Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Osteoporose pós-menopausa

A prova raramente pergunta o que é osteoporose. Pergunta quem faz densitometria, o que fazer com um T-escore de osteopenia e qual droga o SUS entrega — nessa ordem.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 85 anos, com fragilidade, sarcopenia e histórico de queda com fratura de fêmur prévia, tem densitometria óssea com T-score de -3,0 no colo femoral. Está assintomática do ponto de vista gastrointestinal, com clearance de creatinina de 55 mL/min e cálcio e vitamina D adequados. Qual é a conduta farmacológica de primeira linha mais adequada para reduzir o risco de nova fratura osteoporótica nessa paciente, na ausência de contraindicações?

02

Como esse tema cai

A régua brasileira da osteoporose é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/sectics nº 22, de 22 de outubro de 2025, que revogou a versão de 2023. A troca importa para quem estuda por material antigo: a teriparatida saiu do SUS e o romosozumabe deixou de ser exclusivo de mulheres acima de 70 anos, passando a valer para qualquer mulher na pós-menopausa com osteoporose grave e falha terapêutica documentada.

O erro que mais custa ponto é tratar T-escore como sinônimo de doença. Osteoporose tem três portas de entrada, e só uma delas é o número da densitometria. A própria distribuição da massa óssea explica por quê: como a maior parte da população se concentra entre -1,0 e -2,49 desvios-padrão, a maior parte das fraturas por fragilidade acontece em quem tem osteopenia, não em quem tem osteoporose densitométrica. Quem exige T-escore ≤ -2,5 para tratar deixa passar a maioria das fraturas evitáveis.

O segundo tropeço é confundir rastreamento populacional com indicação de densitometria. O protocolo diz, com todas as letras, que rastreamento amplo e aleatório com densitometria não é preconizado — pelo custo. E, na frase seguinte, indica densitometria para toda mulher a partir dos 65 anos, todo homem a partir dos 70 e qualquer pessoa com fator de risco. Não há contradição: é rastreamento seletivo, disparado por idade e por fator de risco, não busca ativa na população geral.

03

O que muda decisão

Quem faz densitometria, e onde se mede

A indicação de avaliar a densidade mineral óssea (DMO) por densitometria é para todas as mulheres com 65 anos ou mais, todos os homens com 70 anos ou mais, e para quem tem fator de risco em qualquer idade: baixo peso, fratura prévia, uso de medicamentos ou presença de doenças que sabidamente afetam a saúde óssea.

Os sítios que valem medida são coluna lombar em ântero-posterior, colo femoral, fêmur total (quadril total) e um terço do rádio. O antebraço é a alternativa quando os demais sítios têm artefato — artrose importante, material de síntese, escoliose grave — e no hiperparatireoidismo, em que o osso cortical do rádio é o mais acometido.

O T-escore compara o paciente com o adulto jovem e só define a doença em mulheres na pós-menopausa e em homens acima dos 50 anos. Fora dessas duas populações, o número da densitometria não fecha diagnóstico de osteoporose e a investigação corre por outro caminho — na mulher jovem com massa óssea baixa, o que se procura é causa secundária.

E o T-escore mede risco relativo, não risco absoluto. Ele diz o quanto aquela paciente se afasta da referência, não a chance dela de fraturar nos próximos dez anos. Quem faz essa conta é o FRAX.

Esqueleto com ampliações ilustrativas da coluna lombar, fêmur proximal, colo femoral e rádio distal.
Coluna lombar e quadril são os sítios centrais usuais da densitometria; o rádio de 33% é utilizado em situações específicas. A ilustração identifica regiões anatômicas e não delimita as áreas técnicas de análise da DXA.

As três portas do diagnóstico

Há osteoporose quando existe pelo menos uma destas três situações. Primeira: T-escore menor ou igual a -2,5 desvios-padrão em coluna lombar (ântero-posterior), colo femoral, quadril total ou um terço do rádio, mesmo sem nenhuma fratura. Segunda: fratura osteoporótica — também chamada de fratura por fragilidade —, isto é, fratura por trauma mínimo, insuficiente para quebrar um osso normal, independentemente do T-escore. Terceira: T-escore entre -1,0 e -2,49 associado a risco aumentado de fratura pelo FRAX.

Queda da própria altura ou de menos é o padrão de trauma mínimo. Uma paciente de 62 anos que fratura o punho ao tropeçar em casa tem osteoporose mesmo com densitometria mostrando -1,8 — e tem indicação de tratamento medicamentoso sem precisar de nenhum exame adicional para justificar.

Osteoporose grave é a soma das duas primeiras portas: T-escore menor ou igual a -2,5 associado a uma ou mais fraturas por fragilidade. Essa definição não é decorativa — é ela que abre a porta do romosozumabe no SUS.

Onde não há densitometria disponível, a presença de fratura osteoporótica e o FRAX calculado sem DMO já estratificam o risco e direcionam o tratamento. Isso importa em prova de cenário de atenção primária: a ausência do exame não é motivo para adiar a decisão.

FRAX Brasil e o limiar de intervenção

O FRAX calcula a probabilidade, em dez anos, de uma fratura osteoporótica maior — vertebral clínica, úmero, punho ou quadril — e, separadamente, de fratura de quadril isolada, em homens e mulheres entre 40 e 90 anos. Entram na conta idade, sexo e índice de massa corporal, mais os fatores de risco: fratura prévia por fragilidade, história parental de fratura de quadril, tabagismo atual ou prévio, uso prolongado de glicocorticoide, artrite reumatoide, consumo alto de álcool e outras causas de osteoporose secundária, entre elas diabetes tipo 1 e menopausa precoce antes dos 40 anos. A DMO do colo femoral é campo opcional e melhora a predição.

O modelo brasileiro é calibrado com a epidemiologia nacional de fratura de quadril e mortalidade, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde e está disponível pela abrasso. A saída não é um percentual solto: a ferramenta posiciona a paciente contra um limiar de intervenção que sobe com a idade, construído sobre a lógica do National Osteoporosis Guideline Group — trata-se quem já alcançou o risco de uma mulher da mesma idade que fraturou.

Consequência prática: no Brasil não existe um número redondo para decorar. Quem responde 'trato se o risco de fratura maior passar de 20%' está usando um corte de outro país. A resposta brasileira é 'trato se o FRAX ficar acima do limiar de intervenção para aquela idade'.

Estratificação de risco: três degraus

O protocolo organiza o risco de fratura em três categorias, e é essa estratificação que orienta a intensidade da conduta. Risco baixo a moderado exige todos os fatores presentes: T-escore maior que -2,5, baixo risco no FRAX e nenhuma fratura prévia.

Risco alto é qualquer um destes: T-escore igual ou inferior a -2,5; ou T-escore entre -1,0 e -2,49 com alto risco no FRAX; ou fratura prévia.

Risco muito alto é um ou mais destes: fratura nos últimos 12 meses; múltiplas fraturas; fratura durante o tratamento; fratura em uso de medicamento que altera o metabolismo ósseo; T-escore inferior a -3,0; risco muito alto no FRAX; ou risco de queda aumentado. Note que 'risco de queda aumentado' é critério isolado — a paciente frágil, que anda com auxílio ou depende de terceiros, já é de risco muito alto mesmo com densitometria pouco alterada.

Antes de tratar: procurar a causa secundária

Osteoporose secundária responde por cerca de 30% dos casos em mulheres na pós-menopausa, 40% a 50% em mulheres na pré-menopausa e 50% a 55% em homens. Fechar o diagnóstico e prescrever bisfosfonato sem investigar é errar em um terço das pacientes.

O painel mínimo é hemograma, VHS, cálcio, fósforo, albumina, creatinina, fosfatase alcalina, PTH, TSH, T4 livre, 25-hidroxivitamina D e cálcio na urina de 24 horas. Outros exames entram conforme a história.

Radiografia de coluna dorsal e lombar em ântero-posterior e perfil procura fratura vertebral, sintomática ou não — e fratura vertebral muda a categoria de risco. Está indicada no início do tratamento de quem tem diagnóstico densitométrico ou clínico, e sempre que houver dor intensa aguda, dor crônica persistente ou perda de altura maior que 4 cm. É esse exame que transforma uma paciente 'só com osteopenia' em uma paciente com fratura por fragilidade prevalente.

Prevenção: cálcio, vitamina D, carga e chão seguro

Cálcio e colecalciferol fazem parte de todos os esquemas — inclusive dos preventivos. A meta é de 1.000 a 1.200 mg de cálcio elementar por dia, de preferência pela dieta; suplementa-se quando a ingestão de laticínios não alcança a meta. A dose deve ficar abaixo de 1.400 mg/dia e ser fracionada em tomadas de no máximo 500 mg de cálcio elementar, porque a preocupação com evento cardiovascular só se sustenta no excesso de suplementação, acima de 1.400 mg/dia.

De vitamina D, 800 a 1.000 UI/dia de colecalciferol (ou 7.000 UI por semana) para todos; acima dos 60 anos pode ser necessário chegar a 2.000 UI/dia (ou 14.000 UI por semana). Quem tem 25-hidroxivitamina D abaixo de 20 ng/mL pode precisar de dose maior até estabilizar acima de 30 ng/mL.

Calcitriol não é vitamina D para esse fim: ele não repõe os níveis de 25-hidroxivitamina D. Só entra em insuficiência renal crônica com depuração de creatinina menor ou igual a 30 mL/min, osteomalácia hipofosfatêmica ou por deficiência de 1-alfa-hidroxilase, insuficiência hepática e hipoparatireoidismo. Prescrever calcitriol como reposição rotineira é erro conceitual, não de dose.

Do lado não medicamentoso, exercício com ação da gravidade — a força que o músculo faz sobre o osso é o que aumenta a DMO —, prevenção de quedas com revisão dos medicamentos que sedam ou causam hipotensão, correção de déficit visual e auditivo, avaliação neurológica e segurança ambiental. Tabagismo e consumo excessivo de álcool devem ser desencorajados desde a adolescência.

O que o SUS entrega, e em que ordem

O tratamento preferencial é cálcio e colecalciferol associados a um bisfosfonato oral: alendronato de sódio 10 mg/dia ou 70 mg uma vez por semana, ou risedronato sódico 35 mg uma vez por semana. A escolha entre os dois se dá por experiência de uso e custo — não há evidência de superioridade de um bisfosfonato sobre outro na prevenção de fraturas. O esquema semanal tem melhor adesão que o diário.

A orientação de tomada é parte da prescrição: em jejum, pelo menos 30 minutos antes da primeira refeição e de outros medicamentos, com um copo de água (200 mL), permanecendo sentado ou em pé por 30 a 60 minutos. Contraindicam o bisfosfonato oral hipersensibilidade, hipocalcemia, gravidez e lactação, insuficiência renal grave (depuração abaixo de 30 mL/min) e a incapacidade de permanecer sentado ou em pé pelo tempo exigido. O alendronato não é recomendado com depuração abaixo de 35 mL/min.

Ácido zoledrônico 5 mg intravenoso uma vez por ano não é escolha de conforto: é reservado a quem tem intolerância ou dificuldade de deglutição dos orais por anormalidade esofágica que retarda o esvaziamento — estenose, acalasia —, doença do refluxo importante ou situação que comprometa a absorção. Pamidronato 60 mg IV a cada três meses só quando o zoledrônico está indisponível ou contraindicado.

Raloxifeno 60 mg/dia é para mulher na pós-menopausa com baixo risco de tromboembolismo venoso, sem estrogênio concomitante, e que tenha alto risco de câncer de mama, ou osteonecrose de mandíbula ou fratura atípica de fêmur, ou intolerância ou contraindicação aos bisfosfonatos. Previne fratura vertebral, mas não tem evidência para fratura de quadril nem para as não vertebrais — é menos efetivo que o bisfosfonato, e por isso não é primeira linha.

Estrogênios conjugados entram pela porta do climatério: mulher com sintoma vasomotor comprometendo a qualidade de vida, sem raloxifeno concomitante, com avaliação prévia de antecedentes de neoplasia hormônio-dependente e exame ginecológico completo. Útero presente exige progestagênio associado. Reduzem fratura de quadril, vertebral e não vertebral, ao custo de risco de AVE, câncer de mama e tromboembolismo.

Romosozumabe 210 mg por via subcutânea, uma vez por mês, por no máximo 12 meses, é o único anabólico do protocolo e o último degrau: exige mulher na pós-menopausa com osteoporose grave e falha terapêutica. Corrigir hipocalcemia antes de iniciar; não iniciar em quem teve infarto ou AVE no ano anterior; e, terminado o ano, emendar bisfosfonato imediatamente, mesmo com ganho expressivo de DMO. Não há evidência que sustente retratamento.

Calcitonina intranasal 400 UI/dia sobrou como opção residual — osteonecrose de mandíbula, fratura atípica associada a bisfosfonato ou contraindicação absoluta a todo o resto —, com orientação de evitar uso prolongado pelo sinal de maior incidência de malignidade. Fora do protocolo ficam a teriparatida, excluída do SUS, e o denosumabe, que não consta entre os medicamentos padronizados. E o protocolo não preconiza tratamento medicamentoso em doença renal crônica estágios 4 e 5: nesses pacientes, medidas não medicamentosas e controle da doença renal.

Falha terapêutica, tempo de tratamento e 'férias'

Falha terapêutica tem definição fechada: duas ou mais fraturas osteoporóticas em vigência dos medicamentos do protocolo por pelo menos um ano, com cálcio e vitamina D adequados; ou uma fratura incidente após pelo menos um ano de tratamento associada a perda significativa de DMO — redução maior que 5% em qualquer sítio no intervalo avaliado —, considerando boa adesão e ausência de causa secundária.

Não é falha a perda de DMO ou a fratura que ocorre logo após o início da terapia, nem fratura não osteoporótica. Nesses casos a conduta é individualizar: revisar adesão, absorção de cálcio, medicamentos que causam perda óssea e causas secundárias — antes de trocar o esquema.

A duração padrão é de cinco anos para bisfosfonato oral e três anos para bisfosfonato intravenoso. Em risco elevado — T-escore menor que -3,0 ou presença de fraturas — o tratamento pode ser estendido a dez anos no oral e seis anos no intravenoso. Depois de cinco anos de bisfosfonato oral, pode haver pausa de um a dois anos, o intervalo em que a preocupação com fratura atípica de fêmur e osteonecrose de mandíbula pesa mais do que o ganho adicional.

Casos especiais: quando o corte deixa de ser -2,5

Em quem vai usar glicocorticoide em dose diária acima de 5 mg de prednisona ou equivalente por três meses ou mais, há indicação de tratamento medicamentoso na presença de fratura osteoporótica prévia, T-escore menor ou igual a -2,0 na coluna ou no quadril, ou FRAX acima do limiar de intervenção. O corte desce de -2,5 para -2,0 — e essa meia unidade é o detalhe que a questão costuma cobrar.

A mesma régua de -2,0 vale para o homem com carcinoma de próstata que vai iniciar e manter privação androgênica com agonista ou antagonista de GnRH ou terapia antiandrogênica.

No câncer de mama com inibidor de aromatase, há indicação de tratamento com T-escore menor ou igual a -2,0 na coluna ou no quadril ou com redução anual da DMO de 5% a 10% após o início da terapia. Com T-escore maior que -2,0, trata-se quem tem dois ou mais dos seguintes: T-escore menor que -1,5, idade acima de 65 anos, IMC abaixo de 20 kg/m², história familiar de fratura de quadril, fratura por fragilidade pessoal, tabagismo ou uso de glicocorticoide por mais de seis meses.

Monitorização: o que repetir e quando

Densitometria na avaliação inicial e depois do início do tratamento, repetida a cada um a dois anos até a massa óssea estabilizar; daí em diante, o intervalo segue a avaliação clínica. Comparação só vale no mesmo equipamento.

Radiografia de coluna dorsal e lombar em perfil se repete quando houver clínica sugestiva de fratura ou perda progressiva de altura maior que 4 cm. Exames laboratoriais voltam a critério clínico — basicamente para checar vitamina D e cálcio séricos ou reinvestigar causa secundária quando o tratamento não funciona.

O tratamento é considerado bem-sucedido quando a DMO está crescente ou estável e não há novas fraturas. Ou seja: DMO parada não é falha. Esperar aumento de densidade para dizer que deu certo é uma exigência que o protocolo não faz.

04

Da suspeita ao tratamento

O caminho é sempre o mesmo: identificar quem tem indicação de avaliação, decidir se há diagnóstico por alguma das três portas, estratificar o risco, procurar causa secundária e só então prescrever. Pular a estratificação é o que faz o candidato escolher o remédio certo para a paciente errada.

  1. 1Mulher ≥ 65 anos, homem ≥ 70 anos ou qualquer idade com fator de risco: solicitar densitometria
  2. 2Fratura por trauma mínimo comprovada radiologicamente: o diagnóstico está fechado, tratar sem depender da densitometria
  3. 3T-escore ≤ -2,5 em coluna lombar, colo femoral, quadril total ou 1/3 do rádio: osteoporose densitométrica
  4. 4T-escore entre -1,0 e -2,49: calcular o FRAX Brasil e comparar com o limiar de intervenção da idade
  5. 5Estratificar em risco baixo/moderado, alto ou muito alto
  6. 6Investigar causa secundária com o painel laboratorial e radiografar coluna dorsolombar
  7. 7Prescrever cálcio e colecalciferol + bisfosfonato oral, com a orientação de tomada, e programar reavaliação da DMO em 1 a 2 anos

Risco baixo a moderado

Todos os fatores presentes: T-escore maior que -2,5, baixo risco no FRAX e nenhuma fratura prévia. Conduta é prevenção — cálcio, vitamina D, exercício com carga, prevenção de queda e controle de tabagismo e álcool.

Risco alto

Qualquer um destes: T-escore igual ou inferior a -2,5; ou T-escore entre -1,0 e -2,49 com alto risco no FRAX; ou fratura prévia. Conduta é tratamento medicamentoso — cálcio e colecalciferol com bisfosfonato oral.

Risco muito alto

Um ou mais destes: fratura nos últimos 12 meses, múltiplas fraturas, fratura durante o tratamento ou em uso de medicamento que altera o metabolismo ósseo, T-escore inferior a -3,0, risco muito alto no FRAX ou risco de queda aumentado. Tratar e vigiar de perto — é aqui que o tempo de tratamento se estende e que a falha terapêutica abre a porta do romosozumabe.

MedicamentoDose e viaQuando entra pelo protocolo
Carbonato de cálcio500 a 1.400 mg/dia de cálcio elementar, VO, fracionado em tomadas de no máximo 500 mgEm todos os esquemas, quando a dieta não alcança 1.000 a 1.200 mg/dia
Colecalciferol800 a 1.000 UI/dia ou 7.000 UI/semana; até 2.000 UI/dia (14.000 UI/semana) acima dos 60 anosEm todos os esquemas; alvo sérico acima de 30 ng/mL
Alendronato de sódio10 mg/dia ou 70 mg/semana, VO, em jejum, com 200 mL de água, sem deitar por 30 a 60 minPrimeira linha, junto de cálcio e vitamina D
Risedronato sódico35 mg/semana, VO, mesma orientação de tomadaPrimeira linha, alternativa ao alendronato
Ácido zoledrônico5 mg IV, uma vez ao anoIntolerância ou dificuldade de deglutição do bisfosfonato oral (estenose, acalasia, refluxo importante, disabsorção)
Pamidronato dissódico60 mg IV a cada 3 meses, diluído em 500 mL de SF, infusão mínima de 2 hApenas se ácido zoledrônico indisponível ou contraindicado
Raloxifeno60 mg/dia, VOMulher na pós-menopausa, baixo risco de TEV, sem estrogênio concomitante, com alto risco de câncer de mama, osteonecrose de mandíbula/fratura atípica ou intolerância a bisfosfonato
Estrogênios conjugadosDose individualizada, VO (com progestagênio se útero presente)Climatério com sintoma vasomotor comprometendo a qualidade de vida, sem raloxifeno concomitante
Romosozumabe210 mg SC, uma vez por mês, por no máximo 12 mesesMulher na pós-menopausa com osteoporose grave e falha terapêutica; emendar bisfosfonato ao fim do ano
Calcitonina400 UI/dia, intranasalOsteonecrose de mandíbula, fratura atípica ou contraindicação absoluta aos demais; evitar uso prolongado
Calcitriol0,25 mcg duas vezes ao dia, VONão repõe 25-hidroxivitamina D: só em DCE ≤ 30 mL/min, osteomalácia hipofosfatêmica ou por deficiência de 1-alfa-hidroxilase, insuficiência hepática, hipoparatireoidismo

As três portas do diagnóstico de osteoporose

PortaO que precisaDepende de densitometria?
DensitométricaT-escore ≤ -2,5 em coluna lombar AP, colo femoral, quadril total ou 1/3 do rádioSim
ClínicaFratura por trauma mínimo (queda da própria altura ou menos), comprovada radiologicamenteNão
Por risco calculadoT-escore entre -1,0 e -2,49 com FRAX acima do limiar de intervençãoSim, ou FRAX sem DMO quando o exame é indisponível

Casos especiais: o corte desce para -2,0

SituaçãoQuando tratar
Glicocorticoide > 5 mg/dia de prednisona por ≥ 3 mesesFratura osteoporótica prévia, ou T-escore ≤ -2,0 em coluna ou quadril, ou FRAX acima do limiar
Privação androgênica no carcinoma de próstataFratura osteoporótica prévia, ou T-escore ≤ -2,0 em coluna ou quadril, ou FRAX acima do limiar
Inibidor de aromatase no carcinoma de mamaT-escore ≤ -2,0 em coluna ou quadril, ou redução anual da DMO de 5% a 10%. Com T-escore > -2,0, tratar se houver 2 ou mais fatores: T < -1,5, idade > 65 anos, IMC < 20 kg/m², história familiar de fratura de quadril, fratura por fragilidade pessoal, tabagismo ou glicocorticoide por mais de 6 meses

Tempo de tratamento e pausa

SituaçãoDuraçãoDepois
Bisfosfonato oral, risco não elevado5 anosPausa de 1 a 2 anos
Bisfosfonato intravenoso, risco não elevado3 anosReavaliar
Bisfosfonato oral, risco elevado (T < -3,0 ou fraturas)Até 10 anosIndividualizar
Bisfosfonato intravenoso, risco elevadoAté 6 anosIndividualizar
RomosozumabeMáximo de 12 mesesBisfosfonato imediatamente, independentemente da DMO

Densitometria de rastreamento populacional amplo e aleatório não é preconizada pelo custo; a indicação é seletiva, por idade e por fator de risco.

Tratamento bem-sucedido é DMO crescente ou estável sem novas fraturas — DMO parada não configura falha.

Doença renal crônica estágios 4 e 5 fica fora do tratamento medicamentoso do protocolo: medidas não medicamentosas e controle da doença renal.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Limiar do FRAX para tratar osteopenia: curva por idade ou corte fixo

Limiar dependente da idade — PCDT da Osteoporose (2025) e FRAX Brasil/ABRASSO

O limiar de intervenção não é um percentual único: é uma curva que sobe com a idade, fixada na probabilidade de fratura equivalente à de uma mulher da mesma idade com fratura de fragilidade prévia, na lógica do National Osteoporosis Guideline Group. A ferramenta devolve a posição da paciente em relação a essa curva, em categorias de risco.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22/2025 (PCDT da Osteoporose), item 3.1 e Figura 1; ferramenta FRAX Brasil da ABRASSO

Cortes fixos de 3% e 20% — Bone Health and Osteoporosis Foundation (2022)

Em vigência de massa óssea baixa (osteopenia), trata-se quando a probabilidade em dez anos de fratura de quadril é ≥ 3% ou a de fratura osteoporótica maior é ≥ 20%, no modelo FRAX adaptado aos Estados Unidos. Números fixos, iguais em qualquer idade.

BHOF. The Clinician's Guide to Prevention and Treatment of Osteoporosis. Osteoporos Int. 2022;33:2049-2102

Na prova

Enunciado que entrega um percentual redondo — 'risco de fratura maior em 10 anos de 22%' — e pede a decisão está falando a língua do corte fixo americano. Enunciado que diz 'FRAX acima do limiar de intervenção', sem número, ou que ambienta a cena em UBS e cita o SUS, está na régua nacional. As alternativas denunciam o recorte: se uma delas traz '3%' ou '20%' como critério, a questão foi construída no modelo americano. A causa da diferença é de calibração, não de qualidade: o corte fixo nasce da epidemiologia e do custo dos Estados Unidos, enquanto a curva por idade traduz a lógica de tratar quem já alcançou o risco de quem fraturou — e é ela que a calibração brasileira do FRAX adotou.

Rastrear osteoporose em homens

Densitometria a partir dos 70 anos — PCDT da Osteoporose (2025)

A avaliação da densidade mineral óssea está indicada para todos os homens com 70 anos ou mais, ou em qualquer idade na presença de fator de risco, e o T-escore define a doença em homens acima dos 50 anos.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22/2025 (PCDT da Osteoporose), item 3.1

Evidência insuficiente — US Preventive Services Task Force (2025)

Na recomendação final de 14 de janeiro de 2025, o rastreamento em homens recebe grau I, evidência insuficiente para pesar benefício e dano. Para mulheres com 65 anos ou mais e para pós-menopáusicas abaixo de 65 anos com risco aumentado, o grau é B.

USPSTF. Screening for Osteoporosis to Prevent Fractures. JAMA, 14 jan 2025

Na prova

Vocabulário separa os dois mundos: 'grau de recomendação', 'força de evidência', 'I statement' são a gramática do USPSTF e aparecem em questão de medicina preventiva. 'Indicação de densitometria pelo protocolo do Ministério da Saúde' é a gramática do acesso ao SUS. Prova oficial do MEC costuma cobrar a conduta do SUS. A divergência não é de mérito clínico: o USPSTF só grada positivamente o que tem ensaio de rastreamento com desfecho de fratura, e esses ensaios foram conduzidos em mulheres; o protocolo brasileiro é documento de acesso a diagnóstico e tratamento no SUS, com finalidade diferente da de graduar evidência de rastreamento populacional.

Anabólico antes ou depois do antirreabsortivo no risco muito alto

Anabólico só após falha do antirreabsortivo — PCDT da Osteoporose (2025)

O bisfosfonato oral com cálcio e vitamina D é o tratamento preferencial para todos. O romosozumabe, único anabólico do protocolo, exige mulher na pós-menopausa com osteoporose grave e falha terapêutica documentada — duas ou mais fraturas em vigência de tratamento, ou uma fratura após pelo menos um ano com perda de DMO maior que 5%. A teriparatida foi excluída do SUS e o denosumabe não consta entre os medicamentos padronizados.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22/2025 (PCDT da Osteoporose), itens 4 e 7.2

Anabólico primeiro na terapia sequencial — Bone Health and Osteoporosis Foundation (2022)

Quando se considera tratamento sequencial, começar pelo anabólico e seguir com o antirreabsortivo é a ordem preferida: o anabólico administrado depois de um antirreabsortivo potente tem efeito menor sobre a densidade mineral óssea, podendo haver atenuação ou até perda óssea.

BHOF. The Clinician's Guide to Prevention and Treatment of Osteoporosis. Osteoporos Int. 2022;33:2049-2102

Na prova

Cenário de SUS, de dispensação pelo componente especializado ou de 'medicamento disponível no protocolo' pede a sequência nacional. Cenário de centro terciário, com teriparatida ou denosumabe entre as alternativas, está no mundo internacional — e alternativa que ofereça teriparatida no SUS está desatualizada em relação à régua de 2025. A restrição brasileira tem causa econômica declarada: em julho de 2024 as evidências de eficácia, segurança e custo de romosozumabe e teriparatida foram revistas, com posição favorável à ampliação do romosozumabe para osteoporose grave com falha terapêutica e à exclusão da teriparatida do SUS.

06

Caso resolvido

Mulher de 71 anos vem à UBS com dor lombar de meses, sem trauma. Menopausa aos 49 anos, IMC 20 kg/m², tabagista de 30 maços-ano, mãe fraturou o quadril aos 76. Refere que as roupas 'ficaram compridas' e a filha diz que ela encolheu. Ao exame, cifose dorsal e altura 5 cm menor que a registrada no prontuário de oito anos atrás. Nunca fez densitometria.
achado
Perda de altura maior que 4 cm, dor lombar sem trauma e cifose nova em mulher de 71 anos. Isso não é 'dor de coluna da idade': é o quadro clássico de fratura vertebral por fragilidade, que costuma ser assintomática ou pouco sintomática.
risco
Idade acima de 65, IMC baixo, tabagismo e história parental de fratura de quadril são todos fatores do FRAX. A indicação de densitometria já existia só pela idade.
exames
Radiografia de coluna dorsal e lombar em AP e perfil — indicada exatamente por dor e perda de altura maior que 4 cm — e densitometria. Painel de causa secundária: hemograma, VHS, cálcio, fósforo, albumina, creatinina, fosfatase alcalina, PTH, TSH, T4 livre, 25-hidroxivitamina D e cálcio urinário de 24 h.
resultado
Radiografia com fratura por acunhamento em T12 e L1. Densitometria com T-escore de -2,8 no colo femoral.
diagnóstico
Osteoporose grave: T-escore menor ou igual a -2,5 associado a fratura por fragilidade. Duas fraturas vertebrais colocam a paciente em risco muito alto.
conduta
Cálcio elementar até 1.200 mg/dia fracionado em tomadas de no máximo 500 mg, colecalciferol 2.000 UI/dia por ter mais de 60 anos, e alendronato 70 mg por semana em jejum com 200 mL de água, sem deitar por 30 a 60 minutos. Cessação do tabagismo, exercício com carga e programa de prevenção de quedas. Reavaliar a densitometria em 1 a 2 anos, no mesmo aparelho.
pegadinha
Nada aqui justifica começar por ácido zoledrônico ou romosozumabe. O intravenoso depende de intolerância ou impossibilidade do oral; o romosozumabe depende de falha terapêutica, que exige tratamento prévio de pelo menos um ano — e esta paciente nunca tratou.
07

Agora feche você

Mulher de 58 anos, menopausa aos 46, em uso de anastrozol há 12 meses por carcinoma de mama receptor-positivo. Sem fraturas. Densitometria de um ano atrás com T-escore de -1,5 na coluna lombar; a de agora mostra T-escore de -1,7, com redução de 6% na densidade mineral óssea da coluna. Ingestão láctea baixa, sedentária, não fuma.
achado
T-escore de -1,7 é osteopenia, não osteoporose densitométrica. Mas a paciente está em inibidor de aromatase, e nesse cenário o protocolo tem régua própria.
conduta
A perda anual de 6% de DMO durante anastrozol já indica tratamento? Justifique e descreva a avaliação e as medidas terapêuticas.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Exigir T-escore ≤ -2,5 para dizer que há osteoporose É a armadilha mais rentável em prova porque o número é o que se decora. Fratura por trauma mínimo fecha o diagnóstico sozinha, independentemente da densitometria — e a maioria das fraturas por fragilidade acontece em quem tem osteopenia, porque é aí que está a maior parte da população.
  2. 2Usar o corte -2,5 em quem toma corticoide, inibidor de aromatase ou faz privação androgênica Nesses três cenários o corte desce para -2,0, e no inibidor de aromatase a perda de 5% a 10% ao ano já indica tratamento com qualquer T-escore. A questão descreve o medicamento em uso e oferece um T-escore entre -2,0 e -2,5 justamente para separar quem leu os casos especiais.
  3. 3Escolher ácido zoledrônico porque a adesão ao comprimido é ruim Soa razoável e é errado pelo protocolo: o intravenoso é reservado a intolerância ou dificuldade de deglutição por anormalidade esofágica, refluxo importante ou disabsorção. Dificuldade de adesão se resolve com o esquema semanal, que já tem melhor adesão que o diário.
  4. 4Prescrever calcitriol como reposição de vitamina D Calcitriol não repõe 25-hidroxivitamina D — ele pula a etapa que o exame mede. Só tem lugar em depuração de creatinina ≤ 30 mL/min, osteomalácia hipofosfatêmica ou por deficiência de 1-alfa-hidroxilase, insuficiência hepática e hipoparatireoidismo. Em paciente com função renal normal, é escolha errada em qualquer dose.
  5. 5Dar todo o cálcio de uma vez A absorção limita a tomada a 500 mg de cálcio elementar por vez, e o total diário deve ficar abaixo de 1.400 mg — é acima desse patamar que a preocupação cardiovascular com a suplementação se sustenta. Alternativa que ofereça 1.500 mg em dose única erra por dois motivos ao mesmo tempo.
  6. 6Tratar romosozumabe como droga de manutenção São no máximo 12 meses, e ao fim do período o bisfosfonato entra imediatamente, mesmo com ganho substancial de densidade — sem isso o ganho se perde. Também não se inicia em quem teve infarto ou AVE no ano anterior, e a hipocalcemia precisa estar corrigida antes da primeira dose.
  7. 7Chamar de falha terapêutica a DMO que não subiu Sucesso é DMO crescente OU estável, sem novas fraturas. Falha tem definição fechada e exige fratura: duas ou mais em vigência de tratamento por pelo menos um ano, ou uma fratura após um ano de tratamento somada a perda de DMO maior que 5%. Fratura logo após o início do tratamento também não conta como falha.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Idosa com osteoporose (T-score -3,0) e fratura prévia por fragilidade tem indicação clara de tratamento; o bisfosfonato é a primeira linha para redução do risco de novas fraturas, com cálcio/vitamina D já otimizados e função renal aceitável (correta). A reposição estrogênica não é primeira linha em idosa dessa faixa etária pelo risco cardiovascular/tromboembólico. Cálcio e vitamina D isolados são insuficientes na osteoporose estabelecida. Calcitonina tem eficácia limitada e não é primeira linha. Testosterona não é indicada para osteoporose em mulheres.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Três portas do diagnóstico: T-escore ≤ -2,5; fratura por trauma mínimo (independe do T-escore); T entre -1,0 e -2,49 com FRAX acima do limiar. Densitometria para mulher ≥ 65, homem ≥ 70 ou fator de risco. Primeira linha: cálcio 1.000-1.200 mg/dia fracionado em tomadas de até 500 mg + colecalciferol 800-1.000 UI/dia (até 2.000 UI acima dos 60 anos) + alendronato 70 mg/semana ou risedronato 35 mg/semana, em jejum, sem deitar por 30 a 60 minutos.

em 30 dias

Casos especiais em que o corte é -2,0: corticoide acima de 5 mg/dia de prednisona por ≥ 3 meses, privação androgênica e inibidor de aromatase (que também trata com queda anual de DMO de 5% a 10%). Zoledrônico 5 mg IV/ano só por impossibilidade do oral. Romosozumabe 210 mg SC/mês por até 12 meses só em osteoporose grave com falha terapêutica, seguido de bisfosfonato. Duração: 5 anos oral e 3 anos IV, estendendo a 10 e 6 anos se T < -3,0 ou fraturas; pausa de 1 a 2 anos após 5 anos de oral. Monitorar com DXA a cada 1 a 2 anos no mesmo aparelho.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 66 anos chega à UBS com o resultado da primeira densitometria: T-escore de -2,6 no colo do fêmur e -2,3 na coluna lombar. Nunca fraturou, não toma medicamento nenhum, bebe pouco leite e caminha três vezes por semana. Conduza a consulta: investigue causas secundárias, decida se há indicação de tratamento medicamentoso e prescreva. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Osteoporose pós-menopausa — Preparatório para provas | OsceLabs