Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

Icterícia obstrutiva

A prova quase nunca pergunta o diagnóstico: pergunta qual é o próximo exame. Quem entende que a ultrassonografia responde uma pergunta e a colangiorressonância responde outra acerta; quem pede colangiopancreatografia endoscópica retrógrada para investigar, erra.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 40 anos com colelitíase apresenta, há 2 dias, icterícia, colúria, febre com calafrios e dor em hipocôndrio direito. PA 100x64 mmHg, FC 110 bpm, T 38,8 °C. Bilirrubina total 6,5 mg/dL (predomínio direto), fosfatase alcalina e GGT elevadas. Ultrassom mostra dilatação de via biliar. Qual é o diagnóstico mais provável?

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Como esse tema cai

Icterícia obstrutiva é o nome clínico de um problema mecânico: a bile é produzida, é conjugada, e não chega ao duodeno. O pigmento reflui para o sangue já conjugado — é por isso que a urina escurece e as fezes clareiam, coisa que icterícia por hemólise ou por síndrome de Gilbert nunca faz. Esse detalhe é a primeira bifurcação do capítulo e sozinho já elimina metade das alternativas de boa parte das questões.

O que a banca cobra aqui raramente é o diagnóstico final. É a sequência: o que pedir primeiro, o que pedir depois e, sobretudo, o que não pedir. A ultrassonografia responde se há dilatação e em que altura; a colangiorressonância e a ecoendoscopia respondem o que está obstruindo; a tomografia responde se um tumor é ressecável; e a colangiopancreatografia endoscópica retrógrada — a CPRE — deixou de ser exame de investigação e virou tratamento. O relatório da Conitec que embasa o procedimento no SUS diz isso com todas as letras: o uso da CPRE apenas para fins diagnósticos diminuiu muito por causa de métodos de menor risco.

Este capítulo trata do adulto com icterícia colestática e suspeita de obstrução mecânica da via biliar: como provar que é colestase, como ler o nível da obstrução, como separar pedra de tumor e qual exame vem em seguida. Coledocolitíase e colangite aguda têm capítulo próprio, e o manejo detalhado delas não é invadido aqui — a colangite entra apenas como o desvio que interrompe a investigação e transforma o caso em urgência de drenagem. Icterícia neonatal, hepatites e hiperbilirrubinemias indiretas também ficam de fora, exceto pelo que é preciso para descartá-las na primeira linha do raciocínio.

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O que muda decisão

Antes de tudo: a icterícia é colestática?

A icterícia aparece na esclerótica por volta de 2,5 mg/dL de bilirrubina total e na pele a partir de cerca de 3 mg/dL. Achá-la é fácil; classificá-la é o que importa. A fração conjugada, chamada de direta, é hidrossolúvel e por isso é filtrada pelo rim: quando ela sobe, a urina escurece. A fração não conjugada anda ligada à albumina, não é filtrada, e nunca escurece a urina. Daí a regra prática que resolve a primeira alternativa de quase toda questão: icterícia com colúria é conjugada; icterícia sem colúria é não conjugada, e a via biliar não tem nada a ver com o caso.

O corte operacional é bilirrubina direta acima de 50% da total, ou acima de 2 mg/dL em valor absoluto. Acima disso, o problema está no hepatócito depois da conjugação ou na drenagem — hepatite, colestase intra-hepática por droga, obstrução mecânica. Abaixo disso, o problema é produção aumentada ou conjugação deficiente: hemólise, reabsorção de grande hematoma, síndrome de Gilbert. A vinheta clássica de Gilbert entrega um adulto jovem, ictérico após jejum prolongado, infecção ou exercício intenso, com bilirrubina total em torno de 3 mg/dL quase toda indireta, urina clara e provas hepáticas normais — nada a investigar na via biliar.

Provada a hiperbilirrubinemia conjugada, o segundo par de exames separa lesão de hepatócito de obstrução. As transaminases, AST e ALT, medem dano celular; a fosfatase alcalina e a gama-GT são enzimas canaliculares e sobem quando a bile represa. Em hepatite aguda, as transaminases sobem em ordem de grandeza e as canaliculares acompanham timidamente. Em obstrução, o padrão se inverte: fosfatase alcalina e gama-GT em alta desproporcional, transaminases modestamente elevadas. Cuidado com uma exceção que a prova adora: nas primeiras horas de uma obstrução aguda por cálculo impactado, as transaminases podem disparar acima de 500 U/L e simular hepatite — só que caem rápido nas 48 horas seguintes, enquanto as canaliculares seguem subindo. A gama-GT alterada sem fosfatase alcalina alta costuma ser álcool ou indução por medicamento, não colestase; a fosfatase alcalina alta sem gama-GT aponta para osso, não fígado.

O terceiro exame é o tempo de protrombina, e ele é mais esperto do que parece. A bile emulsifica gordura; sem bile no intestino, as vitaminas lipossolúveis não são absorvidas, e a primeira a faltar é a K, cofator dos fatores II, VII, IX e X. Um INR alargado num paciente ictérico, portanto, pode significar duas coisas opostas: falta de vitamina K por colestase, ou falência do hepatócito que sintetiza os fatores. A distinção é feita à beira do leito: administra-se vitamina K parenteral e se repete o exame. Se o INR corrige, a máquina de síntese está boa e o problema é obstrução; se não corrige, o fígado é que está doente. Essa correção não é acadêmica — é pré-requisito para qualquer punção, drenagem percutânea ou operação, e o esquecimento dela é causa evitável de sangramento.

Fecha o quadro o que o paciente conta sem ser perguntado: prurido que piora à noite e não tem lesão de pele, fezes claras como massa de vidraceiro, urina cor de chá ou de refrigerante escuro. Colúria e acolia juntas praticamente carimbam obstrução; acolia intermitente, que aparece e some, é a assinatura do cálculo que se movimenta ou do ampuloma que ulcera e sangra. Esteatorreia e perda ponderal em quem tem icterícia progressiva empurram o raciocínio para tumor.

A ultrassonografia é o primeiro exame, e ela responde apenas duas perguntas

Toda icterícia colestática começa com ultrassonografia de abdome. Não porque seja o melhor exame da via biliar — não é —, mas porque é barato, sem radiação, disponível em qualquer serviço do SUS e responde bem as duas perguntas que decidem tudo o que vem depois: há dilatação, e em que altura ela começa. A resposta a essas duas perguntas define se o caso é cirúrgico ou clínico e qual será o segundo exame.

Via biliar dilatada significa obstrução abaixo do ponto onde a dilatação para. O colédoco normal mede até 6 mm com a vesícula no lugar — é esse o corte usado na estratificação de risco que o relatório da Conitec adota. Duas ressalvas mudam a leitura: depois da colecistectomia, o colédoco assume parte da função de reservatório e se acomoda mais largo, com valores de até 10 mm sendo aceitáveis; e a via biliar alarga discretamente com a idade avançada. Já a dilatação intra-hepática aparece na ultrassonografia como o sinal do cano duplo ou da escopeta — o ducto dilatado correndo paralelo ao ramo portal, com o mesmo calibre dele.

Ler o nível é ler a combinação. Dilatação intra-hepática nos dois lobos com colédoco de calibre normal e vesícula murcha aponta para obstrução alta, no hilo hepático: tumor de Klatskin, compressão por linfonodo, estenose pós-operatória de via biliar. Dilatação intra e extra-hepática com colédoco largo e vesícula distendida aponta para obstrução baixa, distal: cálculo impactado na papila, tumor periampular. Dilatação intra-hepática de um lobo só, com o outro normal, sugere tumor hilar que já invadiu um lado ou ligadura acidental de um ducto setorial. E dilatação apenas do colédoco, com vias intra-hepáticas normais e sem icterícia, costuma ser achado de colédoco pós-colecistectomia, não doença.

O que a ultrassonografia não faz é igualmente importante. Ela acha cálculo dentro da vesícula com facilidade, mas mostra cálculo dentro do colédoco numa minoria dos casos — o relatório da Conitec registra apenas que os cálculos podem não ser visualizados, e é por isso mesmo que existe uma estratificação de risco em vez de uma resposta direta. O terço distal do colédoco fica atrás do duodeno cheio de gás e do pâncreas, justamente onde as pedras encalham. Além disso, dilatação leva tempo para se instalar: nas primeiras 24 a 72 horas de uma obstrução aguda, a via biliar pode ainda estar de calibre normal com o paciente já francamente ictérico. Ultrassonografia normal em paciente com padrão colestático claro, portanto, não encerra a investigação — muda o exame seguinte, não a hipótese.

Uma armadilha específica merece nome próprio. Na cirrose e na colangite esclerosante, a via biliar intra-hepática pode não dilatar apesar da obstrução, porque o parênquima fibrosado não permite a distensão. E na obstrução maligna hilar, é comum a vesícula estar vazia e colabada — o que parece tranquilizador e é exatamente o oposto.

Esquema da árvore biliar com os três níveis de obstrução — hilar, médio e periampular — e a dilatação que cada um produz acima do ponto obstruído.
Onde a dilatação para é onde está a obstrução. Vias intra-hepáticas dilatadas com colédoco fino e vesícula murcha apontam para o hilo; tudo dilatado com vesícula distendida aponta para a papila.

Pedra ou tumor: o que a beira do leito entrega antes de qualquer imagem

Antes do segundo exame, a história já divide o campo em dois. Icterícia de cálculo é episódica e dói: vem depois de cólica biliar em hipocôndrio direito irradiada para o dorso ou para o ombro, oscila em intensidade porque a pedra flutua e desimpacta, e o paciente costuma ter história de crises anteriores. Icterícia de tumor é progressiva e não dói: instala-se em semanas, sobe sem recuar, e vem acompanhada de perda ponderal, anorexia e, com frequência, de um prurido intratável que o paciente relata como pior que a própria icterícia.

O sinal de Courvoisier organiza essa impressão em achado de exame físico. Vesícula palpável, distendida e indolor num paciente ictérico aponta para obstrução maligna distal. O raciocínio por trás é anatômico e vale a pena entender em vez de decorar: uma vesícula que conviveu anos com cálculos está fibrosada e não se distende; para a vesícula inflar, a obstrução precisa ser recente, progressiva e abaixo da desembocadura do ducto cístico — perfil do tumor periampular. Vesícula palpável e dolorosa é outra coisa: hidropisia ou colecistite. E vesícula colabada em paciente ictérico com vias intra-hepáticas dilatadas aponta para o oposto — obstrução acima do cístico, hilar.

A síndrome de Mirizzi é a exceção que a banca ama porque quebra as duas regras ao mesmo tempo: cálculo impactado no infundíbulo da vesícula ou no ducto cístico comprime o ducto hepático comum por fora, produzindo icterícia obstrutiva sem cálculo dentro do colédoco. A imagem mostra dilatação intra-hepática com colédoco distal de calibre normal — leitura de obstrução alta — num paciente com colelitíase clássica. É doença benigna com apresentação de tumor hilar, e a importância prática é cirúrgica: há risco elevado de lesão de via biliar na colecistectomia, e o cirurgião precisa saber antes de operar.

Outras causas benignas completam a lista e costumam ser reconhecidas pelo contexto. Estenose de via biliar pós-colecistectomia aparece semanas a meses depois de uma cirurgia, às vezes com relato de fístula biliar no pós-operatório. Colangite esclerosante primária dá icterícia flutuante em paciente jovem com retocolite ulcerativa e imagem com estenoses e dilatações alternadas, em conta de rosário. Pancreatite crônica estenosa o colédoco intrapancreático em paciente etilista com dor crônica e calcificações. Parasitose por Ascaris migrando para a via biliar é diagnóstico de área endêmica, com dor intensa e o verme visível à ultrassonografia. Colangiopatia associada a IgG4 imita tumor de pâncreas e responde a corticoide — é a razão de nem toda massa de cabeça de pâncreas ir direto para a ressecção.

O segundo exame: ressonância, ecoendoscopia ou tomografia — e por que a CPRE saiu da lista

Definido que há colestase e lido o nível na ultrassonografia, o segundo exame depende do que se está procurando. Se a suspeita é cálculo, a escolha é entre colangiorressonância e ecoendoscopia. Se a suspeita é tumor, é tomografia de abdome com contraste em fases, no protocolo de pâncreas. Se há colangite, nada disso vem primeiro: o próximo passo é drenagem.

A colangiorressonância mapeia toda a árvore biliar sem contraste iodado, sem radiação e sem sedação profunda, e é excelente para cálculo de 5 mm ou mais, para o nível da estenose e para a anatomia antes de uma reconstrução. Falha em duas situações: cálculo pequeno, abaixo de 5 mm, e microlitíase — que podem passar em branco — e no diferencial entre estenose benigna e maligna, que ela vê mas não caracteriza. Também não coleta material.

A ecoendoscopia é o exame mais sensível para cálculo pequeno no colédoco distal e para lesão pequena na cabeça do pâncreas, porque o transdutor fica encostado na anatomia de interesse, sem gás no caminho. Tem duas vantagens que a ressonância não tem: permite punção aspirativa com agulha fina, dando diagnóstico histológico, e permite avaliar invasão vascular local. Em compensação, exige sedação, endoscopista treinado e está bem menos disponível na rede pública — na prática, em boa parte do Brasil a escolha entre ressonância e ecoendoscopia é decidida por qual delas existe no serviço.

A tomografia com contraste em fases é o exame de quem já suspeita de tumor. Ela mostra a massa, mede a relação dela com a artéria mesentérica superior, o tronco celíaco e a veia porta — o que define ressecabilidade —, e procura metástase hepática e implante peritoneal. É o exame que decide se o caso vai para duodenopancreatectomia, para neoadjuvância ou para paliação. Não serve para procurar cálculo: pedra de colesterol é frequentemente isodensa à bile e simplesmente não aparece.

Sobra a CPRE, e o ponto é o mais cobrado do capítulo: ela não é mais exame diagnóstico. O relatório da Conitec de 2019 é explícito ao registrar que a utilização da CPRE apenas para fins de diagnóstico diminuiu muito por causa de métodos de menor risco, e que ela hoje é usada com objetivo terapêutico, especialmente nas doenças obstrutivas. A razão é o risco: pancreatite é a complicação mais comum do procedimento, e vêm ainda sangramento, infecção e perfuração — preço que se paga para tratar, não para olhar. A CPRE entra quando já se sabe que há algo a retirar ou a drenar: extrair cálculo com papilotomia, passar prótese por estenose tumoral, drenar via biliar infectada, colher escovado de uma estenose. Pedir CPRE para investigar icterícia é submeter o paciente ao risco de um tratamento sem ter a indicação de tratar.

Há ainda a colangiografia intraoperatória, que resolve o caso dentro da sala. Feita pelo ducto cístico durante a colecistectomia, ela mostra a via biliar em tempo real e permite decidir na hora entre limpar o colédoco por via laparoscópica, deixar para uma CPRE no pós-operatório ou simplesmente terminar a cirurgia se o contraste desce livre ao duodeno. É a saída natural para o paciente de risco intermediário que já tem indicação de operar.

Colangite: a urgência que interrompe a investigação

Bile represada é meio de cultura. Quando a obstrução se infecta, a pressão dentro da via biliar empurra bactérias para dentro dos sinusoides hepáticos e o quadro deixa de ser um problema de diagnóstico para virar um problema de tempo. A tríade de Charcot — febre, icterícia e dor em hipocôndrio direito — é o quadro clássico, e a pêntade de Reynolds acrescenta rebaixamento de consciência e hipotensão, marcando o caso grave. O problema da tríade é a sensibilidade: ela é muito específica, mas falta em boa parte dos pacientes, sobretudo nos idosos, que podem chegar apenas confusos e hipotensos. Foi por isso que as diretrizes de Tóquio abandonaram a tríade como critério e passaram a diagnosticar por três eixos independentes.

Os três eixos do TG18 são: A, inflamação sistêmica — febre ou calafrios acima de 38 °C, leucócitos abaixo de 4.000 ou acima de 10.000/mm³, PCR de 1 mg/dL ou mais; B, colestase — bilirrubina total de 2 mg/dL ou mais, fosfatase alcalina, gama-GT, AST ou ALT acima de 1,5 vez o limite superior da normalidade; C, imagem — dilatação biliar ou evidência da etiologia. Um item de A somado a um item de B ou de C fecha suspeita; um item de A com um de B e um de C fecha diagnóstico definitivo. Repare que o eixo C aceita a ultrassonografia comum: não é preciso exame sofisticado para carimbar colangite.

A gravidade decide o relógio. Grau III é colangite com disfunção de pelo menos um órgão: hipotensão exigindo dopamina a 5 µg/kg/min ou mais, ou qualquer dose de noradrenalina; rebaixamento do nível de consciência; relação PaO2/FiO2 abaixo de 300; creatinina acima de 2,0 mg/dL ou oligúria; INR acima de 1,5; plaquetas abaixo de 100.000/mm³. Grau II é colangite sem disfunção orgânica, mas com pelo menos dois destes cinco marcadores de mau prognóstico: leucócitos acima de 12.000 ou abaixo de 4.000/mm³, febre de 39 °C ou mais, idade de 75 anos ou mais, bilirrubina total de 5 mg/dL ou mais, e hipoalbuminemia. Grau I é o restante.

A conduta segue diretamente da gravidade. Todos recebem antibiótico e suporte. No Grau I, drena-se se em 24 horas o paciente não responder ao tratamento inicial. Nos Graus II e III, a drenagem biliar é feita o mais cedo possível, junto com suporte e antibiótico — e no Grau III isso significa que a estabilização hemodinâmica corre em paralelo com a descompressão, não antes dela. A via preferencial é endoscópica, por CPRE; quando ela falha ou é inviável, entram a drenagem transparieto-hepática percutânea e, em último caso, a cirúrgica. O erro típico de prova é o candidato pedir colangiorressonância para um paciente séptico: aqui o exame não muda a conduta e só atrasa a única coisa que resolve, que é tirar a pressão de dentro da via biliar.

Icterícia obstrutiva maligna e o que a obstrução prolongada cobra do paciente

Quatro tumores diferentes produzem o mesmo quadro de icterícia indolor progressiva porque desembocam no mesmo ponto — são os periampulares: adenocarcinoma de cabeça de pâncreas, colangiocarcinoma distal, adenocarcinoma de duodeno periampular e ampuloma, o tumor da própria papila. O de cabeça de pâncreas é de longe o mais frequente e o de pior prognóstico. O ampuloma é o de melhor prognóstico, e tem uma assinatura clínica: ele ulcera, sangra e necrosa em ciclos, produzindo icterícia flutuante, anemia por perda oculta e o quadro descrito como fezes prateadas — acolia da obstrução misturada ao sangue digerido. Todos os quatro são tratados pela mesma operação, a duodenopancreatectomia, o que faz o diagnóstico diferencial entre eles ser frequentemente pós-operatório.

Acima, no hilo, está o colangiocarcinoma hilar, o tumor de Klatskin, classificado por Bismuth-Corlette conforme quanto da confluência dos ductos hepáticos ele compromete: tipo I abaixo da confluência, tipo II atingindo a confluência, tipo III estendendo-se para o ducto direito ou esquerdo, tipo IV alcançando os dois lados ou sendo multifocal. A classificação importa porque define a extensão da hepatectomia necessária e, no tipo IV, costuma marcar irressecabilidade. Clinicamente ele se apresenta com vias intra-hepáticas dilatadas, colédoco fino e vesícula vazia — exatamente o inverso do periampular.

O CA 19-9 é o marcador mais pedido e o mais mal interpretado. Ele sobe na própria obstrução biliar, mesmo benigna: um valor alto em paciente ictérico com cálculo no colédoco não significa câncer, e a dosagem só ganha valor depois de a bilirrubina normalizar com a drenagem. Além disso, parte da população, de fenótipo Lewis negativo, simplesmente não sintetiza o antígeno e mantém valores normais mesmo com doença avançada. Ele não serve para rastreio nem para diagnóstico — serve para acompanhar resposta ao tratamento e detectar recidiva em quem já tinha valor elevado antes.

A obstrução prolongada tem custo próprio, independente da causa, e é dele que saem as complicações do pré-operatório. A falta de vitamina K alarga o INR e precisa ser corrigida antes de qualquer procedimento invasivo. A ausência de sais biliares no intestino compromete absorção de gordura e produz desnutrição em semanas, com hipoalbuminemia e cicatrização ruim. Os sais biliares circulantes prejudicam a perfusão renal e tornam o paciente ictérico particularmente suscetível a lesão renal aguda no pós-operatório — motivo pelo qual hidratação adequada antes da cirurgia é conduta e não gentileza. E, se nada for feito por meses, a obstrução crônica evolui para cirrose biliar secundária e hipertensão portal, complicação que o próprio relatório da Conitec cita ao justificar o tratamento oportuno da coledocolitíase.

Por fim, a drenagem biliar antes de uma duodenopancreatectomia não é automática. Drenar significa colocar prótese, e prótese coloniza a bile, aumentando infecção de ferida e complicação infecciosa no pós-operatório. Em paciente com icterícia obstrutiva maligna que pode ser operado em poucos dias, opera-se sem drenar. A drenagem prévia fica reservada a quem tem colangite, prurido incoercível, desnutrição importante, insuficiência renal instalada ou vai receber quimioterapia neoadjuvante e portanto passará semanas até a cirurgia.

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Do risco de cálculo ao exame seguinte

Esta é a única escala verdadeiramente ordinal do capítulo, e é ela que decide qual exame vem depois da ultrassonografia. A régua que o Brasil usa está escrita no relatório da CONITEC que sustenta a CPRE no SUS: baixo, intermediário e alto risco de coledocolitíase, com cortes numéricos fechados. O fluxo abaixo percorre o caminho inteiro, os cards destrincham as três faixas, a primeira tabela liga cada faixa ao próximo passo e as tabelas seguintes resolvem qual exame entrega o quê e quais causas mora em cada nível da via biliar.

  1. 1Confirme que a hiperbilirrubinemia é conjugada: bilirrubina direta acima de 50% da total ou acima de 2 mg/dL, com colúria. Sem isso, o caso é hemólise, Gilbert ou reabsorção de hematoma, e a via biliar sai do raciocínio.
  2. 2Separe hepatocelular de colestático pelo padrão enzimático: fosfatase alcalina e gama-GT desproporcionalmente altas apontam colestase; transaminases em ordem de grandeza apontam hepatócito. Peça INR junto — ele será necessário antes de qualquer procedimento.
  3. 3Peça ultrassonografia de abdome. Registre duas coisas: há dilatação e onde ela para. Vesícula distendida e indolor com tudo dilatado indica obstrução distal; vias intra-hepáticas dilatadas com colédoco fino e vesícula murcha indicam obstrução hilar.
  4. 4Procure colangite antes de seguir. Um item de inflamação sistêmica somado a colestase ou a imagem compatível já fecha suspeita pelo TG18 — e nesse caso a investigação para: o próximo passo é antibiótico, suporte e drenagem biliar, não mais exame de imagem.
  5. 5Sem colangite, estratifique o risco de coledocolitíase pelos achados de ultrassonografia e laboratório e siga a coluna correspondente da tabela: alto risco vai para CPRE terapêutica; risco intermediário vai para colangiorressonância, ecoendoscopia ou colangiografia intraoperatória; baixo risco vai direto para colecistectomia.
  6. 6Se a suspeita for tumoral — icterícia indolor progressiva, perda de peso, vesícula palpável indolor, massa à ultrassonografia —, troque a linha de investigação: tomografia de abdome com contraste em fases para estadiamento e ressecabilidade, com ecoendoscopia e punção quando o diagnóstico histológico mudar a conduta.
  7. 7Antes de qualquer procedimento, corrija o que a colestase estragou: vitamina K parenteral com reavaliação do INR e hidratação para proteger a função renal.

Baixo risco

Nenhum preditor presente: ultrassonografia sem cálculo no colédoco, sem colangite, bilirrubina normal e colédoco de calibre normal. A probabilidade de haver cálculo no colédoco fica abaixo de 10%. Conduta: colecistectomia videolaparoscópica direta, sem exame adicional da via biliar, desde que a imagem pré-operatória já tenha mostrado cálculo ou lama na vesícula.

Risco intermediário

Preditores presentes, mas insuficientes para a faixa alta: provas hepáticas alteradas de forma isolada, colédoco dilatado sem cálculo visível, bilirrubina entre 1,8 e 4 mg/dL sem dilatação, idade avançada, pancreatite biliar já resolvida. A probabilidade fica entre 10% e 50%. Conduta: um exame que confirme antes de instrumentar — colangiorressonância, ecoendoscopia ou colangiografia intraoperatória durante a colecistectomia.

Alto risco

Um preditor muito forte basta: cálculo visto dentro do colédoco na ultrassonografia ou em exame seccional, sinais clínicos de colangite, ou bilirrubina total acima de 4 mg/dL. Também entra a combinação de dois preditores fortes — colédoco acima de 6 mm na ultrassonografia com bilirrubina entre 1,8 e 4 mg/dL. A probabilidade passa de 50%. Conduta: CPRE terapêutica, com papilotomia e extração do cálculo, seguida de colecistectomia — sem exame confirmatório intermediário.

Faixa de riscoAchados que definem a faixa (régua do relatório da CONITEC, 2019)Probabilidade de cálculo no colédocoPróximo passo
AltoUm preditor muito forte: cálculo no colédoco à ultrassonografia; sinais clínicos de colangite; bilirrubina total acima de 4 mg/dL. Ou dois preditores fortes: colédoco acima de 6 mm somado a bilirrubina entre 1,8 e 4 mg/dL.Acima de 50%CPRE terapêutica com papilotomia e extração, seguida de colecistectomia. Alternativa equivalente: colecistectomia com exploração laparoscópica do colédoco no mesmo ato.
IntermediárioPreditores presentes sem preencher a faixa alta: provas hepáticas alteradas isoladas, colédoco dilatado sem cálculo visível, idade avançada, pancreatite biliar prévia.Entre 10% e 50%Confirmar antes de instrumentar: colangiorressonância ou ecoendoscopia; ou colecistectomia com colangiografia intraoperatória, resolvendo na sala.
BaixoNenhum preditor: laboratório normal, colédoco de calibre normal, sem cálculo visível, sem colangite.Abaixo de 10%Colecistectomia videolaparoscópica direta, sem investigação adicional da via biliar.

O que cada exame entrega de fato na via biliar

ExamePara que serveLimite que a prova cobra
Ultrassonografia de abdomePrimeiro exame sempre. Responde se há dilatação e em que altura ela para; acha cálculo na vesícula com facilidade.Vê o cálculo dentro do colédoco numa minoria dos casos, porque o terço distal fica atrás do gás duodenal. E a dilatação leva de 24 a 72 horas para se instalar: exame normal não exclui obstrução aguda.
ColangiorressonânciaMapeia toda a árvore biliar sem contraste iodado, sem radiação e sem sedação profunda. Excelente para cálculo de 5 mm ou mais, para o nível da estenose e para a anatomia pré-reconstrução.Perde cálculo abaixo de 5 mm e microlitíase; mostra a estenose mas não a caracteriza como benigna ou maligna; não coleta material.
EcoendoscopiaO mais sensível para cálculo pequeno no colédoco distal e para lesão pequena de cabeça de pâncreas. Permite punção aspirativa com agulha fina e avaliação de invasão vascular local.Exige sedação e endoscopista treinado, e é bem menos disponível na rede pública — em boa parte do país a escolha entre ela e a ressonância é decidida pelo que o serviço tem.
Tomografia com contraste em fasesExame de quem já suspeita de tumor: mostra a massa, a relação com artéria mesentérica superior, tronco celíaco e veia porta, e procura metástase. É o exame que define ressecabilidade.Não serve para procurar cálculo — pedra de colesterol costuma ser isodensa à bile e não aparece.
CPRETratamento, não investigação: papilotomia com extração de cálculo, prótese em estenose tumoral, drenagem de via biliar infectada, escovado de estenose.Pancreatite é a complicação mais comum, seguida de sangramento, infecção e perfuração. Indicá-la para diagnóstico expõe o paciente ao risco de um tratamento sem ter indicação de tratar.
Colangiografia intraoperatóriaResolve o caso dentro da sala, pelo ducto cístico, durante a colecistectomia: mostra a via biliar em tempo real e permite decidir na hora entre limpar por via laparoscópica, deixar para CPRE pós-operatória ou encerrar.Depende de arco cirúrgico e de equipe habituada; não substitui a investigação quando a suspeita é tumoral.

Causas de icterícia obstrutiva por nível e por natureza

Nível da obstruçãoCausas benignasCausas malignasPista que aparece na vinheta
Hilar (acima do ducto cístico)Síndrome de Mirizzi; estenose pós-colecistectomia; colangite esclerosante primária; colangiopatia por IgG4.Colangiocarcinoma hilar (tumor de Klatskin); metástase ou linfonodo comprimindo o hilo.Vias intra-hepáticas dilatadas com colédoco de calibre normal e vesícula vazia e colabada.
Colédoco médioColedocolitíase; estenose por pancreatite crônica; parasitose por Ascaris.Colangiocarcinoma de terço médio.Dor em cólica prévia, icterícia flutuante, história de crises biliares anteriores.
Periampular (distal)Cálculo impactado na papila; estenose papilar; pancreatite crônica com estenose do colédoco intrapancreático.Adenocarcinoma de cabeça de pâncreas; colangiocarcinoma distal; ampuloma; adenocarcinoma de duodeno periampular.Icterícia indolor progressiva, perda ponderal e vesícula palpável indolor — sinal de Courvoisier. No ampuloma, icterícia que oscila com anemia por perda oculta.

O corte de 6 mm para o colédoco vale com a vesícula no lugar. Depois da colecistectomia o ducto se acomoda mais largo e valores de até 10 mm podem ser normais; a via biliar também alarga discretamente com a idade avançada.

Coledocolitíase é o desfecho de 5 a 20% dos portadores de doença da vesícula biliar, segundo a estimativa do relatório da CONITEC — e uma série brasileira publicada no ABCD estreita essa faixa para 8 a 20%. É por essa frequência que a estratificação de risco existe: a maioria dos ictéricos com colelitíase não tem pedra no colédoco.

Colangite tem precedência sobre a estratificação. Ela é, ao mesmo tempo, um preditor muito forte de cálculo no colédoco e uma indicação de drenagem por si só — quando ela está presente, a faixa de risco deixa de importar.

Na icterícia obstrutiva de causa benigna, a CPRE pré-cirúrgica seguida de colecistectomia e a exploração laparoscópica do colédoco no mesmo ato cirúrgico têm resultados equivalentes: a metanálise usada pela CONITEC não achou diferença em mortalidade, complicações ou falha de limpeza do ducto. A escolha entre elas é de disponibilidade e de treinamento da equipe, não de eficácia.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O que basta para classificar um paciente como de alto risco de coledocolitíase

Régua adotada no relatório brasileiro de 2019, que reproduz a estratificação da ASGE de 2010

Alto risco com um único preditor muito forte: cálculo no colédoco visto na ultrassonografia, ou sinais clínicos de colangite, ou bilirrubina total acima de 4 mg/dL isoladamente. Alternativamente, dois preditores fortes: colédoco acima de 6 mm na ultrassonografia somado a bilirrubina entre 1,8 e 4 mg/dL. Nessa faixa, o paciente vai direto para a CPRE.

Relatório da CONITEC sobre CPRE pré-cirúrgica no tratamento de coledocolitíase, Consulta Pública nº 32/2019, que adapta explicitamente o documento da ASGE de 2010.

Revisão da própria ASGE, de 2019

Bilirrubina acima de 4 mg/dL deixou de bastar sozinha: passa a classificar como alto risco somente quando vem acompanhada de colédoco dilatado na ultrassonografia ou em exame seccional. Restam três itens de alto risco — colangite, cálculo visto na imagem, e bilirrubina acima de 4 mg/dL com colédoco dilatado. Provas hepáticas alteradas, colédoco dilatado isolado e idade acima de 55 anos passam a definir risco intermediário. O objetivo declarado da revisão foi reduzir CPRE desnecessária.

ASGE guideline on the role of endoscopy in the evaluation and management of choledocholithiasis, 2019, na tabela comparativa do estudo de validação de 2022 (PMC9218518).

Corpo europeu, ESGE, também de 2019

Faixa alta ainda mais estreita: apenas colangite ou cálculo visto na ultrassonografia. Nem bilirrubina alta com colédoco dilatado sobe o paciente para o alto risco — essa combinação fica no intermediário, com indicação de exame confirmatório antes de instrumentar a via biliar.

ESGE 2019, na mesma tabela comparativa do estudo de validação de 2022 (PMC9218518).

Na prova

A causa da diferença é a data, não a economia: o documento brasileiro é de 2019 e incorporou a estratificação vigente até então, a de 2010, enquanto a revisão americana saiu no mesmo ano e ainda não foi refletida em documento nacional. Três sinais denunciam qual recorte a questão adotou. Primeiro, a menção nominal: enunciado que cita SUS, CONITEC, portaria ou protocolo de rede pública trabalha com a régua de 2010; enunciado que cita ASGE ou ESGE com o ano trabalha com a de 2019. Segundo, o cenário: o paciente do SUS com dilatação e bilirrubina alta que vai direto para CPRE é a leitura brasileira; o mesmo paciente encaminhado para colangiorressonância antes é a leitura de 2019. Terceiro, e mais revelador, as próprias alternativas: se a questão monta um caso com bilirrubina acima de 4 mg/dL e colédoco de calibre NORMAL, ela só faz sentido como pergunta se a divisão entre as réguas for o ponto — por essa configuração o paciente é de alto risco pela régua brasileira e de risco intermediário pela revisão de 2019. Quando a distinção não estiver no enunciado, vale a régua geral: prova oficial do MEC tende à conduta do SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

Retirar o cálculo do colédoco antes ou durante a colecistectomia

CPRE pré-cirúrgica, caminho incorporado ao SUS em 2019

Extrai-se o cálculo por via endoscópica antes e opera-se a vesícula depois, em dois tempos. A metanálise usada na avaliação não achou diferença significativa contra a exploração laparoscópica em mortalidade (1% contra 0,7%), complicações (13% contra 15%) ou falha de limpeza do ducto (11% contra 8%). O argumento decisivo foi de acesso: a exploração laparoscópica é tecnicamente mais difícil e depende de equipamento menos disponível na rede. O cirurgião recebe um ducto já desobstruído, com menos risco de fístula biliar no pós-operatório.

Relatório da CONITEC sobre CPRE pré-cirúrgica no tratamento de coledocolitíase, 2019, e a Portaria SCTIE/MS nº 39, de 24 de julho de 2019, que tornou pública a incorporação.

Exploração laparoscópica do colédoco no mesmo ato

Faz-se colecistectomia com colangiografia intraoperatória e, achado o cálculo, limpa-se o ducto ali mesmo, por via transcística ou por coledocotomia. Resolve tudo numa internação e num procedimento, sem expor o paciente ao risco de pancreatite pós-CPRE nem à papilotomia, que é irreversível. Os desfechos medidos na mesma metanálise são equivalentes, o que sustenta a escolha em serviços com equipe treinada e material disponível.

Relatório da CONITEC sobre CPRE pré-cirúrgica no tratamento de coledocolitíase, 2019, que descreve a exploração laparoscópica como comparador com desfechos equivalentes e a mantém como opção.

Na prova

O enunciado costuma entregar o recorte pela descrição do serviço. Hospital com endoscopista disponível, paciente com cálculo já demonstrado e colangite ou obstrução persistente conduz à leitura da CPRE prévia; centro com cirurgia laparoscópica avançada, arco cirúrgico na sala e menção a colangiografia intraoperatória conduz à leitura do procedimento único. O ano do documento citado também posiciona: a incorporação brasileira é de 2019 e diz respeito ao paciente sem colecistectomia prévia — quem já foi operado antes não está nessa população. E há um detalhe de vocabulário que denuncia o mundo da questão: 'exploração laparoscópica do colédoco', 'via transcística' e 'coledocotomia' pertencem ao vocabulário cirúrgico; 'papilotomia', 'canulação' e 'prótese biliar' pertencem ao endoscópico.

06

Caso resolvido

Homem de 68 anos procura o pronto-socorro com icterícia progressiva há cinco semanas, sem dor. Refere prurido intenso que atrapalha o sono, urina cor de chá preto e fezes claras, quase brancas, há cerca de um mês. Perdeu 9 kg no período, sem dieta. Nega febre e nega calafrios. Ex-tabagista de 40 maços-ano. Ao exame: ictérico ++++/4, lesões de coçadura no tronco, abdome flácido e indolor, com massa arredondada, lisa e indolor palpável abaixo do rebordo costal direito. Sem sinais de irritação peritoneal, sem ascite, sem linfonodo supraclavicular palpável. Laboratório: bilirrubina total 16,4 mg/dL com direta 13,9; fosfatase alcalina 720 U/L; gama-GT 890 U/L; ALT 96 U/L; AST 84 U/L; INR 1,7; albumina 3,0 g/dL; leucócitos 7.900/mm³ sem desvio; creatinina 1,1 mg/dL. Ultrassonografia de abdome: dilatação de vias biliares intra e extra-hepáticas, colédoco medindo 15 mm, vesícula distendida sem cálculos em seu interior, cabeça do pâncreas mal caracterizada por interposição gasosa.
achado
Hiperbilirrubinemia às custas da fração direta, com colúria e acolia — colestase confirmada. O padrão enzimático fecha a leitura: fosfatase alcalina e gama-GT em alta desproporcional, com transaminações apenas modestamente elevadas. Há dilatação intra e extra-hepática à ultrassonografia, portanto obstrução mecânica, e o colédoco de 15 mm com vesícula distendida coloca o ponto de obstrução abaixo da desembocadura do ducto cístico.
raciocínio
Icterícia indolor, progressiva, com perda de 9 kg e vesícula palpável indolor é o sinal de Courvoisier: a vesícula só se distende assim quando a obstrução é recente, progressiva e distal, perfil que aponta para tumor periampular e afasta cálculo crônico, que deixaria a vesícula fibrosada. A ausência de febre, calafrios e leucocitose descarta colangite, o que significa que há tempo para investigar em vez de drenar de urgência. O INR de 1,7 num paciente sem hepatopatia conhecida é, muito provavelmente, deficiência de vitamina K por má absorção — não falência hepática.
exame
O próximo exame é tomografia de abdome com contraste em fases, no protocolo de pâncreas: ela caracteriza a massa que a ultrassonografia não conseguiu ver por gás, mede a relação do tumor com a artéria mesentérica superior, o tronco celíaco e a veia porta, e procura metástase hepática ou implante peritoneal. É esse exame que decide entre ressecção, neoadjuvância e paliação. Ecoendoscopia com punção entra se o diagnóstico histológico mudar a conduta — por exemplo, antes de quimioterapia neoadjuvante ou quando a lesão é pequena e mal caracterizada. CPRE aqui seria erro: não há indicação de tratar antes de saber o que existe.
conduta
Enquanto o estadiamento corre: vitamina K parenteral com reavaliação do INR, porque nenhum procedimento invasivo pode ser feito com essa coagulação; hidratação adequada, pela suscetibilidade do ictérico à lesão renal aguda perioperatória; e suporte nutricional, com albumina de 3,0 g/dL já sinalizando desnutrição. Não se drena a via biliar de rotina: prótese coloniza a bile e aumenta complicação infecciosa. Se o tumor for ressecável e a cirurgia puder acontecer em poucos dias, opera-se sem drenar. A drenagem prévia fica reservada ao prurido incoercível, à colangite, à insuficiência renal instalada ou à espera longa por neoadjuvância.
detalhe
Dosar CA 19-9 agora daria um número alto e sem valor: a própria obstrução biliar eleva o marcador, mesmo quando benigna. Se houver interesse em usá-lo como referência para seguimento, a dosagem tem de ser repetida depois de a bilirrubina normalizar. E vale lembrar que parte da população, de fenótipo Lewis negativo, não sintetiza o antígeno e mantém valor normal mesmo com doença avançada.
07

Agora feche você

Mulher de 44 anos, obesa, com três episódios de dor em hipocôndrio direito nos últimos seis meses, sempre após refeições gordurosas. Procura a emergência com dor semelhante há 12 horas, agora acompanhada de icterícia leve percebida pelo marido. Nega febre e nega calafrios. Ao exame: afebril, PA 128/78 mmHg, FC 82 bpm, ictérica +/4, abdome doloroso à palpação em hipocôndrio direito, sem sinal de Murphy, sem massa palpável. Laboratório: bilirrubina total 2,4 mg/dL com direta 1,8; fosfatase alcalina 310 U/L; gama-GT 420 U/L; ALT 145 U/L; AST 120 U/L; leucócitos 8.600/mm³ sem desvio; amilase e lipase normais; INR 1,0. Ultrassonografia de abdome: vesícula biliar com múltiplos cálculos, paredes de 2,5 mm, sem líquido perivesicular; colédoco medindo 5 mm, sem cálculo visualizado em sua luz; vias intra-hepáticas de calibre normal.
achado
Hiperbilirrubinemia de predomínio direto com padrão enzimático canalicular desproporcional — colestase. Colelitíase confirmada, colédoco de calibre normal e nenhum cálculo visível na luz. Ausência de febre, calafrios, leucocitose e alteração hemodinâmica afasta colangite; amilase e lipase normais afastam pancreatite biliar; parede vesicular fina e Murphy negativo afastam colecistite aguda.
estratificação
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Pedir CPRE para investigar a icterícia Atrai porque a CPRE mostra a via biliar inteira e resolve na mesma sessão. Só que ela deixou de ser exame diagnóstico justamente por isso: o próprio relatório da CONITEC registra que o uso exclusivamente diagnóstico caiu em desuso diante de métodos de menor risco. Pancreatite é a complicação mais comum, e vêm ainda sangramento, infecção e perfuração. Quem pede CPRE para olhar expõe o paciente ao risco de um tratamento sem ter a indicação de tratar.
  2. 2Achar que ultrassonografia normal exclui obstrução A frase 'via biliar de calibre normal' tranquiliza e não deveria. A dilatação leva de 24 a 72 horas para se instalar, de modo que uma obstrução aguda por cálculo impactado pode cursar com ultrassonografia normal e paciente francamente ictérico. Na cirrose e na colangite esclerosante, o parênquima fibrosado impede a distensão mesmo com obstrução estabelecida. E o cálculo dentro do colédoco só é visto numa minoria dos exames, porque o terço distal fica atrás do gás duodenal.
  3. 3Investigar via biliar em hiperbilirrubinemia indireta A vinheta do adulto jovem ictérico após jejum, com bilirrubina em torno de 3 mg/dL, provas hepáticas normais e urina clara, existe para pegar quem pula a fração. Sem bilirrubina direta elevada não há colúria, e sem colúria a bile está chegando ao intestino — o problema é produção ou conjugação, não drenagem. Pedir ultrassonografia de via biliar aqui não é apenas inútil: é a resposta que a questão está caçando.
  4. 4Ler vesícula palpável como sinal de doença benigna A intuição diz que vesícula grande é vesícula cheia de pedra. É o contrário: vesícula que conviveu anos com cálculos está fibrosada e não se distende. Vesícula palpável, distendida e indolor em paciente ictérico aponta para obstrução maligna distal — é o sinal de Courvoisier. O par oposto também cai: vesícula vazia e colabada com vias intra-hepáticas dilatadas aponta para obstrução acima do cístico, típica do colangiocarcinoma hilar.
  5. 5Interpretar INR alargado como falência hepática Parece lógico, porque o fígado sintetiza os fatores de coagulação. Mas na colestase a bile não chega ao intestino, a gordura não é absorvida e falta vitamina K, cofator dos fatores II, VII, IX e X. O teste está ao alcance da mão: vitamina K parenteral e reavaliação. Se o INR corrige, a síntese está preservada e o problema é obstrutivo; se não corrige, o hepatócito é que está doente. Instrumentar a via biliar antes de fazer essa correção é causa evitável de sangramento.
  6. 6Usar CA 19-9 para decidir se é câncer O marcador sobe na própria obstrução biliar, inclusive na benigna — um valor alto em paciente ictérico com cálculo no colédoco não diz nada sobre malignidade, e a dosagem só ganha sentido depois que a bilirrubina normaliza com a drenagem. Na direção oposta, parte da população, de fenótipo Lewis negativo, não sintetiza o antígeno e mantém valor normal mesmo com doença avançada. Ele serve para seguimento de quem já tinha valor alto, não para diagnóstico nem para rastreio.
  7. 7Mandar o paciente séptico para a colangiorressonância Diante de febre alta, icterícia, dor e hipotensão, o reflexo de 'confirmar antes de agir' custa caro. Pelo TG18 basta um item de inflamação sistêmica somado a colestase ou a imagem compatível para carimbar colangite, e a ultrassonografia comum já satisfaz o eixo de imagem. Nos Graus II e III, a drenagem biliar é feita o mais cedo possível junto com antibiótico e suporte: exame adicional não muda a conduta e só atrasa a única coisa que resolve, que é descomprimir a via biliar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade de Charcot (dor em hipocôndrio direito, febre com calafrios e icterícia) associada a colestase (bilirrubina direta, FA e GGT elevadas) e via biliar dilatada define colangite aguda, geralmente por obstrução coledociana litiásica. Colecistite não cursa com icterícia obstrutiva expressiva nem colestase. Hepatite viral eleva predominantemente transaminases. Pancreatite biliar cursa com hiperamilasemia e dor em faixa. Abscesso hepático dá febre e imagem focal hepática, sem obstrução biliar típica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a questão os usa. Icterícia visível na esclerótica por volta de 2,5 mg/dL e na pele a partir de cerca de 3 mg/dL. Hiperbilirrubinemia conjugada: fração direta acima de 50% da total ou acima de 2 mg/dL — é ela que produz colúria. Colédoco normal até 6 mm com vesícula in situ, até 10 mm depois da colecistectomia. Dilatação leva de 24 a 72 horas para se instalar. Estratificação de risco de coledocolitíase pela régua do relatório brasileiro de 2019: alto risco com um preditor muito forte — cálculo no colédoco à ultrassonografia, colangite clínica ou bilirrubina total acima de 4 mg/dL — ou com dois fortes, que são colédoco acima de 6 mm somado a bilirrubina entre 1,8 e 4 mg/dL; alto vai para CPRE terapêutica, intermediário para colangiorressonância, ecoendoscopia ou colangiografia intraoperatória, baixo direto para colecistectomia. Probabilidades: abaixo de 10%, entre 10% e 50%, acima de 50%. TG18: um item de inflamação sistêmica com um de colestase ou um de imagem fecha suspeita; os três, diagnóstico definitivo. Cortes do TG18: febre acima de 38 °C, leucócitos abaixo de 4.000 ou acima de 10.000/mm³, PCR de 1 mg/dL ou mais, bilirrubina total de 2 mg/dL ou mais, enzimas acima de 1,5 vez o limite superior. Grau II: dois entre leucócitos acima de 12.000 ou abaixo de 4.000, febre de 39 °C ou mais, idade de 75 anos ou mais, bilirrubina de 5 mg/dL ou mais e hipoalbuminemia. Grau III: disfunção de pelo menos um órgão — noradrenalina em qualquer dose ou dopamina a 5 µg/kg/min ou mais, rebaixamento de consciência, PaO2/FiO2 abaixo de 300, creatinina acima de 2,0 mg/dL, INR acima de 1,5, plaquetas abaixo de 100.000/mm³. Drenagem: no Grau I se não houver resposta em 24 horas; nos Graus II e III, o mais cedo possível.

em 30 dias

As decisões, sem os números. Primeiro prove que a icterícia é colestática: sem colúria e sem bilirrubina direta alta, a via biliar sai do caso. Depois separe hepatócito de canalículo pelo padrão enzimático, lembrando que obstrução aguda por cálculo pode fazer as transaminases dispararem nas primeiras horas e cair em 48. Peça ultrassonografia sempre — ela responde se há dilatação e onde ela para, e é a leitura do nível que aponta hilo ou papila. Procure colangite antes de qualquer outra coisa: se ela existe, a investigação para e o caso vira drenagem. Sem colangite, estratifique o risco de cálculo e deixe a faixa escolher o exame seguinte; se o quadro é de icterícia indolor progressiva com perda de peso e vesícula palpável indolor, troque a linha e vá para tomografia com contraste em fases, atrás de estadiamento e ressecabilidade. Guarde as inversões que a prova explora: vesícula palpável indolor é sinal de malignidade distal, não de pedra; vesícula colabada com vias intra-hepáticas dilatadas é obstrução hilar; Mirizzi é doença de pedra com imagem de tumor alto; INR alargado que corrige com vitamina K é obstrução, não falência hepática; CA 19-9 alto em ictérico não significa câncer. E a regra que resume o capítulo: a CPRE é tratamento. Quem a usa para investigar assume o risco de um procedimento terapêutico sem ter a indicação de tratar.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 68 anos com icterícia indolor e progressiva há cinco semanas, prurido intenso, colúria, acolia e perda de 9 kg; ao exame, vesícula palpável, distendida e indolor, com bilirrubina total de 16,4 mg/dL à custa da direta e colédoco de 15 mm à ultrassonografia — pronto-socorro de hospital geral — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Icterícia obstrutiva — Preparatório para provas | OsceLabs