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Hemorragia digestiva alta

Varicosa e não varicosa chegam iguais e divergem na primeira hora: uma pede vasoativo e antibiótico antes do endoscópio, a outra pede Forrest e inibidor de bomba em infusão. A prova cobra o limiar de transfusão, a janela da endoscopia e quem exige terapia endoscópica.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 58 anos, etilista, é levado ao pronto-socorro com hematêmese volumosa. Ao exame: PA 88x50 mmHg, FC 122 bpm, FR 24 ipm, SatO2 96%, palidez cutânea, ascite e circulação colateral abdominal. Após ressuscitação volêmica e estabilização hemodinâmica inicial, qual medicação deve ser iniciada de forma precoce, ANTES da endoscopia, na suspeita de hemorragia por varizes esofágicas?

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Como esse tema cai

Hematêmese, melena e instabilidade hemodinâmica não dizem de onde vem o sangue. Varicosa e não varicosa chegam com a mesma cara, e é por isso que a prova gosta tanto do tema: a decisão de maior impacto acontece antes de qualquer endoscópio entrar, e ela é diferente nas duas doenças. No cirrótico, droga vasoativa e antibiótico começam na suspeita, antes do diagnóstico. Na úlcera, o que muda desfecho é a hemostasia endoscópica guiada pelo estigma e o inibidor de bomba em infusão depois dela.

O eixo do capítulo é essa bifurcação, e ela tem quatro pontos concretos de separação: a droga (vasoconstritor esplâncnico na varicosa, nada de vasoativo na não varicosa), o antibiótico (obrigatório no cirrótico, ausente na úlcera), a janela da endoscopia (12 horas contra 24 horas) e o que se faz quando a hemostasia falha (TIPS contra embolização). O que é comum às duas — ressuscitação com alvo baixo, transfusão restritiva, eritromicina antes do exame e a lista do que não fazer — é onde a prova esconde os distratores.

A régua documental é assimétrica e vale saber disso. A hemorragia digestiva alta não tem protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde nem linha de cuidado nacional; o documento brasileiro de referência é o 1º Consenso da Sociedade Brasileira de Hepatologia sobre hemorragia digestiva alta varicosa, de 2009, publicado em 2011 na revista que é órgão oficial da SOBED, da FBG, da SBH, do CBCD e da SBMD. Do lado não varicoso, quem regula a conduta são as diretrizes do American College of Gastroenterology, de 2021, e da European Society of Gastrointestinal Endoscopy, de 2021 com atualização de 2026. Em hipertensão portal, o consenso vigente é o Baveno VII, de 2022 — o Baveno VIII teve simpósio online em março de 2025 e reunião em março de 2026, sem documento publicado.

Os números de gravidade justificam o rigor: a mortalidade do sangramento varicoso é de 20% a 40% nas primeiras semanas segundo o consenso brasileiro, embora a mortalidade do primeiro episódio tenha caído de 43% para 14% nas últimas décadas com o atendimento sistematizado. Na hemorragia digestiva alta em geral, a diretriz americana registra mortalidade em torno de 2% nos Estados Unidos. A diferença entre esses dois patamares é quase toda explicada pela doença de base, e não pelo sangramento em si.

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O que muda decisão

A bifurcação: quem está sangrando, e o que ela decide

Hemorragia digestiva alta é o sangramento com origem proximal ao ângulo de Treitz. Manifesta-se por hematêmese, vômito em borra de café, melena e, quando o volume é grande e o trânsito rápido, também por hematoquezia. As causas se dividem em dois blocos que exigem condutas diferentes desde a admissão: as não varicosas — úlcera péptica gastroduodenal em primeiro lugar, seguida de laceração de Mallory-Weiss, lesão de Dieulafoy, esofagite e lesões agudas de mucosa, neoplasia e angiectasias — e as varicosas, decorrentes de hipertensão portal, com as varizes esofágicas à frente e as gástricas atrás.

A pergunta prática não é qual é o diagnóstico, e sim qual é a probabilidade pré-endoscópica de doença hepática crônica. Estigmas periféricos (aranhas vasculares, eritema palmar, ginecomastia, circulação colateral abdominal, ascite, esplenomegalia), plaquetopenia, hipoalbuminemia, alargamento do INR, história de etilismo, de hepatite viral ou de esteato-hepatite empurram para o lado varicoso, e é isso que autoriza iniciar droga vasoativa e antibiótico antes de olhar. Não é diagnóstico: é aposta terapêutica de baixo custo e alto retorno, e a assimetria de danos justifica.

Há duas ressalvas que a prova cobra pela negativa. A primeira: o cirrótico também sangra por úlcera péptica, e a suspeita de varizes não dispensa a endoscopia nem autoriza pular a inspeção do estômago e do duodeno. A segunda vem do consenso brasileiro e vale decorar: apenas cerca de um terço dos pacientes com varizes apresenta sangramento ativo no momento da endoscopia. Isso significa que ausência de jato ou babação não afasta a origem varicosa, e o consenso recomenda tratar endoscopicamente as varizes esofágicas mesmo sem sangramento ativo, uma vez excluídos outros sítios.

A classificação final é endoscópica, e ela é a chave que abre as duas árvores de conduta. Na não varicosa, o que a endoscopia entrega é o estigma de Forrest, que define quem recebe hemostasia e quem pode ir para casa cedo. Na varicosa, o que ela entrega é a presença ou não de sangramento ativo apesar da droga vasoativa — informação que, somada ao Child-Pugh, decide se o paciente é candidato a TIPS precoce.

Dois cortes lado a lado: à esquerda, parede do esôfago distal com varizes submucosas dilatadas, uma delas rota e sangrando para a luz, alimentadas por colaterais que sobem da veia porta congesta; à direita, bulbo duodenal com cratera de úlcera profunda na parede posterior cujo fundo é cruzado por uma artéria erodida, com sangue jorrando para a luz.
A mesma apresentação clínica, dois mecanismos. À esquerda, a variz rompe porque a pressão dentro dela subiu — e o tratamento reduz pressão portal. À direita, a úlcera escava até a artéria — e o tratamento é hemostasia local somada à supressão ácida. Daí a droga, o antibiótico e a janela da endoscopia serem diferentes desde a primeira hora.

A primeira hora: ressuscitar com alvo baixo

A sequência inicial é a de sempre — via aérea, ventilação, circulação — com dois acessos venosos periféricos calibrosos. O consenso brasileiro é explícito em preferir o acesso periférico calibroso e reservar o acesso central para quem não responde à reposição inicial ou para quem se quer medir pressão venosa central. A coleta mínima inclui hemograma com plaquetas, tempo de protrombina, sódio, potássio, ureia e creatinina. A ureia elevada de forma desproporcional à creatinina é achado clássico de sangramento alto e entra no escore de Glasgow-Blatchford.

O expansor de escolha é cristaloide — soro fisiológico a 0,9% ou Ringer lactato. Não há evidência que justifique coloide ou albumina na ressuscitação inicial. E aqui vem o ponto contraintuitivo que a prova adora: o alvo é baixo de propósito. O consenso brasileiro recomenda ressuscitação criteriosa, mantendo hipovolemia relativa, com pressão arterial sistólica entre 90 e 100 mmHg e frequência cardíaca abaixo de 100 bpm. A razão é mecânica: reposição volêmica vigorosa aumenta a pressão portal por rebote e pode reativar ou agravar o sangramento varicoso.

Dois parâmetros de monitorização se comportam de modo peculiar no hepatopata e são armadilha de questão de terapia intensiva. O lactato pode estar alto sem hipoperfusão, porque a depuração hepática está reduzida — o que se valoriza é a queda durante a ressuscitação, não o valor absoluto. E a saturação venosa central de oxigênio acima de 70%, que em outros contextos indica ressuscitação adequada, pode ser falsamente tranquilizadora no cirrótico por causa da circulação hiperdinâmica. Pelo mesmo motivo, o cirrótico basal pode ter pressão sistólica abaixo de 90 mmHg e taquicardia sem estar sangrando: os parâmetros clássicos de estimativa de perda volêmica foram construídos em pacientes sem doença hepática avançada. As classes de choque hemorrágico e a transfusão maciça propriamente dita estão no capítulo de choque hemorrágico no trauma e valem aqui sem modificação.

A intubação orotraqueal não é profilática de rotina — a ESGE recomenda contra, com evidência de alta qualidade — mas é mandatória em situações nomeadas: rebaixamento do nível de consciência, hematêmese maciça em curso, agitação, encefalopatia graus III e IV e impossibilidade de manter saturação adequada. O consenso brasileiro acrescenta uma indicação específica: proteção de via aérea é fortemente recomendada em todo paciente que vai receber balão de tamponamento.

Transfusão restritiva: o número mais cobrado do tema

O limiar é 7 g/dL de hemoglobina, e é restritivo por benefício demonstrado, não por economia. O ensaio que sustenta o número randomizou 899 pacientes com hemorragia digestiva alta para limiar de 7 g/dL contra 9 g/dL: no braço restritivo, transfundiram-se 49% contra 86% dos pacientes, a mortalidade em 45 dias caiu de 9% para 5% (p = 0,02; razão de risco ajustada 0,55, IC 95% 0,33-0,92), o ressangramento caiu de 16% para 10% (razão de risco ajustada 0,68, 0,47-0,98), as reações transfusionais caíram de 9% para 3% e as complicações cardíacas de 16% para 11%. Transfundir menos reduziu morte e ressangramento ao mesmo tempo.

O alvo pós-transfusional é 7 a 9 g/dL, e não a normalização. O consenso brasileiro escreve a mesma faixa em hemoglobina e acrescenta a correspondência em hematócrito, entre 21% e 27%. O mecanismo pelo qual transfundir demais piora o desfecho é o mesmo da reposição volêmica excessiva: aumento rebote da pressão venosa portal, com maior risco de ressangramento.

As exceções são três, e cada uma tem um documento por trás. Primeira: o paciente hipotenso pode e deve ser transfundido antes que a hemoglobina chegue a 7 g/dL, porque o valor medido cai depois da reposição volêmica mesmo sem sangramento adicional, e porque sangramento exsanguinante foi critério de exclusão do ensaio. Segunda: na doença cardiovascular preexistente, aguda ou crônica, o limiar sobe — 8 g/dL na diretriz americana; na europeia, limiar igual ou menor que 8 g/dL com alvo pós-transfusional igual ou maior que 10 g/dL; e o consenso brasileiro, para comorbidade significativa e insuficiência coronariana, escreve hematócrito acima de 30%. Terceira: na síndrome coronariana aguda em curso a evidência é muito limitada, e a diretriz americana admite considerar um limiar acima de 8 g/dL.

A coagulopatia do cirrótico é o segundo lugar onde se erra por excesso de zelo. O consenso brasileiro registra que tempo de protrombina, INR e tempo de tromboplastina parcial ativada não se correlacionam com maior risco de sangramento no cirrótico, porque o INR mede a queda dos fatores pró-coagulantes sem enxergar a queda paralela dos anticoagulantes de síntese hepática (proteínas C e S, antitrombina III). Plasma e crioprecipitado raramente corrigem o distúrbio mesmo em doses altas; complexo protrombínico e fator VIIa recombinante corrigem o exame sem melhorar o controle do sangramento e podem causar trombose, ficando restritos a resgate em casos muito selecionados. Não há evidência para reposição profilática de plasma ou plaquetas, que deve ser individualizada pela gravidade.

E há uma droga que a intuição pede e a evidência veta: o ácido tranexâmico não é recomendado na hemorragia digestiva alta não varicosa, com recomendação forte e evidência de alta qualidade da ESGE. Transfusão profilática de plaquetas em quem usa antiagregante também não é recomendada.

Escores: qual pergunta cada um responde

São três decisões diferentes e três instrumentos diferentes, e confundi-los é a forma mais comum de errar questão de estratificação. O escore de Glasgow-Blatchford é pré-endoscópico e responde a uma pergunta só: este paciente pode ir para casa? Ele soma ureia, hemoglobina, pressão arterial sistólica, frequência cardíaca igual ou maior que 100 bpm, melena, síncope, doença hepática e insuficiência cardíaca — nenhum item exige endoscopia. Pontuação de 0 ou 1 identifica risco muito baixo e autoriza alta do pronto-socorro com endoscopia ambulatorial.

Os números por trás desse corte merecem atenção porque explicam a escolha. Com Glasgow-Blatchford igual a 0, a sensibilidade é de 99% a 100%, mas a especificidade fica entre 8% e 22%. Com o corte em 0-1, a sensibilidade é de cerca de 99% (98,6% num estudo prospectivo internacional com 3.012 pacientes) e a especificidade sobe para a faixa de 27% a 40%, o que permite mandar para casa muito mais gente: dois estudos multicêntricos grandes encontraram Glasgow-Blatchford de 0-1 em 19% a 24% dos pacientes com hemorragia digestiva alta. A área sob a curva do escore para prever necessidade de intervenção hospitalar ou morte é de 0,86, a melhor entre os escores testados. A força da recomendação diverge: a ESGE de 2026 a classifica como forte com evidência moderada; a diretriz americana, como condicional com evidência de qualidade muito baixa, e insiste que a decisão seja individualizada por idade, comorbidade, confiabilidade e acesso a cuidado após a alta.

O escore de Rockall responde a outra pergunta — qual o risco de ressangramento e de morte — e para respondê-la por inteiro precisa do resultado da endoscopia. Ele combina idade, presença de choque e comorbidades (a parte clínica, disponível antes do exame) com o diagnóstico endoscópico e os estigmas de hemorragia recente. Justamente por depender do exame, não serve para a triagem inicial: na comparação direta feita pela ESGE, o Rockall pré-endoscópico teve sensibilidade de 0,93 e especificidade de 0,24 para eventos adversos graves em 30 dias, contra 0,98 e 0,16 do Glasgow-Blatchford e 0,79 e 0,61 do AIMS65. A mesma revisão registra o limite honesto de todos eles: nenhum escore previu os demais desfechos com área sob a curva aceitável.

Na hemorragia varicosa, a estratificação é outra e usa a doença de base. A ESGE recomenda estratificar por Child-Pugh, por MELD e pela documentação de sangramento ativo ou inativo no momento da endoscopia, com três faixas explícitas: Child-Pugh A, ou Child-Pugh B sem sangramento ativo à endoscopia, ou MELD abaixo de 11 pontos indicam baixo risco de desfecho ruim; Child-Pugh B com sangramento ativo apesar da droga vasoativa, ou Child-Pugh C, indicam alto risco; MELD igual ou maior que 19 pontos também indica alto risco. Essas mesmas faixas reaparecem, quase sem tradução, nos critérios do TIPS precoce.

Vale fixar o que cada escala de hepatopatia prediz aqui. O Child-Pugh (bilirrubina, albumina, INR, ascite e encefalopatia) é o que entra nos critérios de indicação — profilaxia, risco de ressangramento, elegibilidade a TIPS precoce. O MELD (bilirrubina, creatinina e INR) prediz mortalidade e é o que aparece nos limites de segurança do procedimento: o consenso brasileiro registra piores resultados do TIPS com MELD acima de 18 ou bilirrubina acima de 3 mg/dL, e uma série de 144 pacientes submetidos a TIPS de resgate mostrou que todos os pacientes com Child-Pugh acima de 13 pontos morreram.

Antes do endoscópio: o que ajuda, o que não muda nada e o que atrapalha

A eritromicina é procinético, não antibiótico nesse contexto: ela esvazia sangue e coágulo do estômago e melhora a visualização. A dose é 250 mg por via intravenosa. A diretriz de varizes da ESGE escreve a janela como 30 a 120 minutos antes da endoscopia; a diretriz americana descreve a infusão em 5 a 30 minutos (mais comumente 20 a 30) com endoscopia 20 a 90 minutos depois. O ganho documentado é diagnóstico — mais achados na primeira endoscopia, menos exames repetidos, menor tempo de internação — e o efeito adverso a vigiar é prolongamento do intervalo QT. Quando não houver eritromicina disponível, a atualização de 2026 sugere metoclopramida intravenosa em pacientes selecionados com sangramento grave ou ativo.

O inibidor de bomba antes da endoscopia é um caso instrutivo de intervenção que muda o exame sem mudar o paciente. O ensaio de referência, com 631 pacientes, comparou omeprazol em bolus de 80 mg seguido de 8 mg/h contra placebo antes do exame: não houve diferença em ressangramento (3,5% contra 2,5%) nem em mortalidade (2,5% contra 2,2%), mas houve menos necessidade de terapia endoscópica (19,1% contra 28,4%, p = 0,007), porque o ácido suprimido rebaixa o estigma encontrado. A diretriz americana não conseguiu recomendação a favor nem contra; a europeia sugere considerar a alta dose intravenosa, com a condição expressa de não atrasar a endoscopia precoce.

A lista do que não fazer é curta e cai muito. Sonda nasogástrica de rotina para aspiração ou lavagem não é recomendada — recomendação forte, evidência moderada. Ela não decide origem, não substitui a endoscopia, causa desconforto e atrasa o exame. Intubação profilática de rotina também não. Somatostatina e octreotide não têm lugar na hemorragia não varicosa — recomendação forte. E cápsula endoscópica ou cápsulas telemétricas detectoras de sangue não entram no manejo da hemorragia digestiva alta suspeita, conforme a atualização de 2026.

Sobre antitrombóticos, a régua é a indicação. Ácido acetilsalicílico em monoterapia para prevenção primária deve ser temporariamente interrompido e reavaliado. Em prevenção secundária, o ácido acetilsalicílico não deve ser interrompido; se o foi por algum motivo, reinicia-se o quanto antes, preferencialmente em 3 a 5 dias. Em dupla antiagregação para prevenção secundária, mantém-se o ácido acetilsalicílico e interrompe-se o segundo antiagregante, que deve voltar em até 5 dias, com avaliação cardiológica. Antagonistas da vitamina K são suspensos, e na instabilidade hemodinâmica associa-se vitamina K em dose baixa com complexo protrombínico (ou plasma fresco congelado, se não houver complexo) — sem atrasar a endoscopia. Anticoagulantes orais diretos são suspensos sem atrasar o exame, com agente de reversão ou complexo protrombínico se o sangramento for grave. Nenhum valor de INR pré-definido deve ser usado para decidir a hora da endoscopia.

A hora da endoscopia: 12 horas, 24 horas, e por que correr mais não ajuda

O vocabulário europeu é o que a prova usa: endoscopia urgente é a realizada em até 12 horas da apresentação, precoce em até 24 horas e tardia após 24 horas. Na hemorragia não varicosa, a recomendação é a precoce, em até 24 horas, depois da ressuscitação hemodinâmica. A diretriz americana chega ao mesmo número e faz questão de contar o tempo a partir da apresentação, não da internação, para que hospitais com fila entre pronto-socorro e leito não estiquem o prazo.

A parte que mais surpreende é o veto explícito ao mais rápido. A atualização europeia de 2026 recomenda contra endoscopia emergente (6 horas ou menos) ou urgente (12 horas ou menos) na hemorragia não varicosa, a não ser que o paciente permaneça hemodinamicamente instável apesar de ressuscitação adequada. A diretriz americana de 2021 retirou a sugestão, que existia na versão de 2012, de que endoscopia em 12 horas poderia ser considerada em pacientes de alto risco clínico.

O que sustenta a mudança é um ensaio randomizado de 516 pacientes com hematêmese ou melena e Glasgow-Blatchford igual ou maior que 12 — ou seja, os de maior risco — alocados para endoscopia em menos de 6 horas ou entre 6 e 24 horas. Na prática, os grupos foram examinados em média com 9,9 e 24,7 horas de apresentação. Não houve ganho com a pressa: ressangramento em 30 dias de 10,9% contra 7,8%, morte em 30 dias de 8,9% contra 6,6%, mesma mediana de dias de internação e mesmo volume de sangue transfundido. O grupo urgente recebeu mais terapia endoscópica (60,1% contra 48,4%, p = 0,01), o que sugere estigmas de maior risco encontrados por examinar antes de a supressão ácida agir — sem que isso se traduzisse em benefício.

A explicação clínica é simples e vale como princípio: o tempo entre a chegada e a endoscopia não é tempo perdido, é tempo de ressuscitar, corrigir o que dá para corrigir e tratar comorbidade descompensada. Endoscopia em paciente não ressuscitado adiciona risco (aspiração, hipotensão, arritmia) sem adicionar benefício. A exceção é justamente o paciente que não estabiliza — nele, a intervenção urgente, endoscópica ou radiológica, é a própria ressuscitação. O ensaio citado, aliás, excluiu os pacientes em choque que não estabilizaram, que eram 5% dos de alto risco.

Na hemorragia varicosa, a janela é mais curta: endoscopia em até 12 horas da apresentação, desde que o paciente tenha sido hemodinamicamente ressuscitado, com recomendação forte de evidência moderada da ESGE. O consenso brasileiro escreve o mesmo prazo. A diferença não é capricho: na varicosa, o procedimento endoscópico é o tratamento definitivo do sítio de sangramento e não existe equivalente farmacológico à ligadura, ao passo que na úlcera a supressão ácida potente já está trabalhando enquanto se espera.

Uma exigência estrutural fecha o assunto e cai como questão de gestão: a ESGE recomenda disponibilidade de endoscopista proficiente em hemostasia e de equipe de enfermagem treinada nos dispositivos, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Não varicosa: Forrest governa a conduta

A classificação de Forrest descreve o que se vê no fundo da úlcera e é a única informação que separa quem precisa de hemostasia de quem pode receber alta cedo. São seis categorias: Ia, sangramento ativo em jato; Ib, sangramento ativo em babação; IIa, vaso visível não sangrante; IIb, coágulo aderente; IIc, mancha plana pigmentada; III, base limpa. A ESGE recomenda seu uso em todos os pacientes com hemorragia por úlcera péptica, com recomendação forte e evidência de alta qualidade.

A regra de conduta tem três degraus. Úlceras Ia, Ib e IIa recebem hemostasia endoscópica — recomendação forte, evidência de alta qualidade, porque são as lesões de alto risco de sangramento persistente ou recorrente. Úlceras IIc e III não recebem hemostasia endoscópica, também com recomendação forte, e em cenários selecionados esses pacientes podem ter alta hospitalar acelerada. O coágulo aderente (IIb) é o degrau intermediário e o único genuinamente controverso — assunto do bloco de divergências.

O tamanho do benefício está em metanálise de 19 ensaios randomizados citada pela diretriz americana: no sangramento ativo, a terapia endoscópica reduziu o ressangramento com risco relativo de 0,29 (IC 95% 0,20-0,43), com número necessário para tratar de 2; no vaso visível não sangrante, risco relativo de 0,49 (0,40-0,59), número necessário para tratar de 5. No coágulo aderente, o risco relativo foi de 0,31 com intervalo que atravessa o 1 (0,06-1,77), ou seja, sem demonstração de benefício. Para dimensionar o que se deixa de tratar: entre 8 ensaios prospectivos em que a babação foi manejada sem terapia endoscópica, o ressangramento agrupado foi de 39%.

Sobre as modalidades, a regra que a prova mais cobra é negativa: adrenalina injetada isoladamente não deve ser usada — recomendação forte nas duas diretrizes. A adrenalina promove vasoconstrição e tamponamento transitórios, e o efeito passa. Ela entra combinada a uma segunda modalidade, térmica de contato ou mecânica. Nas úlceras com sangramento ativo (Ia e Ib), a ESGE recomenda exatamente essa combinação, com evidência de alta qualidade. No vaso visível não sangrante (IIa), térmico de contato ou sem contato, terapia mecânica (clipes através do endoscópio ou over-the-scope) ou injeção de esclerosante podem ser usados isoladamente ou combinados à adrenalina.

A diretriz americana recomenda com força as modalidades de eficácia melhor documentada — eletrocoagulação bipolar, heater probe e injeção de etanol absoluto — e sugere, com evidência mais fraca, clipes, plasma de argônio e eletrocoagulação monopolar suave. Os parâmetros técnicos que costumam aparecer em prova de endoscopia: sonda de 3,2 mm com pressão firme por 8 a 10 segundos, 15 W na bipolar, 30 J no heater probe, e 50 a 80 W por 1 a 2 segundos na monopolar suave. Pó hemostático TC-325 é sugerido em úlcera com sangramento ativo, mas a atualização de 2026 é explícita: agentes hemostáticos tópicos não devem ser usados como monoterapia no tratamento de primeira linha das lesões de alto risco, porque o efeito é de duração limitada. A mesma atualização abre espaço para os clipes over-the-scope como monoterapia alternativa à terapia combinada nas lesões Ia e Ib, e para a pinça hemostática com coagulação suave como monoterapia nas Ia, Ib e IIa.

Duas notas sobre a leitura do estigma. Primeira: a concordância entre endoscopistas na identificação dos estigmas não é perfeita, e a definição de babação varia — alguns ensaios exigem sangramento contínuo por 5 minutos de observação para rotular como Ib, o que evita chamar de sangramento ativo o trauma provocado pelo próprio aparelho. Segunda: o risco do Forrest Ib na era atual é menor do que a posição da sigla sugere. Num ensaio internacional com 388 pacientes, o ressangramento no braço placebo, após hemostasia bem-sucedida, foi de 4,9% nas úlceras Ib, contra 22,5% nas Ia, 17,6% nas IIb e 11,3% nas IIa — dados que sustentam a proposta de reagrupar os estigmas em alto risco (Ia, IIa, IIb), risco intermediário (Ib, IIc) e baixo risco (III).

Não varicosa: o inibidor de bomba em infusão e o que fazer no ressangramento

Depois da hemostasia endoscópica bem-sucedida, o inibidor de bomba em alta dose é o que impede o coágulo de se desfazer. A racionalidade é bioquímica: em pH baixo, a agregação plaquetária é prejudicada e a pepsina lisa o coágulo formado; elevar e manter o pH intragástrico estabiliza o trombo sobre o vaso. O esquema clássico é bolus intravenoso de 80 mg seguido de infusão contínua de 8 mg/h por 72 horas.

As duas diretrizes concordam no essencial e dão liberdade na forma. A ESGE recomenda alta dose para quem recebeu hemostasia endoscópica e também para as úlceras IIb não tratadas endoscopicamente, aceitando como alternativas ao bolus com infusão contínua a dose alta intermitente intravenosa duas vezes ao dia ou oral duas vezes ao dia. A diretriz americana recomenda alta dose (definida como pelo menos 80 mg por dia) contínua ou intermitente por 3 dias, com recomendação forte e evidência de qualidade moderada a alta, e detalha o esquema intermitente como 40 mg de 2 a 4 vezes ao dia por 72 horas, por via oral quando viável. Depois desses 3 dias, os pacientes de alto risco seguem com inibidor de bomba duas vezes ao dia até completar 2 semanas da endoscopia índice. Sobre os bloqueadores ácidos competitivos de potássio, a atualização de 2026 não chegou a consenso a favor nem contra.

Endoscopia de segunda revisão de rotina — repetir o exame em todo mundo 24 horas depois para reavaliar o estigma — não é recomendada, com evidência de alta qualidade. O que se faz é vigiar clinicamente e reendoscopar quem sangra de novo.

É preciso separar dois conceitos que a prova mistura. Sangramento persistente é o que continua ativo, refratário às modalidades padrão de hemostasia, durante o próprio procedimento. Sangramento recorrente é o que volta depois de hemostasia inicial bem-sucedida. As condutas divergem no primeiro passo e convergem no final. No persistente, a saída é escalar dentro da endoscopia — agente hemostático tópico ou clipe over-the-scope — e, se ainda assim não parar, embolização angiográfica transcateter. No recorrente, o primeiro passo é repetir a endoscopia com nova hemostasia, e a atualização de 2026 sugere considerar o clipe over-the-scope nessa segunda tentativa.

Falhando a segunda tentativa endoscópica, a ordem é embolização e depois cirurgia. A diretriz americana sugere repetir a endoscopia em vez de partir direto para cirurgia ou embolização (a reendoscopia tem menos complicações que a cirurgia) e, quando a terapia endoscópica falha, indica a embolização transcateter como próximo passo. A ESGE escreve a mesma sequência com uma condição clara: cirurgia quando a embolização não estiver disponível localmente ou depois de embolização malsucedida. A anatomia explica por que embolizar funciona: úlcera de parede posterior do bulbo duodenal erode a artéria gastroduodenal, e úlcera alta na pequena curvatura erode ramos da artéria gástrica esquerda — ambas alcançáveis por cateter.

Duas novidades da atualização de 2026 fecham o pós-procedimento. A primeira é a embolização profilática, sugerida em casos selecionados de alto risco mesmo com hemostasia endoscópica aparentemente bem-sucedida: instabilidade hemodinâmica à apresentação, úlcera de parede posterior do duodeno, úlcera grande (acima de 2 cm) ou hemostasia considerada duvidosa. A segunda é o cuidado que sobra depois que o sangue para: reposição de ferro iniciada antes da alta em quem ficou com deficiência de ferro ou anemia, e nutrição oral precoce, dentro de 24 horas da hemostasia, em quem obteve hemostasia durável. Anticoagulação, quando indicada de forma contínua, deve ser retomada tão logo esteja clinicamente indicado, guiada pelo risco tromboembólico, com inibidor de bomba como coterapia.

Não varicosa: Helicobacter pylori e a armadilha do falso-negativo

A úlcera que sangrou tem uma causa, e ela precisa ser tratada, sob pena de o paciente voltar. As duas grandes são infecção por Helicobacter pylori e uso de anti-inflamatórios não esteroidais ou antiagregantes. A ESGE recomenda, com evidência de alta qualidade, investigar a presença de H. pylori na fase aguda — ou seja, já na primeira endoscopia — e iniciar antibioticoterapia apropriada se a bactéria for detectada. A atualização de 2026 manteve essa recomendação sem mudanças.

A armadilha vem em seguida, e é a segunda recomendação, também forte e de alta qualidade: retestar os pacientes que tiveram teste negativo na primeira endoscopia. A fase aguda da hemorragia derruba a sensibilidade dos testes — sangue no estômago, uso de inibidor de bomba em dose alta e alterações locais reduzem o rendimento do teste da urease, da histologia e do teste respiratório. Um negativo colhido durante o sangramento não afasta a infecção; ele apenas não a encontrou naquele momento. A terceira recomendação da tríade é documentar a erradicação bem-sucedida, e não presumi-la a partir da prescrição.

A consequência prática é que a alta hospitalar do paciente que sangrou por úlcera com pesquisa negativa não encerra o assunto: fica programado o reteste. E o paciente que testou positivo precisa de confirmação de cura depois do tratamento, porque a persistência da infecção mantém o risco de nova úlcera e de novo sangramento.

O outro eixo etiológico é farmacológico e exige decisão explícita, não silêncio. Anti-inflamatórios não esteroidais devem ser suspensos ou substituídos. Quem precisa manter dupla antiagregação recebe inibidor de bomba como coterapia, com recomendação forte da ESGE; quem precisa manter anticoagulação com história de hemorragia digestiva alta não varicosa também recebe inibidor de bomba como profilaxia gastroduodenal.

Varicosa: droga vasoativa e antibiótico antes do endoscópio

Diante de suspeita de hemorragia varicosa, duas prescrições saem antes da endoscopia e são as que mais mudam desfecho. A primeira é o vasoconstritor esplâncnico. O consenso brasileiro é literal: iniciar o mais precocemente possível, antes mesmo do exame endoscópico. A ESGE recomenda iniciar terlipressina, octreotide ou somatostatina no momento da apresentação e manter por até 5 dias, com recomendação forte e evidência de alta qualidade.

As doses, na redação do consenso brasileiro, são as seguintes. Terlipressina: 2 mg em bolus, seguidos de 1 a 2 mg de 4 em 4 horas conforme o peso, por 2 a 5 dias. Somatostatina: 250 mcg em bolus, seguidos de infusão contínua de 250 mcg/h, por 2 a 5 dias. Octreotide: 50 a 100 mcg em bolus, seguidos de infusão contínua de 25 a 50 mcg/h, por 2 a 5 dias. Manter por 5 dias reduz a frequência de recidiva hemorrágica; a ESGE admite, com recomendação fraca, suspender 24 a 48 horas depois de hemostasia endoscópica bem-sucedida em pacientes selecionados. Na falha, a escalada documentada é terlipressina 2 mg de 4 em 4 horas ou somatostatina 500 mcg/h.

A terlipressina é considerada agente de escolha pelo consenso brasileiro por um motivo específico: é o único vasoconstritor cuja metanálise mostrou redução significante de mortalidade contra placebo. Ela é análogo de ação prolongada da vasopressina, com atuação preferencial em receptores V1 e efeito de cerca de quatro horas. Seus efeitos adversos definem as contraindicações que a prova cobra: angina, infarto, bradiarritmias, isquemia de membros e isquemia mesentérica — de modo que a droga deve ser evitada em insuficiência coronariana, insuficiência vascular periférica e hipertensão arterial não controlada, e é contraindicada na gestação pelo risco de abortamento. Vasopressina associada a nitrato foi abandonada pelo risco isquêmico.

A segunda prescrição é o antibiótico, e ela é a que mais surpreende quem pensa nela como profilaxia de procedimento. A antibioticoprofilaxia no cirrótico com hemorragia digestiva alta reduz mortalidade, e não apenas infecção. Os números explicam: cerca de 20% dos cirróticos já chegam infectados e cerca de 50% desenvolvem infecção durante a internação; a ocorrência de infecção se associa a risco cinco vezes maior de recidiva hemorrágica, porque a endotoxemia agrava a hipertensão portal e piora a hemostasia. O consenso brasileiro registra redução de risco relativo de 58% para infecções e de 29% para mortalidade.

O esquema é ceftriaxona 1 g por via intravenosa ao dia, por até 7 dias, para todos os pacientes com doença hepática crônica avançada e hemorragia varicosa — recomendação forte, evidência de alta qualidade da ESGE, ajustável conforme o perfil local de resistência e alergias. A alternativa clássica é norfloxacino 400 mg de 12 em 12 horas por via oral por 7 dias, mas o ensaio que comparou os dois em cirróticos com doença avançada mostrou superioridade da ceftriaxona: infecção em 11% contra 26% a 33%, bacteremia em 11% contra 26% e peritonite bacteriana espontânea em 2% contra 12%. O consenso brasileiro traduz isso em regra prática: cirrose avançada ou instabilidade hemodinâmica devem ser tratadas preferencialmente com ceftriaxona intravenosa. A duração máxima é de 7 dias.

Como antibiótico não substitui diagnóstico, o consenso brasileiro exige rastreamento sistemático de infecção em todo cirrótico internado por hemorragia digestiva alta, com hemoculturas, punção do líquido ascítico com citologia global e diferencial e cultura semeada em frasco de hemocultura, sumário de urina e radiografia de tórax. As infecções que se procuram são infecção urinária, peritonite bacteriana espontânea, infecção respiratória e bacteremia espontânea.

Duas ausências fecham a seção porque também caem. Não há medida profilática recomendada para prevenir encefalopatia hepática no paciente com hemorragia varicosa — nem dissacarídeo não absorvível, nem antibiótico, nem L-ornitina L-aspartato têm eficácia demonstrada nesse cenário específico. E o inibidor de bomba não tem benefício demonstrado na prevenção de sangramento por úlcera de escleroterapia ou por escara de ligadura; o tratamento desse sangramento, quando ocorre, é individualizado.

Varicosa: ligadura, balão, stent e TIPS

O tratamento endoscópico de escolha do sangramento por varizes de esôfago é a ligadura elástica, com recomendação forte e evidência de alta qualidade. Comparada à escleroterapia, associa-se a menos ressangramento, menor mortalidade, menos sessões até a obliteração e menos efeitos adversos. A escleroterapia fica reservada aos casos em que a ligadura é indisponível ou tecnicamente impossível. O tratamento combinado — farmacológico mais endoscópico — é superior a qualquer uma das modalidades isoladas, e o farmacológico deve preceder o endoscópico.

As varizes gástricas seguem regra própria, classificadas pelo sistema de Sarin. Para as cardiofúndicas (GOV2 e IGV1), a ESGE recomenda injeção endoscópica de cianoacrilato, com evidência de alta qualidade. Para as GOV1, que são extensões da variz esofágica pela pequena curvatura, cianoacrilato ou ligadura elástica. Na falha da hemostasia endoscópica ou no ressangramento precoce de variz gástrica, as opções de resgate são TIPS urgente ou obliteração retrógrada transvenosa com balão oclusivo.

O balão de tamponamento é ponte, não tratamento. Ele controla o sangramento em até 90% dos casos, mas produz efeitos adversos em até 20% — ulceração e perfuração esofágica, migração, pneumonia aspirativa, necrose de asa de nariz. Duas regras são não negociáveis: proteção de via aérea antes de insuflar e permanência de no máximo 24 horas, dentro das quais o tratamento definitivo precisa acontecer, porque o ressangramento após a retirada é de cerca de 50%. A indicação é restrita: hemorragia maciça com instabilidade que não responde à reposição volêmica. A alternativa moderna é o stent metálico autoexpansível totalmente recoberto, que a ESGE sugere preferir ao balão para fazer a ponte até a terapia definitiva; ele pode permanecer até 14 dias, com sucesso clínico agrupado de 96% e eventos adversos em 36%.

O TIPS é uma prótese colocada por via transjugular entre um ramo da veia porta e uma veia hepática, criando uma anastomose portossistêmica intra-hepática que derruba a pressão portal. Ele aparece em dois papéis distintos, e confundi-los é erro clássico. O TIPS de resgate é indicado no sangramento persistente apesar de droga vasoativa e hemostasia endoscópica; nesse papel, controla o sangramento com sucesso alto, mas o consenso brasileiro registra que não aumenta sobrevida — numa revisão de 15 estudos, o sucesso terapêutico chegou a 100%, o ressangramento a 16% e a mortalidade a 75%, e numa série de 144 pacientes com sangramento refratário todos os pacientes com Child-Pugh acima de 13 pontos morreram.

O TIPS precoce, também chamado preemptivo, é outra coisa: não é resgate, é antecipação em quem tem alto risco de falhar. Os critérios de Baveno VII, transcritos na diretriz da ESGE, são objetivos — Child-Pugh C com até 13 pontos, ou Child-Pugh B acima de 7 pontos com sangramento ativo à endoscopia apesar de droga vasoativa, ou gradiente de pressão venosa hepática acima de 20 mmHg. A janela é de até 72 horas, preferencialmente dentro de 24 horas, com prótese revestida de politetrafluoretileno, e a recomendação é forte com evidência de alta qualidade. Note a lógica: o Child-Pugh C entra pela gravidade da hepatopatia, independentemente de sangramento ativo; o Child-Pugh B só entra se ainda estiver sangrando na endoscopia apesar da droga.

As contraindicações absolutas do TIPS, na redação do consenso brasileiro, são encefalopatia prévia ou atual, insuficiência cardíaca congestiva, hipertensão pulmonar grave, insuficiência hepática grave, doença policística do fígado, abscesso hepático e sepse; as relativas são tumores hepáticos, trombose de veia porta ou hepática e dilatação biliar acentuada. Os piores resultados aparecem com MELD acima de 18, bilirrubina acima de 3 mg/dL ou disfunção orgânica grave. As duas complicações mais temidas são encefalopatia hepática e obstrução da prótese: próteses revestidas reduzem obstrução, e o calibre em torno de 8 mm reduz encefalopatia.

A cirurgia entrou em segundo plano, mas continua indicada quando não há radiologista intervencionista disponível. No cirrótico, a operação de urgência descrita é a anastomose portocava calibrada com 8 mm de diâmetro ou a descompressão portal seletiva. Em cirurgia eletiva, o consenso brasileiro é enfático em separar o cirrótico do esquistossomótico, e lembra que as derivações não devem ser feitas em quem tem hipertensão pulmonar, complicação possível e frequentemente oligossintomática da hipertensão portal.

Corte coronal de fígado cirrótico nodular com uma prótese tubular atravessando o parênquima entre um ramo da veia porta e uma veia hepática, formando um desvio portossistêmico; o cateter chega pela veia jugular interna e veia cava superior, e as colaterais do esôfago aparecem descomprimidas.
O TIPS cria uma anastomose portossistêmica dentro do fígado e derruba a pressão portal — é isso que faz a variz parar de sangrar. As duas complicações que definem seus limites decorrem do próprio mecanismo: o sangue que deixa de passar pelo parênquima gera encefalopatia, e a prótese pode ocluir. Daí o calibre em torno de 8 mm e as próteses revestidas.

Depois que o sangue para: profilaxia secundária e primária

Quem sangrou por variz e não recebe profilaxia secundária volta a sangrar: o consenso brasileiro registra ressangramento em 63% dos casos, com mortalidade de 33%. A estratégia de primeira linha é combinada — betabloqueador não seletivo somado à ligadura elástica — e essa combinação se mostrou superior a qualquer uma das duas isoladamente. A ESGE recomenda a associação com evidência de alta qualidade, admitindo propranolol ou carvedilol.

Os detalhes de execução são cobrados. O betabloqueador é iniciado precocemente, a partir do 6º dia após o episódio, quando as condições hemodinâmicas já estão restabelecidas. O propranolol começa com 40 mg/dia divididos em duas tomadas e é titulado até a dose máxima tolerada, definida como aquela imediatamente abaixo da que provoca efeitos colaterais; o nadolol, mais caro, começa com 40 a 80 mg em tomada única diária. O uso precisa ser contínuo e ininterrupto — suspender a droga provoca aumento rebote da pressão portal e pode desencadear hemorragia. As contraindicações a checar são doença pulmonar obstrutiva crônica, distúrbios de condução, bradicardia acentuada e hipotensão. A ligadura é repetida em sessões a cada 1 a 4 semanas até a erradicação das varizes; o consenso brasileiro usa intervalo de 2 semanas e programa o primeiro controle endoscópico em até 3 meses após a obliteração, depois a cada 6 a 12 meses.

Duas informações dimensionam o benefício e o teto do betabloqueador. Ele reduz o ressangramento de 68% para 48% em 2 anos, com ganho de sobrevida em torno de 5%. Mas apenas cerca de 40% dos pacientes tratados conseguem baixar o gradiente de pressão venosa hepática ao nível seguro — abaixo de 12 mmHg, ou 20% abaixo do basal. Nos não respondedores, acrescentar mononitrato de isossorbida aumenta a boa resposta em 10% a 20%, porém a medida hemodinâmica que identificaria esses pacientes só existe em centros de referência, e não há consenso para associar nitrato sem essa avaliação.

A profilaxia primária previne o primeiro sangramento e depende do calibre da variz e do risco. Segundo o consenso brasileiro, varizes de médio e grosso calibre devem receber profilaxia primária independentemente de Child-Pugh ou de sinais vermelhos, com betabloqueador não seletivo ou ligadura elástica; naquelas com alto risco (Child-Pugh B ou C e sinais vermelhos), qualquer uma das duas estratégias; nas de médio e grosso calibre sem alto risco, preferencialmente betabloqueador, com a ligadura como primeira opção em quem é não aderente, intolerante ou tem contraindicação à droga. Varizes de fino calibre recebem betabloqueador quando há alto risco (Child-Pugh B ou C ou sinais vermelhos). Escleroterapia não é alternativa profilática: foi associada a aumento de mortalidade. E a chamada profilaxia pré-primária, para evitar o surgimento de varizes, não tem benefício demonstrado.

A leitura contemporânea desloca o eixo do calibre para a pressão. A ESGE recomenda betabloqueador não seletivo, preferencialmente carvedilol, para todo paciente com doença hepática crônica avançada compensada e hipertensão portal clinicamente significativa — definida por gradiente de pressão venosa hepática acima de 10 mmHg e/ou elastografia hepática transitória acima de 25 kPa — com o objetivo de prevenir o desenvolvimento de sangramento varicoso. Quem não pode receber a droga e tem varizes de alto risco na endoscopia de rastreamento recebe ligadura elástica a cada 2 a 4 semanas até a erradicação, com endoscopia de vigilância a cada 3 a 6 meses no primeiro ano após a erradicação.

Por fim, o rastreamento em si pode ser dispensado numa parcela grande de pacientes. Pelos critérios de Baveno VI, o paciente com doença hepática crônica avançada compensada, elastografia abaixo de 20 kPa e plaquetas iguais ou acima de 150.000/mm³ tem baixa probabilidade de varizes de alto risco e pode evitar a endoscopia de rastreamento; uma revisão sistemática encontrou valor preditivo negativo agrupado de 99% para esses critérios, independentemente da causa da cirrose.

04

Da porta da emergência ao TIPS: a árvore da hemorragia digestiva alta

O fluxo abaixo percorre a decisão do primeiro atendimento até a terapia de resgate, mantendo o tronco comum às duas hemorragias e separando os ramos onde eles de fato divergem. Os cartões trazem a classificação de Forrest, que é a única escala ordinal verdadeira deste capítulo: cada degrau descreve um achado do fundo da úlcera com risco de ressangramento distinto. As quatro tabelas separam o que não deve ser misturado — o risco e a conduta por estigma de Forrest, o contraste varicosa contra não varicosa, as doses das drogas da urgência e o que cada escore responde.

  1. 11. Reconhecer e estabilizar. Dois acessos periféricos calibrosos, cristaloide, coleta de hemograma com plaquetas, coagulograma, ureia, creatinina e eletrólitos. Alvo deliberadamente baixo: pressão sistólica de 90 a 100 mmHg e frequência cardíaca abaixo de 100 bpm. Intubar apenas em rebaixamento de consciência, hematêmese maciça em curso, agitação, encefalopatia graus III-IV ou antes do balão de tamponamento — não de rotina.
  2. 22. Transfundir por limiar, não por reflexo. Concentrado de hemácias quando a hemoglobina cai abaixo de 7 g/dL, com alvo pós-transfusional de 7 a 9 g/dL. Antes disso, apenas no hipotenso ou no sangramento exsanguinante. Com doença cardiovascular prévia, o limiar sobe para 8 g/dL. Não corrigir coagulopatia do cirrótico por reflexo, não usar ácido tranexâmico, não transfundir plaquetas de rotina em usuário de antiagregante.
  3. 33. Estratificar antes de decidir o destino. Calcular o Glasgow-Blatchford: 0 ou 1 permite alta do pronto-socorro com endoscopia ambulatorial. Acima disso, internação. Não passar sonda nasogástrica para 'confirmar' a origem.
  4. 44. Perguntar se há doença hepática crônica. Estigmas periféricos, ascite, esplenomegalia, plaquetopenia, hipoalbuminemia, INR alargado, história de etilismo ou hepatite. Havendo suspeita, o ramo varicoso começa AGORA, antes da endoscopia.
  5. 55. Ramo varicoso, antes do exame: vasoconstritor esplâncnico (terlipressina, octreotide ou somatostatina) e ceftriaxona 1 g IV/dia. Rastrear infecção com hemoculturas, paracentese diagnóstica, sumário de urina e radiografia de tórax.
  6. 66. Eritromicina 250 mg IV, de 30 a 120 minutos antes da endoscopia, para esvaziar sangue e coágulo do estômago. Metoclopramida se não houver eritromicina. Inibidor de bomba intravenoso em alta dose pode ser considerado antes do exame, desde que não atrase a endoscopia.
  7. 77. Endoscopar na janela certa, depois de ressuscitar. Suspeita de hemorragia varicosa: até 12 horas da apresentação. Hemorragia não varicosa: até 24 horas. Não antecipar para 6 ou 12 horas na não varicosa, exceto se o paciente permanecer instável apesar de ressuscitação adequada.
  8. 88. Ramo não varicoso: classificar por Forrest e tratar pelo estigma. Ia, Ib e IIa recebem hemostasia endoscópica — adrenalina nunca sozinha, sempre com uma segunda modalidade térmica ou mecânica. IIb: remover o coágulo e tratar o que aparecer, se houver competência técnica. IIc e III não recebem hemostasia e podem ter alta acelerada. Em seguida, inibidor de bomba 80 mg em bolus e 8 mg/h por 72 horas (ou alta dose intermitente), depois 2x/dia até completar 2 semanas nos de alto risco.
  9. 99. Ramo varicoso: ligadura elástica das varizes esofágicas, mesmo sem sangramento ativo, uma vez excluídos outros sítios; cianoacrilato nas varizes gástricas cardiofúndicas. Manter a droga vasoativa por até 5 dias e o antibiótico por até 7 dias.
  10. 1010. Reavaliar quem é candidato a TIPS precoce ainda na internação: Child-Pugh C até 13 pontos, ou Child-Pugh B acima de 7 com sangramento ativo à endoscopia apesar da droga, ou gradiente acima de 20 mmHg. Janela de 72 horas, preferencialmente 24 horas.
  11. 1111. Falhou? Separar persistente de recorrente. Não varicosa persistente: agente hemostático tópico ou clipe over-the-scope, depois embolização transcateter, e cirurgia só se a embolização não existir ou falhar. Não varicosa recorrente: repetir a endoscopia (considerar clipe over-the-scope), depois embolização, depois cirurgia. Varicosa: balão por no máximo 24 horas ou stent recoberto como ponte, e TIPS de resgate.
  12. 1212. Antes da alta, fechar a causa. Não varicosa: pesquisar H. pylori na primeira endoscopia, tratar se positivo e RETESTAR quem deu negativo; suspender anti-inflamatório; definir a reintrodução do antitrombótico; repor ferro; reiniciar dieta oral em 24 horas. Varicosa: programar betabloqueador não seletivo a partir do 6º dia associado a ligaduras seriadas até a erradicação.

Forrest Ia — sangramento arterial em jato

Jato pulsátil saindo do fundo da úlcera. É o estigma de maior risco: nas séries clássicas sem terapia endoscópica, o ressangramento do sangramento ativo chega a cerca de 55%, e num ensaio moderno o ressangramento das úlceras Ia após hemostasia, sem inibidor de bomba, foi de 22,5%. Exige hemostasia endoscópica com recomendação forte: adrenalina combinada a uma segunda modalidade, ou clipe over-the-scope como monoterapia alternativa.

Forrest Ib — sangramento em babação

Escoamento contínuo, sem jato, escorrendo do fundo da úlcera. Alguns ensaios só o rotulam assim após 5 minutos de observação, para não confundir com trauma do aparelho. Exige hemostasia endoscópica com a mesma força do Ia, mas seu risco real é menor: no braço placebo de um ensaio com 388 pacientes, o ressangramento após hemostasia foi de 4,9%, o mais baixo entre os estigmas de alto risco.

Forrest IIa — vaso visível não sangrante

Saliência pigmentada ou pérola no fundo da cratera, sem sangramento no momento do exame. Não sangrar agora não é sinal de segurança: nas séries clássicas sem terapia, o ressangramento chega a 43%, e a terapia endoscópica reduz o risco com número necessário para tratar de 5. Exige hemostasia (recomendação forte) e inibidor de bomba em alta dose depois.

Forrest IIb — coágulo aderente

Coágulo grumoso que resiste à irrigação vigorosa e esconde o que há embaixo. Risco intermediário: cerca de 22% de ressangramento nas séries clássicas sem terapia e 17,6% no braço placebo do ensaio moderno. É o único estigma sem consenso entre as diretrizes — ver o bloco de divergências. Recebe inibidor de bomba em alta dose mesmo quando não é tratado endoscopicamente.

Forrest IIc — mancha plana pigmentada

Mancha escura, plana, sem relevo e sem sangramento — hematina aderida ao fundo. Risco baixo, em torno de 10% nas séries clássicas. Não recebe hemostasia endoscópica (recomendação forte) e, em cenários selecionados, permite alta hospitalar acelerada com inibidor de bomba em dose padrão.

Forrest III — base limpa

Cratera de fundo limpo, fibrinoso, sem vaso, sem coágulo e sem mancha. É o degrau mais baixo da escala, com ressangramento abaixo de 5%. Não recebe hemostasia endoscópica e é o perfil que autoriza alta precoce; antitrombótico pode ser reintroduzido cedo. O que ainda precisa acontecer é fechar a causa: pesquisar H. pylori e revisar anti-inflamatórios.

Estigma de ForrestO que éRessangramento sem terapia endoscópica (referência clássica)Conduta
Ia — sangramento em jatoJato arterial pulsátil no fundo da úlceraSangramento ativo em torno de 55%Hemostasia endoscópica (forte, alta): adrenalina + 2ª modalidade, ou clipe over-the-scope como monoterapia alternativa. IBP 80 mg em bolus + 8 mg/h por 72 h
Ib — babaçãoEscoamento contínuo, sem jatoSangramento ativo em torno de 55%; 39% de ressangramento agrupado quando a babação é deixada sem terapiaHemostasia endoscópica (forte, alta), mesmo esquema do Ia. Risco real menor: 4,9% de ressangramento no braço placebo do ensaio de Jensen
IIa — vaso visível não sangranteSaliência pigmentada no fundo, sem sangramento no momento43%Hemostasia endoscópica (forte, alta): térmico, mecânico ou esclerosante, isolado ou com adrenalina. IBP em alta dose por 72 h
IIb — coágulo aderenteCoágulo que resiste à irrigação vigorosa22%Sem consenso entre as diretrizes (ver divergências). IBP em alta dose por 72 h mesmo se não tratado endoscopicamente
IIc — mancha plana pigmentadaHematina aderida, plana, sem relevo10%Sem hemostasia endoscópica (forte, moderada). IBP em dose padrão; alta acelerada possível
III — base limpaFundo fibrinoso, sem estigmaAbaixo de 5%Sem hemostasia endoscópica (forte, moderada). IBP em dose padrão; alta precoce; antitrombótico pode voltar cedo

Varicosa × não varicosa: onde as duas hemorragias se separam

DecisãoHemorragia varicosaHemorragia não varicosa (úlcera péptica)
Droga iniciada na suspeita, antes da endoscopiaVasoconstritor esplâncnico: terlipressina, octreotide ou somatostatina, por até 5 diasNenhum vasoativo. Somatostatina e octreotide são explicitamente não recomendados
AntibióticoCeftriaxona 1 g IV/dia por até 7 dias, para todos; reduz infecção, ressangramento e MORTALIDADENão há antibioticoprofilaxia. O antibiótico entra apenas para erradicar H. pylori, se detectado
Janela da endoscopiaAté 12 horas da apresentação, após ressuscitaçãoAté 24 horas da apresentação. Não antecipar para 6 ou 12 h, salvo instabilidade persistente
Terapia endoscópicaLigadura elástica das varizes esofágicas (escleroterapia só se ligadura indisponível); cianoacrilato nas gástricas cardiofúndicasHemostasia guiada pelo estigma de Forrest; adrenalina nunca isolada
Supressão ácidaSem benefício demonstrado na prevenção de sangramento de escara pós-ligaduraInibidor de bomba 80 mg em bolus + 8 mg/h por 72 h após hemostasia, depois 2x/dia até 2 semanas
Falha da hemostasiaBalão por no máximo 24 h ou stent recoberto como ponte; TIPS de resgate; cirurgia de derivação se não houver TIPSAgente tópico ou clipe over-the-scope; embolização angiográfica transcateter; cirurgia só se a embolização não existir ou falhar
Antecipação em alto riscoTIPS precoce em 72 h (preferencialmente 24 h): Child-Pugh C até 13, ou Child-Pugh B acima de 7 com sangramento ativo, ou HVPG acima de 20 mmHgEmbolização profilática em selecionados: instabilidade à admissão, úlcera de parede posterior do duodeno, úlcera acima de 2 cm ou hemostasia duvidosa
O que fica programado para depois da altaBetabloqueador não seletivo a partir do 6º dia + ligaduras seriadas até a erradicaçãoPesquisa de H. pylori na 1ª endoscopia, reteste se negativo, documentação da erradicação; revisão de anti-inflamatórios e antitrombóticos; reposição de ferro

Doses da urgência: o que se prescreve, quanto e por quanto tempo

DrogaDoseDuraçãoObservação
Terlipressina2 mg em bolus, depois 1-2 mg de 4/4 h conforme o peso2 a 5 dias (até 5 dias)Agente de escolha no consenso brasileiro por ser o único com redução de mortalidade contra placebo. Evitar em insuficiência coronariana, vasculopatia periférica e hipertensão não controlada; contraindicada na gestação
Somatostatina250 mcg em bolus, depois 250 mcg/h em infusão contínua2 a 5 diasNa falha, pode-se subir a infusão para 500 mcg/h
Octreotide50-100 mcg em bolus, depois 25-50 mcg/h em infusão contínua2 a 5 diasReduz de forma apenas transitória a pressão portal; previne sua elevação pós-prandial
Ceftriaxona1 g por via intravenosa ao diaAté 7 diasPara todo cirrótico com hemorragia digestiva alta. Superior ao norfloxacino em doença avançada (infecção 11% contra 26-33%; PBE 2% contra 12%)
Norfloxacino400 mg por via oral de 12/12 h7 diasAlternativa; cirrose avançada ou instabilidade hemodinâmica devem receber ceftriaxona intravenosa
Eritromicina250 mg por via intravenosaDose única, de 30 a 120 min antes da endoscopiaProcinético para esvaziar sangue e coágulo. Prolonga o intervalo QT. Metoclopramida se indisponível
Inibidor de bomba (pós-hemostasia)80 mg em bolus intravenoso, depois 8 mg/h em infusão contínua; ou alta dose intermitente 40 mg de 2 a 4x/dia72 horasDepois, 2x/dia até completar 2 semanas da endoscopia índice nos pacientes de alto risco
Propranolol (profilaxia)40 mg/dia divididos em 2 tomadas, titulados até a dose máxima toleradaContínuo e ininterruptoIniciar a partir do 6º dia após o sangramento. Suspender provoca aumento rebote da pressão portal

Escores: qual pergunta cada um responde

EscoreQuando é calculadoPergunta que respondeCorte e desempenho
Glasgow-BlatchfordAntes da endoscopia (ureia, hemoglobina, PA sistólica, FC ≥ 100, melena, síncope, doença hepática, insuficiência cardíaca)Este paciente pode receber alta do pronto-socorro?0 ou 1 permite alta com endoscopia ambulatorial. Sensibilidade cerca de 99% (98,6% em coorte de 3.012 pacientes), especificidade 27-40%, área sob a curva 0,86. Identifica 19% a 24% dos pacientes
RockallParte clínica antes (idade, choque, comorbidade); completo só após a endoscopia (diagnóstico e estigmas)Qual o risco de ressangramento e de morte?Não serve para triagem inicial: a parte pré-endoscópica teve sensibilidade 0,93 e especificidade 0,24 para eventos graves em 30 dias, contra 0,98 e 0,16 do Glasgow-Blatchford
AIMS65Antes da endoscopiaRisco de desfecho adversoSensibilidade 0,79 e especificidade 0,61 — mais específico e bem menos sensível que o Glasgow-Blatchford
Child-PughNa admissão do cirrótico (bilirrubina, albumina, INR, ascite, encefalopatia)Qual a gravidade da hepatopatia e quem entra nos critérios de indicação?Child A, ou Child B sem sangramento ativo à endoscopia, indicam baixo risco. Child B acima de 7 com sangramento ativo, ou Child C, indicam alto risco e entram nos critérios de TIPS precoce. Child acima de 13 tem mortalidade proibitiva no TIPS de resgate
MELDNa admissão do cirrótico (bilirrubina, creatinina, INR)Qual a mortalidade esperada?Abaixo de 11 pontos indica baixo risco de desfecho ruim; igual ou acima de 19 indica alto risco. Acima de 18 marca piores resultados do TIPS, assim como bilirrubina acima de 3 mg/dL

Adrenalina injetada isoladamente não é hemostasia — o efeito é transitório e há recomendação forte contra o uso em monoterapia. Ela entra combinada a uma segunda modalidade, térmica ou mecânica.

Sonda nasogástrica de rotina não é recomendada em nenhuma das duas hemorragias: não define a origem, não substitui a endoscopia e atrasa o exame.

No cirrótico, INR e tempo de protrombina não predizem sangramento, porque medem apenas a queda dos fatores pró-coagulantes. Corrigir o exame não corrige o paciente.

Endoscopia de segunda revisão de rotina não é recomendada (evidência de alta qualidade). Reendoscopar quem sangrou de novo, não todo mundo.

Apenas cerca de um terço dos pacientes com varizes tem sangramento ativo no momento da endoscopia — ausência de sangramento ativo não afasta a origem varicosa, e as varizes esofágicas devem ser ligadas mesmo assim, uma vez excluídos outros sítios.

Teste negativo para H. pylori colhido na fase aguda não afasta a infecção: existe recomendação forte de retestar todos os que deram negativo na primeira endoscopia.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Limiar de transfusão de hemácias e a exceção do paciente com doença cardiovascular

ACG (2021): limiar de 7 g/dL, 8 g/dL na doença cardiovascular preexistente, possivelmente acima de 8 g/dL na síndrome coronariana aguda

Política restritiva com limiar de transfusão em hemoglobina de 7 g/dL (recomendação condicional, evidência de baixa qualidade). O painel acrescenta três ressalvas explícitas: é razoável transfundir o paciente hipotenso antes que a hemoglobina alcance 7 g/dL, porque o valor cai após a reposição volêmica mesmo sem sangramento adicional e porque o sangramento exsanguinante foi excluído dos ensaios; na doença cardiovascular preexistente, o limiar de 8 g/dL é razoável; e na síndrome coronariana aguda em curso, com evidência descrita como muito limitada, pode-se considerar limiar acima de 8 g/dL.

Laine L. et al. ACG Clinical Guideline: Upper Gastrointestinal and Ulcer Bleeding. Am J Gastroenterol 2021;116(5):899-917, recomendação 2.

ESGE (2021, mantida em 2026): limiar abaixo de 7 g/dL com alvo 7-9 g/dL; limiar igual ou menor que 8 g/dL com alvo igual ou maior que 10 g/dL na doença cardiovascular

Duas recomendações fortes e separadas. No paciente hemodinamicamente estável e SEM história de doença cardiovascular, estratégia restritiva com limiar de hemoglobina abaixo de 7 g/dL, e alvo pós-transfusional desejado de 7 a 9 g/dL (evidência moderada). No paciente hemodinamicamente estável COM doença cardiovascular aguda ou crônica, estratégia mais liberal com limiar igual ou menor que 8 g/dL e alvo pós-transfusional desejado igual ou maior que 10 g/dL (evidência baixa). A versão de 2026 manteve as duas sem alteração.

Gralnek I.M. et al. ESGE Guideline NVUGIH — Update 2021, Endoscopy 2021;53:300-332; e ESGE Guideline peptic ulcer bleeding — Update 2026, Endoscopy, DOI 10.1055/a-2863-8314, Tabela 1.

SBH (2009/2011): hemoglobina de 7 a 9 g/dL e hematócrito de 21% a 27%; hematócrito acima de 30% no coronariopata

Postura conservadora na reposição de sangue e hemoderivados, com valores-alvo de hematócrito entre 21% e 27% e de hemoglobina entre 7 e 9 g/dL, ajustados por idade, comorbidades e presença de hemorragia ativa. Pacientes com comorbidades significativas e com insuficiência coronariana devem ser mantidos com hematócrito um pouco mais elevado, acima de 30%. A justificativa é fisiopatológica e específica do cirrótico: reposição excessiva induz aumento rebote na pressão venosa portal e maior risco de ressangramento.

Bittencourt P.L., Farias A.Q., Strauss E., Mattos A.A. e Painel. 1º Consenso da SBH sobre HDA Varicosa. GED 2011;30(Supl.2):10-30, Módulo II, Tópico II.

Na prova

Os três documentos concordam no essencial (restritivo) e divergem na unidade e no tamanho da exceção cardiovascular — 8 g/dL na diretriz americana, limiar igual ou menor que 8 com alvo igual ou maior que 10 na europeia, hematócrito acima de 30% na brasileira. O ensaio que ancora todos eles é o mesmo: 899 pacientes randomizados para 7 contra 9 g/dL, com mortalidade em 45 dias de 5% contra 9% e ressangramento de 10% contra 16%. Como identificar o recorte: vinheta que fala em hematócrito e cita cirrose, ascite ou varizes está no vocabulário do consenso brasileiro; vinheta que dá hemoglobina em g/dL e pergunta pelo 'alvo pós-transfusional' está no vocabulário europeu, onde a resposta tem dois números (limiar e alvo); vinheta em inglês ou que cite nominalmente o ACG traz o número único de 7, com 8 na doença cardiovascular. Duas réguas dispensam a discussão: se a vinheta descreve hipotensão que não corrige ou sangramento exsanguinante, o limiar deixa de decidir e se transfunde antes de chegar a 7 g/dL, porque esses pacientes foram excluídos dos ensaios; e se a vinheta descreve síndrome coronariana AGUDA, todos os documentos registram que a evidência é insuficiente, e a alternativa que aplica o limiar restritivo puro nesse cenário é a que está fora de qualquer documento.

TIPS precoce (preemptivo) na hemorragia varicosa: quem indica e em que janela

Baveno VII (2022), transcrito pela ESGE (2022): critérios objetivos, em até 72 horas, recomendação forte

Em pacientes de alto risco de ressangramento após hemostasia endoscópica bem-sucedida — Child-Pugh C com até 13 pontos, ou Child-Pugh B acima de 7 pontos com sangramento esofágico ativo à endoscopia apesar de droga vasoativa, ou gradiente de pressão venosa hepática acima de 20 mmHg — o TIPS preemptivo com prótese revestida de politetrafluoretileno, dentro de 72 horas e preferencialmente dentro de 24 horas, deve ser considerado. Recomendação forte, evidência de alta qualidade. O TIPS de resgate é reservado ao sangramento persistente apesar de terapia farmacológica e endoscópica.

Gralnek I.M. et al. ESGE Guideline: esophagogastric variceal hemorrhage. Endoscopy 2022, recomendações 10 e 11 (critérios de Baveno VII; de Franchis R. et al. J Hepatol 2022;76(4):959-974).

SBH (2009/2011): TIPS como terapia de resgate; para o TIPS precoce, evidências consideradas insuficientes à época

A colocação de TIPS para resgate da hemorragia varicosa é procedimento eficaz no controle do ressangramento, embora não aumente a sobrevida. Sobre a antecipação, o consenso registra que pacientes com alto risco de evolução desfavorável, como aqueles com gradiente de pressão venosa portal acima de 20 mmHg, parecem se beneficiar da inserção precoce do TIPS em um estudo randomizado inicial, e conclui textualmente que se aguardam maiores evidências para recomendação dessa conduta. Na falha terapêutica sem radiologista intervencionista disponível, a alternativa descrita é a cirurgia de urgência (anastomose portocava calibrada de 8 mm ou descompressão portal seletiva).

Bittencourt P.L. et al. 1º Consenso da SBH sobre HDA Varicosa. GED 2011;30(Supl.2):10-30, Módulo III, Tópico IV.

Na prova

A diferença aqui é de data e de disponibilidade, não de método. O documento brasileiro é de uma reunião de 2009: ele descreve o ensaio inicial do TIPS precoce como promissor e ainda insuficiente, o que era a leitura correta naquele ano; os ensaios e as coortes que sustentam a recomendação forte vieram depois e foram consolidados em Baveno VII, de 2022. Some-se a isso o fato de que TIPS exige radiologista intervencionista, prótese revestida e serviço disponível 24 horas — recurso concentrado em centros terciários, o que explica por que o texto nacional descreve a cirurgia de derivação como alternativa quando o TIPS não existe. Como identificar o recorte: enunciado que traz pontuação de Child-Pugh, janela em horas e a palavra 'preemptivo' ou 'precoce' está no mundo de Baveno VII, e a alternativa correta terá os três critérios objetivos; enunciado ambientado em hospital sem radiologia intervencionista, ou que ofereça 'cirurgia de derivação portossistêmica' entre as alternativas, está no cenário de recurso limitado descrito pelo consenso brasileiro. E há uma régua que independe do documento: TIPS de resgate e TIPS precoce respondem a perguntas diferentes — o primeiro entra depois que a terapia combinada falhou, o segundo entra em paciente cujo sangramento já foi controlado, mas cuja gravidade prediz falha.

Momento da endoscopia: 12 horas na varicosa, 24 horas na não varicosa

ESGE (2022) e SBH (2009/2011), hemorragia varicosa: até 12 horas

A ESGE recomenda que, em pacientes com suspeita de hemorragia varicosa, a avaliação endoscópica ocorra dentro de 12 horas do momento da apresentação, desde que o paciente tenha sido hemodinamicamente ressuscitado (recomendação forte, evidência moderada). O consenso brasileiro escreve o mesmo prazo: endoscopia digestiva alta idealmente dentro das primeiras 12 horas do sangramento em todo paciente com hemorragia digestiva alta varicosa, com proteção de via aérea eletiva em sangramento intenso, encefalopatia graus III e IV ou impossibilidade de manter saturação acima de 90%.

Gralnek I.M. et al. ESGE Guideline: esophagogastric variceal hemorrhage. Endoscopy 2022, recomendação 8; Bittencourt P.L. et al. 1º Consenso da SBH. GED 2011;30(Supl.2):10-30, Módulo II, Tópico IV.

ESGE (2026) e ACG (2021), hemorragia não varicosa: até 24 horas, e recomendação CONTRA antecipar

A ESGE mantém as definições de urgente (12 horas ou menos), precoce (24 horas ou menos) e tardia (mais de 24 horas), recomenda a endoscopia precoce após ressuscitação hemodinâmica e acrescenta, na atualização de 2026, recomendação forte de evidência moderada de que NÃO se faça endoscopia emergente (6 horas ou menos) nem urgente (12 horas ou menos), a menos que o paciente permaneça hemodinamicamente instável apesar de ressuscitação adequada. A ACG sugere endoscopia dentro de 24 horas da apresentação e registra ter retirado a sugestão, presente na versão de 2012, de que 12 horas 'poderia ser considerado' em pacientes de alto risco clínico.

Gralnek I.M. et al. ESGE Guideline peptic ulcer bleeding — Update 2026, Endoscopy, DOI 10.1055/a-2863-8314; Laine L. et al. ACG Clinical Guideline. Am J Gastroenterol 2021;116(5):899-917, recomendação 5.

Na prova

Os documentos não se contradizem: descrevem doenças diferentes. Na varicosa, a endoscopia é o tratamento do sítio de sangramento e não existe equivalente farmacológico à ligadura, o que justifica a janela mais curta; na úlcera, a supressão ácida em alta dose já está agindo enquanto se ressuscita, e o ensaio com 516 pacientes de alto risco (Glasgow-Blatchford igual ou maior que 12) não encontrou ganho em antecipar — ressangramento em 30 dias de 10,9% contra 7,8% e morte de 8,9% contra 6,6% a favor do grupo mais tardio, com mais terapia endoscópica no grupo urgente. Como identificar o recorte: procure na vinheta o que sugere hipertensão portal. Havendo cirrose, ascite, esplenomegalia ou varizes conhecidas, o número é 12 horas e vem acompanhado de droga vasoativa e antibiótico. Sem doença hepática, com melena e história de anti-inflamatório, o número é 24 horas e a alternativa que pede endoscopia 'imediata' ou 'nas primeiras 6 horas' contraria uma recomendação forte de 2026. A exceção é a mesma nos dois mundos e costuma ser o que a questão testa: o paciente que NÃO estabiliza apesar de ressuscitação adequada vai para intervenção urgente — endoscópica ou radiológica — em qualquer documento.

Eritromicina antes da endoscopia: mesma dose, forças de recomendação diferentes

ESGE (2021, 2022 e 2026): recomendação forte, evidência de alta qualidade

A ESGE recomenda a administração pré-endoscópica de eritromicina intravenosa em pacientes selecionados com hemorragia digestiva alta clinicamente grave e/ou com sangramento ativo em curso (forte, alta), posição mantida sem alteração em 2026. Na diretriz de varizes, a recomendação é escrita com dose e janela: na ausência de contraindicações, eritromicina intravenosa 250 mg de 30 a 120 minutos antes da endoscopia em pacientes com suspeita de hemorragia varicosa aguda (forte, alta). A atualização de 2026 acrescenta metoclopramida intravenosa como alternativa quando não houver eritromicina disponível (condicional, baixa).

Gralnek I.M. et al. ESGE Guideline NVUGIH — Update 2021, Endoscopy 2021;53:300-332; ESGE Guideline: esophagogastric variceal hemorrhage, Endoscopy 2022, recomendação 7; ESGE Guideline — Update 2026, DOI 10.1055/a-2863-8314.

ACG (2021): recomendação condicional, evidência de qualidade muito baixa

A ACG sugere infusão de eritromicina antes da endoscopia em pacientes com hemorragia digestiva alta (condicional, evidência de qualidade muito baixa). O documento descreve o benefício como diagnóstico — melhora a visualização, aumenta o rendimento da primeira endoscopia, reduz exames repetidos e tempo de internação — sem demonstração de melhora em desfechos clínicos como ressangramento e mortalidade. A dose recomendada é 250 mg por via intravenosa, porque foi a mais usada nos ensaios, infundida em 5 a 30 minutos (mais frequentemente 20 a 30) com a endoscopia realizada de 20 a 90 minutos depois. Registra que a eritromicina intravenosa prolonga o intervalo QT, com efeito relacionado à dose e à velocidade de infusão, e que a evidência sobre metoclopramida vem apenas de resumos antigos e não sustenta seu uso.

Laine L. et al. ACG Clinical Guideline: Upper Gastrointestinal and Ulcer Bleeding. Am J Gastroenterol 2021;116(5):899-917, recomendação 3.

Na prova

A dose é a mesma nos dois documentos — 250 mg por via intravenosa — e a divergência está na força e na abrangência: a europeia recomenda com evidência alta e restringe a pacientes selecionados com sangramento grave ou ativo; a americana sugere com evidência muito baixa para a população geral de hemorragia digestiva alta, justamente porque o desfecho medido é a qualidade do exame, não a sobrevida. Como identificar o recorte: enunciado que pergunta 'qual a conduta antes da endoscopia' num paciente com hematêmese volumosa aceita a eritromicina em qualquer dos documentos, e a alternativa que a nomeia como antibiótico profilático está errada nos dois — nesse contexto ela é procinético. Enunciado que peça a força da recomendação ou que ofereça 'não há benefício comprovado em desfechos clínicos' como alternativa está trabalhando com a leitura da ACG. E há dois distratores recorrentes: substituir a eritromicina por sonda nasogástrica com lavagem, que tem recomendação forte contra, e usar metoclopramida como primeira escolha, que só entra quando não há eritromicina, e apenas no texto europeu de 2026.

Coágulo aderente (Forrest IIb): tratar endoscopicamente ou não

ACG (2021): não foi possível emitir recomendação a favor nem contra

O painel registra que não conseguiu chegar a recomendação a favor ou contra a terapia endoscópica em pacientes com úlcera com coágulo aderente resistente à irrigação vigorosa. A metanálise mais recente não mostrou benefício da terapia endoscópica sobre o ressangramento (risco relativo 0,31; IC 95% 0,06-1,77) nem sobre mortalidade. Os dois pequenos ensaios que mostraram benefício não usaram irrigação vigorosa nem inibidor de bomba em alta dose depois, e ambos foram interrompidos precocemente; em contrapartida, um ensaio com irrigação vigorosa e inibidor de bomba em bolus e infusão reportou zero ressangramento entre 24 pacientes tratados só com a droga, e um ensaio duplo-cego mostrou zero ressangramento em 64 pacientes com inibidor de bomba contra 13 de 61 (21%) com placebo, sem terapia endoscópica em nenhum dos braços.

Laine L. et al. ACG Clinical Guideline: Upper Gastrointestinal and Ulcer Bleeding. Am J Gastroenterol 2021;116(5):899-917, recomendação 7.

ESGE (2026): terapia endoscópica sugerida, com remoção do coágulo, se houver competência técnica

Pacientes com úlcera péptica que se apresenta com coágulo aderente (Forrest IIb) devem ser submetidos a terapia endoscópica, com remoção do coágulo e hemostasia endoscópica subsequente se indicada, desde que o endoscopista tenha a competência técnica para remover o coágulo com segurança e manejar a eventual conversão para uma lesão de maior risco (recomendação condicional, evidência de qualidade muito baixa). A formulação de 2021 era mais tímida — sugeria considerar a remoção do coágulo e, uma vez removido, tratar o sangramento ativo (Ia ou Ib) ou o vaso visível (IIa) que aparecesse (fraca, moderada). Em ambas as versões, o coágulo aderente não tratado endoscopicamente recebe inibidor de bomba em alta dose.

Gralnek I.M. et al. ESGE Guideline peptic ulcer bleeding — Update 2026, Endoscopy, DOI 10.1055/a-2863-8314, recomendação 5; e ESGE Guideline NVUGIH — Update 2021, Endoscopy 2021;53:300-332, recomendação 9.

Na prova

O que separa as duas posições é o que cada painel faz com a incerteza: diante de um intervalo de confiança que atravessa o 1, a ACG não emite recomendação e a ESGE emite uma condicional com ressalva de competência técnica explícita no próprio texto. Repare que a condição faz parte da recomendação europeia — remover coágulo pode converter uma lesão IIb num sangramento ativo, e quem remove precisa saber tratar o que aparecer. Como identificar o recorte: alternativa que trate o coágulo aderente como lesão de baixo risco, dispensando inibidor de bomba em alta dose, está fora dos dois documentos, porque ambos mantêm a droga mesmo sem terapia endoscópica. Enunciado que descreva um serviço com endoscopista experiente e ofereça 'remover o coágulo e tratar a lesão subjacente' está no texto europeu de 2026; enunciado que descreva a controvérsia e ofereça 'manter apenas inibidor de bomba em alta dose' encontra amparo na leitura americana e nos ensaios que ela cita. E vale o número que baliza a discussão: o ressangramento do IIb foi de 17,6% no braço placebo do ensaio moderno, valor intermediário entre o Ia (22,5%) e o IIa (11,3%).

06

Caso resolvido

Homem de 54 anos, etilista, dá entrada na emergência com dois episódios de hematêmese volumosa há 3 horas e melena desde a véspera. Pressão arterial 88 x 54 mmHg, frequência cardíaca 118 bpm, extremidades frias, consciente e orientado. Abdome distendido com macicez móvel, baço palpável a 4 cm do rebordo. Aranhas vasculares no tórax e eritema palmar. Hemoglobina 6,8 g/dL, plaquetas 74.000/mm³, INR 1,9, albumina 2,6 g/dL, bilirrubina total 3,4 mg/dL, creatinina 1,1 mg/dL. Não há coronariopatia conhecida.
achado
Hematêmese com melena e instabilidade hemodinâmica caracterizam sangramento clinicamente relevante. Os estigmas periféricos (aranhas vasculares, eritema palmar), a ascite, a esplenomegalia, a plaquetopenia, a hipoalbuminemia e o INR alargado compõem um quadro de doença hepática crônica avançada com hipertensão portal — probabilidade pré-endoscópica alta de origem varicosa.
achado
A hemoglobina de 6,8 g/dL está abaixo do limiar de 7 g/dL, e o paciente está hipotenso — as duas condições que autorizam transfundir. O alvo é 7 a 9 g/dL, não a normalização: ele não tem doença cardiovascular prévia, então não se aplica o limiar de 8 g/dL nem o alvo mais alto.
raciocínio
O INR de 1,9 e as plaquetas de 74.000/mm³ pedem contenção, não correção. No cirrótico, INR e tempo de protrombina não predizem risco de sangramento, porque medem apenas a queda dos fatores pró-coagulantes sem enxergar a queda paralela dos anticoagulantes de síntese hepática. Plasma e plaquetas de rotina não têm benefício comprovado nesse cenário, e ácido tranexâmico tem recomendação forte contra.
raciocínio
A ressuscitação é deliberadamente parcimoniosa: cristaloide, sem coloide nem albumina, mirando pressão sistólica de 90 a 100 mmHg e frequência cardíaca abaixo de 100 bpm. Expandir além disso aumenta a pressão portal por rebote e pode reativar o sangramento. Ele está consciente e mantém a via aérea, então não há indicação de intubação profilática — mas a indicação seria imediata se houvesse rebaixamento, hematêmese maciça em curso ou necessidade de balão.
conduta
Duas prescrições saem antes de qualquer endoscopia. Vasoconstritor esplâncnico: terlipressina 2 mg em bolus seguidos de 1 a 2 mg de 4 em 4 horas, mantida por até 5 dias — ele não tem coronariopatia, vasculopatia periférica nem hipertensão não controlada, que são as contraindicações da droga. E antibioticoprofilaxia com ceftriaxona 1 g por via intravenosa ao dia, por até 7 dias, que neste cenário reduz infecção, ressangramento e mortalidade, e não apenas infecção de procedimento.
conduta
Rastrear infecção antes de a febre aparecer: hemoculturas, paracentese diagnóstica com citologia global e diferencial e cultura semeada em frasco de hemocultura, sumário de urina e radiografia de tórax. Cerca de 20% dos cirróticos com hemorragia digestiva alta já chegam infectados, e a infecção multiplica por cinco o risco de recidiva hemorrágica.
conduta
Eritromicina 250 mg por via intravenosa de 30 a 120 minutos antes do exame, e endoscopia digestiva alta em até 12 horas da apresentação, depois de ressuscitado. Achando varizes esofágicas, ligadura elástica — que se faz mesmo sem sangramento ativo no momento, uma vez excluídos outros sítios, porque apenas um terço dos pacientes sangra ativamente durante o exame. Se houver variz gástrica cardiofúndica, cianoacrilato.
conduta
Calcular o Child-Pugh na admissão e reavaliar a elegibilidade a TIPS precoce ainda na internação. Se ele for Child-Pugh C com até 13 pontos, ou Child-Pugh B acima de 7 pontos com sangramento ativo à endoscopia apesar da terlipressina, ou tiver gradiente acima de 20 mmHg, o TIPS preemptivo entra em até 72 horas, preferencialmente nas primeiras 24. Antes da alta, programar betabloqueador não seletivo a partir do 6º dia associado a ligaduras seriadas a cada 1 a 4 semanas até a erradicação das varizes.
07

Agora feche você

Mulher de 71 anos chega ao pronto-socorro com melena há dois dias e um episódio de tontura ao levantar. Usa naproxeno há três semanas por lombalgia e ácido acetilsalicílico 100 mg/dia desde um infarto há quatro anos. Pressão arterial 104 x 66 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm. Sem estigmas de hepatopatia, sem ascite, sem esplenomegalia. Hemoglobina 7,6 g/dL, plaquetas 268.000/mm³, INR 1,0, ureia 78 mg/dL, creatinina 1,0 mg/dL, albumina 3,9 g/dL. Foi ressuscitada com cristaloide e permanece estável. A endoscopia digestiva alta, realizada 14 horas após a chegada, mostra úlcera de 1,5 cm na parede posterior do bulbo duodenal, com vaso visível não sangrante no fundo da cratera. Pesquisa de Helicobacter pylori pelo teste da urease durante o exame: negativa.
achado
Não há nenhum elemento de hipertensão portal: sem estigmas cutâneos, sem ascite, sem esplenomegalia, com plaquetas e INR normais e albumina preservada. O ramo é o não varicoso, e não há indicação de droga vasoativa nem de antibioticoprofilaxia — somatostatina e octreotide têm recomendação forte contra nesse cenário.
achado
A causa está escrita na anamnese: anti-inflamatório não esteroidal iniciado há três semanas somado a ácido acetilsalicílico em prevenção secundária, sobre uma úlcera duodenal. A ureia desproporcionalmente elevada em relação à creatinina é o padrão do sangramento alto e pontua no escore de Glasgow-Blatchford.
achado
A endoscopia com 14 horas está dentro da janela recomendada para hemorragia não varicosa (até 24 horas, após ressuscitação). Antecipar para 6 ou 12 horas teria contrariado recomendação forte, já que ela estabilizou com a reposição inicial.
achado
O achado é vaso visível não sangrante — Forrest IIa. É estigma de alto risco: nas séries clássicas sem terapia endoscópica, o ressangramento chega a 43%, e a terapia endoscópica reduz esse risco com número necessário para tratar de 5. A localização é de risco anatômico específico: a parede posterior do bulbo duodenal é onde a úlcera escava em direção à artéria gastroduodenal.
achado
A hemoglobina de 7,6 g/dL está acima do limiar restritivo de 7 g/dL, e ela está estável — mas tem doença cardiovascular preexistente (infarto prévio), o que muda a régua da transfusão.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Esperar a endoscopia para começar a droga vasoativa e o antibiótico no cirrótico É o erro que mais custa vida no tema. O consenso brasileiro manda iniciar o vasoconstritor esplâncnico o mais precocemente possível, antes mesmo do exame endoscópico, e a ESGE manda iniciar terlipressina, octreotide ou somatostatina no momento da apresentação. O antibiótico segue a mesma lógica: ceftriaxona 1 g por via intravenosa ao dia desde a admissão, para todos, porque reduz infecção, ressangramento e mortalidade — cerca de 20% dos cirróticos já chegam infectados e metade infecta durante a internação, e a infecção multiplica por cinco o risco de recidiva hemorrágica. Nenhuma das duas prescrições depende de ver a variz.
  2. 2Tratar o antibiótico do cirrótico como profilaxia do procedimento endoscópico Ele não é profilaxia de endoscopia: é tratamento da translocação bacteriana que acompanha o sangramento no cirrótico, e a redução de mortalidade é o desfecho que o justifica. Por isso ele começa na admissão, mesmo que a endoscopia venha depois, e continua por até 7 dias, mesmo que o sangramento pare no primeiro dia. Alternativa que suspende o antibiótico após a ligadura, ou que só o prescreve 'para cobrir o procedimento', inverte o mecanismo. A escolha preferencial é ceftriaxona intravenosa em cirrose avançada ou instabilidade, com o norfloxacino 400 mg de 12/12 h por 7 dias como alternativa.
  3. 3Corrigir INR e plaquetas do cirrótico antes de endoscopar O INR alargado do cirrótico não é o INR do paciente anticoagulado: ele mede a queda dos fatores pró-coagulantes sem enxergar a queda paralela de proteína C, proteína S e antitrombina III, e não se correlaciona com maior risco de sangramento. Plasma e crioprecipitado raramente corrigem o distúrbio mesmo em doses altas; complexo protrombínico e fator VIIa recombinante corrigem o exame sem melhorar o controle do sangramento e podem trombosar. Não há evidência para reposição profilática de plasma ou plaquetas. E a ESGE recomenda contra o ácido tranexâmico na hemorragia não varicosa, com evidência de alta qualidade. Nenhum valor de INR pré-definido deve ser usado para adiar a endoscopia.
  4. 4Transfundir até 'normalizar' a hemoglobina O ensaio de referência mostrou o contrário do que a intuição pede: com limiar de 7 g/dL em vez de 9 g/dL, a mortalidade em 45 dias caiu de 9% para 5% e o ressangramento de 16% para 10%. O alvo pós-transfusional é 7 a 9 g/dL. Na hemorragia varicosa, o mecanismo do dano é direto — expandir demais aumenta a pressão portal por rebote e reativa o sangramento. As exceções existem e são nomeadas: hipotensão ou sangramento exsanguinante (transfundir antes de chegar a 7), doença cardiovascular preexistente (limiar 8 g/dL) e síndrome coronariana aguda (evidência limitada, possivelmente acima de 8).
  5. 5Passar sonda nasogástrica para 'confirmar' que o sangramento é alto Recomendação forte, evidência moderada, contra o uso de rotina da aspiração ou lavagem nasogástrica na hemorragia digestiva alta aguda. Aspirado limpo não exclui sangramento alto — inclusive porque a úlcera duodenal pode sangrar com piloro fechado — e aspirado com sangue não muda nada do que já se faria. O procedimento causa desconforto, atrasa a endoscopia e não define origem. Quem melhora a visualização é a eritromicina 250 mg por via intravenosa antes do exame.
  6. 6Injetar adrenalina isolada e considerar a hemostasia feita A adrenalina produz vasoconstrição e tamponamento transitórios, e o efeito passa. Existe recomendação forte, nas duas diretrizes, de que ela não seja usada em monoterapia, e sim combinada a uma segunda modalidade — térmica de contato ou mecânica. Nas úlceras com sangramento ativo (Ia e Ib), a combinação é o padrão; a atualização de 2026 abre a alternativa do clipe over-the-scope como monoterapia. E agentes hemostáticos tópicos (pó) não devem ser usados como monoterapia no tratamento de primeira linha das lesões de alto risco, porque o efeito tem duração limitada.
  7. 7Correr para a endoscopia de emergência no paciente que estabilizou Na hemorragia não varicosa, existe recomendação forte de 2026 contra endoscopia emergente (6 horas ou menos) ou urgente (12 horas ou menos), a menos que o paciente permaneça instável apesar de ressuscitação adequada. O ensaio com 516 pacientes de alto risco não achou benefício em antecipar — ressangramento de 10,9% contra 7,8% e morte de 8,9% contra 6,6%, ambos numericamente piores no grupo urgente. O tempo até o exame é usado para ressuscitar e tratar comorbidade. A janela de 12 horas pertence à suspeita de hemorragia varicosa, não à úlcera.
  8. 8Aceitar o Helicobacter pylori negativo colhido durante o sangramento Sangue no estômago e supressão ácida em alta dose derrubam a sensibilidade dos testes na fase aguda. Por isso a ESGE tem três recomendações fortes de evidência alta, encadeadas: pesquisar na primeira endoscopia e tratar se positivo; RETESTAR todos os que deram negativo nesse primeiro exame; e documentar a erradicação bem-sucedida em vez de presumi-la. Dar alta a um paciente que sangrou por úlcera com um único teste negativo colhido no dia do sangramento é deixar a causa em aberto.
  9. 9Deixar o balão de tamponamento além de 24 horas, ou insuflá-lo sem proteger a via aérea O balão controla o sangramento em até 90% dos casos, mas produz eventos adversos em até 20% — ulceração e perfuração esofágica, migração, pneumonia aspirativa — e o ressangramento após a retirada é de cerca de 50%. Ele é ponte para tratamento definitivo (hemostasia endoscópica ou TIPS) por no máximo 24 horas, e a proteção da via aérea é fortemente recomendada antes de insuflar. A alternativa moderna é o stent metálico autoexpansível totalmente recoberto, que a ESGE sugere preferir ao balão e que pode permanecer até 14 dias.
  10. 10Confundir TIPS de resgate com TIPS precoce São indicações diferentes em pacientes diferentes. O TIPS de resgate entra depois que a terapia combinada — droga vasoativa mais hemostasia endoscópica — falhou, e o consenso brasileiro registra que ele controla o ressangramento sem aumentar sobrevida. O TIPS precoce entra em paciente cujo sangramento JÁ foi controlado, mas cuja gravidade prediz falha: Child-Pugh C com até 13 pontos, ou Child-Pugh B acima de 7 pontos com sangramento ativo à endoscopia apesar da droga, ou gradiente acima de 20 mmHg — dentro de 72 horas, preferencialmente 24. Alternativa que reserve o TIPS apenas para quem continua sangrando ignora a recomendação forte do preemptivo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na hemorragia digestiva alta por varizes em cirrótico, a droga vasoativa esplâncnica (terlipressina ou octreotida) deve ser iniciada precocemente, associada à antibioticoprofilaxia (ceftriaxona), que comprovadamente reduz mortalidade e ressangramento. IBP é usado empiricamente enquanto não se define a fonte, mas não é a medida específica para varizes. Propranolol é profilaxia secundária (após controle), contraindicado na hemorragia aguda com instabilidade. Ácido tranexâmico não demonstrou benefício e está associado a eventos trombóticos (estudo HALT-IT). Vitamina K corrige coagulopatia lentamente, não controla o sangramento agudo.

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Recuperação

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar, as quatro separações entre varicosa e não varicosa: a droga (vasoconstritor esplâncnico por até 5 dias contra nenhum vasoativo), o antibiótico (ceftriaxona 1 g IV/dia por até 7 dias contra nenhum), a janela da endoscopia (12 horas contra 24 horas) e o resgate (TIPS contra embolização transcateter). Em seguida, recite Forrest inteiro pela definição e pelo risco: Ia jato e Ib babação, sangramento ativo, em torno de 55% de ressangramento sem terapia; IIa vaso visível não sangrante, 43%; IIb coágulo aderente, 22%; IIc mancha plana, 10%; III base limpa, abaixo de 5% — e a linha que separa quem trata de quem não trata, entre IIb e IIc. Feche com os três números do inibidor de bomba: 80 mg em bolus, 8 mg/h por 72 horas, depois 2x/dia até 2 semanas.

em 30 dias

Percorra o fluxo inteiro em voz alta, dizendo os números em cada bifurcação. Ressuscitação: cristaloide, pressão sistólica alvo de 90 a 100 mmHg, frequência cardíaca abaixo de 100 bpm. Transfusão: limiar 7 g/dL, alvo pós-transfusional 7 a 9, limiar 8 se houver doença cardiovascular prévia, antes de 7 se hipotenso. Alta: Glasgow-Blatchford 0 ou 1. Endoscopia: 12 horas na suspeita varicosa, 24 horas na não varicosa, e recomendação forte contra antecipar para 6 ou 12 horas fora da instabilidade persistente. Varicosa: terlipressina 2 mg em bolus e 1 a 2 mg de 4/4 h por 2 a 5 dias, ceftriaxona 1 g/dia por até 7 dias, ligadura elástica, balão por no máximo 24 horas, TIPS precoce se Child C até 13 ou Child B acima de 7 com sangramento ativo ou gradiente acima de 20 mmHg, em 72 horas. Não varicosa: hemostasia se Ia, Ib ou IIa, adrenalina nunca sozinha, inibidor de bomba 80 mg mais 8 mg/h por 72 horas, ressangramento vai para nova endoscopia e depois embolização, cirurgia por último. Profilaxia secundária: betabloqueador não seletivo a partir do 6º dia mais ligaduras até a erradicação — sem ela, 63% ressangram e 33% morrem. E o par que fecha o capítulo: transfundir menos reduz morte, e endoscopar mais cedo, no paciente estável, não reduz nada.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 58 anos chega à emergência trazido pela esposa depois de vomitar sangue vivo duas vezes em casa. Ele está pálido, sudorético, fala com você mas se cansa. A esposa conta que ele bebe todo dia há muitos anos e que a barriga dele 'cresceu' nos últimos meses. Pressão 90 x 58 mmHg, frequência cardíaca 116 bpm. Você tem um leito, acesso venoso e o telefone da endoscopia. Colha a história procurando ativamente o que sugere doença hepática crônica, decida o que prescrever ANTES de chamar o endoscopista e justifique cada item, diga em quantas horas você quer o exame e por quê, defina o limiar em que vai transfundir e explique à esposa o que acontece se o sangramento não parar com a primeira tentativa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hemorragia digestiva alta — Preparatório para provas | OsceLabs