Cirurgia GeralCirurgia Vascular

Dissecção aórtica aguda

Onde a íntima rasgou decide quem vai para a mesa

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 68 anos, hipertenso, apresenta dor torácica súbita, lancinante, irradiada para o dorso interescapular há 1 hora. PA 190x110 mmHg no braço direito e 150x88 mmHg no braço esquerdo, FC 96 bpm. Ausculta com sopro diastólico aspirativo em foco aórtico. A angiotomografia confirma dissecção de aorta acometendo aorta ascendente. Além do encaminhamento cirúrgico, qual é o alvo farmacológico inicial e o agente de escolha?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata de uma decisão só, e ela cabe numa frase: se a aorta ascendente está envolvida, o paciente vai para a mesa agora; se não está, ele vai para a unidade fechada e só vai para a mesa se algo der errado. Toda a classificação da dissecção aórtica existe para responder a essa pergunta, e é por isso que Stanford e DeBakey são cobrados junto com a conduta, nunca sozinhos. O que a prova testa não é a memória do nome, é se você sabe que o nome escolhe o tratamento.

A régua brasileira aqui é fragmentada, e reconhecer a fragmentação vale ponto. O documento de caráter nacional — as Diretrizes Brasileiras para Utilização de Endoprótese em Aorta Torácica Descendente, aprovadas pela Portaria Conjunta nº 03 de 2019 a partir de relatório da Conitec — cobre exatamente uma fatia: a dissecção da aorta torácica descendente, que é o tipo B de Stanford e o tipo III de DeBakey. Ele exclui do escopo, com todas as letras, os aneurismas de aorta ascendente e arco e as síndromes genéticas, e declara que o cuidado clínico não faz parte do que avaliou. Ou seja: a régua nacional decide o que fazer com o tipo B e não diz uma palavra sobre o tipo A nem sobre o paciente com Marfan.

O resto vem de sociedade. O diagnóstico — quando suspeitar, qual escore aplicar, qual exame pedir — está na Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência de 2025, da Sociedade Brasileira de Cardiologia. O tratamento cirúrgico, inclusive o do tipo A, está nas Diretrizes para o tratamento cirúrgico das doenças da aorta da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, cuja atualização mais recente é de 2009 — o Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular tem capítulo de aorta abdominal, e nenhum de aorta torácica. Uma régua de 2009 governando a indicação cirúrgica é um fato do tema, e o capítulo diz onde ela envelheceu.

Duas coisas ficam de fora porque já estão escritas. Os alvos de pressão e frequência e a ordem das drogas na dissecção — betabloqueador antes do vasodilatador, e por quê — são assunto do capítulo Crise hipertensiva, na apostila de Cardiologia deste nível; aquilo vale e não se repete aqui. O aneurisma da aorta abdominal tem o capítulo 3 desta apostila, que exclui a dissecção do próprio escopo justamente porque é outra doença, com outro corte de tamanho e outra conduta. Também ficam fora a lesão traumática da aorta e os limiares profiláticos de operação na aortopatia genética: aparecem só quando mudam a conduta do paciente que já dissecou.

03

O que muda decisão

Duas classificações, duas perguntas diferentes

A aorta torácica tem três partes, e a fronteira entre elas é um vaso. A porção ascendente vai do ânulo aórtico ao tronco braquiocefálico. O arco é o trecho entre o tronco braquiocefálico e a artéria subclávia esquerda. A porção descendente começa depois da subclávia esquerda e termina no diafragma, onde a aorta passa a ser abdominal. Guarde a subclávia esquerda: ela é o marco que separa o território de duas condutas opostas, e é por ela que se decide se a endoprótese tem onde ancorar.

O sistema de Stanford é o mais usado e tem uma regra só. O documento brasileiro a enuncia assim: classifica como tipo A as dissecções na aorta ascendente e arco, independentemente do local da lesão na íntima, e todas as outras como tipo B. O ponto que a banca explora é o "independentemente": a lesão da íntima pode estar lá embaixo, na descendente, e a dissecção pode ter subido — se ela alcançou a ascendente, é tipo A e a conduta é cirúrgica. Quem classifica pelo lugar do rasgo erra a metade dos casos que importam.

O sistema de DeBakey faz a outra pergunta, a da origem. Tipo I: origina-se na aorta ascendente e se propaga ao menos até o arco aórtico. Tipo II: originário e confinado à aorta ascendente. Tipo III: inicia-se na aorta descendente e pode se estender distal ou proximalmente. A tradução entre os dois sistemas é o que se cobra: DeBakey I e II são Stanford A; DeBakey III é Stanford B. E note a cauda do tipo III — "pode se estender proximalmente" —, que é justamente a situação em que DeBakey III e Stanford A poderiam se confundir se o critério de Stanford não fosse o envolvimento, e não a origem.

Vale reter também o vocabulário maior. Dissecção é uma das síndromes aórticas agudas, ao lado do hematoma intramural e da úlcera penetrante, e responde por aproximadamente 70% delas segundo a diretriz brasileira de dor torácica. Os três compartilham apresentação, exame e urgência, e é por isso que o ultrassom à beira do leito procura, como sinais diretos, flap, hematoma ou úlcera — três achados para três doenças da mesma família.

Ilustração da aorta torácica em três painéis: no primeiro, o retalho de dissecção percorre a aorta ascendente e o arco; no segundo, começa e termina na aorta ascendente; no terceiro, começa depois da artéria subclávia esquerda e desce pela aorta descendente.
Os três desenhos da esquerda para a direita são DeBakey I, II e III. Os dois primeiros são Stanford A, o terceiro é Stanford B. Repare no que muda: DeBakey pergunta onde a lesão começou; Stanford pergunta se a aorta ascendente está envolvida. É a segunda pergunta que decide a operação.

Por que a ascendente muda tudo

A razão de a aorta ascendente separar duas condutas é geográfica, não estatística. Ela está dentro do saco pericárdico. Quando a dissecção rompe ali, o sangue não cai no mediastino nem na pleura: cai no pericárdio, e o paciente morre de tamponamento em minutos. Nenhum tratamento clínico compete com isso, e é essa a primeira das razões que o documento de sociedade brasileiro lista para a cirurgia imediata — evitar ruptura, tamponamento e morte.

As outras três razões são de vizinhança. A raiz da aorta suporta a valva aórtica: quando o retalho descola o suporte comissural, a valva perde sustentação e o paciente ganha uma insuficiência aórtica aguda, que é um sopro diastólico novo e um edema agudo de pulmão. Os óstios coronários saem da ascendente: quando o falso lúmen os alcança, o quadro é um infarto — e essa é a armadilha que mata, porque o eletrocardiograma parece resolver o caso e a conduta que ele sugere é exatamente a que não se pode dar. E os troncos supra-aórticos saem do arco: quando a dissecção os compromete, o paciente chega com déficit neurológico focal, e a dor torácica pode nem ser a queixa principal.

No tipo B, a mesma lógica vale para outros ramos. A partir do local de rotura da íntima, a dissecção pode ter progressão proximal ou distal, e ramos arteriais como coronárias, carótidas, renais, mesentérica e ilíacas podem ser comprimidos ou ocluídos, causando isquemia. Por isso o exame do paciente com suspeita de dissecção não termina no tórax: pulsos dos quatro membros, pressão nos dois braços, exame neurológico, abdome e diurese fazem parte do mesmo exame, porque cada território mal perfundido é um ramo que o retalho fechou.

A pressa tem número. Os grandes registros internacionais descrevem uma taxa de mortalidade em torno de 1% a 2% por hora nas primeiras 48 horas — e é isso que transforma a dissecção num diagnóstico tempo-sensível no sentido literal da palavra. A diretriz brasileira de dor torácica é explícita sobre a consequência de não pensar nela: a dissecção é rara ao lado do infarto, um caso para cada 20 a 90 casos de infarto, e diagnósticos potencialmente fatais respondem por menos de 10% a 20% de toda a dor torácica atendida. Baixa prevalência com alta letalidade por hora é a combinação que justifica um escore de rastreio.

Suspeitar: o ADD-RS, o AORTA e o que nenhum dos dois faz

O escore de detecção de dissecção aórtica, o ADD-RS, tem 12 variáveis distribuídas em 3 categorias, e a mecânica é diferente da dos escores que somam item a item: se o paciente apresenta qualquer característica dentro de uma categoria, aquela categoria vale 1 ponto — não importa se ele tem uma ou quatro. O máximo é 3. Até 1 ponto é baixo risco; 2 ou 3 pontos, alto risco. É por isso que o paciente com dor súbita, rasgante e de forte intensidade pontua 1, e não 3: as três características estão na mesma categoria.

As três categorias são: condições clínicas predisponentes (síndrome de Marfan ou outra doença do tecido conjuntivo, história familiar de aortopatia, história conhecida de valvopatia aórtica, manipulação aórtica recente, aneurisma de aorta torácico conhecido); características da dor torácica ou abdominal (início súbito, intensidade severa, caracterizada como rasgando); e achados no exame clínico (déficit de pulso ou de pressão arterial, déficit neurológico focal associado à dor, sopro de regurgitação aórtica novo associado à dor, hipotensão ou choque). Cinco itens na primeira, três na segunda, quatro na terceira — as 12 variáveis.

O escore aorta é o alternativo, e é o único dos dois em que um item vale mais que os outros: hipotensão ou choque vale 2 pontos, e aneurisma, déficit de pulso, déficit neurológico, dor severa e dor de início súbito valem 1 ponto cada, num máximo de 7. De 0 a 1 ponto é baixo risco de síndrome aórtica aguda; 2 pontos ou mais, alto risco. A diretriz brasileira o descreve como mais simplificado e de alta sensibilidade, mas ainda carente de validação maior — e a classe de recomendação acompanha essa ressalva.

As classes de recomendação da diretriz de 2025 valem decorar porque uma delas é uma proibição. Aplicar o ADD-RS na avaliação inicial do suspeito de síndrome aórtica aguda é classe IIa, nível B. Acrescentar o ultrassom à beira do leito feito por médico capacitado ao ADD-RS, para incrementar a probabilidade diagnóstica, também é IIa, nível B. Aplicar o aorta de forma adicional ou como alternativa ao ADD-RS é classe IIb, nível C. E usar o ADD-RS ou o aorta isoladamente para excluir ou confirmar o diagnóstico é classe III, nível B — nenhum dos dois tem acurácia suficiente para, sozinho, definir ou descartar. Escore aqui organiza qual exame pedir; não fecha nem abre o caso.

O caminho depois do escore é curto. Probabilidade pré-teste baixa: dosar D-dímero — abaixo de 500 ng/mL, procurar outro diagnóstico; a partir de 500 ng/mL, exame de imagem. Probabilidade acima de baixa: exame de imagem direto, sem D-dímero. A imagem habitual é a angiotomografia; o ecocardiograma transesofágico entra quando não for possível realizar a angiotomografia. E há um atalho que a diretriz marca em nota de rodapé: caso suspeito com sinal radiográfico sugestivo, como alargamento de mediastino, segue o fluxo de alta probabilidade independentemente do escore.

Sobre a radiografia, guarde os dois lados da mesma frase. O alargamento do mediastino superior é o achado mais frequentemente encontrado, presente em 60% a 90% dos casos — número alto o bastante para que a sua presença mude o fluxo. E a normalidade do exame não exclui o diagnóstico de dissecção aórtica. Radiografia normal em paciente com ADD-RS de 2 pontos não é rule-out: é uma radiografia normal.

Tipo A: a operação é agora, e a régua é de 2009

A primeira recomendação da tabela de dissecções agudas tipo A das diretrizes da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular é a mais curta do documento e tem o grau mais alto: cirurgia imediata para evitar ruptura, tamponamento e morte, grau A. Nenhuma outra decisão do tema tem esse grau em conjunto com essa simplicidade, e é o que se cobra em vinheta: identificou envolvimento da ascendente, aciona a cirurgia cardiovascular, não aguarda estabilização, não aguarda vaga.

O que se faz na mesa depende de duas coisas — como está a raiz da aorta e como está a valva —, e a tabela desce nesse detalhe com graus menores. Enxerto reto na aorta ascendente se raiz e valva aórtica normais, grau B. Enxerto reto mais ressuspensão valvar aórtica se a raiz é normal e a valva está insuficiente por perda de sustentação, grau B. Tubo valvado se a aorta ascendente está dilatada ou há ectasia ânulo-aórtica com valva insuficiente, grau B. Enxerto de veia safena se os óstios coronários foram comprometidos pela delaminação e não são passíveis de reimplante, grau D. A gradação conta uma história: a indicação de operar é sólida, a escolha da técnica é consenso de especialista.

O arco é a decisão difícil. Quando a laceração da íntima não está dentro do arco transverso, ele pode ser reparado por abordagem aberta, unindo os folhetos e anastomosando ao enxerto da ascendente — o reparo do hemiarco. Em cerca de 10% a 20% das dissecções, porém, a lesão da íntima ocorre dentro da porção transversa do arco, e aí a reconstrução completa com reimplante dos troncos supra-aórticos é indispensável. A troca não é gratuita: a morbidade e a mortalidade da intervenção total sobre o arco são substancialmente superiores às do hemiarco, pelo maior tempo de parada cardiocirculatória e maior nível de hipotermia. E há uma segunda recomendação de grau A escondida aqui: quando o arco for intervido, a reconstrução aberta deve ser feita com método de proteção cerebral.

Os números da mortalidade do tipo A operado são a parte que separa o candidato que leu do que decorou. Grupos de excelência relatam mortalidade hospitalar entre 6% e 12%. O International Registry of Acute Aortic Dissection, num levantamento retrospectivo de 464 casos atendidos em 12 centros de referência nos Estados Unidos entre 1996 e 1998, aponta mortalidade operatória de 26% na dissecção aguda tipo A; e a atualização do mesmo registro, incorporando um total de 645 pacientes, registra mortalidade hospitalar de 27% nas dissecções agudas tipo A tratadas com cirurgia. O documento brasileiro escolhe lado ao comentar o dado: considera o número do registro possivelmente mais aproximado da média da nossa realidade que o das séries de excelência. Ou seja, a resposta de prova para "qual a mortalidade cirúrgica do tipo A" é a ordem de um quarto dos operados, não a de um décimo.

É preciso dizer com clareza de onde essa régua vem e quando ela foi escrita. A atualização é de 2009, e não há documento nacional do Ministério da Saúde que a substitua: a Portaria Conjunta nº 03 de 2019 exclui do próprio escopo, nominalmente, os aneurismas de aorta ascendente e arco. Nada disso derruba a recomendação central, que é a mesma no mundo inteiro há décadas — tipo A opera. O que envelheceu são as bordas: o repertório técnico, os limiares de conduta na aortopatia genética e o papel da endoprótese em território ascendente, que o próprio documento de 2009 já dizia permanecer incerto.

Tipo B não complicado: o remédio ganha do stent

Aqui a régua é nacional e é explícita. A segunda das três recomendações das Diretrizes Brasileiras de 2019 diz: em pacientes com dissecção de aorta do tipo B não complicada, dar preferência à realização do tratamento clínico em detrimento da cirurgia endovascular. O fluxograma do documento é ainda mais econômico — a primeira pergunta diante de uma dissecção tipo B é uma só, "complicada?", e o "não" leva a tratamento clínico e seguimento radiológico. Não há corte de diâmetro, não há escore, não há tempo de evolução nessa bifurcação.

O conteúdo do "tratamento clínico" está no documento de sociedade, não no nacional — as Diretrizes Brasileiras declaram que recomendações referentes ao cuidado clínico não fazem parte do seu escopo. A primeira recomendação da tabela de tipo B da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular é manejo clínico com analgesia e controle agressivo da pressão arterial, grau A. Os alvos numéricos e a ordem das drogas estão no capítulo de crise hipertensiva da apostila de Cardiologia deste nível; o que interessa aqui é que analgesia não é conforto, é conduta: a dor da dissecção é estímulo adrenérgico e alimenta o mecanismo que propaga o retalho.

A evidência que sustenta a preferência pelo remédio é um ensaio só, e os números dele são contraintuitivos o suficiente para virar questão. O instead randomizou pacientes com dissecção tipo B não complicada entre tratamento clínico e endoprótese, e aos 2 anos o resultado foi este: morte em 3 pacientes (4,4%) no braço clínico contra 8 (11,1%) no endovascular, p igual a 0,2; paraplegia ou paraparesia permanente em 1 (1,4%) contra 2 (2,8%), p igual a 0,9; acidente vascular cerebral com sequela em nenhum contra 2 (2,8%), p igual a 0,53. Leia com cuidado: todos os três desfechos apontam numericamente a favor do tratamento clínico, e nenhum dos três é estatisticamente significativo. O stent não se mostrou melhor; também não se mostrou pior.

É por isso que a recomendação brasileira, apesar da direção clara do fluxograma, é fraca no sistema grade — favorável ao tratamento clínico, mas fraca, porque se apoia em um único ensaio randomizado. O resumo das recomendações do documento não repete essa palavra, e o Apêndice a registra para as três recomendações. Quem lê só o resumo sai com a impressão de uma régua mais dura do que ela é, e é justamente na faixa fraca que moram as divergências que aparecem adiante.

Há um detalhe de população que muda a leitura e costuma ser apagado no caminho. O resumo das recomendações fala em "dissecção de aorta do tipo B não complicada", sem qualificar o tempo de evolução; a seção de resultados do mesmo documento conclui, com uma palavra a mais, que se deve dar preferência à manutenção do tratamento clínico em pacientes com dissecção crônica tipo B não complicada — e a revisão sistemática e o ensaio que sustentam a recomendação foram construídos sobre dissecção crônica. Na prática das bancas isso quase não separa alternativas, porque a conduta na fase aguda do tipo B não complicado é a mesma; mas é a diferença que explica por que os ensaios de intervenção precoce discutidos adiante não estão contemplados por essa recomendação.

Não complicado não significa resolvido. O próprio documento nacional registra que, entre os pacientes com dissecção crônica do tipo B mantidos sob tratamento clínico, uma parcela significativa — em torno de 50% — necessitará de cirurgia, e que as principais causas são a concomitância de um aneurisma grande, o crescimento rápido do saco aneurismático, a extensão da dissecção e a perfusão inadequada. Some-se a isso o que o documento de sociedade registra no seguimento tardio: a falsa luz se mantém pérvia em cerca de 80% dos casos. Tratamento clínico no tipo B é uma escolha de momento, com seguimento radiológico programado, e não uma alta.

Tipo B complicado: o que conta como complicado

A palavra "complicada" carrega o capítulo inteiro e o documento nacional não a define — ele a usa no fluxograma e nas recomendações, e lista apenas as principais causas de complicação das dissecções: aneurisma grande concomitante, crescimento rápido do saco aneurismático, extensão da dissecção e perfusão inadequada. A definição clínica utilizável está no documento de sociedade, e é esta: o tratamento cirúrgico das dissecções agudas tipo B é condicionado à presença de complicações, como sinais de ruptura aórtica (hemotórax, expansão rápida do diâmetro aórtico, alargamento de mediastino), formação de pseudoaneurisma, isquemia grave visceral ou de extremidades, ou progressão da dissecção durante terapia medicamentosa, caracterizada por dor persistente ou recorrente. E há um quinto item, que passa despercebido: casos de aorta previamente aneurismática que sofrem dissecção aguda devem ser considerados para cirurgia de urgência.

Traduzindo para a beira do leito, são quatro perguntas de reavaliação, e todas se respondem sem exame novo: a dor voltou ou nunca cedeu apesar da pressão controlada? Apareceu sangue onde não devia — hemotórax, derrame, queda de hematócrito? Algum território parou de perfundir — perna fria, dor abdominal desproporcional, oligúria, déficit novo? A aorta cresceu na imagem de controle? Um "sim" muda o paciente de coluna. O item que mais cai é o primeiro, porque é o menos objetivo e o mais precoce: dor persistente ou recorrente sob terapia medicamentosa É progressão da dissecção, por definição do documento, e não um problema de analgesia.

Definido o complicado, a terceira recomendação nacional entra: em pacientes com dissecção da aorta torácica descendente do tipo B complicada, dar preferência à realização de cirurgia endovascular, considerando o caráter invasivo da cirurgia aberta. Também esta é fraca no grade, e o documento é honesto quanto ao motivo — ausência de ensaios randomizados, estudos observacionais com alto risco de viés, heterogeneidade entre resultados e perfil semelhante de eficácia e segurança entre os tratamentos. A endoprótese ganha por ser menos invasiva, não por ter provado ser mais eficaz.

O documento de sociedade chega ao mesmo lugar por outro caminho e com grau maior. Na tabela do tipo B, tratamento cirúrgico se dor persistente ou recorrente, sinais de expansão, ruptura ou má perfusão de extremidades é grau A; e implante de endoprótese recoberta nas mesmas condições, acrescido de anatomia favorável, também é grau A. As duas portas estão abertas com o mesmo grau, e a anatomia é o que decide qual delas se usa — exatamente a segunda pergunta do fluxograma nacional, "anatomicamente viável para cirurgia endovascular?", cujo "não" leva à cirurgia aberta. Abaixo disso, em grau C, estão os recursos de resgate de ramo: stent para desobstruir origem de ramo visceral ou manter fenestração aberta, e fenestração por balão com implante de stent se houver compressão grave da luz verdadeira.

A mortalidade do tipo B complicado operado é alta e vale saber a ordem de grandeza: 29,3% numa leitura do IRAD referente a 2000 e 32% num levantamento mais recente do mesmo registro, com a ressalva do próprio documento de que as condições clínicas pré-operatórias tiveram importante influência no resultado. Do lado endovascular, uma metanálise mostrou que o tratamento é tecnicamente viável, com índices de sucesso maiores que 95% em coortes selecionadas, complicações em 14% a 18% dos pacientes e incidência muito baixa de paraplegia.

A contribuição brasileira ao tema tem nome e números. O grupo da Escola Paulista de Medicina submeteu 70 pacientes com dissecções tipo B ao implante de endopróteses por via femoral — 60% dissecções verdadeiras e 40% hematoma intramural ou úlceras penetrantes —, com procedimento considerado exitoso em 65 (93%), conversão para cirurgia em 5 (7%), nenhuma paraplegia e nenhum óbito; em seguimento médio de 29 meses, 91% dos pacientes estavam vivos. Na atualização da série, com 120 casos, a mortalidade hospitalar foi de 10%, a conversão cirúrgica ocorreu em 6 casos (5%), não houve paraplegia e a sobrevida tardia foi de 87% — com necessidade de mais de um stent em 51% da amostra e oclusão intencional da subclávia esquerda pela endoprótese em 14 pacientes, dos quais apenas um precisou de derivação carotídeo-subclávia.

Três números que se leem errado

O primeiro é o mais perigoso e aparece em questão com cara de raciocínio. No IRAD, entre os casos de dissecção tipo B, a mortalidade em 30 dias foi de 10% nos tratados conservadoramente e de 31% nos operados, com 18% de paraplegia. A leitura ingênua é que operar o tipo B triplica a mortalidade. A leitura correta é que os pacientes operados são os complicados — os que romperam, os que perderam um território, os que não pararam de doer. É confundimento por indicação: o tratamento marca a gravidade, não a causa. O documento brasileiro sinaliza isso na mesma página ao registrar que as condições clínicas pré-operatórias tiveram importante influência no resultado, e ao anotar que, após seguimento de 3 anos, não houve diferença estatisticamente significativa na mortalidade entre os grupos tratados com terapia médica, endovascular ou cirúrgica. Use o número para dimensionar a gravidade do tipo B complicado; nunca para escolher tratamento.

O segundo aparece na única tabela do documento nacional com dados brasileiros. Segundo o DATASUS, nos anos de 2015 e 2016, a cirurgia endovascular em aorta torácica descendente foi realizada 511 a 512 vezes por ano contra 253 a 259 da cirurgia aberta — cerca de duas vezes mais comum, como o texto diz. A taxa de mortalidade operatória foi de 7,0% a 8,4% no endovascular contra 25,7% a 30,9% no aberto, e a média de permanência, de 8,8 a 9,9 dias contra 12,2 a 12,3. A diferença é enorme, e é enorme demais para ser efeito de técnica: são registros administrativos de pacientes diferentes, sem randomização e sem ajuste de risco, e a cirurgia aberta recebe justamente quem não tinha anatomia para a endoprótese ou chegou pior. A tabela serve para dizer o que se faz no Brasil e com que mortalidade — não para comparar as duas técnicas.

O terceiro é o do instead, e ele se lê errado nas duas direções. Quem só olha as porcentagens conclui que o stent mata mais no tipo B não complicado, porque 11,1% é o dobro de 4,4%; quem só olha os valores de p conclui que tanto faz. As duas leituras erram pela mesma razão: é um ensaio só, e os desfechos se contam nos dedos — três mortes contra oito. Um p de 0,2 sobre esse número de eventos não é evidência de equivalência, é ausência de evidência. A conclusão que o corpo de evidência sustenta é a que o documento escreveu: recomendação fraca, favorável ao tratamento clínico. Alternativa que afirme que o instead demonstrou superioridade do tratamento clínico está indo além do dado; alternativa que afirme que ele demonstrou equivalência, também.

Um quarto cuidado, de leitura e não de número: o documento nacional exclui do escopo as síndromes genéticas e as cardiopatias congênitas, além dos aneurismas de aorta ascendente e arco. Isso significa que a recomendação de preferir endoprótese no tipo B complicado não foi escrita para o paciente com síndrome de Marfan — cuja parede tem outro comportamento e cuja conduta se decide fora dessa régua. Aplicar a recomendação nacional a um paciente que o próprio documento excluiu é um erro de escopo, e vinheta com Marfan ou Ehlers-Danlos costuma existir exatamente para testar isso.

Depois da fase aguda: o que sobra para vigiar

O paciente que sobrevive à fase aguda não sai curado, e o motivo é anatômico. O seguimento tardio dos pacientes com dissecção aguda da aorta, operados ou manejados conservadoramente na fase aguda, demonstra que a falsa luz se mantém pérvia em cerca de 80% dos casos. Falsa luz pérvia é falsa luz pressurizada, e uma parede de aorta com duas luzes e uma média delaminada dilata com o tempo. É por isso que a degeneração aneurismática crônica da aorta descendente é o desfecho tardio que organiza o seguimento — não a recidiva do rasgo.

A trombose do falso lúmen é o marcador prognóstico que se discute, e o debate brasileiro sobre ele é honesto. A presença ou ausência de trombose do falso lúmen tem sido empregada para guiar decisões de tratamento e para ajustar o seguimento, e correlaciona-se com prognóstico tardio favorável, provavelmente pela estabilização do remodelamento aórtico. Mas a trombose não elimina o risco: aumento do falso lúmen e eventos de reentrada persistem mesmo com trombose, podendo levar a dissecção recorrente ou a aneurisma. E o efeito protetor da trombose parcial, sugerido inicialmente em 2007, foi contestado por metanálises e revisões sistemáticas que não encontraram associação com taxa de expansão do diâmetro aórtico. Trombose completa é sinal bom; trombose parcial é achado de valor disputado.

O seguimento por imagem programado é o que o fluxograma nacional prescreve nos dois ramos em que não se opera — tratamento clínico E seguimento radiológico, nas duas caixas. O documento nacional não fixa intervalo para a dissecção; para o aneurisma de aorta torácica descendente ele registra acompanhamento com tomografia computadorizada a cada seis meses para avaliar tamanho e taxa de expansão. O que se cobra em prova não é o intervalo exato, é o princípio: quem recebeu tratamento clínico continua em programa de imagem, e a decisão de intervir mais tarde nasce dessa vigilância — a mesma que captura os cerca de 50% de dissecções crônicas tipo B mantidas em tratamento clínico que acabam necessitando de cirurgia.

O controle pressórico é a parte do tratamento que nunca termina, e é a única intervenção que atua sobre o mecanismo. O manejo clínico com controle agressivo da pressão arterial é grau A na tabela de tipo B do documento de sociedade, e continua valendo depois da alta, no paciente operado e no não operado. Também vale registrar o que a etiologia sugere sobre quem volta: a doença é multifatorial, com síndromes genéticas (com destaque para Marfan e Ehlers-Danlos), hipertensão arterial sistêmica crônica e causas iatrogênicas como a lesão vascular durante o cateterismo arterial. O hipertenso crônico mal controlado é a maioria, e é sobre ele que a consulta de seguimento tem alguma coisa a oferecer.

04

A classificação, a complicação e a decisão

O eixo do capítulo é uma bifurcação seguida de outra. Primeiro: a aorta ascendente está envolvida? Se sim, é tipo A e a resposta é a sala de cirurgia. Se não, é tipo B, e a segunda pergunta é se a dissecção está complicada. Os cards abaixo percorrem essas três caixas na ordem em que o paciente as atravessa, e o quarto mostra onde a régua nacional para de valer. A primeira tabela traduz Stanford e DeBakey em conduta; a segunda lista, literalmente, o que caracteriza o tipo B complicado; a terceira traz os resultados de 2 anos do INSTEAD, que são a base da preferência pelo tratamento clínico.

  1. 1Dor torácica, dorsal ou abdominal de início súbito e forte intensidade: inclua síndrome aórtica aguda na lista antes de qualquer antiagregante ou anticoagulante. Meça pressão nos DOIS braços, palpe os pulsos dos quatro membros, procure sopro diastólico novo e faça exame neurológico.
  2. 2Calcule o ADD-RS: 1 ponto por CATEGORIA em que houver qualquer item, máximo 3. Até 1 ponto, baixa probabilidade; 2 ou 3, alta. Alargamento de mediastino na radiografia joga o paciente no fluxo de alta probabilidade independentemente do escore.
  3. 3Baixa probabilidade: D-dímero. Abaixo de 500 ng/mL, procure outro diagnóstico; a partir de 500 ng/mL, imagem. Probabilidade acima de baixa: imagem direto. Angiotomografia é o exame habitual; ecocardiograma transesofágico quando não for possível fazer a angiotomografia.
  4. 4Confirmada a dissecção, responda UMA pergunta: a aorta ascendente está envolvida? Se sim, é Stanford A (DeBakey I ou II) — acione a cirurgia cardiovascular imediatamente. Cirurgia imediata é grau A, e a decisão não espera estabilização.
  5. 5Se a ascendente está poupada, é Stanford B (DeBakey III). Responda a segunda pergunta: está complicada? Procure ruptura, pseudoaneurisma, isquemia visceral ou de extremidade, expansão rápida, e dor persistente ou recorrente sob terapia otimizada.
  6. 6Tipo B NÃO complicado: tratamento clínico — analgesia e controle agressivo da pressão, grau A — mais seguimento radiológico programado. A régua nacional prefere o remédio à endoprótese, com recomendação fraca.
  7. 7Tipo B COMPLICADO: intervenção. A régua nacional prefere a cirurgia endovascular, por ser menos invasiva; a viabilidade anatômica é a pergunta seguinte, e o "não" leva à cirurgia aberta. Stent de ramo e fenestração por balão são recursos de resgate de má perfusão, em grau C.
  8. 8Em todos os sobreviventes: controle pressórico permanente e imagem de seguimento. A falsa luz permanece pérvia em cerca de 80% dos casos, e a degeneração aneurismática tardia é o desfecho que a vigilância existe para capturar.

Stanford A — a ascendente está dentro

Dissecção que envolve a aorta ascendente e o arco, independentemente de onde a íntima rasgou. A ascendente está dentro do pericárdio: a ruptura aqui é tamponamento. Somam-se insuficiência aórtica aguda por perda de suporte da valva, infarto por comprometimento de óstio coronário e déficit neurológico por tronco supra-aórtico. Conduta: cirurgia imediata, grau A na diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. Nos dados do registro IRAD, morre cerca de um quarto dos operados — bem acima dos 6% a 12% relatados por grupos de excelência.

Stanford B não complicado — o remédio

Retalho que começa depois da artéria subclávia esquerda e não alcança a ascendente. Sem ruptura, sem má perfusão, sem dor recorrente, sem expansão. A régua nacional é explícita: dar preferência ao tratamento clínico em detrimento da cirurgia endovascular — recomendação FRACA no GRADE, apoiada num único ensaio randomizado. Analgesia e controle agressivo da pressão são grau A. Não é alta: seguimento radiológico programado, e cerca de metade dos crônicos acaba precisando de cirurgia.

Stanford B complicado — a endoprótese

Ruptura (hemotórax, expansão rápida do diâmetro, alargamento de mediastino), pseudoaneurisma, isquemia grave visceral ou de extremidades, ou dor persistente ou recorrente sob terapia medicamentosa — que é progressão por definição. Aorta já aneurismática que disseca entra aqui. Régua nacional: preferir cirurgia endovascular, também recomendação FRACA, por ser menos invasiva e não por eficácia superior provada. A anatomia decide: sem colo de ancoragem, cirurgia aberta.

Onde a régua nacional para

As Diretrizes Brasileiras de 2019 valem para a aorta torácica DESCENDENTE — tipo B de Stanford, tipo III de DeBakey. Ficam fora do escopo, por escrito: aneurismas de aorta ascendente e arco, síndromes genéticas e cardiopatias congênitas. E o documento declara que o cuidado clínico (medicamentos, atividade física, tabagismo) não foi avaliado. Para o tipo A e para o paciente com Marfan, a régua brasileira é a de sociedade, de 2009.

Onde a dissecção estáStanford / DeBakeyO que fazer
Origina-se na ascendente e se propaga ao menos até o arcoStanford A / DeBakey ICirurgia imediata (grau A). Fora do escopo da régua nacional de 2019.
Origina-se e fica confinada à ascendenteStanford A / DeBakey IICirurgia imediata (grau A). Enxerto reto, com ou sem abordagem da valva e da raiz.
Envolve a ascendente, mas a íntima rasgou na descendenteStanford A (a origem não muda a classe)Cirurgia imediata. É o caso que a classificação por origem faria perder.
Inicia-se na descendente, pode estender-se distal ou proximalmente sem alcançar a ascendenteStanford B / DeBakey IIIDepende de estar complicada. Não complicada: tratamento clínico. Complicada: intervenção.
Tipo B SEM ruptura, má perfusão, expansão ou dor recorrenteStanford B não complicadoTratamento clínico e seguimento radiológico (recomendação nacional, FRACA). Analgesia e controle agressivo da PA, grau A.
Tipo B COM qualquer complicaçãoStanford B complicadoPreferir cirurgia endovascular se a anatomia permitir (recomendação nacional, FRACA); cirurgia aberta se não permitir. Ambas grau A na diretriz de sociedade.

O que caracteriza o tipo B COMPLICADO (Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular)

ComplicaçãoComo ela aparecePor que muda a conduta
Sinais de ruptura aórticaHemotórax, expansão rápida do diâmetro aórtico, alargamento de mediastinoÉ sangramento em curso. Único item que dispensa qualquer outra discussão.
Formação de pseudoaneurismaAchado de imagem no controleParede contida por adventícia e coágulo — ruptura adiada, não evitada.
Isquemia grave visceral ou de extremidadesDor abdominal desproporcional, oligúria, perna fria, déficit de pulsoMá perfusão por ramo comprimido ou ocluído. Pode pedir stent de ramo ou fenestração por balão (grau C).
Progressão durante terapia medicamentosaDor persistente ou recorrente com pressão e frequência controladasÉ o critério mais precoce e o mais subestimado. Dor que volta É progressão, por definição.
Aorta previamente aneurismática que dissecaAntecedente de aneurisma torácico conhecidoParede já dilatada dissecando: considerar cirurgia de urgência, ainda que os outros itens estejam ausentes.

INSTEAD — resultados de 2 anos no tipo B NÃO complicado, como transcritos pelas Diretrizes Brasileiras de 2019

DesfechoTratamento clínicoCirurgia endovascularValor de p
Morte3 (4,4%)8 (11,1%)0,2
Paraplegia ou paraparesia permanente1 (1,4%)2 (2,8%)0,9
AVC com sequela02 (2,8%)0,53
LeituraOs três desfechos apontam numericamente para o lado clínicoNenhum dos três alcança significânciaBase da recomendação FRACA a favor do tratamento clínico

Cirurgia de aorta torácica descendente no SUS (DATASUS, 2015 e 2016)

DesfechoEndovascularCirurgia abertaComo ler
Número de procedimentos ao ano511 - 512253 - 259Endovascular é cerca de duas vezes mais comum no Brasil.
Taxa de mortalidade operatória7,0% - 8,4%25,7% - 30,9%Registro administrativo, sem randomização nem ajuste de risco: mede o que acontece, não compara técnicas.
Média de permanência8,8 - 9,9 dias12,2 - 12,3 diasDiferença compatível com o porte dos dois procedimentos.

As TRÊS recomendações das Diretrizes Brasileiras de 2019 são FRACAS no sistema GRADE — inclusive a de preferir tratamento clínico no tipo B não complicado e a de preferir endoprótese no tipo B complicado. O resumo das recomendações do documento traz apenas o "dar preferência", sem a força; ela está no apêndice, junto com os motivos (ausência de ensaios randomizados, alto risco de viés dos observacionais, heterogeneidade).

Há uma palavra que separa o resumo do corpo do documento nacional: o resumo recomenda tratamento clínico na "dissecção de aorta do tipo B não complicada", e a seção de resultados conclui pela manutenção do tratamento clínico na dissecção CRÔNICA tipo B não complicada — que é a população do ensaio e da revisão que sustentam a recomendação. A conduta na fase aguda não complicada é a mesma, mas a distinção explica por que os ensaios de intervenção precoce ficam fora dessa recomendação.

Stanford classifica por ENVOLVIMENTO da aorta ascendente; DeBakey, pela ORIGEM da lesão. Por isso uma dissecção cuja íntima rasgou na descendente e que subiu até a ascendente é Stanford A e opera. O texto brasileiro enuncia o tipo A como as dissecções "na aorta ascendente e arco" — leitura que também põe no tipo A a dissecção limitada ao arco, situação em que os sistemas clássicos são menos categóricos.

Dor persistente ou recorrente sob terapia medicamentosa não é falha de analgesia: é, por definição do documento de sociedade, progressão da dissecção — e portanto critério de tipo B complicado, com indicação de intervenção.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Endoprótese profilática na dissecção tipo B não complicada

Preferir o tratamento clínico à cirurgia endovascular — Diretrizes Brasileiras aprovadas pela Portaria Conjunta nº 03, Ministério da Saúde, 2019

A recomendação nacional é dar preferência ao tratamento clínico em detrimento da cirurgia endovascular no tipo B não complicado, com força FRACA no GRADE. A base é um único ensaio randomizado, o INSTEAD, cujos resultados de 2 anos o documento transcreve: 3 mortes (4,4%) no braço clínico contra 8 (11,1%) no endovascular, p igual a 0,2. O documento excluiu da análise a publicação de 5 anos por graves limitações metodológicas, e explica por quê: na publicação da extensão observa-se incoerência entre o texto e o gráfico de sobrevida — o texto refere não haver perdas de seguimento e nenhuma morte no grupo endovascular após o segundo ano, enquanto o gráfico mostra ambos os grupos terminando o estudo com 32 pacientes, metade dos recrutados. Em 20 de fevereiro de 2018 buscou-se esclarecimento junto aos autores e aos editores do periódico, sem resposta.

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Brasileiras para Utilização de Endoprótese em Aorta Torácica Descendente. Portaria Conjunta nº 03, de 7 de janeiro de 2019 — resumo das recomendações (recomendação 2), Pergunta 2 dos Resultados e Apêndice 1.

A intervenção precoce tem ganho em eventos aórticos e remodelamento, e o papel do tratamento clínico isolado permanece incerto — minieditorial da Escola Paulista de Medicina, Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2023

O minieditorial da Disciplina de Cirurgia Cardiovascular da Escola Paulista de Medicina registra que, no INSTEAD-XL, a endoprótese profilática somada ao tratamento clínico otimizado associou-se a melhora da sobrevida relacionada a eventos aórticos em 5 anos e da progressão tardia da doença, sem benefício significativo na mortalidade por todas as causas; e que, no ADSORB, não houve mortalidade precoce em nenhum dos grupos, com um único óbito em 1 ano, no grupo da endoprótese, e superioridade da endoprótese em trombose do falso lúmen, dilatação aórtica e ruptura, com benefícios clínicos de longo prazo ainda incertos. Os autores reconhecem que as diretrizes de referência recomendam terapia clínica isolada no tipo B não complicado, reservando a endoprótese para os casos complicados, e concluem que o papel do tratamento clínico otimizado isolado contra a intervenção precoce permanece incerto, faltando identificar quais subgrupos se beneficiam de cada estratégia. Trata-se de opinião qualificada de especialistas, não de revisão sistemática.

Gomes WJ, Gomes EN, Hossne NA Jr. Desvendando as Controvérsias da Dissecção Aórtica Tipo B — Interpretando as Evidências. Arq Bras Cardiol. 2023;120(8):e20230550.

Na prova

As duas posições são brasileiras, o que tira da mesa o critério "nacional contra internacional" — aqui o que separa é a função do documento e o desfecho que o enunciado escolhe. Se a questão cita portaria, CONITEC, Ministério da Saúde, regulação de acesso, autorização de procedimento ou simplesmente descreve um cenário de SUS, a resposta é tratamento clínico com seguimento radiológico, e não endoprótese. Se o enunciado fala em remodelamento aórtico, trombose do falso lúmen, dilatação tardia, eventos aórticos em 5 anos ou nomeia INSTEAD-XL ou ADSORB, ele está na discussão de desfecho substituto e de longo prazo, onde a intervenção precoce tem argumento. O desfecho citado é a chave: MORTALIDADE por todas as causas não separa os dois braços em nenhum dos ensaios; o que separa é evento aórtico e remodelamento. E preste atenção ao adjetivo do enunciado — a divergência só existe no tipo B NÃO COMPLICADO; havendo qualquer complicação, os dois lados concordam que se intervém.

Cirurgia aberta ou endoprótese no tipo B complicado

Preferir a cirurgia endovascular, por ser menos invasiva — recomendação FRACA, Ministério da Saúde, 2019

Em pacientes com dissecção da aorta torácica descendente do tipo B complicada, dar preferência à realização de cirurgia endovascular, considerando o caráter invasivo da cirurgia aberta. O documento classifica a recomendação como fraca e lista os motivos: ausência de ensaios randomizados, estudos observacionais com alto risco de viés, heterogeneidade entre os resultados e perfil semelhante de eficácia e segurança entre os tratamentos. As duas revisões que a sustentam reuniram coortes com risco cirúrgico heterogêneo, e numa delas os pacientes do grupo de cirurgia aberta eram significativamente mais jovens que os do endovascular, sem diferença na sobrevida de longo prazo. Ou seja: a preferência é pelo menor porte do procedimento, não por superioridade demonstrada.

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Brasileiras para Utilização de Endoprótese em Aorta Torácica Descendente. Portaria Conjunta nº 03, de 7 de janeiro de 2019 — recomendação 3 e Pergunta 3 dos Resultados (revisões de Kamman 2016 e Zhu 2016).

As duas técnicas em grau A, e a anatomia decide — Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, atualização de 2009

A tabela de recomendações do tipo B do documento de sociedade dá grau A a duas linhas paralelas: tratamento cirúrgico se dor persistente ou recorrente, sinais de expansão, ruptura ou má perfusão de extremidades; e implante de endoprótese recoberta nas mesmas condições, acrescentando "e anatomia favorável". Nenhuma das duas é apresentada como preferencial sobre a outra — o que qualifica a endoprótese é a anatomia. O documento registra ainda que a metanálise disponível mostra o tratamento endovascular tecnicamente viável, com sucesso acima de 95% em coortes selecionadas, complicações em 14% a 18% e incidência muito baixa de paraplegia, e que a mortalidade a curto e médio prazo se compara favoravelmente à da cirurgia convencional. É uma régua mais antiga, de 2009, e mais generosa com a cirurgia aberta do que a formulação nacional de 2019.

Albuquerque LC, Braile DM, Palma JH, Saadi EK, Almeida RMS (eds.). Diretrizes para o tratamento cirúrgico das doenças da aorta da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular — Atualização 2009. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2009;24(2) Supl:7s-34s — Tabela 2.

Na prova

Os dois documentos são brasileiros e não se contradizem no que fazer — ambos intervêm —, e sim na hierarquia entre as duas técnicas e na força com que a afirmam. Enunciado que cite portaria, CONITEC, protocolo do Ministério da Saúde ou autorização de procedimento no SUS pede a formulação de 2019: preferir a cirurgia endovascular. Enunciado que descreva a decisão à beira do leito, ou que ofereça as duas técnicas como alternativas legítimas, está na lógica da diretriz de sociedade, em que as duas têm grau A e a anatomia decide. Repare que a palavra que resolve muitas questões é ANATOMIA: o fluxograma nacional só oferece a endoprótese depois da pergunta "anatomicamente viável?", e o "não" leva à cirurgia aberta sem que isso seja considerado segunda linha. E cuidado com a força: alternativa que descreva a preferência nacional pela endoprótese como recomendação forte ou baseada em ensaios randomizados está errada — ela é fraca e assumidamente apoiada em observacionais.

06

Caso resolvido

Homem de 62 anos, hipertenso de longa data com adesão irregular à medicação, chega ao pronto-socorro com dor interescapular de início súbito há 3 horas, que ele descreve como "um rasgo", de forte intensidade desde o primeiro segundo. Nega dispneia. Exame: lúcido, ansioso, pressão arterial 198 por 112 mmHg no braço direito e 194 por 110 mmHg no esquerdo, frequência cardíaca 96 bpm. Pulsos radiais, femorais e pediosos presentes e simétricos. Ausculta cardíaca sem sopros; murmúrio vesicular presente bilateralmente. Exame neurológico sem déficits. Abdome flácido e indolor. Eletrocardiograma com sobrecarga ventricular esquerda, sem supradesnivelamento. Radiografia de tórax com alargamento do mediastino superior. Levado à angiotomografia: dissecção aórtica com retalho intimal iniciando 2 cm distal à emergência da artéria subclávia esquerda e estendendo-se até a aorta abdominal infrarrenal; aorta ascendente e arco sem retalho; sem hemotórax, sem derrame pericárdico; artérias renais, mesentérica superior e ilíacas com enchimento preservado pela luz verdadeira. Diâmetro máximo da aorta descendente de 4,1 cm. Internado em unidade fechada, com controle pressórico e analgesia, a dor cedeu completamente em 40 minutos e não retornou nas 18 horas seguintes; diurese preservada, pulsos mantidos.
achado
Retalho intimal que começa depois da artéria subclávia esquerda e não alcança a aorta ascendente nem o arco: é Stanford B, DeBakey III. A extensão distal até a aorta abdominal não muda a classe — o que classifica em Stanford é o envolvimento da ascendente, e ela está poupada. O alargamento de mediastino na radiografia cumpriu aqui o papel que a diretriz brasileira lhe dá: promoveu o paciente ao fluxo de alta probabilidade e o levou direto à angiotomografia, sem D-dímero.
raciocínio
A segunda pergunta é a que decide, e a resposta é negativa em todos os itens: não há sinais de ruptura (sem hemotórax, sem expansão rápida documentada), não há pseudoaneurisma, não há isquemia visceral ou de extremidade (renais, mesentérica e ilíacas enchendo, pulsos simétricos, diurese preservada), não há progressão sob terapia medicamentosa — a dor cedeu em 40 minutos e não voltou —, e não havia aorta previamente aneurismática. É um tipo B NÃO complicado. O diâmetro de 4,1 cm não é critério aqui: no fluxograma nacional da dissecção não existe corte de diâmetro, e a única bifurcação é "complicada?".
conduta
Tratamento clínico, que é a recomendação nacional de 2019 para esta caixa — dar preferência ao tratamento clínico em detrimento da cirurgia endovascular —, mantendo o paciente em unidade fechada com analgesia e controle agressivo da pressão arterial, que é grau A na diretriz de sociedade. Não indicar endoprótese: a régua brasileira a reserva ao tipo B complicado, e o ensaio que sustenta a preferência mostrou, aos 2 anos, mais mortes no braço da endoprótese (8, ou 11,1%) que no clínico (3, ou 4,4%), sem significância. Os alvos numéricos de pressão e frequência e a ordem das drogas estão no capítulo de crise hipertensiva da apostila de Cardiologia deste nível.
reavaliação
As quatro perguntas do tipo B complicado passam a ser rotina de beira de leito, e nenhuma delas depende de exame novo: a dor voltou? apareceu sangue onde não devia? algum território parou de perfundir? a aorta cresceu? Dor recorrente sob pressão controlada é o gatilho mais precoce e o mais desprezado — ela É progressão da dissecção pela definição do documento, e converte este paciente em candidato à intervenção. Reavaliar pulsos, pressão nos dois braços, abdome e diurese em cada passagem.
seguimento
Alta com programa, não com receita. O fluxograma nacional escreve "tratamento clínico E seguimento radiológico" nas duas caixas em que não se opera, porque a falsa luz permanece pérvia em cerca de 80% dos casos e a degeneração aneurismática tardia da aorta descendente é o desfecho que a vigilância existe para capturar — cerca de metade das dissecções crônicas tipo B mantidas em tratamento clínico acaba necessitando de cirurgia. Controle pressórico permanente, que é a única medida que atua sobre o mecanismo, e retorno com imagem programada.
orientação de alarme
Orientar explicitamente o sinal que muda tudo: retorno imediato ao pronto-socorro se a dor torácica ou dorsal voltar, dizendo que tem dissecção de aorta. Vale ensinar também o que procurar em casa — perna que esfria ou dói, dor abdominal forte, queda importante do volume de urina —, porque são os territórios que o retalho pode fechar depois da alta.
07

Agora feche você

Mulher de 54 anos, hipertensa, chega ao pronto-socorro com dor torácica anterior de início súbito há 50 minutos, de forte intensidade, irradiada para o pescoço, que começou no máximo e não construiu. Está pálida e sudoreica. Pressão arterial 92 por 58 mmHg no braço direito e 138 por 84 mmHg no esquerdo; frequência cardíaca 112 bpm; pulso radial direito nitidamente diminuído em relação ao esquerdo. Ausculta com sopro diastólico aspirativo em foco aórtico, que a paciente afirma nunca ter tido. Sem déficit neurológico focal. Eletrocardiograma com supradesnivelamento do segmento ST de 2 mm em parede inferior. Radiografia de tórax com alargamento do mediastino superior. O plantonista, diante do traçado, já prescreveu ácido acetilsalicílico 200 mg mastigado, clopidogrel em dose de ataque e enoxaparina, e acionou a hemodinâmica para cateterismo de urgência.
achado
Dor máxima desde o primeiro segundo, assimetria de pressão de 46 mmHg entre os braços, déficit de pulso radial à direita, sopro diastólico aórtico novo e hipotensão — quatro achados do exame clínico do ADD-RS, todos na mesma categoria. Somados à dor súbita e severa, dão 2 pontos: alta probabilidade de síndrome aórtica aguda. O alargamento de mediastino na radiografia, sozinho, já mandaria seguir o fluxo de alta probabilidade.
erro a desfazer
Três condutas já prescritas trabalham contra a paciente: ácido acetilsalicílico, clopidogrel e enoxaparina. O supradesnivelamento inferior é compatível com comprometimento do óstio coronário pelo retalho, e antiagregar e anticoagular uma aorta que está rasgando é o oposto do necessário. Enquanto a dissecção estiver na lista, antiagregante e anticoagulante ficam adiados até confirmar ou descartar.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Classificar a dissecção pelo lugar onde a íntima rasgou É o erro que a própria formulação do documento brasileiro antecipa: o sistema de Stanford classifica como tipo A as dissecções na aorta ascendente e arco INDEPENDENTEMENTE do local da lesão na íntima. A vinheta clássica traz a porta de entrada na aorta descendente com extensão retrógrada até a ascendente — quem classifica pela origem responde tipo B e manda o paciente para a UTI com betabloqueador; a resposta é tipo A e cirurgia imediata. Quem classifica pela origem é DeBakey, e é por isso que o tipo III de DeBakey admite explicitamente extensão proximal: no sistema dele a origem manda, no de Stanford manda o envolvimento.
  2. 2Somar o ADD-RS item a item O ADD-RS tem 12 variáveis e máximo de 3 pontos, porque a pontuação é por CATEGORIA: qualquer item dentro de uma categoria vale 1 ponto para aquela categoria, e ter quatro itens não vale quatro pontos. O paciente com dor de início súbito, de forte intensidade e descrita como rasgando tem três características — todas na mesma categoria — e pontua 1, o que o coloca em baixa probabilidade. É contraintuitivo de propósito, e é a razão de existir a nota de rodapé que manda o alargamento de mediastino sobrepor o escore. Não confunda com o AORTA, que soma item a item e é o único dos dois em que uma característica (hipotensão ou choque) vale 2 pontos.
  3. 3Usar o ADD-RS (ou o AORTA) sozinho para descartar dissecção É a única classe III do tema na diretriz brasileira de 2025, com nível de evidência B: ADD-RS e AORTA NÃO devem ser utilizados exclusivamente na avaliação inicial para exclusão ou confirmação diagnóstica. Eles são escores de probabilidade pré-teste que usam apenas dados clínicos e não têm acurácia suficiente, isoladamente, para definir ou descartar síndrome aórtica aguda. O papel deles é decidir qual exame vem em seguida — D-dímero na baixa probabilidade, imagem acima disso. Alternativa que diga "ADD-RS zero, descartada dissecção" está contrariando uma recomendação classe III.
  4. 4Pedir D-dímero no paciente com alta probabilidade No fluxograma brasileiro, o D-dímero existe só no ramo da BAIXA probabilidade pré-teste: abaixo de 500 ng/mL manda procurar outro diagnóstico, a partir de 500 ng/mL manda fazer imagem. Com probabilidade acima de baixa — ADD-RS de 2 ou 3 pontos, ou sinal radiográfico sugestivo —, o caminho é imagem direto. Dosar D-dímero nesse paciente não muda conduta, porque a angiotomografia será feita de qualquer forma, e cria a chance de um resultado abaixo do corte ser lido como tranquilizador em quem tem alta probabilidade. Exame que não muda conduta, em doença que mata 1% a 2% por hora, custa tempo.
  5. 5Ler a radiografia normal como exclusão O alargamento do mediastino superior é o achado mais frequente e está presente em 60% a 90% dos casos — o que significa que entre 10% e 40% das dissecções têm radiografia sem ele. A diretriz brasileira é literal ao frisar que a normalidade desse exame não exclui o diagnóstico de dissecção aórtica. A assimetria de uso é o ponto: a radiografia alterada PROMOVE o paciente ao fluxo de alta probabilidade independentemente do escore; a radiografia normal não o rebaixa. Vale a mesma lógica para o ecocardiograma transtorácico, cujos achados úteis são indiretos.
  6. 6Concluir que operar o tipo B triplica a mortalidade O dado do IRAD é real — mortalidade em 30 dias de 10% no tipo B tratado conservadoramente contra 31% no operado, com 18% de paraplegia — e a conclusão é falsa. Não houve randomização: os operados são os complicados, os que romperam, perderam território ou não pararam de doer. É confundimento por indicação, e o próprio documento brasileiro registra que as condições clínicas pré-operatórias tiveram importante influência no resultado, e que em 3 anos não houve diferença estatisticamente significativa entre terapia médica, endovascular e cirúrgica. Use o número para dimensionar a gravidade do tipo B complicado, nunca para escolher tratamento.
  7. 7Indicar endoprótese no tipo B não complicado para "prevenir a dilatação tardia" O raciocínio tem apoio parcial e a conduta contraria a régua nacional. É verdade que a falsa luz fica pérvia em cerca de 80% dos casos e que cerca de metade das dissecções crônicas tipo B em tratamento clínico acaba precisando de cirurgia — e é verdade que ensaios de intervenção precoce mostraram melhor remodelamento aórtico. Mas a recomendação brasileira de 2019 é dar preferência ao tratamento clínico em detrimento da cirurgia endovascular no tipo B não complicado, e o ensaio que a sustenta mostrou, aos 2 anos, 8 mortes (11,1%) no braço da endoprótese contra 3 (4,4%) no clínico. Em cenário de SUS, ou com citação de portaria e regulação de acesso, a resposta é tratamento clínico com seguimento radiológico.
  8. 8Aplicar a régua nacional ao tipo A ou ao paciente com Marfan As Diretrizes Brasileiras de 2019 dizem, nos critérios de exclusão, o que não cobrem: síndromes genéticas ou cardiopatias congênitas, e aneurismas da aorta ascendente e do arco torácico. Elas também declaram que o cuidado clínico — tratamento medicamentoso, atividade física, controle do tabagismo — não faz parte do escopo. Portanto não existe recomendação nacional de preferir endoprótese num tipo A, nem de conduta na aorta do paciente com Marfan por esse documento: a régua ali é o documento de sociedade, cuja atualização é de 2009 e cuja primeira recomendação no tipo A é cirurgia imediata, grau A. Vinheta com Marfan ou Ehlers-Danlos costuma existir para testar esse limite de escopo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na dissecção aórtica o objetivo é reduzir a força de cisalhamento (dP/dt) e a frequência cardíaca, iniciando betabloqueador EV (ex.: esmolol/labetalol) para controlar FC (alvo ~60 bpm) ANTES de associar vasodilatador; nitroprussiato isolado causa taquicardia reflexa e aumenta a dP/dt, agravando a dissecção. Reposição volêmica não é o alvo. Trombolíticos e antitrombóticos são contraindicados por risco catastrófico de sangramento/extensão. Dissecção de aorta ascendente (tipo A) é emergência cirúrgica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Números e regras, na ordem em que a questão os usa. ANATOMIA: ascendente do ânulo ao tronco braquiocefálico; arco entre tronco braquiocefálico e subclávia esquerda; descendente começa após a subclávia esquerda e termina no diafragma. CLASSIFICAÇÃO: Stanford A = ascendente e arco, INDEPENDENTEMENTE do local da lesão da íntima; Stanford B = todas as outras. DeBakey I = origina na ascendente e propaga ao menos ao arco; II = origina e confinada à ascendente; III = inicia na descendente, pode estender-se distal ou proximalmente. DeBakey I e II = Stanford A; DeBakey III = Stanford B. EPIDEMIOLOGIA: dissecção é cerca de 70% das síndromes aórticas agudas; letalidade de 1% a 2% por hora nas primeiras 48 horas; um caso para cada 20 a 90 infartos; diagnósticos potencialmente fatais são menos de 10% a 20% da dor torácica. ESCORES: ADD-RS com 12 variáveis em 3 categorias, 1 ponto POR CATEGORIA, máximo 3; até 1 ponto é baixa probabilidade, 2 ou 3 é alta. AORTA soma item a item, hipotensão ou choque vale 2 e as outras cinco valem 1 (máximo 7); 0 a 1 baixo risco, 2 ou mais alto. CLASSES: ADD-RS IIa/B; POCUS em adição IIa/B; AORTA IIb/C; usar qualquer um deles ISOLADAMENTE para excluir ou confirmar é III/B. IMAGEM: baixa probabilidade dosa D-dímero (abaixo de 500 ng/mL procura outro diagnóstico; a partir de 500 faz imagem); acima de baixa vai direto à imagem. Angiotomografia é o exame habitual, transesofágico é a alternativa. Alargamento de mediastino superior em 60% a 90% das radiografias, e radiografia normal NÃO exclui. TIPO A: cirurgia imediata, grau A; proteção cerebral quando o arco for intervido, grau A; lesão da íntima dentro do arco transverso em 10% a 20% das dissecções; mortalidade operatória de 26% no IRAD com 464 casos e mortalidade hospitalar de 27% na atualização com 645, contra 6% a 12% relatados por grupos de excelência. TIPO B NÃO COMPLICADO: recomendação nacional FRACA a favor do tratamento clínico; manejo clínico com analgesia e controle agressivo da PA é grau A; INSTEAD aos 2 anos com morte em 3 (4,4%) no clínico contra 8 (11,1%) no endovascular, p 0,2, paraplegia permanente 1 (1,4%) contra 2 (2,8%), p 0,9, AVC com sequela 0 contra 2 (2,8%), p 0,53. TIPO B COMPLICADO: ruptura (hemotórax, expansão rápida, alargamento de mediastino), pseudoaneurisma, isquemia grave visceral ou de extremidades, progressão sob terapia medicamentosa com dor persistente ou recorrente, e aorta previamente aneurismática que disseca; recomendação nacional FRACA a favor da endoprótese; na diretriz de sociedade, cirurgia e endoprótese têm ambas grau A e a anatomia decide; stent de ramo e fenestração por balão em grau C; mortalidade cirúrgica de 29,3% e 32% em duas leituras do IRAD. NÚMEROS QUE ENGANAM: IRAD tipo B com 10% conservador contra 31% operado e 18% de paraplegia é confundimento por indicação, e em 3 anos não há diferença entre as três estratégias. DATASUS 2015-2016: endovascular 511-512 procedimentos ao ano contra 253-259 do aberto, mortalidade operatória 7,0%-8,4% contra 25,7%-30,9%, permanência 8,8-9,9 contra 12,2-12,3 dias, sem randomização. SEGUIMENTO: falsa luz pérvia em cerca de 80%; cerca de 50% dos crônicos tipo B em tratamento clínico acabam operando. ESCOPO DA RÉGUA NACIONAL: cobre a torácica descendente (tipo B de Stanford, tipo III de DeBakey) e exclui síndromes genéticas, cardiopatias congênitas e aneurismas de ascendente e arco; o cuidado clínico está fora do escopo.

em 30 dias

Reconstrua o capítulo por perguntas, sem olhar as tabelas. (1) A íntima rasgou na aorta descendente e a dissecção subiu até a ascendente: qual a classificação em Stanford, qual em DeBakey, e qual a conduta? Por que os dois sistemas respondem diferente? (2) Um paciente tem dor de início súbito, de forte intensidade e descrita como rasgando, e nada mais: quantos pontos no ADD-RS, e em que faixa isso o coloca? E se ele também estivesse hipotenso com déficit de pulso? (3) Diga a única recomendação classe III do tema na diretriz brasileira de 2025 e explique por que ela existe. (4) Liste, sem consultar, os cinco itens que caracterizam o tipo B complicado, e diga qual deles é o mais precoce e o mais subestimado. (5) Qual é a recomendação nacional para o tipo B não complicado, e qual é a FORÇA dela no GRADE? Que ensaio a sustenta, e o que ele mostrou aos 2 anos? (6) Por que a mortalidade de 31% no tipo B operado do IRAD não significa que a cirurgia piora o prognóstico? Que dado do mesmo registro reforça a sua resposta? (7) Um paciente com tipo B não complicado pergunta se não seria melhor "já colocar o stent para não dilatar depois": o que dizem o INSTEAD-XL e o ADSORB, e o que responde a régua brasileira? (8) Cite três coisas que as Diretrizes Brasileiras de 2019 declaram FORA do próprio escopo, e diga qual documento governa cada uma delas. (9) Radiografia de tórax normal em paciente com ADD-RS de 2 pontos: você descarta dissecção? E se a radiografia mostrasse alargamento de mediastino num paciente com ADD-RS de 1? (10) Mulher com dor torácica súbita, supradesnivelamento inferior, sopro diastólico aórtico novo e déficit de pulso: diga em voz alta a sequência inteira, incluindo o que você NÃO prescreve e por quê.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 58 anos, hipertenso sem acompanhamento, com dor interescapular súbita e lancinante há 2 horas, pressão arterial 204 por 118 mmHg, assimetria de pulsos femorais e dor abdominal desproporcional ao exame surgida na última meia hora — atendido no pronto-socorro depois de receber alta de outro serviço com diagnóstico de lombalgia — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.