Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Terapia hormonal da menopausa

A prova cobra quatro decisões em sequência: se há indicação real, se a mulher está na janela de oportunidade, se existe contraindicação e qual via e esquema servem àquele perfil.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 48 anos relata fogachos, sudorese noturna e irregularidade menstrual há 10 meses, com ciclos ora curtos ora com atraso de até 60 dias. Sem contraindicações. Deseja alívio dos sintomas vasomotores, que estão comprometendo seu sono e qualidade de vida. Ainda não completou 12 meses de amenorreia. Qual é a intervenção de primeira linha para os sintomas vasomotores nessa paciente?

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Como esse tema cai

Terapia hormonal da menopausa (TH) é tema em que a banca não quer saber se você decorou nomes de estudo — quer saber se você deixaria de tratar quem tem indicação e se trataria quem não pode. As questões giram em torno de um roteiro fixo: reconhecer as quatro indicações consagradas, aplicar a janela de oportunidade (até 60 anos de idade ou até 10 anos de menopausa), varrer a lista de contraindicações e escolher via e esquema conforme o útero e o risco cardiovascular da mulher. Quem domina esse roteiro resolve a imensa maioria das vinhetas.

A régua brasileira atual é o Consenso de Terapêutica Hormonal do Climatério de 2024, da SOBRAC com a FEBRASGO, alinhado ao posicionamento da NAMS de 2022, e complementado pela diretriz de saúde cardiovascular no climatério de 2024 (SBC/FEBRASGO/SOBRAC). No âmbito do SUS, o manual do Ministério da Saúde de 2008 — mais restritivo, filho da primeira leitura do WHI — foi substituído em março de 2026 por um novo manual alinhado às diretrizes atuais. Essa transição importa para a prova: enunciados antigos e enunciados novos podem cobrar réguas diferentes, e o capítulo mostra onde elas divergem.

O segundo eixo cobrado é a leitura correta dos riscos. O WHI, publicado em 2002 com idade média de 63 anos, produziu uma década de medo generalizado; a releitura por faixa etária fundou o conceito de janela de oportunidade e devolveu a TH ao arsenal — com números absolutos pequenos que a prova adora cobrar em forma de risco atribuível.

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O que muda decisão

As quatro indicações consagradas

A TH está indicada para: (1) sintomas vasomotores moderados a graves; (2) síndrome geniturinária da menopausa (SGM) moderada a grave; (3) prevenção da perda óssea e da osteoporose; e (4) hipoestrogenismo por hipogonadismo, ooforectomia bilateral ou insuficiência ovariana prematura. Fora dessas quatro situações, a TH não tem indicação — e é exatamente aí que a prova monta distratores.

Os fogachos são a indicação dominante. Afetam até 80% das mulheres na transição menopausal, duram em média 7,4 anos e persistem além dos 70 anos em cerca de 10% delas. A TH com estrogênio é o tratamento mais eficaz que existe para sintomas vasomotores — recomendação grau A, com 100% de concordância no consenso de 2024 —, superando qualquer alternativa não hormonal. Nenhum antidepressivo, fitoterápico ou medida comportamental chega perto da magnitude de efeito do estradiol.

Na SGM (ressecamento, dispareunia, sintomas urinários por atrofia), a hierarquia é outra: quando a queixa é exclusivamente local, o tratamento preferencial é o estrogênio vaginal em baixa dose, não a TH sistêmica. O estrogênio tópico trata a mucosa sem efeito sistêmico relevante, não exige progestagênio associado mesmo em mulher com útero e não aumenta o risco de tromboembolismo. A TH sistêmica trata a SGM quando há também sintomas vasomotores — e, se a atrofia persistir, pode-se somar a via vaginal.

No osso, a TH previne a perda de massa óssea da menopausa e reduz fraturas vertebrais, não vertebrais e de quadril mesmo em mulheres não selecionadas por baixa densidade mineral — no WHI, cerca de 5 fraturas de quadril e 18 de punho a menos por 10.000 mulheres/ano. A perda óssea é mais intensa de um ano antes até dois anos depois da menopausa (cerca de 10% na coluna lombar entre os 5 anos pré e pós), então o benefício máximo vem do início precoce. Interrompida a TH, a reabsorção óssea reacelera.

O que a TH não é: prevenção primária ou secundária de doença cardiovascular e prevenção de demência não são indicações — o braço do WHIMS que iniciou estrogênio conjugado com medroxiprogesterona em mulheres com 65 anos ou mais viu o risco de demência aumentar, não cair. A TH também reduz a incidência de diabetes tipo 2, mas não é aprovada para esse fim. Benefício colateral não é indicação.

Janela de oportunidade: até 60 anos ou 10 anos de menopausa

A menopausa ocorre em média aos 51 anos, e 90% das mulheres a apresentam entre 45 e 55. A janela de oportunidade é o período em que iniciar a TH traz benefício máximo com risco mínimo: até 60 anos de idade ou até 10 anos após a menopausa. Dentro dela, a relação risco-benefício é favorável para mulher sintomática sem contraindicação — grau A, concordância 100%.

A base fisiopatológica é a hipótese do momento certo (timing hypothesis): em artéria jovem, o estrogênio promove vasodilatação, reduz resposta inflamatória e possivelmente freia a progressão da aterosclerose; em artéria com placas estabelecidas — o cenário típico após 10 anos de hipoestrogenismo —, o estrogênio exógeno pode desestabilizar a placa e precipitar eventos. A mesma molécula protege ou ameaça conforme o leito vascular que encontra.

Os números acompanham: em metanálise estratificada pelo tempo de menopausa, mulheres que iniciaram TH com menos de 10 anos de menopausa tiveram menor incidência de doença cardiovascular e menor mortalidade geral que placebo, sem aumento de AVC; as que iniciaram com 10 anos ou mais (ou após os 60) não tiveram redução alguma e ganharam aumento de AVC isquêmico. O risco de trombose venosa com TH oral, por outro lado, existe dentro e fora da janela.

Início após os 60 anos: com mais de 10 anos de menopausa, a recomendação é começar por terapias não hormonais. Com menos de 10 anos de menopausa apesar da idade, avalia-se o risco cardiovascular individual (o consenso sugere o Escore Global de Risco de Framingham) antes de decidir. Mulher com mais de 60 anos que não sabe informar a idade da menopausa também deve iniciar por alternativa não hormonal. Importante: a janela regula o início, não a continuação — quem começou aos 52 não é obrigada a parar aos 60.

Quem não pode: contraindicações

A lista de contraindicações à TH sistêmica — válida para as vias oral e transdérmica, segundo o consenso de 2024 — reúne: sangramento vaginal não esclarecido; doença hepática ativa/grave; câncer sensível ao estrogênio, com o câncer de mama à frente (atual ou prévio) e o de endométrio logo atrás; doença coronariana, infarto ou AVC prévios; tromboembolismo venoso prévio; e história pessoal ou alto risco de trombofilia hereditária. O manual do MS de 2008 acrescentava a porfiria entre as absolutas e classificava hipertensão e diabetes descontrolados como contraindicações relativas — ou seja, controlar primeiro, tratar depois. HAS controlada não contraindica TH.

A triagem é clínica: anamnese e exame físico completos descartam a maioria das contraindicações. Exame complementar entra dirigido por suspeita — sangramento inexplicado pede ultrassonografia transvaginal antes de qualquer hormônio. Antes de iniciar, exige-se rastreamento do câncer de mama em dia e recomenda-se perfil lipídico e glicemia de jejum, que alimentam o cálculo de risco cardiovascular e a escolha da via.

Sobrevivente de câncer de mama é o veto mais cobrado. Os dois ensaios randomizados de TH pós-câncer de mama divergiram (o HABITS foi interrompido com risco de recorrência 2,4 vezes maior; o estudo de Estocolmo não viu aumento de recidiva, mas viu mais câncer contralateral), e a tibolona elevou a recorrência no liberate (RR 1,40). Resultado prático: TH sistêmica não se prescreve após câncer de mama fora de situação excepcional, extensamente esclarecida. A exceção legítima é local: estrogênio vaginal em baixa dose pode ser considerado para SGM que comprometa qualidade de vida, em decisão compartilhada com a paciente e com o oncologista/mastologista — grau A no consenso.

Portadoras de BRCA-1/2 sem câncer têm risco basal alto e a TH usualmente não é indicada; após ooforectomia redutora de risco, porém, a TH não aumentou o câncer de mama em comparação às não usuárias e é considerada aceitável em mulheres jovens. Por fim, uma fronteira de consultório: hormônios bioidênticos manipulados e implantes hormonais (chips) não são recomendados por nenhum dos documentos brasileiros, por falta de evidência de eficácia e segurança.

Estrogênio, progestagênio, via e esquema

Quem trata os sintomas é o estrogênio; o progestagênio entra apenas para proteger o endométrio de quem tem útero. Dessa dupla função sai a primeira regra de esquema: mulher histerectomizada usa estrogênio isolado; mulher com útero usa estrogênio mais progestagênio, sempre. Estrogênio sem oposição em útero presente é receita de hiperplasia e câncer endometrial.

No Brasil, o estrogênio disponível para TH é o 17β-estradiol (ou valerato): 0,5 a 2 mg/dia por via oral, gel de 0,5 a 1 mg ou adesivo de 25 a 50 µg. Começa-se pela menor dose efetiva. A diferença entre as vias é farmacológica, não de eficácia: o estrogênio oral sofre primeira passagem hepática e faz o fígado produzir mais SHBG, mais triglicérides e mais fatores de coagulação (fibrinogênio, proteína C, antitrombina), além de ativar o sistema renina-angiotensina; a via transdérmica entrega o estradiol direto à circulação e praticamente não mexe nessas proteínas. Por isso a transdérmica é a via preferida quando há obesidade, diabetes, síndrome metabólica, dislipidemia, hipertensão controlada ou risco cardiovascular intermediário — e é obrigatória na prática quando os triglicérides passam de 400 mg/dL, que a via oral elevaria ainda mais.

Entre os progestagênios, a progesterona natural micronizada é considerada a alternativa mais segura — melhor perfil para pressão arterial, tromboembolismo, provavelmente AVC e câncer de mama —, com a didrogesterona logo atrás. No esquema sequencial, o progestagênio entra 12 a 14 dias por mês e produz sangramento programado de privação; menos de 10 dias por mês aumenta o risco de hiperplasia. No combinado contínuo, estrogênio e progestagênio são diários, o endométrio atrofia e a proteção endometrial é superior — ao custo de sangramentos irregulares nos primeiros meses. Na prática, o sequencial serve à perimenopausa e o contínuo à pós-menopausa estabelecida. O DIU de levonorgestrel é alternativa elegante de proteção endometrial, com bônus contraceptivo na transição, quando ainda pode haver ovulação.

A tibolona é um esteroide sintético único com ação estrogênica, progestagênica e androgênica: trata fogachos e queixas sexuais, aumenta densidade óssea e reduz fraturas (estudo LIFT), sem aumentar tromboembolismo venoso nos ensaios randomizados. Suas ressalvas: o LIFT foi interrompido por aumento de AVC na população idosa estudada — reforçando que tibolona também respeita a janela — e o liberate a contraindica após câncer de mama.

Para a SGM isolada, a via é vaginal: estriol, promestrieno ou estradiol local em baixa dose, sem necessidade de progestagênio e sem aumento de TEV. É o único formato hormonal que sobrevive a quase todas as contraindicações sistêmicas — inclusive, com decisão compartilhada, ao câncer de mama tratado.

Ilustração comparando a via oral do estrogênio, que passa primeiro pelo fígado, com a via transdérmica, que alcança a artéria sem passagem hepática.
Duas portas de entrada, dois destinos: o estrogênio oral atravessa o fígado antes de chegar à circulação e estimula a síntese de fatores de coagulação e triglicérides; o transdérmico entra direto no sangue e quase não altera essas proteínas — por isso é a via preferida quando há risco metabólico ou trombótico.

Os números do risco — e como o WHI foi lido errado

O WHI randomizou mulheres com idade média de 63 anos — a maioria fora da janela de oportunidade — e seus resultados foram por anos extrapolados para a mulher de 50 recém-menopausada. A releitura por faixa etária mostrou outra história, mas os números absolutos do estudo continuam sendo os mais cobrados em prova.

Câncer de mama: no braço combinado (estrogênios conjugados + medroxiprogesterona contínuos), o risco relativo foi 1,26 (IC95% 1,00–1,59) — em termos absolutos, cerca de 8 casos a mais por 10.000 usuárias/ano, aparecendo após aproximadamente 5 anos de uso. O consenso traduz: incidência adicional anual menor que 1 caso por 1.000 mulheres, um risco pequeno — e apresentá-lo como risco atribuível, e não como '26% a mais', muda completamente a percepção da paciente. Após a suspensão, o risco declina e se aproxima do basal. Já o braço de estrogênio isolado (histerectomizadas) não aumentou o câncer de mama: RR 0,80, que virou redução estatisticamente significativa (RR 0,71) no seguimento pós-intervenção. O tipo de progestagênio modula o risco: na coorte E3N, progesterona micronizada (RR 1,00) e didrogesterona (RR 1,16) não o elevaram significativamente, contra RR 1,69 dos demais progestagênios.

Tromboembolismo venoso: a incidência basal na pós-menopausa é de cerca de 1 caso por 1.000 mulheres/ano. A TH oral aumenta esse risco (RR 1,74 em metanálise da Cochrane dentro da janela; OR 2,35 para oral combinada em metanálise de 22 estudos), enquanto a via transdérmica não mostrou aumento em estudos observacionais (OR global 0,93–0,97) — a diferença é a primeira passagem hepática. O consenso resume em grau A: a via oral aumenta TEV, embora o risco seja raro entre 50 e 59 anos; e em grau B: o transdérmico não se associou a TEV. Estrogênio vaginal e tibolona também não aumentam TEV.

AVC: no WHI combinado, RR 1,39 (1,10–1,77) — mas a metanálise estratificada não encontrou aumento de AVC quando a TH começa dentro da janela; o excesso concentra-se no início tardio. Coronariopatia segue a mesma lógica do timing: dano potencial fora da janela, possível benefício dentro dela. O quadro completo justifica a regra prática: dentro da janela, com via e progestagênio bem escolhidos, os riscos absolutos são baixos e majoritariamente evitáveis; fora dela, empilham-se AVC, coronariopatia e demência.

Insuficiência ovariana prematura: outra doença, outra régua

Insuficiência ovariana prematura (IOP) é a perda da atividade ovariana antes dos 40 anos — natural (genética, autoimune, metabólica) ou iatrogênica (quimioterapia, radioterapia, ooforectomia). Aqui a TH não é opção de conforto: é reposição do que o ovário deveria estar produzindo. Sem tratamento, a IOP encurta a expectativa de vida, principalmente à custa de doença cardiovascular, além de acelerar perda óssea e comprometer cognição, humor e função sexual.

As regras invertem as da menopausa habitual: a dose de estrogênio é geralmente maior que a da pós-menopausa típica, e o tratamento deve seguir, se não houver contraindicação, do diagnóstico até pelo menos a idade média da menopausa natural — em torno dos 50 anos (a NAMS fala em aproximadamente 52) —, quando então se rediscute manter, ajustar ou suspender. Os resultados do WHI, obtidos em mulheres idosas, não se aplicam a essa população. Em jovens sem desejo reprodutivo, o anticoncepcional hormonal combinado é alternativa aceitável à TH, com a vantagem contraceptiva — lembrando que a IOP permite gestação espontânea em até 5% dos casos, o que também obriga a discutir contracepção em quem usa TH convencional, que não é contraceptiva.

Quando a TH está vetada: alternativas que funcionam

Para fogachos com contraindicação hormonal (ou por preferência da mulher), a classe mais usada são os antidepressivos. Entre os mais eficazes: venlafaxina 37,5–75 mg/dia (redução de até 61% dos fogachos), desvenlafaxina 100 mg/dia, paroxetina 7,5–20 mg/dia, escitalopram e citalopram — fluoxetina e sertralina são os menos eficazes da classe. A pegadinha clássica mora na sobrevivente de câncer de mama em uso de tamoxifeno: paroxetina e fluoxetina inibem fortemente a CYP2D6, enzima que converte o tamoxifeno em endoxifeno, seu metabólito ativo — prefira venlafaxina ou desvenlafaxina, que quase não tocam essa via.

Fora dos antidepressivos: gabapentina 900 mg/dia (útil também para sintomas noturnos), pregabalina (eficácia comparável, mais efeitos adversos) e clonidina (efeito modesto, em desuso). A novidade farmacológica são os antagonistas do receptor de neurocinina-3, como o fezolinetanto 45 mg — eficácia sobre fogachos comparável à da TH em metanálise, aprovado pela agência americana; o consenso de 2024 registrava que ainda não estava disponível no Brasil.

Do lado não farmacológico, o que tem evidência é perda de peso (obesidade piora fogachos e emagrecer os reduz) e terapia cognitivo-comportamental; exercício físico ajuda a saúde global, mas não reduziu fogachos diretamente em revisão da Cochrane. Isoflavonas da soja e cimicífuga (black cohosh) têm resultados inconsistentes — há fitoterápicos registrados na ANVISA para sintomas do climatério, mas a eficácia é inferior e irregular, e a segurança das isoflavonas após câncer de mama não está estabelecida. Nada disso se compara ao estrogênio; são ferramentas para quando o estrogênio não pode entrar.

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A triagem antes de prescrever

Toda vinheta de TH se resolve com a mesma sequência: indicação → contraindicação → risco cardiovascular e via → útero e esquema → reavaliação. O fluxo abaixo é a consulta inteira em seis passos.

  1. 1Confirme a indicação: sintomas vasomotores moderados/graves, SGM, prevenção de perda óssea na janela ou hipoestrogenismo precoce (IOP, ooforectomia bilateral). Sem indicação, não há o que discutir.
  2. 2Cheque a janela de oportunidade: até 60 anos OU até 10 anos de menopausa. Fora dela (ou menopausa de idade desconhecida após os 60), comece por terapia não hormonal.
  3. 3Varra as contraindicações por anamnese e exame físico; exame complementar só dirigido por suspeita (sangramento inexplicado → ultrassonografia transvaginal antes de qualquer receita).
  4. 4Peça o pacote pré-TH: mamografia de rastreamento em dia, perfil lipídico e glicemia de jejum — eles calculam o risco cardiovascular (Framingham) e decidem a via.
  5. 5Monte o esquema: sem útero → estrogênio isolado; com útero → estrogênio + progestagênio (sequencial 12–14 dias/mês na perimenopausa, contínuo na pós-menopausa, ou DIU-LNG); SGM isolada → estrogênio vaginal em baixa dose, sem progestagênio.
  6. 6Reavalie periodicamente benefícios, riscos e desejo de continuar — não há prazo de validade automático nem idade obrigatória de suspensão.
GrupoContraindicações à TH sistêmica
OncológicasCâncer de mama atual ou prévio; outros tumores estrogênio-dependentes (endométrio)
ArteriaisDoença coronariana, infarto do miocárdio ou AVC prévios
VenosasTEV prévio; história pessoal ou alto risco de trombofilia hereditária
HepáticasDoença hepática ativa/grave
GinecológicasSangramento genital não esclarecido (investigar antes de tratar)
Outras (manual MS 2008)Porfiria; relativas: HAS e DM descontrolados — controlar primeiro, não vetam definitivamente

Qual via para qual mulher

PerfilVia preferidaPor quê
Saudável, baixo risco cardiovascularOral ou transdérmicaEficácia igual; a preferência da mulher decide
Obesidade, DM, síndrome metabólica, dislipidemia, HAS controladaTransdérmicaEvita a primeira passagem hepática e o efeito pró-coagulante da via oral
Triglicérides > 400 mg/dLTransdérmicaA via oral eleva ainda mais os triglicérides
Risco cardiovascular intermediárioTransdérmicaSugestão da diretriz SBC/FEBRASGO/SOBRAC 2024
Risco cardiovascular altoNenhuma — terapia não hormonalO risco vascular supera o benefício sintomático
SGM isolada (sem fogachos)Vaginal em baixa doseTrata a mucosa sem efeito sistêmico; dispensa progestagênio e não aumenta TEV

Progestagênio para proteção endometrial — doses diárias por via oral

ProgestagênioSequencial (12–14 dias/mês)Contínuo (todos os dias)
Progesterona micronizada200–300 mg100–200 mg
Didrogesterona10–20 mg5–10 mg
Acetato de medroxiprogesterona5–10 mg2,5 mg
Noretisterona (NET/NETA)1 mg0,5 mg
Drospirenona2 mg

Progestagênio por menos de 10 dias/mês deixa o endométrio desprotegido: risco de hiperplasia. O esquema contínuo protege o endométrio mais que o sequencial.

Sangramento programado ao fim da fase de progestagênio do esquema sequencial é esperado. Sangramento não programado persistente — ou qualquer sangramento depois de meses de esquema contínuo estável — exige investigação endometrial.

Progesterona micronizada e didrogesterona têm o melhor perfil de segurança para mama e trombose entre os progestagênios (E3N: RR 1,00 e 1,16, contra 1,69 dos demais).

O DIU de levonorgestrel protege o endométrio e ainda é contraceptivo — solução dupla na transição menopausal, quando ainda pode haver ovulação.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Até quando manter a TH

Manual do MS de 2008: menor dose, pelo período necessário

Na esteira da primeira leitura do WHI, o manual orientava a dose mínima eficaz, 'devendo ser interrompida assim que os benefícios desejados tenham sido alcançados ou os riscos superem os benefícios'. É a lógica do tratamento com hora para acabar, que também habita bulas e textos da década de 2000.

Ministério da Saúde, Manual de Atenção à Mulher no Climatério/Menopausa, 2008

Consenso SOBRAC/FEBRASGO 2024 e NAMS 2022: sem limite arbitrário

Não há duração máxima pré-estabelecida nem idade em que a TH deva ser obrigatoriamente suspensa: mantém-se enquanto a indicação persistir e os benefícios superarem os riscos, com reavaliação periódica e decisão compartilhada. A dose segue sendo a menor efetiva. Metade das mulheres tem recidiva temporária dos sintomas ao parar, e a interrupção abrupta não é pior que a gradual.

Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério, 2024; NAMS Position Statement, 2022

Na prova

O ano do documento por trás da questão resolve o impasse. Enunciado ancorado no manual antigo ou em linguagem de bula traz prazos fixos entre as alternativas ('suspender após 5 anos', 'proibida após os 65'); enunciado que cita SOBRAC, FEBRASGO ou NAMS cobra individualização com reavaliação periódica. Em março de 2026 o MS substituiu o manual de 2008 por um novo, alinhado às diretrizes atuais — o que estreita o espaço do prazo fixo em provas recentes.

TEV prévio: veto completo ou via transdérmica caso a caso?

Consenso SOBRAC/FEBRASGO 2024: contraindicação

O consenso lista TEV prévio e alto risco de trombofilia hereditária entre as contraindicações da terapêutica hormonal 'oral e transdérmica'. Sintomas vasomotores nesse grupo são tratados com as alternativas não hormonais (venlafaxina, gabapentina etc.).

Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério, 2024

Diretriz SBC/FEBRASGO/SOBRAC 2024: transdérmica pode, conforme o fator causal

A diretriz cardiológica — do mesmo ano e com duas das mesmas entidades — admite a TH transdérmica para mulheres com histórico de TEV 'a depender do fator que ocasionou o evento': trombose provocada por fator transitório e resolvido (cirurgia, imobilização) não pesa como TEV espontâneo, recorrente ou trombofilia. A base é a neutralidade trombótica da via transdérmica nos estudos observacionais (OR ~0,93).

Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, SBC/FEBRASGO/SOBRAC, 2024

Na prova

Dois documentos brasileiros do mesmo ano — o recorte aparece no cenário e nas alternativas. Vinheta com TEV espontâneo, recorrente ou trombofilia não abre exceção em nenhuma das duas réguas. Vinheta que enfatiza fator provocador transitório e resolvido, sobretudo nomeando a diretriz cardiológica, está testando a exceção transdérmica. Se nenhuma alternativa contempla via transdérmica com progesterona micronizada, a questão foi escrita no recorte do consenso.

TH para osteoporose: opção legítima ou coadjuvante?

Manual do MS de 2008: não é a primeira escolha

O manual afirmava que a TH 'não é a primeira escolha de tratamento' da osteoporose, por existirem outras condutas satisfatórias (bisfosfonatos à frente), reservando-a para quando houvesse outras indicações concomitantes.

Ministério da Saúde, Manual de Atenção à Mulher no Climatério/Menopausa, 2008

Consenso SOBRAC/FEBRASGO 2024: opção de prevenção e tratamento dentro da janela

Com grau A, o consenso recomenda considerar a TH para prevenção e tratamento da osteoporose em mulheres com até 60 anos ou nos primeiros 10 anos de menopausa — a TH reduz fraturas vertebrais e de quadril mesmo em mulheres não selecionadas por baixa densidade óssea, e a tibolona reduz fraturas em osteoporóticas (LIFT). Fora da janela ou em quem não tolera outras terapias, a decisão é individualizada.

Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério, 2024

Na prova

Observe quem pergunta e quando. Questão ginecológica com mulher sintomática dentro da janela costuma aceitar a TH cumprindo dupla função — sintomas e osso. Questão de reumatologia/endocrinologia com mulher assintomática, idosa ou fora da janela gravita para bisfosfonatos, com a TH posta como distrator. O ano também denuncia: textos anteriores a 2010 rebaixam a TH; os documentos atuais a recolocam entre as opções para a mulher certa.

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Caso resolvido

Mulher de 51 anos, G2P2, última menstruação há 15 meses. Fogachos intensos (8 a 10 por dia), sudorese noturna que a acorda e irritabilidade com prejuízo do trabalho. Nega comorbidades, cirurgias e uso de medicações. Sem história pessoal ou familiar de trombose, câncer de mama ou doença coronariana. IMC 24 kg/m²; PA 118/76 mmHg. Mamografia do ano vigente BI-RADS 1. Perfil lipídico e glicemia normais. Útero presente.
achado
Pós-menopausa confirmada clinicamente (15 meses de amenorreia aos 51 anos) com sintomas vasomotores moderados a graves — a principal indicação de TH. Dentro da janela de oportunidade pelos dois critérios: 51 anos e pouco mais de 1 ano de menopausa.
interpretação
A triagem não encontra nenhuma contraindicação: sem câncer estrogênio-dependente, sem eventos arteriais ou venosos, sem trombofilia conhecida, sem doença hepática, sem sangramento inexplicado. Risco cardiovascular baixo (sem fatores, exames normais) — qualquer via é aceitável.
conduta
TH sistêmica combinada, pois há útero: por exemplo, estradiol 1 mg/dia por via oral (ou gel/adesivo, conforme preferência) associado a progesterona micronizada 100 mg/dia em esquema combinado contínuo — adequado à pós-menopausa estabelecida e com a melhor proteção endometrial. Progesterona micronizada ou didrogesterona são as escolhas de melhor perfil para mama e trombose.
seguimento
Reavaliar em 3 meses (controle de sintomas, sangramentos, adesão) e depois anualmente, rediscutindo benefício e risco — sem prazo máximo pré-definido. Orientar que sangramentos irregulares podem ocorrer nos primeiros meses do esquema contínuo, mas sangramento persistente ou de aparecimento tardio exige avaliação endometrial.
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Agora feche você

Mulher de 46 anos, histerectomizada há 2 anos por miomatose (ovários preservados), procura atendimento por fogachos intensos e insônia há 6 meses, com FSH elevado em duas dosagens. Obesa (IMC 34 kg/m²), hipertensa controlada com losartana (PA 128/82 mmHg), triglicérides de 320 mg/dL. Nega trombose prévia, tabagismo e história de câncer.
achado
Hipoestrogenismo sintomático aos 46 anos em mulher histerectomizada — sem menstruação como marcador, o quadro clínico com FSH elevado firma a falência ovariana. Amplamente dentro da janela de oportunidade.
interpretação
Não há contraindicação: HAS controlada e obesidade não vetam TH — mas empurram a escolha da via. Obesidade + hipertensão + hipertrigliceridemia configuram perfil metabólico em que a primeira passagem hepática da via oral é indesejável.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever estrogênio isolado para quem tem útero O estrogênio é 'o hormônio que trata', e o distrator explora isso oferecendo estradiol sozinho para mulher com útero — receita de hiperplasia e câncer endometrial. A regra não tem exceção sistêmica: útero presente, progestagênio junto (12–14 dias/mês no sequencial ou diário no contínuo). A única via que dispensa oposição é o estrogênio vaginal em baixa dose.
  2. 2Estender o veto do WHI à mulher de 50 anos O WHI randomizou mulheres com média de 63 anos e seus riscos foram extrapolados para toda a TH. A questão moderna cobra o contrário: dentro da janela (até 60 anos ou 10 de menopausa), a relação risco-benefício é favorável para a sintomática sem contraindicação, e negar TH nesse cenário é o erro. O WHI tampouco se aplica à IOP.
  3. 3Tratar SGM isolada com hormônio sistêmico Ressecamento e dispareunia sem fogachos pedem estrogênio vaginal em baixa dose — tratamento preferencial, sem progestagênio e sem risco trombótico —, não TH sistêmica. O distrator inverso também cai: negar o estrogênio tópico à idosa 'porque está fora da janela', quando a janela regula a TH sistêmica, não a vaginal.
  4. 4Paroxetina para os fogachos de quem usa tamoxifeno A paroxetina está entre os antidepressivos mais eficazes para fogachos — e é justamente a errada na sobrevivente de câncer de mama em uso de tamoxifeno, porque inibe a CYP2D6 e reduz a conversão do tamoxifeno em endoxifeno, seu metabólito ativo. Fluoxetina idem. A escolha segura é venlafaxina ou desvenlafaxina.
  5. 5Suspender a TH da IOP porque 'já usou por muito tempo' Na insuficiência ovariana prematura a TH é reposição fisiológica: mantém-se, salvo contraindicação, do diagnóstico até pelo menos a idade média da menopausa natural (por volta dos 50 anos) — frequentemente com doses maiores que as da menopausa habitual. Contar 'anos de uso' como se fosse TH de menopausa aos 50 é punir a paciente duas vezes.
  6. 6Investigar (ou suspender) por sangramento programado do esquema sequencial No sequencial, o sangramento de privação ao fim da fase do progestagênio é esperado e não pede investigação nem suspensão. O sinal de alarme é outro: sangramento não programado persistente, ou sangramento que aparece depois de meses de esquema combinado contínuo estável — esses exigem avaliação endometrial.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Mulher no climatério com útero íntegro e sintomas vasomotores incapacitantes, sem contraindicação, tem como primeira linha a terapia hormonal combinada estrogênio + progestagênio (o progestagênio protege o endométrio) (correta). Estrogênio isolado só é aceitável em histerectomizadas, pelo risco de hiperplasia endometrial. Venlafaxina é alternativa não hormonal reservada a quem tem contraindicação à TH. Isoflavonas têm eficácia limitada e não são padrão-ouro. Tibolona + estrogênio é combinação inadequada e redundante.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua de memória: as 4 indicações da TH; a janela de oportunidade (até 60 anos OU 10 de menopausa) e o que fazer fora dela; a lista de contraindicações por grupos (oncológicas, arteriais, venosas, hepáticas, sangramento inexplicado); e a regra do útero (com útero = progestagênio junto; sem útero = estrogênio isolado; SGM isolada = vaginal). Confira na tabela da triagem o que esqueceu.

em 30 dias

Teste os números e a montagem: mama no WHI combinado (≈8 casos extras/10.000/ano após ~5 anos; <1/1.000 — e estrogênio isolado não aumentou); TEV oral ~2× vs transdérmica neutra; progestagênio 12–14 dias/mês no sequencial; IOP tratada até ~50 anos com dose maior. Depois monte o esquema ideal para três perfis: 51 anos com útero e saudável; 46 histerectomizada obesa hipertensa; 55 com câncer de mama tratado em uso de tamoxifeno com fogachos.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 52 anos com fogachos intensos há um ano, útero presente e mamografia em dia chega ao ambulatório pedindo 'reposição hormonal'. Conduza a consulta: confirme a indicação, afaste contraindicações, escolha via e esquema — e explique os riscos em números que ela entenda. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Terapia hormonal da menopausa — Preparatório para provas | OsceLabs