Cirurgia GeralCirurgia Pediátrica

Estenose hipertrófica de piloro

A vinheta entrega o diagnóstico e cobra o próximo passo. Quem manda o lactente para a sala assim que o ultrassom fecha perde a questão: a doença é urgência clínica antes de ser cirúrgica, e o que mata na indução é a alcalose que ninguém corrigiu.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Lactente do sexo masculino, de 4 semanas de vida, previamente hígido, apresenta vômitos em jato, não biliosos, progressivos, logo após as mamadas, há 1 semana, com perda de peso e avidez pela alimentação. Ao exame: desidratado, com massa palpável em formato de oliva no quadrante superior direito do abdome. A ultrassonografia mostra espessamento e alongamento do músculo pilórico. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Poucas doenças cirúrgicas da infância têm vinheta tão reconhecível: menino de três a seis semanas, vômito não bilioso que virou jato, faminto logo depois de vomitar, perdendo peso. O diagnóstico é dado de graça no enunciado. O ponto da questão está sempre uma linha adiante — no que se faz agora. E a resposta quase nunca é operar.

A obstrução é mecânica e o tratamento é cirúrgico, mas o que leva a criança à morte na sala não é o piloro: é a alcalose metabólica hipoclorêmica que o vômito construiu ao longo de semanas e que deprime o estímulo ventilatório na saída da anestesia. Por isso a estenose de piloro é descrita como urgência clínica, não emergência cirúrgica — a ordem das coisas é soro, cloro, potássio e só então bisturi.

Esta doença não tem protocolo clínico do Ministério da Saúde. O nome dela aparece nos documentos federais em dois lugares só, e os dois são úteis na prova: no rol de anomalias congênitas notificáveis pelo Sinasc, com o código Q40.0, e na contraindicação da eritromicina para menores de 1 mês no capítulo de coqueluche do Guia de Vigilância em Saúde. Os números que governam o diagnóstico por imagem e o preparo pré-operatório vêm da literatura radiológica e cirúrgica e dos protocolos anestésicos — e é exatamente por virem de corpos diferentes que eles não batem entre si.

03

O que muda decisão

O lactente que vomita e quer mamar de novo

O quadro se instala entre a segunda e a oitava semana de vida, com pico entre a terceira e a sexta. Antes disso é raro, e depois dos cinco meses é excepcional. A incidência fica entre 2 e 5 por mil nascidos vivos, com predomínio masculino de cerca de quatro meninos para cada menina e 30% a 40% de primogênitos. História familiar da mesma doença pesa: filho de mãe que teve estenose de piloro tem risco várias vezes maior.

O vômito começa como regurgitação e progride. Ele é pós-prandial, aparece minutos após a mamada e nunca é bilioso — a obstrução está antes da desembocadura da papila, então nada de bile chega ao estômago. Pode ter raias de sangue, por gastrite de estase. O que separa este bebê de um golfador é o que vem depois do vômito: ele fica com fome outra vez, mama com avidez e vomita de novo. Enquanto o refluxo do lactente cursa com ganho de peso preservado, aqui a curva estaciona e depois cai, às vezes abaixo do peso de nascimento.

No exame, o abdome é escavado e mole, com estômago distendido; ondas de peristalse gástrica podem ser vistas cruzando o epigástrio da esquerda para a direita, sobretudo logo depois de uma mamada. A oliva pilórica — massa firme, móvel, indolor, de 1 a 2 cm, palpável no quadrante superior direito ou no epigástrio — é palpável em 60% a 80% dos casos por examinador experiente, com o estômago esvaziado por sonda e a criança relaxada. Palpar a oliva fecha o diagnóstico e dispensaria a imagem. Não palpar não afasta nada.

Por que uma criança alcalótica urina ácido

O vômito da estenose de piloro é conteúdo gástrico puro: perde-se ácido clorídrico, sem a compensação alcalina do suco entérico que seria perdida numa obstrução mais distal. Some cloro, some hidrogênio, e o bicarbonato sobra. O resultado laboratorial clássico é alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica, com hipovolemia associada.

A parte que a prova gosta de cobrar é a acidúria paradoxal. No começo, o rim faz o esperado: excreta bicarbonato e a urina fica alcalina. Conforme a desidratação avança, a prioridade do organismo deixa de ser o pH e passa a ser o volume. A aldosterona sobe, o túbulo distal retém ávidamente sódio e água e, para isso, troca sódio por hidrogênio e por potássio. O hidrogênio vai para a urina — que acidifica — enquanto o plasma segue alcalótico. Daí o nome. A hipocalemia agrava o ciclo, porque quanto menos potássio houver para trocar, mais hidrogênio é secretado.

Um detalhe moderno importa mais do que a tríade decorada: com o diagnóstico feito mais cedo, a alcalose completa aparece hoje em menos da metade dos casos. Gasometria normal em lactente de quatro semanas com vômito não bilioso progressivo não afasta a doença — apenas informa que ele chegou antes.

O macrolídeo: o fator de risco que virou regra escrita no Brasil

A causa da hipertrofia muscular não está resolvida, mas há fatores de risco consistentes: sexo masculino, primogenitura, história familiar, prematuridade, parto cesáreo, alimentação por mamadeira e tabagismo materno. O que tem consequência prescritiva é a exposição a macrolídeos nas primeiras semanas de vida, sobretudo à eritromicina — e é aqui que o tema cruza com um documento brasileiro que o candidato costuma associar a outra doença.

O capítulo de Coqueluche do Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde escolhe a azitromicina como primeira opção para tratamento e quimioprofilaxia, com 10 mg/kg em dose única diária por 5 dias em menores de 6 meses, e diz textualmente que é a preferida nessa faixa. A eritromicina só entra na indisponibilidade das anteriores e, para menores de 1 mês, o quadro do próprio Guia registra: não recomendado devido à associação com a síndrome de hipertrofia pilórica. A claritromicina também não é recomendada abaixo de 1 mês, e o sulfametoxazol-trimetoprima é contraindicado abaixo de 2 meses.

O mesmo documento é cuidadoso com a azitromicina: diz que a associação dela com a hipertrofia pilórica não está confirmada, mas orienta acompanhar a criança. É uma frase que resume bem o estado da evidência — o sinal é forte e antigo para eritromicina no recém-nascido, e mais frouxo para os macrolídeos mais novos.

Existe ainda o cruzamento com a puericultura: o código Q40.0, estenose hipertrófica congênita do piloro, é notificável nos campos 6 e 41 da Declaração de Nascido Vivo. A Nota Técnica nº 1/2026 da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente o classifica, no algoritmo de qualidade de dados do Sinasc, como anomalia menor — excluída da contagem de casos quando não há anomalia maior associada. O nome guarda uma contradição que vale reter: o adjetivo é congênita, mas a hipertrofia se desenvolve depois do nascimento, e é por isso que a criança passa semanas mamando bem antes de adoecer.

Ultrassonografia: três medidas, uma concordante e uma em disputa

A ultrassonografia de abdome superior é o exame de escolha: não irradia, é feita à beira do leito e mede o músculo diretamente. O radiologista registra a espessura da camada muscular do piloro, o comprimento do canal pilórico e o diâmetro transverso, além de observar, em tempo real, que o canal não relaxa nem deixa passar conteúdo. Em corte transverso, o piloro espessado aparece como um anel — o sinal do alvo.

Das três medidas, a espessura muscular é a que as fontes tratam do mesmo jeito: 3 mm é o corte, com desempenho próximo do perfeito na casuística brasileira. O comprimento do canal é onde os documentos discordam entre 15 mm, 17 mm e 18 mm, e o diâmetro transverso é o parâmetro mais frouxo. Quando as medidas caem no limite, a razão entre espessura muscular e diâmetro transverso, com corte de 0,27, funciona como índice de resgate.

A seriografia esôfago-estômago-duodeno, que mostra o sinal da corda e o ombro pilórico, ficou como segunda linha: serve quando a ultrassonografia é inconclusiva ou quando se quer avaliar a rotação intestinal na dúvida com má rotação. Radiografia simples de abdome não faz o diagnóstico — mostra, no máximo, um estômago dilatado e pouco gás distal. Endoscopia e tomografia não têm papel.

Corte do estômago de um lactente: o estômago aparece dilatado, o piloro tem a camada muscular espessada formando um canal longo e estreito, e o duodeno depois dele está vazio e colabado; num detalhe ao lado, o mesmo piloro em corte transversal, em forma de anel espesso com luz mínima.
A barreira é muscular e fica antes da papila: o estômago se distende, o canal se alonga e estreita, e o duodeno permanece vazio. É essa posição anatômica que explica por que o vômito nunca é bilioso.

O primeiro passo não é o bisturi

Feito o diagnóstico, a criança fica em jejum e recebe sonda oro ou nasogástrica: além de aliviar a distensão, a descompressão reduz o risco de broncoaspiração na indução anestésica, que nesses lactentes é conduzida como estômago cheio. A ressuscitação começa com cristaloide isotônico em bolus, repetido conforme a perfusão, e segue com manutenção contendo glicose.

O potássio só entra no soro depois que a diurese aparece — 1 a 2 mL/kg/h é o parâmetro usado. Repor potássio em criança ainda anúrica troca uma hipocalemia por uma hipercalemia. Eletrólitos e gasometria são refeitos em série, e é a evolução deles que marca o momento da cirurgia: cloro sérico acima de 100 mEq/L e bicarbonato abaixo de 30 mEq/L são as metas mais citadas.

A razão de esperar não é conforto. A alcalose metabólica residual deprime o estímulo ventilatório central; um lactente operado ainda alcalótico hipoventila ao acordar, e a apneia pós-operatória é o desfecho que se quer evitar. Por isso a vigilância respiratória se mantém por 12 a 24 horas depois do procedimento, com atenção redobrada no prematuro. Corrigir leva de algumas horas a um ou dois dias — e esse tempo não é perdido, é tratamento.

Piloromiotomia de Fredet-Ramstedt: o que se corta e o que não se corta

A operação é a mesma há mais de um século e é curativa. Faz-se uma incisão longitudinal na serosa e na camada muscular hipertrofiada do piloro, e as bordas do músculo são então separadas de forma romba até que a submucosa se abaúle intacta pela ferida. Nada é ressecado, nada é suturado no piloro e a luz não é aberta: é uma miotomia extramucosa. A incisão do músculo termina antes da veia pilórica, do lado duodenal, porque ali a mucosa sobe e é onde ela se rompe.

O acesso clássico é uma incisão transversa curta no quadrante superior direito; a incisão semicircular periumbilical se difundiu por dar resultado estético melhor com a mesma eficácia. A via laparoscópica é alternativa consolidada em serviços com prática. As três complicações que a prova cobra são perfuração da mucosa — reconhecida na mesa, suturada e o segmento coberto, sem grandes consequências quando percebida —, piloromiotomia incompleta, que mantém o vômito e exige reintervenção, e sangramento.

A realimentação começa 4 a 8 horas após a recuperação anestésica, em geral progressiva. Vale avisar a família: até 80% das crianças mantêm algum vômito nos primeiros dias, por edema local e por dismotilidade gástrica, e isso não significa cirurgia malfeita. Vômito que persiste em jato depois de cinco a sete dias, com a criança sem ganhar peso, é que levanta a suspeita de miotomia incompleta.

O que mais vomita nessa idade — e as duas trocas que custam caro

A primeira pergunta do diferencial é sempre a mesma: o vômito é bilioso? Se for, o eixo do raciocínio muda de lugar — a obstrução está depois da papila, e a hipótese que não pode esperar é a má rotação com volvo de intestino médio, esta sim emergência cirúrgica, porque o intestino pode necrosar em horas. Atresia de duodeno também dá vômito bilioso, mas desde as primeiras horas de vida, com sinal da dupla bolha na radiografia e associação com síndrome de Down.

A segunda troca perigosa é o espelho metabólico. A forma perdedora de sal da hiperplasia adrenal congênita se manifesta entre a segunda e a terceira semana com vômitos, desidratação e má progressão de peso — a mesma janela etária. O laboratório, porém, é o oposto exato: hiponatremia, hipercalemia e acidose metabólica, muitas vezes com hipoglicemia. Na menina há genitália atípica; no menino, nada ao exame, e é ele quem morre por crise adrenal enquanto se espera uma ultrassonografia de piloro. A triagem neonatal com dosagem de 17-OH-progesterona é o que costuma dar a pista na vinheta.

Completam a lista o refluxo gastroesofágico do lactente e o erro alimentar por volume excessivo, ambos sem desidratação e sem distúrbio ácido-base; a alergia à proteína do leite de vaca, com sangue nas fezes e dermatite; infecções como sepse e infecção urinária, em que a acidose é mais comum que a alcalose; e o piloroespasmo, que dá medidas ecográficas no limite e se resolve na reavaliação em algumas horas. Hipertensão intracraniana é a lembrança final: vômito sem náusea, com fontanela tensa e perímetro cefálico em ascensão.

04

Do vômito não bilioso à sala de cirurgia

O algoritmo tem duas bifurcações que decidem tudo: a cor do vômito, que separa o piloro do abdome que não pode esperar, e o resultado da gasometria, que decide quando o lactente pode ser anestesiado. As medidas ecográficas ficam entre as duas.

  1. 1Descreva o vômito antes de qualquer exame. Não bilioso, pós-prandial e progressivo, em lactente de 2 a 8 semanas que fica faminto depois de vomitar, aponta para o piloro. Bilioso tira o caso deste capítulo e convoca o cirurgião na mesma hora, por má rotação com volvo até prova em contrário.
  2. 2Confronte com a curva de peso. Estacionar ou cair, às vezes abaixo do peso de nascimento, é o que separa esta criança do golfador com ganho preservado.
  3. 3Examine com o estômago vazio, se preciso após passar a sonda: procure peristalse gástrica visível cruzando o epigástrio e palpe a oliva no quadrante superior direito. Palpar fecha o diagnóstico; não palpar não afasta.
  4. 4Colhe eletrólitos e gasometria em todos. Espere hipocloremia, hipocalemia e alcalose metabólica — presentes hoje em menos da metade dos casos, de modo que exame normal não muda a hipótese.
  5. 5Peça ultrassonografia de abdome superior. Espessura da camada muscular de 3 mm ou mais é o achado mais concordante; some o comprimento do canal e o diâmetro transverso, e use a razão espessura/diâmetro de 0,27 quando as medidas ficarem no limite. Medidas borderline com quadro compatível pedem reavaliação em algumas horas, não cirurgia.
  6. 6Trate o distúrbio antes de marcar a sala: jejum, sonda gástrica, cristaloide isotônico em bolus, manutenção com glicose e potássio acrescentado só depois de diurese de 1 a 2 mL/kg/h. Reavalie eletrólitos e gasometria em série até cloro acima de 100 mEq/L e bicarbonato abaixo de 30 mEq/L.
  7. 7Só então a piloromiotomia extramucosa de Fredet-Ramstedt, por incisão no quadrante superior direito, periumbilical ou por videolaparoscopia. Realimente 4 a 8 horas depois da anestesia e mantenha vigilância respiratória por 12 a 24 horas.
Medida ecográficaCorte que fecha o diagnósticoDesempenho relatadoLimite que a prova cobra
Espessura da camada muscular do piloro3 mm ou maisSensibilidade e especificidade próximas de 100% na casuística da Radiologia Brasileira, 2003É a medida em que as fontes concordam; quando o enunciado dá só um número, costuma ser este
Comprimento do canal pilórico15 mm, 17 mm ou 18 mm, conforme o documentoNo corte de 17 mm: sensibilidade 100% e especificidade 84,85% (Radiologia Brasileira, 2003)É a medida em disputa entre as fontes — ver o bloco de divergências
Diâmetro transverso do piloro13 mm ou maisDescrito como o parâmetro menos fidedigno dos três (Radiologia Brasileira, 2003)Isolado, não fecha nem afasta o diagnóstico
Razão espessura muscular / diâmetro transverso0,27 ou maisSensibilidade 96% e especificidade 94% (Radiologia Brasileira, 2003)Índice de resgate para medidas no limite, não substitui as anteriores

Preparo pré-operatório: o que se faz em cada etapa e onde ela termina

EtapaO que se fazOnde a etapa termina
Suspender e descomprimirJejum e sonda oro ou nasogástrica antes de qualquer indução anestésicaEstômago descomprimido, reduzindo o risco de broncoaspiração na indução
Restaurar a volemiaCristaloide isotônico em bolus, repetido conforme a perfusãoPerfusão restabelecida e diurese de 1 a 2 mL/kg/h
Manter e reporManutenção com glicose; o potássio entra no soro apenas depois que a diurese aparecePotássio de volta à faixa normal, sem hipocalemia residual
Corrigir cloro e alcaloseReposição de cloreto pelo soro, com eletrólitos e gasometria refeitos em sérieCloro acima de 100 mEq/L e bicarbonato abaixo de 30 mEq/L
Levar à salaPiloromiotomia extramucosa de Fredet-RamstedtSó depois das metas acima: a doença é urgência clínica, não emergência cirúrgica

Vômito no lactente de poucas semanas: o que separa a estenose de piloro dos seus imitadores

QuadroComo é o vômitoEletrólitos e gasometriaO que fecha
Estenose hipertrófica de piloroNão bilioso, pós-prandial, progressivo até virar em jato; a criança quer mamar de novoHipocloremia, hipocalemia e alcalose metabólica, com urina ácidaUltrassonografia com piloro espessado e canal alongado que não relaxa
Refluxo gastroesofágico do lactenteNão bilioso, sem progressão e sem jato; ganho de peso preservadoNormaisEvolução clínica e curva de peso; não exige imagem de rotina
Má rotação com volvo de intestino médioBilioso — a obstrução está depois da papilaPodem ser normais no início; acidose quando há isquemiaEmergência cirúrgica: vômito bilioso no lactente não espera exame eletivo
Atresia de duodenoBilioso na maioria, já nas primeiras horas de vidaAlcalose só na minoria pré-papilarSinal da dupla bolha na radiografia; associação com síndrome de Down
Hiperplasia adrenal congênita perdedora de salNão bilioso, com desidratação desproporcional entre a 2ª e a 3ª semanaHiponatremia, hipercalemia e acidose metabólica — o espelho exato do piloroTriagem neonatal alterada e 17-OH-progesterona elevada; genitália atípica na menina
Sepse ou infecção urináriaNão bilioso, sem padrão pós-prandial fixoVariáveis; acidose é mais comum que alcaloseFebre ou hipotermia, urocultura e triagem infecciosa

A tríade decorada — vômito em jato não bilioso, oliva palpável e alcalose hipoclorêmica — é cada vez mais rara reunida. A alcalose completa aparece hoje em menos da metade dos casos, e a oliva depende de quem examina: gasometria normal e barriga sem massa não afastam a doença.

O potássio entra no soro depois da diurese, nunca antes. Repor potássio em lactente ainda anúrico troca uma hipocalemia por uma hipercalemia.

Medida ecográfica no limite com quadro compatível não é indicação cirúrgica: pode ser piloroespasmo, que se desfaz na reavaliação em algumas horas. Cortar um piloro que não estava hipertrofiado é dano evitável.

Vômito no pós-operatório imediato é esperado em até 80% das crianças e não significa erro técnico. O que levanta suspeita de piloromiotomia incompleta é o vômito em jato que persiste além de cinco a sete dias, sem ganho de peso.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O comprimento do canal pilórico que fecha o diagnóstico por ultrassonografia

15 mm ou mais — corte do StatPearls

Adota canal de 15 mm ou mais como anormal, junto de espessura muscular de 3 mm ou mais. É o corte mais permissivo dos três e favorece a sensibilidade em lactentes examinados cedo, quando o canal ainda não se alongou por completo.

Pyloric Stenosis. StatPearls, NCBI Bookshelf (NBK555931).

17 mm ou mais — corte da casuística brasileira de radiologia

Adota 17 mm como valor diagnóstico do comprimento do canal, com sensibilidade de 100% e especificidade de 84,85% na série estudada, e registra que o comprimento é menos específico que a espessura muscular.

Figueirêdo SS et al. Radiologia Brasileira, 2003;36(2).

Mais de 18 mm — corte do material da sociedade de anestesiologia

Descreve como diagnóstica uma parede pilórica maior que 3 mm associada a canal maior que 18 mm. É o corte mais restritivo e usa o sinal de maior que, não maior ou igual — diferença que muda a leitura de um valor exatamente sobre a linha.

OpenAnesthesia (American Society of Anesthesiologists) — Estenosis hipertrófica del píloro.

Na prova

A causa aqui é de corpo profissional, não econômica: radiologistas, cirurgiões e anestesistas calibraram o mesmo exame para finalidades diferentes, e nenhum documento nacional arbitrou. Como saber o recorte: a maioria das vinhetas dá números francamente alterados (canal de 20 mm ou mais, músculo de 4 a 6 mm), e aí o corte escolhido não decide nada. Quando o enunciado insiste num valor entre 15 e 18 mm, olhe para dois sinais — se ele nomeia a fonte ou o serviço, o corte é o daquele documento; se ele oferece também a espessura muscular, é ela que a questão quer, porque é a medida em que as fontes concordam. Distrator que fala em maior ou igual a 18 mm denuncia leitura anestésica; distrator com 15 mm denuncia leitura de compêndio norte-americano.

Que valor de bicarbonato autoriza levar a criança à sala

Bicarbonato abaixo de 30 mEq/L e cloro acima de 100 mEq/L — meta numérica do material anestésico

Define metas explícitas de reanimação: cloro sérico acima de 100 mEq/L e bicarbonato abaixo de 30 mEq/L, com diurese adequada como sinal de ressuscitação suficiente. É um limiar operacional, que autoriza a cirurgia com alguma alcalose residual e encurta o tempo de espera.

OpenAnesthesia (American Society of Anesthesiologists) — Estenosis hipertrófica del píloro.

Bicarbonato normalizado — exigência do guia do hospital pediátrico de Melbourne

Exige a normalização do bicarbonato sérico antes da cirurgia, justificando pelo risco de hipoventilação e apneia no pós-operatório, e condiciona a reposição de potássio a diurese de 1 a 2 mL/kg/h. É um limiar mais conservador, orientado pela segurança anestésica e não pela pressa cirúrgica.

The Royal Children's Hospital Melbourne. Clinical Practice Guideline: Pyloric stenosis.

Na prova

As duas réguas medem coisas diferentes: uma define o mínimo aceitável para anestesiar, a outra define o ideal. Onde elas convergem — e é isso que a questão costuma cobrar — é na sequência: nenhuma admite operar antes de corrigir. Como identificar o recorte: vinheta que fornece o valor exato do bicarbonato e pergunta se a criança pode ir para a sala está trabalhando com limiar numérico; vinheta que descreve apneia ou hipoventilação na sala de recuperação está cobrando a lógica da normalização. Alternativa que diz para operar em caráter de emergência, independentemente da gasometria, é distrator nos dois mundos.

Via de acesso da piloromiotomia: laparotomia ou videolaparoscopia

Incisão aberta, periumbilical ou no quadrante superior direito — posição de Tannuri na Revista da AMB, 2007

Sustenta que a via laparoscópica teve maior tempo operatório e 6% de piloromiotomia incompleta, e que a incisão umbilical resolve o caso em 15 a 20 minutos com bom resultado estético. É a posição de quem pesa a curva de aprendizado e a disponibilidade de material.

Tannuri U. Revista da Associação Médica Brasileira, 2007;53(3), seção Panorama Internacional.

Qualquer das duas vias — correspondência de Velhote na mesma revista, 2007

Responde que a literatura já sustentava tanto a via aberta quanto a laparoscópica, com permanência hospitalar e número de complicações equivalentes, e que excluir a laparoscopia não se justificava.

Velhote MCP. Correspondência. Revista da Associação Médica Brasileira, 2007.

Ambas aceitas, com morbidade baixa — leitura do compêndio internacional

Registra que a piloromiotomia pode ser feita por via aberta ou laparoscópica, que é curativa e que tem morbidade muito baixa, sem eleger via preferencial.

Pyloric Stenosis. StatPearls, NCBI Bookshelf (NBK555931).

Na prova

A divergência brasileira é de data e de exequibilidade: o debate registrado na Revista da AMB é de 2007 e antecede o acúmulo de estudos comparativos, e a via laparoscópica depende de material e de cirurgião pediátrico treinado, o que não é uniforme na rede. Como identificar o recorte: enunciado ambientado em serviço com cirurgia pediátrica estruturada e que descreve trocartes trabalha no mundo laparoscópico; enunciado de hospital geral ou de interior, ou que cita a incisão periumbilical, trabalha no mundo aberto. Em qualquer dos dois, o que a questão pontua é a natureza extramucosa da miotomia — nenhuma via abre a luz do piloro.

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Caso resolvido

Lactente masculino de 5 semanas, primogênito, nascido a termo, trazido ao pronto-socorro por vômitos há 3 semanas. Começaram como golfadas e hoje são em jato, minutos após cada mamada, sem bile. Logo depois de vomitar, aceita o peito com avidez. Nasceu com 3.400 g e está com 3.250 g. Ao exame: irritado, mucosas secas, fontanela deprimida, abdome escavado com ondas de peristalse visíveis no epigástrio; palpa-se massa firme e móvel de cerca de 2 cm no quadrante superior direito. Gasometria venosa: pH 7,52, bicarbonato 34 mEq/L. Eletrólitos: sódio 134, potássio 3,0 e cloro 88 mEq/L. Urina tipo I com pH 5,0. Ultrassonografia: piloro com camada muscular de 5 mm e canal de 22 mm, sem relaxamento durante o exame.
achado
Vômito não bilioso, pós-prandial, progressivo e em jato, em menino de 5 semanas que continua faminto, com perda de peso abaixo do valor de nascimento. Peristalse gástrica visível e oliva palpável fecham o quadro clínico antes de qualquer imagem.
laboratório
Alcalose metabólica com bicarbonato de 34 mEq/L, hipocloremia de 88 e hipocalemia de 3,0. A urina com pH 5,0 em paciente alcalótico é a acidúria paradoxal: a hipovolemia elevou a aldosterona e o túbulo passou a trocar sódio por hidrogênio e potássio para preservar volume.
imagem
Camada muscular de 5 mm e canal de 22 mm ultrapassam qualquer um dos cortes em uso — 3 mm de espessura em todas as fontes e 15, 17 ou 18 mm de canal conforme o documento. Não há dúvida diagnóstica nem necessidade de seriografia.
conduta
Jejum e sonda gástrica; cristaloide isotônico em bolus para restabelecer a perfusão; manutenção com glicose. Potássio somente após diurese de 1 a 2 mL/kg/h. Eletrólitos e gasometria em série até cloro acima de 100 mEq/L e bicarbonato abaixo de 30 mEq/L — e só então a piloromiotomia extramucosa de Fredet-Ramstedt.
por que não operar agora
A alcalose residual deprime o estímulo ventilatório central e faz o lactente hipoventilar ao despertar da anestesia. Antecipar a sala troca uma obstrução que não vai piorar em 12 horas por um risco de apneia pós-operatória que era evitável. Depois da cirurgia, realimentação em 4 a 8 horas e vigilância respiratória por 12 a 24 horas.
07

Agora feche você

Lactente de 22 dias de vida, sexo masculino, levado à emergência por vômitos não biliosos há 4 dias e recusa alimentar progressiva. Nasceu a termo, de parto domiciliar, sem triagem neonatal realizada. Ao exame: letárgico, mucosas muito secas, tempo de enchimento capilar de 4 segundos, sem massa abdominal palpável e sem peristalse visível; genitália masculina, com bolsa escrotal hiperpigmentada e testículos tópicos. Exames: sódio 124 mEq/L, potássio 6,4 mEq/L, cloro 96 mEq/L, bicarbonato 12 mEq/L, glicemia 42 mg/dL. A ultrassonografia de abdome descreve piloro com camada muscular de 1,8 mm e canal de 11 mm.
achado
Idade compatível com estenose de piloro, mas o laboratório é o oposto: hiponatremia, hipercalemia e acidose metabólica, com hipoglicemia. A ultrassonografia mostra piloro normal, e o exame não tem oliva nem peristalse visível.
raciocínio
Vômito e desidratação entre a segunda e a terceira semana de vida têm dois donos possíveis. O padrão eletrolítico é o que decide: alcalose hipoclorêmica e hipocalêmica aponta para o piloro; hiponatremia com hipercalemia e acidose aponta para a crise adrenal. A hiperpigmentação escrotal reforça a segunda hipótese, e a ausência de triagem neonatal explica por que o diagnóstico não foi feito antes.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Mandar para a sala assim que a ultrassonografia fecha A palavra obstrução dispara o reflexo de operar, e o enunciado costuma reforçar a urgência descrevendo desidratação. Só que a obstrução é pilórica e não estrangula nada: não há isquemia, não há perfuração iminente e nada piora em 12 horas de soro. O que piora é operar alcalótico. A ordem é reanimar, corrigir e depois cortar.
  2. 2Achar que urina ácida afasta alcalose A associação entre urina ácida e acidose está tão automatizada que o candidato lê pH urinário de 5,0 e descarta a alcalose metabólica. É justamente o contrário: na desidratação avançada o rim abandona o pH para salvar o volume, retém sódio trocando por hidrogênio e potássio, e produz urina ácida em paciente alcalótico. Por isso o nome acidúria paradoxal.
  3. 3Esperar palpar a oliva para pedir a imagem A oliva é ensinada como patognomônica e vira pré-requisito mental. Ela é palpável em 60% a 80% dos casos, e só por examinador experiente, com estômago esvaziado e criança calma. Não palpar não afasta: quadro clínico compatível pede ultrassonografia mesmo com o abdome sem massa.
  4. 4Tratar como refluxo porque o bebê é golfador Nessa idade quase todo lactente regurgita, e a hipótese mais frequente rouba a atenção. Três dados separam: a progressão do vômito até virar jato, a fome ávida logo depois de vomitar e, sobretudo, a curva de peso que estaciona ou cai. Refluxo do lactente não desidrata e não muda a gasometria.
  5. 5Repor potássio antes de a criança urinar O potássio de 3,0 pede correção imediata na leitura apressada. Mas o lactente chega hipovolêmico e frequentemente sem diurese; potássio infundido em rim que não filtra se acumula. A regra é volume primeiro, potássio depois que a diurese atinge 1 a 2 mL/kg/h.
  6. 6Confundir com a hiperplasia adrenal congênita perdedora de sal A janela etária é a mesma, o vômito é não bilioso nos dois e a desidratação também. O que desfaz a confusão é o painel: piloro dá hipocloremia, hipocalemia e alcalose; a crise adrenal dá hiponatremia, hipercalemia e acidose, com hipoglicemia. Trocar um pelo outro atrasa hidrocortisona em criança que pode morrer no mesmo dia.
  7. 7Prescrever eritromicina para coqueluche no menor de 1 mês A questão parece ser de infectologia e o candidato responde pelo espectro do antibiótico. O Guia de Vigilância em Saúde não recomenda eritromicina abaixo de 1 mês exatamente pela associação com a hipertrofia pilórica, e coloca a azitromicina, 10 mg/kg em dose única diária por 5 dias, como preferida em menores de 6 meses.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Vômitos em jato não biliosos, progressivos, entre a 3ª e 6ª semanas, com 'oliva' pilórica palpável e músculo pilórico espessado/alongado à USG definem estenose hipertrófica do piloro. DRGE causa regurgitação, não vômito em jato com oliva palpável nem espessamento pilórico. Atresia de esôfago manifesta-se ao nascimento com salivação e engasgos, impossibilitando alimentação. Invaginação cursa com dor intermitente, fezes em 'geleia de framboesa' e massa em salsicha, geralmente após os 3 meses. APLV dá sintomas gastrointestinais/cutâneos crônicos, não vômito em jato com oliva.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Menino de 3 a 6 semanas, vômito não bilioso em jato, faminto depois de vomitar, perdendo peso. Laboratório: alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica com acidúria paradoxal. Ultrassonografia: músculo pilórico de 3 mm ou mais é o corte concordante. Conduta: soro antes do bisturi — cloro acima de 100 e bicarbonato abaixo de 30 mEq/L antes da anestesia; potássio só depois da diurese. Cirurgia: piloromiotomia extramucosa de Fredet-Ramstedt.

em 30 dias

Refaça as duas bifurcações sem olhar: o vômito é bilioso (então é má rotação com volvo, emergência cirúrgica) ou não bilioso? E o painel é alcalose com hipocalemia (piloro) ou acidose com hipercalemia e hiponatremia (crise adrenal por hiperplasia adrenal congênita)? Depois, recite os três motivos de esperar antes de operar: hipovolemia, hipocalemia e alcalose que deprime o estímulo ventilatório. Feche lembrando que o comprimento do canal é a medida em que as fontes discordam (15, 17 ou 18 mm) e que vômito no pós-operatório imediato ocorre em até 80% e não é erro técnico.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você está no pronto-socorro pediátrico. Chega uma mãe com o filho de 5 semanas, primogênito, que vomita há três semanas depois de toda mamada — vômitos que começaram como golfadas e hoje saem em jato, sem bile, e logo depois ele chora de fome. Nasceu com 3.400 g e hoje pesa 3.250 g. Ao exame o abdome é escavado, com ondas visíveis cruzando o epigástrio, e você sente uma massa firme e móvel no quadrante superior direito. A gasometria já está pronta na sua mão: pH 7,52, bicarbonato 34, cloro 88 e potássio 3,0. O cirurgião pediátrico pergunta se pode reservar a sala para daqui a uma hora. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Estenose hipertrófica de piloro — Preparatório para provas | OsceLabs