Cirurgia GeralCirurgia Vascular

Estenose de carótida: o adjetivo que decide a operação

Doença carotídea e estenose de carótida

Sintomático, assintomático, e o relógio que separa as duas condutas

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 60 anos, hipertenso e tabagista, apresenta episódios recorrentes de perda visual monocular transitória à direita ('cortina que desce'), com duração de minutos e resolução completa. Ausência de déficit motor. Ausculta cervical revela sopro em carótida direita. A ultrassonografia com Doppler de carótidas mostra estenose de 80% da carótida interna direita. Qual a conduta mais apropriada?

02

Como esse tema cai

A prova cobra doença carotídea por um caminho estreito e repetido: uma vinheta de déficit neurológico transitório que já passou, um grau de estenose, e quatro ou cinco condutas. O que separa quem acerta de quem chuta é saber que a palavra sintomático tem definição técnica — território e prazo — e não quer dizer apenas que o paciente sentiu alguma coisa.

Este capítulo fica com a doença aterosclerótica da bifurcação carotídea extracraniana: quem rastrear, como medir, quando operar, com que técnica e em que prazo. O manejo da fase aguda do infarto cerebral — janelas de trombólise e de trombectomia, escores de gravidade, oclusão de grande vaso intracraniano — é do capítulo de acidente vascular cerebral isquêmico agudo, e não se repete aqui. A estratificação de risco cardiovascular pela placa também tem dono: é o capítulo de dislipidemias que explica por que uma placa carotídea com menos de 50% de estenose já joga o paciente em risco alto. E a tabela que classifica o risco intrínseco de cada operação, na qual a endarterectomia de carótida sintomática aparece como procedimento de risco intermediário, é da avaliação pré-operatória.

O que fica aqui é o que essas três vizinhanças pressupõem sem ensinar: o critério que decide se aquele paciente vai ou não à mesa.

03

O que muda decisão

Sintomático não quer dizer que o paciente sentiu alguma coisa

A definição que a literatura cirúrgica usa é dupla e é fechada. Lesão sintomática é aquela em que o paciente apresentou sintomas neurológicos atribuíveis ao território carotídeo ipsilateral à lesão nos últimos 180 dias — território e prazo, os dois. É o padrão de definições para intervenção carotídea da Society for Vascular Surgery, e foi o critério de inclusão da casuística brasileira de Ribeirão Preto que este capítulo usa mais adiante.

A lista de sintomas que contam é nominal, não é uma impressão geral. Entram alterações sensitivas hemisféricas, como parestesia ou hipoestesia de face, braço ou perna; déficits motores hemisféricos, incluindo alteração de coordenação de membro; disfunções corticais superiores, isto é, disfasia, afasia e alterações visuais ou espaciais; amaurose fugaz, ou isquemia monocular transitória; e amaurose definitiva por infarto de retina. É uma lista de cinco itens, e o que não está nela não torna a placa sintomática.

O que fica de fora é justamente o que mais chega ao pronto-socorro com uma requisição de carótidas em anexo. Tontura isolada não conta. Perda transitória de consciência não conta. Síncope não conta. O motivo é anatômico antes de ser normativo: a carótida interna irriga um hemisfério, e a perda de consciência exige comprometimento bilateral ou de tronco. Um evento isquêmico transitório de território carotídeo produz déficit focal sem apagar o paciente.

Daí sai a regra que reconcilia duas frases aparentemente brigadas. Pedir ecodoppler de carótidas para investigar síncope com exame neurológico normal é distrator de prova; pedir o mesmo exame depois de um déficit focal do território carotídeo é a conduta que organiza tudo o que vem depois. Um exame, dois veredictos, e o que os separa é a lista de cinco itens. Quem decora que carótida é distrator sem decorar por quê acerta a questão de síncope e erra a de evento isquêmico transitório.

Amaurose fugaz tem dois donos, e eles não se parecem

Perda visual monocular transitória é o sintoma que mais frequentemente chega mal roteado. Ela pertence a duas doenças de idosos com apresentações muito diferentes. Numa delas é embolia a partir de placa carotídea instável — a amaurose fugaz de origem carotídea; na outra é arterite de células gigantes, e o desfecho temido é a neuropatia óptica isquêmica com cegueira definitiva.

O que separa as duas na beira do leito é o contexto, não o sintoma. A arterite vem com cefaleia nova em pessoa idosa, dor à palpação do couro cabeludo, claudicação de mandíbula e provas inflamatórias alteradas, e a suspeita obriga conduta imediata. A embolia carotídea vem com fatores de risco ateroscleróticos, eventualmente sopro cervical, e frequentemente acompanhada ou precedida de outro sintoma da lista de cinco. Estudo observacional com 136 pacientes sintomáticos mostrou que a amaurose fugaz ocorria naqueles com placas determinando estenose de moderada a grave, e sugeriu que ela depende sobretudo da instabilidade da placa, ao passo que o evento isquêmico transitório e o infarto cerebral dependem tanto da placa quanto de outros fatores.

Há uma assimetria que vale guardar: a amaurose fugaz serve bem como gatilho de investigação carotídea, mas os achados oculares em geral são maus preditores de doença carotídea. Amaurose fugaz, placas de Hollenhorst e retinopatia de estase venosa têm valor preditivo moderado; os demais achados oculares não demonstraram valor preditivo nenhum na identificação da doença. Fundo de olho alterado não é rastreamento de carótida.

O grau tem denominador, e o denominador muda o número

O grau de estenose continua sendo o parâmetro que determina a gravidade da lesão e a escolha terapêutica. O problema é que grau é uma fração, e fração tem denominador. O numerador nunca muda: é o diâmetro do canal que sobrou no ponto de maior estreitamento. O denominador muda conforme o método.

Os ensaios anteriores ao estudo norte-americano comparavam o lúmen residual com uma estimativa do lúmen original do bulbo, no mesmo ponto. Como o bulbo carotídeo é naturalmente mais largo que a carótida interna distal, esse denominador é grande e o percentual sai alto. O método do ensaio norte-americano compara o lúmen residual com o diâmetro da carótida interna já normal, além do bulbo. Esse denominador é menor, e o mesmo estreitamento devolve um percentual menor. A própria diretriz brasileira reconhece que o método do bulbo não pode ser medido com exatidão, porque o lúmen original não aparece na angiografia — e que a vantagem do método distal é minimizar a variabilidade entre observadores.

Corte longitudinal da bifurcação carotídea com placa no bulbo. Três compassos marcam, respectivamente, o canal residual no ponto mais estreito, o diâmetro da carótida interna normal acima do bulbo e, em tracejado, a largura original do bulbo.
O mesmo estreitamento, dois denominadores. O numerador é sempre o canal que sobrou — o compasso mais estreito. O denominador é que muda: o método adotado pelo ensaio norte-americano divide pelo diâmetro da carótida interna já normal, acima do bulbo (compasso cheio, mais alto); os ensaios anteriores a ele dividiam pela largura original estimada do bulbo (compasso tracejado, mais largo). Como o bulbo é mais largo que a interna distal, o tracejado devolve sempre um percentual maior para a mesma placa. O limiar de 70% que autoriza operar está escrito no denominador de cima.

A consequência para a prova é direta: quando a alternativa diz 70%, ela está falando no denominador distal. Um enunciado que dá dois percentuais diferentes para a mesma placa não está errado; está citando dois métodos. E a classificação ordinal que a diretriz brasileira publica é toda escrita nesse denominador: normal; leve, entre 1% e 29%; moderada, dividida em duas faixas, de 30% a 49% e de 50% a 69%; grave, de 70% a 99%; e oclusão, 100%. Note que a faixa moderada tem dois degraus e que o degrau de cima dela, o de 50% a 69%, é exatamente onde o benefício cirúrgico começa a existir no paciente sintomático.

O sopro cervical erra nos dois sentidos

A ausculta da carótida é barata e continua fazendo parte do exame do adulto, mas o que ela entrega não é o que se espera dela. A sensibilidade medida vai de 11% a 51% e a especificidade, de 94% a 99%. Traduzindo: sopro presente aumenta muito a probabilidade de haver doença, sopro ausente quase não a diminui. A própria diretriz brasileira registra que a ausência de sopro cervical não exclui lesão significativa da bifurcação.

Há um segundo achado que quebra a intuição de gradação: a probabilidade de haver sopro não aumenta com a progressão da estenose. Estenose criticamente apertada pode reduzir tanto o fluxo que o turbilhonamento desaparece, e o pescoço fica silencioso. Por isso o sopro não serve para estimar grau, só para levantar suspeita.

E o sopro correlaciona-se melhor com aterosclerose sistêmica do que com estenose carotídea significativa. Metanálise mostra que auscultar sopro carotídeo é fator preditivo de risco cardiovascular, associado a aumento significativo da probabilidade de morte ou infarto do miocárdio. Ou seja, o sopro é uma boa notícia clínica pela razão errada: ele informa mais sobre coração do que sobre cérebro.

Rastreamento: o que a solicitação brasileira mostra quando é medida

A estenose carotídea assintomática está presente em 2% a 18% da população; considerada apenas a acima de 70%, a prevalência fica entre 0% e 3,1%. Ela sobe com o número de fatores de risco, numa escada conhecida: sem fator de risco, 2%; com um, 6%; com dois, 14%; com três, 16%. O ponto em que o rastreamento passa a reduzir risco de infarto cerebral está descrito para populações com prevalência de estenose significativa igual ou superior a 20% — acima, portanto, de todos esses números.

Um estudo de uma clínica de angiologia e cirurgia vascular de Cascavel auditou as próprias requisições entre janeiro de 2020 e janeiro de 2021. Foram 200 pedidos, 152 aproveitados. A indicação mais frequente foi check-up vascular, em 91 pacientes, quase 60% do total. Pelo critério adotado pelos autores, 55 requisições eram adequadas e 97 inadequadas — assertividade de 36,18%.

A comparação entre especialidades é onde o número vira lição. Os cirurgiões vasculares acertaram a indicação em 51 de 127 pedidos, 40,16%; as demais especialidades, em 4 de 25, 16%. A razão de chances é 3,52, com intervalo de 1,14 a 10,87 e p igual a 0,02, e a conclusão publicada é que o cirurgião vascular pede melhor. Vira as contagens de lado e a leitura se inverte: das 97 requisições inadequadas, 76 são dos próprios cirurgiões vasculares — 78,4% do desperdício, um número que o artigo não imprime e que sai por subtração da tabela. O mesmo grupo é, ao mesmo tempo, o mais assertivo por pedido e o dono de quatro quintos dos erros. Qual das duas frases é verdadeira depende de qual denominador se escolhe, e as duas são.

Uma ressalva honesta antes de transportar esse 36% para o consultório de qualquer médico: a amostra veio de uma clínica de vascular, e 83,56% dos pedidos são de cirurgiões vasculares. Isso não invalida a comparação interna entre as especialidades, que é feita dentro da mesma amostra; invalida a transposição do percentual para a rede como um todo, porque a composição de quem pede é outra.

E há uma incoerência aritmética dentro do próprio artigo, que convém conhecer para não citar o número com precisão maior do que ele tem. A regra declarada é que a solicitação seria adequada desde que o paciente apresentasse pelo menos um fator de risco para placa carotídea, excluído o sexo masculino. Hipertensão é fator de risco, e a tabela de características registra 62 hipertensos. Sessenta e dois não cabem dentro de 55: pela regra como está escrita, a contagem de adequadas teria de ser de pelo menos 62. A direção do desvio é conhecida — a régua aplicada foi mais estrita que a enunciada —, e ela não derruba o achado, porque mesmo na leitura mais generosa a maioria dos pedidos continua sem indicação.

Sintomático: o limiar que autoriza operar

Para o paciente com risco cirúrgico baixo ou moderado que apresentou infarto cerebral não incapacitante ou sintoma isquêmico transitório, a endarterectomia está indicada quando a carótida interna ipsilateral mostra estenose superior a 70% em exame de imagem não invasivo, ou superior a 50% em angiografia com cateter — e a condição que acompanha os dois números é institucional, não do paciente: a taxa antecipada de infarto cerebral ou morte perioperatória do serviço precisa ser menor que 6%.

Os dois percentuais diferentes para a mesma decisão não são contradição; são o denominador de novo. A angiografia com cateter mede melhor, e por isso o corte pode ser mais baixo. Quem lê os dois limiares como se fossem réguas concorrentes marca a alternativa que confunde método com gravidade.

A graduação do benefício também tem degraus. A endarterectomia é benéfica no sintomático com 50% a 69% de estenose e altamente benéfica de 70% a 99% sem suboclusão. Na suboclusão, o benefício é marginal no curto prazo e incerto no longo prazo — o vaso quase fechado já reduziu tanto o fluxo que sobra pouco embolizando. A revisão que agrupou dois ensaios com 5.627 pacientes sintomáticos encontrou redução de morte e infarto cerebral apenas nos graves, e considerou a operação útil para o recentemente sintomático com estenose igual ou maior que 50% pelo método distal.

Assintomático: a operação que gasta três anos pagando o próprio risco

Aqui a conta se inverte, e ela se faz com três números que a diretriz brasileira imprime em parágrafos vizinhos sem nunca multiplicar. Três grandes ensaios randomizados com 5.223 pacientes assintomáticos mostraram que a endarterectomia reduz em cerca de 30% o risco relativo de infarto cerebral em três anos. No mesmo texto: cerca de 3% de infarto cerebral perioperatório ou morte. E, ainda no mesmo texto: redução de risco absoluto de cerca de 1% ao ano.

Multiplique. Um por cento ao ano durante três anos é 3% de benefício absoluto acumulado — exatamente o tamanho do preço perioperatório pago no primeiro dia. No horizonte de três anos, a operação empata consigo mesma; todo o ganho líquido depende de o paciente viver bastante depois disso. É por isso que idade, comorbidade e expectativa de vida entram na decisão do assintomático com peso maior que o grau da estenose, e é por isso que uma revisão de seis ensaios com 5.733 pacientes assintomáticos não encontrou efeito da endarterectomia sobre infarto cerebral e morte.

Some a isso o dano do próprio caminho diagnóstico. Considerando os ensaios em assintomáticos, se todo ecodoppler positivo fosse confirmado por angiografia por subtração digital, cerca de 1% das pessoas teria infarto cerebral não fatal como resultado do exame confirmatório. Um rastreamento ultrassonográfico positivo, portanto, não deveria ser lido como indicação cirúrgica — e é essa frase, e não o grau isolado, que responde à vinheta do idoso assintomático com placa de 75% achada em check-up.

O relógio: quando operar o sintomático

O tempo entre o sintoma e a cirurgia é a variável que a prova esconde atrás do grau. O padrão de risco não é uniforme, e ele separa dois grupos que a vinheta descreve com poucas palavras.

Paciente neurologicamente instável — infarto cerebral em evolução, eventos isquêmicos transitórios em salva — tem risco operatório elevado, e a endarterectomia de urgência nesse cenário mostrou risco de morte maior do que quando os sintomas estão estáveis. Paciente neurologicamente estável, com evento isquêmico transitório recente ou infarto cerebral menor, não paga preço adicional por ser operado na primeira semana: a revisão sistemática que comparou cirurgia precoce e tardia nesse grupo não encontrou diferença significativa.

A escolha da técnica interage com o relógio, e essa é a interação mais cobrada. Na análise conjunta de dados individuais de 2.839 pacientes randomizados entre endarterectomia e angioplastia com stent, o excesso de infarto cerebral ou morte em 30 dias da angioplastia foi maior justamente nos tratados dentro de sete dias do sintoma. Entre 8 e 14 dias, as taxas foram de 3,4% para a endarterectomia e 8,1% para a angioplastia. Quem opera cedo, portanto, tem mais razão para operar aberto.

Vale um aviso de leitura sobre a fonte brasileira desse trecho. Ao relatar uma série de 468 pacientes com idade média de 71 anos, a diretriz imprime que não houve diferença nos desfechos tardios entre operados em até sete dias e operados mais tarde, e fecha a frase com um valor de p igual a 12. Valor de p vive entre 0 e 1; o único número compatível com a própria frase é 0,12, com a vírgula perdida na composição. A conclusão sobrevive intacta ao erro de digitação, mas o algarismo, como está impresso, não se cita.

A altura da bifurcação escolhe a técnica antes do cirurgião

Há uma variável anatômica que decide a via e quase nunca aparece no enunciado: onde a carótida comum se divide. A endarterectomia não é recomendada para bifurcações acima da segunda vértebra cervical, e nesse cenário o stent passa a ser preferível; bifurcações altas podem exigir técnica alternativa ou até deslocamento da mandíbula durante a operação. A altura, portanto, não é curiosidade de anatomia: é o que define se a carótida distal é alcançável por cervicotomia.

Um estudo com 602 bifurcações de 301 participantes mediu essa altura por ultrassonografia, com o lóbulo da orelha como referência. À direita, a média foi 5,9 centímetros; à esquerda, 5,8. Homens tiveram bifurcações mais distantes do lóbulo — 6,3 e 6,2 — e mulheres, mais próximas: 5,6 e 5,4. A composição confere as médias gerais: com 135 homens e 166 mulheres, a ponderada da direita cai em 5,91 e a da esquerda em 5,76, que são os 5,9 e 5,8 publicados.

E aqui mora uma inversão de referencial que engana leitor apressado. Menor distância até o lóbulo da orelha significa bifurcação mais alta no pescoço, isto é, mais distal em relação à origem da carótida comum. A frase menor distância e a frase bifurcação mais alta descrevem o mesmo achado; parecem opostas porque cada uma mede a partir de uma ponta diferente. As mulheres da amostra têm bifurcação mais alta — e é a bifurcação alta que empurra o caso para o stent.

Um contraponto que a própria amostra impõe: a idade média dos participantes foi de 23,2 anos, com 81,4% entre 18 e 25. Não é a população que se opera de carótida. O que essa fonte empresta é o eixo anatômico — que a altura da bifurcação varia entre pessoas, que a diferença entre os sexos é consistente nos dois lados, e que a idade não teve influência significativa sobre a distância nem nesta série nem nos estudos comparados. O que ela não empresta é a prevalência da bifurcação alta no idoso aterosclerótico: nenhuma bifurcação acima da terceira vértebra cervical foi encontrada em jovens saudáveis, e esse número não se transporta.

O Brasil que opera carótida, medido

A estenose carotídea responde por cerca de 10% a 15% de todos os acidentes vasculares cerebrais, e a finalidade da revascularização é prevenir o próximo. O volume com que isso é feito no país tem tamanho conhecido em pelo menos um estado. O sistema de informações hospitalares de São Paulo registrou 2.075 endarterectomias carotídeas entre 2015 e 2019; excluídos os quatro procedimentos de hospitais que operaram uma única vez em cinco anos, restaram 2.071 procedimentos em 39 hospitais. A mediana de volume anual por hospital foi de 7 operações, com quartis de 2 e 14, e o volume anual observado variou de 1 a 52.

Guarde esses dois últimos números junto de um terceiro. A revisão sistemática que reuniu 25 estudos e quase 900 mil endarterectomias localizou os melhores resultados em serviços acima de 79 procedimentos por ano — mais que os 52 do melhor ano do estado inteiro. É por isso que o limiar de 6% de complicações que a indicação exige precisa ser aferido localmente, e não presumido.

A mortalidade intra-hospitalar global foi de 1,8%: 37 óbitos em 2.071 procedimentos. Distribuída por volume, foi de 2,9% no grupo de baixo volume, 2,0% no intermediário e 1,2% no alto. Vale reparar em como esses percentuais nascem: o grupo de baixo volume teve 13 óbitos e o de alto volume teve 13 óbitos também. A contagem é idêntica; o que muda é o denominador, 452 contra 1.069 pacientes. A mesma treze de óbitos vira risco mais que dobrado num lado e metade no outro.

O resumo do artigo diz que essa diferença representa 1,5 óbito a menos por 100 pacientes tratados. As duas taxas que ele mesmo publica dão outra conta: 2,9 menos 1,2 é 1,7 por 100, e o cálculo exato a partir de 13 em 452 e 13 em 1.069 dá 1,66. A coerência interna aponta para 1,7, porque a redução de quase 60% que o mesmo resumo afirma só fecha com 1,66 sobre 2,88, e não com 1,5. O erro está na composição do resumo, não na coleta, e ele subestima o efeito bruto.

O contraponto vem do próprio artigo e é o que impede a leitura ingênua. A vantagem some quando se ajusta pelo caráter da internação: a razão de chances de sobrevida cai de 2,41, com intervalo de 1,11 a 5,23 e p igual a 0,027, para 1,69, com intervalo de 0,74 a 3,87 e p igual a 0,215. O motivo está na composição dos casos: 87,0% dos procedimentos dos centros de alto volume eram eletivos, contra 59,9% nos de baixo volume. E, tratado o volume como variável contínua, a correlação com a mortalidade não existe — coeficiente de −0,174 com p igual a 0,288. O que o registro mostra é uma diferença bruta de mortalidade que se explica em boa parte por quem chega eletivo e quem chega de urgência.

Um serviço-escola brasileiro, e a mesma armadilha de denominador

Do lado clínico, uma série de um hospital universitário de Ribeirão Preto acompanhou, de janeiro de 2012 a janeiro de 2023, 70 pacientes operados por estenose carotídea sintomática — 44 endarterectomias e 26 angioplastias com stent. Não houve óbito. Houve quatro infartos cerebrais periprocedimento; três estavam relacionados à lesão tratada, sendo dois menores e um maior. A taxa de infarto cerebral maior relacionado à lesão foi de 1,43% e a de qualquer infarto relacionado à lesão, 4,29%. A taxa de eventos adversos cardiovasculares maiores foi de 5,71%, e a conclusão é que um serviço com programa de ensino reproduz os resultados dos ensaios controlados.

A tabela de desfechos traz um par que merece atenção didática. Infarto cerebral de qualquer tipo ocorreu em 2 pacientes no braço do stent e em 2 pacientes no braço da cirurgia aberta — contagem idêntica. Os percentuais publicados ao lado são 7,69% e 4,55%, porque os braços têm 26 e 44 pacientes. A mesma dupla de eventos aparece como risco 69% maior de um lado, e o teste não encontrou diferença: p igual a 0,624. Ler percentual sem olhar o denominador, numa série desse tamanho, produz uma conclusão sobre técnica que os dados não sustentam.

Duas frações da mesma série fecham por dentro e valem como conferência. O uso de derivação temporária foi de 22,7% nas endarterectomias, e o texto detalha o critério: pressão retrógrada em seis casos e oclusão contralateral da carótida interna em quatro. Seis mais quatro são dez, e dez sobre as 44 endarterectomias dão 22,7% — o denominador é o braço aberto, não os 70 pacientes, e o número dez não está impresso em lugar nenhum. Do lado do stent, 53,8%, 26,9% e 19,2% de células abertas, mistas e fechadas correspondem a 14, 7 e 5 dispositivos, que somam exatamente os 26 do braço.

Uma coisa não reconcilia. Os eventos adversos maiores foram definidos como a combinação de infarto do miocárdio, morte e infarto cerebral maior; por essa definição, o braço do stent teria 2 eventos — um infarto cerebral maior e um infarto do miocárdio — e a tabela registra 3. A coluna só se reproduz se todo infarto cerebral relacionado à lesão for contado, maior ou menor: aí o stent tem 3 e a cirurgia aberta tem 1, que é o que está impresso, somando os 4 do total. A aritmética da coluna fecha; o que está estreito demais é a frase que define o desfecho. Isso salva o dado e recomenda cautela ao comparar essa taxa de 5,71% com a de ensaios que definiram o mesmo desfecho de outro jeito.

Um dado de contexto calibra a série: a hipertensão esteve presente em 92,9% dos pacientes, acima da faixa de 52% a 76% das amostras dos grandes ensaios com que os autores se comparam.

A régua brasileira do tema, e de onde ela vem

Uma última camada muda a forma de estudar. A comissão nacional de incorporação de tecnologias mantém um índice de diretrizes nacionais e brasileiras com dezesseis documentos, três deles vasculares: tratamento de aneurisma da aorta abdominal, uso de endoprótese em aorta torácica descendente e as diretrizes de angioplastia. A doença carotídea fica fora dessa lista, e a régua nacional do tema é de sociedade de especialidade.

Essa régua tem nome e data: o documento de doença carotídea extracraniana do projeto de diretrizes da sociedade brasileira de angiologia e cirurgia vascular, com elaboração final em dezembro de 2015. Ele é a única diretriz em português entre as nove avaliadas por um estudo que aplicou o instrumento de avaliação metodológica AGREE II às diretrizes de tratamento da doença carotídea publicadas entre 2000 e 2019 — e foi a única recuperada fora das bases indexadas.

Os escores explicam por que estudar por ela exige cuidado: 72,22 em escopo e finalidade, 78,18 em clareza da apresentação, e depois 3,70 em envolvimento das partes interessadas, 16,66 em rigor do desenvolvimento e 19,44 tanto em aplicabilidade quanto em independência editorial. Lendo o documento, os números fazem sentido: o campo de objetivo anuncia recomendações para a doença arterial periférica obstrutiva, e não para a carótida; o campo de conflito de interesse traz, no lugar da declaração, o nome dessa outra doença; o cabeçalho do método de coleta de evidência vem sem conteúdo abaixo dele; o ensaio europeu tem a sigla trocada no próprio parágrafo que a apresenta; e a hipertensão aparece com razão de chances 5 seguida do rótulo de intervalo de confiança de 95% sem que intervalo algum seja publicado.

Nada disso invalida as recomendações — os limiares de 70% e 50%, a condição de menos de 6%, a graduação do benefício por faixa —, que vêm de ensaios de primeira linha e coincidem com as diretrizes europeias e norte-americanas bem avaliadas no mesmo estudo. O que muda é a hierarquia de leitura: o documento nacional serve como sumário, e a evidência primária se confere nos ensaios que ele cita. Dos oito documentos em inglês avaliados, 62,5% foram classificados como de alta qualidade — cinco, que é exatamente o total de diretrizes de alta qualidade do estudo inteiro. Todas as cinco são estrangeiras.

04

O adjetivo, o denominador e o relógio

A primeira tabela resolve a pergunta que abre qualquer vinheta: este paciente é sintomático? A segunda cruza o adjetivo com o grau para devolver a conduta. Os cartões abaixo mostram a progressão ordinal do grau pelo método distal: em cada um, a faixa clara é a parede com a placa e a faixa escura é o canal que sobrou. A leitura dos cartões é a do numerador — quanto menos canal escuro, maior o percentual — e vale lembrar que o mesmo desenho renderia percentual mais alto se o denominador fosse a largura original do bulbo.

  1. 1Confira o adjetivo antes do número: houve déficit da lista de cinco, no território ipsilateral, nos últimos 180 dias?
  2. 2Sem esse déficit, o paciente é assintomático — e a pergunta passa a ser se ele tem fatores de risco e se aceitaria intervir, porque só aí a triagem seletiva faz sentido.
  3. 3Com esse déficit, solicite ecodoppler de carótidas e trate a lesão ipsilateral ao déficit, não a mais apertada das duas.
  4. 4Leia o percentual sabendo o denominador: acima de 70% em exame não invasivo, acima de 50% em angiografia com cateter.
  5. 5Confirme a condição institucional: taxa antecipada de infarto cerebral ou morte perioperatória menor que 6%.
  6. 6Marque a data pelo estado neurológico: estável com evento transitório ou infarto menor pode ir na primeira semana; instável ou em evolução é o cenário de pior resultado da urgência.
  7. 7Escolha a via considerando a altura da bifurcação e o tempo desde o sintoma: acima da segunda vértebra cervical, stent; dentro dos primeiros sete dias, a desvantagem do stent é maior.
  8. 8Antes e depois, aspirina de 81 a 325 miligramas por dia e controle agressivo de pressão, lipídio e tabagismo — que é o tratamento de todos, operados ou não.

Leve — 1% a 29%

Placa presente, canal quase inteiro. Fora de qualquer limiar de revascularização, em sintomático ou não. É a faixa em que o achado serve para tratar fator de risco, não para operar.

Moderada, degrau de baixo — 30% a 49%

Ainda abaixo do corte cirúrgico mesmo no sintomático medido por cateter. Nesta faixa a placa já conta como aterosclerose subclínica para a estratificação de risco cardiovascular.

Moderada, degrau de cima — 50% a 69%

É onde o benefício cirúrgico começa a existir, e só no sintomático. Pelo método de cateter, já ultrapassa o limiar; por exame não invasivo, ainda não.

Grave — 70% a 99%

No sintomático, faixa de benefício máximo da endarterectomia por exame não invasivo. No assintomático, o mesmo número não carrega a mesma indicação.

Oclusão — 100%

Não há o que revascularizar pela via carotídea: o vaso está fechado. A conduta passa a ser clínica, e a oclusão contralateral vira critério de derivação temporária ao operar o outro lado.

Sintomático ou não: o que entra, o que não entra

ApresentaçãoTorna a placa sintomática?Por quêO que fazer com o ecodoppler
Parestesia ou paresia de face, braço ou perna, contralateral à placa, nos últimos 180 diasSimTerritório carotídeo ipsilateral, dentro do prazoSolicitar: é o exame que decide a conduta
Disfasia, afasia ou alteração visuoespacial no mesmo prazoSimDisfunção cortical superior do hemisfério irrigadoSolicitar
Amaurose fugaz ou perda visual monocular transitóriaSimIsquemia retiniana por embolia da placaSolicitar — e afastar arterite de células gigantes em paralelo se houver cefaleia e claudicação de mandíbula
Déficit compatível ocorrido há mais de 180 diasNãoFora da janela da definiçãoO caso volta à régua do assintomático
Síncope ou perda transitória de consciência isoladaNãoExige comprometimento bilateral ou de troncoNão solicitar: é o distrator clássico
Tontura isolada, sem déficit focalNãoNão é sintoma de território carotídeoNão solicitar
Sopro cervical em paciente sem sintomaNãoAchado, não sintomaSó como triagem seletiva, se houver fatores de risco e disposição de intervir

Do adjetivo e do grau à conduta

SituaçãoGrau pelo método distalCondutaObservação que a prova cobra
Sintomático, risco cirúrgico baixo ou moderadoAcima de 70% em exame não invasivoEndarterectomiaCondicionada a taxa antecipada de infarto cerebral ou morte perioperatória menor que 6% no serviço
Sintomático, medido por angiografia com cateterAcima de 50%EndarterectomiaO corte é mais baixo porque o método mede melhor, não porque a doença é menos grave
Sintomático50% a 69%Endarterectomia benéficaBenefício existe, porém menor que na faixa grave
Sintomático70% a 99% sem suboclusãoEndarterectomia altamente benéficaÉ a faixa de maior ganho absoluto
SintomáticoSuboclusãoBenefício marginal a curto prazo, incerto a longoFluxo residual mínimo emboliza pouco
Sintomático, neurologicamente estávelQualquer faixa cirúrgicaOperar cedo, inclusive na primeira semanaSem risco operatório substancialmente maior que a cirurgia tardia
Sintomático, neurologicamente instávelQualquer faixaRisco operatório elevado; seleção individualInfarto cerebral em evolução é o cenário de pior resultado da cirurgia de urgência
AssintomáticoQualquer faixaTratamento clínico é a regra; revascularização é decisão individualTrês anos de benefício absoluto equivalem ao preço perioperatório
Bifurcação acima da segunda vértebra cervicalIndiferenteStent preferívelA anatomia decide a via antes do grau

As duas tabelas respondem a perguntas diferentes e a alternativa errada costuma nascer de misturá-las: a primeira é sobre o adjetivo, a segunda é sobre o grau. Grau alto em paciente sem o adjetivo não abre indicação cirúrgica.

Os cartões usam o denominador distal, que é o do limiar de 70%. A mesma placa, medida contra a largura original do bulbo, sobe de faixa — por isso um enunciado pode trazer dois percentuais para uma lesão só sem se contradizer.

O limiar de 6% é do serviço, não do paciente: é a taxa antecipada de infarto cerebral ou morte perioperatória. Num estado em que a mediana é de 7 endarterectomias por hospital ao ano, essa taxa precisa ser aferida, e não presumida.

Sopro cervical tem especificidade de 94% a 99% e sensibilidade de 11% a 51%: presente, levanta suspeita; ausente, não afasta nada. E a probabilidade de haver sopro não cresce com o grau.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Rastrear carótida em quem não teve sintoma?

Contra, na população adulta em geral

A força-tarefa norte-americana de serviços preventivos não recomenda rastreamento de doença carotídea na população adulta assintomática em geral, por prevalência baixa, excesso de resultados falso-positivos e dano do caminho confirmatório: considerando os ensaios em assintomáticos, se todo ecodoppler positivo fosse confirmado por angiografia por subtração digital, cerca de 1% das pessoas teria infarto cerebral não fatal por causa do exame.

Recomendação da United States Preventive Services Task Force de 2007, reproduzida com grau A na diretriz de doença carotídea extracraniana da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, 2015, seção Pacientes assintomáticos.

A favor, seletivamente, em quem tem fator de risco e aceitaria intervir

A triagem seletiva é indicada para quem tem mais de um fator de risco vascular, particularmente se o indivíduo estiver disposto a considerar a intervenção caso se encontre estenose significativa. A mesma diretriz brasileira recomenda o ecodoppler como triagem inicial no assintomático com suspeita ou fatores de risco, e aponta como principais candidatos homens com doença arterial coronariana, hiperlipidemia e hipertensão.

Diretriz de doença carotídea extracraniana da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, 2015, com nível de evidência B; e revisão das indicações reunida por Silva Júnior e cols., J Vasc Bras, 2023;22:e20220084.

Na prova

Repare em duas palavras do enunciado antes de escolher: população geral e fator de risco. Vinheta de check-up em adulto saudável cobra a posição contrária ao rastreamento; vinheta de idoso hipertenso, coronariopata e tabagista, que aceitaria operar, cobra a triagem seletiva. Quando o enunciado não diz se o paciente aceitaria intervir, a alternativa que pede o exame de rotina costuma ser o distrator.

No sintomático grave, cirurgia aberta ou stent?

Stent é alternativa legítima à endarterectomia

Nas mesmas condições de imagem que indicam a cirurgia aberta, a angioplastia com implante de stent está recomendada como alternativa para pacientes sintomáticos com risco baixo ou moderado de complicações de procedimento endovascular. Uma série brasileira de serviço universitário com 70 pacientes sintomáticos não encontrou diferença estatística entre as duas técnicas em nenhum dos desfechos principais.

Diretriz de doença carotídea extracraniana da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, 2015, nível de evidência B; e Oliveira e cols., J Vasc Bras, 2024;23:e20230033.

A cirurgia aberta é mais segura no periprocedimento, e a diferença cresce quanto mais cedo se opera

Na análise conjunta de dados individuais de 2.839 pacientes randomizados entre as duas técnicas, infarto cerebral ou morte em 30 dias ocorreram com maior frequência no grupo da angioplastia, e o excesso foi maior nos tratados dentro de sete dias do sintoma. Entre 8 e 14 dias, as taxas foram de 3,4% para a endarterectomia e 8,1% para a angioplastia.

Análise conjunta citada na diretriz de doença carotídea extracraniana da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, 2015, seção Doente sintomático nos primeiros sete dias, com nível de evidência A.

Na prova

O que decide a alternativa é o relógio e a anatomia, não a preferência pela técnica. Enunciado com sintoma há poucos dias e paciente estável favorece a cirurgia aberta; enunciado que descreve bifurcação alta, pescoço irradiado ou reoperação favorece o stent. Série pequena sem diferença estatística, como a de 70 pacientes, não é argumento de equivalência: com 26 e 44 pacientes por braço, o estudo não tem poder para encontrar a diferença que a análise conjunta encontrou.

06

Caso resolvido

Homem de 69 anos, hipertenso, dislipidêmico e ex-tabagista de 40 maços-ano, procura o pronto-socorro acompanhado da filha. Há 26 horas, enquanto tomava café, o braço e a perna direitos ficaram pesados e a fala saiu arrastada; tudo passou em cerca de 25 minutos e ele não procurou atendimento na hora. Nega cefaleia, nega dor à palpação do couro cabeludo, nega dor ao mastigar e nega perda visual. Ao exame, está lúcido e orientado, sem déficit motor, sensitivo ou de linguagem; pressão arterial de 158 por 92 mmHg, ritmo cardíaco regular sem sopros precordiais, sopro audível na região cervical esquerda. Tomografia de crânio sem sangramento e sem infarto estabelecido. Ecodoppler de carótidas: estenose de 85% na carótida interna esquerda e de 55% na direita, pelo método que usa o diâmetro da interna distal como referência. Escala neurológica atual sem pontos, paciente independente antes do evento.
o adjetivo, antes de qualquer número
Paresia braquiocrural direita com disartria, resolvida em 25 minutos, há 26 horas, é sintoma de território carotídeo esquerdo dentro dos 180 dias. A lesão esquerda é sintomática; a direita, no mesmo paciente e no mesmo dia, é assintomática. Duas placas, duas réguas.
por que a mais grave não é a mais apertada
A esquerda tem 85% e é sintomática: faixa de benefício máximo da endarterectomia. A direita tem 55% e é assintomática: abaixo de qualquer limiar que valha para quem não teve sintoma, e nem sequer atinge o corte de 70% do sintomático por exame não invasivo. Opera-se a esquerda.
o que o sopro acrescenta e o que não acrescenta
O sopro cervical à esquerda é coerente com o achado, e a especificidade alta da ausculta sustenta essa leitura. Mas ele não graduaria nada: a probabilidade de haver sopro não aumenta com a progressão da estenose, e a ausência dele à direita não afasta a placa de 55% que o exame já mostrou.
por que não se investiga arterite aqui
Sem cefaleia nova, sem dor à palpação do couro cabeludo, sem claudicação de mandíbula e sem sintoma visual, o cenário não é de arterite de células gigantes. O que aproximaria as duas hipóteses seria amaurose fugaz — e ela está ausente.
a data
Paciente neurologicamente estável, com evento transitório recente e sem infarto estabelecido na tomografia. Operar dentro da primeira semana não acrescenta risco operatório substancial em relação a esperar, e o atraso deixa o paciente exposto ao segundo evento. A janela curta é o argumento a favor de agir, não contra.
a técnica
Dentro dos primeiros sete dias do sintoma é justamente onde a desvantagem periprocedimento do stent em relação à cirurgia aberta é maior. Sem descrição de bifurcação alta, pescoço irradiado ou reoperação, a escolha é a endarterectomia — condicionada à taxa antecipada de infarto cerebral ou morte perioperatória do serviço ser menor que 6%.
o que vale para os dois lados
Antiagregação com aspirina de 81 a 325 miligramas por dia, controle pressórico, estatina e cessação definitiva do tabagismo. É o tratamento da placa direita — a que não vai à mesa — e continua sendo o tratamento da esquerda depois de operada.
07

Agora feche você

Mulher de 74 anos, hipertensa e diabética, é trazida à emergência com hemiparesia esquerda instalada há 3 horas e fala preservada. Recebe trombólise dentro da janela e evolui com melhora parcial: ao fim do segundo dia, mantém paresia leve do membro superior esquerdo e anda com apoio. A tomografia de controle mostra infarto pequeno no território da cerebral média direita. No terceiro dia, o ecodoppler solicitado na enfermaria mostra estenose de 78% na carótida interna direita e placa sem repercussão à esquerda. A equipe da enfermaria registra no prontuário: 'estenose carotídea direita; encaminhar ao ambulatório de cirurgia vascular após a alta, com retorno em 60 dias'. A paciente não tem cardiopatia estrutural, e o eletrocardiograma seriado não mostrou fibrilação atrial. Antes do evento, era independente para todas as atividades.
o que a conduta registrada erra
Complete: o encaminhamento ambulatorial em 60 dias comete dois erros distintos, e é preciso nomeá-los separadamente — um deles é sobre o prazo, e o outro é sobre o que o prazo expõe a paciente a sofrer nesse intervalo.
o adjetivo desta placa
Complete: classifique a lesão direita segundo a definição técnica, dizendo qual é o território, qual é a lateralidade em relação ao déficit e se o prazo está cumprido. Diga também que régua se aplicaria se o mesmo achado tivesse aparecido num exame de rotina, sem o evento.
o número e o denominador
Complete: 78% em ecodoppler atinge ou não o limiar de indicação? Diga qual limiar se aplica a esse método e qual se aplicaria se a medida tivesse vindo de angiografia com cateter, e explique por que os dois números diferem sem se contradizerem.
o que ainda precisa ser verificado antes de marcar
Complete: além do grau e do adjetivo, existe uma condição que não é do paciente e sim do serviço, e existe uma característica do infarto já instalado que pesa na decisão de operar cedo. Nomeie as duas.
a técnica, e o que a mudaria
Complete: qual é a escolha padrão nesta janela, e quais achados anatômicos deslocariam a decisão para o procedimento endovascular?
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar a carótida mais apertada em vez da que produziu o sintoma A indicação é da lesão ipsilateral ao déficit. Uma estenose contralateral de 90% em paciente cujo sintoma foi à direita continua sendo uma estenose assintomática, e obedece à régua do assintomático — em que o benefício absoluto de três anos empata com o preço perioperatório. Trocar o lado é o erro que transforma uma cirurgia indicada numa cirurgia desnecessária no mesmo paciente.
  2. 2Pedir ecodoppler de carótidas para investigar síncope Evento isquêmico transitório de território carotídeo não causa perda de consciência isolada. Numa síncope com exame neurológico normal, o pacote de tomografia de crânio, eletroencefalograma e carótidas é o distrator clássico. O mesmo exame passa a ser certo no instante em que aparece déficit focal do território — e é a lista de cinco sintomas, não a intuição, que diz qual dos dois cenários está na vinheta.
  3. 3Ler amaurose fugaz como sinônimo de arterite temporal As duas causas coexistem na mesma faixa etária e o sintoma é indistinguível isolado. Cefaleia nova, dor à palpação do couro cabeludo, claudicação de mandíbula e provas inflamatórias alteradas apontam para a arterite; fatores de risco ateroscleróticos e outros sintomas do território apontam para a placa. Errar o roteamento aqui custa visão nos dois sentidos.
  4. 4Concluir que não há doença porque não há sopro A sensibilidade da ausculta carotídea vai de 11% a 51%. Pescoço silencioso não afasta lesão significativa da bifurcação, e a probabilidade de haver sopro não aumenta conforme a estenose progride — estenose muito apertada pode reduzir o fluxo a ponto de calar o sopro.
  5. 5Transformar ecodoppler positivo em indicação cirúrgica Uma triagem ultrassonográfica positiva não deveria ser interpretada como indicação de operar. No assintomático, o percentual isolado não abre indicação: entram idade, comorbidade, expectativa de vida e a taxa de complicações do serviço, porque o benefício absoluto de cerca de 1% ao ano leva três anos apenas para cobrir os cerca de 3% de infarto cerebral ou morte perioperatórios.
  6. 6Comparar percentuais de braços de tamanhos diferentes Dois eventos em 26 pacientes viram 7,69%; os mesmos dois eventos em 44 pacientes viram 4,55%. É a armadilha aritmética que aparece em toda série pequena de carótida, e o teste estatístico da própria série não encontrou diferença. Antes de concluir que uma técnica é pior, conte os eventos e olhe o denominador.
  7. 7Adiar a cirurgia do sintomático estável para 'esfriar' o quadro Operar na primeira semana o paciente neurologicamente estável, com evento isquêmico transitório recente ou infarto cerebral menor, não acrescenta risco operatório substancial em relação à cirurgia tardia. Quem tem risco elevado na urgência é outro paciente: o neurologicamente instável, com infarto em evolução ou eventos em salva.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Amaurose fugaz é sintoma isquêmico (AIT) ipsilateral à estenose. Estenose carotídea sintomática de alto grau (70-99%) tem indicação de endarterectomia carotídea somada a melhor terapia clínica, com benefício comprovado em reduzir AVC. Apenas antiagregação, sem revascularizar uma estenose sintomática de 80%, subtrata o paciente. Anticoagulação não é a terapia de escolha para doença carotídea aterosclerótica. Stent bilateral profilático não se justifica. Observação por 1 ano é inaceitável em estenose sintomática grave.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere sem consultar: (1) a definição de lesão sintomática, com as duas condições — território ipsilateral e 180 dias — e os cinco sintomas que entram na lista; (2) por que síncope e tontura isolada não entram, e o que isso faz com o pedido de ecodoppler; (3) os dois denominadores do grau e qual deles carrega o limiar de 70%; (4) os dois limiares do sintomático, 70% em exame não invasivo e 50% em angiografia com cateter, mais a condição de menos de 6% de complicações do serviço; (5) a conta do assintomático: cerca de 30% de redução relativa em três anos, cerca de 3% de risco perioperatório e cerca de 1% ao ano de redução absoluta — e o que acontece quando se multiplica; (6) os números do sopro, 11% a 51% de sensibilidade contra 94% a 99% de especificidade; (7) o que a altura da bifurcação decide, e acima de qual vértebra a cirurgia aberta deixa de ser recomendada.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva de cabeça três vinhetas. Primeira: homem de 70 anos com paresia do braço esquerdo por trinta minutos ontem, estenose de 80% na carótida direita e de 90% na esquerda — diga qual lado se opera, em que prazo e com qual técnica, e por quê. Segunda: mulher de 66 anos, assintomática, com estenose de 75% achada em exame pedido como check-up — diga o que se faz e reconstrua a aritmética que justifica a resposta. Terceira: homem de 72 anos com síncope e exame neurológico normal, cujo médico pediu tomografia de crânio, eletroencefalograma e carótidas — diga o que sobra do pacote e o que teria de mudar na história para que o ecodoppler passasse a ser a conduta certa. Em seguida, recite os números brasileiros: 2.071 endarterectomias em cinco anos num estado, mediana de 7 por hospital ao ano, volume anual máximo de 52 e limiar internacional de melhores resultados em 79.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 71 anos chega ao ambulatório com um envelope de exames e uma frase pronta: 'doutor, disseram que minha carótida está entupida em 80% e que eu preciso operar'. O exame é de três semanas atrás, pedido junto de um check-up. Ele não teve fraqueza, não teve alteração de fala e não perdeu a visão; conta que tem 'umas tonturas' quando levanta rápido da cama e que uma vez, no ano passado, desmaiou na fila do banco. É hipertenso, fuma meio maço por dia há quarenta anos e tem colesterol alto. Cabe a você conduzir a consulta: separar o que é sintoma de território carotídeo do que não é, explicar por que o número sozinho não decide, e sair da sala com um plano que ele entenda e aceite. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença carotídea e estenose de carótida – Estenose de carótida: o adjetivo que decide a operação — Preparatório para provas | OsceLabs