Cirurgia GeralColoproctologia

Doença diverticular: diverticulose e hemorragia

Doença diverticular dos cólons e suas complicações

O cólon com divertículos fora da crise inflamatória: o achado incidental que não se trata, a dor sem febre que não é diverticulite e a hematoquezia indolor que é a causa mais comum de hemorragia digestiva baixa.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 72 anos, hipertensa e com doença diverticular conhecida, procura o pronto-socorro com enterorragia de moderado a grande volume (sangue vermelho vivo com coágulos) iniciada há 4 horas, sem dor abdominal. PA 110/70 mmHg, FC 96 bpm após reposição volêmica, abdome flácido e indolor. Hb 10,1 g/dL (VR 12–16). Após estabilização, foi realizada colonoscopia com preparo, que não identificou o ponto de sangramento nem sangramento ativo. Doze horas depois, apresenta nova enterorragia volumosa com queda de Hb para 7,0 g/dL e FC 118 bpm. Qual o próximo passo mais adequado na investigação/manejo desta hemorragia digestiva baixa?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do cólon que tem divertículos fora da crise inflamatória: o achado incidental de colonoscopia, a dor recorrente sem febre, o sangramento indolor e volumoso e as complicações crônicas — fístula e estenose. A diverticulite aguda, a classificação de Hinchey e a decisão de operar no abdome agudo são assunto de outro capítulo desta coleção, e o sangramento de origem orificial, do capítulo de doença hemorroidária.

A separação não é organizacional, é clínica: o mesmo divertículo produz duas doenças que quase nunca acontecem juntas. A diverticulite dói, tem febre e leucocitose, e sangra pouco ou nada. A hemorragia diverticular não dói, não tem febre e enche o vaso sanitário de sangue vermelho. Quem trata uma como se fosse a outra pede o exame errado e prescreve o antibiótico que não muda nada.

O que a prova cobra aqui tem quatro endereços. Primeiro, a nomenclatura — diverticulose, doença diverticular e diverticulite não são sinônimos, e a alternativa que troca uma pela outra é distrator clássico. Segundo, a conduta diante do achado incidental, onde o erro é tratar. Terceiro, a hematoquezia volumosa no pronto-socorro: quem vai para casa, quem vai para a angiotomografia e quem vai para a colonoscopia. Quarto, o que não se faz — e nesse item a lista de condutas com recomendação forte contra é maior que a lista de condutas a favor.

03

O que muda decisão

Três palavras que a prova separa

Divertículo é a herniação em si. Diverticulose é a presença de divertículos no cólon, sem sintoma nenhum — é um achado, não uma doença, e a maior parte das pessoas que os tem morrerá sem saber. Doença diverticular é a diverticulose que produz sintoma: dor recorrente, alteração de hábito intestinal, sangramento. Diverticulite é a inflamação de um divertículo, com o quadro clínico e laboratorial que a acompanha.

A prevalência sobe com a idade de forma quase linear: menos de 2% das pessoas abaixo dos 30 anos têm divertículos, e entre 50% e 80% das pessoas acima dos 80 anos têm. Em populações ocidentais de meia-idade, a estimativa gira em torno de 10%. Esses números explicam por que a diverticulose é o achado colonoscópico mais banal do adulto idoso e por que encontrá-la quase nunca é a resposta para a queixa que motivou o exame.

Dessa população com divertículos, as séries clássicas descrevem que 10% a 25% desenvolvem diverticulite em algum momento. É o número que a literatura brasileira de referência usa, e é o que se espera numa prova; vale saber que ele vem de casuísticas hospitalares, que superestimam a gravidade porque só enxergam quem procurou o hospital. Já a hemorragia é bem menos frequente como evento, mas quando acontece é dramática: em torno de 5% dos pacientes com doença diverticular apresentam sangramento maciço.

Falso divertículo e vasa recta: a anatomia que explica tudo

O divertículo colônico é falso — quer dizer, não contém todas as camadas da parede. Ele é uma herniação de mucosa e submucosa através da camada muscular, e sai exatamente pelo ponto de menor resistência: o orifício por onde a vasa recta, a artéria que nutre a mucosa, atravessa a muscular própria. É por isso que a artéria e o saco diverticular nascem grudados.

Dessa vizinhança saem as duas complicações. Como a parede do divertículo é só mucosa e submucosa, ela não tem musculatura para conter pressão nem para se defender: quando o colo obstrui e a inflamação se instala, o que acontece é perfuração — contida, na maioria das vezes. E como a vasa recta corre por cima da cúpula do divertículo, esticada e apoiada apenas sobre a submucosa, ela fica exposta ao trauma crônico e pode romper sem qualquer inflamação prévia.

Duas consequências práticas seguem daí. A primeira é que a hemorragia diverticular é arterial: sangramento de alto fluxo, indolor, com sangue vermelho vivo ou vinhoso em grande volume, não a perda em fio de sangue que a hemorroida produz. A segunda é que a hemorragia acontece no divertículo que não está inflamado — sangramento diverticular é incomum durante a diverticulite aguda, e essa é uma das trocas mais cobradas do tema.

Corte da parede do cólon sigmoide com um divertículo falso: mucosa e submucosa herniam através de uma falha da camada muscular, no ponto de passagem da vasa recta, que fica esticada sobre a cúpula do saco diverticular.
O divertículo sai pelo orifício da vasa recta, e a artéria fica esticada sobre a cúpula, separada da luz apenas pela submucosa: a mesma anatomia que faz o divertículo perfurar quando inflama e sangrar em jato quando não inflama.

Onde ficam os divertículos e por que isso muda a apresentação

No Ocidente, 95% dos divertículos estão no sigmoide e no cólon descendente. O sigmoide é o segmento de menor calibre e maior pressão intraluminal, e é ali que a lei de Laplace cobra mais caro de uma parede que já tem falhas anatômicas. Em populações asiáticas o padrão se inverte: na Coreia, até 70% dos casos acometem predominantemente o cólon direito.

Essa geografia explica dois vieses de apresentação. A diverticulite é doença do quadrante inferior esquerdo — a chamada apendicite do lado esquerdo — porque acompanha a distribuição sigmoide. A hemorragia, ao contrário, é desproporcionalmente de cólon direito: os divertículos direitos têm colo mais largo e cúpula mais exposta, e expõem um segmento maior da vasa recta. O resultado é que uma minoria de divertículos responde por uma fração grande dos sangramentos.

Para a prova, a consequência é operacional: numa hematoquezia volumosa, o cólon direito precisa ser alcançado. Retossigmoidoscopia flexível não fecha a investigação de hemorragia diverticular, e uma colectomia às cegas do sigmoide — feita porque é ali que estão os divertículos visíveis — deixa a fonte para trás com frequência incômoda.

Diverticulose achada por acaso: o que fazer é quase nada

O laudo de colonoscopia que descreve divertículos no sigmoide de um paciente assintomático não gera prescrição. Não há antibiótico, não há mesalazina, não há dieta de exclusão e não há controle endoscópico programado por causa dos divertículos — o intervalo de nova colonoscopia continua sendo o do rastreamento de câncer colorretal ou o dos achados que porventura existam junto, como pólipos.

O que se oferece é orientação de estilo de vida, e essa parte tem endereço documental recente. A diretriz de 2026 do American College of Gastroenterology lista sete medidas para reduzir o risco de diverticulite: dieta rica em fibras com predomínio de alimentos vegetais; evitar o uso regular de anti-inflamatórios não esteroidais; moderar o consumo de álcool; perder peso em caso de sobrepeso ou obesidade; atividade física regular; cessação do tabagismo; e não evitar rotineiramente nozes, sementes, milho e pipoca.

O item dos anti-inflamatórios merece destaque porque atravessa as duas complicações: o uso regular de AINE aumenta o risco de diverticulite e é fator de risco reconhecido de hemorragia diverticular. Num paciente idoso com diverticulose conhecida e dor osteoarticular crônica, revisar a analgesia é uma intervenção com mais lastro do que qualquer prescrição dirigida ao divertículo.

O encaminhamento também tem régua. O protocolo municipal de Jundiaí classifica como prioridade P2 — ambulatorial, não urgente — a doença diverticular colônica refratária ao tratamento clínico ou que já cursou com sangramento ou diverticulite. Diverticulose assintomática, portanto, não é motivo de encaminhamento; quem já sangrou ou já inflamou, é.

Nozes, sementes e pipoca: a proibição que caiu

Durante décadas se orientou que quem tem divertículos evitasse alimentos com resíduo pequeno e duro, sob a teoria de que a semente entraria no saco diverticular, ficaria retida e desencadearia a inflamação. A recomendação nasceu de observação anedótica e de relatos de caso isolados, nunca de estudo desenhado para testá-la.

O estudo que derrubou a orientação acompanhou 47.228 homens profissionais de saúde por 18 anos e registrou 801 casos incidentes de diverticulite. Comparando o quintil de maior consumo com o de menor, o hazard ratio de diverticulite foi 0,80 para nozes (IC 95% 0,63-1,01; p de tendência 0,04) e 0,72 para pipoca (IC 95% 0,56-0,92; p de tendência 0,007). Milho não mostrou associação. Para hemorragia diverticular, nenhum dos três alimentos mostrou associação com o desfecho — nem para mais, nem para menos.

A leitura correta desses números é a que os autores fizeram: nozes, milho e pipoca não aumentaram o risco de diverticulose nem de complicações diverticulares, e a orientação de evitá-los deveria ser reconsiderada. O sinal de proteção, com intervalo de confiança que quase toca 1 no caso das nozes, não autoriza prescrever pipoca como tratamento; autoriza parar de proibir. As diretrizes americanas de gastroenterologia e de coloproctologia incorporaram a mudança e hoje escrevem, com todas as letras, que não há evidência que sustente a restrição.

Doença diverticular sintomática não complicada: a dor que não é diverticulite

Existe um grupo de pacientes com divertículos que tem dor abdominal recorrente no quadrante inferior esquerdo, distensão e alteração de hábito intestinal, sem febre, sem leucocitose e sem sinal inflamatório na tomografia. É a doença diverticular sintomática não complicada. O diagnóstico é de exclusão em dois sentidos: exclui-se a diverticulite, que tem marcadores e imagem, e exclui-se a neoplasia, que tem sintomas de alarme.

A sobreposição com a síndrome do intestino irritável é grande e admitida — os dois quadros compartilham dor, distensão e alteração de hábito, e a presença de divertículos numa pessoa de 65 anos é tão comum que não serve, sozinha, como explicação. Na prática, o que separa é a topografia fixa da dor e a resposta parcial ao aumento de fibra, e o que muda a conduta é a idade: dor abdominal persistente em maior de 50 anos com sangramento retal, mudança de hábito intestinal ou anemia ferropriva entra na régua de suspeita de neoplasia, e essa investigação vem primeiro.

O tratamento com lastro é o aumento de fibra alimentar, com ou sem suplemento, associado às medidas gerais já listadas. Além disso, três classes são discutidas — mesalazina, rifaximina e probióticos — e é aqui que o material internacional e o material brasileiro se afastam, por motivos que valem mais do que a resposta: o desfecho medido em cada estudo é diferente, e a disponibilidade no Brasil é outra. O bloco de divergências abre os dois pontos.

A lista de sintomas de alarme que obriga a examinar o cólon está escrita na diretriz de 2026 do American College of Gastroenterology e é curta: perda de peso não intencional, mudança de hábito intestinal, anemia por deficiência de ferro, fezes com sangue e dor abdominal persistente. Nenhum deles pode ser creditado ao divertículo sem que o cólon tenha sido examinado.

Hemorragia diverticular: o sangramento indolor e volumoso

Hemorragia digestiva baixa é, por definição operacional, todo sangramento com origem distal à válvula ileocecal, incluindo o reto. Ela responde por cerca de 20% dos sangramentos gastrointestinais, e em 95% dos casos a origem está no cólon — o restante vem do delgado distal. Dentro desse universo, a hemorragia diverticular é a causa mais comum: entre os pacientes internados por hemorragia digestiva baixa, o diagnóstico definitivo de sangramento diverticular — estigma de alto risco na endoscopia ou divertículo sangrante na angiotomografia — aparece em 20%, e chega a 34% quando se somam os casos presumidos, aqueles em que se documenta doença diverticular e nenhuma outra fonte. A segunda causa é a doença anorretal: o sangramento hemorroidário é diagnosticado em 12% a 21% das internações, e costuma ser de pequeno volume e autolimitado.

O quadro típico é o de um paciente idoso que refere eliminação súbita de grande volume de sangue vermelho vivo ou vinhoso pelo reto, sem dor abdominal, sem febre e às vezes com lipotimia. Sangue com coágulo não indica origem alta nem baixa por si; o que orienta é o conjunto — ausência de dor, ausência de sinais inflamatórios e volume grande.

Os fatores de risco são os que se pergunta na anamnese e que a prova coloca na vinheta: idade avançada, uso de anti-inflamatórios não esteroidais, uso de aspirina, anticoagulação, hipertensão arterial e doença renal crônica. A avaliação inicial, pela diretriz europeia, tem quatro componentes obrigatórios — comorbidades e medicamentos que favorecem sangramento, parâmetros hemodinâmicos, exame físico incluindo o toque retal e exames laboratoriais.

A história natural é favorável na maioria: o sangramento diverticular cessa espontaneamente na maior parte dos casos, e o problema clínico raramente é a hemostasia imediata — é decidir quem pode ir para casa, quem precisa de exame e quem está sangrando agora. O toque retal, que parece dispensável diante de sangue evidente, entra no escore de estratificação e não é formalidade.

A primeira hora: quem é hemorragia maior e quem vai para casa

A diretriz europeia divide o campo em dois: hemorragia menor e hemorragia maior. Menor é o sangramento autolimitado, sem características clínicas adversas e com escore de Oakland igual ou menor que 8 pontos — esse limiar tem 95% de probabilidade de alta segura, definida como ausência de ressangramento intra-hospitalar, transfusão, intervenção terapêutica, óbito e reinternação por sangramento em 28 dias. Todo o resto, com ou sem instabilidade hemodinâmica, é hemorragia maior.

O escore de Oakland tem sete variáveis — idade, sexo, internação prévia por sangramento baixo, achado do toque retal, frequência cardíaca, pressão arterial sistólica e hemoglobina — e vai de 0 a 35 pontos. A hemoglobina domina o cálculo: sozinha ela vale até 22 pontos, mais do que todas as outras somadas. A tabela do critério traz as faixas.

Nenhum escore substitui o julgamento clínico, e a própria diretriz registra que nenhum deles prediz de forma confiável a necessidade de intervenção para tratar o sangramento — as áreas sob a curva ficam entre 0,52 e 0,65 para esse desfecho. O Oakland foi construído para uma pergunta só, e é a pergunta da alta.

A transfusão segue a mesma lógica restritiva já consagrada na hemorragia digestiva alta. No paciente hemodinamicamente estável e sem doença cardiovascular, o limiar é hemoglobina igual ou menor que 7 g/dL, com alvo pós-transfusional de 7 a 9 g/dL. No paciente estável com doença cardiovascular aguda ou crônica, o limiar sobe para igual ou menor que 8 g/dL, com alvo igual ou maior que 10 g/dL. Uma auditoria britânica de 2.528 internações por hemorragia digestiva baixa encontrou 26,7% de pacientes transfundidos, dos quais 80% das transfusões foram consideradas evitáveis — o erro de excesso é o erro comum.

Há um detalhe que reorganiza o raciocínio inteiro: hematoquezia volumosa com instabilidade pode ser sangramento alto com trânsito acelerado. Num ensaio com pacientes que tinham hematoquezia grave e pelo menos uma característica de alto risco, 13% tinham a origem no trato gastrointestinal superior. Por isso a diretriz europeia recomenda endoscopia digestiva alta no paciente instável com hemorragia digestiva baixa, a menos que a angiotomografia já tenha localizado uma fonte baixa definitiva.

Instável vai para a angiotomografia; estável vai para a colonoscopia

No paciente hemodinamicamente instável com suspeita de sangramento em atividade, o primeiro exame é a angiotomografia, feita antes de qualquer tratamento endoscópico ou radiológico, com o objetivo de localizar o ponto que sangra. A vantagem é logística e decisiva: não exige preparo de cólon e resolve em minutos a pergunta de onde intervir. Se ela mostrar extravasamento ativo, a sequência é a embolização transcateter, que deve ser fornecida em até 60 minutos no paciente instável — a chance de identificar o sangramento na arteriografia é oito vezes maior quando ela é realizada dentro de 90 minutos da angiotomografia. A embolização superseletiva obtém hemostasia imediata em 40% a 100% dos casos de sangramento diverticular, com ressangramento descrito entre 0 e 50%.

No paciente estável, a colonoscopia é o primeiro exame diagnóstico, e a razão é terapêutica: ela diagnostica e trata no mesmo ato. O momento de fazê-la é o ponto de divergência entre os documentos e está aberto no bloco próprio; a posição europeia é que ela seja realizada em algum momento da internação.

O preparo não é opcional. A diretriz recomenda contra a colonoscopia ou a retossigmoidoscopia sem preparo na hemorragia digestiva baixa aguda, e sugere preparo com 4 a 6 litros de solução à base de polietilenoglicol, com sonda nasogástrica e antiemético se o paciente não tolerar o volume por via oral. Colonoscopia em cólon cheio de sangue e fezes tem rendimento baixo e risco alto.

Achado o divertículo culpado — com sangramento ativo, vaso visível ou coágulo aderido —, a terapia sugerida é mecânica: clipe através do canal do aparelho ou montado em capuz, ou ligadura elástica. A ligadura tem eficácia descrita de até 99% (IC 95% 95%-100%), com ressangramento precoce de 9% (IC 95% 4%-15%), e as séries japonesas apontam menos ressangramento e menos necessidade de embolização ou cirurgia do que com clipe; em contrapartida há relatos de perfuração tardia, especialmente em divertículos do cólon direito, onde a parede é mais fina.

A cirurgia é a última linha. Ela só se justifica quando a causa não é passível de tratamento endoscópico ou radiológico, ou quando essas modalidades falharam — e, salvo circunstância excepcional, nenhum paciente deve ir para laparotomia exploradora de emergência sem que todo esforço tenha sido feito para localizar o sangramento. Colectomia sem localização é o caminho mais curto para ressecar o segmento errado e ver o paciente sangrar de novo.

Anticoagulante e antiagregante: o que suspender, o que manter, quando voltar

Na hemorragia maior, o antagonista da vitamina K é suspenso e a coagulopatia é corrigida conforme a gravidade do sangramento e o risco trombótico; no paciente com instabilidade hemodinâmica, a correção é feita com vitamina K endovenosa mais complexo protrombínico de quatro fatores, ou plasma fresco congelado quando o complexo não estiver disponível. O anticoagulante oral direto também é suspenso na apresentação, e os agentes de reversão — idarucizumabe para dabigatrana, andexanet ou complexo protrombínico para os inibidores do fator Xa — ficam para o sangramento persistente ou a instabilidade recorrente, em conjunto com o hematologista.

Na hemorragia menor autolimitada, com Oakland igual ou menor que 8, a orientação é oposta: não interromper o anticoagulante, seja antagonista da vitamina K, seja anticoagulante oral direto. Suspender por reflexo um anticoagulante em quem teve sangramento pequeno troca um risco pequeno por um risco trombótico real.

A aspirina em prevenção secundária cardiovascular não deve ser suspensa; se tiver sido, reintroduz-se preferencialmente em até 5 dias, ou antes disso se a hemostasia estiver garantida. Em prevenção primária, a lógica inverte: suspende-se durante o evento e considera-se a descontinuação definitiva, salvo indicação clínica após discussão. Na dupla antiagregação, a aspirina se mantém e o inibidor de P2Y12 pode ser mantido ou interrompido conforme gravidade do sangramento e risco isquêmico, sem descontinuar o esquema antes de falar com o cardiologista. Transfusão de plaquetas de rotina em usuário de antiagregante não está indicada.

A reintrodução do anticoagulante é regra, não exceção, em quem tem indicação de uso crônico. Para o antagonista da vitamina K em paciente de baixo risco trombótico, o mais cedo é o sétimo dia após a interrupção; em alto risco trombótico, a retomada é mais precoce, com ponte de heparina preferencialmente em até 72 horas. O anticoagulante oral direto retorna assim que possível, a partir do sétimo dia.

Quando o divertículo vira fístula ou estenose

A fístula é complicação de episódios inflamatórios repetidos ou de abscesso que drenou para uma víscera vizinha. A mais frequente é a colovesical, e o quadro clínico é característico: pneumatúria — eliminação de gás pela uretra durante a micção — e fecalúria, geralmente acompanhadas de infecção urinária de repetição que não responde ao tratamento habitual, com flora polimicrobiana. A pneumatúria em homem idoso com história de diverticulite não é achado para investigar com calma; é o próprio diagnóstico até prova em contrário, e o destino é cirúrgico.

A estenose é a outra sequela crônica: fibrose do segmento repetidamente inflamado, que se manifesta como constipação progressiva, distensão e, no limite, obstrução colônica. E aqui está a armadilha maior do capítulo — estenose de cólon esquerdo em paciente idoso tem dois donos possíveis, doença diverticular e adenocarcinoma, e nenhuma imagem os separa com segurança. A estenose exige colonoscopia com biópsia antes de qualquer decisão terapêutica definitiva.

O mesmo cuidado se aplica ao sangramento. O protocolo brasileiro de encaminhamento indica colonoscopia a partir da atenção primária quando há sangramento persistente do trato gastrointestinal inferior não atribuível a doença orificial, quando houve episódio de melena com origem alta excluída e na investigação de anemia ferropriva sem causa presumível — que o documento define como hemoglobina abaixo de 13 g/dL em homens e abaixo de 12 g/dL em mulheres. O quadro de alta suspeita de neoplasia colorretal do mesmo protocolo inclui, entre outros, o paciente acima de 50 anos com sangramento retal não atribuível a doença orificial e o paciente acima de 60 anos com anemia ferropriva ou mudança persistente de hábito intestinal.

Traduzindo para a beira do leito: creditar hematoquezia a divertículos vistos numa colonoscopia antiga, sem examinar o cólon de novo, é o erro que faz o câncer colorretal ser diagnosticado tarde num paciente que já estava no sistema.

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Da hematoquezia à hemostasia

A hemorragia digestiva baixa se organiza em três decisões encadeadas: classificar o sangramento como menor ou maior; escolher o primeiro exame conforme o estado hemodinâmico; e tratar a lesão encontrada. As tabelas trazem o escore que decide a alta, o exame que abre cada cenário, a separação entre as duas doenças do mesmo divertículo e a lista de condutas com recomendação contra.

  1. 11. Confirmar que é sangramento baixo e medir o estrago: comorbidades e medicamentos que favorecem sangramento, sinais vitais, exame físico com toque retal e laboratório.
  2. 22. Classificar: sangramento autolimitado, sem características clínicas adversas e Oakland igual ou menor que 8 é hemorragia menor. Todo o resto é hemorragia maior.
  3. 33. Hemorragia menor: alta com investigação ambulatorial, sem suspender anticoagulante oral.
  4. 44. Hemorragia maior com instabilidade e sangramento em atividade: angiotomografia antes de qualquer tratamento; endoscopia digestiva alta se a angiotomografia não tiver localizado fonte baixa definitiva.
  5. 55. Extravasamento ativo na angiotomografia: embolização transcateter em até 60 minutos.
  6. 66. Hemorragia maior sem instabilidade: colonoscopia como primeiro exame, com preparo de 4 a 6 litros de solução de polietilenoglicol.
  7. 77. Divertículo culpado identificado: terapia mecânica — clipe ou ligadura elástica.
  8. 88. Cirurgia apenas quando a causa não é tratável por endoscopia ou radiologia, ou quando as duas falharam, e depois de localizar o ponto que sangra.
Variável do escore de OaklandFaixaPontos
IdadeMenor que 40 anos0
Idade40 a 69 anos1
Idade70 anos ou mais2
SexoFeminino0
SexoMasculino1
Internação prévia por hemorragia digestiva baixaNão0
Internação prévia por hemorragia digestiva baixaSim1
Toque retalSem sangue0
Toque retalCom sangue1
Frequência cardíacaMenor que 70 bpm0
Frequência cardíaca70 a 89 bpm1
Frequência cardíaca90 a 109 bpm2
Frequência cardíaca110 bpm ou mais3
Pressão arterial sistólica50 a 89 mmHg5
Pressão arterial sistólica90 a 119 mmHg4
Pressão arterial sistólica120 a 129 mmHg3
Pressão arterial sistólica130 a 159 mmHg2
Pressão arterial sistólica160 mmHg ou mais0
Hemoglobina3,6 a 6,9 g/dL22
Hemoglobina7,0 a 8,9 g/dL17
Hemoglobina9,0 a 10,9 g/dL13
Hemoglobina11,0 a 12,9 g/dL8
Hemoglobina13,0 a 15,9 g/dL4
Hemoglobina16,0 g/dL ou mais0

Do estado hemodinâmico ao primeiro exame

CenárioPrimeiro examePor quê
Autolimitado, sem características adversas, Oakland ≤ 8Nenhum na urgência — investigação ambulatorialProbabilidade de alta segura de 95% nesse limiar
Hemorragia maior, hemodinamicamente estávelColonoscopia com preparoDiagnostica e trata no mesmo ato
Instável com sangramento suspeito em atividadeAngiotomografia, antes de qualquer tratamentoLocaliza o ponto sem exigir preparo de cólon
Instável, angiotomografia sem fonte baixa definitivaEndoscopia digestiva alta13% das hematoquezias graves de alto risco têm origem alta
Extravasamento ativo na angiotomografiaArteriografia com embolização em até 60 minutosIdentificação do sangramento é 8× maior dentro de 90 minutos da angiotomografia

Diverticulite aguda × hemorragia diverticular: o mesmo divertículo, dois quadros

ItemDiverticulite agudaHemorragia diverticular
MecanismoObstrução do colo, inflamação e microperfuração contidaRotura da vasa recta esticada sobre a cúpula, sem inflamação
DorPresente, em quadrante inferior esquerdoAusente
Febre e leucocitoseHabituaisAusentes
SangramentoIncomumRegra — vermelho vivo, grande volume
Topografia predominanteSigmoide e descendenteCólon direito com desproporção
Exame que abre a investigaçãoTomografia de abdome com contrasteColonoscopia se estável, angiotomografia se instável
Papel do antibióticoDefinido pelo perfil do paciente e pela gravidadeNenhum

Recomendações CONTRA na hemorragia digestiva baixa aguda

CondutaPor que nãoForça da recomendação
Ácido tranexâmicoSem benefício demonstrado no sangramento gastrointestinalForte, evidência de alta qualidade
Cintilografia com hemácias marcadasAcurácia limitada para localizar o ponto e entrave logísticoForte, evidência de baixa qualidade
Colonoscopia ou retossigmoidoscopia sem preparoRendimento baixo e risco alto em cólon cheio de sangueForte, evidência de baixa qualidade
Transfusão de plaquetas de rotina em usuário de antiagreganteSem benefício demonstradoForte, evidência de baixa qualidade
Suspender aspirina de prevenção secundáriaRisco isquêmico supera o benefício hemostáticoForte, evidência moderada
Laparotomia exploradora sem localizar a fonteRessecção do segmento errado e ressangramentoForte, evidência de baixa qualidade

Antitrombótico na hemorragia digestiva baixa

FármacoHemorragia menor (Oakland ≤ 8)Hemorragia maiorReintrodução
Antagonista da vitamina KNão interromperSuspender; se instável, vitamina K endovenosa + complexo protrombínico de 4 fatores (ou plasma fresco se indisponível)A partir do 7º dia se baixo risco trombótico; mais cedo com ponte de heparina, preferencialmente em até 72 h, se alto risco
Anticoagulante oral diretoNão interromperSuspender na apresentação; reversão específica só se sangramento persistente ou instabilidade recorrenteAssim que possível, a partir do 7º dia
Aspirina em prevenção secundáriaManterManter; se suspensa, retomar preferencialmente em até 5 diasPreferencialmente em até 5 dias, ou antes se hemostasia garantida
Aspirina em prevenção primáriaReavaliar indicaçãoSuspender durante o evento e considerar descontinuação definitivaSó se houver indicação clínica após discussão
Inibidor de P2Y12 em dupla antiagregaçãoManterManter a aspirina; o P2Y12 pode ser mantido ou interrompido conforme gravidade e risco isquêmico, sem decidir antes da avaliação cardiológicaConforme o risco isquêmico definido com o cardiologista

A tabela original do escore de Oakland reproduzida na diretriz europeia rotula a variável hemoglobina como g/dL e imprime as faixas como 36-69, 70-89, 90-109, 110-129, 130-159 e maior que 160. Esses valores são g/L: hemoglobina de 160 g/dL não existe em ser humano. A tabela acima converte para g/dL, unidade usada nos laboratórios brasileiros, mantendo as mesmas faixas — 3,6-6,9; 7,0-8,9; 9,0-10,9; 11,0-12,9; 13,0-15,9 e 16,0 ou mais.

A mesma tabela imprime os limites superiores com o sinal de maior que — maior que 70 anos, maior que 110 bpm, maior que 160 mmHg, maior que 160 na hemoglobina —, o que deixa exatamente 70 anos, 110 bpm, 160 mmHg e 16,0 g/dL sem faixa alguma. A leitura com maior ou igual é a única que fecha a tabela sem buraco, e é a adotada aqui. A diferença de sinal fica registrada porque a fonte impressa é a que está sendo lida.

Os denominadores das duas frequências mais citadas do tema são diferentes e não se somam: a hemorragia digestiva baixa é cerca de 20% de todos os sangramentos gastrointestinais, com origem colônica em 95% dos casos; e a hemorragia diverticular é 20% dos casos de hemorragia digestiva baixa internados quando o diagnóstico é definitivo, subindo a 34% quando se incluem os presumidos.

O escore de Oakland vai de 0 a 35 pontos e foi construído para uma única pergunta — a alta segura. Ele não prediz de forma confiável a necessidade de intervenção para tratar o sangramento, com áreas sob a curva entre 0,52 e 0,65 para esse desfecho.

A proporção de 10% a 25% de evolução para diverticulite vem de casuísticas hospitalares descritas na literatura brasileira de referência; é o número que se espera numa prova nacional, e a origem hospitalar da amostra explica por que ele é generoso.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Momento da colonoscopia na hemorragia digestiva baixa maior

ACG (2016): colonoscopia nas primeiras 24 horas após preparo adequado nos pacientes de alto risco com sangramento em atividade

A diretriz americana coloca a colonoscopia como procedimento diagnóstico inicial na maioria dos pacientes e fixa a janela de 24 horas da apresentação, após preparo adequado do cólon, para quem tem características clínicas de alto risco e sinais de sangramento em curso. O argumento é de rendimento: estudos observacionais e uma metanálise de coortes associaram a colonoscopia precoce a menor mortalidade global (OR 0,86; IC 95% 0,75-0,98), menor necessidade de cirurgia (OR 0,52; IC 95% 0,42-0,64), menor necessidade de transfusão (OR 0,81; IC 95% 0,75-0,87) e internação 1,7 dia mais curta.

Strate LL, Gralnek IM. ACG Clinical Guideline: Management of Patients With Acute Lower Gastrointestinal Bleeding. Am J Gastroenterol 2016;111(4):459-474, conforme citada e discutida na diretriz da ESGE de 2021.

ESGE (2021): colonoscopia em algum momento da internação, sem janela fixa

A diretriz europeia mantém a colonoscopia como primeiro exame no paciente estável, mas recomendação forte determina que ela seja realizada em algum momento da internação, porque não há evidência de alta qualidade de que a colonoscopia precoce altere desfechos. Quando se olham apenas os ensaios randomizados, e não as coortes, dois não mostraram diferença clínica alguma, um mostrou apenas internação mais curta com mais ressangramento, e um estudo pareado por escore de propensão com 8.320 pares de pacientes com sangramento diverticular encontrou mais ressangramento em 30 dias no grupo precoce (OR 1,34; p = 0,007).

Triantafyllou K et al. ESGE Guideline: acute lower gastrointestinal bleeding. Endoscopy 2021;53(8):850-868, recomendação 5 e tabelas de evidência 4s-7s.

Na prova

A divergência é de desenho de estudo e de data: o corpo observacional favorece a precocidade, o corpo randomizado não confirma, e os dois documentos estão separados por cinco anos. Um enunciado que fala em janela de 24 horas, cita o ACG nominalmente ou descreve alto risco com sangramento em atividade está no mundo americano de 2016. Um enunciado que pergunta se a colonoscopia deve ser antecipada, que menciona a ESGE, ou cujas alternativas contrapõem colonoscopia de urgência a colonoscopia durante a internação, está no mundo europeu de 2021. Distrator revelador: alternativa que oferece colonoscopia imediata sem preparo — essa não pertence a nenhum dos dois documentos, porque ambos são contra.

Medicamento na doença diverticular sintomática não complicada

Revisão brasileira (2013) e escola europeia: fibra e rifaximina cíclica para controle de sintoma

Para o paciente com dor recorrente e distensão sem sinal inflamatório, a conduta descrita é dieta rica em fibras associada a antibiótico não absorvível em esquema cíclico: rifaximina 400 mg duas vezes ao dia, sete dias a cada mês. O desfecho perseguido é alívio sintomático, e o racional é a modulação da flora colônica no segmento com divertículos.

Salles RLA. Doença diverticular dos cólons e diverticulite aguda: o que o clínico deve saber. Rev Med Minas Gerais. 2013;23(4):411.

ACG (2026): sem rifaximina, sem mesalazina e sem probiótico para prevenir recorrência de diverticulite

A diretriz americana avalia outra pergunta — reduzir novo episódio de diverticulite — e conclui que a evidência não demonstra benefício relevante de rifaximina, mesalazina ou probióticos nesse desfecho, considerando também o custo e a carga de tratamento. O que ela recomenda para prevenção é comportamental: dieta rica em fibras com predomínio vegetal, evitar uso regular de anti-inflamatórios, moderar álcool, perder peso, atividade física e cessar tabagismo.

Peery AF et al. ACG Clinical Guideline: Colonic Diverticulitis. Am J Gastroenterol 2026, doi:10.14309/ajg.0000000000004047 (Guideline Highlights oficial).

Rename 2024: rifaximina fora da lista e mesalazina vinculada a outros protocolos

No Brasil o obstáculo é anterior à discussão de eficácia. A rifaximina não figura em nenhum anexo da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 — não é dispensada pelo SUS e o custo do esquema cíclico é integralmente do paciente. A mesalazina existe na lista, no Componente Especializado, mas com documento norteador declarado: PCDT de Doença de Crohn e PCDT de Retocolite Ulcerativa. Prescrevê-la para doença diverticular é prescrevê-la fora do protocolo que autoriza a dispensação, e a farmácia do Componente Especializado não a entrega nessa indicação.

Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024, anexos do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica.

Na prova

As duas primeiras posições parecem se contradizer e não se contradizem: o desfecho medido é diferente. Alívio de sintoma na doença diverticular sintomática não complicada e prevenção de novo episódio de diverticulite são perguntas distintas, e a diretriz americana só se pronuncia sobre a segunda. O que separa uma questão da outra é o paciente da vinheta: dor recorrente sem febre e sem leucocitose é o primeiro cenário; paciente que já teve episódios documentados de diverticulite e quer evitar o próximo é o segundo. Cenário de unidade básica, farmácia do SUS ou pergunta sobre o que está disponível na rede move o eixo para a terceira posição, que é de disponibilidade e não de eficácia.

Qual exame documenta os divertículos

Protocolo municipal de Jundiaí (2023): clister opaco na suspeita de doença diverticular

O protocolo de acesso à gastroenterologia do município orienta, dentro da avaliação inicial da constipação na unidade básica, solicitar clister opaco na suspeita de doença diverticular e de megacólon chagásico, reservando o encaminhamento ao especialista para os casos refratários, com complicação ou com extenso comprometimento colônico. O enema contrastado mostra bem o número e a extensão dos divertículos e continua disponível em redes onde a fila de colonoscopia é longa.

Prefeitura Municipal de Jundiaí. Protocolo de Manejo e Acesso à Gastroenterologia, 2023, seção de constipação.

TelessaúdeRS-UFRGS: colonoscopia quando há sangramento baixo persistente ou suspeita de neoplasia

O protocolo estadual de encaminhamento autoriza a própria atenção primária a solicitar colonoscopia diante de sangramento persistente do trato gastrointestinal inferior não atribuível a doença orificial, de melena com origem alta excluída e de anemia ferropriva sem causa presumível. O exame endoscópico é o único que permite biópsia e o único que exclui a neoplasia colorretal, diagnóstico diferencial obrigatório dos mesmos sintomas.

TelessaúdeRS-UFRGS / SES-RS. Protocolos de Encaminhamento — Gastroenterologia Adulto, critérios de solicitação de colonoscopia na APS e quadro 7.

Na prova

A divergência é de finalidade e de disponibilidade, não de acurácia: um documento responde onde estão os divertículos, o outro responde o que mais pode estar ali. Enunciado que descreve constipação crônica sem sinal de alarme, contexto de unidade básica e menciona protocolo municipal admite o exame contrastado. Enunciado com sangramento, anemia ferropriva, perda de peso, mudança de hábito intestinal ou idade acima de 50 anos coloca a neoplasia no diferencial, e nesse terreno só o exame que biopsia responde. O ano do documento citado no enunciado costuma denunciar o recorte.

06

Caso resolvido

Homem de 76 anos chega ao pronto-socorro com três episódios de eliminação de grande volume de sangue vermelho vivo pelo reto nas últimas quatro horas, sem dor abdominal e sem febre. Tem hipertensão, artrose de joelhos e usa aspirina 100 mg/dia após infarto há seis anos, além de ibuprofeno quase diariamente por conta da dor. Nunca internou por sangramento. Pressão arterial 128 x 76 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm, corado a menos. Abdome indolor, sem massas, ruídos presentes. Toque retal com sangue vermelho vivo em dedo de luva, sem massa palpável. Hemoglobina 10,4 g/dL, plaquetas 232.000/mm³, INR 1,0, creatinina 1,2 mg/dL.
achado
Sangramento retal de grande volume, indolor, sem febre e sem leucocitose, em paciente idoso: o perfil é de hemorragia diverticular, a causa mais comum de hemorragia digestiva baixa. A ausência de dor é o dado que afasta diverticulite — o divertículo que sangra é o que não está inflamado.
achado
Aspirina em prevenção secundária e uso quase diário de anti-inflamatório não esteroidal compõem dois fatores de risco reconhecidos para o sangramento diverticular, e o anti-inflamatório também é fator de risco para diverticulite. Rever a analgesia faz parte da conduta, não é detalhe de anamnese.
achado
Escore de Oakland: idade 76 anos, 2 pontos; sexo masculino, 1; sem internação prévia por sangramento baixo, 0; toque retal com sangue, 1; frequência cardíaca 96 bpm, 2; pressão sistólica 128 mmHg, 3; hemoglobina 10,4 g/dL, 13. Total 22 pontos — muito acima do limiar de 8. Este paciente não tem alta: é hemorragia maior.
achado
Ele está hemodinamicamente estável. Isso muda o primeiro exame: a angiotomografia é para o instável com sangramento em atividade. No estável, a colonoscopia é o primeiro exame diagnóstico, porque diagnostica e trata no mesmo ato — e ela exige preparo com 4 a 6 litros de solução de polietilenoglicol, nunca colonoscopia em cólon não preparado.
achado
A hemoglobina de 10,4 g/dL está acima do limiar de transfusão. Mesmo com doença cardiovascular prévia, que eleva o limiar para 8 g/dL, este paciente não é candidato a concentrado de hemácias agora. Transfundir aqui seria repetir o erro que a auditoria britânica encontrou em 80% das transfusões desses pacientes.
conduta
Internação, acesso venoso, ressuscitação conforme a resposta hemodinâmica e observação seriada, sem transfusão com hemoglobina de 10,4 g/dL. Manter a aspirina — prevenção secundária pós-infarto não se suspende — e suspender o ibuprofeno em definitivo, discutindo alternativa analgésica. Preparo de cólon com 4 a 6 litros de polietilenoglicol e colonoscopia durante a internação; se o divertículo culpado for identificado com sangramento ativo, vaso visível ou coágulo aderido, hemostasia mecânica com clipe ou ligadura elástica. Reservar angiotomografia com embolização para o caso de deterioração hemodinâmica com sangramento em atividade, e a cirurgia apenas para falha das duas modalidades, sempre com o ponto de sangramento localizado. Não usar ácido tranexâmico e não solicitar cintilografia com hemácias marcadas.
07

Agora feche você

Mulher de 81 anos é trazida por eliminação maciça e contínua de sangue vermelho pelo reto há uma hora, iniciada em casa, sem dor abdominal. Usa varfarina por fibrilação atrial. À chegada: pressão arterial 82 x 48 mmHg, frequência cardíaca 122 bpm, extremidades frias, sonolenta mas responsiva. Abdome flácido e indolor. Toque retal com sangue vivo abundante. Hemoglobina 6,9 g/dL, INR 3,4. A reposição volêmica é iniciada e a pressão sobe apenas transitoriamente, e o sangramento continua visível.
achado
Hematoquezia maciça, indolor, em idosa anticoagulada, com hipotensão que não sustenta após volume: hemorragia maior com instabilidade hemodinâmica e sangramento em atividade.
achado
Hemoglobina de 6,9 g/dL abaixo do limiar restritivo, e INR de 3,4 em uso de antagonista da vitamina K com instabilidade hemodinâmica.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Atribuir a hematoquezia volumosa a uma diverticulite A associação entre divertículo e sangue no vaso sanitário é imediata, e o nome que vem à cabeça é diverticulite. Só que a diverticulite sangra pouco ou nada: o mecanismo dela é obstrução do colo com inflamação e microperfuração, não rotura arterial. Sangramento diverticular é incomum durante o episódio inflamatório agudo. Dor, febre e leucocitose apontam para um lado; hematoquezia indolor e afebril, para o outro.
  2. 2Levar o paciente instável direto à colonoscopia A colonoscopia é o primeiro exame no paciente estável, porque trata no mesmo ato. No instável com sangramento em atividade, o primeiro exame é a angiotomografia, feita antes de qualquer tratamento — ela não exige preparo, responde em minutos onde intervir e direciona a embolização. Inverter a ordem custa tempo em quem não tem tempo.
  3. 3Endoscopar o cólon sem preparo porque o sangramento é agora Parece lógico ganhar tempo pulando o preparo, e a diretriz europeia tem recomendação forte contra. Em cólon cheio de sangue e fezes o rendimento diagnóstico despenca e o risco do procedimento sobe. O preparo indicado é de 4 a 6 litros de solução à base de polietilenoglicol, com sonda nasogástrica e antiemético quando o paciente não tolera o volume por via oral.
  4. 4Esquecer que hematoquezia grave pode ser sangramento alto Num ensaio com pacientes de hematoquezia grave e pelo menos uma característica de alto risco, 13% tinham a fonte no trato gastrointestinal superior — sangramento alto de grande volume com trânsito acelerado sai vermelho. Por isso, no paciente instável, a endoscopia digestiva alta está indicada a menos que a angiotomografia já tenha mostrado uma fonte baixa definitiva.
  5. 5Prescrever ácido tranexâmico ou pedir cintilografia com hemácias marcadas São duas condutas com recomendação forte contra. O antifibrinolítico não mostrou benefício no sangramento gastrointestinal — e essa é uma das poucas recomendações da diretriz com evidência classificada como de alta qualidade. A cintilografia tem acurácia limitada para localizar o ponto e cria um atraso logístico que atrasa a angiotomografia e a embolização.
  6. 6Suspender a aspirina de prevenção secundária no susto A recomendação é forte, com evidência moderada: não suspender aspirina em uso para prevenção cardiovascular secundária. Se já tiver sido suspensa, retomar preferencialmente em até 5 dias, ou antes se a hemostasia estiver garantida. Em prevenção primária a lógica é outra — suspende-se durante o evento e reavalia-se a indicação. Confundir as duas situações troca um sangramento controlável por um infarto.
  7. 7Proibir nozes, sementes, milho e pipoca A orientação sobreviveu décadas sem estudo que a sustentasse. A coorte de 47.228 homens seguidos por 18 anos mostrou o contrário do temido: hazard ratio de diverticulite de 0,80 para nozes e 0,72 para pipoca, e nenhuma associação com hemorragia diverticular. A diretriz americana de 2026 escreve entre suas medidas de prevenção que esses alimentos não devem ser evitados rotineiramente.
  8. 8Prescrever mesalazina do SUS porque ela existe na lista A mesalazina está na Rename 2024, no Componente Especializado — mas com documento norteador declarado: PCDT de Doença de Crohn e PCDT de Retocolite Ulcerativa. Estar na lista não significa estar disponível para qualquer indicação: a dispensação no Componente Especializado é vinculada ao protocolo, e a doença diverticular não é uma das indicações contempladas. A rifaximina, por sua vez, não figura na Rename.
  9. 9Tratar diverticulose assintomática Divertículos descritos no laudo de um paciente sem sintomas não geram antibiótico, mesalazina, dieta de exclusão nem colonoscopia de controle antecipada. O intervalo do próximo exame continua sendo o do rastreamento de câncer colorretal ou o determinado por outros achados. A intervenção que tem lastro é comportamental — fibra, peso, atividade física, álcool, tabagismo e revisão do uso regular de anti-inflamatórios.
  10. 10Indicar colectomia sem ter localizado o sangramento A tentação é ressecar o sigmoide, onde estão 95% dos divertículos no Ocidente. Só que a hemorragia é desproporcionalmente do cólon direito, e a cirurgia sem localização ressecca o segmento errado com frequência incômoda. A recomendação é explícita: exceto em circunstância excepcional, nenhum paciente vai à laparotomia exploradora de emergência sem que todo esforço endoscópico e radiológico de localizar a fonte tenha sido feito.
  11. 11Creditar o sangramento aos divertículos de uma colonoscopia antiga Sangramento persistente do trato gastrointestinal inferior não atribuível a doença orificial, anemia ferropriva sem causa presumível e mudança persistente de hábito intestinal são critérios de investigação por colonoscopia no protocolo brasileiro de encaminhamento, e o quadro de alta suspeita de neoplasia colorretal inclui o paciente acima de 50 anos com sangramento retal não atribuível a doença orificial. Divertículos vistos há anos não explicam sangue novo.
  12. 12Investigar pneumatúria com calma Eliminação de gás pela uretra durante a micção, fecalúria e infecção urinária de repetição com flora polimicrobiana em paciente com história de diverticulite formam o quadro de fístula colovesical — a fístula mais frequente da doença diverticular. Não é achado para acompanhar ambulatorialmente por meses: é indicação de investigação dirigida e de tratamento cirúrgico.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: em hemorragia digestiva baixa com instabilidade/sangramento ativo em que a colonoscopia foi não diagnóstica, a angio-TC é o método de escolha para localizar o foco ativo (detecta sangramentos a partir de ~0,3–0,5 mL/min) e serve de mapa para a arteriografia com embolização terapêutica. Repetir colonoscopia no paciente que voltou a sangrar e está instável é pouco produtivo (sem preparo, campo com sangue) e o exame de imagem/angiografia é preferível na fase ativa. Colectomia às cegas tem alta morbimortalidade e ressangramento; só se considera cirurgia após esgotar/localizar por métodos menos invasivos. Em enterorragia volumosa com instabilidade, deve-se AFASTAR fonte alta com EDA precoce (10–15% de HDA se apresentam como enterorragia), não eletivamente. Octreotide não é terapia estabelecida para HDB diverticular e apenas observar diante de novo sangramento com queda de Hb e taquicardia retarda o diagnóstico.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite as três palavras e a anatomia: diverticulose é achado, doença diverticular é sintoma, diverticulite é inflamação. O divertículo é falso — mucosa e submucosa herniando pelo orifício da vasa recta — e a artéria fica esticada sobre a cúpula: por isso inflama e perfura de um lado, e sangra em jato do outro, e por isso hemorragia e diverticulite quase nunca acontecem juntas. Geografia: 95% no sigmoide e descendente no Ocidente, cólon direito predominante na Ásia, e a hemorragia é desproporcionalmente direita. Números da hemorragia: causa mais comum de hemorragia digestiva baixa, 20% definitiva e 34% incluindo presumida; hemorragia digestiva baixa é 20% dos sangramentos gastrointestinais, com origem colônica em 95%. Diante do achado incidental, a lista do que fazer é comportamental: fibra e dieta vegetal, evitar anti-inflamatório regular, moderar álcool, perder peso, atividade física, cessar tabagismo — e não proibir nozes, sementes, milho e pipoca.

em 30 dias

Percorra o fluxo dizendo os números. Estratificação: Oakland de 0 a 35 pontos, limiar de 8 para alta segura com 95% de probabilidade, hemoglobina valendo até 22 pontos sozinha. Transfusão: limiar 7 g/dL com alvo 7 a 9; com doença cardiovascular, limiar 8 com alvo 10 ou mais. Primeiro exame: estável vai para colonoscopia com preparo de 4 a 6 litros de polietilenoglicol; instável com sangramento em atividade vai para angiotomografia antes de qualquer tratamento, com embolização em até 60 minutos e arteriografia dentro de 90 minutos da tomografia; sem fonte baixa definitiva no instável, endoscopia digestiva alta, porque 13% são altas. Terapia do divertículo culpado: mecânica, clipe ou ligadura elástica. Lista do que não fazer: ácido tranexâmico, cintilografia com hemácias marcadas, colonoscopia sem preparo, transfusão de plaquetas de rotina, suspender aspirina de prevenção secundária e laparotomia sem localizar a fonte. Antitrombóticos: na hemorragia menor com Oakland até 8 não se interrompe nada; na maior, suspende-se o anticoagulante, reverte-se com vitamina K e complexo protrombínico se instável, e reintroduz-se a partir do sétimo dia, com ponte de heparina em até 72 horas no alto risco trombótico. Feche com as duas sequelas crônicas: pneumatúria e fecalúria são fístula colovesical; estenose de cólon esquerdo no idoso exige colonoscopia com biópsia antes de qualquer decisão, porque o outro dono possível é o adenocarcinoma.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 74 anos chega ao pronto-socorro acompanhado da filha, referindo que evacuou grande quantidade de sangue vermelho vivo três vezes desde a manhã, sem dor de barriga e sem febre. Está pálido, um pouco tonto ao levantar, e conta que toma aspirina desde um infarto e vem usando diclofenaco por causa da coluna. Já fez colonoscopia há quatro anos, e lembra que o médico falou em divertículos. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença diverticular dos cólons e suas complicações – Doença diverticular: diverticulose e hemorragia — Preparatório para provas | OsceLabs