Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

Doença do refluxo gastroesofágico: o que se mede antes de escolher a válvula

Doença do refluxo gastroesofágico e fundoplicatura

A decisão de operar o refluxo se apoia em três medidas: a exposição ácida fora do remédio, a motilidade do corpo esofágico e o hiato.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Ao aconselhar um doente que hesita entre manter o inibidor de bomba e operar, qual afirmação corresponde ao que a revisão sistemática de referência encontrou ao comparar fundoplicatura laparoscópica com tratamento clínico prolongado?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da decisão cirúrgica na doença do refluxo gastroesofágico do adulto: quem tem indicação de fundoplicatura, o que precisa estar medido antes de marcar a operação, qual válvula escolher e o que fazer quando ela falha. Não trata do manejo clínico do refluxo — dose e duração de inibidor de bomba, vigilância do esôfago de Barrett, refluxo laringofaríngeo —, que tem capítulo próprio na clínica, nem da hérnia paraesofágica, que tem capítulo próprio nesta mesma apostila.

A vaga é mensurável. O material do preparatório tem um capítulo clínico de refluxo, denso e completo, que escreve o consenso diagnóstico de referência vinte e seis vezes e o nome da classe do inibidor de bomba cento e trinta e duas vezes, mas escreve fundoplicatura oito vezes e nomeia as duas técnicas de válvula cinco vezes ao todo. O capítulo cirúrgico vizinho, o da hérnia de hiato, escreve fundoplicatura dezenove vezes e não nomeia nenhuma das duas técnicas uma única vez, nem escreve suspensão do inibidor antes do exame.

Do lado das questões, o tema aparece declarado em setenta e uma questões de trilha de prova, das quais vinte e duas estão catalogadas em cirurgia do aparelho digestivo. Em seis dessas questões a decisão medida é qual válvula construir, e em quinze é qual exame funcional pedir e em que condição; as seis que escolhem a válvula declaram todas este mesmo tema. É a decisão cirúrgica, não a clínica, que estava sem texto.

A leitura rende mais se for feita com um laudo de manometria e um de monitorização do refluxo ao lado, porque o capítulo inteiro gira em torno de transformar dois números em uma escolha técnica.

03

O que muda decisão

O refluxo que vai à mesa é o que foi provado, não o que incomoda mais

A operação antirrefluxo é a única terapia do aparelho digestivo alto em que o sintoma, sozinho, não autoriza a indicação. Pirose diária e regurgitação incômoda são queixas, e queixa é o que se trata clinicamente; o que se opera é uma barreira anatômica que falhou e cuja falha foi documentada por medida objetiva. Essa distinção não é preciosismo acadêmico: o doente que vai à mesa sem prova objetiva é o doente que sai da mesa com a mesma queixa e uma válvula nova para explicar o fracasso.

O motivo é epidemiológico. Uma parte grande dos que se queixam de pirose não tem exposição ácida aumentada; tem hipersensibilidade ao refluxo, tem pirose funcional, tem ansiedade esofágica. Esses doentes respondem parcialmente ao inibidor de bomba, o que reforça a impressão de doença do refluxo, e é exatamente essa resposta parcial que costuma ser lida como indicação de cirurgia. A válvula corrige barreira; não corrige percepção.

O consenso que organizou esse raciocínio classificou as evidências em duas camadas. Há achados que fecham o diagnóstico sozinhos — esofagite erosiva de grau alto, esôfago de Barrett confirmado por biópsia, estenose péptica — e há achados que só valem dentro de um cálculo, como o tempo de exposição ácida e a contagem de episódios de refluxo. Quem tem os primeiros já está provado e não precisa de monitorização para ser operado. Quem não os tem precisa.

Vale nomear o custo do atalho. Operar sem prova objetiva não é apenas um exame economizado: é um doente que passa a carregar uma válvula construída sobre uma barreira que talvez nunca tenha falhado, e que agora tem disfagia somada à pirose que o trouxe. Quando o resultado é ruim, a investigação que deveria ter vindo antes vem depois, num esôfago já operado, com anatomia alterada e com laudos mais difíceis de interpretar. A ordem dos exames é parte da técnica.

A consequência prática inverte a ordem que muita gente usa. Não se pede a monitorização do refluxo para confirmar o que o doente já contou; pede-se para descobrir se existe barreira falha por trás da queixa. O doente com endoscopia normal, sem esofagite e sem prova prévia de refluxo, é o que mais precisa do exame e é justamente o que costuma chegar ao cirurgião com o exame dispensado. Antes de marcar a operação, pergunte o que foi medido e quando.

A régua da exposição ácida tem três faixas, e a do meio não abre a porta da mesa

O tempo de exposição ácida é a proporção do período monitorado em que o pH distal ficou abaixo de quatro. O consenso o divide em três faixas com nomes distintos. Abaixo de quatro por cento, o resultado é considerado definitivamente normal, ou seja, fisiológico. Acima de seis por cento, é definitivamente anormal. Entre as duas linhas fica uma faixa inconclusiva, e inconclusivo não é sinônimo de leve.

Essa faixa do meio é onde a maior parte dos erros de indicação acontece. O raciocínio errado lê o valor intermediário como doença de pequena monta e conclui que a operação resolve. O raciocínio certo lê o mesmo valor como ausência de resposta e vai buscar um dado adicional antes de decidir qualquer coisa. Sem esse dado adicional, o doente da faixa do meio permanece sem indicação cirúrgica.

O dado adicional mais usado é a contagem de episódios de refluxo em vinte e quatro horas, que tem régua própria e também três faixas. Abaixo de quarenta episódios o comportamento é fisiológico; acima de oitenta, sustenta o diagnóstico; a faixa intermediária permanece inconclusiva. Combinar as duas medidas resolve boa parte dos casos duvidosos: exposição ácida na faixa do meio com contagem alta de episódios passa a apoiar a doença.

Convém entender por que as faixas existem em vez de um corte único. Um corte único obriga o exame a decidir sempre, inclusive quando a medida cai perto da fronteira e a variação entre dias é maior que a diferença entre doente e saudável. Ao declarar uma zona de indecisão, o consenso admite o que o exame não consegue distinguir e transfere a decisão para a soma de evidências. Faixa do meio é pedido de mais dados, não permissão para arredondar para cima.

Existem ainda marcadores de apoio, como a impedância basal noturna média, que traduz integridade da mucosa e cai quando há agressão ácida crônica. Nenhum deles substitui as duas medidas principais; todos servem para desempatar. E a atualização do consenso acrescentou uma exigência de repetição: a exposição ácida alta precisa aparecer em mais de um dia de monitorização para confirmar, e a exposição baixa precisa ser baixa em todos os dias registrados para excluir. Quando o resultado ficar no meio, some evidências antes de operar.

Com o remédio suspenso ou com o remédio dobrado: a pergunta escolhe o exame

A mesma monitorização responde a duas perguntas diferentes conforme o doente esteja tomando ou não o inibidor de bomba, e trocar as duas situações inutiliza o exame. A regra depende de uma classificação prévia: o doente tem refluxo provado ou não provado?

Refluxo não provado é o doente sem esofagite erosiva relevante à endoscopia e sem monitorização anormal prévia. Nele, a pergunta é se existe doença, e a monitorização precisa ser feita fora do remédio, com o inibidor de bomba suspenso por pelo menos sete dias. O consenso é explícito ao estender essa mesma exigência à avaliação de quem está sendo considerado para cirurgia antirrefluxo: quem vai ser operado é testado fora da medicação.

Refluxo provado é o doente com esofagite de grau alto documentada, com esôfago de Barrett de segmento longo ou com monitorização anormal anterior. Nele, a pergunta não é mais se existe doença, e sim por que a doença persiste apesar do tratamento. Esse doente é estudado em uso de dose dobrada do inibidor de bomba, para correlacionar sintoma persistente com episódio de refluxo e para descartar supressão ácida insuficiente ou má adesão como causa da queixa.

A suspensão tem prazo e tem motivo. Sete dias é o intervalo necessário para que a bomba de prótons volte a funcionar em número suficiente e a secreção ácida retorne ao patamar do doente, e não ao patamar do doente medicado. Suspender por dois ou três dias produz um exame intermediário, que não mede a doença nem mede a refratariedade — um exame apressado responde à pergunta errada e custa ao doente a repetição de um procedimento desconfortável.

Há uma exigência técnica que decorre disso e cai com frequência. Quando o exame é feito em uso do inibidor, a maioria dos episódios de refluxo deixa de ser ácida e passa a ser fracamente ácida; um cateter que só mede pH não os enxerga. Por isso a avaliação em uso de medicação exige impedanciopHmetria, e não a pHmetria isolada. Ao pedir o exame, escreva na requisição em que condição ele deve ser feito e por quê.

A endoscopia feita cedo vale mais do que a endoscopia feita depois

A endoscopia tem dois papéis distintos e a ordem em que é feita muda o que ela consegue responder. Serve para excluir doença que imita refluxo e para encontrar os achados que fecham o diagnóstico sem cálculo nenhum. O problema é que o principal desses achados desaparece com o tratamento.

A cicatrização da mucosa em quem toma inibidor de bomba se aproxima de quatro quintos dos casos. Uma endoscopia realizada depois de oito semanas de medicação pode não mostrar mais a esofagite ativa, e o doente que tinha doença erosiva grave passa a ser catalogado como doença não erosiva. Por isso, quando há intenção de caracterizar a gravidade, o exame ganha valor se for feito antes de iniciar a supressão ácida.

A classificação endoscópica também mudou de peso. O grau mais leve da classificação de Los Angeles aparece em uma fração pequena mas real de indivíduos saudáveis, e por isso deixou de bastar como prova de doença. Os graus intermediário e altos praticamente não ocorrem em pessoas sem refluxo, e a atualização do consenso passou a reconhecer o grau intermediário como evidência definitiva, porque compartilha exposição ácida e padrão de resposta ao inibidor com o grau imediatamente acima.

A endoscopia responde ainda uma pergunta que nenhum outro exame responde: o que mais existe ali dentro. Estenose péptica, esôfago de Barrett, úlcera, neoplasia incipiente e esofagite eosinofílica atravessam o mesmo território sintomático e mudam completamente a conduta. Por isso a indicação de endoscopia não se esgota na busca de esofagite, e biopsiar o esôfago faz parte do exame quando a disfagia é a queixa dominante, mesmo com mucosa de aspecto normal.

Isso reorganiza a conduta. Diante de esofagite de grau mínimo, não conclua nada e siga para a monitorização fora do remédio. Diante de esofagite de grau intermediário ou maior, de estenose péptica ou de esôfago de Barrett confirmado, o diagnóstico está feito e a discussão passa direto para a indicação e para a escolha técnica. Pergunte em que momento do tratamento aquela endoscopia foi realizada.

A manometria não diagnostica refluxo: ela protege o esôfago da válvula

A manometria de alta resolução não faz diagnóstico de doença do refluxo e não existe padrão manométrico que a confirme. Seu papel na avaliação é outro, e é duplo: excluir acalasia e outros distúrbios motores maiores que imitam refluxo, e medir a força do corpo esofágico de quem vai receber uma válvula.

O primeiro papel é de segurança diagnóstica. Acalasia inicial cursa com regurgitação, com pirose e com resposta parcial ao inibidor de bomba, e já foi operada como refluxo mais de uma vez. Uma válvula antirrefluxo colocada em esôfago que não relaxa transforma disfagia leve em disfagia incapacitante. O exame que evita esse desastre é a manometria, e o momento de fazê-la é antes de marcar a operação, nunca depois da disfagia aparecer.

O segundo papel é técnico. A válvula acrescenta resistência na junção esofagogástrica, e essa resistência precisa ser vencida por uma peristalse que funcione. Quanto mais fraco o corpo esofágico, maior o risco de a resistência virar disfagia persistente. É desse raciocínio que nasce a ideia de ajustar o grau de envolvimento do fundo gástrico à motilidade encontrada, ideia tradicional na cirurgia e ainda hoje discutida.

Há um detalhe de leitura que muda decisão. Dentro do conjunto de deglutições comprometidas, as que falham por completo pesam mais do que as apenas fracas: predizem melhor a exposição ácida anormal, e a carga de refluxo é máxima quando não há contração nenhuma. Ou seja, duas manometrias com o mesmo total não valem o mesmo se uma delas concentra falhas e a outra concentra contrações fracas. Registre a decomposição do laudo, e não apenas a soma.

A manometria também informa o eixo anatômico. Ela localiza a junção esofagogástrica, mede a separação entre o esfíncter inferior e a impressão diafragmática, e descreve a morfologia dessa junção — dados que ajudam a planejar o fechamento dos pilares. Peça manometria em todo candidato a fundoplicatura e leia o laudo antes de escolher a técnica.

Hipomotilidade é palavra com mais de uma definição numérica

Dizer que um esôfago tem motilidade fraca parece objetivo e não é, porque os documentos que orientam a decisão não usam o mesmo corte. Quem lê laudo precisa saber qual régua está sendo aplicada, porque a mesma deglutição pode contar como inefetiva em uma definição e não contar em outra.

A Classificação de Chicago versão 4.0 tornou o diagnóstico mais exigente. Motilidade esofágica inefetiva conclusiva requer mais de 70% de deglutições inefetivas ou pelo menos 50% de deglutições completamente falhas, com relaxamento da junção preservado. Entre 50% e 70% de deglutições inefetivas, sem metade delas falhas, o resultado é inconclusivo e deve ser sustentado por ausência de reserva contrátil nas deglutições rápidas múltiplas ou por depuração anormal no esofagograma/impedância. Uma contração fraca tem integral contrátil distal entre 100 e 450; falha, abaixo de 100.

A diretriz europeia que compara as técnicas cirúrgicas usa outro corte para delimitar quem ela cobre: exclui do seu alcance o doente com hipomotilidade significativa, definida como mais de setenta por cento de contrações fracas ou metade de deglutições falhas, além da esclerodermia esofágica. São dois critérios diferentes para o mesmo rótulo, publicados em anos próximos e citando a mesma literatura.

Nada disso é jogo de palavras. Um laudo que descreve quatro em dez deglutições comprometidas não preenche o critério manométrico e não aciona o recorte da diretriz; um laudo com seis em dez preenche o critério manométrico e continua sem acionar o recorte, que só se fecha acima de sete em dez. Existe, portanto, uma faixa inteira de doentes que são inefetivos por uma régua e elegíveis pela outra, e é nela que a discussão técnica de fato acontece.

A consequência é direta e desconfortável: o doente com esôfago fraco, que é justamente aquele em quem a escolha da válvula parcial sempre foi ensinada como obrigatória, está fora do alcance da diretriz que recomenda a válvula parcial. A recomendação vale para quem tem motilidade preservada. Ao ler um laudo, transcreva a proporção de deglutições inefetivas e diga qual definição está usando.

Válvula total e válvula parcial trocam disfagia por recidiva

As técnicas se descrevem pelo grau de envolvimento do fundo gástrico em torno do esôfago distal. A total posterior envolve toda a circunferência. A parcial posterior envolve a maior parte, deixando uma face livre. Há ainda as parciais anteriores, com envolvimentos menores. A diferença entre elas não é de qualidade cirúrgica, é de física: quanto mais completa a válvula, maior a barreira e maior a resistência à passagem do bolo.

Daí decorre o dilema inteiro. A válvula total controla o refluxo com mais durabilidade e cobra disfagia; a parcial cobra menos disfagia e é acusada de controlar menos o refluxo a longo prazo. A diretriz europeia de rápida atualização, construída sobre metanálise em rede e avaliação formal de certeza, sugere a parcial posterior sobre a total posterior e sobre a parcial anterior de menor ângulo, e classifica a própria sugestão como recomendação fraca.

As metanálises que sustentam essa preferência mostram vantagem clara da parcial quanto à disfagia, mas essa vantagem é dependente do tempo de seguimento: em estudos com acompanhamento curto a diferença é significativa, e nos acompanhamentos mais longos o intervalo de confiança se abre e a diferença deixa de existir. A esofagite pós-operatória, medida por endoscopia, não difere entre as duas.

Há uma assimetria de tempo embutida nesse debate que convém enxergar. A disfagia aparece cedo, é lembrada pelo doente e domina a comparação nos primeiros anos; a recidiva do refluxo aparece tarde e exige seguimento longo para ser contada. Comparações curtas favorecem sistematicamente a válvula parcial, e comparações longas tendem a aproximar as duas técnicas. O prazo do estudo é metade do resultado, e conferi-lo é parte de ler qualquer comparação entre elas.

E há o contrapeso que raramente se ensina: nos ensaios clínicos individuais que compõem essas revisões, existem estudos em que a recidiva do refluxo foi maior no grupo da válvula parcial, em um deles com quase o dobro da proporção. Ou seja, a troca é real e tem duas direções. Ao aconselhar o doente, diga qual dos dois preços ele escolhe pagar.

Esquema comparando três modos de dobrar o fundo gástrico em torno do esôfago distal: volta completa, dobra posterior parcial e dobra anterior parcial, com os pilares diafragmáticos ao fundo.
Quanto do esôfago distal a válvula abraça é a variável que troca disfagia por recidiva: a volta completa cria a barreira mais firme e cobra mais disfagia; as dobras parciais, posterior e anterior, cobrem parte da circunferência e invertem essa troca.

O hiato é a outra metade da operação

Fundoplicatura sem tratar o hiato é meia operação, e a maior parte das falhas tardias tem endereço no hiato, não na válvula. O objetivo cirúrgico é restabelecer o segmento de esôfago intra-abdominal e estreitar o anel muscular por onde ele passa, de modo que a válvula construída fique abaixo do diafragma e permaneça lá.

A dissecção começa no mediastino e não no abdome. É preciso liberar o esôfago para cima até obter comprimento intra-abdominal suficiente sem tração, porque válvula tracionada migra. Quando esse comprimento não se obtém, existe uma situação específica — o esôfago encurtado — cuja solução é alongar o esôfago com uma gastroplastia, e reconhecê-la na sala evita a recidiva precoce por migração.

O fechamento dos pilares é o outro tempo. Em hiatos pequenos, a aproximação simples costuma bastar; em hiatos amplos, a sutura sob tensão falha, e é aí que se discute reforço protético. A diretriz que compara as técnicas de válvula, aliás, delimita seu alcance a doentes sem hérnia hiatal ou com hérnia pequena, o que significa que a recomendação sobre o tipo de válvula não foi escrita para o doente com hérnia grande.

Convém lembrar que o diafragma continua trabalhando depois que o cirurgião sai. Cada inspiração, cada tosse e cada esforço abdominal tracionam a sutura dos pilares, e é por isso que a falha do hiato costuma ser tardia e progressiva, e não imediata. Obesidade, tosse crônica e esforço repetido somam tração ao longo dos anos, e tratá-los faz parte de operar o hiato, tanto quanto a sutura escolhida na sala.

Isso obriga a separar duas indicações que a prática mistura. Operar por refluxo e operar por hérnia são decisões distintas, com critérios distintos, que às vezes coincidem no mesmo doente. Ao indicar a operação, escreva qual das duas motiva a mesa e trate o hiato com o mesmo cuidado que dedica à válvula.

O preço da operação aparece cedo e o benefício aparece tarde

Comparada ao tratamento clínico prolongado, a fundoplicatura por via laparoscópica tem um perfil de efeitos que se distribui de forma desigual no tempo, e conhecer essa distribuição é o que permite conversar honestamente com o doente antes da decisão.

A revisão sistemática de referência sobre cirurgia contra tratamento clínico encontrou controle de pirose consistentemente melhor no grupo operado, em todos os prazos avaliados, e qualidade de vida específica melhor no curto prazo. Esse é o benefício, e ele é real. Do outro lado, encontrou disfagia muito mais frequente no grupo operado no curto e no médio prazo, com risco relativo de várias vezes, e proporção maior de eventos adversos graves.

O detalhe que muda a conversa está no longo prazo. Naquele horizonte, a diferença de disfagia entre operados e tratados clinicamente deixa de ser estatisticamente distinguível, e a diferença nos sintomas de refluxo também perde a significância. Ao mesmo tempo, uma proporção grande dos operados continua com pirose anos depois. Operar não é sinônimo de nunca mais tomar remédio.

Convém também dizer o que esses números não são. Eles comparam a operação com o tratamento clínico prolongado em doentes que já vinham em supressão ácida, e não medem o desfecho de operar quem nunca teve refluxo documentado — esse doente sequer entra nos ensaios. nenhum resultado favorável se transfere para quem não preenche o critério de entrada, e o benefício descrito na literatura só vale para quem foi selecionado como nela.

Os próprios autores concluem que existe incerteza considerável no balanço entre benefícios e danos, e registram que os ensaios incluídos tinham alto risco de viés e certeza baixa ou muito baixa. Isso não desqualifica a operação; qualifica o consentimento. Diga ao doente que ele troca pirose por disfagia precoce e que a troca tende a se atenuar com os anos.

O que o doente sente depois tem nome, prazo e conduta

Quase todo operado tem alguma disfagia nas primeiras semanas, e essa disfagia precoce é esperada: resulta do edema da válvula recém-construída e da manipulação do hiato. Ela não é sinal de erro técnico e não se trata com dilatação. Trata-se com progressão alimentar graduada — líquidos, pastosos, sólidos macios — mastigação lenta, refeições fracionadas e reavaliação clínica programada em algumas semanas.

O erro comum nessa fase é indicar dilatação endoscópica cedo demais, o que expõe a válvula fresca a risco desnecessário. A dilatação tem lugar na disfagia que persiste além do período de edema e que não cede com a progressão da dieta, e a decisão de dilatar exige antes documentar a obstrução, e não apenas ouvir a queixa.

Há um segundo conjunto de queixas que decorre da própria física da válvula: distensão gasosa, incapacidade de eructar e flatulência aumentada. O doente engole ar como sempre engoliu e passa a não conseguir devolvê-lo pelo esôfago. Essas queixas são mais frequentes com envolvimento completo, tendem a melhorar ao longo dos meses e se manejam com orientação alimentar e comportamental.

Existe ainda um terceiro grupo de queixas, mais silencioso: a saciedade precoce e a mudança do padrão alimentar. O fundo gástrico usado para construir a válvula deixa de exercer o relaxamento receptivo que acomodava o alimento, e o doente passa a comer porções menores. Em muitos isso é bem-vindo; em idosos e magros, a perda de peso merece vigilância ativa, com pesagem seriada e orientação nutricional, e não deve ser lida apenas como bom resultado.

A conversa pré-operatória precisa antecipar as duas coisas. O doente que sabe que vai ter dificuldade para engolir por algumas semanas e dificuldade para arrotar por alguns meses atravessa esse período sem interpretar cada sintoma como fracasso. Registre no prontuário o que foi combinado sobre a progressão da dieta e a data da reavaliação.

Quando a válvula falha, refazer a medida vem antes de refazer a válvula

Falha da fundoplicatura tem duas formas clínicas: volta o refluxo, ou aparece disfagia persistente. As duas exigem investigação, e a maior armadilha é supor que a queixa nova tem a mesma causa do problema antigo. Pirose depois da operação pode ser refluxo recidivado, mas pode ser hipersensibilidade, pode ser dispepsia e pode ser válvula desfeita sem refluxo ácido.

O consenso internacional dedicado à fundoplicatura que falhou é enfático num ponto que contraria a intuição de economia de exames: quando se considera reoperar por pirose depois da fundoplicatura, a manometria esofágica precisa ser feita agora, ainda que já tenha sido feita antes da operação original. O esôfago mudou; o laudo antigo descreve um órgão que não existe mais.

O mesmo consenso registra outros pontos úteis. A reoperação por pirose com monitorização de pH anormal não exige necessariamente acrescentar impedância antes da reintervenção. A entrega endoscópica de radiofrequência na junção não é aceita como tratamento da pirose pós-fundoplicatura. E a operação de revisão deve ser feita em centro de alto volume, porque a dissecção de aderências no hiato reoperado tem risco próprio.

Antes de reoperar, vale mapear o mecanismo da falha, porque cada um pede solução diferente: válvula desfeita, válvula migrada para o tórax, válvula bem construída mas apertada demais, e válvula intacta com sintoma de outra origem. Endoscopia, estudo contrastado e manometria atual, lidos juntos, separam os quatro. Reoperar sem saber qual dos quatro está diante de você é a via mais rápida para a terceira operação.

Sobre a técnica da revisão, a orientação é ajustar o tipo de válvula aos sintomas que o doente tem antes da reoperação, e não repetir automaticamente a técnica anterior. Encaminhe o doente com falha para reavaliação funcional completa e para um serviço com volume, antes de prometer qualquer reoperação.

04

O caminho da queixa até a válvula

Quatro perguntas em ordem fixa. Pular uma delas é o modo mais comum de operar o doente errado ou de escolher a técnica errada no doente certo.

Primeiro: o refluxo está provado?

Esofagite de Los Angeles grau B, C ou D, esôfago de Barrett confirmado por biópsia ou estenose péptica fecham o diagnóstico sem cálculo. Grau A não fecha: aparece em 5% a 7,5% de pessoas saudáveis. Sem nenhum desses achados, o doente é 'refluxo não provado' e precisa de monitorização antes de qualquer conversa sobre cirurgia. Endoscopia feita após 8 semanas de inibidor pode ter apagado a esofagite: a cicatrização aproxima-se de 80%.

Segundo: com ou sem o remédio?

Refluxo não provado e candidato a cirurgia: monitorização fora do inibidor, com suspensão de pelo menos 7 dias. Refluxo provado com sintoma refratário: monitorização em uso, com dose dobrada, e obrigatoriamente com impedância, porque em uso do inibidor a maioria dos episódios é fracamente ácida (pH 4 a 7) e o cateter de pH isolado não os conta. Faixas de exposição ácida: < 4% normal, > 6% anormal, 4% a 6% inconclusivo; episódios < 40 fisiológico, > 80 anormal.

Terceiro: como está o corpo do esôfago?

Manometria de alta resolução em todo candidato. Objetivo primário: excluir acalasia e outros distúrbios motores maiores. Objetivo secundário: medir peristalse e reserva contrátil. Pela Chicago v4.0, motilidade inefetiva conclusiva exige >70% de deglutições inefetivas ou ≥50% deglutições falhas; a faixa de 50%–70% inefetivas é inconclusiva e deve ser apoiada por manobras provocativas, depuração no esofagograma ou impedância. Não escolha a válvula por um único percentual isolado.

Quarto: qual válvula e qual hiato?

Parcial posterior (Toupet, 270°) é a sugestão da diretriz europeia de 2022 sobre total posterior (Nissen, 360°) — recomendação fraca, e válida só para hérnia < 2 cm e sem hipomotilidade significativa. Fora desse recorte, a escolha volta a ser individual. Em todos os casos: esôfago intra-abdominal sem tração e fechamento dos pilares; sem comprimento, considerar gastroplastia de alongamento.

Exposição ácida = proporção do registro com pH esofágico distal abaixo de 4.

Integral contrátil distal = medida do vigor da contração na manometria.

Fora do inibidor / em uso: condição em que a monitorização foi realizada.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O valor de 4% aparece como teto em um documento e como piso em outros três

4% é o teto do normal

O consenso propõe que exposição ácida abaixo de 4% seja considerada definitivamente normal, isto é, fisiológica, e acima de 6% definitivamente anormal, com os valores intermediários inconclusivos. É a régua que o mundo usa para dizer que não há doença.

Gut. 2018;67(7):1351-62 (Consenso de Lyon), seção de monitorização do refluxo, deslocamento 11.349 do texto extraído

4% é o piso que prediz sucesso da operação

Num estudo de 187 doentes encaminhados para impedanciopHmetria antes de tratamento clínico ou cirúrgico, exposição ácida acima de 4%, associação sintoma-refluxo com episódios detectados por impedância e exame feito fora do inibidor predisseram sucesso do tratamento. O mesmo texto registra que os cortes do consenso se apoiaram em dados normativos existentes e em opinião de especialistas.

Am J Gastroenterol. 2020;115(9):1412-28 (ACG, uso clínico dos testes fisiológicos esofágicos), deslocamento 38.114

4% é o piso do refluxo refratário acionável, em uso de remédio

Na atualização do consenso, exposição ácida acima de 4% somada a mais de 80 episódios de refluxo por dia, em regime otimizado de supressão ácida, constitui evidência objetiva de refluxo refratário acionável — situação que justifica considerar intervenção avançada.

Gut Liver. 2025;19(6) — aplicação do Consenso de Lyon 2.0, deslocamento 10.616

4% é o próprio limite superior do normal em populações asiáticas

Metanálise de 19 estudos asiáticos encontrou limite superior de normalidade de 3,2% (IC 95% 2,7% a 3,9%) em assintomáticos, expressamente menor que o corte ocidental de 6,0%, e por isso propõe-se 4% como valor anormal nessas populações.

Gut Liver. 2025;19(6), seção de considerações regionais, deslocamento 11.213

Na prova

O enunciado que traz exposição ácida entre 4% e 6% está testando se você reconhece a faixa inconclusiva. Se a questão pedir o diagnóstico, a resposta é buscar evidência adicional (contagem de episódios, impedância basal, associação sintoma-refluxo), nunca 'confirmar DRGE'. Se ela pedir a indicação cirúrgica com valor nessa faixa e nenhum outro dado, a resposta é não indicar ainda. O piso de 4% só aparece em dois contextos muito específicos, ambos sinalizados no enunciado: doente já provado e em uso otimizado de inibidor, ou população asiática. Fora deles, use 6%.

Qual válvula construir no doente com motilidade normal

Parcial posterior, por sugestão formal

A diretriz, construída sobre metanálise em rede com avaliação GRADE, sugere fundoplicatura parcial posterior sobre a total posterior e sobre a anterior de 90°, classificando a sugestão como recomendação fraca. Justifica-se pela disfagia associada ao Nissen em cerca de 13% dos doentes além de 1 ano, com controle de refluxo semelhante a longo prazo.

United European Gastroenterol J. 2022;10(9):983-98 (UEG/EAES rapid guideline), resumo e seção de recomendação, deslocamentos 156 e 31.050

Total posterior, por durabilidade e por prática estabelecida

Nos ensaios individuais reunidos, a recidiva de refluxo foi maior no braço da parcial em pelo menos dois estudos (69,7% contra 37,9% em cinco anos num deles; 10,7% contra 0% em outro). Na metanálise de 2016, a vantagem da parcial quanto à disfagia (RR 2,75; IC 95% 1,69-4,50) perde significância no seguimento ≥ 36 meses (RR 3,47; IC 95% 0,58-20,60; p = 0,17), e a esofagite pós-operatória não difere (RR 0,98; IC 95% 0,81-1,18). A própria diretriz europeia reconhece que a total é hoje a operação mais realizada na Europa.

Ann R Coll Surg Engl. 2024;106(7) — revisão sistemática de ensaios randomizados de longo prazo, tabela de estudos, deslocamento 8.890; e BMC Gastroenterol. 2016;16:88, deslocamento 16.029

Na prova

Questão que descreve motilidade preservada e pergunta a técnica: a resposta contemporânea é a parcial posterior de 270°, e é isso que a diretriz de 2022 sugere. Questão que descreve hipomotilidade e pergunta a técnica: a resposta clássica também é parcial — mas note que a diretriz exclui esse doente do seu alcance, então a justificativa é fisiológica, não normativa. Questão que pergunta qual técnica tem melhor controle de refluxo a longo prazo: a total. Não existe alternativa certa que diga 'ambas são equivalentes em tudo'.

O que conta como hipomotilidade que muda a técnica

Metade das deglutições, pela classificação manométrica

A Chicago v4.0 define motilidade esofágica inefetiva conclusiva com >70% de deglutições inefetivas ou ≥50% de deglutições falhas. Contrações fracas têm DCI entre 100 e 450 mmHg·cm·s e falhas, DCI <100. A faixa de 50% a 70% de deglutições inefetivas é inconclusiva e pode ser apoiada por ausência de reserva contrátil ou depuração anormal do bolo.

Gut. 2018;67(7):1351-62 (Consenso de Lyon), seção de motilidade, deslocamento 27.920

Setenta por cento de contrações fracas, pelo recorte da diretriz

A diretriz declara aplicar-se a doentes com refluxo documentado, sem hérnia hiatal ou com hérnia pequena (< 2 cm) e sem hipomotilidade significativa do corpo esofágico, definida como mais de 70% de contrações fracas ou 50% de deglutições falhas, além da esclerodermia esofágica.

United European Gastroenterol J. 2022;10(9):983-98, seção de pergunta de saúde e alcance, deslocamento 5.786

Na prova

Use a versão declarada pela questão. Pela Chicago v4.0, some deglutições fracas e falhas: >70% inefetivas fecha o diagnóstico; ≥50% completamente falhas também. Entre 50% e 70% inefetivas, sem metade falhas, o resultado é inconclusivo e pede evidência de apoio. O corte antigo de ≥50% inefetivas pertence à Chicago v3.0 e não deve ser apresentado como atual.

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Caso resolvido

Homem de 44 anos, sem comorbidades, com pirose e regurgitação típicas há seis anos. Usa omeprazol 20 mg ao dia há três anos: melhora, mas nunca fica assintomático, e piora sempre que atrasa a dose. Não tem disfagia, perda de peso nem anemia. Endoscopia digestiva alta, realizada há dois meses enquanto usava o inibidor, mostrou esofagite de Los Angeles grau A e pequena hérnia hiatal de 2 cm, sem Barrett. Nunca fez pHmetria. Procura o cirurgião dizendo que não quer mais tomar remédio a vida inteira.
primeiro, classificar: este refluxo está provado?
Não está. Esofagite grau A não fecha diagnóstico, porque ocorre em 5% a 7,5% de indivíduos saudáveis; a hérnia de 2 cm é achado anatômico, não prova funcional; e não há monitorização prévia. Some-se que a endoscopia foi feita em uso do inibidor, com cicatrização mucosa que se aproxima de 80% — o exame pode ter apagado uma esofagite maior. Este doente entra na categoria de refluxo não provado.
segundo, escolher a condição do exame antes de pedi-lo
Como ele é candidato a cirurgia e o refluxo não está provado, a monitorização tem de ser feita fora da medicação, com o inibidor suspenso por pelo menos 7 dias. Pedir o exame em uso do omeprazol responderia a outra pergunta — a de refratariedade — que não é a pergunta deste doente. A requisição precisa dizer que o exame é fora da medicação.
terceiro, ler o resultado nas três faixas
O exame volta com tempo de exposição ácida de 4,8% e 96 episódios de refluxo em 24 horas. A exposição ácida caiu na faixa inconclusiva e sozinho não decide; a contagem de episódios, acima de 80, é definitivamente anormal e apoia o diagnóstico. A soma das duas medidas converte um resultado indeciso em refluxo documentado, e só agora existe substrato objetivo para discutir operação.
quarto, medir o esôfago antes de escolher a técnica
A manometria de alta resolução exclui acalasia — obrigatória em todo candidato — e mostra 30% de deglutições inefetivas. Isso está abaixo até da faixa inconclusiva da Chicago v4.0 e não caracteriza motilidade inefetiva. O corpo esofágico tem motilidade globalmente preservada, mas a decisão técnica ainda deve considerar reserva contrátil, sintomas e anatomia do hiato, não apenas um percentual.
quinto, propor a técnica e nomear o preço
A sugestão contemporânea é fundoplicatura parcial posterior de 270°, com dissecção do esôfago distal até obter segmento intra-abdominal sem tração e fechamento dos pilares. A conversa honesta inclui os dois lados: ele deve ter menos pirose que mantendo o remédio, e deve ter mais disfagia nos primeiros meses; no longo prazo a diferença de disfagia tende a desaparecer, e uma parcela dos operados volta a usar inibidor.
07

Agora feche você

Mulher de 52 anos, operada há dois anos de fundoplicatura total (Nissen) por doença do refluxo com esofagite de Los Angeles grau C documentada antes da cirurgia. Ficou bem por oito meses. Há um ano voltou a ter pirose diária e regurgitação, e há seis meses associou disfagia para sólidos, com impactação ocasional. Reiniciou omeprazol 40 mg ao dia, com melhora parcial da pirose e nenhuma melhora da disfagia. Endoscopia recente descreve válvula parcialmente desfeita e esofagite grau A. Foi encaminhada perguntando se pode 'refazer a cirurgia'.
Passo 1
Antes de qualquer indicação de reoperação, qual exame funcional o consenso internacional sobre fundoplicatura falha determina que seja repetido agora, mesmo já tendo sido feito antes da primeira operação, e qual é a justificativa?
Passo 2
A pirose que voltou tem pelo menos três explicações possíveis neste cenário. Cite-as e diga qual exame separa uma da outra.
Passo 3
Se a monitorização do refluxo for feita, ela deve ser realizada com ou sem o inibidor de bomba? Justifique usando a classificação de refluxo provado e não provado.
Passo 4
A endoscopia mostra esofagite grau A. Esse achado é suficiente para afirmar que há refluxo recidivado? Por quê?
Passo 5
Se a manometria atual mostrar 60% de deglutições com integral contrátil distal abaixo de 450, que rótulo isso recebe e o que muda na técnica proposta para a revisão?
Passo 6
Onde essa reoperação deve ser realizada, segundo o consenso, e o que na anatomia do reoperado justifica essa exigência?
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Onde a banca derruba

  1. 1Ler resposta parcial ao inibidor como indicação cirúrgica É a inversão mais cara do tema. Resposta parcial é o comportamento típico da hipersensibilidade ao refluxo e da pirose funcional, e a válvula não corrige percepção. O enunciado costuma oferecer 'refratariedade ao tratamento clínico' como se fosse indicação suficiente; só é quando existe refluxo documentado por trás. Sem prova objetiva, a conduta é investigar, não operar.
  2. 2Pedir a pHmetria sem dizer se é com ou sem o inibidor A mesma monitorização responde perguntas diferentes conforme o remédio. Candidato a cirurgia sem refluxo provado: exame fora do inibidor, com suspensão de pelo menos 7 dias. Doente já provado com sintoma persistente: exame em uso, com dose dobrada e impedância. Escrever apenas 'realizar pHmetria' deixa o pedido incompleto: qualifique a condição na requisição e diga por quanto tempo o inibidor deve ficar suspenso.
  3. 3Tratar exposição ácida entre 4% e 6% como doença leve A faixa intermediária significa ausência de resposta, não doença de pequena monta. Nela não se indica cirurgia sem evidência adicional. O erro simétrico também aparece: descartar refluxo por exposição ácida de 5%, quando o certo é ir buscar contagem de episódios, impedância basal noturna e associação sintoma-refluxo.
  4. 4Aceitar esofagite de Los Angeles grau A como prova de refluxo Grau A ocorre em 5% a 7,5% de indivíduos saudáveis e por isso não fecha diagnóstico. Grau B passou a ser reconhecido como evidência definitiva na atualização do consenso, por compartilhar exposição ácida e resposta ao inibidor com o grau C. E atenção ao momento: endoscopia após 8 semanas de inibidor pode ter cicatrizado a esofagite, com cicatrização próxima de 80%.
  5. 5Indicar dilatação endoscópica para a disfagia das primeiras semanas Disfagia precoce após fundoplicatura é edema, é esperada e se maneja com progressão graduada da dieta, mastigação lenta e reavaliação programada. Dilatar cedo expõe válvula recente a risco desnecessário. A dilatação entra na disfagia que persiste além do período de edema e que foi documentada, não apenas relatada.
  6. 6Reoperar apoiado na manometria feita antes da primeira operação O consenso internacional sobre fundoplicatura falha é explícito: ao considerar reoperação por pirose pós-fundoplicatura, a manometria precisa ser repetida agora, mesmo que tenha sido feita antes da operação original. O esôfago mudou. A revisão deve ocorrer em centro de alto volume, e a válvula da revisão se ajusta aos sintomas atuais.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A revisão encontrou controle de pirose consistentemente melhor no grupo operado, em todos os prazos avaliados, e qualidade de vida específica melhor no curto prazo — esse é o benefício. Do outro lado, encontrou disfagia bastante mais frequente entre os operados no curto e no médio prazo, com risco relativo de várias vezes, e maior proporção de eventos adversos graves. O detalhe que costuma ser cobrado é o longo prazo: naquele horizonte a diferença de disfagia deixa de ser estatisticamente distinguível, e uma proporção grande dos operados segue com pirose, de modo que operar não equivale a nunca mais usar inibidor. Os próprios autores concluem haver incerteza considerável no balanço entre benefícios e danos.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refluxo se opera quando está provado: esofagite de Los Angeles B, C ou D, Barrett confirmado por biópsia, estenose péptica ou monitorização anormal. Grau A não prova isoladamente. Faixas do tempo de exposição ácida: <4% normal, >6% anormal e 4%–6% inconclusivo; episódios de refluxo <40 são fisiológicos e >80, anormais. Candidato a cirurgia com refluxo não provado: monitorização fora do inibidor, suspenso por pelo menos 7 dias. Refluxo provado com sintoma refratário: pH-impedanciometria em uso de dose dobrada. Manometria em todos para excluir distúrbio motor maior e avaliar peristalse. Chicago v4.0: motilidade inefetiva conclusiva exige >70% de deglutições inefetivas ou ≥50% completamente falhas; 50%–70% inefetivas é inconclusivo e pede evidência de apoio.

em 30 dias

A diretriz europeia de 2022 sugere parcial posterior (270°) sobre total posterior (360°) — recomendação fraca, alcance restrito a hérnia < 2 cm e motilidade preservada. Nissen: disfagia em cerca de 13% além de 1 ano. Metanálise de 2016: disfagia favorece Toupet (RR 2,75; 1,69-4,50), mas a diferença some no seguimento ≥ 36 meses (RR 3,47; 0,58-20,60); esofagite pós-operatória igual (RR 0,98). Em ensaios individuais a recidiva foi maior com Toupet (69,7% x 37,9%). Cirurgia x tratamento clínico: menos pirose em todos os prazos, mas disfagia muito maior no curto e médio prazo, e no longo prazo a diferença de disfagia desaparece. Hiato: esôfago intra-abdominal sem tração, fechamento dos pilares, gastroplastia se esôfago curto. Falha: repetir manometria agora, centro de alto volume, válvula ajustada ao sintoma atual.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Este tema se fecha num atendimento em que o doente chega decidido a operar, traz uma endoscopia feita em uso de inibidor e nenhum exame funcional — e a consulta inteira consiste em descobrir o que ainda não foi medido antes de concordar com a mesa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença do refluxo gastroesofágico e fundoplicatura – Doença do refluxo gastroesofágico: o que se mede antes de escolher a válvula — Preparatório para provas | OsceLabs