, a doença complicada com esôfago de Barrett, ulceração ou estenose, e a queixa atípica comprovadamente ligada a refluxo não ácido — e o ponto crucial declarado é a tolerância do doente ao tratamento continuado, não um número. Pela porta da hérnia, a indicação é o sintoma da própria hérnia: disfagia, saciedade precoce, dor torácica pós-prandial, dispneia posicional e anemia ferropriva por erosões do fundo. Anemia ferropriva sem outra causa em portador de hérnia volumosa é indicação, não achado.

Terceiro: reconhecer a hérnia que virou urgência

Dor epigástrica intensa e súbita, esforço de vômito improdutivo e sonda nasogástrica que não progride formam a tríade clássica, presente em cerca de um sexto dos casos medidos e ausente em quatro quintos deles. A imagem que fecha é o nível hidroaéreo retrocardíaco no tórax, ou o estômago inteiro acima do diafragma. Ausência da tríade não afasta: o achado que mais aparece é a dor epigástrica isolada. Vólvulo gástrico em hérnia paraesofágica é emergência cirúrgica, e a rotação organoaxial é a comum enquanto a mesenteroaxial estrangula com mais frequência.

Quarto: escolher a válvula e o reforço do hiato

A operação tem três tempos: reduzir o conteúdo e ressecar o saco, fechar o hiato e confeccionar a válvula. A manometria escolhe a válvula — motilidade preservada admite fundoplicatura total, hipocontratilidade acentuada pede parcial. O reforço do fechamento com prótese reduz recidiva em grandes hérnias e traz risco de erosão e de estenose, medido em treze por cento numa série brasileira de quinze doentes com tela aplicada direto sobre a crura e em zero numa de setenta com tela em U recoberta por omento. Recidiva sintomática pede reoperação; re-fundoplicatura tem os piores resultados funcionais de todas as opções.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é o risco de a hérnia conhecida virar urgência

Um vírgula um por cento ao ano, a régua do modelo

O modelo de decisão construído sobre a amostra hospitalar nacional americana de mil novecentos e noventa e sete fixou em 1,1% a probabilidade anual de o portador de hérnia paraesofágica em conduta expectante precisar de operação de urgência. É o número que sustenta a recomendação de observar a hérnia assintomática e o único da série com unidade de tempo explícita.

Front Surg. 2015;2:13, seção de tratamento, reproduzindo o modelo de Ann Surg 2002

Aproximadamente um por cento ao ano, a régua da revisão

A revisão sistemática de dois mil e vinte e cinco abre a introdução escrevendo que aproximadamente um por cento dos portadores de hérnia paraesofágica apresenta sintomas agudos e requer cirurgia de urgência anualmente. É a mesma ordem de grandeza do modelo, arredondada, e citada como fato estabelecido.

World J Emerg Surg. 2025;20:41, introdução

De zero vírgula sete a sete por cento, a faixa sem período

A série de dois mil e dezenove escreve que o risco aproximado de necessitar de operação de urgência num portador de hérnia paraesofágica é de 0,7% a 7%. São dez vezes de amplitude num único intervalo, e a frase não declara em que período. Usada como se fosse anual, a ponta superior transforma conduta expectante em risco de sete por cento ao ano.

JSLS. 2019;23(2):e2019.00017, introdução

Cinquenta e três por cento, mas de internações

O trabalho estadual americano citado na análise da amostra nacional registra que mais da metade das internações por estômago intratorácico foi de urgência, e que 66% dessas internações de urgência receberam alta sem qualquer operação. É proporção de internações, não risco de evento, e a segunda metade da frase muda o sentido da primeira.

Surg Endosc. 2014;28(12):3473-8, discussão, citando série do estado de Nova York de 2002 a 2006

Na prova

Se a alternativa oferecer cerca de um por cento ao ano, nenhuma banca a considerará errada — é a régua que virou consenso de texto. O que muda é a unidade por trás. Guarde que existe uma faixa publicada de 0,7% a 7% sem período declarado, e que os números que parecem grandes, como cinquenta e três por cento ou sessenta e um por cento, não são risco anual e sim proporção de internações e de operações. Confundir as unidades é o erro que a questão de conduta expectante costuma armar.

A operação de urgência é mesmo mais mortal que a programada

Bruta, na leitura antiga: 5,4% contra 1,4%

O modelo de dois mil e dois, sobre a base de mil novecentos e noventa e sete, mediu mortalidade de 5,4% na operação de urgência e de 1,4% na eletiva. Foi com esse par que se concluiu, à época, que a urgência era menos mortal do que se supunha e que a conduta expectante era estratégia razoável no assintomático ou pouco sintomático.

Front Surg. 2015;2:13, seção de tratamento

Bruta, na leitura recente: 3,2% contra 0,37%

A mesma base hospitalar, lida entre dois mil e seis e dois mil e oito com 41.723 doentes, mediu 3,2% na urgência e 0,37% na eletiva. Nas duas leituras a mortalidade caiu; a diferença absoluta encolheu de quatro para 2,83 pontos percentuais, e a razão entre elas subiu de 3,9 para 8,6 vezes.

Surg Endosc. 2014;28(12):3473-8, resultados

Ajustada: a diferença deixa de existir

A série de trinta doentes de urgência contra cento e noventa e nove eletivos registra que as diferenças significativas de complicação desaparecem depois do pareamento por escore de propensão, e cita um trabalho em que a mortalidade dez vezes maior da urgência deixou de ser associação independente na análise ajustada. A leitura dos autores é que pode não haver benefício adicional em converter a urgência em eletiva em mãos experientes.

JSLS. 2019;23(2):e2019.00017, discussão

Na prova

A alternativa que disser que a urgência tem morbidade e mortalidade maiores está certa em qualquer banca — é o que todas as análises brutas mostram. O cuidado é com a alternativa que transforma isso em benefício de operar antes: as análises pareadas por risco não sustentam essa segunda leitura. Se a questão pedir a magnitude, dê a bruta; se pedir a conclusão sobre indicar cirurgia eletiva no assintomático, lembre que o modelo de decisão favorece a observação.

Quantos portadores de hérnia paraesofágica são assintomáticos

Mais da metade seria assintomática

A revisão de dois mil e quinze escreve que alguns estudos sugerem que mais da metade dos portadores de hérnia paraesofágica é assintomática, e acrescenta, no mesmo trecho, que o número verdadeiro permanece desconhecido por falta de estudos populacionais. É a base do argumento a favor de observar.

Front Surg. 2015;2:13, incidência e apresentação clínica

Um em duzentos e setenta seria assintomático

A mesma revisão relata a série de duzentos e setenta doentes operados em que duzentos e sessenta e nove eram sintomáticos, com mediana de quatro sintomas: pirose em 65%, saciedade precoce em 50%, dor torácica em 48%, dispneia em 48%, disfagia em 48%, regurgitação em 47% e anemia em 41%. A conclusão dos autores é que o doente verdadeiramente assintomático é raro.

Front Surg. 2015;2:13, incidência e apresentação clínica, citando série de 270 doentes

A reconciliação está na própria fonte

As duas afirmações distam cento e trinta e cinco vezes uma da outra, e o texto explica por quê antes de acusar: todos os duzentos e setenta doentes da série foram operados por hérnia sintomática, de modo que a série não tem população capaz de estimar a fração assintomática. Não é contradição, é denominador. O deslize seria citar o um em duzentos e setenta como prova de que a hérnia raramente é silenciosa.

Front Surg. 2015;2:13, limitação declarada da série de 270 doentes

Na prova

Aqui as duas respostas aparecem impressas no mesmo parágrafo da mesma fonte, e a banca costuma usar a versão que serve à sua pergunta. Se o enunciado discute conduta expectante, a resposta esperada é que boa parte é assintomática; se discute a avaliação pré-operatória, é que o sintoma existe e passa despercebido. Nas duas, a chave é que sintoma de hérnia grande é insidioso e costuma ser atribuído à idade.

06

Caso resolvido

Mulher de 76 anos, hipertensa, chega ao pronto-socorro com dor epigástrica e retroesternal de início súbito há cinco horas, contínua e intensa, acompanhada de ânsia de vômito persistente e improdutiva. Refere endoscopia realizada há três anos que descreveu hérnia de hiato volumosa, sem acompanhamento posterior. Nega febre, diarreia e dor torácica prévia aos esforços. Ao exame: descorada, ansiosa, frequência cardíaca de 112 batimentos por minuto, pressão arterial de 100 por 60 milímetros de mercúrio, frequência respiratória de 24 incursões por minuto, saturação de 93% em ar ambiente. Abaulamento e dor à palpação do epigástrio, sem defesa em outros quadrantes. A tentativa de passagem de sonda nasogástrica encontra resistência e a sonda não progride. Eletrocardiograma sem alteração isquêmica e troponina inicial normal. Radiografia de tórax mostra nível hidroaéreo retrocardíaco. Hemograma com hemoglobina de 10,2 gramas por decilitro e volume corpuscular médio de 76 fentolitros, leucócitos de 15.400 por milímetro cúbico, lactato de 2,6 milimoles por litro.
primeiro, ler a tríade como mecânica e não como conjunto raro
Dor epigástrica intensa e súbita, esforço de vômito improdutivo e sonda que não progride são a tríade completa, e ela está presente. O valor dela aqui não é estatístico e sim mecânico: a sonda que não passa localiza a obstrução acima da cárdia e é o sinal que separa este quadro de uma gastroparesia, de uma pancreatite e de uma úlcera perfurada. A tríade completa aparece em menos de um quinto dos casos medidos, de modo que a sua presença fecha, mas a sua ausência não afastaria.
segundo, usar a imagem simples que já está feita
Nível hidroaéreo retrocardíaco numa radiografia de tórax, num doente com hérnia de hiato conhecida e sonda que não progride, é estômago intratorácico. Não é preciso tomografia para indicar a operação nesse cenário, embora ela seja útil quando disponível e o doente estiver estável. O eletrocardiograma sem isquemia e a troponina normal já retiram a síndrome coronariana da frente da fila, e a dor retroesternal em idoso justifica ter feito os dois.
terceiro, nomear a hérnia antes de nomear a torção
O vólvulo gástrico agudo do adulto é quase sempre secundário, e a causa mais frequente é a hérnia paraesofágica. Descrever apenas vólvulo gástrico deixa o diagnóstico pela metade, porque a operação corrige as duas coisas: destorce e reduz o estômago, e depois fecha o hiato para que ele não suba de novo. O eixo mais provável é o organoaxial, que responde por cerca de três quartos dos casos classificados nas duas séries que os classificaram.
quarto, ler a anemia microcítica como parte da doença
Hemoglobina de 10,2 com volume corpuscular de 76 fentolitros numa portadora de hérnia volumosa não é achado incidental: é anemia ferropriva por erosões da mucosa do fundo gástrico herniado, que ficam no ponto em que o estômago cruza o hiato. Anemia aparece em 41% dos doentes de uma série de duzentos e setenta operados eletivamente. Neste caso ela é retrospectiva — indica que a hérnia já vinha cobrando havia meses, e que a indicação eletiva existia antes desta madrugada.
quinto, indicar a operação e não a descompressão isolada
A conduta é reposição volêmica, correção do que der para corrigir em minutos e laparotomia ou laparoscopia de urgência para redução, avaliação da viabilidade gástrica e reparo do hiato. A tentativa de descompressão endoscópica ou por sonda não substitui a operação num quadro com taquicardia, hipotensão relativa e lactato elevado. Nas séries mundiais, 61,1% dos doentes chegam à mesa nas primeiras vinte e quatro horas — e o terço restante é onde a mortalidade se acumula.
sexto, calibrar a expectativa de desfecho
A idade média do doente operado por vólvulo agudo em série mundial é de 75,3 anos, quase exatamente a desta paciente. A taxa de complicação pós-operatória fica entre 22% e 32% conforme o denominador, e a mortalidade de trinta dias entre 3% e 5,7%. As complicações mais frequentes registradas não são cirúrgicas e sim vasculares — trombose venosa profunda, infarto, tromboembolismo e acidente vascular encefálico somam mais de oitenta por cento dos eventos. Profilaxia de tromboembolismo e vigilância cardiovascular no pós-operatório não são detalhe.
07

Agora feche você

Homem de 54 anos, sem comorbidades, com pirose e regurgitação típicas há seis anos, em uso de inibidor de bomba de prótons em dose plena há dois anos. Fica assintomático enquanto toma a medicação e volta a ter pirose diária em até uma semana sempre que a suspende. Já tentou reduzir a dose duas vezes, sem sucesso. Endoscopia recente mostra esofagite erosiva de Los Angeles grau B e hérnia hiatal de quatro centímetros, sem esôfago de Barrett. A pHmetria de vinte e quatro horas confirma exposição ácida patológica com boa correlação sintoma-refluxo. Não tem disfagia, saciedade precoce, dispneia nem anemia. Deseja parar de tomar remédio.
Passo 1
Qual é o tipo anatômico mais provável desta hérnia, e qual exame de imagem definiria isso de forma inequívoca caso houvesse dúvida entre o tipo dois e o tipo três?
Passo 2
Pelas indicações brasileiras de tratamento cirúrgico do refluxo, qual delas este doente preenche, e por que a presença da hérnia de quatro centímetros não é, por si só, a indicação?
Passo 3
Qual exame ainda falta antes de marcar a operação, e o que exatamente a sua resposta muda na técnica que será realizada?
Passo 4
Se a esofagite fosse Los Angeles grau A e a pHmetria mostrasse exposição ácida normal com sintomas persistentes, o que isso mudaria na indicação e por quê?
Passo 5
Qual é a faixa de falha relatada para a fundoplicatura, e o que se deve dizer a este doente sobre a chance de precisar voltar ao remédio ou a uma segunda operação?
Passo 6
Que método de seguimento pós-operatório se deve programar, e por que a entrevista clínica isolada é insuficiente para detectar o desmanche da válvula?
08

Onde a banca derruba

  1. 1Esperar o nome da hérnia aparecer no enunciado Nas questões do acervo, os termos deste capítulo aparecem em vinte e quatro enunciados e em quarenta e duas alternativas, sendo vinte e oito delas em questões cujo enunciado não traz o termo em nenhum lugar. Treze questões têm o termo dentro da alternativa correta, e todas as treze são de trilha de prova. O enunciado entrega uma senhora de setenta e poucos anos com dor epigástrica e vômito que não vem; o nome só aparece na hora de escolher.
  2. 2Tratar a tríade de Borchardt como critério de entrada A tríade completa aparece em 17,1% dos casos medidos numa revisão de seiscentos e cinquenta e quatro doentes e está ausente em 82,9% deles. Dor epigástrica isolada aparece em 71,1%. Exigir os três elementos para pensar em vólvulo gástrico descarta quatro em cada cinco casos. O elemento que mais vale é o mecânico, e não a soma: sonda nasogástrica que não progride num doente com dor epigástrica e distensão já basta.
  3. 3Confundir a régua do refluxo com a régua da hérnia A indicação brasileira de operar refluxo é a intolerância ao tratamento clínico prolongado, a doença complicada e a queixa atípica por refluxo não ácido — nenhuma delas menciona tamanho de hérnia. A indicação de operar a hérnia paraesofágica é o sintoma dela: disfagia, saciedade precoce, dispneia posicional, anemia ferropriva. Um doente pode ter as duas indicações e nenhuma delas prediz a outra.
  4. 4Ler o percentual de complicação sem o denominador Na tabela de complicações da revisão sistemática, o óbito aparece como 1,0% — mas esse 1,0% é vinte em 1.989 complicações, não vinte em 9.010 doentes, que daria 0,22%. A mortalidade de trinta dias que o mesmo artigo reporta é 5,7% pela média ponderada e 3% pela meta-análise. Quatro números para o mesmo assunto, com denominadores que diferem por 4,5 vezes.
  5. 5Achar que a tela é sempre segura ou sempre perigosa Duas séries brasileiras da mesma revista, com dois anos de distância, mediram erosão de tela em 13,3% de quinze doentes e em zero de setenta. O seguimento da série que teve erosão foi vinte e dois por cento mais longo, o que exclui o tempo como explicação. O que difere é a técnica: prótese em U com cateter de silicone na borda côncava e recobrimento por omento, contra tela aplicada direto sobre a crura.
  6. 6Monitorar a válvula só pela pergunta sobre azia A série brasileira que avaliou o pós-operatório tardio da fundoplicatura registra que a avaliação da válvula baseada apenas na presença de sintomas é instrumento ineficaz de monitorização. Desmanche da válvula e recidiva anatômica ocorrem sem que o doente volte a queixar-se de pirose. O seguimento que a série de setenta doentes usou combinou entrevista com endoscopia ou radiografia contrastada em todos.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Os três achados medem coisas diferentes e só brigam quando se troca uma pela outra. A comparação bruta compara doentes; a pareada compara doentes de risco equivalente. Se a urgência seleciona quem é mais velho e mais doente, é esperado que a diferença encolha ao ajustar — isso reconcilia a base hospitalar com a série pareada sem que nenhuma delas esteja errada. O erro seria usar a razão bruta como se fosse o benefício de antecipar a operação no mesmo doente, porque esse benefício é justamente o que a análise ajustada mede e não encontra. Dizer que a urgência não tem pior prognóstico ignora que a diferença bruta é real e enorme, e que a série pareada tem trinta doentes de um lado. Descartar o modelo de decisão inverte a lógica: ele é o único dos três que estima risco prospectivo de evento, e é dele que sai a régua de cerca de um por cento ao ano. E contraindicar conduta expectante por idade contraria o próprio modelo, que a recomenda no assintomático ou pouco sintomático.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

A hérnia paraesofágica é 5% de todas as hérnias hiatais; os outros 95% são o tipo um, de deslizamento. O exame que separa o tipo dois do tipo três é o esofagograma baritado, porque mostra onde está a junção esofagogástrica. A manometria não faz diagnóstico: escolhe entre fundoplicatura total e parcial. A indicação brasileira de operar refluxo é intolerância ao tratamento clínico prolongado, doença complicada com esôfago de Barrett, ulceração ou estenose, e queixa atípica por refluxo não ácido. A indicação de operar a hérnia é o sintoma dela: disfagia, saciedade precoce, dispneia posicional, dor pós-prandial e anemia ferropriva por erosões do fundo herniado. Vólvulo gástrico em hérnia paraesofágica é emergência: dor epigástrica súbita, esforço de vômito improdutivo e sonda nasogástrica que não progride, com nível hidroaéreo retrocardíaco na radiografia de tórax.

em 30 dias

A tríade de Borchardt completa aparece em 17,1% dos casos medidos e está ausente em 82,9% — a peça isolada mais frequente é a dor epigástrica, em 71,1%. O eixo organoaxial responde por cerca de três quartos dos vólvulos classificados em duas séries independentes, e o mesenteroaxial pelo quarto restante, com maior tendência a estrangular. O risco anual de operação de urgência em hérnia paraesofágica conhecida é de cerca de um por cento; números maiores que circulam são proporções de internação ou de operação, não risco anual. A mortalidade da urgência supera a da eletiva em toda análise bruta — 5,4% contra 1,4% na leitura antiga, 3,2% contra 0,37% na recente — e a diferença deixa de ser significativa após pareamento por risco. A falha da fundoplicatura é de quase 18% em média, com faixa de 3% a 33%, três vezes mais frequente no esôfago de Barrett, e a re-fundoplicatura tem os piores resultados funcionais. Reforço do hiato com prótese reduz recidiva e traz risco de erosão que depende do desenho e da interposição de omento.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Este capítulo se aprende de verdade num atendimento em que a paciente idosa chega com dor epigástrica e não consegue vomitar, e o dado que decide não está na queixa e sim na sonda que não passa e na radiografia de tórax que já está pronta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hérnia de hiato e cirurgia antirrefluxo – Hérnia de hiato: a que se opera por refluxo e a que se opera sem ele — Preparatório para provas | OsceLabs