Cirurgia GeralCirurgia Vascular

Pé diabético e úlceras de membros inferiores

Quase toda questão do tema se resolve separando três úlceras — a venosa, a arterial e a neuropática — pela topografia, pela borda, pelo leito, pela dor e pelo pulso. O resto é saber o que a neuropatia apaga, por que o índice tornozelo-braquial mente no diabético, e qual das duas réguas brasileiras de rastreio o enunciado está usando.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 58 anos, diabético, apresenta úlcera em região plantar sobre a cabeça do 1º metatarso do pé direito, de bordas hiperceratóticas, fundo limpo, indolor. Pulsos pediosos presentes e simétricos. Sem sinais de infecção sistêmica. Qual é o mecanismo fisiopatológico predominante dessa lesão?

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Como esse tema cai

Quase toda questão deste tema se resolve separando três úlceras. A venosa, a arterial e a neuropática têm localização, borda, leito, dor, pulso e pele ao redor diferentes, e o enunciado descreve exatamente esses seis itens porque é por eles que se decide. Quem chega à tabela chega à resposta: a venosa vai para compressão, a arterial vai para o cirurgião vascular, a neuropática vai para descarga de pressão. Trocar as três é trocar a conduta inteira — e comprimir perna isquêmica é a iatrogenia clássica do tema.

A segunda metade do tema é o pé diabético propriamente dito, que a prova cobra por dois caminhos. Um é a Atenção Básica: quem examina, com que instrumento, de quanto em quanto tempo, e qual classificação de risco governa a agenda. O outro é a porta do hospital: a úlcera infectada, quando internar, qual antibiótico empírico e como se diagnostica osteomielite. Os dois caminhos se encontram numa frase: a neuropatia apaga o aviso. Não é que o pé diabético doa pouco — é que ele não doe, e por isso a lesão chega tarde, já grande, às vezes já com osso exposto.

As réguas são quatro, e vale saber quem manda em quê. O Manual do pé diabético do Ministério da Saúde, de 2016, organiza o rastreamento no SUS e é o documento que o enunciado de Medicina de Família reproduz. As Diretrizes da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular sobre o pé diabético, publicadas em 2024 no Jornal Vascular Brasileiro, são a régua nacional do especialista. A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes cobre prevenção e infecção com recomendações graduadas. E o International Working Group on the Diabetic Foot é a matriz internacional que as duas sociedades brasileiras reproduzem — inclusive na estratificação de risco, ponto em que elas se afastam do manual do Ministério.

Três blocos ficam de fora porque já estão escritos nesta apostila e em Clínica Médica, e repeti-los aqui só dilui. As faixas completas do índice tornozelo-braquial, as correspondências entre Fontaine e Rutherford, o sistema WIfI por inteiro e a escolha entre bypass e angioplastia estão no capítulo de Doença arterial obstrutiva periférica; aqui entra só o que o diabetes muda nesses números. A insuficiência venosa crônica, a CEAP e as faixas de compressão em mmHg estão no capítulo de Insuficiência venosa crônica e varizes; aqui a úlcera venosa aparece como coluna da tabela diferencial e como armadilha de conduta. E o tratamento crônico do diabetes, o rastreio das demais complicações microvasculares e o manejo farmacológico da dor neuropática ficam com os capítulos de Endocrinologia.

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O que muda decisão

As três úlceras: a tabela que resolve a questão

A úlcera venosa é rasa, de bordas irregulares, exsudativa, com fundo de granulação avermelhado, e mora acima do maléolo medial, numa perna edemaciada e pigmentada de ocre. Dói de forma difusa, piora em ortostatismo e melhora com a perna elevada. Os pulsos estão presentes. É a mais comum das três, e é justamente por isso que ela vira reflexo diagnóstico onde não deveria.

A úlcera arterial é o oposto ponto a ponto. Fica nas extremidades — ponta dos dedos, borda lateral do pé, calcâneo, maléolo lateral —, tem bordas regulares, como recortadas a saca-bocado, leito pálido, seco, com fibrina ou necrose, e pouca ou nenhuma granulação. A pele ao redor é fina, brilhante, fria, sem pelos, com unhas distróficas. A dor é intensa, piora com a elevação e com o decúbito, e alivia quando o paciente pendura a perna para fora da cama. Os pulsos estão diminuídos ou ausentes.

A úlcera neuropática é a assinatura do pé diabético, e o que a define não é o aspecto, é a topografia e a ausência de dor. Ela nasce em ponto de carga — cabeça dos metatarsos, sobretudo a primeira e a quinta, hálux, calcâneo, ou sobre uma proeminência óssea de dedo em garra —, tem bordas hiperceratóticas, um anel de calo em volta, leito róseo e limpo se não houver isquemia, e é indolor. O pé é quente, com pulsos palpáveis, seco por perda da sudorese autonômica, muitas vezes deformado. O nome clássico brasileiro para ela é mal perfurante plantar.

Duas ressalvas separam quem decorou a tabela de quem entendeu o mecanismo. A primeira: a maioria das úlceras do pé em diabéticos não é neuropática pura nem isquêmica pura, e sim neuroisquêmica — a combinação das duas. A diretriz internacional é explícita ao classificar o tipo de úlcera pelas duas variáveis: neuropática quando há perda de sensibilidade protetora sem doença arterial, neuroisquêmica quando há as duas, isquêmica quando há doença arterial sem perda de sensibilidade. A segunda: a doença arterial periférica está presente em até 50% das pessoas com úlcera de pé diabético. Presumir que a ferida do diabético é neuropática porque o pé é de diabético é errar em metade dos casos.

E há a armadilha que junta os dois lados da tabela. O mesmo paciente de 70 anos, diabético e tabagista, costuma ter varizes na perna e placa na artéria. Ver a variz e concluir úlcera venosa leva a enfaixar um membro isquêmico. Quem autoriza a compressão não é a variz nem o aspecto da ferida — é a medida objetiva de perfusão.

Três pernas lado a lado mostrando onde cada úlcera aparece: acima do maléolo medial, em perna edemaciada e pigmentada, na primeira; na ponta do quinto dedo e na borda do calcâneo, em pé pálido e sem pelos, na segunda; e sob a cabeça do primeiro metatarso, cercada por anel de calo e com dedos em garra, na terceira.
A topografia entrega o diagnóstico antes de qualquer exame: a venosa mora acima do maléolo medial, a arterial nas extremidades e nos pontos de menor perfusão, a neuropática exatamente onde o pé pisa.

As três vias do pé diabético e por que a neuropatia é a que atrasa tudo

O pé diabético é a interação de três mecanismos: neuropatia periférica, doença arterial periférica e infecção. A diretriz internacional descreve a cadeia em ordem, e vale guardá-la nessa ordem porque cada elo explica uma conduta. A neuropatia produz um pé insensível e, com o tempo, deformado; a perda da sensibilidade protetora, as deformidades adquiridas e a limitação da mobilidade articular geram carga biomecânica anormal; a carga anormal cria zonas de alta pressão; a resposta da pele à alta pressão é o calo; o calo aumenta ainda mais a carga naquele ponto, produz hemorragia subcutânea sob a hiperceratose e termina em ulceração. Depois de aberta a ferida, continuar andando sobre o pé insensível impede a cicatrização — qualquer que tenha sido a causa inicial.

A neuropatia tem ainda dois braços além do sensitivo. O motor desequilibra a musculatura intrínseca do pé e produz dedos em garra, dedos em martelo e proeminência das cabeças metatarsais, que são os novos pontos de pressão. O autonômico abole a sudorese e deixa o pé seco, com fissuras que são porta de entrada bacteriana, e produz vasodilatação com pé quente e veias dorsais ingurgitadas — um pé que parece bem perfundido e não necessariamente está.

A doença arterial periférica é o segundo elo, e no diabético ela tem topografia própria: difusa, multissegmentar, com predomínio infrapoplíteo, calcificação extensa e rede colateral pobre. É esse padrão que torna a revascularização tecnicamente mais difícil e o prognóstico pior. A microangiopatia diabética existe e é visível no pé, mas a diretriz internacional é categórica: ela não parece ser a causa primária nem da úlcera nem da má cicatrização — e a diretriz brasileira transforma isso em recomendação de classe III, ou seja, não presuma que a microangiopatia explica a ferida que não fecha. Quem atribui à microangiopatia deixa de procurar a obstrução que tem tratamento.

A infecção é quase sempre o terceiro elo, secundário aos dois primeiros: entra pela solução de continuidade que a neuropatia permitiu e progride mais rápido no tecido que a isquemia empobreceu. É a complicação do diabetes que mais leva à internação e o evento precipitante mais comum de amputação de membro inferior.

O que amarra os três é a anestesia. Uma pessoa com doença arterial periférica e sensibilidade preservada claudica: ela tem sintoma, procura ajuda e chega antes da ferida. A mesma doença arterial num pé insensível não claudica — a úlcera aparece antes do sintoma. É por isso que a ausência de queixa não afasta nada. A diretriz internacional escreve isso em uma linha que vale decorar: a ausência de sintomas em uma pessoa com diabetes não exclui doença do pé; ela pode ter neuropatia assintomática, doença arterial periférica, sinais pré-ulcerativos ou mesmo uma úlcera.

Os números de desfecho justificam a paranoia. A incidência de úlcera ao longo da vida de uma pessoa com diabetes fica entre 19% e 34%, com incidência anual em torno de 2%. Cicatrizada a úlcera, a recorrência é de 40% em um ano e de 65% em três anos — por isso a diretriz internacional trata o pé cicatrizado como pé em remissão, e não como pé curado. O estudo brasileiro brazupa, transversal, com 1.455 pacientes em 19 centros, encontrou 18,6% com úlcera ativa, 25,3% com história prévia de úlcera e 13,7% com amputação prévia, numa população de idade média 57 anos — mais jovem que a europeia e a norte-americana com o mesmo grau de comprometimento.

O exame neurológico do pé: o monofilamento, o diapasão e o aquileu

O instrumento é o monofilamento de 10 g de Semmes-Weinstein, também identificado como 5,07. Duas confusões precisam morrer aqui. A primeira: 10 g é a força que o filamento entrega quando encurva, não a sua espessura, calibre ou comprimento — o teste está correto quando o filamento se dobra, e a dobra é o que padroniza a força aplicada. A segunda: 5,07 é o índice do filamento na escala de Semmes-Weinstein, não um segundo instrumento nem uma medida em milímetros. Monofilamento de 10 g e monofilamento 5,07 são o mesmo objeto.

A técnica é padronizada e a prova cobra os detalhes. Demonstra-se antes na mão, no cotovelo ou na testa do paciente, para que ele saiba o que deve sentir. Aplica-se perpendicular à pele, com força suficiente apenas para encurvar o filamento, sem deslizar sobre a pele e sem repicar no mesmo ponto. O tempo total entre a aproximação, o contato e a retirada é de cerca de 2 segundos. Não se aplica sobre úlcera, calo, cicatriz ou tecido necrótico — aplicar sobre calo produz um falso-positivo de perda de sensibilidade. O paciente não pode ver quando nem onde o filamento toca, e responde duas coisas: se sentiu, e onde sentiu.

A regra de leitura é a mesma nos dois documentos e é o que a questão pede. Em cada ponto testado fazem-se três perguntas: duas aplicações reais e pelo menos uma aplicação simulada, em que o filamento não toca. A sensibilidade protetora está presente naquele ponto se o paciente acerta duas das três; está ausente se erra duas das três. A aplicação simulada não é firula: sem ela, um paciente que responde sim por antecipação passa no teste.

O número de pontos é onde os dois documentos divergem, e a divergência é reprodutível na prova. O Manual do Ministério da Saúde manda pesquisar quatro pontos em ambos os pés. A diretriz internacional de 2023 manda testar três pontos diferentes em ambos os pés, escolhidos entre os sítios da figura. Nas duas versões a regra de leitura por ponto é idêntica. Vale fazer a conta que nenhum dos dois documentos faz: pela régua do Ministério são 4 pontos por pé, 8 pontos no total e 24 perguntas; pela internacional são 3 pontos por pé, 6 pontos e 18 perguntas.

O monofilamento também tem prazo de validade mecânico, e isso já apareceu em prova de rede. O uso repetido no mesmo dia faz o filamento perder temporariamente a força de encurvamento. O Manual do Ministério recomenda deixá-lo em repouso 24 horas a cada dez pacientes examinados e estima vida útil de cerca de 18 meses; a diretriz internacional sugere não usar nas 24 horas seguintes após avaliar 10 a 15 pacientes e substituí-lo após 70 a 90 pacientes. Não é descartável e não precisa de autoclave: lava-se com sabão líquido e água morna.

O segundo teste é a sensibilidade vibratória com diapasão de 128 Hz. Aplica-se na parte óssea do dorso da falange distal do hálux, perpendicular e com pressão constante, também com três aplicações e pelo menos uma simulada em que o diapasão não vibra, e a leitura é a mesma regra de duas em três. O detalhe que a prova gosta: o teste é anormal quando o paciente deixa de sentir a vibração enquanto o examinador ainda a percebe. Se o hálux estiver ausente ou insensível, repete-se em ponto mais proximal — maléolo ou tuberosidade tibial.

O terceiro é o reflexo aquileu, obtido por percussão do tendão de Aquiles com o martelo ou por digitopercussão, com o paciente sentado com o pé pendente ou ajoelhado numa cadeira e o pé mantido em discreta dorsiflexão. A resposta esperada é a flexão plantar reflexa; o teste está alterado quando o reflexo está ausente ou diminuído. O Manual brasileiro registra que a ausência total ou parcial do aquileu é sinal preditivo importante de ulceração.

Onde não houver monofilamento nem diapasão, existe uma alternativa validada: o Ipswich Touch Test. O examinador toca levemente, por 1 a 2 segundos, com a ponta do próprio indicador, as pontas do primeiro, do terceiro e do quinto dedos de ambos os pés, sem empurrar, bater nem cutucar; a perda de sensibilidade protetora é provável quando o toque não é percebido em dois ou mais sítios. Num estudo com 265 pessoas, tendo como referência o limiar de percepção vibratória acima de 25 V e definindo pé em risco como duas ou mais áreas insensíveis entre seis testadas, a sensibilidade e a especificidade foram de 77% e 90% para o Ipswich e de 81% e 91% para o monofilamento de 10 g, com concordância quase perfeita entre eles.

Um alerta de escopo que evita erro em questão de Endocrinologia: o monofilamento de 10 g avalia fibra grossa e serve para identificar o pé em risco de ulcerar. Ele não é bom instrumento de rastreio da neuropatia diabética precoce, que começa nas fibras finas. Monofilamento normal significa pé com sensibilidade protetora preservada, não neuropatia excluída.

O índice tornozelo-braquial no pé diabético: o número que mente

A palpação de pulsos abre a avaliação vascular e não a encerra. Para diagnosticar doença arterial periférica no diabético, o exame clínico tem sensibilidade de 55% e especificidade de 60%; no pé já ulcerado a palpação de pulso tem razão de verossimilhança positiva de 1,38 e negativa de 0,75 — números que praticamente não movem a probabilidade em nenhuma direção. Daí a regra: em toda pessoa com úlcera no pé, a perfusão precisa de avaliação objetiva.

A medida do índice tornozelo-braquial segue o mesmo procedimento de sempre — decúbito dorsal por 10 minutos, ambiente calmo a 22-24 °C, manguito de tamanho adequado, Doppler de onda contínua, manguito da perna cerca de 2 cm acima do maléolo, insuflação 30 mmHg acima do desaparecimento do sinal e desinsuflação a 2-3 mmHg por segundo. As faixas de interpretação estão no capítulo de Doença arterial obstrutiva periférica. O que muda no diabético é o numerador e é a confiança no resultado.

O numerador primeiro, porque é o detalhe que quase ninguém sabe. A diretriz internacional de 2023 determina que, para diagnosticar doença arterial periférica em pessoas com diabetes, o índice de cada membro seja calculado dividindo-se a menor das pressões da pediosa ou da tibial posterior daquele pé pela maior das duas pressões braquiais. O cálculo tradicional usa a maior das duas pressões do tornozelo, o que descreve o melhor cenário de fluxo para o pé; o diabético, que costuma ter doença abaixo do joelho acometendo apenas uma das artérias tibiais, é justamente quem esse melhor cenário engana. Numa mesma vinheta as duas contas podem cair em faixas diferentes.

A confiança no resultado, depois. A neuropatia autonômica associada à calcificação da túnica média — a esclerose de Mönckeberg — torna as artérias distais rígidas e incompressíveis, e o manguito passa a precisar de mais pressão do que a real para ocluí-las. O resultado é um índice falsamente elevado, que tanto pode estourar para cima quanto simplesmente normalizar um membro isquêmico. O sinal de alerta é a discordância: índice dentro ou perto da faixa normal em um pé com ondas Doppler monofásicas amortecidas. Pressões de tornozelo e índices falsamente normais foram descritos como preditores independentes de amputação maior — ou seja, o número tranquilizador é, ele mesmo, mau prognóstico.

A frase que governa o tema está na diretriz intersocietária IWGDF/ESVS/SVS de 2023 e vale reproduzir mentalmente antes de responder qualquer questão de exclusão: nenhuma modalidade isolada se mostrou ótima para o diagnóstico de doença arterial periférica, e não existe valor acima do qual a doença possa ser excluída. Índice normal e pulsos palpáveis não afastam doença arterial no pé ulcerado.

O que se usa no lugar, quando o índice é suspeito ou incompressível, são três coisas, de preferência combinadas. A pressão sistólica do hálux e o índice hálux-braquial, porque as artérias digitais costumam ser poupadas da calcificação das tibiais e refletem melhor a perfusão real do pé; a pressão do hálux é medida com manguito próprio na base do dedo e é tipicamente 20 a 40 mmHg menor que a do tornozelo. A análise do formato de onda ao Doppler das artérias do pé: onda trifásica ou bifásica torna a doença menos provável, onda monofásica ou ausência de sinal é anormal. E, em casos selecionados, a pressão transcutânea de oxigênio.

Os cortes que decidem conduta, e não apenas rótulo, são os que valem decorar. Pressão de tornozelo abaixo de 50 mmHg ou índice tornozelo-braquial abaixo de 0,4 pedem imagem vascular urgente com visualização detalhada das artérias abaixo do joelho e do pé, e revascularização. Pressão do hálux abaixo de 30 mmHg ou pressão transcutânea de oxigênio abaixo de 25 mmHg pedem avaliação urgente para revascularização. E há o gatilho que dispensa qualquer número: úlcera que não mostra sinais de cicatrização, ou que não reduz cerca de 50% do tamanho, em 4 a 6 semanas de tratamento ótimo, indica angiografia e revascularização independentemente do resultado dos testes de perfusão.

Do outro lado da régua ficam os valores que anunciam boa chance de fechar: pressão de perfusão da pele igual ou acima de 40 mmHg, pressão do hálux igual ou acima de 30 mmHg ou pressão transcutânea de oxigênio igual ou acima de 25 mmHg. Qualquer um deles aumenta a probabilidade de cicatrização em pelo menos 25%, segundo a diretriz brasileira.

Classificações: qual delas serve para quê, e qual a banca cobra

Há dezenas de classificações de úlcera de pé diabético — a revisão sistemática que embasa a diretriz internacional de 2023 localizou 28, e a diretriz brasileira cita levantamento com 37. Isso já diz que nenhuma é ideal. A diretriz internacional resolveu o problema por finalidade, e é assim que a matéria fica organizada: cada sistema tem um uso, e usar o sistema certo para o fim errado é o erro conceitual do tema.

Para comunicação entre profissionais, o sistema recomendado é o SINBAD, com recomendação forte. São seis itens, cada um valendo 0 ou 1, num escore de 0 a 6: Site, a localização, sendo 0 antepé e 1 mediopé ou retropé; Ischemia, 0 se há pelo menos um pulso palpável e 1 se há evidência clínica de fluxo reduzido; Neuropathy, 0 se a sensibilidade protetora está preservada e 1 se está ausente; Bacterial infection, 0 se ausente e 1 se presente; Area, 0 se a úlcera tem menos de 1 cm² e 1 se tem 1 cm² ou mais; Depth, 0 se restrita a pele e subcutâneo e 1 se atinge músculo, tendão ou mais fundo. A vantagem é não exigir nenhum equipamento além do exame clínico. E há uma condição que a diretriz faz questão de repetir: para comunicação, descreva as seis variáveis, não apenas o escore total — o número sozinho é insuficiente.

Para auditoria e comparação entre serviços, o SINBAD também, agora pela pontuação total, com recomendação forte. Para classificar a pessoa com úlcera infectada, o sistema IWGDF/IDSA. Para estratificar chance de cicatrização e risco de amputação em quem tem doença arterial periférica, o WIfI, detalhado no capítulo de Doença arterial obstrutiva periférica.

E há uma recomendação forte pelo negativo, que é a mais fácil de cair e a mais fácil de errar: não use nenhum dos sistemas disponíveis para dar prognóstico individual a um paciente. A justificativa é técnica e boa de guardar — nas raras vezes em que as razões de verossimilhança foram relatadas, as positivas ficaram abaixo de 5 e as negativas entre 0,2 e 0,4, o que move muito pouco a probabilidade pré-teste. Classificação serve para agrupar, encaminhar e comparar; não serve para dizer a esta pessoa qual vai ser o seu desfecho.

A classificação de Wagner, ou Meggitt-Wagner, é o caso mais curioso do tema, e a assimetria entre o que os documentos dizem e o que a prova cobra é grande. São seis graus: grau 0, sítio pré ou pós-ulcerativo, sem ferida aberta; grau 1, úlcera superficial; grau 2, úlcera que penetra até tendão ou cápsula articular; grau 3, lesão que envolve tecidos mais profundos, com abscesso ou osteomielite; grau 4, gangrena do antepé; grau 5, gangrena de todo o pé — descrita pela diretriz internacional como gangrena que envolve mais de dois terços do pé. É a classificação mais antiga e a com maior número de artigos de validação, 74 na revisão sistemática de 2023; e é também a que o grupo internacional julga ter pior discriminação clínica, porque não avalia separadamente área, neuropatia, infecção e doença arterial, e porque o peso da gangrena achata todo o resto da escala.

O Manual do pé diabético do Ministério da Saúde vai além e registra que as diretrizes do NICE recomendam não utilizar Wagner, por ser considerada simples demais e menos útil clinicamente que as ferramentas disponíveis hoje; o próprio manual adota, para a Atenção Básica, a Classificação de Ferida Diabética da Universidade do Texas. A do Texas cruza dois eixos: os graus 0 a III descrevem profundidade — lesão pré ou pós-ulcerativa epitelizada, ferida superficial sem tendão, cápsula ou osso, ferida com exposição de tendão ou cápsula, ferida com exposição de osso ou articulação — e os estágios A a D descrevem contaminação: sem infecção nem isquemia, com infecção, com isquemia, com infecção e isquemia.

Traduzindo para a prova: Wagner cai muito, especialmente em enunciado que descreve a lesão e pede o grau, e é a única das seis que se responde só com a descrição da ferida. Mas as questões que citam documento — as que dizem qual classificação usar, ou que perguntam qual sistema o consenso recomenda — respondem SINBAD para comunicação e auditoria, IWGDF/IDSA para infecção e WIfI para o membro ameaçado. Saber as duas coisas é o que separa acertar de acertar por sorte.

Infecção: o diagnóstico é clínico, e a graduação decide o destino

O diagnóstico de infecção no pé diabético é clínico. Não é a cultura, não é a contagem de bactérias, não é a termografia. A definição operacional exige pelo menos dois dos seguintes: edema ou enduração local; eritema maior que 0,5 cm ao redor da ferida; dor ou sensibilidade local; aumento local de temperatura; secreção purulenta. E exige que se afaste outra causa de resposta inflamatória da pele — trauma, gota, artropatia de Charcot aguda, fratura, trombose, estase venosa. A diretriz de 2023 amplia a definição para qualquer parte do pé, e não apenas a ferida: celulite e fasciíte necrotizante ocorrem sem úlcera.

O sinal que falta atrapalha mais do que o que sobra. A neuropatia embota a dor e a isquemia embota o eritema; achados sistêmicos como febre e leucocitose estão frequentemente ausentes nas infecções leves e moderadas, e cerca de metade dos pacientes com infecção tem leucograma normal. Por isso os marcadores inflamatórios entram como recurso quando o exame clínico é duvidoso ou não interpretável — velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa ou procalcitonina —, e nunca como teste de triagem isolado.

A graduação IWGDF/IDSA tem quatro degraus e é o que define o destino do paciente. Grau 1, não infectado: sem sinais locais nem sistêmicos. Grau 2, leve: infecção com eritema maior que 0,5 cm e menor que 2 cm ao redor da ferida, limitada à pele e ao subcutâneo, sem complicação local ou sistêmica. Grau 3, moderada: sem manifestação sistêmica, mas com eritema que se estende 2 cm ou mais a partir da margem da ferida, e/ou acometimento de tecido mais profundo que pele e subcutâneo — tendão, músculo, articulação, osso. Grau 4, grave: qualquer infecção do pé acompanhada de manifestação sistêmica, definida por dois ou mais critérios de síndrome da resposta inflamatória sistêmica. E o sufixo que quase todo mundo esquece: havendo osteomielite, acrescenta-se (O) ao grau 3 ou 4.

A regra do sufixo tem uma consequência contraintuitiva que já apareceu em prova. Se a osteomielite é demonstrada e não há dois sinais de inflamação local nem sistêmica, o pé é classificado como grau 3(O) quando há menos de dois critérios sistêmicos, e como grau 4(O) quando há dois ou mais. Ou seja, osso infectado nunca é infecção leve.

A internação é decidida pela gravidade mais o contexto. A diretriz internacional recomenda considerar internar toda infecção grave e a infecção moderada que venha acompanhada de morbidades relevantes. O capítulo brasileiro é mais direto e recomenda internação para infecções graves e moderadas ou associadas a comorbidades relevantes. As situações que empurram para a internação: início agudo ou piora rapidamente progressiva; instabilidade metabólica ou hemodinâmica; necessidade de via intravenosa indisponível fora do hospital; exames diagnósticos indisponíveis para ambulatório; isquemia grave do pé; necessidade de procedimento cirúrgico; falha do manejo ambulatorial; curativos mais complexos do que o paciente ou o cuidador conseguem fazer; e o paciente que não consegue ou não quer aderir ao tratamento ambulatorial. Osteomielite, por si só, não obriga internação — obriga quando vem com infecção substancial de partes moles ou sinais sistêmicos.

A cultura tem duas regras que caem sozinhas. Colher tecido, por curetagem da base da úlcera ou biópsia, e não swab superficial — porque a lesão não infectada também está colonizada e o swab devolve o colonizador. E não colher em ferida clinicamente não infectada, porque não se trata com antibiótico a úlcera sem infecção, nem para prevenir infecção nem para acelerar cicatrização; essa é uma declaração de boa prática explícita da diretriz de 2023 e recomendação classe III da brasileira.

O esquema empírico segue a gravidade. Na infecção leve, em quem não usou antibiótico recentemente, cobre-se apenas cocos Gram-positivos aeróbios — Staphylococcus aureus e estreptococos beta-hemolíticos. O Manual do Ministério da Saúde traz a versão de rede: cefalexina 500 mg por via oral de 6 em 6 horas por 7 a 14 dias, tendo como alternativas amoxicilina com clavulanato 500 + 125 mg de 8 em 8 horas ou clindamicina 300 mg de 8 em 8 horas, esta última quando a prevalência local de MRSA passa de 10%. Na infecção moderada ou grave, a cobertura se amplia para Gram-positivos, bacilos Gram-negativos e anaeróbios, e a infecção grave começa por via parenteral.

Há um ponto de geografia que muda a resposta no Brasil e é o detalhe mais fino do tema. A diretriz IWGDF/IDSA de 2023 recomenda não cobrir Pseudomonas aeruginosa empiricamente em clima temperado, mas recomenda cobri-la quando ela foi isolada em cultura do mesmo sítio nas semanas anteriores, ou em pessoa com infecção moderada ou grave que reside em clima tropical ou subtropical. O Brasil está nesse segundo grupo. Na prática das tabelas brasileiras, o cenário rotulado como úlcera macerada ou clima quente é justamente o que traz ceftazidima, ciprofloxacino, piperacilina-tazobactam ou carbapenêmico do grupo 2.

A duração é curta, e essa é a mudança que a prova recente cobra. Infecção de partes moles: 1 a 2 semanas na maioria dos casos. Considera-se estender para 3 a 4 semanas se a infecção está melhorando mas é extensa e resolve mais devagar que o esperado, ou se há doença arterial periférica grave. Se não houve resolução após 4 semanas de terapia aparentemente apropriada, a orientação não é prolongar mais: é reavaliar o paciente e reconsiderar exames e alternativas terapêuticas.

Osteomielite: o dedo que sonda o osso e o exame que decide

A osteomielite complica cerca de 20% das úlceras de pé em diabéticos e é o evento precipitante mais comum de amputação de membro inferior. Ela chega por contiguidade, da úlcera para a cortical, e não por via hematogênica — motivo pelo qual a diretriz de 2023 abandonou o termo osteíte e passou a chamar tudo de osteomielite.

Suspeita-se de osteomielite diante de úlcera que já dura muitas semanas, extensa, profunda, situada sobre proeminência óssea, com osso exposto, ou acompanhada de um dedo eritematoso e edemaciado — o dedo em salsicha. Dois preditores clínicos organizam a suspeita. O primeiro é o tamanho e a profundidade: úlcera profunda com exposição visual de osso tem especificidade de 100% para osteomielite, mas sensibilidade de apenas 32%; a sensibilidade sobe para 52% quando a úlcera é maior, mantendo especificidade de 92%. O segundo é o teste de sondagem óssea.

O probe-to-bone é o exame clínico mais útil do tema e é barato: uma sonda metálica romba e estéril, introduzida com delicadeza pela ferida. O teste é positivo quando a sonda alcança osso ou espaço articular — a sensação é dura, arenosa, sem tecido interposto. Numa revisão sistemática de sete estudos e 1.017 pacientes com pé diabético infectado, a sensibilidade foi de 87% e a especificidade de 83%. A leitura correta é probabilística e a diretriz a explicita: positivo sugere o diagnóstico em pessoa de alto risco; negativo ajuda a afastá-lo em pessoa de baixo risco. Nenhum dos dois fecha nem exclui sozinho.

A radiografia simples é a primeira imagem, por disponibilidade e custo, e é péssima isoladamente. Na metanálise reproduzida pela Sociedade Brasileira de Diabetes, a radiografia teve sensibilidade de 0,54 e especificidade de 0,68. O motivo é físico: as alterações radiográficas só aparecem quando já houve 30% a 50% de perda óssea, e podem não estar visíveis nos primeiros 10 dias de infecção. Uma radiografia normal em ferida de dez dias não significa osso sadio. Os achados que valem: borramento ou perda da cortical, erosão óssea, perda focal do padrão trabecular, reação ou elevação periosteal, esclerose óssea, sequestro, invólucro e cloaca.

A combinação é o que muda o jogo. A diretriz internacional recomenda usar como investigação inicial a combinação de sondagem óssea, radiografia simples e um marcador inflamatório — velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa ou procalcitonina. Sondagem óssea associada à radiografia simples eleva a sensibilidade e a especificidade para 97% e 93%, segundo a diretriz brasileira. E há um corte laboratorial que a prova gosta: velocidade de hemossedimentação muito elevada, igual ou acima de 70 mm/h, tem sensibilidade de 81%, especificidade de 80% e área sob a curva de 0,84 para o diagnóstico de osteomielite associada ao pé diabético.

Persistindo a dúvida depois do exame clínico, da radiografia e dos exames laboratoriais, o exame que decide é a ressonância magnética, com recomendação forte. Na metanálise, sensibilidade de 0,90 e especificidade de 0,79. Ela mostra a substituição da medula óssea — sinal baixo em T1, mais escuro que o músculo esquelético — antes que qualquer lise apareça na radiografia ou na tomografia. A limitação é a especificidade: edema medular reativo de trauma, cirurgia prévia ou pé de Charcot derruba o valor preditivo positivo. Quando a ressonância é impossível ou contraindicada, as alternativas são a tomografia por emissão de pósitrons com fluordesoxiglicose e a cintilografia com leucócitos marcados; a tomografia computadorizada tem resolução óssea superior, mas não mostra edema medular, de modo que uma tomografia normal não exclui osteomielite precoce.

O padrão-ouro é a biópsia óssea asséptica, percutânea ou cirúrgica, com cultura e, se possível, histologia — e é o único jeito de conhecer o patógeno para tratamento dirigido. Uma regra de coleta cai com frequência: a amostra óssea não deve ser obtida através da úlcera. Comparação direta e prospectiva entre 46 pares de biópsias mostrou resultados idênticos em apenas 42% dos casos quando a coleta passou pela ferida. E a cultura de partes moles não substitui a de osso: as taxas de concordância entre as duas não passam de 50%, chegando a 17,4% em algumas casuísticas. A exceção prática: se uma amostra profunda colhida assepticamente cresce um único patógeno, sobretudo Staphylococcus aureus, a biópsia óssea pode ser dispensada.

O tratamento tem três cenários e três durações. Osteomielite tratada sem ressecção óssea: até 6 semanas de antibiótico, com melhora clínica esperada nas primeiras 2 a 4 semanas — não havendo melhora nesse intervalo, a conduta é biopsiar, trocar o esquema ou ressecar, e não simplesmente prolongar. Ressecção completa do osso infectado com margem de cultura negativa: apenas alguns dias de antibiótico. Ressecção com cultura da margem óssea positiva: considerar até 3 semanas após a amputação menor. Prolongar além de 6 semanas não mostrou benefício. E a remissão não se declara na alta: a diretriz de 2023 usa o desfecho com seguimento mínimo de 6 meses após o fim da antibioticoterapia para dizer que a osteomielite entrou em remissão.

Existe ainda um caminho conservador nomeado. A diretriz internacional considera antibiótico sem cirurgia quando estão presentes as três condições: osteomielite de antepé, sem necessidade imediata de incisão e drenagem para controlar a infecção, sem doença arterial periférica e sem osso exposto. Fora dessas três, o caminho padrão é ressecção do osso infectado combinada com antibiótico sistêmico.

Conduta: descarga de pressão, desbridamento, revascularização e a decisão de amputar

A descarga de pressão — offloading — é a pedra angular do tratamento da úlcera causada por estresse mecânico, e é o item que mais se perde na hora de responder. A primeira escolha para úlcera neuropática plantar de antepé ou mediopé é um dispositivo não removível na altura do joelho: gesso de contato total, ou bota de descarga pré-fabricada tornada irremovível por gesso ou atadura em volta. A palavra que faz o trabalho é irremovível, e o motivo é aderência forçada: o dispositivo removível só descarrega o pé quando está vestido. É recomendação classe I com nível de evidência A na diretriz brasileira.

A hierarquia completa vale como escada de alternativas. Contraindicado ou não tolerado o dispositivo não removível na altura do joelho, usa-se o removível na altura do joelho; não sendo possível, o removível na altura do tornozelo; só depois disso o calçado terapêutico pré-fabricado ou convencional, e nunca como primeira opção; e a espuma feltrada em combinação com calçado apropriado como último recurso. Para úlcera não plantar, dispositivo removível na altura do tornozelo, modificação de calçado, espaçadores de dedos, órteses ou tenotomia do flexor, conforme o tipo e a localização.

Infecção e isquemia mudam a escolha, não a necessidade. Com infecção ou isquemia leves, ainda se considera o dispositivo não removível na altura do joelho. Com infecção e isquemia moderadas, passa-se ao removível — porque o pé precisa ser inspecionado. Com infecção ou isquemia graves, trata-se primeiro a infecção e a isquemia e usa-se o dispositivo removível que for funcional para aquele paciente. Úlcera de calcâneo pede dispositivo na altura do joelho ou outra intervenção que efetivamente reduza a pressão no calcanhar.

O desbridamento remove tecido desvitalizado e o calo em volta, de preferência com instrumento cortante, e se repete quantas vezes for preciso. Duas travas de segurança. A primeira: não desbridar úlcera não infectada que apresenta sinais de isquemia grave — a ferida isquêmica sem infecção espera a revascularização, e desbridamento extenso ou amputação parcial do pé não devem preceder o restabelecimento do fluxo. A segunda inverte a prioridade quando há sepse: em infecção grave, sobretudo com resposta inflamatória sistêmica, a drenagem é imediata e vem antes da revascularização; controlado o foco e estabilizado o paciente, faz-se o estudo arterial e revasculariza-se o mais cedo possível. Ordem: drenar o que está infectado, revascularizar, depois reconstruir.

Cirurgia precoce ganhou peso na edição de 2023: considera-se operar dentro de 24 a 48 horas, em combinação com antibiótico, nas infecções moderadas e graves, para remover tecido infectado e necrótico. E a consulta cirúrgica é urgente diante de infecção grave, ou moderada complicada por gangrena extensa, infecção necrosante, sinais de abscesso profundo abaixo da fáscia, síndrome compartimental ou isquemia grave do membro.

A revascularização tem objetivo anatômico definido: restaurar fluxo em linha para pelo menos uma das artérias do pé, de preferência a que irriga a região anatômica da ferida. Alguns números dimensionam a urgência. Atraso maior que 2 semanas entre o diagnóstico da úlcera e a revascularização aumenta substancialmente o risco de perda do membro. Cerca de 25% das úlceras isquêmicas não têm opção de revascularização, e nesse grupo a amputação maior chega a 25% a 50%. Em série clássica, a ausência de artéria tibial pérvia ao final da angioplastia resultou em 62% de amputação, contra 1,7% quando ao menos uma artéria chegava ao pé. Do lado favorável, o salvamento de membro após revascularização varia de 70% a 90%, com mais de 60% das úlceras cicatrizadas em 1 ano. E o contraponto que evita indicação automática: até 50% dos pacientes com úlcera e doença arterial periférica podem cicatrizar sem revascularização.

A amputação, por isso, não é a resposta de quem tem doença grave — é a de quem já esgotou as alternativas ou não tem como percorrê-las. A regra explícita da diretriz internacional é que, ao cogitar amputação maior, ou seja, acima do tornozelo, considere-se primeiro a opção de revascularizar. A diretriz brasileira define a amputação primária, ou a abordagem paliativa decidida com o paciente e a equipe, para quem tem fragilidade importante, baixa expectativa de vida, estado funcional ruim, acamamento, destruição tecidual que torne o pé funcionalmente inviável ou incapacidade de reabilitação após a revascularização — e transforma isso em recomendação classe III contra revascularizar quando não há chance realista de cicatrização.

O restante do tratamento local é modesto de propósito. Curativos escolhidos para controlar exsudato e manter ambiente úmido; lavar mas não deixar os pés de molho, porque a maceração é porta de entrada; considerar terapia por pressão negativa para ajudar a cicatrizar feridas pós-operatórias. Antissépticos tópicos, curativos antimicrobianos, prata, mel e produtos biologicamente ativos não têm suporte para uso de rotina, e não se recomenda oxigenoterapia hiperbárica ou tópica com a finalidade única de tratar a infecção.

Nada disso funciona sem o resto do paciente. Controle glicêmico otimizado, com insulina se necessário; tratamento do edema e da desnutrição; e tratamento intensivo do risco cardiovascular, porque a doença arterial periférica do diabético é doença sistêmica. Um estudo mostrou que a conduta agressiva de risco cardiovascular reduziu a mortalidade em 5 anos de pacientes com úlcera neuroisquêmica de 58% para 36%.

Rastreio e prevenção na Atenção Básica: as duas réguas brasileiras

A prevenção da úlcera se organiza em cinco pilares, e a questão de Medicina de Família costuma pedir exatamente essa lista: identificar o pé em risco; inspecionar e examinar regularmente o pé em risco; educar paciente, família e profissionais; garantir o uso rotineiro de calçado adequado; e tratar os fatores de risco de ulceração. Adotados em conjunto, esses cuidados podem prevenir até 75% de todas as úlceras de pé diabético.

O exame anual de quem tem risco muito baixo é enxuto e cabe na consulta: verificar se o pé está livre de úlcera; pesquisar perda de sensibilidade protetora com monofilamento de 10 g, diapasão de 128 Hz ou, na falta dos dois, o toque leve do indicador nas pontas dos dedos; e avaliar o estado vascular por história de claudicação intermitente e palpação dos pulsos pedioso e tibial posterior. Achando perda de sensibilidade protetora ou doença arterial periférica, a pessoa passa a ser pé em risco e ganha um exame mais abrangente: história de úlcera e amputação, doença renal em estágio terminal, deformidades, mobilidade articular limitada, pele e unhas, calçado, capacidade de autocuidado, acuidade visual e conhecimento sobre os pés.

A avaliação vascular na Atenção Básica, no desenho do Ministério da Saúde, para no exame clínico: o mínimo é a palpação dos pulsos pedioso e tibial posterior, correlacionada com coloração, temperatura, distribuição de pelos e trofismo de unhas. Levantada a suspeita de vasculopatia, o encaminhamento é para avaliação vascular complementar — o índice tornozelo-braquial pertence ao nível seguinte de atenção, e não à rotina do exame anual dos pés.

É na periodicidade que as réguas brasileiras se separam, e essa é a divergência mais cobrável do capítulo. O Manual do pé diabético do Ministério da Saúde estabelece: categoria 0, anual; categoria 1, a cada 3 a 6 meses; categoria 2, a cada 2 a 3 meses, com avaliação da necessidade de encaminhamento ao cirurgião vascular; categoria 3, a cada 1 a 2 meses, com médico ou enfermeiro da Atenção Básica ou equipe especializada. As duas sociedades brasileiras, seguindo o consenso internacional, usam outra: categoria 0, anual; categoria 1, a cada 6 a 12 meses; categoria 2, a cada 3 a 6 meses; categoria 3, a cada 1 a 3 meses.

As definições das categorias também diferem, e não é detalhe. Na régua internacional, reproduzida pela Sociedade Brasileira de Diabetes e pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular: categoria 0, sem perda de sensibilidade protetora e sem doença arterial periférica; categoria 1, perda de sensibilidade protetora ou doença arterial periférica; categoria 2, perda de sensibilidade protetora com doença arterial periférica, ou perda de sensibilidade com deformidade, ou doença arterial com deformidade; categoria 3, perda de sensibilidade ou doença arterial mais um dos seguintes: história de úlcera, amputação prévia de membro inferior ou doença renal em estágio terminal. Na régua do Ministério da Saúde: grau 0 sem perda de sensibilidade e sem doença arterial; grau 1 perda de sensibilidade com ou sem deformidade; grau 2 doença arterial com ou sem perda de sensibilidade; grau 3 história de úlcera ou amputação.

Duas consequências práticas dessa diferença, que valem como raciocínio e não como decoreba. Primeira: no desenho do Ministério, a doença arterial periférica sozinha já sobe a pessoa para o grau 2, mesmo sem neuropatia alguma — é a doença arterial, e não a ferida, que muda a fila; no desenho internacional, doença arterial isolada é apenas categoria 1. Segunda: a doença renal em estágio terminal é fator que joga direto para a categoria 3 na régua internacional e não aparece na tabela de risco do manual brasileiro.

O que se orienta é o mesmo nos dois lados, e a lista é curta o suficiente para virar resposta: inspecionar os dois pés todos os dias, inclusive entre os dedos, com ajuda de familiar ou espelho se houver limitação visual; lavar diariamente com água sempre abaixo de 37 °C e secar bem, sobretudo entre os dedos; hidratar a pele seca, mas nunca entre os dedos; cortar as unhas retas; nunca andar descalço, nem de meias sem sapato, nem de chinelo fino, dentro ou fora de casa; inspecionar e apalpar por dentro o calçado antes de calçar; não usar meias apertadas nem meias acima do joelho; não usar bolsa de água quente nem aquecedor nos pés; não remover calos com agentes químicos, emplastros, lâmina ou tesoura; e procurar a unidade imediatamente diante de bolha, corte, arranhão, úlcera ou aumento de temperatura.

Duas intervenções preventivas têm ensaio clínico e cabem em questão de conduta. O monitoramento domiciliar da temperatura da pele dos pés, uma vez por dia com termômetro infravermelho, com procura de ajuda quando a diferença entre os pés passa de 2 °C em dois dias consecutivos, é recomendado para categorias 2 e 3; em ensaio randomizado, o grupo que monitorou teve 8,5% de úlceras contra 29,3% no tratamento padrão e 30,4% no exame estruturado. E o calçado terapêutico com efeito comprovado de alívio de pressão para quem já teve úlcera plantar cicatrizada, com redução do pico de pressão de pelo menos 30% em relação ao calçado atual; em programa estruturado com órtese e sapato sob medida, a incidência de úlcera no primeiro ano foi de 11,5% contra 38,6% no controle.

Uma nota de realidade do SUS que o enunciado brasileiro às vezes explora: a tecnologia para verificar a efetividade do calçado terapêutico ainda não está disponível na rede, e o que se oferece para as categorias 1 a 3 são calçados terapêuticos e palmilhas-padrão, mediante relatório de profissional de saúde e encaminhamento pela Unidade Básica de Saúde. Também vale registrar que a atividade física não está proibida: aumentar a locomoção diária, com acréscimo da ordem de mil passos por dia, é seguro para as categorias 1 e 2 desde que com calçado adequado e inspeção frequente dos pés.

O pé quente, vermelho e inchado: quando pensar em Charcot

Em qualquer pessoa com diabetes que se apresenta com pé vermelho, quente e edemaciado, a neuro-osteoartropatia de Charcot ativa tem de estar na lista. É um processo inflamatório estéril em pé neuropático que lesa ossos, articulações e partes moles e, sem tratamento adequado, evolui para fraturas progressivas, luxações e deformidade permanente. A incidência na população com diabetes varia de 0,1% a 13%, chegando a 29% entre quem já tem neuropatia, e o diagnóstico é retardado por erro em até 79% dos casos, com atraso de até 7 meses.

O diferencial é o problema inteiro. A apresentação aguda — eritema, edema, dor e aumento de temperatura — é confundida com celulite, gota, entorse e trombose venosa profunda. O achado que orienta é a ausência de solução de continuidade: pé inflamado sem porta de entrada cutânea aponta para Charcot. A diferença de temperatura de cerca de 2 °C em relação ao mesmo ponto do pé contralateral é usada como limiar, mas eleva-se em qualquer inflamação — é sensível e não específica, e não serve isolada para diagnosticar nem para descartar.

O diagnóstico é clínico somado a alterações de imagem, feito após excluir outras causas. Não aparecendo alteração na radiografia simples, faz-se ressonância magnética; sendo ela impossível, tomografia ou cintilografia; e onde nem isso existir, a pessoa deve ser tratada como Charcot ativo provável. O tratamento é descarga e imobilização: primeira escolha o gesso de contato total não removível na altura do joelho, segunda a bota alta tornada não removível, terceira a removível usada o tempo todo — dispositivos abaixo do tornozelo não são recomendados. Mantém-se enquanto houver sinais clínicos de inflamação, o que pode levar muitos meses, e nenhuma terapia medicamentosa encurta a doença ou previne deformidade.

A forma crônica é a que aparece na imagem clássica das provas: perda do arco plantar, com o médio-pé desabando e a planta assumindo o aspecto descrito como pé em mata-borrão. A deformidade resultante redistribui a carga para pontos que não deveriam pisar — e é assim que o Charcot volta ao tema pela porta principal, como causa de úlcera neuropática de mediopé, aquela que pontua 1 no item de localização do SINBAD.

04

As réguas do tema: úlcera, sensibilidade, perfusão, infecção e risco

São cinco perguntas, sempre nesta ordem, e cada uma tem instrumento próprio. Que úlcera é esta? — decide-se pela topografia, borda, leito, dor e pulso, e é a pergunta que separa compressão de revascularização de descarga. O pé sente? — monofilamento de 10 g, com a regra de duas respostas certas em três aplicações por ponto. O pé recebe sangue? — palpação de pulso abre, mas quem responde é a medida objetiva; no diabético o índice tornozelo-braquial tanto pode fechar o diagnóstico quanto mentir para cima. Está infectado? — decisão clínica por pelo menos dois sinais inflamatórios, seguida de graduação em quatro níveis, com sufixo (O) quando há osso. Este pé, ainda sem úlcera, precisa voltar quando? — estratificação de risco, e é aqui que as duas réguas brasileiras se separam. Confundir as cinco perguntas é a origem de quase todo erro no tema; note que a última só se aplica ao pé SEM úlcera.

  1. 1Diante de ferida em membro inferior, leia primeiro os cinco descritores: onde, que borda, que leito, dói de que jeito, e como estão os pulsos. Supramaleolar medial + rasa + exsudativa + piora em pé + pulsos presentes é venosa. Extremidade + borda em saca-bocado + leito pálido + dor que alivia pendendo a perna + pulsos ausentes é arterial. Ponto de carga plantar + anel de calo + indolor + pulsos presentes é neuropática.
  2. 2Antes de qualquer compressão ou desbridamento, meça a perfusão de forma objetiva. Aparência de úlcera venosa em diabético, tabagista ou idoso não dispensa a medida — comprimir perna isquêmica piora a isquemia.
  3. 3No diabético, calcule o índice tornozelo-braquial de cada perna dividindo a MENOR das pressões (pediosa ou tibial posterior) daquele pé pela MAIOR das duas pressões braquiais. O cálculo tradicional, que usa a maior das duas do tornozelo, descreve o melhor cenário de fluxo e é justamente o que engana quando só uma tibial está doente.
  4. 4Leia o resultado com o formato de onda ao lado. Índice de 0,90 a 1,30 com onda trifásica ou bifásica torna a doença arterial menos provável — não a exclui. Índice normal com onda monofásica amortecida é sinal de artéria incompressível, e o passo seguinte é medir a pressão do hálux.
  5. 5Dispare a revascularização pelos cortes de conduta: pressão de tornozelo abaixo de 50 mmHg, índice abaixo de 0,40, pressão do hálux abaixo de 30 mmHg ou pressão transcutânea de oxigênio abaixo de 25 mmHg. E dispare também sem nenhum desses, se a úlcera não cicatriza ou não reduz cerca de metade do tamanho em 4 a 6 semanas de tratamento ótimo.
  6. 6Pesquise a sensibilidade protetora com o monofilamento de 10 g, três perguntas por ponto (duas aplicações reais e ao menos uma simulada). Duas certas em três: presente naquele ponto. Duas erradas em três: ausente. Nunca aplique sobre calo, úlcera, cicatriz ou necrose.
  7. 7Decida infecção clinicamente: pelo menos dois entre edema/enduração, eritema maior que 0,5 cm, dor local, calor local e secreção purulenta, afastadas outras causas de inflamação (trauma, gota, Charcot agudo, fratura, trombose, estase venosa).
  8. 8Gradue: leve, se eritema abaixo de 2 cm e lesão limitada a pele e subcutâneo; moderada, se eritema de 2 cm ou mais a partir da margem e/ou acometimento de tendão, músculo, articulação ou osso, sem sinais sistêmicos; grave, se houver dois ou mais critérios de resposta inflamatória sistêmica. Havendo osso infectado, acrescente (O) — e o grau nunca é leve.
  9. 9Interne a infecção grave e a moderada com comorbidade relevante, instabilidade metabólica, isquemia do pé, necessidade de via intravenosa ou de procedimento cirúrgico, ou falha do manejo ambulatorial.
  10. 10Colha cultura por curetagem da base ou biópsia de tecido, nunca swab superficial — e não colha, nem trate, úlcera clinicamente não infectada.
  11. 11Suspeitando de osteomielite, combine sondagem óssea + radiografia simples + um marcador inflamatório. Sondagem positiva com radiografia alterada torna o diagnóstico provável; radiografia normal nas primeiras semanas não exclui nada. Persistindo a dúvida, ressonância magnética.
  12. 12Trate por gravidade e por tempo definido: partes moles 1 a 2 semanas, estendendo a 3 a 4 se extensa, de resolução lenta ou com doença arterial grave; osteomielite sem ressecção até 6 semanas; ressecção completa com margem negativa, poucos dias. Sem resolução em 4 semanas, reavalie o diagnóstico em vez de prolongar.
  13. 13Cubra empiricamente só Gram-positivos na infecção leve sem antibiótico recente. Na moderada e na grave, amplie para Gram-negativos e anaeróbios — e, no Brasil, inclua cobertura para Pseudomonas aeruginosa, porque o clima é tropical ou subtropical.
  14. 14Descarregue a pressão. Úlcera neuropática plantar de antepé ou mediopé: dispositivo NÃO removível na altura do joelho como primeira escolha. Havendo infecção e isquemia moderadas, passe ao removível. Havendo infecção ou isquemia graves, trate-as primeiro.
  15. 15Ordene as cirurgias: em sepse, drene primeiro; depois revascularize; só então reconstrua. Sem infecção e com isquemia grave, não desbride extensamente antes de restabelecer o fluxo. E ao cogitar amputação acima do tornozelo, considere antes a revascularização.
  16. 16No pé SEM úlcera, estratifique o risco e marque o retorno. Régua do Ministério da Saúde: 0 anual, 1 a cada 3-6 meses, 2 a cada 2-3 meses, 3 a cada 1-2 meses. Régua das sociedades e do consenso internacional: 0 anual, 1 a cada 6-12 meses, 2 a cada 3-6 meses, 3 a cada 1-3 meses.
VENOSA ARTERIAL NEUROPÁTICA Supramaleolar medialRasa, borda irregularPulsos presentes Ponta do dedo, calcâneoBorda em saca-bocadoPulsos ausentes Cabeça do metatarsoAnel de calo, INDOLORPulsos presentes

As três úlceras em um olhar

Os cinco descritores que o enunciado sempre fornece — topografia, borda, leito, dor e pulso — decidem sozinhos entre compressão, revascularização e descarga de pressão. A venosa é a mais comum e por isso a mais superdiagnosticada; a arterial é a que dói de forma característica, aliviando quando a perna pende; a neuropática é a única que NÃO dói, e essa ausência é o achado, não a falta de achado. Atenção ao meio-termo: no diabético, a maioria é neuroisquêmica, e a doença arterial periférica está presente em até metade das pessoas com úlcera de pé diabético.

Índice tornozelo-braquial: o que o número autoriza 0,400,50 0,901,30 < 0,40 — imagem vascular urgente e revascularização < 0,50 — baixa probabilidade de cicatrizar 0,90 a 1,30 — doença arterial MENOS provável (não excluída) > 1,30 — incompressível: medir pressão do hálux

Os cortes do índice tornozelo-braquial que mudam conduta

Guarde a diferença entre o corte que dá nome e o corte que dá ordem. Abaixo de 0,90 há doença arterial; de 0,90 a 1,30, com onda trifásica ou bifásica, ela é menos provável — a diretriz intersocietária de 2023 é explícita ao dizer que não existe valor acima do qual a doença possa ser excluída. Abaixo de 0,50 a probabilidade de cicatrizar é baixa. Abaixo de 0,40, ou pressão de tornozelo abaixo de 50 mmHg, ou pressão do hálux abaixo de 30 mmHg, ou pressão transcutânea de oxigênio abaixo de 25 mmHg: imagem vascular urgente e revascularização. Acima de 1,30 o exame não é normal — é inválido, e o passo seguinte é a pressão do hálux. As faixas completas de classificação da doença arterial estão no capítulo de Doença arterial obstrutiva periférica.

Quando a úlcera vai para revascularização — sem esperar mais um curativo

Quatro números e um relógio. Números: pressão de tornozelo < 50 mmHg; índice tornozelo-braquial < 0,40; pressão do hálux < 30 mmHg; pressão transcutânea de oxigênio < 25 mmHg. Relógio: úlcera que não mostra sinais de cicatrização, ou não reduz cerca de 50% do tamanho, em 4 a 6 semanas de tratamento ótimo — e aqui a indicação independe de qualquer teste de perfusão. Atraso maior que 2 semanas entre o diagnóstico da úlcera e a revascularização aumenta substancialmente o risco de perda do membro. Em contrapartida, até metade dos pacientes com úlcera e doença arterial cicatriza sem revascularizar, o que impede transformar o achado de doença arterial em indicação automática de procedimento.

As três úlceras de membro inferior, linha a linha

VenosaArterialNeuropática (mal perfurante plantar)
LocalizaçãoTerço distal da perna, acima do maléolo medial (área da polaina)Extremidades: ponta dos dedos, borda lateral do pé, calcâneo, maléolo lateralPontos de carga: cabeças dos metatarsos (1ª e 5ª), hálux, calcâneo, proeminência óssea de dedo em garra
BordasIrregulares, planas, mal delimitadasRegulares, bem delimitadas, em saca-bocadoHiperceratóticas, com anel de calo em volta
LeitoGranulação avermelhada, exsudato abundante, rasaPálido, seco, fibrina ou necrose, pouca granulação, pode ser profundaRóseo e limpo se não houver isquemia; pode chegar a tendão e osso
DorDifusa, em peso; piora em ortostatismo, melhora com elevaçãoIntensa; piora com elevação e no decúbito, alivia com a perna pendenteAUSENTE — é este o achado
PulsosPresentesDiminuídos ou ausentesPresentes (a menos que haja doença arterial associada)
Pele ao redorEdema, pigmentação ocre, eczema, lipodermatoesclerose, corona flebectásicaFina, brilhante, fria, sem pelos, unhas distróficas, palidez à elevaçãoSeca e fissurada (perda da sudorese autonômica), pé quente, deformidades
O que faz o tratamentoCompressão — depois de medida objetiva de perfusãoRevascularização; compressão contraindicadaDescarga de pressão (offloading) e desbridamento do calo

Monofilamento de 10 g: as duas técnicas brasileiras em uso

ItemManual do pé diabético — Ministério da Saúde, 2016IWGDF 2023 (reproduzido por SBD e SBACV)
InstrumentoMonofilamento de 10 gramas (5,07) de Semmes-WeinsteinMonofilamento de 10 g (5,07) de Semmes-Weinstein
Nº de pontosQuatro pontos em ambos os pésTrês pontos diferentes em ambos os pés
Aplicação por pontoDuas aplicações reais + pelo menos uma simulada = três perguntasDuas aplicações reais + pelo menos uma simulada = três perguntas
Sensibilidade protetora PRESENTEDuas respostas corretas das três aplicaçõesDuas respostas corretas das três aplicações
Sensibilidade protetora AUSENTEDuas respostas incorretas das três aplicaçõesDuas respostas incorretas das três aplicações
Total de perguntas no exame8 pontos × 3 = 24 perguntas6 pontos × 3 = 18 perguntas
Repouso do filamento24 horas a cada dez pacientes; vida útil de cerca de 18 mesesNão usar nas 24 h seguintes após 10 a 15 pacientes; substituir após 70 a 90 pacientes
Onde NÃO aplicarNão deslizar sobre a pele; tempo total de cerca de 2 segundosNunca sobre úlcera, calo, cicatriz ou tecido necrótico

Estratificação de risco do pé SEM úlcera e periodicidade — as duas réguas

CategoriaDefinição (Ministério da Saúde, 2016)Retorno (MS)Definição (IWGDF 2023 / SBD / SBACV)Retorno (sociedades)
0Sem perda de sensibilidade protetora e sem doença arterial periféricaAnualSem perda de sensibilidade protetora e sem doença arterial periféricaAnual
1Perda de sensibilidade protetora, com ou sem deformidadeA cada 3 a 6 mesesPerda de sensibilidade protetora OU doença arterial periféricaA cada 6 a 12 meses
2Doença arterial periférica, com ou sem perda de sensibilidadeA cada 2 a 3 meses; avaliar encaminhamento ao cirurgião vascularPerda de sensibilidade + doença arterial, ou perda de sensibilidade + deformidade, ou doença arterial + deformidadeA cada 3 a 6 meses
3História de úlcera ou amputaçãoA cada 1 a 2 meses, com Atenção Básica ou equipe especializadaPerda de sensibilidade ou doença arterial MAIS história de úlcera, amputação prévia ou doença renal em estágio terminalA cada 1 a 3 meses

Graduação IWGDF/IDSA da infecção do pé diabético

GrauGravidadeDefinição
1Não infectadoSem sintomas ou sinais locais ou sistêmicos de infecção
2LevePelo menos dois de: edema/enduração local, eritema > 0,5 cm e < 2 cm ao redor da ferida, dor ou sensibilidade local, calor local, secreção purulenta — afastadas outras causas de inflamação. Limitada a pele e subcutâneo, sem complicação local ou sistêmica
3ModeradaSem manifestação sistêmica, com eritema estendendo-se ≥ 2 cm da margem da ferida e/ou acometimento de tecido mais profundo que pele e subcutâneo (tendão, músculo, articulação, osso)
3(O) ou 4(O)Com osteomieliteAcrescente (O) ao grau quando há infecção óssea. Demonstrada osteomielite sem 2 sinais de inflamação: 3(O) se menos de 2 critérios sistêmicos, 4(O) se 2 ou mais
4GraveQualquer infecção do pé com manifestação sistêmica: ≥ 2 critérios de resposta inflamatória sistêmica (temperatura > 38 °C ou < 36 °C; FC > 90 bpm; FR > 20 irpm ou PaCO₂ < 32 mmHg; leucócitos > 12.000/mm³ ou < 4.000/mm³ ou > 10% de formas jovens)

Osteomielite do pé diabético: o que cada exame entrega

ExameSensibilidadeEspecificidadeComo usar
Osso visível na úlcera32%100%Vendo osso, o diagnóstico está feito; não vendo, nada foi excluído
Sondagem óssea (probe-to-bone)87%83%Positivo sugere o diagnóstico em pessoa de alto risco; negativo ajuda a afastar em pessoa de baixo risco
Radiografia simples0,54 (IC 95% 0,44-0,63)0,68 (IC 95% 0,53-0,80)Primeira imagem, por custo e acesso. Alterações só após 30% a 50% de perda óssea; pode ser normal nos primeiros 10 dias
Sondagem óssea + radiografia97%93%É a combinação recomendada como investigação inicial, somada a um marcador inflamatório
VHS ≥ 70 mm/h81%80%Área sob a curva 0,84; marcador de apoio quando o exame clínico é duvidoso
Ressonância magnética0,90 (IC 95% 0,82-0,95)0,79 (IC 95% 0,62-0,91)Exame que decide quando persiste a dúvida. Edema medular de trauma, cirurgia ou Charcot derruba a especificidade
Cintilografia com leucócitos marcados0,74 (IC 95% 0,67-0,80)0,68 (IC 95% 0,57-0,78)Alternativa quando a ressonância é impossível ou contraindicada
Biópsia óssea assépticaPadrão-ouroPercutânea ou cirúrgica, NUNCA através da úlcera; único meio de identificar o patógeno para terapia dirigida

Classificações: cada uma para uma finalidade

SistemaDo que é feitoPara que serve, segundo o consenso de 2023
SINBADSite, Ischemia, Neuropathy, Bacterial infection, Area, Depth — cada item 0 ou 1, escore de 0 a 6Comunicação entre profissionais (descrevendo as seis variáveis, não só o escore) e auditoria entre serviços — recomendação forte nas duas finalidades
IWGDF/IDSAQuatro graus de gravidade de infecção, com sufixo (O) para osteomieliteClassificar a pessoa com úlcera infectada e orientar a necessidade de internação
WIfIWound, Ischemia, foot Infection — estimativa de risco de amputação em 1 ano e de benefício da revascularizaçãoEstratificar cicatrização e risco de amputação em quem tem doença arterial periférica (detalhado no capítulo de Doença arterial obstrutiva periférica)
Universidade do TexasGraus 0 a III de profundidade × estágios A a D (sem infecção nem isquemia / infecção / isquemia / ambas)Adotada pelo Manual do pé diabético do Ministério da Saúde para a Atenção Básica
Meggitt-WagnerSeis graus: 0 sítio pré ou pós-ulcerativo; 1 úlcera superficial; 2 até tendão ou cápsula; 3 tecidos profundos, abscesso ou osteomielite; 4 gangrena de antepé; 5 gangrena de todo o péA mais antiga e a mais validada em número de artigos (74), e a de pior discriminação clínica segundo o grupo internacional; o NICE recomenda não usá-la
PEDISPerfusion, Extent, Depth, Infection, SensationCriada para pesquisa e para padronizar critérios de inclusão; a parte de infecção deu origem à graduação IDSA
Qualquer uma delasNÃO usar para dar prognóstico individual — recomendação forte contra (razões de verossimilhança positivas abaixo de 5 e negativas entre 0,2 e 0,4)

A conta que a vinheta pede e nenhum documento faz. Com pressão braquial direita 140 mmHg, esquerda 132 mmHg, tibial posterior direita 130 mmHg e pediosa direita 118 mmHg, o índice tornozelo-braquial direito pela regra tradicional é 130 ÷ 140 = 0,93 — dentro da faixa em que a doença arterial é menos provável. Pela regra que a diretriz internacional determina para pessoas com diabetes, dividindo a MENOR das duas pressões do tornozelo, é 118 ÷ 140 = 0,84 — abaixo de 0,90, ou seja, doença arterial periférica. A mesma vinheta, duas contas, duas faixas.

As duas somas do monofilamento, também ausentes das fontes. Pela régua do Ministério da Saúde: 4 pontos por pé, 8 pontos no total, 3 perguntas por ponto — 24 perguntas no exame completo. Pela régua internacional: 3 pontos por pé, 6 pontos, 18 perguntas. Em ambas, a leitura por ponto é a mesma: sensibilidade protetora presente com 2 acertos em 3, ausente com 2 erros em 3.

Os números para tratar de prevenção. No ensaio de programa estruturado com órtese e calçado sob medida, a incidência de úlcera no primeiro ano foi de 11,5% no grupo intervenção contra 38,6% no controle: redução absoluta de 27,1 pontos percentuais e número necessário para tratar de 4. Em 3 anos, 17,6% contra 61% — NNT 3. Em 5 anos, 23,5% contra 72% — NNT 3. No ensaio de monitoramento domiciliar da temperatura, 8,5% contra 29,3% no tratamento padrão: redução absoluta de 20,8 pontos e NNT de 5.

Verificação de denominador no estudo prospectivo de desfecho da úlcera infectada, citado pela diretriz IWGDF/IDSA e pela Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes. Ao final de 1 ano, a úlcera havia cicatrizado em 46% dos casos (com recorrência posterior em 10% desses), 15% haviam morrido e 17% precisaram de amputação de membro inferior. As três parcelas somam 78%; os documentos não declaram se as categorias são mutuamente exclusivas, de modo que os 22% restantes não podem ser lidos como um quarto grupo definido. O que se pode derivar com segurança é a recorrência: de cada 100 pessoas, cerca de 46 cicatrizam e cerca de 5 dessas voltam a ulcerar no mesmo ano.

O risco de ulceração ao longo da vida aparece em três versões nos documentos brasileiros, e a diferença é de fonte, não de população. O Manual do Ministério da Saúde registra que pode chegar a 25%. A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes traz 19% a 34%, com incidência anual em torno de 2%, atribuindo o dado à revisão de Armstrong, Boulton e Bus publicada no New England Journal of Medicine em 2017. A diretriz da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular reporta aproximadamente 34% com risco anual de 2,5% — ou seja, o limite superior da mesma faixa lido como valor central. O capítulo adota a faixa de 19% a 34% por ser a que reproduz a fonte primária com os dois extremos.

Faixa que deixa valor sem regra, primeira. Para o índice hálux-braquial, a diretriz brasileira de pé diabético escreve, no mesmo capítulo, que valores abaixo de 0,70 são anormais e que valores iguais ou acima de 0,75 tornam a doença arterial menos provável. O intervalo de 0,70 a 0,74 fica sem categoria. A diretriz intersocietária internacional resolve o vão usando um único corte: abaixo de 0,70 é anormal, igual ou acima de 0,70 torna a doença menos provável. É esse o corte adotado aqui.

Faixa que deixa valor sem regra, segunda. No Quadro 1 do capítulo de infecção da Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, a infecção leve exige eritema MENOR que 2 cm e a moderada exige eritema MAIOR que 2 cm — exatamente 2,0 cm não recebe grau. A tabela da diretriz IWGDF/IDSA de 2023 fecha o vão pelo outro lado, definindo leve como eritema maior que 0,5 cm e menor que 2 cm e moderada como eritema de 2 cm ou mais. É a redação internacional que o capítulo segue: 2,0 cm redondos é infecção moderada.

Sobreposição de faixa, terceira. Na tabela do WIfI reproduzida na diretriz de classificação de 2023, o grau 1 de isquemia corresponde a pressão de tornozelo de 70 a 100 mmHg e o grau 2 a pressão de 50 a 70 mmHg: 70 mmHg pertence aos dois graus. A versão brasileira da mesma tabela suprime a coluna de pressão de tornozelo, o que elimina o problema sem resolvê-lo. Na prática, quando índice e pressão do hálux apontam graus diferentes, prevalece a pressão do hálux.

Duas fontes brasileiras divergem sobre a sensibilidade da radiografia simples para osteomielite. A diretriz da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular registra sensibilidade de 28% e especificidade de 68%; a Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes reproduz, da mesma metanálise de Dinh e colaboradores, sensibilidade de 0,54 (IC 95% 0,44-0,63) e especificidade de 0,68 (IC 95% 0,53-0,80). As especificidades coincidem e as sensibilidades não; e o valor 0,28 aparece nessa mesma tabela reproduzida como a ESPECIFICIDADE da cintilografia óssea. O capítulo adota 0,54 e 0,68, que é o par publicado com n e intervalo de confiança.

Uma unidade impossível, útil de reconhecer. O sumário de evidências da recomendação sobre marcadores inflamatórios, no capítulo de infecção da Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, imprime o melhor ponto de corte da velocidade de hemossedimentação como 40,5 mmHg. Velocidade de hemossedimentação se mede em milímetros na primeira hora (mm/h); mmHg é unidade de pressão. O número é plausível como 40,5 mm/h e a troca é tipográfica, mas ela ilustra por que qualquer valor deve ser lido junto com a sua unidade antes de ser decorado.

Discordância interna de nível de evidência no mesmo capítulo da Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes: as recomendações R11 (atividade física segura nas categorias 1 e 2) e R12 (cuidado integrado na categoria 3) aparecem como Classe I / Nível B no corpo do texto e como Classe I / Nível A na tabela-resumo do fim do capítulo. A classe é a mesma nas duas versões; apenas o nível diverge.

Um limite de escopo que evita erro: a estratificação de risco em categorias 0 a 3 e a periodicidade correspondente só valem para o pé SEM úlcera. Quem já tem úlcera ativa sai da lógica de rastreio e entra na de tratamento, com reavaliação que pode ser semanal ou até diária. Um enunciado que descreve úlcera aberta e pergunta a categoria de risco está pedindo a resposta errada de propósito.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

De quanto em quanto tempo se reavalia o pé em risco

Régua do SUS — 3-6 / 2-3 / 1-2 meses

O Quadro 2.1 estabelece: categoria 0, anual, preferencialmente com médico ou enfermeiro da Atenção Básica; categoria 1, a cada 3 a 6 meses; categoria 2, a cada 2 a 3 meses, com avaliação da necessidade de encaminhamento ao cirurgião vascular; categoria 3, a cada 1 a 2 meses, com Atenção Básica ou equipe especializada. As definições também são próprias: grau 1 é perda de sensibilidade protetora com ou sem deformidade, e grau 2 é doença arterial periférica com ou sem perda de sensibilidade — ou seja, doença arterial isolada já sobe para 2.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual do pé diabético, 2016, Quadro 2.1 (p. 19) e Quadro 4.1 (p. 42), adaptados de Boulton et al., 2008, e do Caderno de Atenção Básica nº 36.

Régua das sociedades — 6-12 / 3-6 / 1-3 meses

A estratificação do consenso internacional, reproduzida sem alteração pelas duas sociedades brasileiras: categoria 0, sem perda de sensibilidade nem doença arterial, uma vez por ano; categoria 1, perda de sensibilidade OU doença arterial, a cada 6 a 12 meses; categoria 2, perda de sensibilidade com doença arterial, ou qualquer uma delas com deformidade, a cada 3 a 6 meses; categoria 3, perda de sensibilidade ou doença arterial mais história de úlcera, amputação prévia ou doença renal em estágio terminal, a cada 1 a 3 meses. A própria tabela registra que a frequência se baseia em opinião de especialistas, por ausência de evidência publicada que sustente esses intervalos.

IWGDF Practical Guidelines 2023, Tabela 1; SBACV, Diretrizes sobre o pé diabético 2023, Tabela 3 (J Vasc Bras 2024;23:e20230087); Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, capítulo de diagnóstico e prevenção de úlceras, recomendação R2 (Classe I, Nível C).

Na prova

O cenário do enunciado entrega o recorte antes de qualquer outra pista. Unidade Básica de Saúde, equipe de Saúde da Família, agente comunitário, agenda da unidade, Caderno de Atenção Básica: o avaliador está no mundo do Manual do Ministério da Saúde, e a resposta é 3-6 / 2-3 / 1-2 meses. Ambulatório de especialidade, referência a consenso internacional, à Sociedade Brasileira de Diabetes ou de Angiologia, ou uso da sigla IWGDF: a resposta é 6-12 / 3-6 / 1-3 meses. As alternativas também denunciam — se uma oferece 'a cada 3 a 6 meses' e outra 'a cada 6 a 12 meses' para o MESMO paciente, a questão está escolhendo entre os dois documentos, não testando raciocínio clínico. Há um segundo sinal: se o enunciado inclui doença renal em estágio terminal entre os fatores de risco, ele está no mundo internacional, porque esse item não existe na tabela do manual brasileiro.

Quantos pontos se testa com o monofilamento de 10 g

Quatro pontos em ambos os pés

O Quadro 3.2 descreve nove passos e o sexto é literal: serão pesquisados quatro pontos, em ambos os pés. A regra de leitura é a de duas respostas corretas em três aplicações para sensibilidade presente e duas incorretas em três para ausente, com aplicação simulada intercalada.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual do pé diabético, 2016, Quadro 3.2 e Figura 3.6 (p. 29-30), adaptados de Ochoa-Vigo & Pace, 2005, e Apelqvist et al., 2008.

Três pontos em ambos os pés

O Apêndice 1 orienta testar três sítios diferentes em ambos os pés, escolhidos entre os pontos da figura, com a mesma regra de três perguntas por sítio e leitura de duas em três. É esta a versão reproduzida pelas sociedades brasileiras, que adotam integralmente o exame do consenso internacional.

IWGDF Practical Guidelines 2023, Apêndice 1, Figura 4; SBACV, Diretrizes sobre o pé diabético 2023, Quadros 1 e 2.

Na prova

Este é um caso em que o número dificilmente é o objeto da questão — o objeto costuma ser a REGRA DE LEITURA, que é idêntica nos dois documentos e é o que a maioria erra: três perguntas por ponto, sendo pelo menos uma aplicação simulada, com duas respostas certas definindo sensibilidade presente. Quando o número de pontos aparece como alternativa, o enunciado ambientado na Atenção Básica brasileira trabalha com quatro; o que cita o consenso internacional, com três. Um distrator recorrente oferece 'dez pontos' — que não é a técnica de nenhum dos dois documentos.

Qual o valor superior do índice tornozelo-braquial que invalida o exame

Acima de 1,30 — régua do pé diabético

A diretriz intersocietária de 2023 e as Practical Guidelines usam a faixa de 0,9 a 1,3 como território em que a doença arterial periférica é menos provável, e afirmam que índice abaixo de 0,9 OU acima de 1,3 sugere doença. A diretriz brasileira de pé diabético repete a mesma faixa e, na nota da tabela do WIfI, manda medir pressão do hálux ou pressão transcutânea de oxigênio quando o índice for incompressível, definindo incompressível como acima de 1,3.

IWGDF/ESVS/SVS PAD Guideline 2023, recomendações 2 e 4 e fundamentação (p. 16-17); IWGDF Practical Guidelines 2023, Apêndice 2 (p. 28); SBACV, Diretrizes sobre o pé diabético 2023, Tabela 9 e capítulo 4.

Acima de 1,40 — régua da doença arterial periférica

As diretrizes dedicadas à doença arterial obstrutiva periférica trabalham com quatro faixas em que o normal vai de 1,00 a 1,40, o limítrofe de 0,91 a 0,99, e apenas valores acima de 1,40 caracterizam artéria não compressível. É a régua detalhada no capítulo de Doença arterial obstrutiva periférica desta apostila.

Erzinger FL, Polimanti AC, Pinto DM, et al. Diretrizes sobre doença arterial periférica da SBACV. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059 — reproduzida no capítulo de Doença arterial obstrutiva periférica desta apostila, onde as faixas estão desenvolvidas.

Na prova

O corte quase nunca é o objeto da questão; o objeto é reconhecer que índice elevado NÃO é exame normal e exige outro teste. Quando o número aparece, o contexto decide: enunciado de pé diabético, úlcera, neuropatia e calcificação da média costuma trabalhar com 1,30; enunciado de claudicação intermitente e estadiamento de doença arterial trabalha com 1,40. A resposta correta em ambos é a mesma conduta — medir a pressão do hálux —, e é por isso que a alternativa que diz 'exame normal, seguimento em 1 ano' está errada nos dois mundos.

Usar ou não a classificação de Wagner

Não usar — orientação reproduzida pelo Ministério da Saúde

O Manual do pé diabético registra que as diretrizes do NICE recomendam a não utilização do sistema de classificação de Wagner, amplamente usado no passado, por ser considerado simples demais e menos útil clinicamente para graduar a gravidade das úlceras quando comparado às demais ferramentas disponíveis. O manual adota, em seu lugar, a Classificação de Ferida Diabética da Universidade do Texas.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual do pé diabético, 2016, Quadro 3.5 e texto adjacente (p. 36), citando NICE, 2015, e Bowering & Embil, 2013.

Aceitável, com ressalvas — consenso internacional de 2023

A revisão sistemática que embasa a diretriz de classificação de 2023 manteve Meggitt-Wagner entre os seis sistemas considerados adequados para uso clínico, registrando-a como a de maior número de artigos de validação — 74 — e, ao mesmo tempo, a de pior discriminação clínica, porque não avalia separadamente área, neuropatia, infecção e doença arterial, e porque o peso da gangrena achata a escala. Para as finalidades específicas, o grupo recomenda SINBAD, IWGDF/IDSA e WIfI.

IWGDF Classification Guideline 2023, Tabela 1 e Apêndice 1 (p. 10 e 14).

Na prova

É a divergência mais rentável do capítulo, porque o que os documentos recomendam e o que a banca cobra andam em direções opostas. Wagner continua caindo com frequência em questão de cirurgia e de clínica que descreve a lesão e pede o grau — e é a única das classificações que se responde apenas com a descrição da ferida, sem medida de perfusão nem exame neurológico. Portanto: saiba os seis graus de Wagner para responder ao enunciado descritivo, e saiba SINBAD, IWGDF/IDSA e WIfI para responder ao enunciado que cita documento ou pergunta qual sistema utilizar. Um enunciado que menciona NICE, Atenção Básica ou Manual do Ministério da Saúde e oferece Wagner como alternativa provavelmente está oferecendo o distrator.

Por quantos dias se trata a infecção moderada de partes moles

14 a 21 dias — Manual do Ministério da Saúde

Para infecções moderadas em que se decida pelo tratamento na Atenção Básica, o manual orienta antibioticoterapia oral cobrindo Gram-positivos, Gram-negativos e anaeróbios, com associação de fluoroquinolona (ciprofloxacino ou levofloxacino) e clindamicina, ou tratamento injetável com ceftriaxona, e fixa a duração em 14 a 21 dias. Para infecção leve, 7 a 14 dias.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual do pé diabético, 2016, Quadro 4.6 e texto adjacente (p. 56-57), adaptados de Lipsky et al., 2012.

1 a 2 semanas — consenso internacional de 2023 e Sociedade Brasileira de Diabetes

A recomendação 12b determina administrar antibiótico por 1 a 2 semanas na infecção de pele e partes moles, com força forte e certeza alta. A 12c considera estender até 3 ou 4 semanas se a infecção está melhorando mas é extensa, resolve mais devagar que o esperado, ou o paciente tem doença arterial periférica grave. A 12d determina que, sem resolução em 4 semanas de terapia aparentemente apropriada, o paciente seja reavaliado e novos estudos diagnósticos ou tratamentos alternativos sejam reconsiderados. O capítulo brasileiro de infecção reproduz exatamente essa escada.

IWGDF/IDSA Infection Guideline 2023, recomendações 12b (Forte; Alta), 12c (Condicional; Baixa) e 12d (Forte; Baixa); Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, capítulo de infecção no pé diabético, recomendação R11 (Classe I, Nível C).

Na prova

A diferença vem da idade dos documentos: o manual de 2016 reproduz a diretriz da IDSA de 2012, anterior à redução de duração consolidada em 2023. Enunciado que pede a conduta na Atenção Básica com o esquema do SUS trabalha com 14 a 21 dias; enunciado que cita o consenso internacional, a Sociedade Brasileira de Diabetes, ou que traz alternativas escalonadas de 1-2 / 3-4 semanas, trabalha com a régua nova. Sinal claro: quando uma das alternativas diz 'reavaliar o diagnóstico se não houver resolução em 4 semanas' em vez de prolongar o antibiótico, ela é quase sempre a correta — é a recomendação 12d escrita por extenso.

Quem recebe cobertura empírica para Pseudomonas aeruginosa no Brasil

Só a infecção moderada ou grave — texto da recomendação internacional

A recomendação 16 tem três partes. Não direcionar terapia empírica contra Pseudomonas aeruginosa em infecção do pé diabético em climas temperados. Usar tratamento empírico de P. aeruginosa se ela foi isolada de culturas do sítio acometido nas semanas anteriores. E usar tratamento empírico em pessoa com infecção MODERADA OU GRAVE que reside em clima tropical ou subtropical.

IWGDF/IDSA Infection Guideline 2023, recomendação 16 (Declaração de Boa Prática).

Todos os países de clima tropical — leitura da diretriz brasileira

O capítulo de infecção da diretriz brasileira registra que as diretrizes do IWGDF recomendam a inclusão de um antibiótico efetivo contra Pseudomonas aeruginosa para todos os países de clima tropical, dada a prevalência do isolamento em culturas, principalmente quando a lesão tem histórico de contato com meio úmido — sem repetir a restrição à infecção moderada ou grave. A tabela de esquemas empíricos, no entanto, coloca a linha de úlcera macerada ou clima quente dentro do bloco de moderada a grave.

SBACV, Diretrizes sobre o pé diabético 2023, capítulo 5 e Tabela 14 (J Vasc Bras 2024;23:e20230087), citando Schaper et al.; comparar com a Tabela 2 do capítulo de infecção da Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, que traz 'úlcera macerada ou clima quente' também no bloco de moderada a grave.

Na prova

O capítulo adota o texto da recomendação internacional, mais restritivo, porque é o único dos dois que qualifica a gravidade — e porque as duas tabelas brasileiras de esquema empírico, na prática, colocam o cenário de clima quente dentro do bloco moderada a grave, coerentes com ele. Na questão, o que se cobra quase sempre é o reconhecimento de que o Brasil NÃO está no cenário de clima temperado: a alternativa que exclui Pseudomonas da cobertura empírica em infecção moderada de paciente brasileiro é o distrator. Se o enunciado descreve infecção LEVE, porém, a cobertura empírica correta continua sendo apenas Gram-positivos.

06

Caso resolvido

Homem de 62 anos, com diabetes mellitus tipo 2 há 14 anos, procura o pronto-atendimento por ferida no pé direito que percebeu há três semanas ao notar mancha na meia. Nega dor no local. Refere que caminha diariamente até o trabalho e que os sapatos são os mesmos há dois anos. Tabagista, 25 maços-ano. Ao exame: lesão plantar sob a cabeça do primeiro metatarso direito, de 2,5 cm², com bordas hiperceratóticas e anel de calo, leito com fibrina, exsudato de odor discreto; ao explorar com sonda romba estéril, atinge-se estrutura dura, sem tecido interposto. Eritema perilesional estendendo-se cerca de 3 cm da margem. Pé direito quente, com dedos em garra e pele ressecada. Monofilamento de 10 g: respostas incorretas em duas das três aplicações em dois dos três pontos testados em cada pé. Pulsos pedioso e tibial posterior direitos diminuídos; Doppler manual com onda monofásica na pediosa direita. Temperatura axilar 37,4 °C, frequência cardíaca 88 bpm, frequência respiratória 18 irpm. Pressão arterial sistólica: braço direito 140 mmHg, braço esquerdo 132 mmHg. Pressões sistólicas no tornozelo direito: tibial posterior 130 mmHg, pediosa 118 mmHg. Leucócitos 11.200/mm³ com 6% de bastões; glicemia capilar 268 mg/dL. Radiografia do pé direito: erosão da cortical da cabeça do primeiro metatarso.
qual úlcera
Comece pelos cinco descritores. Localização em ponto de carga plantar, sob a cabeça do primeiro metatarso; bordas hiperceratóticas com anel de calo; ausência de dor; pé quente com deformidade em garra e pele seca. É úlcera neuropática — mal perfurante plantar. O sapato de dois anos e a caminhada diária completam o mecanismo: alta pressão repetida num pé insensível.
o pé sente?
Não. A regra é duas respostas incorretas em três aplicações definindo ausência naquele ponto, e isso ocorreu em dois dos três pontos de cada pé. Está estabelecida a perda de sensibilidade protetora, que é o que permitiu que a ferida chegasse a três semanas sem queixa.
o pé recebe sangue?
Aqui está a conta que a vinheta pede. A maior pressão braquial é 140 mmHg. Pela regra tradicional, dividindo a MAIOR das duas pressões do tornozelo: 130 ÷ 140 = 0,93, valor dentro da faixa em que a doença arterial é menos provável. Pela regra que a diretriz internacional determina para pessoas com diabetes, dividindo a MENOR das duas: 118 ÷ 140 = 0,84, abaixo de 0,90, ou seja, doença arterial periférica presente. A onda monofásica na pediosa e os pulsos diminuídos confirmam o achado — e mostram por que a regra tradicional teria mandado este paciente embora tranquilizado.
que tipo de úlcera, afinal
Perda de sensibilidade protetora COM doença arterial periférica define úlcera neuroisquêmica, e não neuropática pura. Isso muda três coisas: aumenta o risco de não cicatrizar, obriga avaliação vascular formal e torna mais cautelosa a escolha do dispositivo de descarga.
está infectado, e em que grau
Estão presentes secreção, calor local e eritema — mais de dois sinais, afastadas outras causas de inflamação. O eritema se estende cerca de 3 cm da margem, ou seja, 2 cm ou mais: infecção MODERADA, grau 3. Verifique os critérios sistêmicos antes de subir para grave: temperatura 37,4 °C, frequência cardíaca 88 bpm, frequência respiratória 18 irpm e leucócitos 11.200/mm³ com 6% de bastões — nenhum critério preenchido, portanto não é grau 4.
e o osso
A sonda romba estéril atingiu estrutura dura sem tecido interposto: teste de sondagem óssea positivo, com sensibilidade de 87% e especificidade de 83%. A radiografia mostra erosão da cortical da cabeça do primeiro metatarso. Sondagem positiva combinada com radiografia alterada torna a osteomielite provável, e a combinação dos dois exames tem sensibilidade de 97% e especificidade de 93%. A classificação final é grau 3(O) — e note que o sufixo não sobe o grau, porque não há critério sistêmico.
pontue o SINBAD
Site: antepé, 0. Ischemia: evidência clínica de fluxo reduzido, 1. Neuropathy: sensibilidade protetora ausente, 1. Bacterial infection: presente, 1. Area: 2,5 cm², ou seja, 1 cm² ou mais, 1. Depth: atinge osso, 1. Total 5 de 6. Comunique as seis variáveis à equipe que receber o caso, e não apenas o número — a diretriz é explícita quanto a isso.
internar ou tratar fora
Interna. A recomendação é considerar internação na infecção grave e na moderada acompanhada de morbidades relevantes; aqui há infecção moderada com doença arterial periférica, osteomielite provável, hiperglicemia significativa e necessidade previsível de procedimento cirúrgico e de avaliação vascular. A presença de osteomielite isolada não obrigaria internação; a soma dos fatores, sim.
que material colher
Tecido, por curetagem da base da úlcera ou biópsia, depois de limpar a lesão — nunca swab superficial, que devolve colonizador. Havendo indicação de terapia dirigida para o osso, a amostra óssea é colhida por via percutânea ou cirúrgica, e nunca através da úlcera: pares de biópsias coletados através da ferida coincidiram em apenas 42% dos casos.
que antibiótico empírico
Infecção moderada exige cobertura de cocos Gram-positivos, bacilos Gram-negativos e anaeróbios. E o Brasil é clima tropical: a recomendação internacional determina cobertura empírica de Pseudomonas aeruginosa em pessoa com infecção moderada ou grave residente em clima tropical ou subtropical. Na prática das tabelas brasileiras, isso corresponde às opções da linha de úlcera macerada ou clima quente — piperacilina-tazobactam, ou penicilina antiestafilocócica associada a ceftazidima ou a ciprofloxacino, ou carbapenêmico do grupo 2. O esquema é ajustado depois pelo resultado da cultura.
por quanto tempo
Depende do que se faz com o osso. Havendo ressecção completa do osso infectado com margem de cultura negativa, poucos dias de antibiótico. Havendo ressecção com margem positiva, considerar até 3 semanas. Tratando sem ressecção, até 6 semanas, com melhora clínica esperada nas primeiras 2 a 4 semanas — e, não havendo melhora nesse intervalo, biopsiar, trocar o esquema ou ressecar, em vez de prolongar. A remissão só se declara com seguimento mínimo de 6 meses após o término do antibiótico.
o que a perna precisa
Avaliação vascular formal. Os cortes que disparam imagem urgente e revascularização — pressão de tornozelo abaixo de 50 mmHg, índice abaixo de 0,40, pressão do hálux abaixo de 30 mmHg ou pressão transcutânea de oxigênio abaixo de 25 mmHg — não estão preenchidos, mas há doença arterial estabelecida em pé ulcerado e infectado. A regra do relógio permanece armada: se a úlcera não reduzir cerca de metade do tamanho em 4 a 6 semanas de tratamento ótimo, a indicação de angiografia e revascularização passa a existir independentemente de qualquer teste de perfusão.
a ordem das intervenções
Este paciente não está séptico, então a sequência é a habitual: desbridar o calo e o tecido desvitalizado, controlar a infecção, avaliar a perfusão e, se for o caso, revascularizar antes de qualquer ressecção maior. A inversão vale para o paciente com infecção grave e resposta inflamatória sistêmica — nesse caso a drenagem é imediata e precede a revascularização. E não se desbrida extensamente úlcera não infectada com isquemia grave antes de restabelecer o fluxo, situação que também não é a desta vinheta.
descarga de pressão
A primeira escolha teórica para úlcera neuropática plantar de antepé é o dispositivo NÃO removível na altura do joelho. Aqui há infecção moderada e isquemia, e nesse cenário a recomendação é o dispositivo REMOVÍVEL na altura do joelho, porque o pé precisa ser inspecionado com frequência. Descarga continua obrigatória — o que muda é qual dispositivo, não se haverá dispositivo.
o que sai da consulta com ele
Controle glicêmico otimizado, com insulina se necessário. Cessação do tabagismo, estatina e antiagregante pelo risco cardiovascular, porque doença arterial periférica no diabético é doença sistêmica — conduta agressiva de risco cardiovascular reduziu a mortalidade em 5 anos de úlcera neuroisquêmica de 58% para 36%. Educação estruturada de autocuidado. E o sapato: instrua a nunca mais usar o calçado que causou a úlcera, e programe calçado terapêutico para depois da cicatrização, porque o pé cicatrizado é pé em remissão, com recorrência de 40% em 1 ano e 65% em 3 anos.
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Agora feche você

Homem de 71 anos, com diabetes mellitus tipo 2 há 20 anos, tabagista de 40 maços-ano, é levado pela filha à unidade por ferida no pé direito há três meses que 'não fecha'. Queixa-se de dor intensa e contínua no pé, que piora à noite ao deitar e melhora quando ele senta na beira da cama com a perna pendurada; tem dormido em poltrona. Ao exame: úlcera de 1,2 cm² na borda lateral do quinto pododáctilo direito, bordas regulares e bem delimitadas, leito pálido com fibrina e área de necrose seca, sem exsudato purulento, sem eritema perilesional, sem calor local. Pé direito frio, pálido à elevação e ruborizado quando pendente, pele fina e brilhante, ausência de pelos no dorso, unhas espessadas. Pulso femoral presente, poplíteo diminuído, pedioso e tibial posterior ausentes à direita. Monofilamento de 10 g: respostas corretas em todas as aplicações, em todos os pontos, nos dois pés. Afebril, sem taquicardia. Pressão arterial sistólica: braço direito 152 mmHg, braço esquerdo 160 mmHg. No tornozelo direito, sinal Doppler da pediosa inaudível; tibial posterior 60 mmHg. Pressão sistólica do hálux direito 22 mmHg. A filha conta que, na semana passada, a perna foi enfaixada com bandagem elástica em outro serviço 'porque estava inchada', e que a dor piorou muito depois disso.
pergunta 1
Calcule o índice tornozelo-braquial direito, mostrando qual pressão vai no numerador e qual no denominador. Classifique a úlcera entre neuropática, neuroisquêmica e isquêmica, justificando pelos dois eixos que definem o tipo.
pergunta 2
Cite dois valores desta vinheta que, isoladamente, já indicam imagem vascular urgente e revascularização, e diga por que a pressão do tornozelo, sozinha, não estaria entre eles.
pergunta 3
Há indicação de antibioticoterapia empírica neste momento? Justifique pelo critério diagnóstico de infecção, e diga o que a ausência de dois achados específicos significa num pé com esse grau de isquemia.
pergunta 4
Explique o que aconteceu com o enfaixamento da semana passada e o que deve ser feito com ele agora.
pergunta 5
Este paciente tem indicação de gesso de contato total? Justifique.
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Onde a banca derruba

  1. 1Enfaixar antes de medir a perfusão A úlcera venosa é tão mais frequente que a arterial que a compressão vira reflexo — e comprimir perna isquêmica piora a isquemia. A presença de varizes não exclui doença arterial: o idoso diabético e tabagista costuma ter as duas. Ferida em membro inferior de diabético só recebe compressão depois de medida objetiva de perfusão. O corte que autoriza compressão na doença venosa está no capítulo de Insuficiência venosa crônica e varizes; o que interessa aqui é a ordem — medir primeiro.
  2. 2Ler índice tornozelo-braquial normal como perfusão garantida Atrai porque o número está na faixa que todo mundo decorou. Só que a calcificação da média torna a artéria incompressível e joga o índice para cima, tanto podendo estourar de 1,30 quanto apenas normalizar um membro isquêmico. O sinal de alerta é a discordância entre número normal e onda Doppler monofásica amortecida. Pressões de tornozelo e índices falsamente normais foram descritos como preditores independentes de amputação maior — o número tranquilizador é, ele mesmo, mau prognóstico. E a diretriz intersocietária de 2023 é literal: não existe valor acima do qual a doença arterial periférica possa ser excluída.
  3. 3Calcular o índice do diabético pela maior pressão do tornozelo É a conta que todos aprenderam e é a errada neste cenário. Para diagnosticar doença arterial periférica em pessoa com diabetes, a diretriz internacional de 2023 determina dividir a MENOR das pressões da pediosa ou da tibial posterior daquele pé pela MAIOR das duas braquiais. A regra tradicional descreve o melhor cenário de fluxo, e é exatamente o diabético — que costuma ter doença abaixo do joelho acometendo apenas uma das tibiais — quem esse melhor cenário engana. Numa mesma vinheta, as duas contas podem cair em faixas diferentes.
  4. 4Presumir que a ferida do diabético é neuropática A doença arterial periférica está presente em até 50% das pessoas com úlcera de pé diabético, e a maioria das úlceras é neuroisquêmica, não neuropática pura. Presumir neuropatia dispensa a avaliação vascular e atrasa a revascularização — e o atraso maior que 2 semanas entre o diagnóstico da úlcera e a revascularização aumenta substancialmente o risco de perda do membro.
  5. 5Atribuir a ferida que não fecha à microangiopatia diabética É uma explicação confortável porque encerra a investigação. A diretriz internacional afirma que a microangiopatia não parece ser a causa primária nem da úlcera nem da má cicatrização, e a diretriz brasileira transforma isso em recomendação classe III: não presuma que a microangiopatia é a causa da má cicatrização. Quem para na microangiopatia deixa de procurar a obstrução macrovascular, que tem tratamento.
  6. 6Aplicar o monofilamento sobre o calo Parece o lugar mais lógico, porque é onde a úlcera vai nascer, e produz um falso-positivo de perda de sensibilidade — o calo é uma camada de queratina que embota o estímulo. As duas técnicas proíbem aplicar sobre úlcera, calo, cicatriz ou tecido necrótico, e proíbem deslizar o filamento pela pele ou repicar no mesmo ponto. Sem a aplicação simulada, o paciente que responde por antecipação também passa no teste.
  7. 7Tratar monofilamento normal como neuropatia excluída O monofilamento de 10 g avalia fibra grossa e foi desenhado para identificar o pé em risco de ulcerar, não para rastrear neuropatia diabética precoce, que começa nas fibras finas. Monofilamento normal significa sensibilidade protetora preservada. É o instrumento certo para a pergunta certa — e a pergunta certa aqui é sobre risco de úlcera.
  8. 8Prescrever antibiótico para úlcera sem sinais de infecção Atrai porque a ferida crônica está sempre colonizada e a cultura sempre cresce alguma coisa. Mas o diagnóstico de infecção é clínico — pelo menos dois sinais inflamatórios ou secreção purulenta — e a diretriz de 2023 traz declaração de boa prática explícita contra tratar úlcera clinicamente não infectada com antibiótico sistêmico ou local, seja para prevenir infecção, seja para acelerar cicatrização. A recomendação brasileira correspondente é classe III.
  9. 9Colher swab superficial da ferida para guiar o antibiótico É o gesto mais fácil e o que menos informa. A úlcera não infectada também está colonizada, de modo que o swab devolve o colonizador e desloca o esquema para o germe errado. A coleta correta é de tecido, por curetagem da base ou biópsia, depois de limpar a lesão. Para osteomielite, a amostra é de osso — e nunca através da úlcera: comparação direta de 46 pares de biópsias mostrou resultado idêntico em apenas 42% quando a coleta passou pela ferida.
  10. 10Excluir osteomielite porque a radiografia veio normal As alterações radiográficas só aparecem quando já houve 30% a 50% de perda óssea e podem estar ausentes nos primeiros 10 dias de infecção. A sensibilidade isolada da radiografia é de 0,54. Radiografia normal em ferida recente não exclui nada; o que se faz é combiná-la com a sondagem óssea e um marcador inflamatório, e recorrer à ressonância magnética se a dúvida persistir.
  11. 11Classificar como leve a infecção com osso acometido O eritema pode ser pequeno e o paciente pode estar sem febre, o que puxa o candidato para o grau 2. Só que acometimento de tecido mais profundo que pele e subcutâneo — tendão, músculo, articulação ou osso — já define infecção moderada, independentemente do tamanho do eritema. E, havendo osteomielite demonstrada, acrescenta-se o sufixo (O) ao grau 3 ou 4. Osso infectado nunca é infecção leve.
  12. 12Deixar de cobrir Pseudomonas por seguir a regra do clima temperado A frase mais lembrada da diretriz de infecção é a que manda NÃO cobrir Pseudomonas aeruginosa empiricamente — e ela vale para clima temperado. A mesma recomendação manda cobrir quando a bactéria foi isolada do sítio nas semanas anteriores, ou em pessoa com infecção moderada ou grave que reside em clima tropical ou subtropical. O Brasil está nesse segundo grupo, e é por isso que a linha de úlcera macerada ou clima quente das tabelas brasileiras traz ceftazidima, ciprofloxacino, piperacilina-tazobactam ou carbapenêmico.
  13. 13Prolongar o antibiótico porque a ferida ainda não fechou Confunde-se resolução da infecção com cicatrização da úlcera. Infecção de partes moles se trata por 1 a 2 semanas, estendendo-se a 3 a 4 se for extensa, de resolução lenta ou com doença arterial grave. Se após 4 semanas de terapia aparentemente apropriada a infecção não resolveu, a conduta é reavaliar o paciente e reconsiderar exames e alternativas — e não emendar mais um ciclo. Na osteomielite, prolongar além de 6 semanas não mostrou benefício.
  14. 14Escolher bota removível quando o não removível está indicado O dispositivo removível parece mais gentil e é o que o paciente prefere. A primeira escolha para úlcera neuropática plantar de antepé ou mediopé é o dispositivo NÃO removível na altura do joelho — gesso de contato total ou bota tornada irremovível —, e o motivo é aderência forçada: o dispositivo que sai do pé só descarrega enquanto está vestido. O removível entra quando o não removível é contraindicado ou não tolerado, e quando há infecção e isquemia moderadas que exigem inspeção frequente.
  15. 15Revascularizar antes de drenar em paciente séptico A regra de que a revascularização precede o desbridamento extenso vale para o membro isquêmico SEM infecção. Havendo infecção grave, sobretudo com resposta inflamatória sistêmica, a drenagem é imediata e vem primeiro; controlado o foco e estabilizado o paciente, faz-se o estudo arterial e revasculariza-se o mais cedo possível, e só então a cirurgia definitiva. Inverter a ordem mantém o foco séptico enquanto se organiza um procedimento eletivo.
  16. 16Indicar amputação maior sem antes considerar revascularização A diretriz internacional é explícita: ao cogitar amputação acima do tornozelo, considere primeiro a opção de revascularizar. Vale lembrar o outro lado do mesmo argumento — até 50% dos pacientes com úlcera e doença arterial cicatrizam sem revascularização, e revascularizar quando não há chance realista de cicatrização é recomendação classe III contra. A decisão pesa fragilidade, expectativa de vida, estado funcional e viabilidade do pé.
  17. 17Aplicar a categoria de risco a um pé que já tem úlcera A estratificação em categorias 0 a 3 e a periodicidade correspondente existem para o pé SEM úlcera, e servem para marcar o retorno. Diante de úlcera ativa, o paciente sai do rastreio e entra no tratamento, com reavaliação que pode ser semanal ou diária. Enunciado que descreve ferida aberta e pergunta a categoria de risco está oferecendo a resposta errada de bandeja.
  18. 18Confundir pé quente e inchado com celulite Eritema, edema, calor e dor em pé de pessoa com neuropatia, na ausência de solução de continuidade da pele, deve levantar a hipótese de neuro-osteoartropatia de Charcot ativa. O diagnóstico é retardado por erro em até 79% dos casos. A diferença de cerca de 2 °C em relação ao mesmo ponto do pé contralateral apoia a suspeita, mas é sensível e não específica: eleva-se em qualquer inflamação, inclusive na celulite que se quer excluir.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Úlcera plantar em ponto de pressão (cabeça do metatarso), indolor, com bordas hiperceratóticas e pulsos presentes é a clássica úlcera neuropática do pé diabético: a neuropatia elimina a sensibilidade protetora e altera a biomecânica, gerando pressão repetitiva. Isquemia pura daria úlcera dolorosa, em pontas dos dedos/laterais, com pulsos ausentes. Úlcera venosa localiza-se em região perimaleolar (gaiter), com edema e dermatite ocre. Vasculite cursa com lesões purpúricas/necróticas múltiplas e sinais sistêmicos. Trombose arterial aguda causa quadro isquêmico agudo doloroso, com pulsos ausentes.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a prova os pede. Monofilamento: 10 g (5,07), três perguntas por ponto (duas aplicações reais + ao menos uma simulada), sensibilidade protetora presente com 2 acertos em 3 e ausente com 2 erros em 3; 4 pontos por pé na régua do Ministério da Saúde, 3 pontos na internacional. Diapasão de 128 Hz no dorso da falange distal do hálux. Índice tornozelo-braquial no diabético: menor pressão do tornozelo dividida pela maior braquial; 0,90 a 1,30 torna a doença arterial menos provável; acima de 1,30 o exame é inválido e se mede a pressão do hálux; índice hálux-braquial abaixo de 0,70 é anormal. Gatilhos de revascularização urgente: pressão de tornozelo < 50 mmHg, índice < 0,40, pressão do hálux < 30 mmHg, oxigênio transcutâneo < 25 mmHg — e úlcera que não reduz cerca de metade em 4 a 6 semanas. Infecção: ≥ 2 sinais inflamatórios; eritema < 2 cm é leve, ≥ 2 cm ou tecido profundo é moderada, ≥ 2 critérios sistêmicos é grave, osso acrescenta (O). Antibiótico: partes moles 1 a 2 semanas (até 3 a 4 se extensa ou com doença arterial grave); osteomielite sem ressecção 6 semanas. Osteomielite: sondagem óssea 87% / 83%, radiografia 0,54 / 0,68, os dois juntos 97% / 93%, ressonância 0,90 / 0,79, VHS ≥ 70 mm/h com 81% / 80%. SINBAD: 6 itens, 0 a 6. Wagner: 6 graus, 0 a 5. Rastreio: anual / 3-6 / 2-3 / 1-2 meses pelo Ministério da Saúde, anual / 6-12 / 3-6 / 1-3 meses pelas sociedades.

em 30 dias

Os porquês, que é o que sobra quando os números escapam. Por que a topografia decide a úlcera antes de qualquer exame, e por que a única das três que não dói é a que chega mais tarde. Por que comprimir é a iatrogenia clássica do tema, e por que a variz na perna não autoriza o enfaixamento. Por que o índice tornozelo-braquial mente no diabético — o que a calcificação da média faz com o manguito — e por que um número normal com onda monofásica é notícia pior do que um número baixo. Por que a diretriz internacional manda usar a MENOR das duas pressões do tornozelo justamente em quem tem doença abaixo do joelho. Por que a microangiopatia não explica a ferida que não fecha, e o que se deixa de procurar quando ela vira explicação. Por que o diagnóstico de infecção é clínico e por que o swab da ferida não serve para escolher antibiótico. Por que uma radiografia normal nas primeiras semanas não exclui osteomielite, e por que se colhe osso por fora da úlcera. Por que o Brasil muda a resposta sobre Pseudomonas. Por que 'não removível' é a palavra que faz o trabalho no offloading. Por que a ordem em paciente séptico é drenar, revascularizar, reconstruir — e por que ela se inverte no membro isquêmico sem infecção. E por que o pé cicatrizado é pé em remissão, e não pé curado.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 64 anos, com diabetes tipo 2 de longa data, chega à unidade acompanhado da esposa porque ela notou uma mancha escura na meia dele. Ele diz que não sente nada no pé e que só veio porque ela insistiu. Conduza a consulta: colha a história que estratifica o risco, examine os pés como o protocolo manda, e decida se este paciente volta para casa com orientação, com encaminhamento ou com internação. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Pé diabético e úlceras de membros inferiores — Preparatório para provas | OsceLabs