Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Cervicite por gonococo e clamídia

A infecção do colo fica no meio do caminho: não é o corrimento que se forma nas paredes da vagina nem a ascensão que já virou doença inflamatória pélvica. A prova cobra três decisões — reconhecer o colo ao espéculo, saber por que o fluxograma manda tratar antes do exame, e escrever o esquema com dose, via e frequência. E cobra o número que muda de país para país: a ceftriaxona brasileira é de 500 mg.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Uma mulher de 23 anos comparece à UBS queixando-se de corrimento vaginal amarelado há uma semana, associado a sangramento após a relação sexual e discreta dor pélvica. Refere parceiro novo há dois meses, sem uso de preservativo. Ao exame especular, observa-se secreção mucopurulenta saindo do orifício cervical externo e colo friável, que sangra ao toque do swab. Não há odor fétido, prurido vulvar nem hiperemia vaginal; o pH vaginal é 4,3 e o teste das aminas (KOH) é negativo. Assinale a conduta mais adequada segundo a abordagem sindrômica do corrimento cervical do Ministério da Saúde.

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Como esse tema cai

Cervicite é a inflamação da mucosa endocervical, e os dois agentes que respondem pela maior parte dela são Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae. O recorte deste capítulo é geográfico antes de ser microbiológico: é a doença do colo do útero. O corrimento que se forma nas paredes da vagina — vaginose bacteriana, candidíase, tricomoníase — é o capítulo de corrimento vaginal desta mesma apostila. A ascensão que já alcançou o endométrio, as tubas e o peritônio é o capítulo de doença inflamatória pélvica. A cervicite fica exatamente entre os dois, e não por conveniência editorial: o primeiro nó do fluxograma de corrimento vaginal do Ministério da Saúde manda olhar o colo antes de qualquer outra coisa, e quem sai por aquela porta chega aqui.

É um tema soberanamente brasileiro. Existe fluxograma oficial, existe quadro de tratamento com dose e via, o antibiótico sai na farmácia do SUS e o sistema trabalha por abordagem sindrômica — trata-se na mesma consulta, com o que a unidade tem na mão. A banca não pergunta qual esquema você prefere; pergunta se você reconhece o colo ao espéculo, se sabe por que o fluxo manda tratar antes do resultado do exame e se escreve o esquema com dose, via e frequência corretas.

Três números organizam o capítulo. O primeiro é 70% a 80%: essa é a proporção de cervicites assintomáticas, e é o que limita qualquer estratégia baseada em queixa. O segundo é o esquema — ceftriaxona 500 mg por via intramuscular em dose única mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral em dose única, de preferência simultâneas. O terceiro é a dose de ceftriaxona em si, 500 mg, que não é a mesma em todo lugar e cuja história explica metade das alternativas erradas do tema.

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O que muda decisão

O colo não é a vagina: onde a cervicite mora

Vulvovaginites e vaginoses são afecções do epitélio estratificado da vulva e da vagina, e a secreção se forma nas paredes vaginais. Cervicite, também chamada endocervicite, é inflamação da mucosa endocervical, e a secreção sai do canal do colo. A distinção parece de anatomia descritiva e é de terapêutica: uma se trata com metronidazol ou antifúngico por via vaginal, a outra com cefalosporina injetável mais macrolídeo por via oral.

Um detalhe que a prova adora e que o consenso brasileiro faz questão de registrar: a inflamação do segmento externo do colo relacionada ao Trichomonas vaginalis, aquela que dá ao colo o aspecto em framboesa, não constitui cervicite. É considerada uma extensão da vaginite, e recebe o nome de cérvico-colpite, embora esteja localizada no colo do útero. Uma vinheta que descreve colo em framboesa com teste de Schiller tigroide está descrevendo tricomoníase, e a conduta é metronidazol — não ceftriaxona.

Nem toda cervicite é infecciosa. Há casos em que nenhum agente é identificado e a inflamação decorre de irritação mecânica ou química. As fontes de irritação mecânica listadas são trauma por instrumentos cirúrgicos ou por objetos estranhos — pessário, diafragma, tampão, capuz cervical, preservativo. A irritação química pode vir da exposição ao látex, de duchas vaginais, de espermicidas ou de cremes contraceptivos. Além de clamídia e gonococo, também causam cervicite Trichomonas vaginalis, Mycoplasma genitalium, Ureaplasma urealyticum e o vírus do herpes simples; a cervicite herpética é frequente na primoinfecção e pode vir com corrimento genital, e lesões cervicais de sífilis também entram na lista.

Colo do útero visto de frente ao exame especular, com material mucopurulento saindo do orifício externo e pontilhado hemorrágico fino na superfície ao redor.
Os dois sinais que abrem o fluxograma da cervicite: muco cervical turvo ou amarelado saindo do orifício externo e friabilidade — o colo que sangra ao simples toque da espátula ou do swab. Nenhum deles se avalia sem espéculo, e nenhum deles aparece em fita de pH.

A doença que não avisa: 70% a 80% sem sintoma

As cervicites são frequentemente assintomáticas — em torno de 70% a 80% dos casos. Quando há sintoma, as queixas principais são corrimento vaginal, sangramento intermenstrual ou pós-coito, dispareunia, disúria, polaciúria e dor pélvica crônica. Note que corrimento vaginal é apenas uma das seis queixas, e nem sempre a primeira: as infecções por clamídia e gonococo em mulheres frequentemente não produzem corrimento nenhum.

Os fatores associados à prevalência são cinco, e são os mesmos que o fluxograma imprime na lateral do quadro: mulheres sexualmente ativas com idade inferior a 25 anos, novas ou múltiplas parcerias sexuais, parcerias com IST, história prévia ou presença de outra IST, e uso irregular de preservativo. Guarde o corte de 25 anos aqui — ele não é o mesmo número que aparece no rastreamento, e a diferença cai em prova.

O protocolo diz, com todas as letras, que o diagnóstico sindrômico de cervicite não se presta para aplicação em massa, tendo em vista que o agravo é assintomático em uma frequência que pode atingir até 93,3%. Vale fazer a conta que o documento não faz. Se 70% a 80% das infecções são assintomáticas, sobram de 20 a 30 casos sintomáticos em cada 100; e como os sinais e sintomas se caracterizam por dor à manipulação do colo, muco cervical turvo ou amarelado e friabilidade cervical em 60% a 80% das vezes, multiplicando as duas faixas chega-se a 12 a 24 casos identificáveis pelo primeiro nó do fluxograma em cada 100 infecções. Na melhor das hipóteses, uma em cada quatro. É por isso que o rastreamento de assintomáticos existe como capítulo à parte, e é por isso que tratar bem quem chega sintomática não resolve o problema populacional.

Outros sintomas que podem estar associados — corrimento vaginal, febre, dor pélvica, dispareunia e disúria — não são contemplados no fluxograma. Isso está escrito no protocolo e explica por que o fluxo pergunta pelo achado do espéculo, e não pela descrição da queixa.

Cervicite × vaginite: o que separa ao espéculo

Quatro achados tiram a paciente da rota das vulvovaginites e a colocam na rota da cervicite: dor à mobilização do colo uterino, material mucopurulento no orifício externo do colo, edema cervical e sangramento ao toque da espátula ou do swab. O documento americano condensa isso em dois sinais diagnósticos maiores — exsudato purulento ou mucopurulento visível no canal endocervical ou no swab, o que se chama cervicite mucopurulenta, e sangramento endocervical fácil provocado pela passagem do swab pelo orifício. Qualquer um dos dois, ou ambos, pode estar presente.

Aí entra o teste do cotonete, que é operacionalmente simples: colhe-se secreção endocervical com o swab e observa-se, contra fundo claro, se o material é muco purulento ou se veio sangue. Positivo, trata-se para gonorreia e clamídia ali mesmo. É o mesmo gesto que a paciente encara como coleta de rotina, e é o gesto que decide o antibiótico.

O que o pH vaginal e o teste das aminas fazem: medem o conteúdo da vagina. A fita de papel indicador fica um minuto encostada na parede vaginal lateral, evitando o colo, e o hidróxido de potássio a 10% se pinga sobre o conteúdo colhido. Servem para separar candidíase de vaginose e de tricomoníase. O que eles não fazem: dizer qualquer coisa sobre a mucosa endocervical. Uma mulher pode ter pH de 4,0 e teste das aminas negativo com o colo coberto de muco-pus — o pH está avaliando outro andar do aparelho genital. A armadilha inversa também existe: o muco cervical é alcalino, e a fita encostada no colo devolve pH falsamente alto, o que converte uma candidíase em vaginose no papel.

Por que confundir muda o antibiótico, e não só o rótulo. Vaginose bacteriana e tricomoníase se tratam com metronidazol, que não tem ação sobre clamídia nem sobre gonococo. Cervicite se trata com ceftriaxona mais azitromicina, que não trata vaginose. Tratar uma cervicite com metronidazol deixa a infecção subir para o útero e as tubas; tratar uma vaginose com ceftriaxona e azitromicina expõe a mulher a antibiótico injetável sem indicação, alimenta resistência e ainda carrega o rótulo de infecção sexualmente transmissível, com a convocação de parceria que vem junto. Os detalhes da rota vaginal — critérios de Amsel, escore de Nugent, esquemas com metronidazol — estão no capítulo de corrimento vaginal.

Abordagem sindrômica: o que ela ganha e o que ela custa

A abordagem sindrômica trata a síndrome, não o agente. Sua justificativa está num quadro do protocolo que descreve as perdas de seguimento entre a infecção e a cura: das pessoas com IST, a maioria é assintomática e não busca atendimento; das sintomáticas, parte se automedica ou procura a farmácia; das que chegam à unidade, parte não recebe diagnóstico adequado, parte não recebe tratamento correto, parte não completa o tratamento, e parte tem a parceria não tratada, o que perpetua a cadeia de transmissão. No fim, apenas uma pequena proporção chega à cura sem reinfecção. Cada degrau desse é uma oportunidade perdida, e cada retorno agendado é um degrau.

Daí a regra operacional que atravessa o protocolo inteiro: as amostras para os exames devem ser colhidas na primeira consulta, e, caso os resultados não estejam disponíveis imediatamente, a conduta terapêutica não deve ser postergada até a entrega deles. A consulta se completa com prescrição, orientação, estratégia de seguimento, atenção às parcerias e acesso aos insumos de prevenção. O ganho é esse: a mulher sai tratada da consulta em que entrou.

O custo está escrito no mesmo documento, e escrever a frase inteira é o que separa uma resposta boa de uma decorada: na situação em que não há rede laboratorial disponível, ocorre menor especificidade das condutas, existindo a possibilidade de tratamento desnecessário. Traduzindo em decisões, o custo tem três parcelas. A primeira é antibiótico em quem não tem a infecção — e a resistência da Neisseria gonorrhoeae é preocupação mundial, com o patógeno constando da lista de prioritários da Organização Mundial da Saúde. A segunda é o rótulo: tratada para uma infecção sexualmente transmissível, a mulher passa a ter parceria a convocar e conversa a ter, com tudo o que isso carrega. A terceira é o diagnóstico que fica sem ser feito, porque a etiologia nunca foi buscada.

O protocolo separa dois cenários e vale distinguir os dois. No corrimento vaginal, o exame especular e testes mínimos são recomendados, e sem eles é impossível o manejo adequado do caso — ou seja, não se trata pela queixa ao telefone. Já na doença inflamatória pélvica, considerando a urgência da intervenção, a conduta mais indicada é a instituição de tratamento imediato. A cervicite fica no primeiro grupo: exige espéculo, e é o espéculo que decide.

O fluxograma brasileiro de corrimento cervical, nó a nó

O fluxograma de manejo da cervicite entra por uma porta mais larga que a do corrimento vaginal: a queixa de entrada é corrimento vaginal, sangramento intermenstrual ou pós-coito, dispareunia, disúria ou dor pélvica crônica. Qualquer uma delas abre o fluxo. Em seguida vêm anamnese, toque e exame especular — os três, não um deles.

O nó único e decisivo é o exame do colo: muco cervical turvo ou amarelado e friabilidade cervical, edema cervical e sangramento ao toque da espátula ou do swab, dor à mobilização do colo uterino? Havendo esses achados, o caminho é coleta de material para investigar C. trachomatis e N. gonorrhoeae — e, na mesma consulta, tratar gonorreia e clamídia e investigar doença inflamatória pélvica. A ordem importa: colhe-se o material e trata-se, sem esperar o resultado.

Não havendo os achados do colo, o fluxo pergunta se o corrimento vaginal se confirma ao exame. Confirmando, o caminho é coleta de material para microscopia a fresco e tratamento de vaginose bacteriana, tricomoníase e/ou candidíase conforme o achado. Não confirmando, o desfecho é provável causa fisiológica. Nos dois ramos, o rodapé manda avaliar se o exame preventivo de câncer de colo do útero está em dia — o que é diferente de usá-lo para diagnosticar a infecção.

As três notas de rodapé do fluxograma valem tanto quanto as caixas. A primeira: podem ser utilizados kits de biologia molecular que detectam mais patógenos simultaneamente, incluindo Mycoplasma genitalium. A segunda, que é a mais fácil de esquecer: mesmo nos casos que apresentam colo e muco cervical normal, Chlamydia trachomatis e Mycoplasma genitalium podem estar presentes, e provas de biologia molecular, se disponíveis, devem ser utilizadas para afastar essa possibilidade, principalmente em mulheres jovens. A terceira: quando a microscopia a fresco não estiver disponível, institui-se tratamento imediato de vaginose bacteriana, tricomoníase e/ou candidíase conforme avaliação clínica; se a coleta for para coloração de Gram, considera-se o resultado no manejo do caso.

Repare no que a segunda nota faz com o fluxograma. Ela admite que o desfecho negativo do primeiro nó não afasta clamídia — apenas afasta cervicite clinicamente aparente. Por isso o rastreamento de assintomáticos não é um apêndice do capítulo: é o que cobre a faixa que o fluxo, por construção, não alcança.

Tratar: dose, via e frequência

O esquema que fecha a caixa tratar gonorreia e clamídia é o da infecção gonocócica não complicada, e a linha do quadro nomeia os quatro sítios que ela cobre: uretra, colo do útero, reto e faringe. Ceftriaxona 500 mg, por via intramuscular, em dose única, mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, em dose única — de preferência administradas simultaneamente. A azitromicina em 2 comprimidos de 500 mg totaliza 1 g; enunciado que escreve azitromicina 1 g por via oral em dose única está descrevendo exatamente o mesmo esquema, e a diferença de redação existe porque o quadro do protocolo escreve na apresentação dispensada pela farmácia do SUS.

Faça a conta do que a paciente leva: uma aplicação intramuscular e dois comprimidos, tomados ali, diante do profissional. É a razão operacional pela qual o esquema é o que é — dose única supervisionada não depende de adesão, e a adesão é o degrau em que o protocolo declara perder pacientes.

Quando o agente identificado é a clamídia isolada — ou o micoplasma —, o esquema é azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, em dose única, tendo como alternativa doxiciclina 100 mg, 1 comprimido, por via oral, 2 vezes ao dia, por 7 dias, exceto em gestantes. O curso completo de doxiciclina são 14 comprimidos. Nos casos de micoplasma, o quadro instrui a dar preferência à azitromicina, porque a doxiciclina apresenta altos níveis de resistência.

Duas variações fecham o quadro. Alergia grave às cefalosporinas: azitromicina 500 mg, 4 comprimidos, por via oral, em dose única, o que dá 2 g. E a regra de abstinência, que é parte da prescrição e não um conselho solto: os pacientes e as parcerias devem se abster de relações sexuais desprotegidas até que o tratamento de ambos esteja completo — ou seja, após o término do tratamento com múltiplas doses, ou 7 dias após a terapia com dose única.

Fora da cervicite não complicada, o mesmo quadro traz os esquemas vizinhos, e eles são material de distrator. Infecção gonocócica disseminada, exceto meningite e endocardite: ceftriaxona 1 g, intramuscular ou intravenosa, ao dia, completando ao menos 7 dias de tratamento, mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, dose única — sete dias de 1 g somam pelo menos 7 g de ceftriaxona. Conjuntivite gonocócica no adulto: ceftriaxona 1 g, intramuscular, dose única. Oftalmia neonatal: ceftriaxona 25 a 50 mg/kg/dia, intramuscular, no máximo 125 mg, em dose única, com prevenção por nitrato de prata a 1% pelo método de Credé ou tetraciclina a 1% em colírio, em aplicação única na primeira hora após o nascimento.

A ceftriaxona de 500 mg: de onde vem o número

A dose antigonocócica é o lugar clássico em que Brasil e mundo divergem, e é onde a memória de material antigo derruba candidato. No Brasil, a ceftriaxona entrou no lugar do ciprofloxacino por decisão de incorporação, diante da resistência do gonococo às quinolonas. E a escolha de 500 mg, em vez de 250 mg, foi feita pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias com base em uma avaliação de custo-benefício em relação ao uso e ao impacto financeiro da ceftriaxona de 250 mg para o país. O consenso brasileiro registra a consequência com franqueza: doses diferentes de ceftriaxona, como a de 250 mg, são preconizadas em outros países, conforme disponibilidade do fármaco e evidências locais de susceptibilidade do gonococo aos antimicrobianos.

Do outro lado, o documento americano de 2021 chegou aos mesmos 500 mg por outro caminho e no mesmo período, e a justificativa é farmacocinética. O texto reconhece que uma injeção única de ceftriaxona 250 mg cura mais de 99% das gonorreias anogenitais por isolados circulantes com concentração inibitória mínima de 0,03 µg/mL, mas argumenta que uma dose maior é provavelmente necessária para isolados com concentração inibitória mínima elevada: o tratamento eficaz exige concentrações acima da concentração inibitória mínima da cepa por cerca de 24 horas, e a dose de 500 mg mantém concentração acima de 0,03 µg/mL por aproximadamente 50 horas. Para pessoas com 150 kg ou mais, a recomendação é 1 g.

A diferença que sobra entre os dois documentos não está no miligrama da cefalosporina — está no acompanhante. O esquema brasileiro é duplo por construção: ceftriaxona mais azitromicina, sempre. O americano de 2021 recomenda ceftriaxona isolada e instrui a tratar clamídia com doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por sete dias somente se a infecção por clamídia não tiver sido afastada. A justificativa americana para não usar azitromicina como parceira fixa aparece no argumento contra a monoterapia: preocupação com a facilidade com que a Neisseria gonorrhoeae desenvolve resistência a macrolídeos, alta proporção de isolados com susceptibilidade diminuída à azitromicina, e falhas terapêuticas documentadas.

Para a prova brasileira, a régua é a nacional, e ela é literal: ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, em dose única. Alternativa que traz 250 mg está citando outro país ou material vencido; alternativa que traz ceftriaxona sozinha está citando o documento americano de 2021.

Gestante: o que muda, e o que não muda

O que não muda é o esquema antigonocócico: ceftriaxona 500 mg intramuscular mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, ambas em dose única. O que muda é a alternativa para clamídia. A doxiciclina está fora — o quadro escreve exceto gestantes ao lado dela —, de modo que, na gestante, o tratamento anticlamídia é a azitromicina. O consenso brasileiro registra que a azitromicina foi considerada segura e eficaz de acordo com a experiência clínica, sendo também recomendada pela Organização Mundial da Saúde na gravidez, e que o teste de controle de cura também deve ser realizado, se disponível.

O motivo de tanto cuidado é obstétrico e neonatal. As infecções gonocócicas ou por clamídia durante a gravidez podem se relacionar a partos pré-termo, ruptura prematura de membrana, perdas fetais, retardo de crescimento intrauterino e endometrite puerperal, além de conjuntivite e pneumonia do recém-nascido. Na ocasião do parto vaginal, o risco de transmissão vertical situa-se entre 30% e 50%, tanto para N. gonorrhoeae quanto para C. trachomatis.

No recém-nascido, a manifestação principal é a conjuntivite, podendo ocorrer septicemia, artrite, abscessos de couro cabeludo, pneumonia, meningite, endocardite e estomatite. A oftalmia neonatal, definida como conjuntivite purulenta do recém-nascido, ocorre no primeiro mês de vida e pode levar à cegueira, especialmente quando causada pelo gonococo — daí a ordem de tratar imediatamente. A conjuntivite por clamídia é bem menos severa, com incubação de cinco a 14 dias. E há um detalhe que rende questão: a profilaxia ocular da primeira hora é efetiva contra N. gonorrhoeae, mas frequentemente não o é contra C. trachomatis. Recém-nascido com conjuntivite apesar da profilaxia correta não é falha do método — é a clamídia, que o método não cobre.

Sobre rastrear a gestante, o protocolo diz duas coisas em lugares diferentes, e as duas caem. No corpo do capítulo de cervicite está escrito que o protocolo de prevenção da transmissão vertical recomenda a pesquisa para N. gonorrhoeae e C. trachomatis por biologia molecular na primeira consulta de pré-natal, sem limite de idade. No quadro de rastreamento, a célula de clamídia e gonococo para gestantes diz na primeira consulta do pré-natal, com a ressalva entre parênteses: gestantes com 30 anos ou menos. O artigo de consenso, por sua vez, escreve gestantes com menos de 30 anos. A gestante de exatos 30 anos entra pelo quadro e sai pelo artigo — e nenhuma das três redações revoga as outras.

Rastreamento no Brasil: quem, com quê, quando

O rastreamento é a realização de testes diagnósticos em pessoas assintomáticas para diagnóstico precoce. O protocolo abre o capítulo com uma observação que muda a lógica: diferentemente de outros rastreamentos, como a mamografia, o rastreamento das IST não identifica apenas uma pessoa — estará sempre ligado a uma rede de transmissão. Quando o agravo não é identificado e tratado na parceria, ele se perpetua na comunidade e expõe o indivíduo à reinfecção.

O método é único e está na nota de rodapé do quadro: detecção de clamídia e gonococo por biologia molecular. A pesquisa se faz de acordo com a prática sexual — urina para o sítio uretral, amostras endocervicais, secreção genital; para amostras extragenitais, anais e faríngeas, devem-se utilizar testes com validação para esses sítios de coleta. O consenso brasileiro acrescenta que os testes moleculares para clamídia e gonococo estão previstos no SUS como procedimento de média complexidade, sob o código 02.02.03.099-7, e que a coleta pode ser feita por swab endocervical, vaginal — inclusive autocoletado — ou pelo primeiro jato de urina.

Quem se rastreia, pelo quadro nacional: gestantes com 30 anos ou menos, na primeira consulta do pré-natal; pessoas com diagnóstico de IST, no momento do diagnóstico; pessoas vivendo com HIV, no momento do diagnóstico; pessoas com prática sexual anal receptiva sem uso de preservativos, semestralmente; pessoas em uso de profilaxia pré-exposição, semestralmente; pessoas com indicação de profilaxia pós-exposição, no atendimento inicial e 4 a 6 semanas após a exposição, exceto nos casos de acidente com material biológico; e vítimas de violência sexual, no atendimento inicial e 4 a 6 semanas após a exposição.

Duas leituras finas do mesmo quadro. Para adolescentes e jovens de até 30 anos, e para os subgrupos de gays e homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, travestis e transexuais e pessoas que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas, a célula de clamídia e gonococo não traz periodicidade: manda ver a frequência conforme outros subgrupos populacionais ou práticas sexuais. Ou seja, a periodicidade da moça de 22 anos sexualmente ativa sem nenhuma das outras condições é definida pela prática sexual dela, não por um intervalo fixo. E para pessoas privadas de liberdade, a célula de clamídia e gonococo traz travessão, embora HIV, sífilis e hepatites tenham periodicidade definida.

É exatamente aqui que a régua brasileira e a americana se separam. O documento do CDC recomenda rastreamento anual de toda mulher sexualmente ativa com menos de 25 anos, e das mulheres de 25 anos ou mais com risco aumentado — nova parceria, mais de uma parceria, parceria com parcerias concomitantes ou parceria com IST —, tanto para clamídia quanto para gonococo. Uma vinheta que diz rastreamento anual de toda mulher com menos de 25 anos está falando pelo documento americano; o quadro brasileiro não traz essa linha.

Parcerias sexuais: janela, esquema e como se comunica

A frase que abre o capítulo de parcerias do protocolo é a que resume a conduta: uma pessoa com IST nunca é só uma pessoa — é uma rede de parcerias sexuais que estão infectadas. Daí a regra material: ao chegar ao serviço, a parceria deve ser considerada portadora da mesma infecção que acometeu o caso-índice, mesmo que não apresente sinal ou sintoma, e receber o mesmo tratamento recomendado para a condição clínica. Não se espera exame da parceria, e não se espera sintoma.

A comunicação tem um procedimento escrito, e ele cai em prova discursiva. Preenche-se um cartão para cada parceria identificada, em duas partes: a parte A fica retida na unidade e a parte B é entregue ao caso-índice, que a entrega à parceria, ambas com o código da Classificação Internacional de Doenças, o número do prontuário e os dados de identificação. Caso as parcerias não atendam à comunicação por cartão em um prazo de até 15 dias, ou o caso-índice não queira entregar os cartões, faz-se a comunicação por correspondência ou por outro meio que garanta confidencialidade. A busca ativa é a última modalidade, quando se esgotarem os demais recursos — e as parcerias de gestantes com IST, bem como as gestantes parceiras de pessoas com IST, são prioridade nessa busca. Quatro princípios governam tudo: confidencialidade, ausência de coerção, proteção contra discriminação e legalidade da ação.

Sobre a janela de tempo, há duas redações em circulação, e vale saber as duas. O artigo de consenso brasileiro escreve que todos os contatos sexuais nos seis meses anteriores ao início dos sintomas ou ao diagnóstico devem idealmente ser avaliados, testados e tratados. O documento americano fixa 60 dias antes do início dos sintomas ou do diagnóstico, e é esse o número que o serviço de teleconsultoria brasileiro reproduz para cervicite — e também o número que o próprio protocolo nacional usa no capítulo de doença inflamatória pélvica, onde manda tratar empiricamente as parcerias dos dois meses anteriores. Numa questão que cita doença inflamatória pélvica, 60 dias é a resposta protocolar brasileira; numa questão que cita o consenso de cervicite, seis meses.

Qual esquema recebe a parceria de uma mulher com cervicite: o mesmo da condição clínica. Na prática, a parceria masculina cai na linha de uretrite sem identificação do agente etiológico, cuja primeira opção é ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, em dose única, com segunda opção de ceftriaxona 500 mg intramuscular mais doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por 7 dias. E, no atendimento da parceria, o protocolo manda o pacote completo: exames para outras IST — sífilis, HIV, hepatites B e C — e identificação, captação e tratamento das demais parcerias, buscando a cadeia de transmissão. Entregar receita para o parceiro levar embora não cumpre a recomendação: o atendimento é preferencialmente presencial.

As complicações que justificam tratar sem exame

As principais complicações da cervicite por clamídia e gonorreia, quando não tratadas, são dor pélvica, doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica e infertilidade. O risco de desenvolvimento de sequelas é dependente do número de episódios de doença inflamatória pélvica — cada episódio soma dano tubário. É esse encadeamento que responde à pergunta de por que se trata antes do resultado: a espera não é neutra.

A doença inflamatória pélvica é o desfecho imediato e tem capítulo próprio nesta apostila, com os critérios diagnósticos, os esquemas e a decisão de internação. Aqui basta a ponte: o fluxograma da cervicite manda, na mesma caixa, tratar gonorreia e clamídia e investigar doença inflamatória pélvica. São duas ordens na mesma linha, e a segunda é frequentemente esquecida — sem toque bimanual não se investiga dor à mobilização do colo, dor uterina e dor anexial, que são os três critérios maiores.

Do lado obstétrico e neonatal, as consequências já foram listadas: prematuridade, ruptura prematura de membrana, perdas fetais, restrição de crescimento, endometrite puerperal, conjuntivite e pneumonia do recém-nascido. A gravidez ectópica e a infertilidade fecham a lista pelo mecanismo tubário, e ambas têm capítulos próprios nas apostilas de obstetrícia e de ginecologia.

Há ainda a forma que sai do trato genital. A infecção gonocócica disseminada é rara, entre 0,5% e 3%; resulta de disseminação hematogênica a partir das mucosas infectadas e cursa com febre, lesões cutâneas, artralgia, artrite e tenossinovite sépticas, podendo raramente causar endocardite aguda, pericardite, meningite e peri-hepatite. Acomete mais as mulheres, associa-se à infecção assintomática persistente, e o maior risco é durante o período menstrual, a gravidez e o pós-parto imediato — o que explica por que a mulher com artrite séptica e história sexual recente merece a pergunta que ninguém faz.

Falha de tratamento, reinfecção e resistência

Falha e reinfecção não são a mesma coisa e não recebem o mesmo esquema. O consenso brasileiro define falha terapêutica em duas situações: pessoas que continuam apresentando sintomas de três a cinco dias após o tratamento e sem contato sexual no período; e pessoas com teste de cura positivo — cultura positiva em mais de 72 horas ou teste molecular positivo no mínimo sete dias após o tratamento —, se não houve relato de contato sexual no período. A cláusula sem contato sexual no período é o que separa falha de reexposição, e é ela que a vinheta esconde ou entrega.

Diante de sintomas persistentes após tratamento de N. gonorrhoeae, a orientação é avaliar por cultura e teste para determinação da susceptibilidade aos antimicrobianos — a cultura em meio seletivo de Thayer-Martin modificado volta ao jogo exatamente aqui, e o consenso registra que ela está indicada no caso de falha terapêutica. Vale lembrar também que a cervicite persistente pode ser causada por outros microrganismos.

O esquema de retratamento de infecções gonocócicas tem quadro próprio e dose própria: ceftriaxona 500 mg, intramuscular, dose única, mais azitromicina 500 mg, 4 comprimidos, por via oral, dose única — o dobro de comprimidos de azitromicina do esquema inicial, totalizando 2 g. A segunda opção é gentamicina 240 mg, intramuscular, mais azitromicina 500 mg, 4 comprimidos, por via oral, dose única. E o comentário do quadro é a chave da questão: esse esquema é para casos de falha de tratamento; possíveis reinfecções devem ser tratadas com as doses habituais.

Antes de rotular como falha, o protocolo lista os fatores associados a persistência de sintomas, e todos se aplicam à cervicite: reexposição a parceria sexual não tratada; infecção adquirida de outra parceria; medicamentos não tomados corretamente ou esquemas não completados; infecção por outros patógenos; presença de organismos resistentes; e outras causas, como infecção do trato urinário, prostatite, fimose, irritação química, estenoses uretrais e tumores. Descartadas essas, pesquisam-se agentes não suscetíveis ao tratamento anterior — Mycoplasma genitalium, Trichomonas vaginalis e Ureaplasma urealyticum.

A vigilância tem nome e resultado. O Brasil participa do programa mundial de vigilância da susceptibilidade do gonococo aos fármacos por meio do Projeto SenGono, que trabalha a partir de amostras de corrimento uretral masculino. Seus achados, como o protocolo os registra: alta resistência do patógeno à penicilina, à tetraciclina e ao ciprofloxacino; emergência de resistência à azitromicina; e total sensibilidade — pelos critérios do Clinical and Laboratory Standards Institute — às cefalosporinas de terceira geração, ceftriaxona e cefixima. É a razão de a quinolona ter saído do esquema e de a cefalosporina ser o eixo dele, e é a razão de a azitromicina ser hoje o elo mais frágil do par.

O Mycoplasma genitalium merece um parágrafo porque explica o que fazer quando o esquema padrão não resolve. Entre mulheres, ele foi associado a aumento do risco de cervicite, doença inflamatória pélvica, parto prematuro, infertilidade e aborto espontâneo. Não tem parede celular, de modo que betalactâmicos — penicilinas e cefalosporinas incluídas — não são eficazes contra ele; a azitromicina é o tratamento de escolha, mas a resistência aos macrolídeos vem sendo documentada em vários continentes, e não há evidência de que um regime estendido de azitromicina de 1,5 g seja superior ao de 1 g em dose única. A moxifloxacina permanece altamente ativa contra a maioria dos isolados resistentes a macrolídeos, mas não está disponível no SUS para essa indicação.

Notificação e o pacote que fecha a consulta

A notificação compulsória nacional alcança sífilis adquirida, sífilis em gestante, sífilis congênita, hepatites virais B e C, aids, infecção pelo HIV, infecção pelo HIV em gestante, parturiente ou puérpera, e criança exposta ao risco de transmissão vertical do HIV. As demais infecções sexualmente transmissíveis, quando se considerar conveniente, podem ser incluídas na lista de notificação dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.

Traduzindo para a cervicite: infecções por C. trachomatis, M. genitalium e N. gonorrhoeae não estão na lista de agravos de notificação compulsória nacional, mas podem ser notificadas por estados e municípios. O consenso brasileiro deriva daí uma consequência epidemiológica concreta: no Brasil não há dados consolidados em nível nacional de infecções por clamídia ou gonococo justamente por não serem agravos de notificação compulsória. Preencher ficha do Sinan por causa de uma cervicite não é a conduta padrão — salvo norma local.

O que sempre se faz, por outro lado, é o pacote da consulta de IST. Sempre que disponíveis, colhem-se exames para gonorreia, clamídia, sífilis, HIV, hepatite B e hepatite C, e as amostras se colhem na primeira consulta. Oferece-se vacinação para hepatites A e B e para HPV quando indicado, informa-se sobre prevenção combinada, tratam-se e orientam-se a pessoa e suas parcerias. Pessoas com teste positivo devem ser aconselhadas a se abster de contato sexual por sete dias após o término do tratamento e a resolução dos sintomas, com informação verbal e escrita sobre transmissão, prevenção e complicações.

Uma peça nova de prevenção entrou no país em 2026 e vale saber onde ela não chega. O Comitê de Medicamentos da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias recomendou por unanimidade, na 148ª Reunião Ordinária realizada em 6, 11 e 12 de fevereiro de 2026, a ampliação do uso da doxiciclina 100 mg como profilaxia pós-exposição às infecções sexualmente transmissíveis bacterianas — clamídia e sífilis. Duas delimitações importam para este capítulo. A primeira é o agente: o gonococo não está entre as infecções alvo da indicação avaliada. A segunda é a população: a indicação analisada é a da população adulta de homens cisgênero gays e bissexuais, homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero, vivendo ou não com HIV. A mulher cisgênero com cervicite, que é a personagem deste capítulo, está fora do alvo da estratégia — o que ela recebe é tratamento, parceria tratada e preservativo. A posologia e o detalhamento da profilaxia estão no capítulo de sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis, na apostila de Infectologia.

Sobre seguimento, a régua brasileira é econômica e a americana é generosa, e a diferença cai. O consenso brasileiro registra que os testes de controle de cura para clamídia e gonococo não complicados, urogenitais ou retais, não são recomendados de rotina em quem foi tratado com esquemas de primeira linha, mas podem ser realizados durante a gravidez, em infecções complicadas ou na persistência dos sintomas; quando indicado, o controle de cura para clamídia se faz quatro semanas após a conclusão da terapia, por teste molecular. Já a retestagem para detectar reinfecção em três a seis meses pode ser idealmente oferecida a mulheres e homens jovens, menores de 25 anos, que tiveram resultado positivo para C. trachomatis. O documento americano vai além e retesta todo mundo tratado para clamídia ou gonorreia aproximadamente três meses depois, independentemente de a parceria ter sido tratada, e, não sendo possível, na próxima consulta dentro de 12 meses.

O que não fazer

Não tratar corrimento vaginal com esquema de cervicite, e não tratar cervicite com esquema de corrimento vaginal. Metronidazol não tem ação sobre clamídia nem sobre gonococo; ceftriaxona e azitromicina não tratam vaginose bacteriana nem candidíase. O que decide não é a cor do corrimento: é o colo ao espéculo. Enunciado que descreve o corrimento em três linhas e o colo em uma costuma estar cobrando a linha do colo.

Não usar o exame preventivo de câncer de colo do útero nem a colposcopia para diagnosticar vulvovaginite, vaginose ou cervicite. O protocolo é literal: quando esses exames estiverem indicados por outro motivo, como o rastreio de neoplasia intraepitelial cervical, devem ser realizados preferencialmente após o tratamento das infecções do trato reprodutivo. Verificar se o preventivo está em dia é parte do rodapé do fluxograma; usá-lo como método diagnóstico da infecção, não.

Não usar sorologia para diagnosticar clamídia urogenital. A sorologia encontra aplicação na investigação de suspeita de infecção sistêmica no passado — pneumonia em recém-nascidos, linfogranuloma venéreo, salpingite, epididimite, infertilidade e gravidez ectópica —, mas é inapropriada para diagnosticar infecções urogenitais. O método de escolha, para casos sintomáticos e assintomáticos, é a biologia molecular.

Não confiar na bacterioscopia do material cervical para afastar gonorreia na mulher. A coloração de Gram tem bom desempenho no homem sintomático com corrimento uretral, onde a infecção se estabelece pela presença de diplococos Gram-negativos intracelulares em leucócitos polimorfonucleares; em mulheres, porém, o esfregaço de secreções cervicais detecta apenas 40% a 60% das infecções, porque a flora vaginal é densa e o número de gonococos no esfregaço endocervical é reduzido. E o diagnóstico de pessoas assintomáticas por microscopia não é recomendado.

Não postergar o tratamento à espera do resultado, e não mandar a paciente embora com pedido de exame e retorno. A regra do protocolo é explícita: colhe-se na primeira consulta e não se posterga a conduta terapêutica até a entrega dos resultados. Também não se deve deixar a parceria de fora: o degrau em que o protocolo declara perder a cura é o da parceria não tratada, e é dele que nasce a reinfecção que devolve a mesma paciente ao consultório em três meses.

04

Cervicite ao lado da vaginite, o fluxograma e os esquemas

A primeira tabela põe lado a lado as duas doenças que a prova mistura: o corrimento que nasce nas paredes da vagina e o que sai do orifício do colo. O fluxo abaixo reproduz, nó a nó, o fluxograma de manejo da cervicite do Ministério da Saúde, com as três notas de rodapé que valem tanto quanto as caixas. Os cards mostram o que o espéculo revela em cada situação. As tabelas seguintes trazem o que a vinheta cobra no fim: dose, via e frequência de cada linha do quadro de tratamento, quem se rastreia no Brasil, e onde a régua brasileira e a americana se separam.

  1. 1Ao espéculo, secreção mucopurulenta endocervical ou sangramento ao toque localizam o problema no colo; dor à mobilização do colo ou anexial obriga avaliar DIP.
  2. 2Coletar teste molecular para gonococo e clamídia quando disponível; em risco elevado ou retorno incerto, o manejo sindrômico não deve esperar resultado.
  3. 3Tratar gonococo e clamídia conforme o PCDT vigente, ajustando o esquema para gestação, alergias e peso.
  4. 4Oferecer testes para HIV e sífilis, preservativos e avaliação de outras IST; notificar o que for compulsório.
  5. 5Avaliar e tratar parcerias sexuais dos 60 dias anteriores, mesmo assintomáticas, para interromper reinfecção.
  6. 6Orientar abstinência por sete dias após dose única ou até completar esquema de sete dias, e até que parcerias tenham sido tratadas.
  7. 7Repetir testagem em cerca de três meses quando recomendado: a recorrência mais comum é reinfecção, não falha do antibiótico.

Colo sem sinais de cervicite

Ao espéculo, superfície lisa e regular, orifício externo com muco claro e filante, sem material turvo, sem pontilhado hemorrágico e sem sangramento ao toque do swab. Colo assim manda o fluxograma seguir para o ramo do corrimento vaginal — e o rodapé lembra que colo e muco cervical normais não afastam clamídia nem Mycoplasma genitalium, que exigem prova de biologia molecular quando disponível, sobretudo em mulheres jovens.

Cervicite mucopurulenta e friabilidade

Material mucopurulento turvo ou amarelado saindo do orifício externo, com pontilhado hemorrágico e colo que sangra ao simples toque da espátula ou do swab. Qualquer um desses achados — ou edema cervical, ou dor à mobilização do colo — fecha o nó do fluxograma: colher material para clamídia e gonococo, tratar as duas na mesma consulta e investigar doença inflamatória pélvica.

Teste do cotonete

Colhe-se secreção endocervical com o swab e observa-se o material contra fundo claro: muco purulento, ou sangue provocado pela passagem do swab pelo orifício, tornam o teste positivo. É um gesto de segundos que decide o antibiótico da consulta — e é o que o pH vaginal e o teste das aminas, que avaliam o conteúdo da vagina, não conseguem fazer.

O que se avaliaCorrimento vaginal (vaginite e vaginose)Corrimento cervical (cervicite)
Onde nasce a secreçãoNas paredes da vagina — epitélio estratificado da vulva e da vaginaNo canal do colo — mucosa endocervical
AgentesGardnerella vaginalis e flora anaeróbia mista (vaginose), Candida spp. (candidíase), Trichomonas vaginalis (tricomoníase)Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae à frente; também Trichomonas vaginalis, Mycoplasma genitalium, Ureaplasma urealyticum e herpes simples
Queixa típicaCorrimento com odor, prurido, ardência — a queixa é do corrimentoCorrimento vaginal, sangramento intermenstrual ou pós-coito, dispareunia, disúria, polaciúria, dor pélvica crônica — e, na maioria das vezes, queixa nenhuma
Com que frequência é assintomáticaCerca de 30% na tricomoníase; vaginose e candidíase costumam dar sintoma70% a 80%, podendo atingir até 93,3%
O que se vê ao espéculoCorrimento banhando as paredes vaginais; paredes hiperemiadas; colo sem muco-pus, sem friabilidade e sem dor à mobilizaçãoMuco cervical turvo ou amarelado no orifício externo, friabilidade do colo, edema cervical, sangramento ao toque da espátula ou do swab, dor à mobilização do colo
pH vaginal e teste das aminasDecidem o ramo: pH acima de 4,5 e/ou aminas positivo levam a vaginose e tricomoníase; abaixo de 4,5 e/ou aminas negativo, a candidíaseNão decidem nada — avaliam o conteúdo vaginal, não a mucosa endocervical. pH normal com colo mucopurulento continua sendo cervicite
Teste que fecha o diagnósticoMicroscopia a fresco (clue cells, hifas, protozoário móvel); Gram com escore de Nugent para vaginoseBiologia molecular para C. trachomatis e N. gonorrhoeae, método de escolha em sintomáticos e assintomáticos; cultura em Thayer-Martin modificado para o gonococo sintomático e nos casos de falha
Tratamento de primeira opção no SUSMetronidazol (vaginose e tricomoníase) ou imidazólico por via vaginal (candidíase)Ceftriaxona 500 mg, IM, dose única MAIS azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, dose única (1 g), de preferência simultâneas
Parceria sexualNão se trata na vaginose; só a sintomática na candidíase; sempre, com o mesmo esquema, na tricomoníaseSempre. A parceria é considerada portadora da mesma infecção, mesmo assintomática, e recebe o mesmo tratamento
Complicação temidaComplicações obstétricas da vaginose; facilitação da transmissão de outras ISTDoença inflamatória pélvica, dor pélvica, gravidez ectópica e infertilidade — com risco de sequela dependente do número de episódios de DIP
Onde entra no fluxogramaRamo que segue quando o colo está liberadoRamo que sai no primeiro nó — investigar cervicite e DIP, tratar clamídia e gonorreia

Tratamento: dose, via e frequência (PCDT IST, Quadros 31 e 37)

CondiçãoPrimeira opçãoSegunda opçãoObservações
Infecção gonocócica NÃO complicada (uretra, colo do útero, reto e faringe)Ceftriaxona 500 mg, IM, dose única MAIS azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, dose única (1 g no total), de preferência simultâneasO quadro não lista segunda opção para esta linhaÉ o esquema da caixa "tratar gonorreia e clamídia" do fluxograma. Alergia grave às cefalosporinas: azitromicina 500 mg, 4 comprimidos, VO, dose única (2 g)
Infecção por clamídia (ou por micoplasma)Azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, dose únicaDoxiciclina 100 mg, 1 comprimido, VO, 2x/dia, por 7 dias (exceto gestantes) — 14 comprimidos no cursoNos casos de micoplasma, preferir a azitromicina: a doxiciclina apresenta altos níveis de resistência. A resolução dos sintomas pode levar até 7 dias após a conclusão da terapia
Uretrite sem identificação do agente etiológico (a linha em que cai a parceria masculina convocada)Ceftriaxona 500 mg, IM, dose única MAIS azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, dose únicaCeftriaxona 500 mg, IM, dose única MAIS doxiciclina 100 mg, 1 comprimido, VO, 2x/dia, por 7 diasA parceria é tratada como portadora da mesma infecção do caso-índice, mesmo sem sinal ou sintoma
Retratamento de infecções gonocócicasCeftriaxona 500 mg, IM, dose única MAIS azitromicina 500 mg, 4 comprimidos, VO, dose única (2 g)Gentamicina 240 mg, IM, MAIS azitromicina 500 mg, 4 comprimidos, VO, dose únicaPara casos de FALHA de tratamento. Possíveis reinfecções devem ser tratadas com as doses habituais — o dobro de azitromicina é da falha, não da reexposição
Infecção gonocócica disseminada (exceto meningite e endocardite)Ceftriaxona 1 g, IM ou IV, ao dia, completando ao menos 7 dias de tratamento MAIS azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, dose únicaSete dias de 1 g somam ao menos 7 g de ceftriaxona no curso
Conjuntivite gonocócica no adultoCeftriaxona 1 g, IM, dose únicaDose diferente da infecção urogenital não complicada — o sítio muda o miligrama
Oftalmia neonatalCeftriaxona 25 a 50 mg/kg/dia, IM, no máximo 125 mg, em dose únicaPrevenção: nitrato de prata a 1% (método de Credé) OU tetraciclina a 1% em colírio, aplicação única na 1ª hora após o nascimento. Instilação local de solução fisiológica de hora em hora; não se indica penicilina local; resposta insatisfatória levanta a hipótese de infecção simultânea por clamídia

Rastreamento de clamídia e gonococo no Brasil (PCDT IST, Quadro 5)

QuemQuandoComo
Gestantes com 30 anos ou menosNa primeira consulta do pré-natalDetecção por biologia molecular; material endocervical, secreção genital ou urina, conforme a prática sexual
Pessoas com diagnóstico de ISTNo momento do diagnósticoIdem. Sítio conforme a prática: sexo oral sem preservativo — orofaringe; anal receptivo — swab anal; vaginal receptivo — material genital; insertivo — material uretral
Pessoas vivendo com HIVNo momento do diagnósticoIdem
Pessoas com prática sexual anal receptiva sem uso de preservativosSemestralPara amostras extragenitais, anais e faríngeas, utilizar testes com validação para esses sítios de coleta
Pessoas em uso de profilaxia pré-exposição (PrEP)SemestralIdem
Pessoas com indicação de profilaxia pós-exposição (PEP)No atendimento inicial e 4 a 6 semanas após a exposição — exceto nos casos de acidente com material biológicoIdem
Violência sexualNo atendimento inicial e 4 a 6 semanas após a exposiçãoIdem
Adolescentes e jovens de até 30 anos; gays e HSH; profissionais do sexo; travestis e transexuais; pessoas que fazem uso abusivo de álcool e outras drogasA célula do quadro não fixa periodicidade: manda ver a frequência conforme outros subgrupos populacionais ou práticas sexuaisO procedimento consta no SUS como média complexidade, código 02.02.03.099-7
Pessoas privadas de liberdade; pessoas com diagnóstico de hepatites virais; pessoas com diagnóstico de tuberculoseA célula de clamídia e gonococo traz travessão nas três linhas — nas pessoas privadas de liberdade, apesar de HIV (anual), sífilis (semestral) e hepatites (semestral a anual) terem periodicidade definida; nas outras duas, só o HIV tem, no momento do diagnóstico

Onde a régua brasileira e a americana se separam

DecisãoPCDT IST do Ministério da SaúdeCDC, Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021
Esquema antigonocócico da infecção não complicadaCeftriaxona 500 mg, IM, dose única MAIS azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, dose únicaCeftriaxona 500 mg, IM, dose única, isolada (1 g para pessoas com 150 kg ou mais); doxiciclina 100 mg VO 2x/dia por 7 dias somente se a infecção por clamídia não tiver sido afastada
De onde vem a dose de 500 mgAvaliação de custo-benefício da Conitec quanto ao uso e ao impacto financeiro da apresentação de 250 mg para o paísArgumento farmacocinético: 250 mg cura mais de 99% das infecções anogenitais por isolados com CIM de 0,03 µg/mL, mas 500 mg mantém concentração acima desse valor por cerca de 50 horas, o que cobre isolados com CIM elevada
Tratamento da cervicite propriamente ditaSinal ao espéculo dispara o tratamento para gonorreia e clamídia na mesma consulta, com coleta simultâneaRegime recomendado é doxiciclina 100 mg VO 2x/dia por 7 dias; tratamento presuntivo só para mulheres de maior risco (menores de 25 anos, nova parceria, parceria com parcerias concomitantes, parceria com IST), quando o seguimento não puder ser garantido ou quando o teste molecular não for possível. Nas de menor risco, é opção adiar o tratamento até o resultado
Clamídia não complicadaAzitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, dose única como primeira opção; doxiciclina 7 dias como segunda, exceto em gestantesDoxiciclina 100 mg VO 2x/dia por 7 dias como regime recomendado; azitromicina 1 g dose única e levofloxacino 500 mg/dia por 7 dias como alternativas. Na gestação, azitromicina 1 g dose única é o regime recomendado
RastreamentoQuadro 5, por subgrupo populacional: gestantes com 30 anos ou menos na 1ª consulta de pré-natal, pessoas com IST, PVHIV, prática anal receptiva sem preservativo, PrEP, PEP e violência sexualRastreamento anual de toda mulher sexualmente ativa com menos de 25 anos, e das de 25 anos ou mais com risco aumentado, tanto para clamídia quanto para gonococo
Seguimento após o tratamentoTeste de cura não é rotina em quem usou esquema de primeira linha; pode ser feito na gravidez, em infecção complicada ou se os sintomas persistirem, quatro semanas depois, por teste molecular. Retestagem em três a seis meses pode ser oferecida a menores de 25 anos com clamídiaRetestagem de todos os tratados para clamídia ou gonorreia aproximadamente três meses depois, independentemente de a parceria ter sido tratada; não sendo possível, na próxima consulta dentro de 12 meses
Janela das parceriasO artigo de consenso brasileiro escreve seis meses antes do início dos sintomas ou do diagnóstico; o capítulo de DIP do próprio protocolo usa os dois meses anterioresTodas as parcerias dos 60 dias anteriores ao início dos sintomas ou ao diagnóstico

Azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, em dose única é 1 g. O quadro do protocolo escreve na apresentação dispensada pela farmácia do SUS; o enunciado pode escrever na dose. São o mesmo esquema, e alternativa que traz um dos dois formatos não está errada por causa disso.

O quadro do retratamento dobra a azitromicina, não a ceftriaxona: 4 comprimidos de 500 mg, ou seja, 2 g, com a ceftriaxona mantida em 500 mg. E o dobro só vale para falha — reinfecção se trata com as doses habituais.

pH vaginal e teste das aminas avaliam o conteúdo da vagina, não a mucosa endocervical. pH de 4,0 com aminas negativo não afasta cervicite. E a fita encostada no colo devolve pH falsamente alto, porque o muco cervical é alcalino.

Colo em framboesa com Schiller tigroide é cérvico-colpite por Trichomonas — extensão da vaginite, não cervicite. A conduta é metronidazol.

O corte de idade muda conforme o parágrafo do mesmo documento. Os fatores associados à cervicite falam em mulheres sexualmente ativas com idade inferior a 25 anos; a caixa de fatores de risco para IST do fluxograma de corrimento vaginal fala em idade abaixo de 30 anos; e o quadro de rastreamento fala em até 30 anos, com a gestante rastreada se tiver 30 anos ou menos. A pessoa de exatos 30 anos entra por uma redação e sai por outra.

Sobre a gestante, o protocolo tem duas frases em lugares diferentes: no capítulo de cervicite, a pesquisa de gonococo e clamídia por biologia molecular na primeira consulta de pré-natal aparece sem limite de idade, atribuída ao protocolo de transmissão vertical; no Quadro 5, ela vale para gestantes com 30 anos ou menos. O artigo de consenso escreve gestantes com menos de 30 anos. Este capítulo adota a redação do Quadro 5, que é a do anexo normativo.

A microscopia não serve para o assintomático, e a bacterioscopia cervical não afasta gonorreia na mulher: o esfregaço de secreções cervicais detecta apenas 40% a 60% das infecções. O Gram é bom no homem sintomático com corrimento uretral.

Sorologia para clamídia não diagnostica infecção urogenital; serve para investigar suspeita de infecção sistêmica passada, como linfogranuloma venéreo, salpingite, epididimite, infertilidade e gravidez ectópica.

Cervicite por clamídia, gonococo ou Mycoplasma genitalium não é agravo de notificação compulsória nacional; pode ser notificada por estados, Distrito Federal e municípios. A lista compulsória nacional alcança sífilis adquirida, sífilis em gestante, sífilis congênita, hepatites B e C, aids, infecção pelo HIV, HIV em gestante, parturiente ou puérpera, e criança exposta à transmissão vertical do HIV.

Falha terapêutica tem definição: sintomas persistentes de três a cinco dias após o tratamento sem contato sexual no período; ou teste de cura positivo, com cultura positiva em mais de 72 horas ou teste molecular positivo no mínimo sete dias após o tratamento, sem contato sexual no período. Sem a cláusula do contato sexual, é reexposição.

Abstinência: a pessoa e as parcerias se abstêm de relações desprotegidas até que o tratamento de ambos esteja completo — após o término do esquema de múltiplas doses, ou 7 dias após a terapia com dose única.

A profilaxia pós-exposição com doxiciclina incorporada em 2026 cobre clamídia e sífilis — não o gonococo —, e a indicação avaliada tem população delimitada: adultos homens cisgênero gays e bissexuais, homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero, vivendo ou não com HIV. Ela não é conduta para a mulher cisgênero com cervicite. Dose e detalhamento estão no capítulo de sífilis e outras IST, na apostila de Infectologia.

O artigo de consenso brasileiro registra, em mulheres vivendo com HIV de seis estados, prevalências de 2,1% de clamídia, 0,9% de gonorreia e 2,7% de coinfecção por clamídia e gonorreia. Lidos como prevalências gerais, os três números não fecham entre si — a coinfecção não pode superar a prevalência do agente menos frequente. O capítulo não usa esses percentuais em vinheta.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O esquema antigonocócico: duplo com azitromicina ou ceftriaxona isolada

PCDT IST do Ministério da Saúde: terapia dupla fixa, ceftriaxona 500 mg mais azitromicina 1 g

O quadro de tratamento traz uma linha só para a infecção gonocócica não complicada da uretra, do colo do útero, do reto e da faringe: ceftriaxona 500 mg, por via intramuscular, em dose única, mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, em dose única, de preferência administradas simultaneamente. Não há segunda opção listada para essa linha, e o par é fixo — a azitromicina entra tanto por cobrir a clamídia, que acompanha o gonococo com frequência, quanto por compor terapia dupla contra o próprio gonococo. Para alergia grave às cefalosporinas, a saída é azitromicina 500 mg, 4 comprimidos, em dose única, totalizando 2 g. A escolha da dose de 500 mg de ceftriaxona, em vez de 250 mg, foi feita pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias com base em avaliação de custo-benefício quanto ao uso e ao impacto financeiro da apresentação de 250 mg para o país.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021, alterado em 4 de julho de 2024), Quadros 31 e 37; e Miranda et al., Epidemiol. Serv. Saude, 30(esp.1):e2020587, 2021

CDC, 2021: ceftriaxona 500 mg isolada, e doxiciclina só se a clamídia não estiver afastada

O documento americano recomenda ceftriaxona 500 mg por via intramuscular em dose única para pessoas com menos de 150 kg, e 1 g para quem tem 150 kg ou mais, sem antibiótico acompanhante fixo: se a infecção por clamídia não tiver sido afastada, trata-se clamídia com doxiciclina 100 mg por via oral duas vezes ao dia por sete dias. A subida de 250 para 500 mg é justificada por farmacocinética — o texto reconhece que 250 mg curam mais de 99% das gonorreias anogenitais por isolados com concentração inibitória mínima de 0,03 µg/mL, mas argumenta que o tratamento eficaz exige concentração acima da concentração inibitória mínima da cepa por cerca de 24 horas, e que a dose de 500 mg mantém concentração acima daquele valor por aproximadamente 50 horas, o que cobre isolados com concentração inibitória mínima elevada. A azitromicina sai do par pelo mesmo motivo pelo qual é rejeitada em monoterapia: facilidade com que o gonococo desenvolve resistência a macrolídeos, alta proporção de isolados com susceptibilidade diminuída e falhas terapêuticas documentadas. As alternativas na indisponibilidade de ceftriaxona são gentamicina 240 mg intramuscular mais azitromicina 2 g por via oral, ou cefixima 800 mg por via oral.

Workowski et al., Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021, MMWR Recomm Rep, v. 70, n. 4, seção Gonococcal Infections

Na prova

Três pistas identificam o recorte. O cenário: unidade básica, farmácia do SUS, fluxograma, dose supervisionada na consulta e menção ao Ministério da Saúde colocam a questão dentro do esquema duplo brasileiro. O peso corporal: alternativa que condiciona a dose a 150 kg vem do documento americano, porque o quadro brasileiro não tem faixa de peso. E a companhia da ceftriaxona: opção com ceftriaxona sozinha, ou com doxiciclina por sete dias ao lado, é redação americana; opção com azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, ao lado é redação brasileira. Cuidado com o distrator de 250 mg — ele não é a régua de nenhum dos dois documentos hoje, é material vencido ou de outro país.

Tratar pelo sinal ao espéculo ou esperar o teste molecular

PCDT IST: o achado do colo dispara o tratamento na mesma consulta

O fluxograma brasileiro tem um nó só, e ele é clínico: havendo muco cervical turvo ou amarelado e friabilidade cervical, edema cervical, sangramento ao toque da espátula ou do swab, ou dor à mobilização do colo, colhe-se material para investigar clamídia e gonococo e, na mesma caixa, trata-se gonorreia e clamídia e investiga-se doença inflamatória pélvica. A regra geral do protocolo reforça: as amostras devem ser colhidas na primeira consulta e, se os resultados não estiverem disponíveis imediatamente, a conduta terapêutica não deve ser postergada até a entrega deles. A justificativa é o quadro de perdas de seguimento — assintomáticos que não buscam atendimento, sintomáticos que se automedicam, diagnósticos que não se fazem, tratamentos que não se completam e parcerias que não se tratam. O próprio documento registra o custo: sem rede laboratorial disponível, ocorre menor especificidade das condutas, existindo a possibilidade de tratamento desnecessário.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT IST, Figura 12, capítulo 4 e Quadro 9 (anexo em vigor alterado em 4 de julho de 2024)

CDC, 2021: tratamento presuntivo restrito a quem tem risco aumentado ou seguimento incerto

O documento americano trata a cervicite como diagnóstico a ser testado antes de tratado, salvo condições declaradas. O tratamento presuntivo para C. trachomatis e N. gonorrhoeae deve ser oferecido às mulheres de risco aumentado — menores de 25 anos, com nova parceria sexual, com parceria que tem parcerias concomitantes ou com parceria que tem uma IST —, quando o seguimento não puder ser garantido, ou quando o teste molecular não for possível. Para mulheres de menor risco, adiar o tratamento até a saída dos resultados é uma opção explícita; e se o tratamento for adiado e os testes moleculares vierem negativos, considera-se uma consulta de retorno para verificar se a cervicite se resolveu. O regime recomendado para a cervicite em si é doxiciclina 100 mg por via oral duas vezes ao dia por sete dias, com a nota de considerar tratamento concomitante para gonococo se a paciente tiver risco de gonorreia ou viver em comunidade de alta prevalência.

Workowski et al., MMWR Recomm Rep, v. 70, n. 4, 2021, seção Cervicitis

Na prova

O que denuncia o recorte é a infraestrutura descrita na vinheta. Unidade sem biologia molecular, ausência de garantia de retorno, expressão manejo sindrômico ou citação do fluxograma do Ministério da Saúde colocam a questão no mundo em que o achado do espéculo já é indicação de tratamento. Enunciado que entrega resultado de teste de amplificação de ácidos nucleicos, que descreve estratificação de risco da paciente ou que oferece como alternativa aguardar o resultado com retorno agendado está cobrando o raciocínio etiológico. E há uma pista de vocabulário: alternativa cujo único antibiótico é doxiciclina por sete dias, sem cefalosporina, reproduz o regime de cervicite do documento americano, não o brasileiro.

Quem se rastreia para clamídia e gonococo

PCDT IST: rastreamento por subgrupo populacional, sem linha para a jovem sexualmente ativa em geral

O quadro de rastreamento define, para clamídia e gonococo, quem se testa e quando: gestantes com 30 anos ou menos na primeira consulta do pré-natal; pessoas com diagnóstico de IST e pessoas vivendo com HIV no momento do diagnóstico; pessoas com prática sexual anal receptiva sem uso de preservativos e pessoas em uso de profilaxia pré-exposição, semestralmente; pessoas com indicação de profilaxia pós-exposição e vítimas de violência sexual, no atendimento inicial e 4 a 6 semanas após a exposição. Para adolescentes e jovens de até 30 anos, e para os demais subgrupos de maior vulnerabilidade, a célula de clamídia e gonococo não fixa intervalo — manda ver a frequência conforme outros subgrupos populacionais ou práticas sexuais. O método é a detecção por biologia molecular, com o sítio de coleta determinado pela prática sexual.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT IST, seção 2.4 e Quadro 5, com as notas de rodapé sobre método e sítio de coleta

CDC, 2021: rastreamento anual de toda mulher sexualmente ativa com menos de 25 anos

O documento americano parte de que a infecção assintomática é comum e de que os profissionais dependem de testes de rastreamento para detectá-la. Recomenda rastreamento anual de todas as mulheres sexualmente ativas com menos de 25 anos, tanto para clamídia quanto para gonococo, e das mulheres de 25 anos ou mais com risco aumentado — nova parceria, mais de uma parceria, parceria com parcerias concomitantes ou parceria com IST. Acrescenta que, embora a incidência de clamídia possa ser mais alta em algumas mulheres com 25 anos ou mais em certas comunidades, a maior parcela das infecções está entre as menores de 25 anos, e que a gonorreia se concentra em localidades e comunidades específicas, cabendo ao clínico consultar as autoridades locais.

Workowski et al., MMWR Recomm Rep, v. 70, n. 4, 2021, seções Chlamydial Infections e Gonococcal Infections

Na prova

A pista mais confiável é o número. Vinheta que fala em rastreamento anual e no corte de 25 anos está reproduzindo o documento americano; vinheta que fala em primeira consulta de pré-natal, em gestante de até 30 anos, em pessoa com diagnóstico de IST ou em profilaxia pré-exposição está no quadro brasileiro. Cuidado com a mulher de 26 a 29 anos sexualmente ativa e sem outra condição: pela régua americana ela só se rastreia se tiver risco aumentado; pela brasileira, a periodicidade dela é remetida à prática sexual, sem intervalo fixo no quadro. Alternativa que afirma rastreamento anual universal de mulheres jovens como recomendação do Ministério da Saúde é distrator construído sobre essa troca de réguas.

Clamídia não complicada: azitromicina em dose única ou doxiciclina por sete dias

PCDT IST: azitromicina 1 g em dose única é a primeira opção

O quadro brasileiro traz, para infecção por clamídia ou micoplasma, azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, em dose única como primeira opção, com doxiciclina 100 mg, 1 comprimido, por via oral, duas vezes ao dia, por sete dias como segunda — exceto em gestantes. Nos casos de micoplasma, a instrução é dar preferência à azitromicina, porque a doxiciclina apresenta altos níveis de resistência. A lógica é a mesma do resto do protocolo: dose única pode ser tomada diante do profissional, o que resolve adesão num sistema que declara perder pacientes entre a prescrição e o término do tratamento.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT IST, Quadros 31 e 37

CDC, 2021: doxiciclina por sete dias passou a ser o regime recomendado

O documento americano inverte a ordem: doxiciclina 100 mg por via oral duas vezes ao dia por sete dias é o regime recomendado para clamídia em adolescentes e adultos, com azitromicina 1 g em dose única e levofloxacino 500 mg uma vez ao dia por sete dias como alternativas. A base declarada é que uma metanálise e uma revisão sistemática Cochrane de ensaios clínicos randomizados encontraram falha microbiológica maior com azitromicina do que com doxiciclina entre homens, e que estudos observacionais mostraram doxiciclina mais eficaz para a infecção retal por C. trachomatis em homens e mulheres. Na gestação, porém, o mesmo documento recomenda azitromicina 1 g por via oral em dose única, com amoxicilina 500 mg três vezes ao dia por sete dias como alternativa.

Workowski et al., MMWR Recomm Rep, v. 70, n. 4, 2021, seção Chlamydial Infections

Na prova

Duas pistas resolvem. A primeira é o estado gravídico: em gestante, os dois documentos convergem para azitromicina em dose única, e a alternativa com doxiciclina está errada nas duas réguas — é o único ponto do tema em que não há divergência a administrar. A segunda é a ancoragem: enunciado que cita o Ministério da Saúde, a farmácia do SUS ou o tratamento supervisionado quer azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, em dose única; enunciado que cita infecção retal, metanálise, revisão sistemática ou o documento americano quer doxiciclina por sete dias. Repare ainda no levofloxacino: ele não figura em nenhum quadro brasileiro, e sua presença na lista denuncia origem internacional.

06

Caso resolvido

Mulher de 22 anos procura a unidade básica de saúde referindo corrimento vaginal há três semanas e, sobretudo, sangramento após as relações sexuais, que a assustou. Refere ainda desconforto ao urinar. Iniciou parceria sexual nova há dois meses e usa preservativo de forma irregular; nega gestação, ciclos regulares, última menstruação há dez dias. Nega febre, nega dor abdominal e nega náusea. Ao exame, abdome flácido, indolor, sem sinais de irritação peritoneal. Ao exame especular, paredes vaginais de aspecto habitual, com pequena quantidade de conteúdo esbranquiçado; no colo, material mucopurulento amarelado saindo do orifício externo e sangramento fácil ao toque do swab. Ao toque bimanual, não há dor à mobilização do colo, não há dor uterina nem dor anexial. A unidade dispõe de fita de papel indicador de pH e de hidróxido de potássio a 10%, e não dispõe de teste de biologia molecular na consulta — o material colhido é enviado e o resultado sai em cerca de duas semanas. A fita, mantida um minuto na parede vaginal lateral, marca 4,0, e o teste com hidróxido de potássio não produz odor.
achado
O colo decide o caso: material mucopurulento no orifício externo e friabilidade ao toque do swab. São dois dos achados do nó do fluxograma, e qualquer um deles já bastaria. A rota é a da cervicite.
achado
pH de 4,0 e teste das aminas negativo. Isso descreve o conteúdo vaginal, e descreve um conteúdo vaginal normal — não diz nada sobre a mucosa endocervical e não afasta cervicite. Quem lê a fita e conclui pela rota das vulvovaginites troca o antibiótico da consulta.
achado
Queixas compatíveis e fatores de risco presentes: sangramento pós-coito, disúria, idade abaixo de 25 anos, parceria nova, uso irregular de preservativo. Quatro dos cinco fatores associados à prevalência da cervicite estão na vinheta.
raciocínio
Doença inflamatória pélvica precisa ser investigada na mesma caixa do fluxograma — e é o toque bimanual que investiga. Aqui não há dor à mobilização do colo, dor uterina nem dor anexial: os três critérios maiores estão ausentes, e não há febre nem sinal peritoneal. O caso fica na cervicite, sem esquema de DIP.
conduta
Colher material para investigar C. trachomatis e N. gonorrhoeae por biologia molecular — e não esperar o resultado. A regra do protocolo é colher na primeira consulta e não postergar a conduta terapêutica até a entrega dos exames.
conduta
Tratar na consulta: ceftriaxona 500 mg, por via intramuscular, em dose única, mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, em dose única — 1 g no total —, de preferência simultâneas, aplicadas e tomadas ali. Uma injeção e dois comprimidos, sem depender de adesão em casa.
conduta
Convocar a parceria sexual, preferencialmente de forma presencial, com o cartão de comunicação preenchido em duas partes. A parceria é considerada portadora da mesma infecção mesmo sem sintoma e recebe o mesmo tratamento — na prática, a linha de uretrite sem identificação do agente: ceftriaxona 500 mg intramuscular mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, em dose única. Se não comparecer em até 15 dias, comunicação por correspondência ou outro meio confidencial.
conduta
Orientar abstinência de relações sexuais desprotegidas até que o tratamento de ambos esteja completo — como o esquema é de dose única, sete dias após a terapia. Oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, oferecer vacinação para hepatites A e B e para HPV conforme indicação, informar sobre prevenção combinada e verificar se o exame preventivo de câncer de colo do útero está em dia, sem usá-lo como método diagnóstico da infecção.
conduta
Não preencher ficha de notificação compulsória por causa da cervicite: clamídia, gonococo e Mycoplasma genitalium não estão na lista nacional, que alcança sífilis, hepatites B e C, aids, HIV e criança exposta à transmissão vertical. Estados e municípios podem incluir por norma local — conferir. Registrar em prontuário o achado do colo, o esquema aplicado e a comunicação da parceria.
07

Agora feche você

Mulher de 24 anos retorna à mesma unidade básica de saúde onze dias depois de ter sido tratada por cervicite. Naquela consulta, o colo apresentava muco-pus no orifício externo e friabilidade; ela recebeu ceftriaxona 500 mg por via intramuscular e azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, ambas administradas no serviço, e foi orientada a evitar relações sexuais desprotegidas. Hoje refere que os sintomas melhoraram por dois ou três dias e voltaram: mantém corrimento e sangramento após o coito. Conta que a parceria não compareceu ao serviço, apesar de ter recebido o cartão, e que voltaram a ter relações sem preservativo no sétimo dia após o tratamento dela. Nega novos parceiros. Ao exame, abdome indolor, sem sinais de irritação peritoneal; ao espéculo, muco cervical amarelado e friabilidade novamente presentes; ao toque bimanual, sem dor à mobilização do colo, sem dor uterina e sem dor anexial. O resultado da biologia molecular colhida na primeira consulta chegou hoje: positivo para Neisseria gonorrhoeae e negativo para Chlamydia trachomatis.
achado
O esquema foi correto e foi supervisionado: ceftriaxona 500 mg intramuscular mais azitromicina 1 g por via oral, ambas administradas no serviço. Adesão e dose não explicam o retorno dos sintomas.
achado
Houve contato sexual desprotegido no período, com parceria não tratada. Esse é o primeiro item da lista de fatores associados a persistência de sintomas do protocolo — reexposição a parceria sexual não tratada.
raciocínio
A definição de falha terapêutica exige a cláusula que este caso não preenche: sintomas persistentes de três a cinco dias após o tratamento sem contato sexual no período, ou teste de cura positivo sem contato sexual no período. Houve melhora inicial, houve relação desprotegida com parceria não tratada e só depois os sintomas voltaram. O quadro é de reinfecção, não de falha.
achado
Doença inflamatória pélvica está afastada pelo toque bimanual: sem dor à mobilização do colo, sem dor uterina e sem dor anexial, sem febre e sem sinal peritoneal. O caso continua sendo cervicite.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Usar o pH e o teste das aminas para decidir sobre o colo Atrai porque a fita está na bancada, é barata e a paciente já está na maca. Só que pH e hidróxido de potássio avaliam o conteúdo da vagina, e a cervicite é do canal do colo. pH de 4,0 com aminas negativo em mulher com muco-pus no orifício externo não afasta nada — e a paciente sai da consulta com um diagnóstico de conteúdo fisiológico e uma infecção a caminho das tubas. A armadilha tem gêmea: encostar a fita no colo devolve pH falsamente alto, porque o muco cervical é alcalino, e transforma candidíase em vaginose no papel.
  2. 2Tratar cervicite com metronidazol Atrai porque o enunciado começa com a palavra corrimento e porque metronidazol é o reflexo do tema. Mas metronidazol não tem ação sobre Chlamydia trachomatis nem sobre Neisseria gonorrhoeae. O que decide não é a descrição do corrimento: é o colo ao espéculo. Corrimento descrito com riqueza de detalhes e colo descrito em uma linha é frequentemente uma questão sobre a linha do colo.
  3. 3Tratar corrimento vaginal com ceftriaxona e azitromicina Atrai porque é o erro simétrico e porque a cefalosporina injetável parece a conduta mais completa. Só que ceftriaxona e azitromicina não tratam vaginose bacteriana nem candidíase, e a mulher leva uma injeção sem indicação, a convocação de parceria que vem com o rótulo de infecção sexualmente transmissível e a pressão de seleção sobre um antibiótico que a vigilância já vê ameaçado. Colo sem muco-pus, sem friabilidade, sem edema e sem dor à mobilização mantém a paciente na rota das vulvovaginites.
  4. 4Escrever ceftriaxona 250 mg Atrai porque 250 mg foi a dose de material antigo, ainda circula em resumo e existe como apresentação. A régua brasileira é 500 mg intramuscular em dose única, escolha feita por avaliação de custo-benefício frente à apresentação de 250 mg, e o documento americano também subiu para 500 mg, por argumento farmacocinético. Hoje, 250 mg não é a recomendação de nenhum dos dois — o consenso brasileiro apenas registra que doses diferentes são preconizadas em outros países, conforme disponibilidade e evidência local de susceptibilidade.
  5. 5Achar que a azitromicina saiu do esquema brasileiro porque saiu do americano Atrai porque a mudança americana é recente, foi muito divulgada e vem com um argumento forte de resistência a macrolídeos. Mas o quadro brasileiro mantém o par: ceftriaxona 500 mg intramuscular mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, por via oral, em dose única. Alternativa com ceftriaxona sozinha, ou com ceftriaxona mais doxiciclina por sete dias, é redação do documento americano de 2021 — e a presença de uma faixa de peso de 150 kg no enunciado confirma a origem, porque o quadro brasileiro não tem faixa de peso.
  6. 6Prescrever doxiciclina para gestante Atrai porque a doxiciclina é a segunda opção brasileira para clamídia e a primeira linha americana, e porque sete dias soa mais robusto que dose única. Mas o quadro escreve exceto gestantes ao lado dela. Na gestação, a cobertura anticlamídia é a azitromicina — que os dois documentos aceitam —, e é este o único ponto do tema em que a régua brasileira e a americana não divergem.
  7. 7Esperar o resultado da biologia molecular para tratar Atrai porque tratar sem etiologia parece imprudente e porque a coleta já foi feita. A regra do protocolo é o contrário: as amostras se colhem na primeira consulta e, se os resultados não estiverem disponíveis imediatamente, a conduta terapêutica não deve ser postergada até a entrega deles. A justificativa é o quadro de perdas de seguimento — o retorno que não acontece é o degrau em que o sistema perde a cura, e nesse intervalo a infecção sobe.
  8. 8Chamar reinfecção de falha e dobrar a azitromicina Atrai porque os sintomas voltaram e o retratamento existe no quadro, com azitromicina 500 mg, 4 comprimidos. Só que falha terapêutica tem definição, e ela exige sintomas persistentes de três a cinco dias após o tratamento sem contato sexual no período, ou teste de cura positivo também sem contato sexual no período. Houve relação desprotegida com parceria não tratada? É reinfecção, e o próprio comentário do quadro manda tratá-la com as doses habituais. O que resolve o caso é a parceria, não a dose.
  9. 9Notificar cervicite no Sinan Atrai porque a cervicite é infecção sexualmente transmissível e porque notificar parece sempre o lado seguro. A notificação compulsória nacional alcança sífilis adquirida, sífilis em gestante, sífilis congênita, hepatites virais B e C, aids, infecção pelo HIV, HIV em gestante, parturiente ou puérpera, e criança exposta à transmissão vertical. Clamídia, gonococo e Mycoplasma genitalium ficam de fora — podem ser incluídos por estados, Distrito Federal e municípios. É justamente por não serem de notificação compulsória que o país não tem dados nacionais consolidados dessas infecções.
  10. 10Chamar colo em framboesa de cervicite Atrai porque a alteração é do colo, é visível ao espéculo e vem com corrimento. Mas a inflamação do segmento externo do colo relacionada ao Trichomonas vaginalis, que dá o aspecto em framboesa e o teste de Schiller tigroide, é considerada extensão da vaginite — cérvico-colpite —, e não cervicite. A conduta é metronidazol, com tratamento da parceria pelo mesmo esquema, e não ceftriaxona com azitromicina.
  11. 11Pedir sorologia para diagnosticar clamídia urogenital Atrai porque sorologia é exame simples, disponível e a palavra clamídia aparece no pedido. Mas ela é inapropriada para infecções urogenitais: sua aplicação é a investigação de suspeita de infecção sistêmica pregressa, como pneumonia em recém-nascidos, linfogranuloma venéreo, salpingite, epididimite, infertilidade e gravidez ectópica. O método de escolha, para sintomáticos e assintomáticos, é a detecção do material genético por biologia molecular.
  12. 12Oferecer a profilaxia pós-exposição com doxiciclina à mulher com cervicite Atrai porque a estratégia é recente, foi incorporada ao SUS em 2026 e a droga é justamente a que trata clamídia. Mas a indicação avaliada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias delimita duas coisas: as infecções alvo são clamídia e sífilis — o gonococo ficou de fora —, e a população é a de adultos homens cisgênero gays e bissexuais, homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero, vivendo ou não com HIV. A mulher cisgênero com cervicite não é o alvo da estratégia; o que muda o desfecho dela é o tratamento na consulta, a parceria tratada e o preservativo. Alternativa que oferece profilaxia pós-exposição no lugar do esquema antigonocócico troca prevenção por tratamento e deixa a infecção instalada sem cobertura.
  13. 13Tratar a cervicite e esquecer o toque bimanual Atrai porque o espéculo já deu a resposta e o antibiótico já está definido. Mas a caixa do fluxograma traz duas ordens na mesma linha: tratar gonorreia e clamídia e investigar doença inflamatória pélvica. Sem toque bimanual não se avaliam dor à mobilização do colo, dor uterina e dor anexial, que são os três critérios maiores — e a diferença entre uma e outra é a diferença entre dose única e catorze dias de antibiótico, com decisão de internação pelo meio.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro (mucopus endocervical, friabilidade, sinusorragia, fator de risco) é típico de cervicite, cujos agentes são Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis. O PCDT-IST 2022 recomenda tratamento sindrômico com ceftriaxona 500 mg IM DU + azitromicina 1 g VO DU, cobrindo ambos, além de tratar parceria e rastrear outras ISTs. Metronidazol trata vaginose/tricomoníase — descartadas pelo pH normal e KOH negativo. Fluconazol trata candidíase, ausente aqui. Doxiciclina isolada não cobre gonococo e não se deve postergar o tratamento sindrômico aguardando cultura.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a vinheta os usa. Cervicite é assintomática em 70% a 80% dos casos, podendo chegar a 93,3%. Fatores associados: idade inferior a 25 anos, parcerias novas ou múltiplas, parceria com IST, IST prévia ou atual, uso irregular de preservativo. O nó do fluxograma é o colo: muco cervical turvo ou amarelado, friabilidade, edema cervical, sangramento ao toque da espátula ou do swab, dor à mobilização — qualquer um manda colher material para clamídia e gonococo e, na mesma consulta, tratar as duas e investigar doença inflamatória pélvica. Esquema: ceftriaxona 500 mg, IM, dose única MAIS azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, dose única (1 g), de preferência simultâneas. Clamídia isolada: azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, dose única, ou doxiciclina 100 mg, VO, 12/12 h, por 7 dias — 14 comprimidos, exceto gestantes. Alergia grave à cefalosporina: azitromicina 2 g, 4 comprimidos. Retratamento por falha: ceftriaxona 500 mg IM mais azitromicina 2 g, 4 comprimidos; reinfecção, doses habituais. Disseminada: ceftriaxona 1 g, IM ou IV, ao dia, ao menos 7 dias, mais azitromicina 1 g. Conjuntivite gonocócica do adulto: ceftriaxona 1 g IM dose única. Oftalmia neonatal: ceftriaxona 25 a 50 mg/kg/dia IM, máximo 125 mg, dose única, com prevenção por nitrato de prata a 1% ou tetraciclina a 1% na 1ª hora de vida. Rastreamento: biologia molecular; gestante de até 30 anos na 1ª consulta de pré-natal; pessoa com IST e pessoa vivendo com HIV no momento do diagnóstico; prática anal receptiva sem preservativo e PrEP, semestral; PEP e violência sexual, no atendimento inicial e 4 a 6 semanas depois. Transmissão vertical no parto vaginal, 30% a 50%. Infecção gonocócica disseminada, 0,5% a 3%.

em 30 dias

As decisões, não os números. O eixo do capítulo é anatômico: o que sai do orifício do colo é cervicite e o que se forma nas paredes é vulvovaginite, e essa linha decide o antibiótico. pH e teste das aminas não atravessam essa linha — medem o conteúdo vaginal e não dizem nada sobre a mucosa endocervical. A abordagem sindrômica troca especificidade por oportunidade: aceita tratar quem talvez não tenha, para não perder quem tem no retorno que nunca acontece; o protocolo escreve o ganho e escreve o custo, e saber os dois é o que a discursiva cobra. O fluxograma, por construção, só alcança a minoria sintomática com sinal cervical — daí o rastreamento por biologia molecular existir como capítulo à parte, e daí a nota de que colo normal não afasta clamídia nem Mycoplasma genitalium. A gestação muda uma coisa só: doxiciclina sai, azitromicina fica; e é na gestante que a régua brasileira e a americana coincidem. A parceria não é apêndice da conduta — é a conduta: sem ela, a reinfecção devolve a mesma paciente, e é o degrau em que o próprio protocolo declara perder a cura. Falha e reinfecção não são a mesma coisa: falha exige ausência de contato sexual no período e leva a cultura com antibiograma e ao esquema de retratamento com o dobro de azitromicina; reinfecção leva às doses habituais e à convocação de quem ficou de fora. E o que se trata sem exame se trata porque a espera não é neutra: doença inflamatória pélvica, dor pélvica, gravidez ectópica e infertilidade estão do outro lado, com risco de sequela que cresce a cada episódio.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 22 anos com corrimento e sangramento pós-coito há três semanas, parceria sexual nova e uso irregular de preservativo; ao espéculo, muco-pus no orifício externo do colo e friabilidade ao toque do swab, com pH vaginal de 4,0 e teste das aminas negativo, em unidade básica de saúde sem biologia molecular na consulta — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Cervicite por gonococo e clamídia — Preparatório para provas | OsceLabs