Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Contracepção de longa duração

O que separa o LARC de todo o resto não é o mecanismo: é que, depois da inserção, nada mais depende da mulher. A prova cobra isso em três lugares — os números de falha, as janelas de inserção e os três mitos que ainda negam o DIU a quem mais se beneficia dele.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Uma mulher de 32 anos procura a UPA relatando relação sexual desprotegida há quatro dias (cerca de 96 horas), após ruptura do preservativo. Tem ciclos regulares de 28 dias, com última menstruação há 13 dias, e nega uso atual de contraceptivo. É nuligesta, tem índice de massa corporal de 34 kg/m², nega dor pélvica, corrimento ou sinais de infecção genital, e não tem parceiro fora do relacionamento estável. Refere que não deseja engravidar agora nem nos próximos anos e pergunta pelo método mais eficaz. Exame ginecológico sem alterações; teste de gravidez negativo. Quais são, respectivamente, a conduta contraceptiva de emergência mais eficaz e sua justificativa?

02

Como esse tema cai

A vinheta de contracepção de longa duração quase nunca pergunta como se insere um dispositivo. Ela descreve uma adolescente de 16 anos que nunca engravidou, uma puérpera de doze dias, uma mulher com trombofilia, uma paciente que teve doença inflamatória pélvica há três anos — e oferece, entre as alternativas, alguma variação de ela não é candidata. O que a banca cobra é a fronteira: onde o método realmente para e onde a proibição é herança de consultório. Este capítulo trata dos três métodos reversíveis de longa duração disponíveis no Brasil — o dispositivo intrauterino de cobre, o sistema intrauterino de levonorgestrel e o implante subdérmico de etonogestrel —, e a maior parte do trabalho é desmontar contraindicações que os documentos não sustentam.

O sistema de quatro categorias da Organização Mundial da Saúde, que governa toda a elegibilidade contraceptiva, está definido no capítulo do anticoncepcional combinado, e é de lá que vêm também a triagem de risco vascular do estrogênio, a régua do esquecimento de comprimido e a lista de categoria 4 que o estrogênio impõe. Aqui essa lista aparece por um motivo só: quase nada dela alcança o LARC. Doença inflamatória pélvica, sangramento uterino anormal, endometriose e cervicite por gonococo e clamídia têm capítulos próprios nesta apostila e no volume de ciclo menstrual, e para lá vão o diagnóstico e o tratamento — o que fica aqui é o que muda a decisão contraceptiva.

Três números organizam o capítulo. O primeiro é 0,05 — a taxa de falha do implante por 100 mulheres em um ano, a mesma no uso perfeito e no uso típico, e é dessa coincidência que nasce a categoria inteira. O segundo é 5 dias, ou 120 horas, a janela em que o DIU de cobre serve como contracepção de emergência. O terceiro é o par 48 horas e 4 semanas, que delimita a faixa em que o DIU não deve ser inserido no pós-parto. Em torno deles ficam três mitos que a prova gosta de plantar na alternativa errada: nuliparidade, adolescência e passado de doença inflamatória pélvica não contraindicam o dispositivo intrauterino.

03

O que muda decisão

A distância entre o uso perfeito e o uso típico é o capítulo inteiro

O índice de Pearl conta gestações não planejadas a cada 100 mulheres em um ano de uso, e vem sempre em dois números: o do uso perfeito, que mede a farmacologia, e o do uso típico, que mede a vida. Para a pílula combinada, o Quadro 4 do protocolo da Atenção Básica traz 0,3 no uso perfeito e 8 no uso típico; o quadro do protocolo estadual de Mato Grosso do Sul, adaptado de Trussell, traz 0,3 e 9. A distância entre os dois números é de cerca de trinta vezes, e ela é inteiramente da usuária — esquecimento, vômito, diarreia, cartela que acabou.

Nos métodos de longa duração essa distância desaparece. O DIU de cobre tem 0,6 no uso perfeito e 0,8 no uso típico. O sistema intrauterino de levonorgestrel fica em torno de 0,2, ou 2 gestações a cada 1.000 mulheres no primeiro ano. O implante de etonogestrel tem 0,05 nos dois — 5 gestações a cada 10.000 mulheres em um ano. A razão é mecânica e vale mais que a decoração: depois que o dispositivo está no lugar, não há nada que a mulher possa esquecer de fazer. A eficácia deixa de depender de adesão porque não há adesão a manter.

Convertidos para a mesma base, os números ficam brutais. Em 1.000 mulheres ao longo de um ano, a pílula em uso típico produz cerca de 80 a 90 gestações não planejadas; o DIU de cobre, 8; o DIU hormonal, 2; o implante, 0,5. Trocar mil usuárias de pílula por mil usuárias de implante evita, na conta direta, quase noventa gestações por ano. É esse número, e não uma preferência de escola, que sustenta a recomendação de oferecer o LARC como primeira linha.

O ensaio que mais é cobrado sobre isso é o Contraceptive CHOICE Project, e o Relatório de Recomendação nº 1020 da Conitec reproduz seus desfechos em adolescentes. Entre 1.404 adolescentes de 14 a 19 anos, o implante não registrou nenhuma gestação ao longo de 633,3 adolescente-ano de uso, e o DIU de cobre também não registrou nenhuma em 57,3 adolescente-ano; no mesmo período, o injetável trimestral falhou 5,2 vezes por 1.000 adolescente-ano e a pílula, 56,8. Ou seja: na faixa etária em que a adesão é mais frágil, os dois métodos de longa duração não produziram gestação alguma, enquanto a pílula produziu quase 57 a cada 1.000 adolescente-ano — onze vezes mais que o injetável trimestral, que já é um método que não depende de tomada diária.

O terceiro número é o que decide a consulta e quase nunca é lembrado: quantas mulheres ainda estão usando o método um ano depois. O Quadro 4 do protocolo brasileiro dá manutenção de uso em um ano de 68% para a pílula, 56% para os injetáveis e 78% para o DIU de cobre. Entre as adolescentes do CHOICE, a continuidade em 12 meses foi de 82,2% no implante, 75,6% no DIU de cobre, 47,3% no injetável trimestral e 46,7% na pílula — trinta e cinco adolescentes a mais, em cada cem, ainda protegidas ao fim do primeiro ano. O protocolo estadual de Mato Grosso do Sul registra a mesma leitura no conjunto do estudo: 87% de continuidade e satisfação com LARC em 12 meses e 77% em 24, contra 38% a 43% dos métodos de curta duração em 24 meses.

Vale reter a assimetria que esses números escondem. Método de curta duração falha por abandono silencioso — a mulher para, não avisa, e a falha aparece como gravidez. Método de longa duração falha por expulsão ou por perfuração não percebidas, que são eventos raros e detectáveis. É por isso que o seguimento do LARC é curto e objetivo, e o seguimento da pílula é uma conversa sobre rotina.

Os três dispositivos, e quanto tempo dura cada um

O DIU de cobre distribuído no Brasil é o TCu 380 A: um pequeno T flexível de polietileno revestido com 314 mm² de cobre na haste vertical e dois anéis de 33 mm² em cada braço horizontal. O manual técnico do Ministério da Saúde lista suas características em uma linha que resume o método — não contém hormônios, é altamente efetivo, tem longa ação de até 10 anos, retorno quase imediato à fertilidade, ação local sem efeitos sistêmicos e não interfere na lactação.

O sistema intrauterino de levonorgestrel de 52 miligramas libera 20 microgramas por dia no início; a taxa cai ao longo do uso, estabiliza em torno de 12 a 14 microgramas e chega a 11 microgramas por dia ao fim de cinco anos. A duração aprovada mudou recentemente e é exatamente o tipo de detalhe que separa alternativas: a bula aprovada pela Anvisa em 2024 estendeu a eficácia contraceptiva de cinco para até oito anos, em mulheres com útero íntegro e peso corporal igual ou superior a 50 quilos. A extensão vale para contracepção; quando o dispositivo é usado por indicação ginecológica — sangramento uterino anormal, adenomiose, endometriose —, a duração oficialmente indicada continua sendo de cinco anos. Existe ainda a versão de 19,5 miligramas, indicada para contracepção por até cinco anos.

O implante subdérmico é um bastão único de etileno-vinil-acetato com 4 centímetros de comprimento e 2 milímetros de diâmetro, contendo 68 miligramas de etonogestrel, inserido sob a pele do braço. A duração conforme a bula vigente é de até três anos. O relatório da Conitec registra que a fabricante protocolou na Anvisa três pedidos de alteração de bula — ampliação da faixa etária, indicação imediata pós-parto e pós-aborto, e extensão da duração de três para cinco anos —, o que significa que essa é uma das linhas do capítulo com prazo de validade.

Uma consequência prática vale ser dita em números. Uma inserção única de sistema de levonorgestrel cobre oito anos de contracepção; uma de DIU de cobre, dez; uma de implante, três. Comparado com a cartela mensal, o dispositivo de cobre substitui cento e vinte cartelas — e mais de três mil e seiscentas tomadas diárias —, e é essa aritmética, mais que qualquer argumento farmacológico, que explica por que o uso típico e o uso perfeito convergem.

Três dispositivos lado a lado, na mesma escala: um dispositivo intrauterino em T com fio de cobre enrolado na haste e anéis de cobre nos braços, com dois fios pendentes; um dispositivo intrauterino em T com um pequeno reservatório cilíndrico na haste e sem cobre, também com fios pendentes; e um bastão único, reto e fino, do comprimento aproximado de um palito de fósforo, ao lado do contorno de um braço.
Os três, na mesma escala. O de cobre traz 314 mm² de cobre na haste e dois anéis de 33 mm² nos braços, e dura até 10 anos. O hormonal carrega 52 mg de levonorgestrel num reservatório que libera 20 µg por dia no início e cerca de 11 µg por dia ao fim de cinco anos, com contracepção aprovada por até 8 anos. O implante tem 4 cm por 2 mm e 68 mg de etonogestrel, e dura até 3 anos.

DIU de cobre: o que ele faz, e o que ele faz com a menstruação

O mecanismo é local e não é hormonal. Os íons de cobre liberados na cavidade uterina provocam mudanças bioquímicas e morfológicas no endométrio, com ação inflamatória e citotóxica de efeito espermicida; o cobre aumenta a produção de prostaglandinas e inibe enzimas endometriais, e a ação alcança tanto os espermatozoides quanto os ovócitos secundários. Há também espessamento do muco cervical e prejuízo à motilidade e à qualidade espermática, com morte dos espermatozoides por citocinas citotóxicas e fagocitose subsequente. O que o método não faz é inibir a ovulação — a mulher continua ovulando, e a falha do encontro acontece antes da fecundação.

Disso decorre a resposta à pergunta que mais aparece na consulta e, em outra roupa, na prova: o DIU de cobre não é abortivo. O manual técnico do Ministério da Saúde é literal — ele impede o encontro do óvulo com o espermatozoide por alterações bioquímicas e morfológicas no endométrio e no muco cervical.

O preço é o sangramento, e é ele que faz a mulher voltar. O aumento do fluxo menstrual é observado principalmente nos três primeiros meses de uso, e um aumento moderado pode permanecer por períodos mais prolongados em algumas mulheres, cessando imediatamente com a retirada. Cólicas aumentam ou aparecem de forma transitória, especialmente nos primeiros meses e em mulheres sem filhos. Spotting e sangramento leve são comuns nos primeiros três a seis meses e costumam diminuir com o tempo.

A conduta tem ordem e tem uma proibição. Para o sangramento aumentado ou prolongado, oferece-se anti-inflamatório não esteroidal ou ácido tranexâmico nos dias em que o sangramento ocorre — e ácido acetilsalicílico não deve ser usado, porque pode piorar o quadro. Para a cólica, analgésico, de preferência anti-inflamatório não esteroidal ou hioscina; diclofenaco, indometacina, ibuprofeno e ácido mefenâmico são os citados pelo manual brasileiro. Excluem-se causas ginecológicas quando clinicamente indicado. Para prevenir anemia, suplementação de ferro e orientação alimentar. E se o sangramento continuar muito intenso ou prolongado, sobretudo com sinais clínicos de anemia, ou se a mulher o considerar inaceitável, o dispositivo é retirado e ela é ajudada a escolher outro método — a persistência da queixa é motivo suficiente, e não é preciso mais que isso.

Duas leituras finas fecham a seção. Cólicas que continuam e ocorrem fora da menstruação pedem investigação de problema subjacente; se nada for encontrado e a dor for aguda, discute-se a retirada — e, se o dispositivo removido tiver aparência distorcida ou a remoção sugerir que estava fora de posição, vale explicar à mulher que um novo dispositivo possivelmente causará menos cólica. E mulheres em uso de anticoagulante ou com distúrbios da coagulação não se beneficiam do DIU de cobre, justamente pelo provável aumento do fluxo menstrual — nessas, o dispositivo com levonorgestrel faz o caminho inverso.

O DIU de cobre como contracepção de emergência: a janela que a prova cobra

O dispositivo de cobre é o método mais eficaz de contracepção de emergência, e a janela é de cinco dias. O documento de recomendações práticas da OMS é explícito nos dois recortes: o DIU de cobre pode ser colocado em até 120 horas após a relação desprotegida; e, quando o momento da ovulação pode ser estimado, pode ser colocado mais de cinco dias depois da relação, desde que a colocação não ocorra mais de cinco dias após a ovulação. A redução do risco de gravidez é superior a 99% quando inserido dentro das 120 horas.

Duas restrições acompanham. Só pode usar o DIU de cobre como contracepção de emergência quem é clinicamente elegível para o dispositivo — a emergência não suspende os critérios. E o sistema intrauterino de levonorgestrel não é recomendado como contracepção de emergência: a própria OMS registra que as recomendações do dispositivo de cobre não se aplicam a ele por falta de dados robustos de segurança e efetividade nessa indicação. Alternativa que ofereça o DIU hormonal como emergência está errada por essa razão, e não por qualquer outra.

O contraste com a pílula fixa a informação. O Quadro 5 do protocolo da Atenção Básica traz levonorgestrel 1,5 miligrama em dose única por via oral, preferencialmente nas primeiras 72 horas, com limite de cinco dias, e registra que o índice de efetividade para cada ato sexual desprotegido é de 75% — para cada quatro relações desprotegidas, o método previne três gestações. A pílula perde eficácia à medida que o tempo passa dentro da janela; o dispositivo de cobre, dentro das 120 horas, não tem essa erosão. E ele resolve dois problemas de uma vez: encerra a emergência e inicia dez anos de contracepção na mesma consulta.

Uma nota de sequência que cai em vinheta: depois de a mulher tomar a anticoncepção hormonal de emergência, o DIU pode ser inserido imediatamente. Não é preciso esperar a menstruação seguinte.

DIU hormonal: mecanismo, o sangramento ao longo do tempo, e o que ele trata

O sistema intrauterino de levonorgestrel age sobretudo pelo que faz dentro do útero. O muco cervical fica espesso e hostil à penetração espermática, inibindo a motilidade dos espermatozoides no colo, no endométrio e nas tubas; a alta concentração local de levonorgestrel impede a resposta endometrial ao estradiol circulante, com forte efeito antiproliferativo e inibição da atividade mitótica. O ponto que separa quem entendeu de quem decorou é este: o método não é primariamente anovulatório. O protocolo estadual de Mato Grosso do Sul registra que 75% das usuárias mantêm ciclos ovulatórios durante o uso — ao contrário do implante, cuja eficácia depende de bloquear a ovulação.

O padrão de sangramento muda ao longo do tempo, e a curva é o que a mulher precisa ouvir antes de aceitar o método. Spotting e sangramento leve são comuns e diminuem com o tempo; sangramento mais intenso ou mais prolongado pode ocorrer nos primeiros três a seis meses e depois se atenua. Uma coorte brasileira de 256 usuárias mediu a evolução: 44% relataram amenorreia no sexto mês de uso, taxa que se manteve estável em 50% aos 12 e aos 24 meses; o spotting estava presente em 25% das usuárias aos 6 meses e caiu para 8% aos 18 e 11% aos 24; um quarto das mulheres descreveu oligomenorreia. A continuidade ao fim do segundo ano foi de 66,2.

A amenorreia, quando aparece, não é problema clínico e não exige tratamento — orientação basta. Ela só vira motivo de retirada se a mulher a considerar inaceitável, e essa é uma decisão dela, não do serviço. O erro que custa método é tratar amenorreia sob levonorgestrel intrauterino como falha ou como doença; o erro simétrico é prometer amenorreia, que ocorre em cerca de metade das usuárias, e não em todas.

As indicações não contraceptivas são o que faz o dispositivo hormonal atravessar outros capítulos. A bula brasileira o indica para contracepção, para menorragia idiopática e para proteção contra hiperplasia endometrial durante terapia de reposição estrogênica. O protocolo estadual de Mato Grosso do Sul, que distribui o dispositivo com critérios de prioridade, lista quem entra na frente: trombofilias, antecedente pessoal de tromboembolismo, ciclos hipermenorrágicos com anemia, adenomiose e endometriose comprovadas por história clínica ou imagem, antecedente de hiperplasia endometrial, adolescentes e mulheres em situação de vulnerabilidade social.

Repare no que essa lista significa para a vinheta. As duas primeiras entradas — trombofilia e tromboembolismo prévio — são justamente as condições que fecham a porta do estrogênio no capítulo do combinado, e o dispositivo hormonal é a resposta. As três seguintes são doenças que têm capítulo próprio, e o dispositivo entra nelas como tratamento, não como contracepção: sangramento uterino anormal, adenomiose e endometriose, além da hiperplasia endometrial e da proteção endometrial em anovuladoras. Quando o enunciado descreve uma dessas condições somada ao desejo de contracepção, ele está cobrando a escolha que resolve as duas coisas com um procedimento só.

Implante: o que a mulher precisa saber antes de aceitar

O implante de etonogestrel funciona pela inibição consistente da ovulação, somada à alteração do muco cervical, que dificulta a passagem dos espermatozoides, e à alteração do endométrio. A proteção começa rápido: oito horas depois da inserção, os níveis sanguíneos de etonogestrel já são suficientes para inibir a ovulação. A inserção e a retirada são procedimentos ambulatoriais de poucos minutos, feitos por profissional treinado, e não exigem exames — salvo em situações excepcionais, como inserção profunda ou deslocamento do dispositivo, eventos raros.

A conversa que precisa acontecer antes é sobre sangramento, porque é ela que decide se o método será mantido. A Nota Técnica Conjunta nº 419/2025 do Ministério da Saúde quantifica: de forma geral, 80% das usuárias evoluem, em até 12 meses após a inserção, com redução do número de episódios de sangramento — passam a sangrar uma vez por mês ou menos, podendo inclusive não apresentar sangramento algum; e 20% apresentam sangramentos frequentes, mais de uma vez por mês, ou prolongados, com duração de 14 dias por mês ou mais. Dito de outro modo: quatro em cada cinco mulheres sangram menos, uma em cada cinco sangra de forma incômoda, e nenhuma das duas evoluções é sinal de que algo deu errado.

O número confirma o que os estudos de continuidade mostram. No estudo australiano com adolescentes citado pela Conitec, 48% continuaram usando o implante por até 24 meses, com tempo médio de uso de 18,7 meses e intervalo de confiança de 95% entre 17,0 e 20,3 meses, e o principal motivo de descontinuação foi sangramento uterino anormal, responsável por 39% das interrupções. A informação prévia sobre o padrão de sangramento é, portanto, a intervenção mais barata de todo o método.

Dois outros efeitos entram na conversa. Entre os efeitos secundários positivos estão a redução de cólicas e de fluxo menstrual; entre os negativos, além do sangramento irregular e prolongado, dor abdominal, tontura e cefaleia. Quanto ao peso, uma coorte retrospectiva com 20.409 adolescentes e jovens acompanhadas por 36 meses encontrou diferença média de índice de massa corporal de 1,0 kg/m² a mais no grupo do implante em relação ao controle, com intervalo de confiança de 95% de 0,7 a 1,2. É um efeito real, pequeno, e que não se compara ao que a vinheta costuma sugerir. A nota técnica registra ainda ausência de efeitos negativos sobre a densidade óssea e ausência de aumento de risco de câncer de mama, câncer de ovário, infarto ou acidente vascular cerebral.

O retorno da fertilidade é o argumento que fecha o aconselhamento: o nível sérico de etonogestrel torna-se indetectável em até sete dias após a retirada, com retorno da ovulação e capacidade de engravidar em poucos dias. Não há atraso no retorno à fertilidade nem impacto de longo prazo sobre ela.

A régua aplicada ao LARC: quase nada do que trava o combinado trava aqui

As quatro categorias e a regra de que vale sempre a condição mais restritiva estão no capítulo do anticoncepcional combinado. O que interessa aqui é como elas caem sobre métodos sem estrogênio, e a resposta é curta: quase toda a lista de categoria 4 do combinado desaparece. Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar atual ou pregressa, trombofilia conhecida, enxaqueca com aura, tabagismo de 15 cigarros por dia a partir dos 35 anos, hipertensão em qualquer nível, doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral, diabetes com vasculopatia — no Quadro 2 do protocolo brasileiro, a coluna do DIU de cobre traz categoria 1 em todas essas linhas.

A sexta edição dos critérios da OMS confirma e amplia. Para os dois tipos de dispositivo intrauterino, obesidade com índice de massa corporal igual ou maior que 30 é categoria 1, incluindo a faixa da menarca aos 18 anos; tabagismo é 1 em qualquer idade e qualquer quantidade; gravidez ectópica prévia é 1; história de cirurgia pélvica é 1. E há uma linha que vale citar inteira porque desmonta um ritual de consultório: quando a aferição de pressão arterial não está disponível, a categoria é não aplicável, porque a medida da pressão, ainda que apropriada como boa prática preventiva, não guarda relação material com o uso seguro e eficaz do dispositivo — mulheres não devem ter o DIU negado simplesmente por não ser possível medir sua pressão.

O que de fato trava o dispositivo intrauterino é uma lista curta e quase toda de cavidade e infecção. Gravidez é categoria 4 nos dois dispositivos — o DIU não é indicado na gestação pelo risco de infecção pélvica grave e de abortamento séptico. Sepse puerperal é 4. Abortamento séptico imediato é 4. Doença inflamatória pélvica atual é 4 para iniciar. Cervicite purulenta atual, infecção por clamídia ou gonorreia são 4 para iniciar. A esse núcleo o manual brasileiro acrescenta as barreiras anatômicas e oncológicas: anormalidades uterinas como útero bicorno, septado ou estenose cervical intensa; mioma submucoso com distorção relevante da cavidade — mas mioma que não distorce a cavidade não contraindica; tuberculose pélvica; sangramento vaginal inexplicado; câncer de colo uterino. Para o dispositivo de cobre, soma-se a alergia ao cobre.

Para o implante, a lista é ainda menor, porque não há cavidade nem procedimento intrauterino em jogo. O que o restringe é o mesmo que restringe qualquer progestagênio isolado, e o único ponto em que a sexta edição da OMS o mantém em categoria 2 na leitura de rotina é a lactante com menos de 6 semanas de pós-parto — a partir de 6 semanas, e daí em diante, categoria 1 sem restrição.

Duas linhas de HIV merecem atenção porque a vinheta costuma montar armadilha nelas. Mulheres com HIV, em terapia antirretroviral e clinicamente bem, podem colocar o DIU com segurança — a régua brasileira diz isso com todas as letras, e as usuárias com aids devem ser reavaliadas sempre que surgirem sintomas como dor pélvica ou corrimento. Alto risco de HIV é categoria 1 para os dois dispositivos. A restrição existe e é estreita, e depende do estágio clínico: doença assintomática ou leve, estágios 1 ou 2 da OMS, é categoria 2 para os dois dispositivos; doença grave ou avançada, estágios 3 ou 4, é categoria 3 para iniciar e 2 para continuar, também nos dois — e quem já usa deve ser monitorada de perto para infecção pélvica. O manual brasileiro registra a mesma leitura ao dizer que o DIU de cobre não pode ser inserido em vigência de aids nos estágios clínicos 3 e 4. Quanto aos antirretrovirais, o implante é categoria 1 com todos os esquemas listados — inibidores de protease, dolutegravir e raltegravir inclusive —, com uma única exceção: o efavirenz o desloca para categoria 2, ao lado dos combinados e da minipílula, enquanto o injetável trimestral de medroxiprogesterona permanece em 1 mesmo com efavirenz.

Os três mitos: nuliparidade, adolescência e doença inflamatória pélvica passada

Nuliparidade não contraindica o dispositivo intrauterino. Na sexta edição da OMS, mulher nulípara é categoria 2 e mulher com parto prévio é categoria 1, para os dois dispositivos — e o texto de evidência que acompanha a linha é o que resolve a questão: os riscos de gravidez, infecção, perfuração e expulsão são baixos entre todas as usuárias de DIU, as diferenças por paridade podem não ser clinicamente relevantes, e os dados não sugerem atraso maior no retorno à fertilidade em usuárias nulíparas. O documento norte-americano dá a mesma categoria e acrescenta a leitura do ponto que assusta: os dados conflitam quanto à associação entre uso de DIU e infertilidade em nulíparas, embora os estudos bem conduzidos não sugiram risco aumentado. Categoria 2 significa oferecer, não negar.

Adolescência também não contraindica. Da menarca aos 20 anos, categoria 2; a partir dos 20 anos, categoria 1. O manual brasileiro do DIU de cobre é ainda mais direto: mulheres jovens e adolescentes podem utilizar o dispositivo, aconselhando-se sempre o uso concomitante de preservativo, e ele é um dos LARC mais custo-efetivos para as adolescentes. O Fluxograma 6 do protocolo da Atenção Básica indica o DIU de cobre para toda e qualquer mulher, independentemente de ser adolescente ou adulta, que preencha os critérios de elegibilidade. E a Nota Técnica Conjunta nº 419/2025 fecha o ponto no plano do direito: prescrever método contraceptivo para adolescente em conformidade com os critérios clínicos de elegibilidade não configura ato ilícito, o atendimento deve ser assegurado mesmo quando a adolescente está desacompanhada de responsável legal, e sigilo e confidencialidade são obrigatórios.

Doença inflamatória pélvica passada não fecha a porta. Na tabela da OMS, DIP prévia com gestação subsequente é categoria 1 e sem gestação subsequente é categoria 2, para os dois dispositivos — o mesmo par aparece no documento norte-americano. O manual brasileiro traduz isso em prazo: nas mulheres com história de doença inflamatória pélvica há pelo menos três meses e adequadamente tratadas, a inserção pode ser efetuada. E o que vale para o passado vale, em outra chave, para o presente: doença inflamatória pélvica atual é categoria 4 para iniciar, mas categoria 2 para continuar — quem desenvolve a infecção usando o dispositivo trata a infecção, não perde o método.

Há um quarto mito, menor, que aparece com frequência: cesariana prévia. Não há contraindicação ao DIU de cobre em mulheres com ectopia cervical, história de cesariana prévia ou cistos ovarianos. E há um quinto, que a vinheta de cardiopatia adora: mulheres com doença cardíaca valvar, diabetes e câncer de mama podem usar o DIU de cobre, que não aumenta o risco de bacteremia ou de infecções pélvicas, e não há indicação de profilaxia de endocardite durante a inserção.

Um ponto de tensão real merece registro, porque a prova pode explorá-lo. A justificativa que a OMS e o documento norte-americano dão para manter a nulípara e a adolescente em categoria 2 é a preocupação com expulsão — e o manual brasileiro do DIU de cobre afirma, em duas passagens, que não existe diferença significativa de expulsão por idade e paridade, citando estudo retrospectivo que não identificou diferença. O protocolo estadual de Mato Grosso do Sul fica no meio: registra que o dispositivo pode ser usado em nulíparas, inclusive adolescentes, mas com discreto aumento nas taxas de expulsão. A conduta que os três documentos sustentam é a mesma — inserir e acompanhar.

Pós-parto e pós-aborto: as janelas exatas

A régua do pós-parto para o dispositivo intrauterino tem três faixas e vale igualmente para quem amamenta e para quem não amamenta, inclusive após cesariana. Até 48 horas do parto, incluindo a inserção imediatamente após a dequitação placentária, o dispositivo de cobre é categoria 1; o de levonorgestrel é categoria 2 na lactante e 1 na não lactante. De 48 horas a menos de 4 semanas, os dois são categoria 3 — não se insere, salvo se não houver método mais apropriado disponível ou aceitável. A partir de 4 semanas, os dois voltam a categoria 1. Sepse puerperal é categoria 4.

O manual brasileiro converte a faixa em instrução operacional e explica a preferência: a inserção pode ser a qualquer momento até completar 48 horas, mas de forma prioritária deve ser imediata, até 10 minutos após a dequitação, porque a taxa de expulsão é menor; passadas as 48 horas, deve-se esperar de quatro a seis semanas. Se o parto é por cesariana, o dispositivo é colocado depois da saída da placenta, antes de o útero ser fechado.

Os números da expulsão explicam por que os 10 minutos importam. Segundo os dados que o manual reproduz, a inserção pós-dequitação imediata apresenta taxa de expulsão de 7% a 15% em seis meses; a inserção precoce entre 10 minutos e 48 horas, após parto normal, tem taxa em torno de 24%; e a inserção após cesárea varia entre 3% e 12%, menor que a do parto vaginal. Fora do puerpério, a expulsão é mais comum no primeiro ano e ocorre em até 4% a 5% das usuárias. Antecedente de expulsão prévia é o fator de risco que mais pesa: a probabilidade de nova expulsão chega a 30%.

A segurança, medida por infecção e perfuração, não acompanha a expulsão. As taxas de infecção com inserção no pós-parto imediato são similares às da colocação fora do período puerperal, de 0,1% a 1,1%, e a perfuração é rara: de 1,3 a 2,2 por 1.000 inserções. O documento norte-americano acrescenta a leitura de risco relativo que interessa ao seguimento — o risco de perfuração é maior de forma independente entre lactantes e entre mulheres com até 36 semanas de pós-parto, mas o risco absoluto permanece baixo.

Há contraindicações próprias do momento obstétrico, e elas caem em vinheta com regularidade: o DIU pós-parto não deve ser inserido quando houver febre durante o trabalho de parto ou ruptura de membranas há mais de 24 horas; no pós-parto imediato, é contraindicado quando há hipotonia ou atonia após a dequitação ou retenção placentária. E entre 90% e 95% das mulheres são capazes de detectar a expulsão do dispositivo — o que faz do autoexame do fio uma orientação com rendimento real.

O pós-aborto é generoso e simétrico nos três métodos. O dispositivo intrauterino, de cobre ou de levonorgestrel, é categoria 1 e pode ser inserido imediatamente após abortamento de primeiro trimestre, espontâneo ou induzido; após abortamento de segundo trimestre é categoria 2, e pode geralmente ser inserido de imediato, com risco maior de expulsão que no primeiro trimestre; imediatamente após abortamento séptico é categoria 4. O implante pode ser inserido imediatamente após o abortamento, sem necessidade de método de apoio. O manual brasileiro dá a razão de não postergar: metade das mulheres tem relação sexual nos primeiros 30 dias após o abortamento.

Para o implante, as janelas do puerpério são outras e mais largas. Na lactante com menos de 6 semanas de pós-parto, o implante geralmente pode ser inserido — categoria 2. De 6 semanas a 6 meses, e a partir de 6 meses, categoria 1 sem restrição. Na mulher que não amamenta, com menos de 21 dias de pós-parto, o implante é categoria 1 e pode ser inserido sem necessidade de método de apoio. A nota técnica brasileira registra que o implante pode ser usado como anticoncepção imediata pós-evento obstétrico, incluindo o parto, por não interferir na amamentação nem no crescimento do recém-nascido.

Quando inserir, e o que não é preciso fazer antes

Tudo começa por uma pergunta única: é razoavelmente certo que ela não está grávida? A OMS lista seis critérios, e basta um deles, na ausência de sinais e sintomas de gravidez. Não teve relação sexual desde a última menstruação normal. Está usando corretamente e de forma consistente um método confiável. Está nos primeiros sete dias do início da menstruação normal. Está nas primeiras quatro semanas de pós-parto, se não amamenta. Está nos primeiros sete dias pós-aborto ou pós-abortamento espontâneo. Ou está amamentando de forma exclusiva ou quase exclusiva, amenorreica e com menos de seis meses de pós-parto. Fora dessas seis situações — em especial na puérpera que não amamenta e na mulher amenorreica não puérpera —, os critérios não se aplicam e outros meios devem ser usados, o que na prática significa teste de gravidez.

Definido isso, o momento da inserção é quase livre, e os cortes diferem entre os métodos. O dispositivo de cobre pode ser colocado dentro de 12 dias do início do sangramento menstrual sem qualquer método de apoio; passados mais de 12 dias, pode ser colocado desde que haja certeza razoável de não gravidez, e ainda assim sem método de apoio. O dispositivo com levonorgestrel e o implante têm o corte em 7 dias: dentro deles, sem apoio; depois deles, com abstinência ou método de apoio por sete dias. Na mulher amenorreica não puérpera, os três podem ser inseridos a qualquer momento desde que se determine que ela não está grávida, o de cobre sem apoio e os outros dois com sete dias de apoio.

A régua brasileira diz a mesma coisa em caixa alta: não há necessidade de inserção durante a menstruação, desde que excluída a gestação. O manual do Ministério acrescenta que, para quem quer substituir o dispositivo, a remoção do antigo e a inserção do novo podem ser feitas no mesmo momento e em qualquer dia do ciclo. E há uma transição com regra própria, que a prova gosta: quem troca de DIU para implante mais de sete dias após o início da menstruação e teve relação sexual naquele ciclo deve manter o dispositivo intrauterino até a próxima menstruação, porque retirá-lo agora deixaria descoberta uma exposição já ocorrida.

O que não é preciso antes é tão importante quanto o que é. Não há indicação de profilaxia antibiótica para a inserção do DIU — a OMS a reserva a cenários de alta prevalência de infecção gonocócica e clamidiana cervical com rastreio limitado, e o documento norte-americano é categórico em que ela não é recomendada. Não é obrigatória ultrassonografia antes nem depois da inserção; previamente, ela cabe em casos selecionados, como suspeita de malformação uterina ou investigação de sangramento uterino anormal sem diagnóstico. Não é preciso citologia oncótica. Não se rastreia todo mundo em laboratório para infecção sexualmente transmissível antes de inserir.

O que é obrigatório é curto e específico do dispositivo intrauterino. Em mulheres saudáveis, os únicos exames essenciais e mandatórios antes da colocação do DIU são o exame pélvico e genital e a avaliação de risco de infecção sexualmente transmissível por história médica e exame físico; o documento norte-americano classifica como classe A o exame bimanual e a inspeção cervical. Hemoglobina e rastreio laboratorial de IST e HIV são classe B — contribuem, mas sua implementação depende do contexto do serviço. Exame de mamas, rastreio de câncer de colo, exames laboratoriais de rotina e aferição de pressão são classe C, isto é, não contribuem de forma substancial. Para o implante, nenhum exame é essencial ou mandatório; apenas a aferição de pressão é desejável, e sua indisponibilidade não pode negar o método.

A quarta edição das recomendações práticas da OMS trouxe um bloco novo sobre dor na inserção, e ele é material fresco de prova. Anti-inflamatórios não esteroidais podem ser oferecidos rotineiramente antes da colocação do DIU. Onde houver anestésico local e profissional treinado, o bloqueio paracervical pode ser oferecido rotineiramente. Anestésicos tópicos, onde disponíveis, também podem ser oferecidos rotineiramente. Misoprostol não é recomendado para uso rotineiro — pode ser útil em circunstâncias selecionadas, como após uma tentativa recente de inserção que falhou, no esquema de 400 microgramas por via vaginal, 200 microgramas dez horas antes e 200 microgramas quatro horas antes do retorno à clínica. Em todos os casos a mesma ressalva: o dispositivo não deve ser negado quando o recurso não estiver disponível.

O seguimento é enxuto. A OMS recomenda uma consulta após a primeira menstruação ou de 3 a 6 semanas depois da colocação; o manual brasileiro marca 30 a 40 dias. Nela se confere o comprimento do fio em relação ao registrado na inserção — parâmetro simples e mais útil que a ultrassonografia de rotina. Os fios são cortados deixando cerca de 2 a 3 centímetros para fora do colo. A mulher deve ser orientada a retornar a qualquer momento por efeitos adversos, e quando chegar a hora da retirada.

Complicações: perfuração, expulsão, fio ausente, gravidez e infecção

A perfuração é rara — de 1,3 a 2,2 por 1.000 inserções — e tem conduta imediata: havendo suspeita no momento da inserção ou da histerometria, o procedimento é interrompido na hora, o dispositivo é removido caso já tenha sido inserido, e a mulher é encaminhada para avaliação com profissional experiente. Se o dispositivo for visualizado na cavidade abdominal por radiografia ou ultrassonografia, a extração é feita por videolaparoscopia ou laparotomia.

A expulsão se suspeita por corrimento vaginal, sangramento intermenstrual, sinusorragia e dispareunia — mas algumas mulheres não têm sintoma algum, e é por isso que o autoexame do fio vale a orientação. Dispositivo parcialmente exteriorizado deve ser removido, e não reintroduzido; se a mulher desejar continuar com o método, insere-se um novo. Se houver suspeita de expulsão total e ela não souber dizer se o dispositivo saiu, encaminha-se para radiografia ou ultrassonografia para avaliar se migrou para a cavidade abdominal, com método de apoio nesse intervalo.

O fio não visível é o fluxo que a prova mais cobra, e ele tem uma ordem que não se inverte. Primeiro, a anamnese: quando ela viu o dispositivo sair, quando sentiu os fios pela última vez, quando foi a última menstruação, se há sintomas de gravidez, se usou método de apoio desde que notou a falta. Segundo, e este é o passo que decide tudo, excluir gravidez — teste rápido ou beta-hCG. Terceiro, procurar o fio nas dobras do canal cervical, onde ele é encontrado em cerca de metade dos casos; uma escova de coleta de Papanicolau introduzida no orifício cervical costuma recuperá-lo. Só então, se o fio não for localizado, partir para o exame de imagem: ultrassonografia transvaginal para determinar presença e posicionamento e, se o dispositivo não aparecer no útero, radiografia — o DIU de cobre é radiopaco. Se estiver bem posicionado na cavidade, nenhuma ação é necessária. Se estiver na cavidade abdominal, extração cirúrgica. Enquanto isso, método de apoio.

Quatro situações explicam um fio ausente, e vale tê-las na ordem em que mudam a conduta: o dispositivo está bem posicionado e o fio subiu para o canal cervical; o dispositivo foi expelido; houve perfuração e ele migrou para a cavidade abdominal; ou ocorreu uma gravidez. Ausência de fio não é sinônimo de expulsão, e manobras endouterinas às cegas não entram no fluxo.

O mau posicionamento tem uma definição operacional que a vinheta usa: considera-se o dispositivo mal posicionado quando algum segmento se encontra no canal cervical, abaixo do orifício interno. Parâmetros métricos de ultrassonografia — a velha distância da serosa ao dispositivo — não são usados para avaliar posicionamento. Confirmado o mau posicionamento, a conduta é retirar, podendo-se inserir um novo. Uma mulher assintomática cujo fio mantém o comprimento anotado na inserção está, por essa régua, com o dispositivo bem posicionado.

Gravidez com dispositivo in situ começa pela exclusão de gestação ectópica. Confirmada a gestação tópica, a OMS é direta: se os fios estão visíveis ou o dispositivo pode ser retirado com segurança do canal cervical, é melhor retirá-lo, porque a permanência aumenta o risco de abortamento de primeiro e de segundo trimestre — inclusive abortamento séptico, que pode ser fatal — e de parto prematuro, ainda que a própria retirada carregue um pequeno risco de abortamento. Se os fios não estão visíveis e o dispositivo não pode ser recuperado com segurança, usa-se ultrassonografia para localizá-lo; não localizado, considera-se expulsão ou perfuração; localizado dentro do útero, explicam-se os riscos e orienta-se procurar atendimento imediatamente diante de sangramento intenso, cólica, dor, corrimento anormal ou febre. O manual brasileiro acrescenta uma ressalva de execução: com fio não visível em gestação tópica, manobras endouterinas não devem ser tentadas, e não há evidência de aumento de malformações congênitas quando a gravidez ocorre com o dispositivo no útero.

A infecção pélvica em usuária de DIU tem a resposta mais contraintuitiva do capítulo, e é literalmente a mesma nos três documentos: trata-se a doença inflamatória pélvica com antibiótico apropriado e não há necessidade de remover o dispositivo se a mulher deseja continuar usando-o. Entre usuárias tratadas, o curso clínico não diferiu entre remover e manter. Se ela não quiser mantê-lo, a remoção é feita depois de iniciado o antibiótico — e, nesse caso, considera-se contracepção de emergência ou outro método. Se a infecção não melhorar, considera-se a retirada mantendo o antibiótico; se o dispositivo não for retirado, o antibiótico segue de todo modo, e o acompanhamento é próximo. A infecção relacionada à inserção, quando ocorre, aparece geralmente no primeiro mês de uso — e o grande fator de risco para doença inflamatória pélvica é a exposição a infecções sexualmente transmissíveis, não o dispositivo. Vaginose bacteriana, tricomoníase e candidíase em usuária de DIU recebem tratamento habitual, sem remoção.

Dor pélvica ou abdominal em usuária de DIU é sintoma de triagem, não de reasseguramento: avalia-se doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica, abortamento, perfuração uterina e expulsão parcial. Dismenorreia, essa sim, é transitória e se maneja com analgesia.

Retirar: o retorno da fertilidade e a conversa que fecha o método

O retorno da fertilidade é imediato nos três métodos, e é o argumento que mais convence quem hesita. Para o DIU de cobre, o retorno é quase imediato após a retirada, sem efeitos residuais — e o manual brasileiro responde à pergunta na forma em que ela chega ao consultório: o dispositivo não provoca infertilidade, e se a mulher quiser engravidar ele pode ser retirado a qualquer momento. Para o implante, o nível sérico de etonogestrel torna-se indetectável em até sete dias, com retorno da ovulação em poucos dias. Para o dispositivo com levonorgestrel, a maior parte das usuárias sequer perde os ciclos ovulatórios durante o uso.

A conversa de retirada tem uma regra que não é clínica e sim de direito, e a nota técnica do Ministério a coloca dentro do próprio aconselhamento: ao ofertar o método, o profissional informa mecanismo de ação, tempo de duração, forma correta de uso, eventos adversos possíveis, sinais de alarme — e a decisão pela cessação do uso a qualquer tempo. Método de longa duração é reversível por definição, e condicionar a retirada a prazo, a justificativa ou a autorização de terceiro contradiz o documento que autoriza a oferta.

Na perimenopausa, o dispositivo de cobre tem uma regra de retirada própria que cai em questão de conhecimento. Nas mulheres com menos de 50 anos, recomenda-se retirá-lo dois anos após a última menstruação; nas com mais de 50 anos, aguarda-se um ano de amenorreia. E não há problema algum se, por qualquer razão, ele permanecer inserido por períodos prolongados depois da menopausa.

Uma orientação de rotina fecha o seguimento: toda mulher com LARC precisa ser reavaliada a cada 12 meses, e deve ser estimulada a procurar o serviço a qualquer momento se não sentir mais o fio, se sentir parte do plástico do dispositivo, se houver mudança súbita no padrão de sangramento depois de um período de sangramento reduzido ou ausente, ou diante de dor.

O que a rede pública entrega — e o que isso muda na resposta esperada

A lista federal mudou em 2025, e quem responde com a lista antiga erra. Os métodos fornecidos pelo Ministério da Saúde são preservativo externo e interno, contraceptivo oral combinado, pílula oral de progestagênio, injetáveis hormonais mensal e trimestral, laqueadura tubária bilateral, vasectomia, DIU de cobre TCu 380 A e implante contraceptivo subdérmico liberador de etonogestrel 68 miligramas. A incorporação do implante se deu pelas Portarias sectics/MS nº 47 e nº 48, ambas de 8 de julho de 2025, abrangendo adolescentes e mulheres em idade reprodutiva, de 14 a 49 anos. A decisão veio da 142ª Reunião Ordinária da Conitec, de 2 de julho de 2025, em que o Comitê de Medicamentos deliberou por unanimidade recomendar a incorporação para adolescentes de 14 a 17 anos, independentemente da criação de programas específicos.

O sistema intrauterino de levonorgestrel não está nessa lista federal. Ele existe na rede por padronização local, e os critérios de prioridade de um protocolo estadual mostram a lógica com que é distribuído: trombofilias, tromboembolismo prévio, ciclos hipermenorrágicos com anemia, adenomiose e endometriose comprovadas, hiperplasia endometrial, adolescentes e mulheres em situação de vulnerabilidade social. Vale lembrar que algumas localidades ofertam outros métodos além dos previstos pelo Ministério, conforme a relação municipal de medicamentos.

Quem insere é o segundo dado que muda a resposta. A inserção e a retirada do dispositivo intrauterino e do implante são atos de médicos e de enfermeiros devidamente habilitados — a Resolução COFEN nº 690/2022 normatiza a atuação do enfermeiro no planejamento familiar e reprodutivo, e a nota técnica do Ministério reafirma a legalidade e o respaldo técnico dessa prática. O protocolo da Atenção Básica já dizia o mesmo em 2016 para o DIU. A oferta do implante ocorre prioritariamente na Atenção Primária, com o dispositivo armazenado na farmácia da unidade entre 15 e 30 graus, dispensado mediante prescrição e inserido obrigatoriamente na própria unidade.

O registro tem códigos, e eles aparecem em questão de gestão: inserção do dispositivo intrauterino 03.01.04.014-1 e retirada 03.01.04.015-0; inserção do implante subdérmico 03.01.04.017-6 e retirada 03.01.04.018-4. Após o procedimento, registram-se o braço escolhido, o lote e a validade, e entrega-se à mulher um cartão com a data da inserção, a data-limite prevista de remoção, o número do lote e o braço, assinado pelo profissional.

A consequência para a vinheta é direta. Cenário de unidade básica, Sistema Único de Saúde ou Atenção Primária: a oferta de longa duração é o DIU de cobre e o implante, e a alternativa que resolve o caso está entre esses dois. Quando o enunciado acrescenta uma indicação ginecológica — sangramento intenso com anemia, adenomiose, endometriose, proteção endometrial —, ele está puxando para o dispositivo com levonorgestrel, e a justificativa da escolha deixa de ser apenas contraceptiva. E quando o enunciado descreve uma adolescente de 14 a 17 anos pedindo método que não dependa de lembrar, a resposta esperada mudou de lugar em julho de 2025.

O que não é LARC, mas faz a ponte no puerpério

Pílula só de progestagênio e injetável trimestral não são LARC: continuam dependendo de tomada diária ou retorno periódico. São opções úteis quando o estrogênio é contraindicado e podem funcionar como ponte até DIU ou implante, mas a eficácia no uso típico é mais sensível à adesão.

O método da amenorreia lactacional é eficaz apenas quando os três critérios coexistem: menos de seis meses após o parto, amenorreia e amamentação exclusiva ou quase exclusiva, frequente de dia e de noite. Se qualquer critério deixa de existir, a proteção deixa de ser presumida e outro método deve começar.

LAM não é sinônimo de “estar amamentando”. A consulta pós-parto deve oferecer método de continuidade antes que o primeiro sangramento anuncie tarde demais o retorno da ovulação.

04

A régua do LARC: quem pode, quando inserir, e o que fazer quando algo sai do lugar

Os cards mostram, na ordem, o que são os três dispositivos, o abismo de eficácia que justifica a categoria inteira, a janela do pós-parto e o fluxo do fio não visível. O fluxo abaixo é a consulta na ordem em que ela acontece. A tabela principal traz a categoria de elegibilidade condição por condição, nas três colunas de método — e é para ela que a vinheta aponta quando descreve uma comorbidade. As tabelas seguintes fecham o que a prova cobra depois: as janelas do puerpério e do pós-aborto com as duas réguas lado a lado, o momento de inserção com a necessidade ou não de método de apoio, o que fazer diante de cada complicação, e o que a rede pública de fato entrega.

  1. 1Pergunte o que realmente tranca, e é uma lista curta. Gravidez em curso; sepse puerperal ou abortamento séptico recente; doença inflamatória pélvica, cervicite purulenta, clamídia ou gonorreia atuais; distorção da cavidade uterina por malformação ou mioma submucoso; sangramento vaginal inexplicado; câncer de colo ou de endométrio; tuberculose pélvica; alergia ao cobre, para o dispositivo de cobre. Fora disso, quase tudo que proíbe o combinado é categoria 1 aqui.
  2. 2Estabeleça a certeza razoável de não gravidez pelos seis critérios da OMS. Não teve relação desde a última menstruação normal; usa método confiável de forma correta e consistente; está nos primeiros 7 dias da menstruação; está nas primeiras 4 semanas de pós-parto e não amamenta; está nos primeiros 7 dias pós-aborto; ou amamenta de forma exclusiva ou quase exclusiva, está amenorreica e tem menos de 6 meses de parto. Nenhum deles se aplicando, peça o teste de gravidez.
  3. 3Não peça o que não é preciso. Nem citologia oncótica, nem ultrassonografia de rotina antes ou depois, nem rastreio laboratorial universal de infecção sexualmente transmissível, nem antibiótico profilático, nem profilaxia de endocardite na cardiopatia valvar. O que é mandatório antes do DIU é o exame pélvico e genital e a avaliação de risco de IST por história e exame físico. Antes do implante, nenhum exame é essencial.
  4. 4Escolha o dispositivo pelo que a mulher tem além do desejo de não engravidar. Sangramento aumentado, anemia, dismenorreia intensa, adenomiose, endometriose, hiperplasia endometrial ou necessidade de proteção endometrial puxam para o de levonorgestrel. Desejo de método sem hormônio, ou necessidade de contracepção de emergência na mesma consulta, puxam para o de cobre. Medo de procedimento intrauterino, ou colo que impede a inserção, puxam para o implante.
  5. 5Defina o dia. O de cobre pode ser inserido em qualquer dia do ciclo, sem método de apoio, desde que excluída a gravidez. O de levonorgestrel e o implante dispensam apoio se colocados nos primeiros 7 dias da menstruação; fora disso, 7 dias de apoio. Não é preciso menstruar para inserir.
  6. 6No puerpério, leia a janela antes de prometer. Até 48 horas, insira — de preferência nos primeiros 10 minutos após a dequitação. Entre 48 horas e 4 semanas, não insira o dispositivo intrauterino: ofereça o implante, a minipílula ou o injetável e reagende. A partir de 4 semanas, insira. Pós-aborto de primeiro trimestre, insira imediatamente.
  7. 7Ofereça analgesia, agora que ela é recomendação. Anti-inflamatório não esteroidal pode ser oferecido rotineiramente; onde houver anestésico local e profissional treinado, o bloqueio paracervical também; anestésico tópico idem. Misoprostol não entra de rotina. E o dispositivo não deve ser negado porque o recurso não está disponível.
  8. 8Registre o que vai ser conferido depois. Anote o comprimento em que o fio foi cortado — 2 a 3 centímetros para fora do colo — e ensine a mulher a sentir o próprio fio. No implante, registre o braço, o lote e a validade, e entregue o cartão com a data-limite de remoção.
  9. 9Marque o retorno após a primeira menstruação ou de 3 a 6 semanas — de 30 a 40 dias na régua brasileira — e reavalie a cada 12 meses. Oriente retorno imediato se ela não sentir mais o fio, sentir parte do plástico, tiver dor, febre, corrimento anormal ou mudança súbita do padrão de sangramento.
  10. 10Some o preservativo à conversa, sempre. Nenhum dos três protege contra infecção sexualmente transmissível, e a dupla proteção é a única resposta completa quando há risco.

Os três dispositivos, na mesma escala

DIU de cobre TCu 380 A: polietileno em T com 314 mm² de cobre na haste vertical e dois anéis de 33 mm² em cada braço; sem hormônio; até 10 anos. Sistema intrauterino de levonorgestrel de 52 mg: libera 20 µg por dia no início, cerca de 11 µg por dia ao fim de cinco anos; contracepção aprovada por até 8 anos na bula de 2024, e 5 anos quando a indicação é ginecológica; existe também a versão de 19,5 mg, por até 5 anos. Implante de etonogestrel: bastão único de 4 cm por 2 mm com 68 mg, sob a pele do braço, até 3 anos, com ovulação já inibida 8 horas depois da inserção.

A falha em uso típico, em barras proporcionais

Gestações por 100 mulheres em um ano de uso típico, na escala real: pílula combinada 9,0 (barra em ocre); DIU de cobre 0,8; DIU de levonorgestrel 0,2; implante de etonogestrel 0,05 — a barra do implante mede 0,7 de um viewBox de 160 e é apenas um fio, assinalado por um círculo para não desaparecer — e é justamente esse o ponto. Em 1.000 mulheres por um ano: cerca de 90 gestações com a pílula, 8 com o DIU de cobre, 2 com o hormonal e 0,5 com o implante. E nos três LARC o uso perfeito é praticamente o mesmo número do uso típico — 0,6 contra 0,8 no cobre, e idêntico no implante —, porque depois da inserção não sobrou nada para a mulher esquecer.

A janela do pós-parto para o DIU

Três trechos, iguais para quem amamenta e para quem não amamenta, inclusive após cesariana. Até 48 horas do parto, incluindo imediatamente após a dequitação: categoria 1 para o cobre e 2 para o de levonorgestrel na lactante — e a preferência é inserir nos primeiros 10 minutos, porque a expulsão é menor. De 48 horas a menos de 4 semanas: categoria 3 nos dois — a porta que se fecha. A partir de 4 semanas: categoria 1 nos dois. Sepse puerperal: categoria 4 em qualquer momento. O implante não segue esta linha do tempo: é categoria 2 na lactante com menos de 6 semanas e 1 daí em diante, e categoria 1 na não lactante desde o primeiro dia.

Fio não visível: a ordem que não se inverte

Quatro situações explicam um fio ausente: o dispositivo está bem posicionado e o fio subiu para o canal cervical; foi expelido; houve perfuração com migração para a cavidade abdominal; ou ocorreu uma gravidez. Por isso a ordem é fixa. Primeiro, anamnese dirigida e exclusão de gravidez com teste rápido ou beta-hCG. Segundo, procurar o fio nas dobras do canal cervical, onde ele aparece em cerca de metade dos casos — uma escova de coleta de Papanicolau costuma recuperá-lo. Terceiro, ultrassonografia transvaginal para presença e posicionamento. Quarto, se não aparecer no útero, radiografia: o DIU de cobre é radiopaco. Dispositivo bem posicionado na cavidade não exige ação alguma; na cavidade abdominal, extração cirúrgica. Método de apoio durante toda a investigação.

Categoria de elegibilidade, condição por condição

CondiçãoDIU de cobreDIU de levonorgestrelImplanteO detalhe que a vinheta usa
Gravidez confirmada44O dispositivo não é indicado na gestação pelo risco de infecção pélvica grave e abortamento séptico. Para o combinado, a tabela brasileira sequer atribui categoria.
Idade da menarca aos 20 anos221Categoria 2 é oferecer, não negar. A régua da OMS corta em 'menarca a menos de 20 anos'; a nota A do quadro brasileiro escreve 'menor ou igual a 20 anos'.
Idade a partir dos 20 anos111Sem restrição. Idade isolada nunca chega a 3 em nenhum dos três métodos.
Nulípara221A evidência que acompanha a linha diz que risco de gravidez, infecção, perfuração e expulsão é baixo em todas as usuárias, e que não há atraso maior no retorno à fertilidade em nulíparas.
Mulher com parto prévio111
Cesariana prévia111O manual brasileiro é explícito: não há contraindicação em cesariana prévia, ectopia cervical ou cistos ovarianos.
Gravidez ectópica prévia111A minipílula, e não o LARC, é a que sobe para 2 nesta linha na régua norte-americana.
Tabagismo, qualquer idade e qualquer quantidade111Toda a escada de 35 anos e 15 cigarros pertence ao estrogênio, e não alcança o LARC.
Hipertensão em qualquer nível, inclusive 160 por 10011A aferição de pressão é boa prática, mas a OMS registra que não guarda relação material com o uso seguro do DIU — e que a mulher não pode ter o método negado por não ser possível medi-la.
Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar, atual ou pregressa1É a linha que faz o DIU ser a resposta quando o combinado é categoria 4. O de levonorgestrel também é opção, e por isso encabeça os critérios de prioridade estaduais.
Trombofilia conhecida1Mesma lógica: o que trava é o estrogênio.
Enxaqueca com aura1A contraindicação absoluta da aura pertence ao combinado. Oferecer LARC aqui é a conduta, não a exceção.
Obesidade com IMC igual ou maior que 30111Inclusive na faixa da menarca aos 18 anos com IMC igual ou maior que 30.
Doença inflamatória pélvica prévia, com gestação subsequente111Passado de DIP não fecha a porta.
Doença inflamatória pélvica prévia, sem gestação subsequente221O manual brasileiro traduz em prazo: DIP há pelo menos três meses e adequadamente tratada permite a inserção.
Doença inflamatória pélvica atual4 para iniciar / 2 para continuar4 para iniciar / 2 para continuar1Quem desenvolve a infecção usando o dispositivo trata a infecção — não perde o método. O curso clínico não difere entre remover e manter.
Cervicite purulenta atual, clamídia ou gonorreia4 para iniciar / 2 para continuar4 para iniciar / 2 para continuar1Mesma estrutura da DIP: proíbe iniciar, não obriga a retirar.
Outras IST, exceto HIV e hepatites221Vaginite, incluindo tricomoníase e vaginose bacteriana, também é 2 — tratamento habitual, sem remoção.
Risco aumentado de IST2 ou 3 para iniciar / 2 para continuar2 ou 3 para iniciar / 2 para continuar1É a linha em que a OMS e o CDC divergem; ver o bloco de divergências.
Alto risco de HIV111Categoria 1 nos três. Profilaxia pré-exposição com tenofovir-entricitabina, anel de dapivirina ou cabotegravir também é 1.
HIV com doença clínica assintomática ou leve (estágio 1 ou 2 da OMS)221A régua brasileira diz que mulheres com HIV ou aids em terapia antirretroviral e clinicamente bem podem colocar o DIU com segurança.
HIV com doença clínica grave ou avançada (estágio 3 ou 4 da OMS)3 para iniciar / 2 para continuar3 para iniciar / 2 para continuar1Quem já usa não perde o método: continua, com monitorização próxima para infecção pélvica. O manual brasileiro veda a inserção em vigência de aids nos estágios 3 e 4.
Terapia antirretroviral em curso2 a 3 para iniciar / 2 para continuar2 a 3 para iniciar / 2 para continuar1, exceto efavirenz, que é 2A categoria do dispositivo segue o estágio clínico, não o esquema. O implante é 1 com inibidores de protease, dolutegravir e raltegravir; só o efavirenz o desloca para 2.
Sepse puerperal44Categoria 4 em qualquer momento do puerpério.
Abortamento séptico imediato441O implante não compartilha essa contraindicação — não há procedimento intrauterino.
Distorção da cavidade uterina (malformação, mioma submucoso)ContraindicadoContraindicado1Mioma que não distorce a cavidade não contraindica. Estenose cervical intensa impede a inserção.
Sangramento vaginal inexplicadoContraindicado até investigarContraindicado até investigarAcima dos 40 anos, o manual brasileiro pede investigação endometrial antes de decidir.
Doença cardíaca valvar, diabetes, câncer de mama1O DIU de cobre não aumenta risco de bacteremia nem de infecção pélvica, e não há indicação de profilaxia de endocardite na inserção.
Uso de anticoagulante ou distúrbio da coagulaçãoNão se beneficiaPelo provável aumento do fluxo menstrual. Aqui o dispositivo com levonorgestrel faz o caminho inverso.
Alergia ao cobreContraindicado11É a única contraindicação exclusiva do dispositivo de cobre.
Tuberculose pélvica4 para iniciar / 3 para continuar4 para iniciar / 3 para continuar1A inserção pode piorar substancialmente a condição. Tuberculose não pélvica é categoria 1.
Diabetes sem doença vascular, insulinodependente ou não121É uma das poucas linhas em que o dispositivo de cobre e o hormonal divergem entre si — e nenhuma das duas categorias impede o método.

Pós-parto e pós-aborto: as janelas, com as duas réguas lado a lado

SituaçãoOMS 6ª ed. (2025) e Ministério da SaúdeCDC (2024)O que fazer
DIU até 48 horas do parto, amamentando (inclui logo após a dequitação)Cobre 1; levonorgestrel 2Cobre 2; levonorgestrel 2 (corte em 10 minutos após a dequitação)Inserir, de preferência nos primeiros 10 minutos após a dequitação — é onde a expulsão é menor. Na cesariana, após a saída da placenta e antes de fechar o útero.
DIU até 48 horas do parto, não amamentandoCobre 1; levonorgestrel 1Cobre 2; levonorgestrel 2Mesma conduta.
DIU de 48 horas a menos de 4 semanas de parto3 nos dois dispositivos2 nos dois dispositivos (de 10 minutos a menos de 4 semanas)Na régua brasileira, não inserir: aguardar de quatro a seis semanas. Oferecer implante, minipílula ou injetável nesse intervalo.
DIU a partir de 4 semanas de parto1 nos dois dispositivos1 nos dois dispositivosInserir, com certeza razoável de não gravidez. Aqui as duas réguas voltam a coincidir.
Sepse puerperal44Não inserir.
Implante, lactante com menos de 6 semanas de parto22Pode ser inserido. Não interfere na amamentação nem no crescimento do recém-nascido.
Implante, lactante de 6 semanas a 6 meses e daí em diante11Sem restrição.
Implante, não lactante com menos de 21 dias de parto11Inserir sem método de apoio.
Abortamento de primeiro trimestre, espontâneo ou induzidoDIU 1; implante 1DIU 1; implante 1Inserir imediatamente. Metade das mulheres retoma a atividade sexual nos primeiros 30 dias — postergar é onde a gravidez seguinte acontece.
Abortamento de segundo trimestreDIU 2; implante 1DIU 2; implante 1Pode ser inserido de imediato, com risco maior de expulsão que no primeiro trimestre.
Abortamento séptico, imediatamente apósDIU 4; implante 1DIU 4; implante 1Não inserir DIU. Tratar a infecção; o dispositivo pode ser colocado depois de resolvida.

Quando inserir e quando é preciso método de apoio

SituaçãoDIU de cobreDIU de levonorgestrel e implante
Com ciclos menstruais, dentro do corte a partir do início do sangramentoAté 12 dias: inserir a qualquer momento, sem método de apoioAté 7 dias: inserir, sem método de apoio
Com ciclos menstruais, fora do corteMais de 12 dias: inserir com certeza razoável de não gravidez, sem método de apoioMais de 7 dias: inserir com certeza razoável de não gravidez, com 7 dias de apoio
Amenorreica, não puérperaInserir a qualquer momento se determinado que não está grávida, sem apoioInserir a qualquer momento se determinado que não está grávida, com 7 dias de apoio
Trocando de métodoInserir imediatamente com certeza razoável de não gravidez, sem esperar a menstruaçãoInserir imediatamente; vindo de injetável, na data em que a próxima injeção seria dada, sem apoio
Trocando de DIU para implante, mais de 7 dias após o início da menstruação e com relação sexual no cicloInserir o implante e manter o DIU até a próxima menstruação
Depois de tomar anticoncepção hormonal de emergênciaPode ser inserido imediatamente após o usoSeguir a régua do ciclo, com apoio conforme o corte de 7 dias
Como contracepção de emergênciaAté 120 horas da relação desprotegida; ou mais de 5 dias depois, desde que não mais de 5 dias após a ovulação estimadaNão indicado — a OMS não recomenda o dispositivo de levonorgestrel para essa finalidade

Complicações e o que fazer

SituaçãoNúmerosConduta
Perfuração uterina1,3 a 2,2 por 1.000 inserções; risco relativo maior em lactantes e até 36 semanas de pós-parto, com risco absoluto baixoSuspeita durante a inserção ou a histerometria: interromper imediatamente, remover o dispositivo se já inserido e encaminhar. Dispositivo na cavidade abdominal: videolaparoscopia ou laparotomia.
Expulsão fora do puerpérioAté 4% a 5% das usuárias no primeiro ano; 30% de recorrência em quem já expulsou antesExteriorização parcial: remover e não reintroduzir; inserir novo se desejado. Suspeita de expulsão total sem certeza: radiografia ou ultrassonografia, com método de apoio no intervalo.
Expulsão no pós-partoPós-dequitação imediata (até 10 minutos): 7% a 15% em seis meses; entre 10 minutos e 48 horas, após parto normal: cerca de 24%; após cesárea: 3% a 12%É o argumento para inserir nos primeiros 10 minutos. De 90% a 95% das mulheres detectam a expulsão — orientar autoexame do fio e retorno.
Infecção com inserção no pós-parto imediato0,1% a 1,1%, semelhante à inserção fora do puerpérioNão é razão para postergar. O risco de infecção não acompanha o risco de expulsão.
Fio não visívelEm cerca de metade dos casos o fio está no canal cervicalExcluir gravidez; procurar o fio no canal com escova de Papanicolau; ultrassonografia transvaginal; radiografia se não aparecer no útero. Bem posicionado: nenhuma ação. Método de apoio durante a investigação.
Dispositivo mal posicionadoMal posicionado é ter algum segmento no canal cervical, abaixo do orifício internoRetirar, podendo inserir novo. Não usar parâmetros métricos de ultrassonografia — a distância da serosa ao dispositivo não é critério.
Gravidez com dispositivo in situRisco aumentado de abortamento de primeiro e segundo trimestres, inclusive séptico, e de parto prematuroExcluir ectópica. Fios visíveis ou dispositivo recuperável com segurança: é melhor retirar. Fios não visíveis: ultrassonografia; sem manobras endouterinas; orientar retorno imediato diante de sangramento, cólica, dor, corrimento anormal ou febre.
Doença inflamatória pélvica em usuáriaO curso clínico não difere entre remover e manter o dispositivoAntibiótico apropriado, sem necessidade de remover. Se ela quiser a retirada, retirar depois de iniciado o antibiótico e considerar contracepção de emergência. Sem melhora: considerar retirada mantendo o antibiótico.
Dor pélvica ou abdominalCólica é comum nos primeiros três a seis meses, sobretudo na menstruaçãoAvaliar DIP, gravidez ectópica, abortamento, perfuração e expulsão parcial antes de tranquilizar. Dismenorreia: anti-inflamatório não esteroidal ou hioscina.
Sangramento aumentado ou prolongado com o dispositivo de cobreMais intenso nos três primeiros meses; pode persistir moderado em algumas mulheresAnti-inflamatório não esteroidal ou ácido tranexâmico nos dias de sangramento — nunca ácido acetilsalicílico. Ferro para prevenir anemia. Persistindo intenso ou inaceitável, retirar e ajudar a escolher outro método.

O que a rede pública entrega, e por qual norma

MétodoEstá na oferta federal?Observação
DIU de cobre TCu 380 ASimInserção por médico ou enfermeiro habilitado. Código SIGTAP de inserção 03.01.04.014-1 e de retirada 03.01.04.015-0.
Implante subdérmico de etonogestrel 68 mgSim, desde julho de 2025Portarias SECTICS/MS nº 47 e nº 48, ambas de 8 de julho de 2025, para mulheres de 14 a 49 anos. Oferta prioritária na Atenção Primária. Inserção 03.01.04.017-6 e retirada 03.01.04.018-4.
Sistema intrauterino de levonorgestrelNão consta da lista federalExiste por padronização local, com critérios de prioridade: trombofilia, tromboembolismo prévio, ciclos hipermenorrágicos com anemia, adenomiose, endometriose, hiperplasia endometrial, adolescentes e vulnerabilidade social.
Anticoncepção hormonal de emergênciaSimLevonorgestrel 1,5 mg em dose única, preferencialmente nas primeiras 72 horas, limite de cinco dias. O DIU de cobre é alternativa até 120 horas.
Contraceptivo oral combinado, minipílula, injetáveis mensal e trimestralSimRégua de elegibilidade e manejo no capítulo da contracepção hormonal combinada.
Laqueadura tubária e vasectomiaSimMétodos definitivos, fora do escopo deste capítulo.

Categoria 2 significa oferecer. Nuliparidade e adolescência são categoria 2 para os dois dispositivos intrauterinos, e a evidência que acompanha a linha diz que os riscos de gravidez, infecção, perfuração e expulsão são baixos em todas as usuárias e que não há atraso maior no retorno à fertilidade em nulíparas. Recusar o método por nuliparidade ou por idade é conduta sem amparo em nenhum dos documentos.

Doença inflamatória pélvica atual é 4 para iniciar e 2 para continuar. Os dois números não se contradizem: proíbem colocar hoje e proíbem retirar hoje. Trata-se a infecção com antibiótico e o dispositivo fica, se a mulher quiser mantê-lo.

A janela do DIU de cobre como contracepção de emergência é de 120 horas — cinco dias — depois da relação desprotegida, com redução de risco superior a 99%. Quando a ovulação pode ser estimada, cabe mais de cinco dias após a relação, desde que não mais de cinco dias depois da ovulação. O dispositivo de levonorgestrel não serve como emergência.

Não se rastreia todo mundo em laboratório antes de inserir. O que é mandatório é o exame pélvico e genital e a avaliação de risco de IST por história e exame físico; rastreio laboratorial de IST e HIV e dosagem de hemoglobina contribuem, mas dependem do contexto do serviço; exame de mamas, citologia oncótica, exames de rotina e aferição de pressão não contribuem de forma substancial. Antibiótico profilático não é recomendado.

Antes do implante, nenhum exame é essencial ou mandatório. A única ressalva é que é desejável ter a pressão arterial aferida — e, onde isso não for possível, o método não pode ser negado por causa disso.

A quarta edição das recomendações práticas da OMS trouxe analgesia para a inserção do DIU. Anti-inflamatório não esteroidal, bloqueio paracervical e anestésico tópico podem ser oferecidos rotineiramente onde houver recurso e profissional treinado. Misoprostol não é rotina; cabe em circunstâncias selecionadas, como tentativa recente de inserção que falhou, com 400 µg por via vaginal em duas tomadas.

O dispositivo de levonorgestrel de 52 mg tem duas durações na mesma bula: até 8 anos quando a indicação é contracepção, em mulher com útero íntegro e peso corporal igual ou superior a 50 kg; e 5 anos quando a indicação é ginecológica — sangramento uterino anormal, adenomiose, endometriose.

O quadro de taxas de falha do protocolo estadual de Mato Grosso do Sul traz, na linha do sistema de levonorgestrel, o valor 0,1 seguido da glosa '2 em 1.000' — e 0,1 por 100 é 1 em 1.000, não 2. A mesma tabela, na linha da versão de 19,5 mg, registra falha cumulativa de 1,4% em 5 anos com a glosa '15 em 1.000', quando 1,4% de 1.000 é 14. São erros de arredondamento e de conversão da própria tabela; o valor que o texto do documento sustenta, e que este capítulo adota, é 0,2 por 100 mulheres no primeiro ano.

No manual técnico brasileiro do DIU de cobre, as taxas de expulsão após inserção pós-dequitação imediata aparecem como 7% a 15% em seis meses e 2,0% a 2,8% em dois anos. Expulsão acumulada não diminui com o tempo, de modo que os dois pares não podem descrever a mesma coorte; o número que este capítulo usa para a comparação entre momentos de inserção é o de seis meses, que é o que o próprio manual contrasta com os 24% da inserção entre 10 minutos e 48 horas.

Perfuração é evento de inserção e expulsão é evento de seguimento. A primeira se previne com técnica e se reconhece na hora; a segunda se reconhece pelo fio e pelo retorno. Confundir as duas é o que faz a conduta errar de tempo.

LARC: DIU de cobre, DIU com levonorgestrel e implante; pílula e injetável não entram nessa categoria.

LAM só vale com três critérios simultâneos: < 6 meses, amenorreia e amamentação exclusiva ou quase exclusiva.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é a taxa de falha do DIU de cobre no primeiro ano

Protocolos da Atenção Básica (2016) e protocolo estadual (2025): 0,8 em uso típico e 0,6 em uso perfeito

O Quadro 4 do protocolo da Atenção Básica traz, para o DIU de cobre, uso típico 0,8, uso perfeito 0,6 e manutenção de uso em um ano de 78%, e declara como fonte a Organização Mundial da Saúde. O Quadro 1 do protocolo estadual de Mato Grosso do Sul reproduz exatamente os mesmos valores, com a glosa de 8 em 1.000 e 6 em 1.000, e declara como fonte a tabela de Trussell. São dois documentos independentes chegando ao mesmo par, que é o par publicado na literatura de referência de falha contraceptiva.

Brasil, Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Quadro 2, Quadro 4 e Fluxograma 6; Mato Grosso do Sul, Secretaria de Estado de Saúde, Protocolo Estadual de Saúde Reprodutiva: uso de contracepção reversível de longa duração (LARC), 2025, Quadro 1

Manual técnico do DIU (2018) e Nota Técnica nº 419/2025: menos de 0,4% e 0,2% ao ano

O manual técnico do Ministério da Saúde afirma que o DIU com cobre apresenta taxas de gravidez inferiores a 0,4%, ou 4 mulheres a cada 1.000, no primeiro ano, e que nos anos seguintes a taxa anual é ainda menor — mas, no capítulo de mitos, o mesmo documento diz que a efetividade do DIU é de 99,3%, o que corresponde a 0,7 e não a 0,4. A Nota Técnica Conjunta nº 419/2025 dá um terceiro valor: taxa de falha anual de 0,2% para o DIU de cobre, contra 0,05% do implante, na mesma frase em que cita a pílula em até 9% e o preservativo externo em 18%. O valor de 0,2% é justamente o que a literatura de referência atribui ao dispositivo com levonorgestrel.

Brasil, Ministério da Saúde, Manual técnico para profissionais de saúde: DIU com cobre TCu 380 A, 2018; Brasil, Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde, Nota Técnica Conjunta nº 419/2025-DGCI/DESCO/SAPS/MS

Na prova

A questão que cobra número costuma pedir a comparação, não o valor isolado — e nela os três documentos concordam: o DIU de cobre falha cerca de dez vezes menos que a pílula em uso típico, e o implante falha cerca de dezesseis vezes menos que o DIU de cobre. Enunciado que traz o índice de Pearl em duas colunas, uso típico e uso perfeito, está trabalhando com o Quadro 4 do protocolo da Atenção Básica, e a resposta é 0,8 e 0,6. Enunciado que fala em taxa de falha anual única, sem separar uso perfeito, e que compara métodos numa frase corrida com preservativo a 18%, está usando a nota técnica de 2025. Alternativa que atribua 0,2% ao dispositivo de cobre e 0,8% ao hormonal inverteu os dois.

Inserção do DIU entre 48 horas e 4 semanas de pós-parto

Organização Mundial da Saúde (6ª edição, 2025) e Ministério da Saúde: categoria 3, não inserir

A tabela dos dispositivos intrauterinos da sexta edição divide o puerpério em três faixas, iguais para lactantes e não lactantes e inclusive após cesariana: menos de 48 horas, incluindo a inserção imediatamente após a dequitação, é categoria 1 para o cobre e 2 para o de levonorgestrel na lactante; de 48 horas a menos de 4 semanas é categoria 3 nos dois; a partir de 4 semanas é categoria 1 nos dois. O manual técnico brasileiro converte isso em conduta — passadas as 48 horas, deve-se esperar de quatro a seis semanas para realizar a inserção. A lógica é a expulsão: a taxa medida na inserção entre 10 minutos e 48 horas após parto normal fica em torno de 24%, e o útero em involução é o pior momento possível.

World Health Organization, Medical eligibility criteria for contraceptive use, 6ª edição, 2025, seção 5, tabelas dos dispositivos intrauterinos e dos implantes; Brasil, Ministério da Saúde, Manual técnico para profissionais de saúde: DIU com cobre TCu 380 A, 2018

Centers for Disease Control and Prevention (2024): categoria 2 em toda a faixa

A régua norte-americana corta o puerpério em outro ponto e não fecha a porta em momento algum: menos de 10 minutos após a dequitação é categoria 2 para os dois dispositivos, e de 10 minutos a menos de 4 semanas também é categoria 2; a partir de 4 semanas, categoria 1; sepse puerperal, 4. O esclarecimento que acompanha a linha explica a diferença de leitura: a colocação do DIU no pós-parto é segura e não parece aumentar riscos como infecção, e as taxas mais altas de expulsão no período devem ser consideradas na conversa sobre efetividade, junto com o acesso da paciente à inserção de intervalo. Ou seja: a expulsão é tratada como custo a informar, e não como motivo para negar.

NGUYEN, A. T.; CURTIS, K. M.; TEPPER, N. K. et al. U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recommendations and Reports 73(4):1-126 (Centers for Disease Control and Prevention)

Na prova

É a divergência que mais decide alternativa em vinheta de puerpério, e o recorte se identifica pela unidade de tempo do enunciado. Enunciado que descreve o pós-parto em horas e semanas, cita maternidade, unidade básica, Ministério da Saúde ou Sistema Único de Saúde, e oferece 'aguardar quatro a seis semanas' entre as alternativas, está na régua brasileira: de 48 horas a 4 semanas é categoria 3 e não se insere. Enunciado que fala em 10 minutos após a dequitação como marco e discute taxa de expulsão como o único problema está no recorte norte-americano, em que toda a faixa é categoria 2. Nos dois extremos — até 48 horas e a partir de 4 semanas — as réguas coincidem, e a bifurcação desaparece.

Mulher com risco aumentado de IST: adia-se a inserção até testar e tratar?

Organização Mundial da Saúde (6ª edição, 2025): categoria 2 ou 3 para iniciar, conforme o grau de risco

A linha de risco aumentado de IST é categoria 2 ou 3 para iniciar e 2 para continuar, nos dois dispositivos. O esclarecimento explica o par: a inserção pode aumentar ainda mais o risco de doença inflamatória pélvica em mulheres com risco aumentado de IST, embora a evidência limitada sugira que esse risco seja baixo; os algoritmos atuais de predição de risco têm baixo valor preditivo; e, portanto, embora muitas mulheres com risco aumentado possam geralmente receber o dispositivo, algumas com probabilidade individual muito alta não devem recebê-lo até que ocorram teste e tratamento apropriados. A evidência citada registra 11% de complicações relacionadas ao DIU em mulheres classificadas como de alto risco contra 5% nas demais, e incidência de 2,2% de doença inflamatória pélvica após a inserção numa coorte de alto risco.

World Health Organization, Medical eligibility criteria for contraceptive use, 6ª edição, 2025, seção 5, tabelas dos dispositivos intrauterinos e dos implantes

Centers for Disease Control and Prevention (2024): categoria 2, e a colocação não deve ser adiada

A régua norte-americana classifica outros fatores relacionados a IST como categoria 2 na iniciação e na continuação, e o esclarecimento é operacional: a maioria das pessoas não necessita de rastreio adicional de IST no momento da colocação do DIU; se alguém com fatores de risco não tiver sido rastreada para gonorreia e clamídia conforme as diretrizes de tratamento de IST, o rastreio pode ser feito no momento da colocação — e a colocação não deve ser adiada. A evidência que sustenta é a de que mulheres submetidas a rastreio e colocação no mesmo dia apresentam baixa incidência de doença inflamatória pélvica, que os algoritmos de predição têm baixo valor preditivo e que o risco absoluto é baixo.

NGUYEN, A. T.; CURTIS, K. M.; TEPPER, N. K. et al. U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recommendations and Reports 73(4):1-126 (Centers for Disease Control and Prevention)

Na prova

As duas réguas concordam no que é infecção estabelecida — cervicite purulenta, clamídia ou gonorreia atuais são categoria 4 para iniciar e 2 para continuar nos dois documentos. A divergência é sobre risco, não sobre doença. Enunciado que descreve parceria nova, múltiplas parcerias ou alta prevalência local e pergunta se deve aguardar resultado de rastreio está construído sobre a bifurcação. Alternativa redigida como 'coletar rastreio e inserir na mesma consulta, sem adiar' é o recorte norte-americano; alternativa que reserva a não inserção às mulheres com probabilidade individual muito alta, testando e tratando antes, é o recorte da OMS. As duas recusam a leitura de que risco de IST proíbe o DIU.

Por quanto tempo vale o sistema intrauterino de levonorgestrel de 52 mg

Bula aprovada pela Anvisa em 2024: até 8 anos para contracepção

A nota técnica da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, de 30 de julho de 2025, registra que a bula aprovada pela Anvisa em 2024 estendeu o tempo de eficácia contraceptiva do sistema de 52 mg de cinco para até oito anos em mulheres com útero íntegro, quando utilizado exclusivamente para fins de contracepção e em mulheres com peso corporal igual ou superior a 50 kg. A consequência prática que a nota extrai é evitar substituições desnecessárias antes do novo prazo e atualizar o registro do tempo de validade nos prontuários e nas cadernetas.

São Paulo (Município), Secretaria Municipal da Saúde, Nota Técnica nº 02/2025 da Área Técnica de Saúde da Mulher, sobre a bula do SIU de levonorgestrel de 52 mg aprovada pela Anvisa em 2024

Cinco anos: quando a indicação é ginecológica, e no que os serviços ainda operam

A mesma nota é explícita em que a nova recomendação não se aplica às usuárias que utilizam o dispositivo de 52 mg para tratamento de condições ginecológicas — sangramento uterino anormal, adenomiose e endometriose —, cuja duração de uso continua oficialmente indicada como cinco anos. E o prazo de cinco anos segue como referência operacional em documentos estaduais publicados no mesmo ano: o protocolo de saúde reprodutiva de Mato Grosso do Sul, de junho de 2025, descreve a taxa de liberação caindo de 20 para cerca de 11 microgramas por dia ao fim de cinco anos, 'que é o tempo preconizado de uso'.

São Paulo (Município), Secretaria Municipal da Saúde, Nota Técnica nº 02/2025 da Área Técnica de Saúde da Mulher, sobre a bula do SIU de levonorgestrel de 52 mg aprovada pela Anvisa em 2024; Mato Grosso do Sul, Secretaria de Estado de Saúde, Protocolo Estadual de Saúde Reprodutiva: uso de contracepção reversível de longa duração (LARC), 2025, Quadro 1

Na prova

A pista é a finalidade descrita no enunciado, e não a data. Vinheta de contracepção pura, com mulher de útero íntegro, sem queixa ginecológica, e alternativas que falam em 'troca aos 8 anos' está usando a bula atualizada. Vinheta que descreve o dispositivo inserido para sangramento uterino anormal, adenomiose ou endometriose, e pergunta quando trocar, está no prazo de 5 anos, que a atualização não alcançou. Enunciado que descreve a versão de 19,5 mg trabalha com 5 anos em qualquer hipótese. E vale reter o critério que a nota acrescenta e que a alternativa pode esconder: a extensão foi aprovada para mulheres com peso corporal igual ou superior a 50 kg.

Gravidez tópica com o dispositivo no útero e o fio visível: retirar sempre?

Organização Mundial da Saúde (4ª edição das recomendações práticas, 2025): com fio visível, é melhor retirar

A recomendação é direta: excluída a gestação ectópica e esclarecidos os riscos, se os fios estiverem visíveis ou o dispositivo puder ser retirado com segurança do canal cervical, o profissional deve orientar que é melhor retirá-lo, puxando os fios com delicadeza. A justificativa é que a permanência aumenta o risco de abortamento de primeiro e de segundo trimestres — inclusive abortamento séptico, que pode ameaçar a vida — e de parto prematuro, e que a retirada reduz esses riscos, ainda que o próprio procedimento carregue um pequeno risco de abortamento. Mantido ou retirado, a mulher é orientada a procurar atendimento imediatamente diante de sangramento intenso, cólica, dor, corrimento anormal ou febre.

World Health Organization, Selected practice recommendations for contraceptive use, 4ª edição, 2025, seção 5.2 (dispositivos intrauterinos) e 5.5 (contracepção de emergência)

Manual técnico do Ministério da Saúde (2018): a retirada é avaliada pela relação entre o dispositivo e a nidação

O manual brasileiro insere um passo antes da retirada. Com gestação tópica e fio visível no canal vaginal, a retirada é avaliada em função da relação entre a localização do dispositivo e a do sítio de nidação, analisadas pela ultrassonografia; se for observada chance de, ao se retirar o dispositivo, ocorrer descolamento do saco gestacional, considera-se conduta conservadora e nova avaliação ultrassonográfica. Quando indicada, a retirada é realizada idealmente ainda no primeiro trimestre, fase em que a permanência tem maior chance de abortamento — e, retirado precocemente, a taxa de abortamento se equipara à de não usuárias. Com fio não visível, manobras endouterinas não devem ser tentadas.

Brasil, Ministério da Saúde, Manual técnico para profissionais de saúde: DIU com cobre TCu 380 A, 2018

Na prova

Os dois documentos concordam em tudo que antecede a decisão — excluir gravidez ectópica, iniciar pré-natal com ultrassonografia, não tentar manobra endouterina quando o fio não está visível — e divergem só no automatismo da retirada com fio visível. Enunciado que descreve fio visível e oferece 'retirar o dispositivo, explicando o pequeno risco do próprio procedimento' está no recorte internacional. Enunciado que descreve a ultrassonografia mostrando a relação entre a posição do dispositivo e o saco gestacional e pergunta a conduta está no recorte brasileiro, em que a retirada pode ser suspensa se houver risco de descolamento. Alternativa que mande manter o dispositivo sem discutir risco de abortamento, abortamento séptico e prematuridade está errada nas duas réguas.

A nulípara e a adolescente expulsam mais o dispositivo?

Organização Mundial da Saúde e CDC: categoria 2, com a expulsão citada como preocupação

Nas duas réguas, nulípara é categoria 2 e mulher da menarca aos 20 anos também é 2. O comentário norte-americano na linha da idade nomeia as duas preocupações: risco de expulsão pela nuliparidade e risco de IST pelo comportamento sexual em grupos etários mais jovens. A evidência da OMS na linha da paridade matiza, dizendo que os riscos são baixos entre todas as usuárias e que as diferenças por paridade podem não ser clinicamente relevantes; e a evidência na linha da idade registra que mulheres jovens usando dispositivos de cobre podem ter risco aumentado de expulsão em comparação com usuárias mais velhas.

World Health Organization, Medical eligibility criteria for contraceptive use, 6ª edição, 2025, seção 5, tabelas dos dispositivos intrauterinos e dos implantes; NGUYEN, A. T.; CURTIS, K. M.; TEPPER, N. K. et al. U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recommendations and Reports 73(4):1-126 (Centers for Disease Control and Prevention)

Manual técnico do Ministério da Saúde: não há diferença significativa de expulsão por idade ou paridade

O documento nacional afirma duas vezes o contrário do fundamento internacional. Ao indicar o método, escreve que nuligestas também podem utilizar o DIU com cobre porque não existe diferença significativa de expulsão por idade e paridade; e, no capítulo sobre expulsão, registra que estudo retrospectivo não identificou diferença nas taxas quanto à idade ou à paridade, listando como fatores de risco apenas o antecedente de expulsão prévia — com 30% de probabilidade de nova expulsão — e o aumento do fluxo menstrual com dismenorreia severa. O protocolo estadual de Mato Grosso do Sul fica no meio-termo: autoriza o uso em nulíparas, inclusive adolescentes, mas com discreto aumento nas taxas de expulsão.

Brasil, Ministério da Saúde, Manual técnico para profissionais de saúde: DIU com cobre TCu 380 A, 2018; Mato Grosso do Sul, Secretaria de Estado de Saúde, Protocolo Estadual de Saúde Reprodutiva: uso de contracepção reversível de longa duração (LARC), 2025, Quadro 1

Na prova

A divergência é de fundamento, não de conduta: os três documentos mandam inserir. Ela decide alternativa quando o enunciado pede a justificativa da categoria 2, e não a conduta. Alternativa que explique a categoria 2 da nulípara pelo risco de expulsão está reproduzindo o comentário da régua internacional; alternativa que afirme risco aumentado de infertilidade está errada nas duas réguas. Enunciado que cite o manual brasileiro e ofereça 'não existe diferença significativa de expulsão por idade e paridade' também tem amparo — no documento nacional. Em qualquer redação, a alternativa que nega o método por nuliparidade ou por idade é a errada.

06

Caso resolvido

Adolescente de 16 anos procura a unidade básica de saúde sozinha, pedindo um método que ela não precise lembrar de tomar. Nuligesta, ciclos regulares de 29 dias, última menstruação terminou há dez dias. Vida sexual ativa com parceria única; usou anticoncepcional oral por seis meses e abandonou porque esquecia com frequência. Relata uma única relação sexual desprotegida há 72 horas e diz, com todas as palavras, que não quer engravidar. Nega corrimento, dor pélvica, febre, sangramento anormal e qualquer doença; nega antecedente de infecção sexualmente transmissível ou de doença inflamatória pélvica; não usa medicamento algum. Ao exame: bom estado geral, pressão arterial de 108 por 68 mmHg, índice de massa corporal de 21,7 kg/m², exame especular sem corrimento cervical purulento, toque bimanual sem dor à mobilização do colo e sem massas anexiais. A unidade dispõe de DIU de cobre TCu 380 A, implante subdérmico de etonogestrel, anticoncepcional oral combinado, minipílula, injetáveis mensal e trimestral, levonorgestrel 1,5 mg e preservativos, e a enfermeira da equipe é habilitada para inserção.
achado
Há duas demandas sobrepostas, e a vinheta as separa de propósito: uma exposição desprotegida nas últimas 120 horas, que é urgência, e o desejo de um método que não dependa de memória, que é a consulta de planejamento reprodutivo. A resposta completa precisa resolver as duas.
achado
Nada na história ou no exame alcança a lista curta que trava o dispositivo intrauterino. Não há gravidez em curso a considerar antes da avaliação, não há cervicite purulenta ao especular, não há dor à mobilização do colo nem massa anexial, não há sangramento inexplicado, não há distorção de cavidade conhecida, não há sepse puerperal nem abortamento recente, não há antecedente de doença inflamatória pélvica.
achado
Os dois dados que a banca planta como se fossem barreira não são barreira. Ser nuligesta é categoria 2 para os dois dispositivos intrauterinos, e ter 16 anos também — categoria 2 é oferecer, não negar. Estar desacompanhada de responsável não impede o atendimento nem a prescrição, e o sigilo é obrigatório.
raciocínio
A exposição foi há 72 horas, dentro das 120 horas em que o dispositivo de cobre funciona como contracepção de emergência, com redução do risco de gravidez superior a 99%. Ela é clinicamente elegível para o dispositivo, que é o requisito que a própria recomendação impõe para essa indicação. O implante, apesar de disponível e de ser o método com a menor taxa de falha, não serve como contracepção de emergência; e o dispositivo com levonorgestrel tampouco — a OMS não o recomenda para essa finalidade por falta de dados robustos.
raciocínio
O dispositivo de cobre resolve as duas demandas com um procedimento só: encerra a emergência hoje e inicia até dez anos de contracepção de altíssima eficácia, com falha de 0,8 por 100 mulheres em uso típico contra 8 a 9 da pílula que ela já abandonou por esquecimento. A alternativa de dar o comprimido de levonorgestrel hoje e agendar o método definitivo para depois da próxima menstruação cria justamente o intervalo desprotegido em que a gravidez não planejada acontece.
conduta
Inserir o DIU de cobre hoje, na própria unidade, pela enfermeira habilitada ou pelo médico. Antes disso, apenas o que é mandatório: exame pélvico e genital, já realizado, e avaliação de risco de infecção sexualmente transmissível por história e exame físico. Não solicitar citologia oncótica, ultrassonografia de rotina, rastreio laboratorial universal de IST nem antibiótico profilático — nenhum deles é pré-requisito, e exigi-los é criar barreira de acesso sem ganho de segurança. Oferecer analgesia: anti-inflamatório não esteroidal pode ser dado rotineiramente e, havendo anestésico local e profissional treinado, bloqueio paracervical ou anestésico tópico.
conduta
Registrar o comprimento em que o fio foi cortado, de 2 a 3 centímetros para fora do colo, e ensinar o autoexame do fio. Marcar retorno após a primeira menstruação ou de 30 a 40 dias, com reavaliação a cada 12 meses. Orientar retorno imediato se não sentir o fio, sentir parte do plástico, ou tiver dor, febre ou corrimento anormal. Explicar o que esperar do sangramento: fluxo mais intenso e cólicas, sobretudo nos três primeiros meses, com anti-inflamatório ou ácido tranexâmico nos dias de sangramento — nunca ácido acetilsalicílico — e ferro se necessário.
conduta
Reforçar a dupla proteção com preservativo, que é o único método que protege contra infecção sexualmente transmissível, e registrar o atendimento com o código de inserção. Deixar dito, na própria consulta, que o dispositivo pode ser retirado a qualquer momento a pedido dela, com retorno quase imediato à fertilidade — a decisão pela cessação do uso a qualquer tempo faz parte do que se informa no aconselhamento.
07

Agora feche você

Puérpera de 24 anos comparece à consulta na unidade básica com 12 dias de parto, trazendo o recém-nascido para a primeira consulta de puericultura. Parto vaginal a termo, sem intercorrências, sem febre no trabalho de parto, sem hemorragia e sem transfusão. Amamentação exclusiva, mamadas frequentes, criança com ganho de peso adequado. Ainda não menstruou e ainda não retomou relações sexuais. Conta que na maternidade ofereceram o DIU logo depois do parto e ela recusou por medo, e que agora mudou de ideia: quer o dispositivo e quer colocar hoje, porque mora longe e tem dificuldade de voltar. Nega tabagismo, nega comorbidades, não usa medicamento algum. Ao exame: afebril, pressão arterial de 110 por 70 mmHg, útero involuindo, lóquios fisiológicos, sem sinais de infecção puerperal, mamas sem sinais inflamatórios. A unidade dispõe de DIU de cobre TCu 380 A, implante subdérmico de etonogestrel, minipílula de noretisterona, injetável trimestral e preservativos.
achado
Doze dias de parto colocam a mulher exatamente no meio da faixa que os documentos fecham: passou das 48 horas e não chegou às 4 semanas. É a única faixa do puerpério em que o dispositivo intrauterino não é categoria 1.
achado
Não há sepse puerperal nem qualquer sinal de infecção — afebril, lóquios fisiológicos, sem dor. Isso importa porque exclui a categoria 4 e mantém a decisão dentro da leitura de janela, e não de contraindicação absoluta.
achado
Ela amamenta de forma exclusiva, está amenorreica e tem menos de seis meses de parto: preenche um dos seis critérios de certeza razoável de não gravidez, e ainda não retomou relações sexuais. Não é preciso teste de gravidez para iniciar um método hoje.
achado
A dificuldade de retorno é um dado clínico, e não um detalhe narrativo: ela é o argumento que a alternativa errada usa para justificar inserir o dispositivo agora, e é também o que obriga a resposta certa a oferecer alguma proteção hoje.
raciocínio
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Negar o dispositivo intrauterino à mulher que nunca engravidou Atrai porque a frase circula em consultório há décadas e porque a categoria 2 parece uma advertência. É o contrário: na sexta edição dos critérios da OMS e no documento norte-americano, nulípara é categoria 2 e mulher com parto prévio é categoria 1 — e o texto de evidência que acompanha a linha registra que os riscos de gravidez, infecção, perfuração e expulsão são baixos entre todas as usuárias, que as diferenças por paridade podem não ser clinicamente relevantes, e que os dados não sugerem atraso maior no retorno à fertilidade em nulíparas. O manual técnico brasileiro é direto: nuligestas também podem utilizar o DIU com cobre.
  2. 2Exigir a presença de responsável para inserir LARC em adolescente Atrai porque parece prudência jurídica. A Nota Técnica Conjunta nº 419/2025 diz o oposto com todas as letras: o atendimento de adolescentes deve ser assegurado mesmo quando desacompanhados de responsável legal ou acompanhados por pessoa de sua escolha; ter acompanhante é um direito, não uma obrigatoriedade; sigilo e confidencialidade são obrigatórios, salvo risco à vida ou à integridade; e a prescrição de método contraceptivo para adolescente em conformidade com os critérios clínicos de elegibilidade não configura ato ilícito. Da menarca aos 20 anos, o DIU é categoria 2 e o implante é categoria 1.
  3. 3Tratar passado de doença inflamatória pélvica como contraindicação permanente Atrai porque a DIP atual é mesmo categoria 4 para iniciar, e a memória guarda o número sem o qualificador. DIP prévia com gestação subsequente é categoria 1; sem gestação subsequente, categoria 2 — nos dois dispositivos, nas duas réguas. O manual brasileiro traduz em prazo operacional: história de DIP há pelo menos três meses e adequadamente tratada permite a inserção. A vinheta que descreve uma DIP tratada há três anos e oferece 'contraindicado' está montando exatamente essa armadilha.
  4. 4Retirar o dispositivo para tratar a doença inflamatória pélvica Atrai porque a intuição cirúrgica manda tirar o corpo estranho de dentro do foco infeccioso. Os três documentos dizem o mesmo: trata-se a DIP com antibiótico apropriado e não há necessidade de remover o dispositivo se a mulher deseja continuar usando-o, porque entre usuárias tratadas o curso clínico não diferiu entre remover e manter. Se ela preferir a retirada, ela é feita depois de iniciado o antibiótico — e aí entra a conversa sobre contracepção de emergência e novo método. Só se a infecção não melhorar é que se considera retirar mantendo o antibiótico.
  5. 5Condicionar a inserção a citologia, ultrassonografia ou rastreio laboratorial de IST Atrai porque parece cuidado e porque cada um desses exames tem indicação legítima em outro contexto. Em mulheres saudáveis, os únicos exames essenciais e mandatórios antes do DIU são o exame pélvico e genital e a avaliação de risco de IST por história médica e exame físico; rastreio laboratorial de IST e HIV e dosagem de hemoglobina são classe B, e citologia oncótica, exame de mamas, exames de rotina e aferição de pressão são classe C. O manual brasileiro acrescenta que a ultrassonografia não é obrigatória antes nem depois — cabe em casos selecionados, como suspeita de malformação. Antes do implante, nenhum exame é essencial.
  6. 6Prescrever antibiótico profilático para a inserção Atrai por analogia com procedimentos invasivos. A OMS registra que antibiótico profilático não é recomendado de rotina, reservando-o a cenários de alta prevalência de infecção gonocócica e clamidiana cervical com rastreio limitado; o documento norte-americano é categórico em que não é recomendado; e o manual brasileiro diz que não há indicação. Vale a mesma leitura para a cardiopatia valvar: o DIU não aumenta o risco de bacteremia e não há indicação de profilaxia de endocardite na inserção.
  7. 7Marcar a inserção para 'quando estiver menstruada' Atrai porque o colo entreaberto facilita e porque a menstruação afasta gravidez. A régua brasileira responde em caixa alta: não há necessidade de inserção durante a menstruação, desde que excluída a gestação. O dispositivo de cobre pode ser colocado em qualquer dia do ciclo, sem método de apoio; o de levonorgestrel e o implante dispensam apoio nos primeiros 7 dias e pedem 7 dias de apoio fora disso. Exigir a menstruação é criar uma barreira de acesso com custo real: entre a consulta e a data marcada, a mulher continua exposta.
  8. 8Oferecer o DIU hormonal como contracepção de emergência Atrai porque os dois são dispositivos intrauterinos e a diferença parece de fórmula. A OMS registra explicitamente que as recomendações do dispositivo de cobre para emergência não se aplicam ao de levonorgestrel, porque não há dados robustos de segurança e efetividade nessa indicação — e que, até que existam, o uso do sistema de levonorgestrel como contracepção de emergência não é recomendado. A janela de 120 horas com redução de risco superior a 99% pertence ao dispositivo de cobre.
  9. 9Inserir o DIU na puérpera de duas semanas Atrai porque a mulher está na unidade, quer o método e o risco infeccioso já passou. A janela é descontínua: até 48 horas do parto, categoria 1 para o cobre; de 48 horas a menos de 4 semanas, categoria 3 nos dois dispositivos; a partir de 4 semanas, categoria 1 de novo. O manual brasileiro converte em instrução: passadas as 48 horas, esperar de quatro a seis semanas. O que se faz nesse intervalo é oferecer o implante, que é categoria 2 na lactante com menos de 6 semanas, ou a minipílula, e reagendar.
  10. 10Tratar o sangramento aumentado do DIU de cobre com ácido acetilsalicílico Atrai porque é anti-inflamatório e porque anti-inflamatório é a primeira linha aqui. A OMS excetua expressamente o ácido acetilsalicílico, porque ele pode piorar o sangramento. O que se oferece nos dias de sangramento é anti-inflamatório não esteroidal ou ácido tranexâmico, mais ferro para prevenir anemia. E persistindo sangramento muito intenso ou prolongado, sobretudo com sinais de anemia, ou se a mulher o considerar inaceitável, retira-se o dispositivo e ajuda-se na escolha de outro método.
  11. 11Investigar a amenorreia da usuária de DIU hormonal como se fosse doença Atrai porque ausência de menstruação dispara reflexo de investigação. A OMS é econômica: a amenorreia sob dispositivo de levonorgestrel não requer tratamento médico algum, aconselhamento é suficiente, e ela só vira motivo de retirada se a mulher a considerar inaceitável. Numa coorte brasileira de 256 usuárias, 44% relataram amenorreia no sexto mês e a taxa se manteve em 50% aos 12 e aos 24 meses. Antes de qualquer coisa, afasta-se gravidez; depois disso, a conduta é explicar.
  12. 12Concluir expulsão porque o fio sumiu Atrai porque é a explicação mais óbvia e porque a mulher costuma chegar dizendo que o dispositivo caiu. Quatro situações explicam um fio ausente: dispositivo bem posicionado com o fio recolhido no canal cervical, expulsão, perfuração com migração abdominal, ou gravidez. O fio é encontrado no canal em cerca de metade dos casos, e uma escova de coleta de Papanicolau costuma recuperá-lo. Excluir gravidez vem antes de qualquer procedimento mais invasivo, e manobras endouterinas às cegas não entram no fluxo.
  13. 13Dizer que o DIU é abortivo ou que causa infertilidade Atrai porque é o que a mulher ouviu antes de chegar à consulta. O manual do Ministério da Saúde responde às duas em uma linha cada: o DIU com cobre não é abortivo — impede o encontro do óvulo com o espermatozoide por alterações bioquímicas e morfológicas no endométrio e no muco cervical, com efeito citotóxico e espermicida; e não provoca infertilidade, podendo ser retirado a qualquer momento se a mulher quiser engravidar, com retorno quase imediato à fertilidade.
  14. 14Aplicar a lista de categoria 4 do combinado ao LARC Atrai porque a lista é longa, memorizada e a mesma escala de 1 a 4 aparece nas duas tabelas. Trombose venosa profunda atual ou pregressa, trombofilia conhecida, enxaqueca com aura, hipertensão de 160 por 100, tabagismo de 15 cigarros a partir dos 35 anos, doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral: no Quadro 2 do protocolo brasileiro, a coluna do DIU de cobre traz categoria 1 em todas. O que trava o LARC é outra lista — gravidez, sepse puerperal, abortamento séptico, infecção genital atual, distorção de cavidade, sangramento inexplicado e câncer de colo ou de endométrio.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o DIU de cobre é o método de contracepção de emergência mais eficaz (falha < 1%), podendo ser inserido em até 5 dias da relação desprotegida, e tem a vantagem adicional de fornecer contracepção de longa duração — exatamente o desejo da paciente, que é elegível (sem sinais de infecção genital, teste de gravidez negativo). Incorreta: o levonorgestrel perde eficácia progressivamente com o tempo e tem eficácia reduzida em mulheres com IMC elevado — afirmar independência de peso e intervalo é falso. Incorreta: o método de Yuzpe é alternativa apenas quando não há levonorgestrel disponível, sendo menos eficaz e com mais efeitos adversos; não é escolha após 72 horas. Incorreta: existe indicação de contracepção de emergência até 120 horas, e negar a medida expõe a paciente à gestação não planejada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a vinheta os usa. Falha por 100 mulheres em um ano, uso típico e uso perfeito: pílula 8 a 9 e 0,3; DIU de cobre 0,8 e 0,6; DIU de levonorgestrel cerca de 0,2 nos dois; implante 0,05 nos dois. Manutenção de uso em um ano: DIU de cobre 78%, pílula 68%, injetáveis 56%; entre adolescentes do CHOICE, implante 82,2%, DIU de cobre 75,6%, injetável trimestral 47,3%, pílula 46,7%. Duração: cobre TCu 380 A até 10 anos; levonorgestrel de 52 mg até 8 anos para contracepção e 5 anos por indicação ginecológica; levonorgestrel de 19,5 mg 5 anos; implante de etonogestrel 68 mg até 3 anos, com ovulação inibida 8 horas depois da inserção. Emergência: DIU de cobre até 120 horas, com redução de risco maior que 99%; ou mais de 5 dias após a relação, desde que não mais de 5 dias após a ovulação estimada; o de levonorgestrel não serve. Idade: menarca aos 20 anos, DIU categoria 2; a partir dos 20, categoria 1; implante 1 sempre. Paridade: nulípara 2, com parto prévio 1. Pós-parto: até 48 horas cobre 1 e levonorgestrel 2 na lactante; de 48 horas a menos de 4 semanas, 3 nos dois; a partir de 4 semanas, 1; sepse puerperal, 4. Implante: lactante com menos de 6 semanas, 2; daí em diante, 1; não lactante, 1 desde o primeiro dia. Pós-aborto: primeiro trimestre 1, segundo trimestre 2, séptico 4. DIP prévia com gestação subsequente 1, sem gestação subsequente 2; DIP atual e cervicite purulenta, clamídia ou gonorreia atuais: 4 para iniciar e 2 para continuar. Alto risco de HIV: 1. Inserção: cobre até 12 dias do início do sangramento sem apoio, e sem apoio também depois disso; levonorgestrel e implante até 7 dias sem apoio, e 7 dias de apoio depois. Expulsão: até 4% a 5% no primeiro ano, 30% de recorrência em quem já expulsou; pós-dequitação imediata 7% a 15% em seis meses; entre 10 minutos e 48 horas, cerca de 24%; pós-cesárea 3% a 12%. Perfuração 1,3 a 2,2 por 1.000 inserções. Fio no canal cervical em cerca de metade dos casos de fio ausente. Sangramento: amenorreia em 44% aos 6 meses e 50% aos 12 e 24 meses com o dispositivo hormonal; no implante, 80% sangram menos em até 12 meses e 20% sangram mais de uma vez por mês ou por 14 dias ou mais. SUS: DIU de cobre TCu 380 A e implante de etonogestrel 68 mg, este pelas Portarias SECTICS/MS nº 47 e nº 48, de 8 de julho de 2025, para mulheres de 14 a 49 anos.

em 30 dias

As decisões, não os números. O eixo do capítulo é uma frase: depois que o dispositivo está no lugar, não sobra nada para a mulher esquecer — e é daí que vem tudo o mais. É por isso que uso típico e uso perfeito coincidem nos três métodos, por isso a continuidade em um ano é o dobro da dos métodos de curta duração, e por isso a conversa clínica se desloca do 'como usar' para o 'o que esperar do sangramento', que é o motivo real de abandono. A régua de elegibilidade quase não morde aqui: toda a lista de categoria 4 do combinado — trombose, trombofilia, enxaqueca com aura, hipertensão grave, cigarro depois dos 35 — é categoria 1 para o DIU de cobre, de modo que o LARC é a resposta padrão quando o estrogênio está vedado. O que trava é outra lista, curta e de cavidade ou infecção: gravidez, sepse puerperal, abortamento séptico, infecção genital atual, distorção da cavidade, sangramento inexplicado e câncer de colo ou de endométrio. Fora dela, a tarefa clínica é desmontar barreiras que não existem: nuliparidade e adolescência são categoria 2, que significa oferecer; passado de doença inflamatória pélvica adequadamente tratada permite inserir; DIP atual em usuária se trata com antibiótico sem retirar o dispositivo; e citologia, ultrassonografia de rotina, rastreio laboratorial universal de IST e antibiótico profilático não são pré-requisito de nada. As duas janelas que realmente mudam conduta são o pós-parto, com sua faixa proibida entre 48 horas e 4 semanas por causa da expulsão, e as 120 horas em que o dispositivo de cobre resolve a emergência e inicia dez anos de contracepção no mesmo ato. Quando algo sai do lugar, a ordem é sempre a mesma: excluir gravidez, procurar o fio no canal, imagem depois — e nunca manobra às cegas. E a escolha entre os três dispositivos raramente é sobre contracepção: é o sangramento que decide, para mais no cobre e para menos no hormonal e no implante, e é a indicação ginecológica somada ao desejo de não engravidar que faz o sistema de levonorgestrel resolver dois problemas com um procedimento.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Adolescente de 16 anos, nuligesta, sozinha na unidade básica, pedindo um método que não dependa de lembrar — depois de abandonar a pílula por esquecimento e de uma relação desprotegida há 72 horas — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Contracepção de longa duração — Preparatório para provas | OsceLabs