Cirurgia GeralCirurgia Vascular

Complicações do acesso vascular: o caroço que pulsa, o que sopra e o que não aparece

Complicações de acessos vasculares (pseudoaneurisma, fístula arteriovenosa e hematoma retroperitoneal)

Três complicações da mesma punção, e o que separa uma da outra é o centímetro em que a agulha entrou. Uma se trata sem bisturi, outra quase sempre se observa, e a terceira mata porque o sangue foge para onde ninguém olha.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Qual complicação diferencia o hematoma retroperitoneal após punção femoral alta de um hematoma inguinal comum?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do que dá errado no lugar por onde o cateter entrou. O procedimento pode ter sido um cateterismo coronariano diagnóstico, uma angioplastia, um estudo eletrofisiológico ou uma intervenção endovascular periférica — o que muda pouco. O que decide a complicação é a artéria puncionada, o centímetro em que a agulha entrou e o quanto o paciente estava anticoagulado.

São três desfechos que a prova cobra juntos e que se distinguem à beira do leito. O pseudoaneurisma é massa pulsátil expansiva com sopro sistólico, e é o único dos três que costuma se tratar sem bisturi. A fístula arteriovenosa é frêmito com sopro contínuo, quase sempre pequena, e a maioria se observa. O hematoma retroperitoneal não dá massa nenhuma na virilha: ele se anuncia por hipotensão, queda de hemoglobina e dor lombar, e é o que mata.

O que fica de fora tem endereço. Lesão vascular por trauma penetrante ou contuso pertence ao capítulo de trauma e tem documento nacional próprio; aqui a lesão é iatrogênica e o mecanismo é a punção. Complicações de fístula e prótese de hemodiálise e de cateter venoso central aparecem só na última seção, para marcar a fronteira. E a oclusão arterial aguda do membro, que também pode complicar uma punção, tem capítulo inteiro nesta apostila — o que se diz aqui é apenas quando ela entra na conta.

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O que muda decisão

O centímetro que decide qual complicação você vai ter

A punção arterial femoral correta tem um alvo anatômico preciso: a artéria femoral comum, no segmento que corre sobre a cabeça do fêmur, abaixo do ligamento inguinal e acima da bifurcação em femoral superficial e femoral profunda. Esse trecho é escolhido por um motivo mecânico, e não por elegância anatômica — é o único ponto em que a artéria pode ser comprimida contra osso.

Puncionar acima do ligamento inguinal significa entrar na ilíaca externa, que corre sem osso atrás. Se o vaso sangrar depois, a compressão manual não alcança nada, e o sangue escoa livremente para o espaço retroperitoneal, que é grande e complacente o bastante para acomodar litros sem produzir abaulamento visível na virilha. É assim que nasce o hematoma retroperitoneal.

Puncionar abaixo da bifurcação, na femoral superficial ou na profunda, muda o problema. Esses vasos são mais finos, ficam mais profundos, correm junto de veias homônimas e não têm apoio ósseo adequado. O orifício fecha mal, e o sangue que escapa fica contido pelos tecidos ao redor formando um saco que continua comunicando com a luz — pseudoaneurisma. Se a agulha atravessou artéria e veia adjacente numa mesma passagem, o trajeto que sobra é uma comunicação direta entre as duas: fístula arteriovenosa.

Daí sai a frase que resume a seção: o sítio de punção escolhe a complicação. Alto demais, retroperitônio; baixo demais, pseudoaneurisma e fístula. Os demais fatores de risco somam, mas não substituem esse: introdutor calibroso, antiagregação dupla e anticoagulação plena, obesidade, artéria calcificada, hipertensão não controlada, sexo feminino, múltiplas tentativas de punção e compressão insuficiente ao final.

Há uma armadilha de superfície que produz boa parte das punções erradas, e ela é anatômica. A prega inguinal da pele não corresponde ao ligamento inguinal: em pessoas obesas ou com panículo volumoso, a prega desce vários centímetros abaixo do ligamento, e quem toma a prega como referência puncionará baixo. Ao mesmo tempo, a agulha entra na pele num ponto e alcança a artéria alguns centímetros acima, porque avança em ângulo — e daí decorre o erro de compressão mais comum: comprimir sobre o furo da pele, e não sobre o ponto arterial, que fica mais alto. Referência óssea e imagem existem justamente para tirar essas duas decisões do palpite.

A incidência ajuda a calibrar a suspeita. O pseudoaneurisma femoral é raro depois de procedimento apenas diagnóstico, ficando abaixo de 1%, e sobe para alguns por cento depois de intervenção, quando se somam introdutor maior e esquema antitrombótico mais agressivo. O hematoma retroperitoneal é ainda mais raro, mas sua letalidade é desproporcional à frequência — e é justamente por ser raro que ele é lembrado tarde.

Esquema frontal da virilha: uma faixa horizontal representando o ligamento inguinal, um círculo ósseo logo abaixo, e um tronco arterial que passa sobre o osso antes de se dividir em dois ramos; três setas apontam para o vaso em três alturas — acima da faixa, sobre o osso e abaixo da divisão.
As três setas são os três sítios de punção possíveis e as três complicações que deles decorrem. A seta alta atinge a ilíaca externa, acima do ligamento, onde não há osso atrás: o sangramento escapa para o retroperitônio e a compressão não o alcança. A seta do meio é o alvo correto, sobre a cabeça do fêmur, o único trecho que se comprime contra osso. A seta baixa atinge um ramo depois da bifurcação, mais fino, mais profundo e acompanhado de veia — é ali que nascem o pseudoaneurisma e a fístula arteriovenosa.

Pseudoaneurisma: por que o prefixo, e o que ele muda

Um aneurisma verdadeiro é a dilatação de um vaso cuja parede continua sendo parede de vaso: íntima, média e adventícia permanecem presentes, apenas afinadas e distendidas. O pseudoaneurisma não tem parede arterial nenhuma. Ele é uma rotura contida: o sangue saiu pelo orifício da punção e ficou preso num saco formado por hematoma organizado, adventícia e tecido conjuntivo vizinho, que se comunica com a luz do vaso por um colo.

A consequência clínica desse detalhe histológico é grande. Como não há média, não há elasticidade nem tônus, e o saco tende a crescer enquanto houver fluxo entrando por ele. Como o que o contém é tecido mole, a rotura para fora é possível, e a pele sobre um saco tenso pode sofrer e necrosar. E como o colo é uma comunicação estreita, ele é ao mesmo tempo o mecanismo da doença e a porta pela qual o tratamento percutâneo funciona.

O quadro clínico é reconhecível. Massa na virilha que apareceu dias depois do procedimento e cresce, dolorosa, com pulsatilidade expansiva — o achado que separa massa pulsátil de massa que apenas transmite pulso: os dedos do lado se afastam a cada sístole, em vez de subirem juntos. À ausculta, sopro sistólico sobre a massa. Equimose extensa descendo pela face medial da coxa é frequente e não é o diagnóstico: é o hematoma que acompanhou.

As complicações que mudam a conduta são cinco e valem ser sabidas de cor. Rotura, com sangramento externo ou expansão brusca. Necrose da pele por pressão do saco. Compressão do nervo femoral, que produz parestesia da face anterior da coxa e perda de força para estender o joelho ou levantar-se da cadeira. Compressão venosa, com edema do membro e risco de trombose. E infecção, que transforma toda a lógica de tratamento.

O diferencial da massa inguinal depois de punção é curto e cada item se afasta com um dado. Hematoma organizado não pulsa de forma expansiva e não tem sopro. Abscesso vem com febre, eritema, calor e provas inflamatórias em ascensão — e, quando o abscesso é sobre um saco com comunicação arterial, o nome muda para pseudoaneurisma infectado. Linfocele é indolor, de conteúdo anecoico e sem fluxo. Aneurisma verdadeiro da femoral existe, mas é raro, não guarda relação temporal com a punção e tem parede com as três camadas. E hérnia inguinal encarcerada dá massa que não pulsa de forma expansiva, com relação ao esforço e, eventualmente, com sinais obstrutivos. Nenhum desses precisa de exame sofisticado para ser afastado: pulsatilidade expansiva, sopro e a relação temporal com o procedimento resolvem quase tudo.

A confirmação é ultrassonografia com Doppler, e ela tem dois achados que o laudo nomeia. No colo, a onda espectral mostra o padrão de vaivém — fluxo que entra no saco durante a sístole e sai durante a diástole, desenhando componentes acima e abaixo da linha de base. Dentro do saco, o mapeamento colorido mostra o turbilhonamento em cores alternantes, com uma metade em cada cor, imagem que a literatura descreve como padrão de duas metades opostas. O laudo ainda mede duas coisas que decidem tratamento: o diâmetro do saco e o comprimento e a largura do colo.

Quatro perguntas decidem o tratamento do pseudoaneurisma

A primeira pergunta é se há infecção. Febre, eritema, dor progressiva desproporcional, secreção, provas inflamatórias em ascensão ou hemocultura positiva mudam a doença de nome: passa a ser pseudoaneurisma infectado, o antigo aneurisma micótico da virilha, cenário clássico em usuário de droga injetável. Nele, tudo o que é percutâneo está proibido, porque tratar por dentro deixa o foco no lugar. A conduta é cirúrgica, com desbridamento, controle proximal e distal e revascularização por trajeto fora do campo infectado quando necessária, somada a antibioticoterapia.

A segunda pergunta é sobre tamanho e sintomas. Saco pequeno, tipicamente abaixo de 2 a 3 cm, assintomático, em paciente que não está anticoagulado, tem boa chance de trombosar sozinho ao longo de algumas semanas. A conduta aceitável é observação com controle por ultrassonografia, repouso relativo e evitar flexão forçada do quadril. É a única situação em que não fazer nada é conduta ativa, e ela exige acompanhamento programado, não alta.

A terceira pergunta é sobre o colo. Colo estreito e longo é o cenário ideal para a injeção percutânea de trombina guiada por ultrassonografia, porque o material fica contido no saco. Colo curto e largo é o oposto: a trombina pode escapar para a luz arterial e produzir trombose distal, o que transforma um problema local numa isquemia de membro. Fístula arteriovenosa associada acrescenta o risco de o material alcançar a circulação venosa.

A quarta pergunta é sobre anticoagulação. Ela não impede a injeção de trombina, mas reduz drasticamente a chance de fechamento espontâneo e derruba o sucesso da compressão guiada. Se a razão normalizada internacional estiver acima da faixa terapêutica, a correção vem antes, discutida com quem prescreveu — e essa conversa é parte do tratamento, não uma formalidade, porque o paciente costuma ter uma indicação forte para anticoagular, como fibrilação atrial ou prótese valvar.

Trombina, compressão e bisturi: quem faz o quê

A injeção percutânea de trombina guiada por ultrassonografia é o tratamento de escolha da maioria dos pseudoaneurismas pós-punção. A agulha é posicionada dentro do saco, longe do colo, e uma pequena quantidade de trombina é injetada sob visão direta até que o fluxo dentro do saco cesse. O procedimento é rápido, feito com anestesia local, e as taxas de sucesso relatadas na literatura ficam acima de 90%. A complicação temida é a embolização distal do material, e é ela que explica as contraindicações da seção anterior.

A compressão guiada por ultrassonografia é a técnica mais antiga: o transdutor é usado para comprimir o colo até que o fluxo cesse, mantendo a compressão por períodos de vários minutos, repetidos. Funciona, mas é demorada, dolorosa a ponto de exigir analgesia, e o sucesso cai bastante em quem está anticoagulado. Hoje ela sobrevive como alternativa quando a trombina não está disponível ou está contraindicada por motivo que não seja infecção.

O reparo cirúrgico aberto tem indicações reconhecíveis, e a prova costuma escolher uma delas para o enunciado: infecção, rotura ou necrose iminente da pele, isquemia distal, compressão nervosa com déficit progressivo, saco muito grande com compressão venosa, e falha do tratamento percutâneo. A operação faz o óbvio — controle proximal e distal, evacuação do hematoma e sutura ou remendo do orifício arterial —, e a decisão de operar quase nunca é sobre técnica, e sim sobre reconhecer que a situação saiu da faixa percutânea.

O enxerto revestido por via endovascular cobre o orifício por dentro e tem lugar sobretudo em vasos ilíacos e em virilhas hostis por cirurgia prévia ou radioterapia. Na femoral comum ele é evitado, pelo motivo mecânico de sempre: o segmento dobra a cada flexão do quadril, e material rígido ali fratura e oclui.

Um detalhe de sequência fecha a seção. Qualquer que seja a via escolhida, a imagem de controle depois do procedimento é obrigatória, porque a recanalização do saco acontece e costuma ser silenciosa. E a retomada da anticoagulação, quando ela era necessária, precisa ser programada com data e com plano de reavaliação — deixar o paciente sem antitrombótico por tempo indeterminado troca uma complicação local por um evento embólico.

Fístula arteriovenosa iatrogênica: o sopro que não para

A fístula arteriovenosa pós-punção nasce de um gesto banal: a agulha atravessou a artéria e alcançou a veia que corre ao lado, e o trajeto entre as duas não fechou. Como a pressão arterial é muito maior que a venosa, passa a existir um fluxo contínuo de sangue arterial para dentro da veia, durante todo o ciclo cardíaco.

É essa continuidade que produz o achado semiológico que define a entidade e a separa do pseudoaneurisma. Na fístula há frêmito palpável e sopro contínuo, que atravessa a sístole e a diástole sem interrupção — o clássico sopro em maquinaria. No pseudoaneurisma há massa pulsátil expansiva e sopro sistólico. A distinção se faz com a mão e com o estetoscópio antes de qualquer exame, e a ultrassonografia com Doppler apenas confirma, mostrando arterialização do fluxo venoso e o ponto de comunicação.

A história natural é a razão de a conduta ser diferente. A maioria das fístulas iatrogênicas é pequena, tem baixo débito, não produz sintoma e fecha espontaneamente ao longo de meses. Por isso, na ausência de repercussão, a conduta é observação com controle por imagem, e não intervenção.

As situações que pedem tratamento formam uma lista curta: fístula que aumenta em controles seriados, débito alto com repercussão cardíaca, edema ou hipertensão venosa do membro, roubo de fluxo com isquemia distal, e sintomas locais persistentes. O tratamento pode ser endovascular, com enxerto revestido ou embolização, ou cirúrgico aberto, com ligadura do trajeto e reparo dos dois vasos.

Boa parte das fístulas é descoberta por acaso, num retorno em que alguém encostou o estetoscópio na virilha sem estar procurando nada — e essa é a razão de o achado aparecer em enunciado como informação lateral, no meio de uma consulta sobre outro assunto. O paciente não tem queixa, o membro está normal, e o único dado é o sopro que não cessa. Nesse cenário, a resposta esperada quase nunca é intervir: é documentar por imagem, registrar o tamanho e marcar o controle, porque o que decide tratamento é a evolução ao longo dos meses seguintes.

Duas observações que a prova gosta. A primeira: fístula e pseudoaneurisma coexistem com alguma frequência, e a associação é justamente uma das contraindicações à trombina. A segunda: uma fístula de alto débito de longa data pode produzir dilatação do segmento arterial proximal e, no limite, sobrecarga de volume no coração — motivo pelo qual a fístula que cresce não se observa indefinidamente.

Hematoma retroperitoneal: a complicação que não aparece na virilha

É a complicação de acesso que mata, e mata por um motivo simples: ela não se anuncia onde todo mundo está olhando. A punção acima do ligamento inguinal deixa o orifício num vaso que não tem osso atrás e cujo sangramento drena para um espaço grande e complacente. O paciente pode perder um volume expressivo sem que a virilha mude de aspecto.

O quadro se monta por sinais sistêmicos e por dor, quase sempre nas primeiras horas após o procedimento. Hipotensão e taquicardia, às vezes atribuídas a efeito de sedação ou a reação vagal. Queda da hemoglobina em relação ao valor pré-procedimento, que é o dado mais objetivo e o motivo de esse valor sempre valer a pena ser conhecido. Dor lombar, em flanco ou em abdome inferior, com irradiação para a virilha ou para a coxa do lado puncionado. E, com alguma frequência, neuropatia femoral por compressão do nervo no músculo iliopsoas, com dor inguinal, parestesia da face anterior da coxa e fraqueza para estender o joelho.

O erro de raciocínio que a prova cobra é o de exigir massa na virilha para levantar a hipótese. Virilha de aspecto normal não afasta o diagnóstico — ao contrário, é o achado esperado, porque o sangue foi para outro compartimento. A tríade que basta para suspeitar é hipotensão, queda de hemoglobina e dor lombar ou em flanco depois de punção femoral.

O tempo de aparecimento ajuda a levantar a suspeita e a explicar por que o diagnóstico atrasa. A maior parte dos casos se manifesta ainda nas primeiras horas depois do procedimento, dentro da própria unidade de recuperação, e não depois da alta — o que significa que a queda de pressão acontece justamente quando ela é mais fácil de atribuir a outra coisa. Reação vagal e efeito residual de sedação são as duas explicações mais oferecidas, e as duas cursam com hipotensão sem queda de hemoglobina. É por isso que o hemograma comparado ao valor prévio vale mais que qualquer impressão: ele separa o paciente que está apenas hipotenso do que está sangrando. Vale ainda lembrar que a falha de um dispositivo de fechamento entra na lista de causas, e ela costuma se apresentar cedo, com o paciente ainda monitorizado.

O exame que confirma é a tomografia computadorizada de abdome e pelve, que já mostra a coleção mesmo sem contraste. A contrastada acrescenta o ponto de extravasamento ativo quando existe e ajuda a planejar a intervenção. Ultrassonografia da virilha não responde a essa pergunta, porque o que se procura está acima e atrás.

A conduta começa com o básico e ele é decisivo: suspender e, quando indicado, reverter a anticoagulação, repor volume, tipar e reservar sangue, transfundir conforme a resposta e monitorizar. A maioria dos casos é conduzida de forma conservadora. Instabilidade que não responde à reposição, queda contínua de hemoglobina ou extravasamento ativo na imagem levam à intervenção: tamponamento por balão, enxerto revestido sobre o orifício ou reparo aberto. E, como sempre nesta doença, quem decide não é a imagem isolada, e sim a resposta hemodinâmica.

Prevenção: o que realmente reduz complicação, e o que só reduz tempo

A primeira medida preventiva é a via de acesso. Nos procedimentos coronarianos, a via radial se tornou a preferência das diretrizes justamente por reduzir sangramento e complicação do sítio de punção em relação à femoral, resultado sustentado por grandes ensaios randomizados. Trocar de artéria é a intervenção que mais muda o desfecho, porque retira o problema do território onde ele é grave.

Quando a femoral é necessária — dispositivos calibrosos, intervenção estrutural, doença radial —, o que resta é acertar o alvo. Referência fluoroscópica da cabeça do fêmur, punção guiada por ultrassonografia em tempo real, agulha de micropunção e uma única passagem bem colocada reduzem tanto o número de tentativas quanto as complicações vasculares. A régua de superfície isolada, sem imagem, é onde nascem as punções altas e as baixas.

A hemostasia ao final tem duas escolas. A compressão manual feita por tempo adequado, com o dedo sobre o ponto arterial e não sobre o ponto cutâneo — que fica alguns centímetros abaixo —, seguida de repouso, continua sendo o padrão contra o qual tudo se compara. Os dispositivos de fechamento encurtam de forma consistente o tempo até a hemostasia e o tempo até a deambulação, o que é conforto real e alta mais rápida; o que eles não fazem de maneira consistente é reduzir a taxa de complicação vascular, e eles acrescentam complicações próprias, como infecção do dispositivo, embolização de componente e oclusão arterial.

Depois do procedimento, o que previne desfecho grave é vigilância dirigida e barata: aferir pressão e frequência de forma seriada, examinar a virilha e os pulsos distais, perguntar por dor lombar e comparar a hemoglobina com o valor prévio. Nenhum desses itens custa nada, e são eles que fazem o hematoma retroperitoneal ser reconhecido na terceira hora e não na décima.

Um último ponto sobre a via radial, para que a preferência não vire despreocupação. Ela tem complicações próprias — oclusão da artéria radial, espasmo, perfuração e, raramente, síndrome compartimental do antebraço, que é a única emergência da lista e se anuncia por dor desproporcional, tensão do compartimento e déficit neurológico. Reconhecer isso é parte de escolher a via.

Quando a punção fecha o vaso em vez de abri-lo

Há uma quarta complicação de acesso que a lista clássica costuma esquecer e que a prova usa como diferencial: a oclusão arterial aguda do membro puncionado. Ela pode nascer de trombose no sítio de punção, de dissecção provocada pela agulha ou pelo introdutor, de embolização distal de trombo formado no cateter ou, mais raramente, de um dispositivo de fechamento mal posicionado que estreita a luz.

A distinção com as outras três é semiológica e imediata. Nas três primeiras o membro está perfundido — pode haver massa, sopro, edema, dor local, mas o pé está quente e com pulsos ou, ao menos, com sinal ao Doppler. Na oclusão o membro fica pálido, frio, com pulsos distais ausentes e, conforme a gravidade, com parestesia e déficit motor. Quem descreve os seis sinais clássicos está descrevendo outra doença, com outro relógio e outro capítulo.

A conduta muda de natureza. Reconhecida a oclusão, entram anticoagulação plena imediata e avaliação vascular urgente, com a classificação de beira de leito determinando o prazo — e não há espaço para observar a evolução de um membro isquêmico esperando que a punção resolva. Vale a mesma regra que abre o capítulo de oclusão arterial aguda desta apostila: a classe clínica decide se há tempo para imagem, nunca o contrário.

Existe também a versão venosa, mais silenciosa: a punção que atinge a veia femoral e, somada à imobilidade pós-procedimento, favorece trombose venosa profunda; ou o pseudoaneurisma grande que comprime a veia femoral e produz o mesmo desfecho por outro mecanismo. Por isso o edema assimétrico do membro puncionado nunca é apenas o hematoma: ele pede exame de imagem venoso, e não observação.

As fronteiras: trauma, infecção, hemodiálise e o cateter venoso

A primeira fronteira é o trauma. Pseudoaneurisma e fístula arteriovenosa também aparecem depois de ferimento por arma branca ou de fogo e depois de fratura, e ali a apresentação costuma ser mais tardia, o mecanismo é outro, e a régua é a das diretrizes de lesão vascular traumática, que têm documento nacional próprio. O ponto de contato é a semiologia — massa pulsátil com sopro sistólico contra frêmito com sopro contínuo —, e é justamente por isso que a prova mistura os dois cenários.

A segunda é a infecção, que já foi tratada acima mas merece ser dita como fronteira: o pseudoaneurisma infectado é outra doença, com outro tratamento, e nele todo procedimento percutâneo está fora de questão. O cenário que mais a produz é a punção repetida por uso de droga injetável, e o enunciado o entrega com febre, eritema, dor progressiva e provas inflamatórias em ascensão.

A terceira é o acesso para hemodiálise. Fístulas e próteses arteriovenosas construídas de propósito têm complicações parecidas com as descritas acima — pseudoaneurisma sobre o ponto de punção repetida, estenose, trombose, isquemia da mão por roubo de fluxo, alto débito com repercussão cardíaca —, mas a lógica de tratamento é oposta em um ponto essencial: ali o objetivo é preservar o acesso, porque o paciente depende dele. Uma dilatação sobre a área de punção de uma fístula não se trata como um pseudoaneurisma pós-cateterismo.

A quarta é o acesso venoso central. As complicações imediatas dele são outras — punção arterial inadvertida, pneumotórax, mau posicionamento da ponta, arritmia durante a passagem do fio guia — e a medida que mais as reduz é a mesma que reduz as complicações da punção femoral: guiar a punção por ultrassonografia. Se a punção arterial inadvertida ocorrer com dilatador ou cateter calibroso já introduzido, a regra é não retirar às cegas: mantém-se o dispositivo no lugar e aciona-se a equipe vascular, porque a retirada seguida de compressão pode produzir sangramento incontrolável em território não compressível.

Fecha o capítulo a lição que atravessa todas as fronteiras. As três complicações principais nascem no mesmo gesto e se separam por três dados que o exame físico entrega de graça: se há massa pulsátil expansiva, se o sopro é sistólico ou contínuo, e se a virilha está normal enquanto a pressão cai. Nenhum desses três exige tecnologia — exigem que alguém volte ao leito e examine.

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Três complicações, três achados de beira de leito

Os cartões abaixo organizam o tema pelo que o exame físico entrega antes de qualquer imagem. A ordem é a da gravidade imediata, do que se observa ao que mata. Repare que o dado que separa cada um do seguinte é sempre semiológico, e não de exame complementar.

Pseudoaneurisma — massa pulsátil expansiva e sopro sistólico

Massa na virilha que apareceu dias depois e cresce, dolorosa, com pulsatilidade expansiva que afasta os dedos a cada sístole, e sopro sistólico à ausculta. A ultrassonografia com Doppler mostra vaivém no colo e turbilhonamento em cores alternantes no saco, e mede o diâmetro e o colo. Tratamento de escolha na maioria: injeção de trombina guiada por ultrassonografia.

Fístula arteriovenosa — frêmito e sopro contínuo

Frêmito palpável e sopro que atravessa sístole e diástole sem interrupção, em geral sem massa pulsátil expansiva. A ultrassonografia mostra arterialização do fluxo venoso e o ponto de comunicação. A maioria é pequena, assintomática e fecha sozinha: a conduta padrão é observação com controle. Tratar quando cresce, produz edema, rouba fluxo ou tem repercussão cardíaca.

Hematoma retroperitoneal — a virilha normal que engana

Hipotensão, taquicardia, queda de hemoglobina em relação ao valor prévio e dor lombar, em flanco ou em abdome inferior, com virilha frequentemente sem massa. Pode haver neuropatia femoral por compressão no iliopsoas. O exame é a tomografia de abdome e pelve. Reverter a anticoagulação, repor volume e transfundir; intervir se a instabilidade persistir.

Oclusão arterial aguda — o membro que perde perfusão

Trombose no sítio de punção, dissecção pela agulha, embolização distal ou dispositivo de fechamento mal posicionado. O membro fica pálido e frio, com pulsos distais ausentes e, conforme a gravidade, parestesia e déficit motor. É a única das quatro em que o membro deixa de ser perfundido, e a conduta é anticoagulação plena imediata e avaliação vascular urgente.

Punção acima do ligamento inguinal aponta para o retroperitônio; punção abaixo da bifurcação femoral aponta para pseudoaneurisma e fístula. O alvo correto é a femoral comum sobre a cabeça do fêmur, o único trecho que se comprime contra osso.

Febre, eritema, dor progressiva e provas inflamatórias em ascensão transformam o pseudoaneurisma em doença cirúrgica: com infecção, nenhum tratamento percutâneo é aceitável.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Até que tamanho o pseudoaneurisma pós-punção pode ser apenas observado

Até cerca de 2 cm

A posição mais conservadora limita a observação aos sacos de até aproximadamente 2 cm, assintomáticos e em paciente sem anticoagulação, com o argumento de que acima disso a chance de fechamento espontâneo cai e o risco de crescimento e de complicação de pele e nervo aumenta.

Revisões sobre pseudoaneurisma femoral pós-acesso percutâneo em Journal of Vascular Surgery, seções sobre história natural e seleção para conduta expectante.

Até cerca de 3 cm

Outra leitura estende o limite para perto de 3 cm, apoiada em séries em que sacos desse tamanho fecharam sozinhos em algumas semanas sob controle ultrassonográfico, e argumenta que tratar todos acima de 2 cm submete parte dos pacientes a um procedimento que a espera resolveria.

Séries de acompanhamento ultrassonográfico de pseudoaneurismas femorais citadas nas mesmas revisões, com desfecho de trombose espontânea em quatro a oito semanas.

Na prova

O intervalo em que os textos discordam é estreito e fica entre 2 e 3 cm. Fora dele não há controvérsia: saco de 1,5 cm assintomático em paciente não anticoagulado se observa, e saco de 5 cm com dor não se observa em nenhuma leitura. Quando o enunciado der um valor dentro da faixa, o que decide não é o número e sim o que vem com ele — anticoagulação em curso, sintoma compressivo, crescimento em controles ou pele em sofrimento tiram o caso da conduta expectante em qualquer das duas réguas.

O que os dispositivos de fechamento vascular de fato entregam

Entregam tempo, e não redução de complicação

A leitura predominante reconhece que os dispositivos encurtam de forma consistente o tempo até a hemostasia e até a deambulação, mas sustenta que não há demonstração consistente de redução da taxa de complicação vascular em relação à compressão manual bem feita, e lembra que eles acrescentam complicações próprias.

Metanálises e revisões sobre dispositivos de fechamento arterial femoral versus compressão manual, e as seções correspondentes das diretrizes de intervenção coronariana percutânea.

Entregam também menos complicação em subgrupos

Há posição que sustenta benefício adicional em subgrupos selecionados — obesos, pacientes sob anticoagulação plena, introdutores calibrosos e programas de alta no mesmo dia —, em que a hemostasia confiável e precoce reduziria eventos, ainda que o efeito não apareça na população geral.

Registros e séries de intervenção percutânea que analisaram desfechos por subgrupo de risco de sangramento, discutidos nas mesmas revisões.

Na prova

A discordância é sobre benefício adicional, não sobre o benefício principal, e as duas posições concordam no que a questão costuma cobrar: dispositivo de fechamento encurta tempo e não substitui a punção no lugar certo. Quando o enunciado oferecer o dispositivo como medida para prevenir complicação vascular, ele está oferecendo o benefício que a evidência não sustenta de forma consistente. A medida que reduz complicação é acertar o sítio de punção, com referência óssea e imagem.

Anticoagulação plena e injeção de trombina: contraindicação ou apenas cautela

Cautela, com correção prévia quando possível

A leitura mais difundida trata a anticoagulação como fator que reduz o fechamento espontâneo e o sucesso da compressão, mas não como impedimento à trombina; recomenda corrigir a anticoagulação supraterapêutica antes do procedimento e manter vigilância maior para recanalização do saco.

Revisões sobre injeção percutânea de trombina guiada por ultrassonografia em Journal of Vascular Surgery, seções de seleção de pacientes e de resultados sob antitrombótico.

Motivo para preferir o reparo aberto em casos selecionados

Outra posição, minoritária, prefere o reparo cirúrgico quando há anticoagulação plena que não pode ser interrompida somada a saco grande ou colo desfavorável, com o argumento de que a taxa de recanalização e de reintervenção nesse subgrupo torna o percutâneo menos vantajoso do que parece.

Séries cirúrgicas de pseudoaneurisma femoral em pacientes sob anticoagulação contínua, discutidas nas mesmas revisões como alternativa em anatomia desfavorável.

Na prova

As duas posições concordam nas contraindicações verdadeiras da trombina, que são infecção, colo curto e largo, fístula arteriovenosa associada e isquemia distal — e a anticoagulação não está nessa lista. Um enunciado que apresente a anticoagulação como contraindicação absoluta à trombina está trocando cautela por proibição. O que a razão normalizada internacional acima da faixa terapêutica indica é uma correção prévia, discutida com quem prescreveu, e não a exclusão do tratamento percutâneo.

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Caso resolvido

Mulher de 71 anos, com fibrilação atrial anticoagulada, é encaminhada ao ambulatório de cirurgia vascular nove dias após cateterismo cardíaco diagnóstico por via femoral direita. No terceiro dia após a alta percebeu abaulamento na virilha direita, que vem crescendo; ao colocar a mão sobre o local, sente pulsação nítida. A dor é moderada, aparece ao caminhar e ao subir escadas e melhora ao sentar-se. Notou mancha arroxeada que se estendeu pela face interna da coxa até o joelho ao longo da primeira semana. Há quatro dias apresenta formigamento na face anterior da coxa direita, sem perda de força para levantar-se da cadeira. Nega febre, calafrios, vermelhidão local, secreção e ferida aberta; nega dormência, frialdade ou palidez do pé direito. Ao exame: abaulamento arredondado de cerca de 4 cm abaixo do ligamento inguinal direito, com pele íntegra e de coloração normal; massa de cerca de 3 cm, elástica e tensa, dolorosa à compressão, com pulsatilidade expansiva que separa os dedos a cada sístole; sopro sistólico à ausculta da massa; pulsos distais presentes e simétricos, pés quentes, enchimento capilar de 2 segundos. Exames: hemoglobina 10,8 g/dL contra 12,6 g/dL antes do cateterismo; razão normalizada internacional de 3,8 para faixa-alvo de 2,0 a 3,0; proteína C reativa 9 mg/L; hemoculturas sem crescimento; ultrassonografia com Doppler mostrando coleção de 3,2 por 2,8 cm adjacente à artéria femoral comum, com fluxo turbilhonar bidirecional e cores alternantes, e colo de 2 mm de largura por 14 mm de comprimento.
primeiro, feche o diagnóstico com a mão e o estetoscópio
Massa que apareceu dias depois da punção e cresce, com pulsatilidade expansiva que separa os dedos a cada sístole e sopro sistólico à ausculta, é pseudoaneurisma. Se o achado fosse frêmito com sopro contínuo, atravessando sístole e diástole, a doença seria outra — fístula arteriovenosa —, com conduta majoritariamente expectante. A equimose que desceu pela coxa acompanha e não faz diagnóstico.
segundo, leia o laudo pelas duas medidas que decidem
A ultrassonografia confirma com os dois achados que nomeiam a entidade: fluxo bidirecional de vaivém no colo e turbilhonamento em cores alternantes dentro do saco. O que muda a conduta são as medidas: saco de 3,2 cm, portanto fora da faixa de observação, e colo de 2 mm por 14 mm, estreito e longo — a anatomia mais favorável possível para a injeção percutânea de trombina.
terceiro, afaste infecção antes de qualquer plano percutâneo
Ausência de febre, de eritema, de secreção e de ferida aberta, proteína C reativa apenas discretamente elevada e hemoculturas sem crescimento afastam pseudoaneurisma infectado. Essa checagem não é acessória: com infecção, todo tratamento percutâneo estaria proibido e a doença passaria a ser cirúrgica, com desbridamento e revascularização fora do campo contaminado.
quarto, corrija a anticoagulação supraterapêutica antes de intervir
Razão normalizada internacional de 3,8 para uma faixa-alvo de 2,0 a 3,0 é excesso, e ele reduz a chance de fechamento e aumenta o risco de sangramento durante o procedimento. A correção é feita em conjunto com quem prescreveu, porque a indicação de anticoagular permanece — fibrilação atrial não some. Atenção: anticoagulação não é contraindicação à trombina, é motivo de ajuste e de vigilância maior.
quinto, escolha o tratamento pela anatomia do colo
Com colo estreito e longo, sem infecção e sem fístula associada, a injeção percutânea de trombina guiada por ultrassonografia é o tratamento de escolha, com taxas de sucesso acima de 90%. A compressão guiada seria alternativa se a trombina estivesse indisponível, e ela é demorada, dolorosa e menos eficaz sob anticoagulação. O reparo aberto não é a primeira opção aqui.
sexto, vigie o nervo, porque ele pode mudar o plano
O formigamento da face anterior da coxa sugere compressão do nervo femoral pelo saco, e por enquanto é apenas sensitivo, sem perda de força. Se aparecer déficit motor progressivo — dificuldade para estender o joelho ou para levantar-se da cadeira —, a indicação passa a ser reparo aberto, e não mais percutâneo. É um dado a ser reavaliado, e não anotado uma única vez.
sétimo, programe controle, retomada e alta orientada
Imagem de controle depois do procedimento é obrigatória, porque a recanalização do saco acontece e é silenciosa. A retomada da anticoagulação sai com data e plano, e não em aberto, para não trocar uma complicação local por um evento embólico. A alta leva repouso relativo, orientação para evitar flexão forçada do quadril e sinais de alarme claros: crescimento rápido, dor intensa, febre, pele escurecida sobre a massa, perda de força na coxa, ou pé frio e sem pulso.
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Agora feche você

Homem de 68 anos, hipertenso e obeso, foi submetido a angioplastia coronariana com implante de dois stents por via femoral direita, com introdutor calibroso, sob dupla antiagregação e heparinização plena durante o procedimento. A hemostasia foi obtida com dispositivo de fechamento. Três horas depois, na unidade de recuperação, refere dor lombar direita de forte intensidade e dor em fossa ilíaca direita, além de formigamento na face anterior da coxa. Está pálido e sudoreico, com pressão arterial de 82 x 50 mmHg e frequência cardíaca de 118 bpm, sem melhora após 500 mL de cristaloide. A virilha direita tem curativo limpo, sem abaulamento, sem equimose visível e sem massa palpável; não se ausculta sopro no local. Os pulsos femoral, poplíteo e distais estão presentes e simétricos, e os pés estão quentes. A hemoglobina é de 8,4 g/dL, contra 13,1 g/dL colhida na manhã do procedimento. O eletrocardiograma mostra taquicardia sinusal sem alterações isquêmicas novas.
a hipótese e o que a sustenta
o dado que quase todo mundo usa para descartar
o mecanismo anatômico
o exame que confirma
as primeiras medidas
o que decide intervir
o diferencial que precisa ser afastado
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Onde a banca derruba

  1. 1Exigir massa na virilha para pensar em hematoma retroperitoneal Virilha de aspecto normal é o achado esperado, e não o que afasta o diagnóstico: o sangue foi para um espaço grande e complacente atrás do peritônio. A tríade que basta para suspeitar é hipotensão, queda de hemoglobina em relação ao valor prévio e dor lombar, em flanco ou em abdome inferior depois de punção femoral. O exame é a tomografia de abdome e pelve, não a ultrassonografia da virilha.
  2. 2Confundir sopro sistólico com sopro contínuo Massa pulsátil expansiva com sopro sistólico é pseudoaneurisma. Frêmito com sopro que atravessa sístole e diástole sem interrupção é fístula arteriovenosa. A diferença muda a conduta inteira: o primeiro costuma ser tratado, o segundo costuma ser observado. É semiologia de mão e estetoscópio, feita antes de qualquer exame.
  3. 3Injetar trombina em pseudoaneurisma infectado Febre, eritema, dor progressiva desproporcional, provas inflamatórias em ascensão ou hemocultura positiva mudam a doença de nome. No pseudoaneurisma infectado, tratar por dentro deixa o foco no lugar: a conduta é cirúrgica, com desbridamento, controle proximal e distal, revascularização por trajeto fora do campo infectado quando necessária, e antibioticoterapia.
  4. 4Injetar trombina com colo curto e largo ou com fístula associada O colo estreito e longo é o que mantém o material dentro do saco. Colo curto e largo permite que a trombina escape para a luz arterial e produza trombose distal, transformando um problema local em isquemia de membro; fístula arteriovenosa associada acrescenta a passagem para a circulação venosa. As medidas do colo estão no laudo justamente para isso.
  5. 5Tratar a anticoagulação como contraindicação absoluta à trombina Ela reduz o fechamento espontâneo e derruba o sucesso da compressão guiada, mas não impede a injeção de trombina. O que a razão normalizada internacional supraterapêutica pede é correção prévia, discutida com quem prescreveu — e essa conversa importa, porque o paciente costuma ter indicação forte de anticoagular, como fibrilação atrial ou prótese valvar.
  6. 6Observar pseudoaneurisma com déficit neurológico progressivo Parestesia da face anterior da coxa com perda de força para estender o joelho ou levantar-se da cadeira indica compressão do nervo femoral, e déficit que progride é indicação de reparo aberto, não de espera nem de procedimento percutâneo. A mesma lógica vale para pele em sofrimento sobre o saco, isquemia distal e compressão venosa com edema.
  7. 7Achar que o dispositivo de fechamento previne complicação vascular Ele encurta de forma consistente o tempo até a hemostasia e até a deambulação, o que é conforto real. O que não faz de maneira consistente é reduzir a taxa de complicação vascular, e ainda acrescenta complicações próprias, como infecção do dispositivo, embolização de componente e oclusão arterial. Quem previne complicação é a punção no sítio certo, com referência óssea e imagem.
  8. 8Retirar às cegas o cateter que entrou na artéria por engano Na punção arterial inadvertida durante acesso venoso central, com dilatador ou cateter calibroso já introduzido em território não compressível, a retirada seguida de compressão pode produzir sangramento incontrolável. A regra é manter o dispositivo no lugar e acionar a equipe vascular, que planeja a remoção com controle do vaso.
  9. 9Ler edema assimétrico do membro puncionado como sendo só o hematoma Edema do membro depois de punção femoral pede investigação venosa. Ele pode ser trombose venosa profunda favorecida pela punção e pela imobilidade, ou compressão da veia femoral por um pseudoaneurisma grande — e as duas hipóteses mudam a conduta. Atribuir o achado ao hematoma e observar é o caminho para descobrir o problema tarde.
  10. 10Tratar o pseudoaneurisma sobre fístula de hemodiálise como se fosse pós-cateterismo No acesso construído para diálise, a lógica é oposta em um ponto essencial: o objetivo é preservar o acesso, do qual o paciente depende. Dilatação sobre área de punção repetida, estenose, trombose e isquemia da mão por roubo de fluxo têm manejo próprio, com revisão do acesso, e não seguem o algoritmo do saco pós-punção femoral.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Quando a punção é feita acima do ligamento inguinal, o sangramento drena para o retroperitônio, onde não há barreira e onde ele não é visível: o paciente apresenta dor lombar ou abdominal, hipotensão e queda de hemoglobina sem massa aparente na virilha, e o diagnóstico costuma atrasar justamente porque se procura um hematoma que não aparece. A confirmação é tomográfica, e o tratamento vai da ressuscitação e reversão de anticoagulação até a embolização ou o reparo cirúrgico. É a razão de se puncionar a femoral comum sobre a cabeça do fêmur.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar nada, escreva: (1) o alvo anatômico correto da punção femoral e as duas complicações que nascem, respectivamente, de puncionar acima e abaixo dele; (2) o que falta na parede do pseudoaneurisma que existe na parede do aneurisma verdadeiro, e a consequência clínica disso; (3) os dois achados ultrassonográficos que nomeiam o pseudoaneurisma e as duas medidas do laudo que decidem tratamento; (4) as quatro contraindicações verdadeiras da injeção de trombina; (5) a tríade que basta para suspeitar de hematoma retroperitoneal e o exame que confirma; (6) a diferença semiológica entre pseudoaneurisma e fístula arteriovenosa, em uma frase.

em 30 dias

Pegue a paciente do caso resolvido — 71 anos, anticoagulada por fibrilação atrial, nove dias após cateterismo femoral direito, massa inguinal de 3 cm pulsátil e expansiva com sopro sistólico, colo de 2 mm por 14 mm, razão normalizada internacional de 3,8, hemoglobina de 10,8 contra 12,6 antes do procedimento, formigamento na face anterior da coxa sem perda de força — e mude um dado por vez, dizendo o que quebra em cada mudança. E se o sopro fosse contínuo e não houvesse massa pulsátil? E se o colo tivesse 9 mm de largura e 3 mm de comprimento? E se houvesse febre de 38,5 graus, eritema local e proteína C reativa em ascensão? E se ela não conseguisse levantar-se da cadeira, com perda de força progressiva em três dias? E se, no segundo dia após o cateterismo, ela tivesse apresentado hipotensão, dor lombar e queda de hemoglobina, com a virilha de aspecto normal? E se o pé direito estivesse pálido, frio e sem pulsos? Em seguida, escreva em duas frases a orientação de alta que a paciente e a família precisam ouvir, com os sinais que obrigam a voltar à urgência.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você está no ambulatório de cirurgia vascular. Chega uma mulher de 71 anos, encaminhada pela cardiologia, que fez cateterismo pela virilha direita há nove dias e voltou com um caroço que cresce e pulsa. Ela está assustada, quer saber se alguém errou o procedimento e pergunta se vai precisar operar. Conduza o atendimento: levante a data, a via e o motivo do cateterismo, caracterize o surgimento e o crescimento do abaulamento, procure ativamente febre, vermelhidão e secreção, investigue o formigamento e a força da coxa, pergunte pelo anticoagulante e pela data do último controle, faça e narre o exame que distingue massa pulsátil expansiva de frêmito com sopro contínuo, diga quais exames pede e o que espera de cada um, e explique o tratamento e os sinais de alarme sem atribuir culpa à equipe que fez o procedimento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Complicações de acessos vasculares – Complicações do acesso vascular: o caroço que pulsa, o que sopra e o que não aparece — Preparatório para provas | OsceLabs