Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Climatério e menopausa

A prova quer saber se você diagnostica a menopausa sem pedir exame — e se sabe exatamente quando o FSH entra em cena: na dúvida dos 40–45, na mulher sem útero, e na suspeita de insuficiência ovariana prematura.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 52 anos queixa-se de amenorreia há 14 meses, associada a fogachos, sudorese noturna e ressecamento vaginal. Nega uso de hormônios. Considerando o quadro clínico típico, qual é o diagnóstico? Assinale a alternativa correta.

02

Como esse tema cai

Climatério cai em prova de um jeito quase protocolar: uma mulher de 45 a 55 anos com fogachos e ciclos rareando, e a pergunta é o que fazer para confirmar o diagnóstico. A resposta que a banca espera — nenhum exame — é justamente a que o candidato ansioso erra. O diagnóstico da síndrome do climatério e da menopausa é clínico na faixa etária esperada; dosagem hormonal é a exceção, com endereço certo: dúvida diagnóstica real, mulher histerectomizada sem critério menstrual, e suspeita de insuficiência ovariana prematura. A segunda pegadinha clássica é o valor do FSH: o manual do Ministério da Saúde ensina 40 mUI/mL, a FEBRASGO e o STRAW+10 trabalham com 25 — e a diferença tem explicação técnica, não é erro de ninguém.

Este capítulo cobre a nomenclatura (climatério, perimenopausa, menopausa, pós-menopausa), o estadiamento STRAW+10, a fisiologia do envelhecimento ovariano que as bancas adoram transformar em questão de sequência, o quadro clínico com seus dois grandes blocos (sintomas vasomotores e síndrome geniturinária da menopausa), a régua diagnóstica por faixa etária e a insuficiência ovariana prematura com o critério atualizado em 2024. Ficam fora, com capítulo próprio nesta apostila ou na fila: a terapia hormonal (indicações, contraindicações e esquemas), a osteoporose pós-menopausa e a investigação do sangramento pós-menopausa, que pertence ao câncer de endométrio. Aqui o assunto é reconhecer e diagnosticar — sem pedir exame demais nem de menos.

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O que muda decisão

Nomes e datas: o vocabulário que a questão testa

Climatério, na definição da OMS adotada pelo Ministério da Saúde, é uma fase biológica da vida — não um processo patológico — que compreende a transição entre o período reprodutivo e o não reprodutivo. Menopausa é um evento dentro dessa fase: a data do último episódio de sangramento menstrual, definida retrospectivamente depois de 12 meses de amenorreia. Ninguém 'está na menopausa' no dia em que ela acontece; ela só ganha nome um ano depois. Perimenopausa é o período ao redor desse marco: começa com as primeiras irregularidades da transição menopausal e termina 12 meses após a última menstruação. Pós-menopausa é tudo o que vem depois. 'Síndrome do climatério' é o conjunto de sinais e sintomas dessa fase — e é ela, não a menopausa em si, que se diagnostica na mulher que ainda menstrua.

As idades importam porque definem conduta. A menopausa natural ocorre em média aos 51 anos, e 90% das mulheres a apresentam entre os 45 e os 55 — números do position statement da FEBRASGO de 2022 (o manual do MS, de 2008, traz 'em torno dos 48 aos 50'; a faixa dos 45 aos 55 é comum às duas fontes). Abaixo disso, a nomenclatura atual divide em dois andares: menopausa entre 40 e 45 anos é a menopausa precoce (early menopause), que acomete cerca de 5% das mulheres; perda da atividade ovariana antes dos 40 é insuficiência ovariana prematura (IOP), presente em cerca de 1% — e IOP não é 'menopausa antecipada': é síndrome com investigação etiológica própria, função ovariana intermitente e implicações de longo prazo. Há ainda a menopausa induzida: cirúrgica, quando os dois ovários são removidos (instala-se de imediato, sem os 12 meses de espera), ou iatrogênica, por quimioterapia ou radioterapia pélvica.

O motor do processo: inibina cai, FSH sobe

A reserva ovariana é finita e sua depleção comanda todo o quadro. Os primeiros a sentir são os hormônios foliculares: com menos folículos recrutáveis, cai a produção de inibina B — o freio específico do FSH — no final da quarta década de vida. O FSH da fase folicular inicial sobe em resposta, e sobe mais pela queda da inibina do que pela do estradiol: por isso ele reflete a reserva folicular e é o marcador laboratorial usado na prática. O FSH elevado hiperestimula os folículos remanescentes, encurta a fase folicular e pode até elevar o estradiol. O resultado clínico é contraintuitivo e adorado pelas bancas: o primeiro sinal da diminuição da reserva ovariana é o encurtamento do intervalo entre as menstruações, não o alongamento. Mulheres na perimenopausa podem inclusive ter sintomas de estrogênio alto — mastalgia, distensão — refletindo a flutuação hormonal intensa da fase.

Com a depleção avançando, a anovulação vira regra. Sem corpo lúteo e sem progesterona para organizar o ciclo, os intervalos se alongam para 40 a 50 dias — em média a partir dos 47 anos — e episódios cada vez mais longos de amenorreia se intercalam com sangramentos de volume variável, num padrão que costuma durar de um a três anos antes da menopausa. Instalada a menopausa, o perfil hormonal se inverte de vez: FSH cerca de 10 a 15 vezes acima do basal reprodutivo, LH 3 a 5 vezes, estradiol reduzido em até 80%. O estrogênio dominante da pós-menopausa passa a ser a estrona, produzida por aromatização periférica (sobretudo no tecido adiposo) dos androgênios adrenais e do estroma ovariano — detalhe de fisiologia que aparece em alternativa com regularidade.

Uma consequência prática dessa montanha-russa: na perimenopausa o FSH flutua dia a dia. Um valor elevado isolado não sela o diagnóstico — a mulher pode voltar a ovular no ciclo seguinte — e um valor normal não exclui a transição. É por isso que, quando a dosagem é realmente necessária, a FEBRASGO recomenda duas medidas com intervalo de 4 a 6 semanas, e é por isso que o diagnóstico continua sendo, antes de tudo, clínico.

Três cortes de ovário lado a lado mostrando a redução progressiva do número de folículos ao longo da vida.
A depleção folicular é o motor do climatério: menos folículos, menos inibina B, FSH em ascensão — um processo que começa anos antes da última menstruação.

STRAW+10: o mapa oficial do envelhecimento reprodutivo

O STRAW+10 (Stages of Reproductive Aging Workshop, revisão de 2011 publicada em 2012) é o sistema de estadiamento adotado internacionalmente e referendado pela FEBRASGO. Ele divide a vida reprodutiva adulta em estágios centrados na menopausa (estágio 0): fase reprodutiva (−5 a −3), transição menopausal (−2 e −1) e pós-menopausa (+1 e +2). O eixo do sistema é o padrão menstrual — critério objetivo, barato e aplicável em qualquer serviço; os biomarcadores (FSH, AMH, inibina B, contagem de folículos antrais) são apoio, não requisito. O sistema não usa idade como critério e vale independentemente de etnia, IMC ou estilo de vida.

Os marcos que caem em prova: no estágio reprodutivo tardio (−3), os ciclos ainda são regulares ou discretamente encurtados, mas AMH, inibina B e contagem antral já estão baixos e o FSH começa a subir e variar. A transição menopausal precoce (−2) começa quando surge variação persistente de 7 dias ou mais na duração de ciclos consecutivos — persistente significa que a variação se repete dentro de 10 ciclos. A transição tardia (−1) é marcada por amenorreia de 60 dias ou mais; o FSH passa a alcançar valores acima de 25 UI/L em coleta aleatória, os sintomas vasomotores se tornam prováveis, e o estágio dura em média 1 a 3 anos. A pós-menopausa precoce (+1) se subdivide: +1a e +1b duram 1 ano cada e cobrem o período em que FSH ainda sobe e estradiol ainda cai; +1c é a fase de estabilização, com 3 a 6 anos — o conjunto dura em torno de 5 a 8 anos. A pós-menopausa tardia (+2) é dominada pelo envelhecimento somático, com a síndrome geniturinária ganhando prevalência.

Tão importante quanto os estágios são as exceções, porque viram pegadinha: mulheres histerectomizadas ou submetidas a ablação endometrial não têm critério menstrual — o estadiamento se faz apenas pelos marcadores endócrinos, esperando pelo menos 3 meses após a cirurgia (procedimentos pélvicos elevam o FSH transitoriamente) e repetindo a dosagem, porque uma medida isolada engana. Síndrome dos ovários policísticos e amenorreia hipotalâmica também invalidam o critério menstrual: a oligomenorreia dessas condições não é envelhecimento ovariano. E a IOP não cabe no modelo — tem curso mais variável, com retomada espontânea de função ovariana numa proporção substancial dos casos.

A cara do climatério: vasomotor transitório, geniturinário progressivo

Os sintomas vasomotores — fogachos ou ondas de calor — são os mais associados à transição. São sensações súbitas de calor na região central do corpo (face, tórax e pescoço), duram em média 3 a 4 minutos (o manual do MS descreve de segundos a 30 minutos), acompanham-se de taquicardia, vasodilatação cutânea e sudorese, e quando ocorrem de madrugada fragmentam o sono. A fisiopatologia aceita é o estreitamento da zona termoneutra hipotalâmica pelo hipoestrogenismo. Sobre duração, o estudo SWAN respondeu a pergunta que toda paciente faz: mediana de 7,4 anos de sintomas no total, com persistência mediana de 4,5 anos após a última menstruação — e mais de 11,8 anos quando os fogachos começam cedo, ainda na pré-menopausa ou no início da transição. 'Passa em uns dois anos' é resposta errada em consultório e em prova.

O segundo bloco é a síndrome geniturinária da menopausa (SGM) — nomenclatura que substituiu 'atrofia urogenital': ressecamento vaginal, prurido, ardência, dispareunia, disúria, urgência miccional e infecções urinárias de repetição, pelo hipoestrogenismo de um epitélio vaginal e uretral que compartilha origem embriológica e receptores de estrogênio. Duas características de prova: o diagnóstico deve ser proativo — a FEBRASGO recomenda perguntar ativamente, porque a paciente raramente relata espontaneamente — e o curso é oposto ao dos fogachos: enquanto o vasomotor tende a melhorar com os anos, a SGM é progressiva sem tratamento. Um efeito colateral prático: a atrofia intensa degrada a citologia cervical e favorece resultados como ASC-US; estrogênio tópico por pelo menos 21 dias antes de repetir a coleta melhora a amostra.

O terceiro bloco é neuropsíquico: a transição menopausal é janela de vulnerabilidade para sintomas depressivos, mesmo em mulheres sem história prévia — vale rastrear (o PHQ-9, validado em português, sinaliza risco com escore ≥ 9; a Menopause Rating Scale cobre o espectro de sintomas climatéricos). Insônia, artralgias e queixas cognitivas completam o quadro. E uma ressalva que o position statement da FEBRASGO faz questão de registrar: os sintomas de disfunção tireoidiana imitam os do climatério — calor, irregularidade menstrual, ganho de peso, alteração de humor. Mulher na perimenopausa com quadro confuso merece TSH, e acima dos 60 anos o rastreamento com TSH é recomendação da sociedade latino-americana de tireoide.

Diagnóstico: quando a clínica basta e quando o FSH entra

A regra de ouro vem igual do Ministério da Saúde (2008) e da FEBRASGO (2022): na mulher com mais de 45 anos com sintomas típicos de hipoestrogenismo e alteração característica do padrão menstrual, o diagnóstico da síndrome do climatério é clínico e não precisa de confirmação laboratorial. A menopausa se define retrospectivamente com 12 meses de amenorreia. Pedir FSH 'para documentar' nessa mulher é a alternativa-isca das questões — e conduta errada na vida real. Dosagem hormonal tem três endereços: dúvida diagnóstica genuína (sintomas atípicos, quadro confuso), impossibilidade de usar o critério menstrual (histerectomia) e idade abaixo da esperada.

Quando a dosagem se justifica, o exame é o FSH na fase folicular inicial, e o jeito certo de pedir é em duas dosagens com intervalo de 4 a 6 semanas, porque a variabilidade diária na transição é grande. O corte atual é 25 mUI/mL — valores acima indicam a faixa da transição menopausal tardia. O número 40, consagrado em livros e no manual do MS, não está 'errado': o STRAW+10 explica que 25 UI/L nos padrões hipofisários internacionais atuais equivalem a mais de 40 UI/L nos antigos padrões urinários de gonadotrofina em que a literatura clássica foi calibrada. Entenda os dois e reconheça qual régua a questão está usando.

Abaixo dos 45 anos, a lógica se inverte: irregularidade menstrual com ciclos infrequentes, mesmo com cara de hipoestrogenismo, exige propedêutica complementar antes do rótulo de climatério — excluir as outras causas de irregularidade, começando pelo trivial que derruba candidato: gravidez (beta-hCG), disfunção tireoidiana (TSH) e hiperprolactinemia (prolactina). Duas situações especiais completam a régua. Na usuária de anticoncepcional hormonal combinado, o sangramento é de privação e o FSH está suprimido pelo esteroide exógeno — dosar durante o uso não vale; o manual do MS orienta avaliar após a parada do método, confirmando o valor elevado depois de 30 dias sem medicação, e manter contracepção até um ano após a menopausa instalada. Na histerectomizada com ovários preservados, não há menstruação para contar: o diagnóstico é clínico apoiado em FSH — com a ressalva do STRAW+10 de repetir a dosagem e, se a cirurgia for recente, esperar 3 meses. Por fim, o que não pedir: ultrassonografia pélvica de rotina na assintomática não tem custo-benefício (é exame para sintoma — sangramento anormal, dor, massa), e AMH não é teste diagnóstico de menopausa nem de IOP — é marcador de reserva, apoio em situação selecionada.

Insuficiência ovariana prematura: a que não pode passar batida

IOP é a perda da atividade ovariana antes dos 40 anos — cerca de 1% das mulheres — e é o cenário em que o diagnóstico laboratorial é obrigatório, porque as consequências (perda óssea acelerada, risco cardiovascular, infertilidade, impacto psíquico) começam a correr no dia em que a função ovariana cai, não no dia do diagnóstico. O critério da diretriz internacional ESHRE/ASRM/IMS de 2024: distúrbio menstrual (amenorreia ou irregularidade) por pelo menos 4 meses associado a FSH acima de 25 UI/L — e, novidade dessa atualização, uma única dosagem elevada basta, com repetição em 4 a 6 semanas reservada para os casos de incerteza. A definição clássica, que o STRAW+10 registra e que os documentos anteriores a 2024 seguem, exigia duas dosagens com pelo menos um mês de intervalo.

Fechado o diagnóstico, a investigação etiológica é mandatória nas formas não iatrogênicas: cariótipo (síndrome de Turner e variantes respondem por parcela relevante), pesquisa da pré-mutação do FMR1 (X frágil — com implicação para aconselhamento familiar), anticorpos anti-21-hidroxilase (autoimunidade adrenal, pelo risco de insuficiência adrenal associada) e TSH. Grande parte dos casos permanece idiopática. As causas iatrogênicas — quimioterapia, radioterapia pélvica, ooforectomia bilateral — dispensam essa caçada. Dois avisos de prova: a função ovariana na IOP é intermitente, com retomada espontânea de menstruação e até gestação em proporção substancial dos casos — contracepção e desejo reprodutivo precisam entrar na conversa, e o desejo de gestar leva ao encaminhamento à reprodução assistida. E a mulher com IOP tem indicação de reposição hormonal até pelo menos a idade típica da menopausa, salvo contraindicação — os porquês e os esquemas são assunto do capítulo de terapia hormonal.

Cuidado com a nomenclatura cruzada: o manual do MS de 2008 chama de 'menopausa precoce' o que ocorre antes dos 40 — na nomenclatura atual, isso é IOP, e 'menopausa precoce' designa a faixa dos 40 aos 45. Questões mais antigas (ou baseadas no manual) usam o termo no sentido antigo; leia a idade da paciente, não o rótulo.

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A régua diagnóstica por idade — e o mapa STRAW+10

Toda questão de diagnóstico do climatério se resolve com duas ferramentas: a régua etária (que decide se a clínica basta ou se o laboratório entra) e o estadiamento STRAW+10 (que dá nome à fase pelo padrão menstrual). Os cards percorrem a progressão dos estágios — uma escala ordinal de verdade, da transição precoce à pós-menopausa tardia.

  1. 1Mulher com 45 anos ou mais e 12 meses de amenorreia, sem outra causa: menopausa é diagnóstico clínico; FSH de rotina não acrescenta.
  2. 2Antes de atribuir ao climatério, excluir gestação quando pertinente e reconhecer amenorreia por método hormonal, histerectomia, doença sistêmica ou medicamento.
  3. 3Entre 40 e 45 anos, em quadro atípico ou quando não se pode usar o padrão menstrual, o FSH pode apoiar a investigação. Antes dos 40 anos, investigar insuficiência ovariana prematura com confirmação laboratorial e busca etiológica.
  4. 4Organizar sintomas por domínio: vasomotores e sono; humor/cognição; geniturinários e sexuais; osso e risco cardiometabólico.
  5. 5Sangramento após a menopausa nunca é “do climatério”: exige investigação endometrial conforme risco e ultrassonografia/biopsia.
  6. 6A conduta nasce do sintoma predominante, das contraindicações e da preferência; terapia hormonal não é rastreio nem prevenção universal de envelhecimento.

Transição precoce (STRAW −2): ciclos variando ≥ 7 dias

Reserva folicular caindo, inibina B em queda, FSH subindo e variável. Critério: diferença persistente de 7 dias ou mais na duração de ciclos consecutivos, recorrendo dentro de 10 ciclos. A mulher ainda menstrua todo mês — só que fora do compasso. Fogachos podem começar aqui.

Transição tardia (STRAW −1): amenorreia ≥ 60 dias

Anovulação frequente, flutuação hormonal extrema, FSH alcançando > 25 UI/L em coleta aleatória. Dura em média 1 a 3 anos. É o território clássico dos fogachos — e do FSH traiçoeiro, que num mês está na faixa menopausal e no outro volta ao normal.

Pós-menopausa precoce (+1a, +1b, +1c)

Os 12 meses de amenorreia fecham o diagnóstico (+1a) e encerram a perimenopausa. FSH ainda sobe e estradiol ainda cai por cerca de 2 anos (+1a/+1b), depois estabilizam por 3 a 6 anos (+1c) — o conjunto dura 5 a 8 anos. Pico dos sintomas vasomotores.

Pós-menopausa tardia (+2): o corpo somático assume

As mudanças endócrinas se esgotam; envelhecimento somático em primeiro plano. Os fogachos tendem a ceder, mas a síndrome geniturinária ganha prevalência e progride sem tratamento — ressecamento, dispareunia, sintomas urinários. Diagnóstico proativo: pergunte, porque a paciente não conta.

Estágio STRAW+10NomeCritério menstrualApoio / duração
−3 (b/a)Reprodutivo tardioRegular; ciclos podem encurtar sutilmenteAMH, inibina B e folículos antrais baixos; FSH começa a subir e variar
−2Transição menopausal precoceVariação persistente ≥ 7 dias entre ciclos consecutivos (recorre em 10 ciclos)FSH elevado, porém variável
−1Transição menopausal tardiaAmenorreia ≥ 60 diasFSH > 25 UI/L em coleta aleatória; dura em média 1–3 anos; fogachos prováveis
0MenopausaÚltima menstruação — definida retrospectivamenteReconhecida após 12 meses de amenorreia
+1a / +1bPós-menopausa precoce (fase de mudança)Amenorreia estabelecidaFSH sobe e estradiol cai por ~2 anos; +1a encerra a perimenopausa
+1cPós-menopausa precoce (fase estável)FSH alto e estradiol baixo estabilizados; 3–6 anos (conjunto +1: 5–8 anos)
+2Pós-menopausa tardiaEnvelhecimento somático; síndrome geniturinária prevalente e progressiva

Quem é quem abaixo (e acima) dos 45

SituaçãoIdadeFrequênciaComo se diagnostica
Menopausa na idade habitual45–55 anos (média 51)~90% das mulheresClínico: 12 meses de amenorreia na faixa etária esperada; sem dosagem hormonal
Menopausa precoce (early menopause)40–44 anos~5%Mesma lógica clínica, mas excluindo antes outras causas de irregularidade (beta-hCG, TSH, prolactina); FSH em duas dosagens ajuda na dúvida
Insuficiência ovariana prematura (IOP)< 40 anos~1%Obrigatoriamente laboratorial: distúrbio menstrual ≥ 4 meses + FSH > 25 UI/L (2024: uma dosagem; repetir se incerteza) + investigação etiológica
Menopausa cirúrgicaQualquer idadeOoforectomia bilateral: instala-se de imediato, sem os 12 meses; hipoestrogenismo costuma ser abrupto e sintomático

O corte de 25 mUI/mL (FEBRASGO 2022, STRAW+10) e o de 40 mUI/mL (manual do MS 2008, literatura clássica) medem a mesma coisa em réguas diferentes: 25 UI/L nos padrões hipofisários atuais equivalem a > 40 UI/L nos antigos padrões urinários de gonadotrofina.

Um FSH normal não exclui transição menopausal, e um FSH elevado isolado na perimenopausa não fecha menopausa — a flutuação é a regra; por isso, duas dosagens com 4–6 semanas quando a dosagem for necessária.

Biomarcador no STRAW+10 é critério de APOIO: o padrão menstrual manda. AMH não diagnostica menopausa nem IOP.

A consulta do climatério é oportunidade de rastreamento (mama, colo, colorretal, risco cardiovascular, densitometria conforme critério, depressão) — cada rastreio tem capítulo próprio; aqui basta não desperdiçar a consulta.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Corte do FSH: 25 ou 40 mUI/mL?

Manual do MS (2008): > 40 mUI/mL

A dosagem de FSH é suficiente para o diagnóstico de hipofunção ou falência ovariana quando maior do que 40 mUI/mL; em usuária de anticoncepcional, o valor deve ser confirmado depois de 30 dias sem medicação. É a régua da literatura clássica e de protocolos de APS derivados do manual.

Ministério da Saúde, Manual de Atenção à Mulher no Climatério/Menopausa, 2008

FEBRASGO (2022) e STRAW+10 (2012): > 25 mUI/mL

Valores acima de 25 mUI/mL indicam a faixa da transição menopausal tardia; recomenda-se duas dosagens com 4–6 semanas de intervalo pela variabilidade da fase. O STRAW+10 explica a diferença: 25 UI/L nos padrões hipofisários internacionais atuais correspondem a > 40 UI/L nos antigos padrões urinários — a divergência é de calibração de ensaio, não de conceito.

FEBRASGO Position Statement n. 5/2022 (Femina 2022;50(5):263-71); Harlow et al., Fertil Steril 2012

Na prova

O valor que aparece nas alternativas denuncia a régua: 40 mUI/mL aponta para o manual do MS e textos clássicos; 25 mUI/mL, para FEBRASGO/STRAW+10. Enunciado citando nominalmente STRAW ou position statement recente trabalha com 25; questão de atenção básica construída sobre o manual tende a 40. Quando as duas aparecem juntas, o resto do enunciado (duas dosagens com 4–6 semanas, 'coleta aleatória') identifica o documento de origem.

IOP: uma ou duas dosagens de FSH?

Definição clássica (STRAW+10, 2012; documentos anteriores a 2024): duas dosagens

Idade < 40 anos com 4 meses de amenorreia e DUAS dosagens de FSH em faixa menopausal com pelo menos um mês de intervalo. A exigência da segunda medida nasceu da função ovariana flutuante da síndrome — um valor isolado podia ser pego num vale transitório. O position statement da FEBRASGO de 2022 segue a mesma lógica de duas dosagens (4–6 semanas) quando há dúvida diagnóstica no climatério.

Harlow et al., Fertil Steril 2012; FEBRASGO FPS n. 5/2022

ESHRE/ASRM/IMS (2024): uma dosagem basta

Distúrbio menstrual por pelo menos 4 meses + FSH > 25 UI/L em UMA dosagem; a repetição em 4–6 semanas fica reservada aos casos de incerteza diagnóstica. A mudança encurta o caminho até o diagnóstico — relevante porque cada mês sem diagnóstico é um mês de hipoestrogenismo sem proteção óssea.

ESHRE/ASRM/CREWHiRL/IMS, Hum Reprod Open 2024

Na prova

Questão que cita a diretriz de 2024 (ou 'atualização recente') aceita a dosagem única; enunciado sem ancoragem temporal, ou construído sobre documentos brasileiros, costuma trazer a confirmação com segunda dosagem entre as alternativas corretas. Alternativa do tipo 'repetir FSH em 4–6 semanas antes de fechar o diagnóstico' contra 'uma dosagem elevada já permite o diagnóstico' é exatamente essa divergência posta em prova — os anos dos documentos decidem.

Idade média da menopausa: 48–50 ou 51 anos?

Manual do MS (2008): em torno dos 48 aos 50 anos

O manual afirma que a menopausa 'acontece geralmente em torno dos 48 aos 50 anos de idade' — número repetido em materiais de atenção básica derivados dele e compatível com estudos populacionais brasileiros mais antigos.

Ministério da Saúde, Manual de Atenção à Mulher no Climatério/Menopausa, 2008

FEBRASGO (2022): média aos 51, 90% entre 45 e 55

O position statement traz média de 51 anos, com 90% das mulheres apresentando a menopausa entre 45 e 55 — números alinhados à literatura internacional contemporânea. A faixa dos 45 aos 55 é comum às duas fontes; o manual do MS simplesmente não é atualizado desde 2008.

FEBRASGO Position Statement n. 5/2022

Na prova

Diferença de um a três anos raramente decide questão sozinha — quando decide, o par de alternativas (48–50 contra 51) revela a fonte do enunciado. O que as bancas cobram com consistência é a faixa (45–55) e os cortes de conduta: 45 (limiar do diagnóstico clínico sem exames), 40–45 (menopausa precoce) e 40 (IOP).

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Caso resolvido

Mulher de 47 anos procura a UBS porque 'a menstruação desregulou'. Há cerca de dois anos os ciclos encurtaram para 24–25 dias; nos últimos oito meses passaram a atrasar, e a última menstruação foi há 70 dias. Refere ondas de calor no fim do dia e à noite, com sudorese, que a acordam duas a três vezes por semana, e irritabilidade. Usa preservativo como método contraceptivo. Nega galactorreia, alteração de peso ou de hábito intestinal. Exame físico e ginecológico sem alterações.
achado
Padrão menstrual em dois tempos — ciclos que primeiro ENCURTARAM e agora se espaçam, com amenorreia atual de 70 dias — somado a sintomas vasomotores noturnos em mulher de 47 anos.
interpretação
É a história natural da transição menopausal contada em ordem: encurtamento de fase folicular no início, anovulação e alongamento depois. Amenorreia ≥ 60 dias define transição menopausal TARDIA (STRAW −1) — a fase que costuma anteceder a menopausa em 1 a 3 anos. Como ela tem mais de 45 anos e o quadro é típico, o diagnóstico de síndrome do climatério é clínico.
conduta diagnóstica
Nenhum exame é necessário para confirmar o climatério: sem FSH, sem ultrassonografia. Beta-hCG apenas se houver possibilidade real de gestação (método de barreira falha). A consulta vira oportunidade: rastreios conforme critério (mamografia, citologia, risco cardiovascular), triagem de humor e pergunta ativa por sintomas geniturinários. Orientar que a menopausa só será nomeada retrospectivamente, após 12 meses de amenorreia — e que contracepção segue necessária até lá (e até 1 ano após a última menstruação).
o que não fazer
Dosar FSH 'para documentar' (um valor elevado hoje não impede ovulação no mês que vem; um normal não desmente a clínica), pedir USG pélvica de rotina sem sintoma que a justifique, ou prometer que os fogachos passam logo — a mediana de duração é de mais de 7 anos.
07

Agora feche você

Mulher de 31 anos, nuligesta, vem ao ambulatório por amenorreia há 6 meses, precedida por um ano de ciclos irregulares e espaçados. Relata ondas de calor diárias e sono ruim. Deseja engravidar no futuro. Nega uso de hormônio, quimioterapia ou cirurgia pélvica. Exame físico normal. Traz exames: beta-hCG negativo, TSH 2,1 mUI/L, prolactina 14 ng/mL, FSH 38 mUI/mL.
achado
Amenorreia de 6 meses com sintomas vasomotores em mulher de 31 anos, já excluídas gravidez, disfunção tireoidiana e hiperprolactinemia — e FSH de 38 mUI/mL, francamente acima de 25.
interpretação
Distúrbio menstrual por mais de 4 meses + FSH > 25 UI/L antes dos 40 anos preenche o critério de insuficiência ovariana prematura (pela diretriz de 2024, uma dosagem elevada já permite o diagnóstico; a conduta clássica confirmaria com segunda dosagem em 4–6 semanas — aqui o valor é inequívoco).
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Pedir FSH na mulher de 52 anos com quadro típico Atrai porque parece zelo: 'confirmar com exame'. Mas acima dos 45 anos, com sintomas e padrão menstrual característicos, o diagnóstico é clínico pelas duas réguas brasileiras (MS 2008 e FEBRASGO 2022) — a alternativa com dosagem hormonal é o distrator preferido dessas questões.
  2. 2Confiar no FSH dosado durante o anticoncepcional combinado O esteroide exógeno suprime o eixo: o FSH sai falsamente baixo e o sangramento mensal é de privação, não ciclo ovulatório. Avaliação só após pausa do método — o manual do MS pede confirmação do valor elevado depois de 30 dias sem medicação. Enunciados adoram uma usuária de pílula de 51 anos 'menstruando normalmente'.
  3. 3Fechar (ou descartar) menopausa com um único FSH na perimenopausa A transição tardia tem flutuação extrema: FSH ora em faixa menopausal, ora normal — às vezes com estradiol alto. Um valor elevado isolado não impede ovulação no ciclo seguinte; um normal não desmente a clínica. Quando dosar, duas medidas com 4–6 semanas.
  4. 4Chamar amenorreia de mulher jovem de 'menopausa chegando' Abaixo dos 45, irregularidade exige exclusão de outras causas (beta-hCG, TSH, prolactina) antes de qualquer rótulo climatérico; abaixo dos 40, a hipótese obrigatória é IOP — e cada mês de atraso diagnóstico é hipoestrogenismo corroendo osso sem proteção. A nomenclatura confunde de propósito: no manual antigo do MS, '<40' se chamava menopausa precoce; hoje, menopausa precoce é 40–44 e <40 é IOP.
  5. 5Usar AMH ou ultrassonografia para 'confirmar menopausa' AMH é marcador de reserva ovariana, não teste diagnóstico de menopausa nem de IOP (na diretriz de 2024, apoio apenas quando o FSH é inconclusivo). USG pélvica de rotina em assintomática não tem custo-benefício — é exame para sintoma (sangramento anormal, dor, massa). Ambos figuram como distratores 'tecnológicos' contra o diagnóstico clínico.
  6. 6Esquecer a tireoide no meio dos fogachos Calor, irregularidade menstrual, ganho de peso e humor alterado são clínica de climatério E de disfunção tireoidiana. Quadro atípico ou confuso na perimenopausa merece TSH — e a banca monta exatamente essa vinheta para ver se você fecha menopausa numa paciente hipertireóidea.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A amenorreia por 12 meses ou mais em mulher acima dos 45-50 anos, associada a sintomas vasomotores (fogachos, sudorese noturna) e atrofia genital (ressecamento vaginal), define a menopausa. A gestação é improvável nesse contexto e não explica os fogachos. A síndrome dos ovários policísticos ocorre em mulheres em idade reprodutiva com irregularidade menstrual e hiperandrogenismo. A hiperprolactinemia cursa com galactorreia e amenorreia, sem fogachos típicos. A insuficiência adrenal não produz esse quadro.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite a régua por idade sem olhar: >45 + quadro típico = diagnóstico clínico, menopausa retrospectiva com 12 meses; 40–44 = excluir beta-hCG/TSH/prolactina, FSH em duas dosagens (4–6 semanas) na dúvida; <40 = IOP com distúrbio menstrual ≥ 4 meses + FSH > 25 (2024: uma dosagem) + cariótipo, FMR1, anti-21-hidroxilase, TSH. Depois os marcos STRAW: ≥7 dias de variação (−2), ≥60 dias de amenorreia (−1), 12 meses (menopausa). Feche com os dois cortes de FSH (25 atual, 40 clássico) e o porquê da diferença: padrões de ensaio.

em 30 dias

Três pacientes, uma conduta cada: (1) 52 anos, amenorreia há 13 meses, fogachos — o que pedir para confirmar? (2) 43 anos, ciclos espaçando, usuária de pílula combinada — o FSH de hoje vale? (3) 33 anos, amenorreia há 5 meses, FSH 38 — diagnóstico e os quatro exames da investigação etiológica. Se respondeu 'nada', 'não — só após pausa do método' e 'IOP: cariótipo, FMR1, anti-21-hidroxilase, TSH', o capítulo está consolidado. Bônus: qual estrogênio domina a pós-menopausa e de onde ele vem?

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 49 anos na UBS: fogachos que atrapalham o sono, ciclos cada vez mais espaçados e uma pergunta na ponta da língua — 'já é a menopausa, doutor? precisa de exame?'. Conduza a consulta que decide isso sem desperdiçar (nem pedir) exame. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Climatério e menopausa — Preparatório para provas | OsceLabs