Cirurgia GeralCirurgia Vascular

Oclusão arterial aguda de membro: o P mais raro é o que marca a hora

A dor está em quase todos e não decide nada. Quem decide é a parestesia, a paresia e o que o Doppler ouve — e a régua que faz isso tem um xará no capítulo vizinho.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 72 anos, hipertensa, procura atendimento com dor súbita, intensa e de forte intensidade no membro inferior esquerdo, iniciada há 3 horas. Ao exame o membro está pálido, frio, com ausência de pulsos distais e parestesia leve. Ela tem história de fibrilação atrial sem anticoagulação. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da queda súbita de perfusão de um membro por obstrução arterial, no adulto, quando não houve trauma. Ele existe porque a apostila tinha, até aqui, a doença arterial crônica com capítulo próprio, a doença venosa aguda com capítulo próprio e a doença venosa crônica com capítulo próprio — e a arterial aguda, que é a mais rápida das quatro, morava dentro do capítulo da crônica.

A prova cobra este tema por três portas, e nenhuma delas é a técnica cirúrgica. A primeira é o nome: o enunciado escolhe entre dois termos que não são sinônimos, e um terceiro que a literatura brasileira já declarou redundante em letra impressa. A segunda é a régua, que tem xará: existe uma classificação de Rutherford para a doença crônica, com categorias numeradas, e outra para a doença aguda, com graus em algarismos romanos — e a questão quase nunca diz de qual está falando. A terceira é o relógio, e o que a banca testa nele é se o candidato sabe que o achado que muda a conduta não é o mais frequente.

O que este capítulo não faz é ensinar técnica de embolectomia, escolha de enxerto ou trombólise dirigida por cateter. Também não trata de lesão vascular traumática, que tem documento nacional próprio, nem da isquemia de membro na criança, cuja epidemiologia é outra: na população pediátrica a taxa é de 26 casos por 100.000 internações e a maioria é traumática ou iatrogênica. O adulto com fibrilação atrial e o adulto tabagista com claudicação prévia são os dois pacientes deste capítulo.

03

O que muda decisão

Dois nomes para a mesma urgência, e um terceiro que sobra

Em 2023 o Jornal Vascular Brasileiro publicou uma carta ao editor de duas páginas que resolve, em letra impressa, uma confusão que a prova explora todo ano. A carta observa que o título de um artigo anterior usava o termo isquemia arterial aguda e que esse termo é redundante, porque toda isquemia é arterial — a menos que haja uma exceção que vale guardar, e que aparece logo adiante. Os autores criticados responderam na mesma página: após revisão da literatura consolidada, concluíram que o termo é de fato uma redundância, e atribuíram o deslize ao uso corriqueiro na prática clínica.

A parte que interessa ao candidato não é a redundância; é a distinção que a carta faz entre os dois termos que sobram. Oclusão pode ser dita tanto do sistema venoso quanto do arterial, e por isso o termo oclusão arterial aguda precisa explicitar o vaso: ele nomeia a causa e exige o endereço. Já isquemia aguda de membros carrega implicitamente que a isquemia é arterial: ele nomeia a consequência e dispensa o endereço. Não são sinônimos perfeitos, e a carta registra que o segundo tem sido cada vez mais usado na literatura internacional.

A exceção que confirma a regra cai em prova de diagnóstico diferencial. Na flegmasia cerúlea dolens existe isquemia de membro cuja origem não é arterial: a estase venosa é tão grave nas vênulas que a perfusão pelas arteríolas cai de forma abrupta. O membro fica doloroso, frio e cianótico, e os pulsos podem sumir — só que o problema começou do lado venoso. É o único cenário em que a frase toda isquemia é arterial precisa de nota de rodapé, e é por isso que a banca gosta dele: a vinheta traz edema importante e cianose num membro que também está frio, e o candidato que só decorou os seis sinais clássicos vai tratar como oclusão arterial.

A confusão não é teórica. Um artigo do mesmo periódico, de 2022, sobre isquemia de membro depois de infecção viral, traz no título o termo isquemia aguda de membro e, no resumo da mesma página, o termo oclusão arterial aguda, para os mesmos três pacientes. Quando a literatura alterna os nomes dentro de um único documento, o enunciado também alterna — e a leitura correta é ignorar qual dos dois foi escolhido e procurar, no texto, o que descreve o vaso e o tempo.

Diagrama em duas colunas: à esquerda um vaso com tampão obstruindo a luz e o trecho seguinte tracejado; à direita uma perna com transição de cor na coxa média, pálida abaixo; uma seta liga a coluna da esquerda à da direita.
À esquerda, a oclusão: o evento no vaso, que exige dizer qual vaso. À direita, a isquemia: a consequência no membro, que já vem com o endereço embutido. Os dois termos descrevem pontas opostas da mesma seta, e é por isso que trocá-los muda a pergunta que o enunciado está fazendo.

Rutherford tem xará: a régua aguda não é a régua crônica

Este é o erro de leitura mais caro do tema, e não é erro de conteúdo. O capítulo de doença arterial obstrutiva periférica, nesta apostila, ensina a classificação de Rutherford para doença crônica, que numera categorias de 0 a 6 e anda em paralelo com os estágios de Fontaine. A doença aguda tem outra tabela, com outro critério de preenchimento e outros nomes de classe: graus I, IIa, IIb e III. As duas se chamam Rutherford.

A régua aguda, na versão em português reproduzida na série brasileira de 2020 e ali declarada adaptada da classificação conjunta da Society for Vascular Surgery e da International Society of Cardiovascular Surgery, é curta e inteiramente operacional. O grau I é o membro viável: sem sinais neurológicos e com som arterial audível. O grau IIa é o marginalmente ameaçado: parestesia, sem som arterial, som venoso presente. O grau IIb é o de ameaça imediata: algum grau de paresia, sem som arterial, som venoso presente. O grau III é o membro inviável: paralisia, contratura, e ausência dos dois sons.

Repare no que separa cada degrau do seguinte, porque é onde a questão mora. Entre I e IIa muda o aparecimento de sinal sensitivo e o sumiço do som arterial. Entre IIa e IIb muda uma única coisa: a sensibilidade alterada vira déficit motor, ainda que discreto. E entre IIb e III muda também uma única coisa: some o som venoso. A diferença entre operar agora e não operar nunca cabe num achado de Doppler de bolso.

Como a régua crônica numera categorias e a aguda numera graus, o enunciado que escreve apenas Rutherford 3 é ambíguo por construção. O sinal mais confiável não é a grafia, é o vocabulário ao redor: se a vinheta fala em claudicação a tantos metros, dor em repouso há semanas ou índice tornozelo-braquial, a régua é a crônica. Se fala em horas, em som ao Doppler, em parestesia ou em paresia, a régua é a aguda. Misturar as duas é erro de leitura, não de conteúdo.

Quem preenche a régua é o Doppler, não o pulso

As quatro linhas da classificação têm uma coluna de sinais clínicos e uma de exame ao Doppler, e as duas são necessárias. A palpação de pulso, sozinha, é pouco confiável aqui: o membro está frio e doloroso, e a ausência de pulso já foi estabelecida antes de a classificação começar. O que ela pergunta não é se há pulso; é se há som.

O aparelho é o Doppler de onda contínua de beira de leito, e o gesto tem dois tempos que o candidato reduz a um. Primeiro procura-se sinal arterial no tornozelo. Depois — e esta é a metade que se esquece — procura-se sinal venoso. É a segunda busca que separa o membro salvável do que já morreu, porque a linha do grau III é definida pela ausência dos dois sons, e não pela do arterial.

Traduzindo: sinal arterial audível coloca o paciente no grau viável, mesmo com dor intensa e palidez impressionantes. Arterial inaudível com venoso audível põe na faixa ameaçada, e ali quem decide entre marginal e imediato é o exame motor. Os dois inaudíveis, com paralisia e contratura, fecham o grau III. Um exame de menos de um minuto faz toda a triagem — e é a classe que decide se há tempo para a angiotomografia, nunca o contrário.

Os seis sinais em ordem de frequência, e por que a ordem se inverte

A série brasileira de 2020, feita em hospital universitário com 105 prontuários, publicou a frequência de cada sinal, e a lista merece ser lida na ordem em que os números caem. Dor em 97,1%. Esfriamento em 89,5%. Palidez em 64,7%. Parestesias em 44,7%. Paralisias em 30,5%. Anestesias em 21,9%. A mesma tabela ainda traz edema em 21,9% e cianose em 15,2%, que não pertencem à lista clássica de seis.

Agora sobreponha essa ordem à de importância decisória e veja que elas se cruzam. A dor está em quase todos e não classifica ninguém: aparece igual no grau viável e no inviável, e também em quem não tem oclusão nenhuma. O esfriamento, segundo mais frequente, tem o mesmo problema, e a palidez também. Os dois sinais que movem o paciente de degrau — a parestesia e a paresia — são justamente os menos frequentes da lista. O sinal mais comum é o que menos decide sozinho; o mais raro é o que marca a hora.

Há uma segunda inversão, escondida entre a dor de 97,1% e a anestesia de 21,9%. Esses dois números não descrevem pacientes diferentes: descrevem, em muitos casos, o mesmo paciente em dois momentos. O nervo periférico é o tecido mais sensível à isquemia, e quando ele para de funcionar a dor que era o sinal mais fiel desaparece. O membro que parou de doer não melhorou — progrediu. É o déficit apagando o sinal.

A regra de leitura que fica: procure primeiro os dois sinais raros. Sensibilidade e força preservadas com som arterial audível pedem anticoagular e investigar, não correr. Parestesia sem déficit motor é membro salvável com o relógio correndo. Qualquer fraqueza torna a revascularização imediata. E anestesia com paralisia e rigidez muda a pergunta que a banca está fazendo.

Duas barras horizontais empilhadas, cada uma dividida em seis segmentos de largura decrescente em sentidos opostos, ligadas por linhas tracejadas que se cruzam ao centro.
A régua de cima é a frequência dos sinais, do mais comum ao mais raro; a de baixo é o peso de cada um na decisão, do que menos decide ao que mais decide. Os pontilhados se cruzam porque as duas ordens são inversas: a dor lidera uma e fecha a outra, e a paresia faz o caminho contrário.

Embolia ou trombose: o exame decisivo é o membro que não dói

As duas etiologias mudam o gesto cirúrgico, o prognóstico e a investigação posterior, e a vinheta quase sempre traz o dado que as separa. Na série brasileira, a fibrilação atrial esteve em 19 dos 37 casos embólicos, contra apenas 1 dos 57 trombóticos e 1 dos 11 indefinidos — vinte pacientes em toda a coorte, quase todos num único grupo. Do outro lado, aneurisma de poplítea, doença arterial periférica e tabagismo concentraram-se no grupo trombótico.

Traduzindo para a cabeceira: a embolia acontece em artéria previamente saudável, a trombose em artéria previamente doente. Daí sai o exame que não custa nada. Examine o membro contralateral. Se ele tem todos os pulsos, inclusive distais, e pele normal, a artéria era boa até hoje de manhã e a origem provável é embólica — procure a fonte no coração. Se tem pulsos reduzidos, pele atrófica e rarefação de pelos, a doença é bilateral e antiga, e o que houve foi trombose sobre placa.

O segundo dado é a história de claudicação. Quem claudicava há dois anos tinha circulação colateral em construção, e por isso a oclusão trombótica se apresenta mais arrastada, com mais horas até o atendimento. Quem nunca claudicou não tinha colateral nenhuma, e a embolia é súbita e brutal. É contraintuitivo e cai em prova: o quadro mais dramático costuma ter melhor prognóstico de membro, porque a artéria a jusante é boa.

Um terceiro cenário ensina humildade: a série teve 10,5% de origem indefinida, e um relato do mesmo periódico descreve embolia paradoxal — trombo que passa da circulação venosa para a arterial por forame oval pérvio — em menos de 2% de todas as embolias arteriais, num homem de 27 anos sem fator de risco clássico, classificado como grau I. Insistir em encaixar o paciente jovem numa das duas caixas é como se erra a fonte.

Dois denominadores para a mesma pergunta etiológica

A distribuição de causas parece simples até se comparar duas séries. A brasileira de 2020 publica trombótica em 54,3%, embólica em 35,2% e indefinida em 10,5%, e a coluna fecha em 100,0 exatos. As séries internacionais que circulam nos resumos publicam repartição próxima de 53% trombótica e 44% embólica, com o restante em aneurisma. À primeira vista discordam bastante sobre a fração embólica: quase nove pontos separam 35,2 de 44.

Só que os denominadores não são os mesmos, e o nome de cada um está impresso na própria tabela. O denominador brasileiro é todos os casos admitidos, e reserva uma coluna inteira para a etiologia que a investigação não resolveu. O da comparação é apenas os casos resolvidos, porque a repartição em três causas nomeadas não deixa espaço para indeterminação. São perguntas diferentes: uma mede as causas na população que chega, a outra entre as que se conseguiu nomear.

Refazer a conta no mesmo denominador desmonta a maior parte da discordância. Retirando a coluna indefinida, o divisor brasileiro cai de 100 para 89,5: a fração embólica passa de 35,2% para 39,3% e a trombótica de 54,3% para 60,7%. A distância na fração embólica encolhe de quase nove pontos para menos de cinco. Repare que a correção não elimina a diferença — ela a reduz de um lado e a aumenta do outro, porque a fração trombótica brasileira, que parecia próxima da internacional, passa a superá-la com folga.

A regra serve para qualquer enunciado com percentual etiológico: antes de comparar duas frações, procure a coluna que uma fonte tem e a outra não. Aqui ela se chama indefinido, e existe porque investigar a fonte embólica depende de exames que nem todo serviço completa antes da alta. Série sem coluna de indeterminados não é mais precisa: é a que classificou por obrigação o que a outra deixou em aberto.

Uma conta que só repete a si mesma, e um divisor que escorregou

Ainda na série brasileira há duas lições sobre como ler número em prova, e as duas se recuperam com aritmética de papel. A primeira é uma reconciliação falsa. O artigo informa que a tromboembolectomia com cateter de balão foi realizada em 73,3% dos casos, e em seguida abre a mesma informação por etiologia: 81,0% nas embolias, 71,9% nas tromboses e 54,5% nos indefinidos. Parece que o agregado confirma os subgrupos, e não confirma: ele é os subgrupos.

A verificação é curta. Os grupos têm 37, 57 e 11 pacientes, que somam os 105 da coorte. Aplicando cada taxa ao seu grupo: 81,0% de 37 dá 30; 71,9% de 57 dá 41; 54,5% de 11 dá 6. Somando, 30 mais 41 mais 6 são 77, e 77 sobre 105 dá 73,33% — exatamente o valor publicado. O agregado não é uma segunda medição que corrobora a primeira: é a média ponderada dela, recalculada. E a conta devolve de brinde três números que o artigo nunca imprime.

A segunda lição é um erro recuperável, entre o resumo e a tabela do mesmo artigo. A tabela publica a mortalidade em 30 dias por etiologia: 6 óbitos no grupo embólico, 7 no trombótico e 1 no indefinido. A coluna soma 14 óbitos, e 14 sobre 105 dá 13,3% — valor que a própria tabela imprime. O resumo, porém, publica mortalidade total de 14,6%, e esse número não sai de 105: nenhum numerador inteiro sobre 105 o produz, porque 14 dá 13,3% e 15 dá 14,3%.

Recuperando por álgebra: para 14 óbitos darem 14,6%, o divisor teria de ser 95,9 — ou seja, 96. E o teste que fecha o caso é o outro percentual do mesmo resumo, o de amputação maior, publicado como 19,8%: dezenove sobre 96 dão 19,79%, que arredonda para exatamente isso. Os dois desfechos do resumo fecham no mesmo divisor 96, enquanto a tabela trabalha com 105. O numerador dos óbitos permaneceu correto — foi o divisor que escorregou.

Nada disso invalida o estudo, e o artigo é honesto em outro ponto: o tamanho amostral foi calculado em 135 pacientes para detectar queda da mortalidade de um valor mediano de 22% para 15%, e a coorte terminou com 105. O trabalho alcançou o efeito que pretendia detectar e não alcançou o número de pacientes necessário para afirmá-lo. Fica a régua: quando o enunciado citar mortalidade brasileira nesta doença, o número defensável é o da tabela, e a tabela diz 13,3%.

Heparina antes da imagem, e a fasciotomia com duas réguas que não competem

A conduta inicial é curta e quase toda anterior a qualquer exame. Reconhecido o quadro, a anticoagulação plena por via endovenosa entra imediatamente, com oxigênio e analgesia, e o objetivo dela não é dissolver o trombo que já existe: é impedir que ele se propague pela coluna de sangue parado, o que transforma uma oclusão segmentar em oclusão de todo o leito distal. Por isso a heparina não espera a angiotomografia, nem o vascular, nem a classificação escrita no prontuário.

A revascularização segue a classe. No membro viável há tempo para imagem e planejamento. No marginalmente ameaçado é urgente, e a imagem só entra se não atrasar. Na ameaça imediata a sala tem precedência sobre o tomógrafo. No membro inviável a decisão muda de natureza.

A síndrome compartimental de reperfusão fecha o ciclo, e é aqui que o candidato encontra dois números de tempo que parecem brigar. A diretriz brasileira de lesões vasculares traumáticas, ao responder uma única pergunta sobre critérios de fasciotomia, imprime 4 a 6 horas de isquemia como critério pelo mecanismo e, na mesma lista, mais de 6 horas como critério pelos achados cirúrgicos, quando houve reconstrução arterial. Os dois vêm com o mesmo grau de recomendação.

Eles não competem, e ver isso separa a leitura boa da apressada. O primeiro limiar responde a uma pergunta feita na porta, antes de operar: este mecanismo, com este tempo, já indica abrir os compartimentos? O segundo responde a uma pergunta feita na mesa, no fim do procedimento: reconstruí a artéria depois de tantas horas, abro agora ou fecho e observo? São dois momentos e duas decisões, e por isso os números podem diferir sem que nenhum esteja errado.

A mesma lista traz um contraponto que vale mais que os dois números. Ela imprime a pressão intracompartimental acima de 30 mmHg como critério e, poucas linhas abaixo, escreve que o julgamento do cirurgião se sobrepõe às medidas de pressão e aos exames complementares. O critério mais objetivo da lista é o único que o documento manda deixar de lado quando a clínica discordar — e é justamente a linha que o aluno decora.

Quatro retângulos cheios em fila ligados por setas formando uma corrente, e um quinto retângulo tracejado e vazio, abaixo e à direita, ligado ao terceiro por uma linha tracejada.
A corrente cheia é a sequência que sempre acontece na mesma ordem: reconhecer, anticoagular, classificar, revascularizar. O bloco tracejado fora da corrente é a fasciotomia, que não é um elo da sequência e sim uma decisão pendurada em dois momentos distintos — o da porta e o da mesa.

Grau III: a decisão de não revascularizar

A pergunta mais difícil do tema não é como salvar o membro; é reconhecer quando salvar o membro mata. O grau III é definido por paralisia, contratura à palpação e ausência dos dois sons ao Doppler, e a contratura é o achado que mais pesa, porque músculo que endureceu já necrosou. Na série brasileira, a amputação ocorreu em 100% dos classificados na classe III, e foi menos frequente na classe I.

O motivo de não revascularizar é fisiológico. Restabelecer fluxo em massa muscular necrosada devolve à circulação potássio, mioglobina e ácido láctico acumulados, o que produz arritmia por hiperpotassemia, lesão renal aguda por pigmento e acidose grave — a síndrome de reperfusão. O membro não vai funcionar de qualquer modo, e a tentativa de salvá-lo transforma um problema local em falência de múltiplos órgãos. A amputação aqui é terapêutica, não desistência.

Duas ressalvas evitam aplicar essa regra larga demais. A classificação é clínica e reavaliável: paralisia com som venoso audível ainda é ameaça imediata, não inviabilidade, e esse paciente vai para a sala. E rigidez muscular precisa ser distinguida da dor à palpação da panturrilha, que aparece bem antes e não significa necrose. A vinheta que quer o grau III traz três coisas juntas: cianose fixa que não clareia à digitopressão, rigidez, e ausência dos dois sons.

Onde a régua nacional para de valer

Vale saber de onde vem cada número que a prova cobra, porque aqui a fonte brasileira tem uma fronteira declarada. As diretrizes sobre doença arterial periférica da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, de 2024, dizem por escrito, em duas passagens distintas, que a oclusão arterial aguda está fora do escopo: uma ao afirmar que as situações de emergência, como as oclusões arteriais agudas e as lesões traumáticas, não são foco de atenção; outra na metodologia, ao listar o que foi excluído, com trauma e oclusão arterial aguda nomeados entre parênteses.

Duas emergências saíram pela mesma porta, na mesma linha, e só uma foi recolhida. O trauma vascular ganhou documento nacional próprio, elaborado pela mesma sociedade com a Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado. A oclusão arterial aguda não ganhou. A omissão não é hábito da casa: a prova disso está no irmão que foi atendido. Quem cobre o tema hoje, e de onde vem a tabela de graus que circula nas provas, é a diretriz europeia de 2020 dedicada ao assunto.

E há um detalhe que fecha o argumento dentro do próprio documento que excluiu a doença. Depois de escrevê-la para fora do escopo, a diretriz brasileira mede isquemia aguda de membro como desfecho: ao discutir a associação de rivaroxabana em dose vascular com o antiagregante, atribui a redução do desfecho composto principalmente à queda da isquemia aguda do membro, com risco relativo de 0,67 e intervalo de 95% entre 0,55 e 0,82 — acrescentando que o desfecho veio de um braço pequeno, 389 contra 516 indivíduos, como evento secundário.

A doença está ao mesmo tempo fora do escopo como assunto e dentro do documento como desfecho medido. Para o candidato, a leitura útil é esta: uma banca que cita a diretriz brasileira de doença arterial periférica para perguntar conduta na fase aguda está citando um documento que declarou não tratar disso. Número de conduta aguda vem da diretriz europeia dedicada; prevenção de eventos em quem tem doença crônica, aí sim, vem da fonte brasileira — com o risco relativo de 0,67 e a ressalva sobre o tamanho do braço.

04

Os quatro graus, em ordem crescente de ameaça ao membro

Os quatro cartões abaixo seguem a régua de Rutherford para isquemia aguda, do membro viável ao inviável, na ordem em que a ameaça cresce. O que muda de um para o outro é sempre uma única coisa, e ela está dita no texto de cada cartão: primeiro aparece o déficit sensitivo, depois o motor, e por último some o som venoso. A oclusão é a mesma nos quatro; o que muda é quanto tempo o membro ainda tem.

Grau I — membro viável

Sem sinal neurológico: sensibilidade e força preservadas. Som arterial audível ao Doppler e som venoso audível. Membro sem ameaça imediata — há tempo para imagem e para planejar a revascularização. A dor pode ser intensa e a palidez impressionante sem que isso mude a classe.

Grau IIa — marginalmente ameaçado

Aparece o déficit sensitivo: parestesia, em geral restrita aos dedos. Sem déficit motor. Som arterial inaudível e som venoso ainda audível. Membro salvável se tratado prontamente — a revascularização é urgente e a imagem só entra se não atrasar.

Grau IIb — ameaça imediata

Aparece o déficit motor: algum grau de paresia, ainda que discreto, além da perda sensitiva. Som arterial inaudível e som venoso audível. Membro salvável apenas com revascularização imediata — a sala tem precedência sobre o tomógrafo.

Grau III — membro inviável

Paralisia e contratura muscular à palpação, com cianose fixa que não clareia à digitopressão. Ausência de som arterial e também de som venoso. Perda tecidual maior inevitável — a conduta é amputação, e revascularizar aqui devolve potássio e mioglobina à circulação.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é o nome certo da doença, e por que a prova usa três

Oclusão arterial aguda — nomeia a causa e exige o endereço

Termo usado pela série brasileira de 2020 e pelo capítulo clássico de Maffei. A carta ao editor de 2023 observa que oclusão pode ser dita do sistema venoso ou do arterial, e por isso o termo precisa explicitar o vaso. É o termo que a matriz de temas de prova adota.

Castro-Santos G. A semântica da isquemia aguda de membros [carta ao editor]. J Vasc Bras. 2023;22:e20210145, parágrafo em que a carta observa que oclusão pode ser dita do sistema venoso ou do arterial e cita o capítulo de Maffei, Doenças vasculares periféricas, 2016.

Isquemia aguda de membros — nomeia a consequência e dispensa o endereço

Termo do capítulo correspondente na obra de referência internacional e o mais usado na literatura recente, segundo a mesma carta. Carrega implicitamente que a isquemia é arterial, e por isso não precisa nomear o vaso.

Castro-Santos G. A semântica da isquemia aguda de membros [carta ao editor]. J Vasc Bras. 2023;22:e20210145, trecho que cita o capítulo 100 de Rutherford's Vascular Surgery and Endovascular Therapy e registra o uso crescente do termo na literatura internacional.

Isquemia arterial aguda — redundante, e os autores concordaram

A carta de 2023 apontou a redundância no título de um artigo de 2021, e os autores criticados responderam na mesma página que, após revisão da literatura consolidada, concluíram que o termo é de fato redundante. É a rara divergência bibliográfica encerrada por concessão escrita das duas partes.

Rosa FD, Burihan MC, Simões EA, Abdala JPS, Barros OC, Nasser F. Resposta publicada junto à carta, em J Vasc Bras. 2023;22:e20210145: após revisão da literatura consolidada, concluíram que o termo é de fato uma redundância.

Na prova

O enunciado escolhe um dos três termos e não avisa. Não perca tempo decidindo qual é o correto: os três aparecem em periódico brasileiro indexado, às vezes no mesmo artigo. O que importa é ler no texto o que descreve o vaso e o tempo. A única situação em que o nome muda a resposta é quando a vinheta descreve membro frio e cianótico com edema importante — aí a pergunta pode ser sobre a exceção venosa, e não sobre oclusão arterial.

Duas séries, duas frações de embolia — e a coluna que só uma delas tem

Denominador de todos os admitidos — embólica 35,2%

Série brasileira de 2020, com 105 pacientes: trombótica 54,3%, embólica 35,2% e indefinida 10,5%. A coluna soma 100,0 exatos porque reserva um lugar para a etiologia que a investigação não resolveu.

Teodoro MR, Bertanha M, Moura R, et al. Resultados do tratamento das oclusões arteriais agudas de membros em hospital universitário. J Vasc Bras. 2020;19:e20200031, resumo e Tabela 2 (grupos de 37, 57 e 11 pacientes, total de 105).

Denominador só dos resolvidos — a mesma série vira 39,3%

Retirando os 10,5% indefinidos, o divisor cai para 89,5 e as duas frações se redistribuem: embólica 39,3% e trombótica 60,7%. A distância para a repartição internacional de cerca de 44% embólica encolhe de quase nove pontos para menos de cinco — e, do lado trombótico, a diferença aumenta.

Conta feita neste capítulo sobre os percentuais publicados por Teodoro et al., J Vasc Bras. 2020;19:e20200031: 35,2 dividido por 89,5 e 54,3 dividido por 89,5. A repartição internacional de comparação é a que a diretriz ESVS 2020 de isquemia aguda reproduz do registro sueco, aqui não conferida no original.

Na prova

Se a questão pedir a etiologia mais frequente, a resposta esperada é trombose, e as duas séries concordam nisso. Desconfie apenas quando o enunciado der um percentual exato de embolia e pedir comparação: aí vale perguntar qual denominador está em jogo. A dica está na soma: se as frações fecham 100% com só duas ou três causas nomeadas, não há coluna de indeterminados e o denominador é o dos casos resolvidos.

Fasciotomia: 4 a 6 horas ou mais de 6 horas de isquemia

Pelo mecanismo, na porta — acima de 4 a 6 horas

Critério de indicação de fasciotomia por mecanismo do trauma na diretriz brasileira de lesões vasculares traumáticas: traumatismo de extremidade com tempo de isquemia superior a 4 a 6 horas, e trauma de alta energia no antebraço ou na perna. Decide se abre os compartimentos.

Diretrizes brasileiras de diagnóstico e tratamento de lesões vasculares traumáticas (SBACV e SBAIT), J Vasc Bras, seção Quais critérios usar para indicação de fasciotomias?, primeiro item das recomendações, grau 1C.

Pelos achados, na mesa — acima de 6 horas

Critério pelos atos operatórios realizados, na mesma resposta do mesmo documento: reconstruções arteriais após mais de 6 horas de isquemia, ligadura de veias calibrosas, lesões arteriais e venosas associadas. Decide quando abre, no fim do procedimento.

Diretrizes brasileiras de diagnóstico e tratamento de lesões vasculares traumáticas (SBACV e SBAIT), J Vasc Bras, mesma seção, item Achados cirúrgicos/atos operatórios realizados, grau 1C.

A pressão de 30 mmHg, que o próprio documento relativiza

A mesma lista traz pressão intracompartimental acima de 30 mmHg como critério e, poucas linhas abaixo, escreve que o julgamento do cirurgião se sobrepõe às medidas de pressão e aos exames complementares. O critério mais objetivo é o que o texto manda deixar de lado quando a clínica discordar.

Diretrizes brasileiras de diagnóstico e tratamento de lesões vasculares traumáticas (SBACV e SBAIT), J Vasc Bras, mesma seção: o item Pressão intracompartimental > 30 mmHg (1C) e, nas Observações logo abaixo, a frase de que o julgamento do cirurgião se sobrepõe a medidas de pressões compartimentais e exames complementares.

Na prova

A questão que dá as duas frases juntas espera que o candidato escolha uma e erre. As duas convivem no mesmo documento, com o mesmo grau de recomendação, e não competem: uma é critério de indicação pelo mecanismo, avaliado antes de operar, e a outra é critério pelos achados, avaliado depois de reconstruir. Leia o momento da vinheta antes de escolher o número.

Mortalidade brasileira: 13,3% na tabela, 14,6% no resumo

Tabela — 14 óbitos em 105 pacientes

A linha de mortalidade em 30 dias publica 6 óbitos no grupo embólico, 7 no trombótico e 1 no indefinido. A coluna soma 14, e 14 sobre 105 dá 13,3%, valor que a própria tabela imprime. É reconstruível e fecha.

Teodoro MR, Bertanha M, Moura R, et al. J Vasc Bras. 2020;19:e20200031, Tabela 2, linha Mortalidade 30 dias: 6, 7 e 1 nos três grupos, total de 14 (13,34%).

Resumo — 14,6%, que exige divisor 96

Nenhum inteiro sobre 105 produz 14,6%: 14 dá 13,3% e 15 dá 14,3%. Para 14 óbitos darem 14,6% o divisor precisa ser 96. O segundo percentual do mesmo resumo confirma: 19 amputações sobre 96 dão 19,79%, que arredonda para os 19,8% publicados. Os dois desfechos do resumo fecham em 96; a tabela usa 105.

Teodoro MR, Bertanha M, Moura R, et al. J Vasc Bras. 2020;19:e20200031, resumo (óbito total de 14,6% e amputação maior de 19,8%). A recuperação do divisor 96 é conta feita neste capítulo sobre esses dois percentuais e sobre os 105 pacientes da Tabela 2.

Na prova

Improvável como pergunta direta, mas útil como hábito. Quando um enunciado cita percentual de estudo, o número que se sustenta é o que a tabela permite reconstruir a partir de contagens inteiras. Percentual que não sai de nenhum numerador inteiro sobre o denominador declarado é sinal de divisor trocado em algum ponto da redação.

06

Caso resolvido

Mulher de 72 anos, hipertensa, chega ao pronto-socorro com dor súbita e intensa na perna direita, iniciada há 3 horas enquanto assistia à televisão. Tem fibrilação atrial diagnosticada há dois anos e suspendeu o anticoagulante oral por conta própria há seis meses. Ao exame: pressão arterial 150 x 90 mmHg, pulso irregular a 96 batimentos por minuto. O membro inferior direito está pálido e frio a partir do terço médio da coxa, com enchimento capilar lentificado. Há parestesia no antepé, e a movimentação ativa dos dedos está preservada. O pulso femoral direito é amplo e presente; os pulsos poplíteo e distais estão ausentes à direita. O membro contralateral tem todos os pulsos palpáveis, incluindo os distais, com pele e pelos normais. Nega claudicação intermitente prévia. Ao Doppler manual de bolso, não se capta sinal arterial no tornozelo direito, e capta-se sinal venoso.
primeiro, nomeie o quadro sem depender do nome que a banca escolheu
Queda súbita de perfusão de um membro, com menos de 3 horas de evolução, em artéria cuja perviedade prévia é sugerida pelo contralateral normal. Chame de oclusão arterial aguda ou de isquemia aguda de membro — os dois termos designam isto. O que não cabe é chamar de isquemia arterial aguda, redundância que a literatura brasileira já registrou por escrito.
segundo, classifique à beira do leito, antes de qualquer imagem
Há déficit sensitivo (parestesia no antepé) e não há déficit motor (movimentação ativa preservada). O Doppler não capta sinal arterial no tornozelo e capta sinal venoso. Essas três informações fecham o grau IIa, marginalmente ameaçado: membro salvável se tratado prontamente. Repare que a classificação não precisou de tomografia nem de laboratório.
terceiro, decida a etiologia pelo membro que não dói
O contralateral tem todos os pulsos, inclusive distais, com pele e pelos normais, e não há história de claudicação. Artéria previamente saudável, sem colateral formada. Some a isso o ritmo irregular e a suspensão do anticoagulante: origem embólica, com fonte cardíaca provável. Na série brasileira, a fibrilação atrial esteve em 19 dos 37 casos embólicos contra 1 dos 57 trombóticos.
quarto, anticoagule antes de pedir a imagem
Heparina plena por via endovenosa, oxigênio e analgesia, imediatamente. O objetivo não é lisar o trombo já formado: é impedir a propagação pela coluna de sangue parado, que transformaria a oclusão segmentar em oclusão de todo o leito distal. A imagem entra depois, e só se não atrasar a revascularização.
quinto, acione a revascularização com o prazo que a classe determina
Grau IIa é urgência, não emergência absoluta: há espaço para angiotomografia se ela for rápida e mudar o planejamento. O acionamento do cirurgião vascular é imediato e não espera exame. Se o exame motor mudar em qualquer reavaliação — qualquer grau de fraqueza —, o paciente passa a IIb e a sala tem precedência sobre o tomógrafo.
sexto, antecipe a reperfusão e programe a reavaliação
Após restabelecer o fluxo, vigie a síndrome compartimental: dor desproporcional, tensão do compartimento, parestesia que retorna ou piora, déficit motor novo. O tempo de isquemia desta paciente é curto, o que joga a favor, mas a decisão de fasciotomia se refaz na mesa e depois dela — e o julgamento clínico prevalece sobre a medida de pressão, como a diretriz nacional de lesões vasculares escreve.
sétimo, resolva o que causou tudo isso
Embolia de fonte cardíaca em fibrilação atrial sem anticoagulação é evento sentinela. A alta precisa sair com a anticoagulação reinstituída e com a conversa sobre por que ela foi suspensa, porque o próximo êmbolo pode ir para o cérebro. Investigar a fonte e tratar a arritmia é parte do tratamento da perna, não um assunto de outro serviço.
07

Agora feche você

Homem de 65 anos, tabagista de 40 anos-maço e diabético, procura a unidade de pronto atendimento com dor no membro inferior esquerdo iniciada há cerca de 12 horas, de piora progressiva. Refere que, há dois anos, sentia dor na panturrilha esquerda ao caminhar duas quadras, aliviada com o repouso, e que nos últimos dias a dor passou a ocorrer também em repouso. Ao exame: ritmo cardíaco regular, sem sopros; pressão arterial 140 x 85 mmHg. O membro inferior esquerdo está pálido e frio, com pulso femoral presente e pulsos poplíteo e distais ausentes. Há parestesia do antepé e força discretamente reduzida para a flexão dos artelhos. O membro inferior direito tem pulsos distais reduzidos, com pele atrófica e rarefação de pelos. Ao Doppler manual, o sinal arterial no tornozelo esquerdo está inaudível e o sinal venoso é audível. Não há fonte cardioembólica evidente.
Passo 1
Em que grau da classificação de Rutherford para isquemia aguda este membro se enquadra, e quais dois achados do enunciado — um do exame neurológico e um do Doppler — sustentam essa classificação em vez do grau imediatamente anterior?
Passo 2
Quais três elementos do enunciado apontam trombose sobre placa em vez de embolia, e por que o membro contralateral é, aqui, mais informativo que o ritmo cardíaco?
Passo 3
Este paciente descreve claudicação que evoluiu para dor em repouso nas últimas semanas, e depois um evento agudo de 12 horas. Duas réguas diferentes descrevem essas duas fases, e ambas se chamam Rutherford. Diga o que cada uma classifica e por que confundi-las mudaria a conduta.
Passo 4
Qual é a primeira medida terapêutica, antes de qualquer exame de imagem, e qual é o objetivo fisiológico dela — que não é dissolver o trombo já existente?
Passo 5
Considerando as 12 horas de isquemia, quais são os dois limiares de tempo que a diretriz brasileira de lesões vasculares traumáticas imprime para fasciotomia, em que momento cada um é avaliado, e por que eles não se contradizem?
Passo 6
Se, na reavaliação após a revascularização, este paciente apresentar urina escura, potássio de 6,4 mEq/L e acidose metabólica, que síndrome está em curso, e qual achado do exame do membro deveria ter sido procurado antes de restabelecer o fluxo?
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler Rutherford sem perguntar de qual Rutherford se trata A doença crônica usa categorias de 0 a 6 e anda com Fontaine; a aguda usa graus I, IIa, IIb e III. As duas se chamam Rutherford e convivem na mesma apostila. O vocabulário ao redor resolve: claudicação a tantos metros, dor em repouso há semanas e índice tornozelo-braquial pedem a crônica; horas de evolução, som ao Doppler, parestesia e paresia pedem a aguda.
  2. 2Classificar pelo pulso em vez de pelo Doppler A ausência de pulso já está pressuposta antes de a classificação começar, e a palpação é pouco confiável no membro frio e edemaciado. A régua aguda é preenchida por som: primeiro procura-se sinal arterial no tornozelo, depois sinal venoso. É a segunda busca que separa o membro ameaçado do inviável, e é a que se esquece.
  3. 3Ler a dor que cedeu como melhora A dor esteve presente em 97,1% dos pacientes da série brasileira e a anestesia em 21,9% — e em muitos casos são o mesmo paciente em dois momentos. O nervo periférico é o primeiro a falhar, e quando falha o sinal mais fiel desaparece. Membro que parou de doer sozinho, sem revascularização, progrediu de grau.
  4. 4Achar que o quadro mais dramático é o de pior prognóstico de membro É o contrário, e cai em prova. A embolia ocorre em artéria previamente saudável, sem colateral formada, e por isso é súbita e brutal — mas o leito distal é bom. A trombose ocorre sobre placa, em quem já claudicava e já tinha colateral, e por isso é mais arrastada. O membro contralateral é o exame que separa os dois em segundos.
  5. 5Segurar a heparina esperando a angiotomografia A anticoagulação plena não é para dissolver o trombo existente; é para impedir que ele se propague pela coluna de sangue parado e transforme uma oclusão segmentar em oclusão de todo o leito distal. Ela entra ao reconhecer o quadro, antes da imagem, antes do especialista chegar e antes de a classificação estar escrita.
  6. 6Revascularizar o membro com contratura muscular Contratura significa músculo que já necrosou, e restabelecer fluxo devolve potássio, mioglobina e ácido láctico à circulação — arritmia, lesão renal por pigmento e acidose. Na série brasileira a amputação ocorreu em 100% dos classificados na classe III. Amputar ali é conduta terapêutica, não desistência. Mas confira antes: paralisia com som venoso audível ainda é ameaça imediata, e esse paciente vai para a sala.
  7. 7Decorar os 30 mmHg como se fossem o critério final de fasciotomia A diretriz brasileira de lesões vasculares traumáticas imprime a pressão intracompartimental acima de 30 mmHg entre os critérios e, poucas linhas depois, escreve que o julgamento do cirurgião se sobrepõe às medidas de pressão e aos exames complementares. Tensão do compartimento, dor desproporcional e déficit neurológico decidem mesmo quando o número não acompanha.
  8. 8Citar a diretriz brasileira de doença arterial periférica para a fase aguda Ela declara duas vezes que a oclusão arterial aguda está fora do escopo — no texto de introdução e na lista de exclusões da metodologia. Serve para prevenção de eventos em quem tem doença crônica, inclusive com o risco relativo de 0,67 na redução de isquemia aguda de membro, mas não é fonte de conduta na fase aguda.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Início súbito dos 5 P (dor, palidez, ausência de pulso, parestesia, frialdade — poiquilotermia) em portadora de fibrilação atrial não anticoagulada configura oclusão arterial aguda por embolia cardíaca. TVP causa membro edemaciado, quente e com pulsos presentes. Neuropatia diabética é crônica e insidiosa. Erisipela cursa com eritema, calor e febre. Raynaud é episódico, bilateral, desencadeado por frio/estresse, sem isquemia franca de membro inteiro.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar nada, escreva: (1) os quatro graus da régua aguda de Rutherford, com o achado neurológico e o achado de Doppler de cada um, e diga qual único elemento muda de um degrau para o seguinte nos três saltos; (2) a lista dos seis sinais clássicos em ordem decrescente de frequência na série brasileira, e depois reescreva a mesma lista em ordem decrescente de peso na decisão — as duas ordens são quase inversas; (3) por que o membro que parou de doer sozinho piorou; (4) os três achados do membro contralateral que apontam trombose em vez de embolia; (5) a primeira medida terapêutica e o que ela impede, em uma frase.

em 30 dias

Pegue o paciente do caso resolvido — 72 anos, fibrilação atrial, 3 horas, parestesia sem paresia, som arterial ausente e venoso presente — e mude um dado por vez, dizendo o que quebra em cada mudança. E se a força dos artelhos estivesse discretamente reduzida? E se o som venoso também estivesse ausente e a panturrilha estivesse rígida? E se o contralateral tivesse pulsos distais reduzidos e pele atrófica? E se ela tivesse 27 anos, sem nenhum fator de risco, e o ecocardiograma mostrasse forame oval pérvio? E se o membro estivesse frio e cianótico, mas com edema importante e história de trombose venosa recente? Em seguida, refaça duas contas de papel: recomponha os 73,3% de uso do cateter a partir das taxas de 81,0%, 71,9% e 54,5% nos grupos de 37, 57 e 11 pacientes; e mostre por que 14,6% não sai de nenhum numerador inteiro sobre 105, e qual divisor ele exige.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você está de plantão no pronto-socorro de um hospital geral que não tem cirurgião vascular na casa, e o serviço de referência fica a duas horas de ambulância. Chega uma mulher de 74 anos trazida pela filha, com dor forte na perna esquerda que começou de repente no meio da tarde. Ela tem fibrilação atrial e conta que parou de tomar o remédio de afinar o sangue há alguns meses porque achou que não precisava mais. Conduza o atendimento: colha a história com atenção à hora exata do início, faça e narre o exame que classifica o membro, diga o que prescreve antes de pedir qualquer exame de imagem, e explique à paciente e à filha por que a transferência precisa ser acionada agora e o que muda se a perna perder força durante a espera. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Oclusão arterial aguda de membro: o P mais raro é o que marca a hora — Preparatório para provas | OsceLabs