Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Doença inflamatória pélvica

A prova de DIP não cobra certeza diagnóstica — cobra limiar. Três achados de exame físico mais um critério menor fecham o caso, o antibiótico começa antes de qualquer imagem, e cada dia de espera é trompa perdida.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 22 anos, sexualmente ativa, procura a UBS com dor pélvica há 4 dias, corrimento vaginal purulento e febre. Ao exame: T 38,2 °C, dor à mobilização do colo uterino e à palpação anexial bilateral, sem massas. Beta-hCG negativo. Considerando a hipótese diagnóstica mais provável, qual é o esquema antibiótico ambulatorial recomendado?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da infecção que subiu. O corrimento vaginal e a cervicite isolada têm capítulos próprios nesta apostila; aqui a paciente já passou do orifício externo do colo, e o processo alcança endométrio, tubas, ovários e peritônio pélvico. A conta epidemiológica que o protocolo brasileiro publica liga um capítulo ao outro sem intermediário: estima-se um caso de doença inflamatória pélvica para cada oito a dez casos de cervicite pelos patógenos envolvidos. Quem trata cervicite direito produz menos DIP; quem não olha o colo na consulta de corrimento está marcando a DIP de daqui a algumas semanas.

O eixo do tema é o limiar, e é isso que a banca cobra. A DIP se diagnostica clinicamente, com achados imprecisos, num quadro em que cerca de 65% dos casos são oligossintomáticos ou assintomáticos e só aparecem depois, como infertilidade por fator tubário. O diagnóstico clínico da forma sintomática tem valor preditivo positivo de 65% a 90% para salpingite quando comparado à laparoscopia — ou seja, erra, e o protocolo aceita esse erro de propósito: por menor que seja a suspeita, o tratamento deve ser iniciado o quanto antes. A aritmética é simples. Tratar quem não tem custa catorze dias de doxiciclina e um comprimido que dá enjoo. Não tratar quem tem custa trompa. E tratar não estraga a investigação das outras causas de dor pélvica baixa: gravidez ectópica, apendicite, cisto de ovário e dor funcional continuam sendo perseguidas com o antibiótico correndo.

A régua deste capítulo é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST, do Ministério da Saúde — anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021, com o texto em vigor alterado em 4 de julho de 2024. É de lá que saem os critérios organizados em três grupos, os seis motivos de internação e as doses que a farmácia do SUS entrega. O CDC entra por contraste, e o contraste é grande: o americano trata a paciente com um único achado de exame físico, enquanto o brasileiro pede três mais um. Não são a mesma régua. Reconhecer qual delas a questão está usando vale mais do que decorar as duas.

03

O que muda decisão

A infecção que subiu: onde este capítulo começa

DIP é a síndrome clínica atribuída à ascensão de microrganismos do trato genital inferior, espontânea ou decorrente de manipulação — inserção de DIU, biópsia de endométrio, curetagem —, comprometendo endométrio, tubas uterinas, anexos e estruturas contíguas. Os nomes que a prova usa são apenas o endereço da inflamação: endometrite, salpingite, miometrite, ooforite, parametrite, pelviperitonite. A endometrite costuma ser a primeira manifestação; a partir dela o processo avança para as tubas e para a cavidade peritoneal pélvica.

Quando o agente alcança o líquido peritoneal, ele pode subir pela goteira parietocólica direita até o espaço infradiafragmático e inflamar a cápsula do fígado. Isso é a peri-hepatite, ou síndrome de Fitz-Hugh-Curtis, e volta adiante com nome próprio.

O canal endocervical é a barreira. A infecção endocervical por patógeno sexualmente transmissível rompe essa barreira e abre às bactérias vaginais o acesso ao trato superior. A ascensão é facilitada pelas variações hormonais do ciclo: durante o fluxo menstrual o muco cervical tem menor efeito bacteriostático, e a menstruação retrógrada empurra os agentes para cima. Por isso a dor que começa durante a menstruação ou logo depois dela é particularmente sugestiva — detalhe pequeno que a vinheta usa como pista.

Existe ainda a DIP subclínica, conceito proposto a partir da observação de que dois terços das mulheres com sequela tubária não tinham história anterior nem tratamento de DIP. Ela é tão comum quanto a forma clínica e tem as mesmas etiologias. É a razão pela qual o rastreio de clamídia e gonococo em mulheres sexualmente ativas reduz a incidência de DIP: o que se está evitando não é só a paciente que chega com dor, é a que nunca vai chegar.

Corte coronal do trato genital feminino com a infecção subindo do colo do útero para o endométrio, seguindo pelas tubas até os ovários, difundindo-se no peritônio pélvico e com um prolongamento tênue até a cápsula hepática.
A ascensão canalicular: endometrite primeiro, salpingite depois, peritônio pélvico em seguida. O prolongamento até o espaço infradiafragmático direito é a peri-hepatite de Fitz-Hugh-Curtis.

Polimicrobiana por construção: por que o esquema tem três drogas

Cerca de 85% dos casos são causados por agentes sexualmente transmitidos ou associados à vaginose bacteriana. Clamídia e gonococo, classicamente reconhecidos como as principais etiologias, vêm perdendo participação: alguns estudos os encontram em cerca de um terço dos casos, e o CDC registra teste positivo para um dos dois em aproximadamente metade das mulheres com DIP aguda. Menos de 15% dos casos agudos não são de transmissão sexual e se associam a germes entéricos, patógenos respiratórios ou micoplasmas que colonizam o trato genital inferior.

A lista completa do protocolo tem quatro blocos. Sexualmente transmissíveis: Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae, Mycoplasma genitalium, Trichomonas vaginalis e, raramente, vírus como o herpes simples. Endógenos: Mycoplasma genitalium, Mycoplasma hominis, Ureaplasma urealyticum. Anaeróbios: Bacteroides spp. e fragilis, Peptoestreptococcus spp., Prevotella spp. Facultativos: Escherichia coli, Gardnerella vaginalis, Haemophilus influenzae, Streptococcus spp. e agalactiae.

O que transforma uma infecção que começou monomicrobiana em doença polimicrobiana é a chamada teoria de Monif, e ela cai em prova como pergunta de mecanismo. A progressão dos agentes aeróbios aumenta o consumo de oxigênio e derruba o potencial de oxirredução local; somado à desvitalização de tecidos, isso cria um ambiente de microaerofilia ou de anaerobiose franca. Nesse ambiente os microrganismos entram em crescimento lento e surgem os anaeróbios oportunistas. O resultado é uma condição infecciosa polimicrobiana — mesmo quando o exame identificou um agente só.

Daí decorre a regra terapêutica que fecha a seção: o esquema tem de ser eficaz contra gonococo, clamídia, anaeróbios (em especial Bacteroides fragilis, que causa lesão tubária), vaginose bacteriana, Gram-negativos, facultativos e estreptococos, mesmo que nenhum desses tenha sido confirmado em laboratório. Monoterapia não é recomendada. Quando a questão oferece uma alternativa com uma droga só, ela está errada por princípio, antes de qualquer discussão de dose.

Os três maiores são de exame físico — e por isso o exame não pode ser pulado

Os três critérios maiores do protocolo são dor no hipogástrio, dor à palpação dos anexos e dor à mobilização do colo uterino. Os dois últimos só existem se alguém fizer o toque bimanual. É uma observação banal que decide questões inteiras: a vinheta que descreve dor pélvica, febre e leucocitose, mas registra explicitamente que o exame ginecológico não foi realizado, não fechou nada — faltam dois dos três maiores.

O exame clínico que o protocolo exige tem quatro partes, e todas cabem na vinheta. Aferição de sinais vitais. Exame abdominal. Exame especular, incluindo inspeção do colo em busca de friabilidade — sangramento fácil ao toque do swab — e de corrimento mucopurulento cervical. Exame bimanual, com mobilização do colo e palpação dos anexos.

Os sinais e sintomas que povoam a vinheta são pouco específicos por natureza: dor pélvica ou dor no abdome inferior, dispareunia, corrimento vaginal, sangramento vaginal anormal em pouca quantidade, disúria, febre. Sangramento uterino anormal — pós-coital, intermenstrual ou menorragia — aparece em um terço ou mais dos casos. Um detalhe que o protocolo destaca: o sangramento de escape em usuária de anticoncepcional de baixa dosagem é comum, mas pode ser indicativo de DIP e deve ser investigado. Não é para tratar como efeito colateral e mandar embora.

O curso temporal é tipicamente agudo, montando-se ao longo de vários dias, mas pode se estender por semanas. E há a regra de abertura, escrita em destaque no documento: quando uma mulher sexualmente ativa se apresenta com dor abdominal baixa ou dor pélvica, DIP entra no diagnóstico diferencial independentemente da história de atividade sexual recente. A ausência de relação sexual no último mês não tira a DIP da mesa.

Menores e elaborados: o que cada grupo está comprando

Os critérios menores são sete e todos são marcadores de inflamação inespecífica: temperatura axilar acima de 37,5 °C; conteúdo vaginal ou secreção endocervical anormal; massa pélvica; mais de dez leucócitos por campo de imersão em material de endocérvice; leucocitose em sangue periférico; proteína C reativa ou VHS elevada; comprovação laboratorial de infecção cervical por gonococo, clamídia ou micoplasmas. Nenhum deles fecha nada sozinho — cada um serve para somar especificidade aos três maiores.

Os critérios elaborados são três e correspondem a ver a doença: evidência histopatológica de endometrite; presença de abscesso tubo-ovariano ou de coleção em fundo de saco de Douglas em estudo de imagem; laparoscopia com evidência de DIP. Um deles, sozinho, fecha o diagnóstico. Por isso a ultrassonografia que mostra abscesso tubo-ovariano dispensa a contagem de maiores e menores — e, no mesmo movimento, já indica internação.

A regra, escrita exatamente assim no documento: três critérios maiores mais um critério menor, ou um critério elaborado. Os elaborados aumentam a especificidade do diagnóstico clínico, não a sensibilidade. Isso significa que a paciente com os três maiores e nenhum menor documentado ainda pode ser tratada por juízo clínico — o protocolo manda tratar diante de suspeita —, mas não é dela que a questão está falando quando pergunta o que fecha o diagnóstico pelos critérios.

Vale registrar a arquitetura da regra, porque ela explica a divergência com o CDC mais adiante. Exigir três achados aumenta a especificidade e derruba a sensibilidade: exclui mais mulheres que não têm DIP e, no mesmo movimento, deixa de identificar mulheres que têm. O CDC escolheu o outro lado da gangorra. O Brasil escolheu este, e por um motivo que os autores do protocolo escreveram por extenso: num sistema em que boa parte do diagnóstico depende de exame complementar disponível, apoiar tudo em critério clínico isolado aumentaria o número de falso-positivos — infecção urinária e cisto anexial também doem no baixo ventre — e levaria a tratamentos agressivos desnecessários.

O que pedir — e o que não muda a decisão

Os exames servem para diagnóstico etiológico e avaliação de gravidade, não para autorizar o antibiótico. A lista do protocolo: hemograma completo; VHS; proteína C reativa; exame bacterioscópico para vaginose bacteriana; cultura de material de endocérvice com antibiograma; detecção de clamídia e gonococo por biologia molecular, em material de endocérvice, uretra, laparoscopia ou punção de fundo de saco posterior; exame qualitativo de urina e urocultura, para afastar infecção urinária; hemocultura; teste de gravidez, para afastar gravidez ectópica.

A ultrassonografia transvaginal e pélvica é o método acessível e não invasivo para as complicações — abscesso tubo-ovariano, cistos, torção de ovário. O achado ultrassonográfico principal da DIP é uma fina camada líquida preenchendo a trompa, com ou sem líquido livre na pelve. Quando o quadro piora, entram ressonância magnética ou tomografia, e a laparoscopia, para diferenciais e complicações.

Duas negativas que valem alternativa. Sorologia de Chlamydia trachomatis não é recomendada para diagnosticar DIP — anticorpo não distingue infecção atual de exposição passada. E a laparoscopia, embora seja o padrão-ouro, não é usada de rotina na fase inicial: não detecta endometrite, tem baixa sensibilidade para inflamação tubária discreta e carrega morbidade própria.

O ponto que a questão testa com mais frequência é a ordem. Nenhum desses exames precede o antibiótico. O tratamento com antibiótico deve ser iniciado imediatamente diante da suspeição clínica, independentemente da avaliação de imagem. A alternativa que diz "solicitar ultrassonografia transvaginal e reavaliar" numa paciente que já preenche os critérios está trocando trompa por confirmação.

Os diagnósticos diferenciais que a banca gosta de esconder na vinheta: gravidez ectópica, apendicite aguda, infecção do trato urinário, litíase ureteral, torção de tumor cístico de ovário, torção de mioma uterino, rotura de cisto ovariano, endometriose e endometrioma roto, diverticulite.

O fluxograma tem dois galhos antes de qualquer critério

O fluxograma de manejo do PCDT foi desenhado para unidade com suporte mínimo de laboratório, e a primeira coisa que ele faz não é diagnosticar: é tirar da unidade quem não pode ficar ali. Duas perguntas vêm antes dos critérios.

Primeira: há sangramento vaginal, atraso menstrual ou parto ou aborto recente? Se sim, referenciar. Esses três achados abrem uma agenda obstétrica — gravidez ectópica, abortamento, infecção puerperal — que não se resolve com ceftriaxona intramuscular e alta.

Segunda: há quadro abdominal grave, entendido como defesa muscular, dor à palpação ou febre? Se sim, referenciar em caráter emergencial, para maternidade ou serviço de urgência. Note a assimetria que a prova adora: a febre é, ao mesmo tempo, critério menor de diagnóstico e motivo de referenciamento no fluxograma. Não há contradição — a febre soma para fechar o diagnóstico, e a febre com abdome em defesa tira a paciente do manejo ambulatorial na atenção básica.

Só depois desses dois galhos o fluxograma pergunta se os critérios fecham. Fechando, ele pergunta se há indicação de internação; não havendo, inicia tratamento ambulatorial e agenda retorno em três dias. Não fechando, manda colher material e investigar gonorreia, clamídia, tricomoníase e vaginose bacteriana, e procurar outras causas.

Em paralelo, o fluxograma lista os fatores de risco para IST que sobem a probabilidade pré-teste e que a vinheta costuma plantar: idade abaixo de 30 anos, parcerias novas ou múltiplas, parceria com IST, história prévia ou presença de outra IST, uso irregular de preservativo. A adolescente com atividade sexual tem risco cerca de três vezes maior de DIP aguda do que a mulher acima de 25 anos.

Estadiar: Monif, Gainesville e o que o PCDT faz em vez disso

O estadiamento que a prova brasileira chama de classificação de Monif nasceu em 1982, num trabalho sobre estadiamento clínico da salpingite bacteriana aguda e suas ramificações terapêuticas. O documento brasileiro o chama de classificação de Gainesville — os dois nomes se referem ao mesmo trabalho, e a razão de o nome da cidade ter colado é geográfica: era onde o autor trabalhava. Se a questão disser Monif e a alternativa disser Gainesville, é a mesma coisa.

São quatro estágios, e a lógica deles é a única que interessa: cada estágio existe porque muda a conduta. Grau I é salpingite sem peritonite, e é o único que se trata em ambulatório. Grau II é salpingite com peritonite: interna. Grau III é o complexo tubo-ovariano, subdividido em A, hidrossalpinge, e B, abscesso tubo-ovariano íntegro: interna, com drenagem entrando em cena se não houver resposta. Grau IV é o abscesso tubo-ovariano roto: cirurgia. A publicação científica do protocolo brasileiro acrescenta um grau V — qualquer dos anteriores associado a tuberculose genital — que não aparece na versão americana original e é a pegadinha de nomenclatura mais provável do tema.

Aqui está o detalhe que separa quem leu do documento de quem leu do resumo: o PCDT do Ministério da Saúde não estagia a DIP. O capítulo 10 não tem quadro de estadiamento. O que ele tem é a frase de que o tratamento ambulatorial se aplica a mulheres com quadro clínico leve e exame abdominal e ginecológico sem sinais de pelviperitonite — que é a descrição do grau I sem citar a classificação — seguida da lista de seis critérios de internação. Quem decide onde a paciente fica, na régua oficial do SUS, é a lista, não o estágio.

A publicação científica dos mesmos autores, essa sim, usa o estadiamento: diz que o tratamento ambulatorial se aplica ao estádio I de Gainesville e que os demais estádios requerem tratamento hospitalar. E protocolos de serviço construídos sobre o PCDT vão além: o da Secretaria de Saúde do Distrito Federal organiza a conduta inteira por estágio, com reavaliação em 72 horas no estágio 1 e a cada 48 horas nos demais, laparotomia ou laparoscopia para drenagem no estágio 3 que não responde, e cirurgia imediata no estágio 4.

As duas leituras convivem sem conflito prático porque chegam ao mesmo lugar: abscesso tubo-ovariano interna nas duas; peritonite interna nas duas; abscesso roto vai para a sala nas duas. A diferença é de vocabulário, e o vocabulário é o que a questão testa.

Quem interna

São seis critérios, e a lista é fechada: abscesso tubo-ovariano; gravidez; ausência de resposta clínica após 72 horas do início do tratamento com antibiótico oral; intolerância a antibióticos orais ou dificuldade de seguimento ambulatorial; estado geral grave, com náuseas, vômitos e febre; dificuldade na exclusão de emergência cirúrgica, como apendicite ou gravidez ectópica.

A gravidez merece parágrafo próprio porque é absoluta e cai muito. Gestantes com suspeita de DIP têm alto risco de abortamento e corioamnionite. Todas as gestantes com DIP suspeita ou confirmada devem ser internadas e iniciar imediatamente antibióticos intravenosos de amplo espectro. Não existe DIP ambulatorial na gestação. E há duas proibições farmacológicas que andam juntas com isso: doxiciclina e quinolonas são contraindicadas na gestação — o que retira a primeira coluna do esquema padrão e obriga a discussão do caso.

Duas populações que a prova usa como falsa indicação de internação. A adolescente, embora tenha risco maior de DIP e de complicações, não precisa obrigatoriamente ser internada: a decisão usa os mesmos critérios da mulher adulta. E a pessoa imunocomprometida tem comportamento clínico semelhante ao de quem tem imunidade normal — desenvolve abscesso tubo-ovariano com mais facilidade e por isso merece maior vigilância, mas a imunossupressão em si não indica internação. Alternativa que interna a paciente só por ela ter 16 anos, ou só por ela viver com HIV, está errada.

Fora da lista, mas dentro do bom senso do protocolo: analgésicos e anti-inflamatórios são úteis, e a hidratação intravenosa está indicada se a mulher estiver desidratada. A dor da DIP se trata; não é preciso deixá-la doendo para acompanhar a evolução.

Ambulatorial: a dose que sai da farmácia do SUS

A primeira opção é ceftriaxona 500 mg, intramuscular, dose única, mais doxiciclina 100 mg, um comprimido, por via oral, duas vezes ao dia, por 14 dias, mais metronidazol 250 mg, dois comprimidos, por via oral, duas vezes ao dia, por 14 dias. A segunda opção troca a ceftriaxona por cefotaxima 500 mg intramuscular em dose única e mantém o resto. Não há terceira opção ambulatorial no quadro.

O metronidazol merece atenção porque o protocolo escreve a dose do jeito que a caixa do SUS entrega, e a prova costuma escrever do jeito farmacológico: 250 mg, dois comprimidos, duas vezes ao dia, é 500 mg de 12 em 12 horas. São a mesma prescrição. A alternativa que diz metronidazol 500 mg VO 12/12 h por 14 dias está de acordo com o protocolo brasileiro, ainda que as palavras não coincidam.

A lógica operacional do esquema é a dose única injetável na hora do diagnóstico. A paciente recebe a ceftriaxona ali, na unidade, e sai com a receita dos dois orais. Isso garante que pelo menos a cobertura antigonocócica aconteceu, mesmo que a adesão aos catorze dias falhe — e é a mesma engenharia que o protocolo usa para cervicite e para as parcerias.

Três avisos que viram questão. Primeiro: orientar a paciente a não ingerir bebida alcoólica durante o uso de metronidazol e nas 24 horas seguintes, pelo efeito dissulfiram-símile. Segundo: doxiciclina é contraindicada na gravidez, o que já exclui esse esquema para a gestante — que, de todo modo, interna. Terceiro: não se usa quinolona empiricamente na DIP, por causa da resistência emergente e em expansão de N. gonorrhoeae ao ciprofloxacino. Ciprofloxacino em alternativa de DIP no Brasil é erro, sempre.

Ao lado do antibiótico, o protocolo pede o pacote completo de IST: testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C; testagem molecular para clamídia e gonococo; vacinação para hepatites A e B e para HPV quando indicado; orientação sobre prevenção combinada; tratamento das parcerias; e notificação, quando indicada. Isso não é enfeite de fluxograma — é item de questão de conduta completa.

Hospitalar: três combinações e a hora de descer para a via oral

Primeira opção: ceftriaxona 1 g, intravenosa, uma vez ao dia, por 14 dias, mais doxiciclina 100 mg, um comprimido, por via oral, duas vezes ao dia, por 14 dias, mais metronidazol 400 mg, intravenoso, de 12 em 12 horas. Segunda opção: clindamicina 900 mg, intravenosa, três vezes ao dia, por 14 dias, mais gentamicina 3 a 5 mg/kg, intravenosa ou intramuscular, uma vez ao dia, por 14 dias. Terceira opção: ampicilina/sulbactam 3 g, intravenosa, de 6 em 6 horas, por 14 dias, mais doxiciclina 100 mg, um comprimido, por via oral, duas vezes ao dia, por 14 dias.

Note que a doxiciclina é oral mesmo no esquema hospitalar. Isso não é descuido de redação: a doxiciclina intravenosa dói na infusão e tem biodisponibilidade equivalente à oral, de modo que a via oral é preferida sempre que a paciente tolera. É por isso que ela aparece como comprimido dentro de um esquema de veia.

A regra de descalonamento é uma frase só, e ela responde à pergunta "por quanto tempo fica internada": o uso parenteral deve ser suspenso 24 horas após a cessação dos sintomas, e a antibioticoterapia por via oral se estende até completar 14 dias. Quatorze dias é o total de tratamento, não o tempo de internação. A alternativa que diz que a paciente fica quatorze dias no hospital tomando ceftriaxona na veia está lendo o quadro sem ler a nota de rodapé.

A gentamicina em dose única diária, em vez de dividida em duas ou três tomadas, é o padrão do quadro brasileiro atual. É o regime de intervalo estendido, que aproveita o efeito pós-antibiótico e a morte bacteriana dependente de concentração, com potencial de menor nefrotoxicidade e monitorização mais simples. Se a alternativa oferecer gentamicina 8/8 h como o esquema do protocolo, está desatualizada.

As combinações não são intercambiáveis por gosto. A doxiciclina é a medicação de primeira escolha para C. trachomatis por ser mais estudada em DIP que a azitromicina — e é justamente ela que falta na segunda opção, clindamicina com gentamicina, cuja cobertura antianaeróbia é a compensação. A combinação ampicilina/sulbactam é aceita, mas o próprio protocolo registra que não há trabalhos suficientes para confirmar sua eficácia.

Abscesso tubo-ovariano: drenar, operar, ou nem uma coisa nem outra

Abscesso tubo-ovariano é, ao mesmo tempo, critério elaborado — fecha o diagnóstico sozinho quando visto em imagem — e critério de internação. Nunca é caso ambulatorial. Mas também não é, por si só, caso cirúrgico: a maioria dos abscessos íntegros responde a antibiótico intravenoso, e a cirurgia é reservada para quem não responde ou para quem rompe.

A escada de intervenção do protocolo tem três degraus. Em casos particulares, o abscesso pode ser esvaziado por punção transabdominal guiada por ultrassonografia — procedimento percutâneo, sem abrir. Quando o abscesso ocupa o fundo de saco de Douglas, está indicada a culdotomia, drenagem por via vaginal. E a laparotomia está indicada nos casos de massas anexiais que não respondem ao tratamento ou que se rompem.

O abscesso roto é o único cenário em que o tempo de cirurgia é agora. Corresponde ao grau IV do estadiamento, e o protocolo de serviço que operacionaliza o tema descreve a conduta na ordem certa: estabilização hemodinâmica, antibiótico, e laparotomia ou laparoscopia imediata para drenagem, controle de sangramento e retirada das estruturas acometidas, se necessário.

Quando o quadro piora sem sinal de rotura, antes de indicar a sala vale considerar laparoscopia ou nova imagem — ressonância, tomografia — para diferenciais e complicações. E na paciente que já está em antibiótico há 48 horas com dor pior, febre mantida e leucograma pior, o protocolo estadual acrescenta o passo que costuma faltar na alternativa: trocar o esquema antibiótico, e não só levar para operar.

Um dado do CDC útil para reconhecer o recorte internacional da questão: na presença de abscesso tubo-ovariano, recomendam-se mais de 24 horas de observação hospitalar, e a cobertura antianaeróbia oral que completa os 14 dias é reforçada com clindamicina ou metronidazol junto da doxiciclina.

DIU: a recomendação que mudou

A resposta atual, nas duas réguas, é a mesma: não retira. Se a paciente for usuária de DIU, não há necessidade de remoção do dispositivo. Caso exista indicação de remoção — desejo da usuária, ausência de melhora, doença grave —, a remoção não deve ser anterior à instituição da antibioticoterapia, devendo ser realizada somente após duas doses do esquema terapêutico.

A regra clássica, que ainda povoa alternativa de prova, era o oposto: DIP em usuária de DIU, retira o DIU imediatamente. A justificativa era a de qualquer infecção associada a corpo estranho — próteses ortopédicas, valvas, implantes —, onde o material favorece biofilme e reduz a resposta ao tratamento. O que derrubou a regra foi a evidência direta: revisão sistemática de desfechos não encontrou diferença entre as mulheres que mantiveram e as que retiraram o dispositivo.

O risco de DIP associado ao DIU também é menor do que a fama sugere, e a leitura correta desse risco é a que a prova cobra. Usuárias de DIU têm risco ligeiramente aumentado em relação a quem não usa contracepção, e esse risco guarda relação inversa com o tempo desde a inserção — é mais alto nos primeiros 20 dias, e o CDC o confina às três primeiras semanas. A frase decisiva do protocolo: a responsável pela DIP no primeiro mês de uso é a exposição a IST no momento da inserção, e não o dispositivo. Tanto é assim que o risco cai nas mulheres tratadas para IST antes da inserção.

Duas orientações práticas que acompanham a manutenção do dispositivo: usar método de barreira e não fazer ducha vaginal. E uma nota de leitura, porque as fontes brasileiras não falam exatamente a mesma língua aqui: o PCDT condiciona a remoção às duas doses de antibiótico, enquanto protocolos de serviço construídos sobre ele mantêm a retirada quando a inserção foi recente, dentro das três primeiras semanas. Quem cobra a régua federal cobra a primeira.

Parceria sexual: dois meses, dose única, sintomática ou não

As parcerias sexuais dos dois meses anteriores ao diagnóstico, sintomáticas ou não, devem ser tratadas empiricamente para Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis. O esquema é ceftriaxona 500 mg intramuscular associada a azitromicina 1 g por via oral, ambas em dose única.

Três palavras carregam a questão inteira. "Dois meses": a janela é de 60 dias, e a alternativa que fala em 30 dias ou em "último parceiro" está fora da régua brasileira. "Sintomáticas ou não": parcerias de mulheres com DIP por clamídia ou gonococo frequentemente são assintomáticas, e esperar sintoma para tratar é garantir reinfecção. "Empiricamente": não se aguarda resultado de exame da parceria — o tratamento é presuntivo.

Para a paciente, a contrapartida é abstinência sexual até a cura clínica. O protocolo é explícito: a mulher observa abstinência até a cura, e o CDC estende a mesma orientação às parcerias, que devem se abster até terem completado o tratamento e os sintomas terem resolvido.

A régua americana tem duas diferenças que denunciam o recorte da questão. A janela é contada a partir do início dos sintomas, não do diagnóstico, e se o último contato sexual foi anterior a 60 dias, trata-se mesmo assim a parceria sexual mais recente — ninguém fica sem tratamento por questão de calendário. E a droga anticlamídia de escolha lá é a doxiciclina por sete dias, não a azitromicina em dose única.

Seguimento: três dias, uma semana, e o que fazer quando não melhora

A melhora clínica deve acontecer nos três primeiros dias após o início do antibiótico. O fluxograma operacionaliza isso agendando o retorno da paciente ambulatorial em três dias e perguntando, no retorno, se houve melhora. A cura é definida pelo desaparecimento dos sinais e sintomas — não por exame de controle.

Não houve melhora em 72 horas: interna. Isso não é uma decisão de bom senso, é um dos seis critérios de internação, escrito com essas palavras — ausência de resposta clínica após 72 horas do início do tratamento com antibioticoterapia oral. Na internação, além da via intravenosa, cabe reavaliar o diagnóstico: o CDC recomenda explicitamente considerar laparoscopia diagnóstica para diagnósticos alternativos nessa situação, e o protocolo brasileiro manda considerar laparoscopia ou nova imagem se o quadro piorar.

Depois da alta hospitalar, retorno ao ambulatório na primeira semana. Um dado do estudo PEACH ajuda a calibrar a expectativa e explica por que a cura é clínica: se a avaliação for feita por critério bacteriológico após trinta dias, 40% das mulheres ainda apresentam um ou mais agentes bacterianos. Cultura positiva no controle não significa falha de tratamento nem indica prolongar o esquema.

Uma conduta de seguimento que existe na régua americana e não aparece na brasileira: toda mulher com DIP por clamídia ou gonococo deve ser retestada em três meses, independentemente de a parceria ter sido tratada; se o reteste em três meses não for possível, faz-se na próxima consulta dentro de doze meses. É reteste para pegar reinfecção, não teste de cura.

Sequelas: o que se está comprando com o limiar baixo

As três sequelas maiores são infertilidade por fator tubário, gravidez ectópica e dor pélvica crônica, todas por cicatriz e aderência nas tubas. Os números que o corpo brasileiro publica vêm em duas camadas, e a distinção entre elas importa.

A camada de faixas amplas, da publicação científica do protocolo: cerca de 25% das mulheres com DIP terão dor pélvica crônica, de 10% a 50% terão infertilidade e de 15% a 60% terão gravidez ectópica. São faixas herdadas de literaturas heterogêneas e servem para dar ordem de grandeza, não para decorar como valor pontual. O PCDT, mais conservador, registra que as taxas de morbidade reprodutiva variam na literatura entre 9% e 20%.

A camada de coorte, que é o número para gravar porque tem denominador e horizonte definidos: sete anos após o primeiro episódio, 21,3% das mulheres apresentaram recorrência, 19% desenvolveram infertilidade e 42,7% referiram dor pélvica crônica. Se a questão pedir um número de sequela do documento brasileiro, é esse trio que ela está cobrando.

O que atravessa as duas camadas, e é a frase que fecha o eixo do capítulo: as proporções aumentam com o número de episódios. Cada DIP tratada tarde não custa só aquele episódio — recalibra para pior a probabilidade da próxima. E o tratamento imediato é justamente o que evita as complicações tardias. Não há intervenção posterior que recupere trompa perdida.

Há ainda associações descritas com maior risco de acidente vascular cerebral, câncer de ovário e obstrução aguda de intestino delgado, mencionadas na literatura citada pelo protocolo — periféricas para a prova, mas úteis para reconhecer que a DIP não termina na pelve.

Fitz-Hugh-Curtis: quando a dor muda de andar

Quando a infecção alcança o líquido peritoneal, o agente pode progredir até o espaço infradiafragmático direito e inflamar a cápsula do fígado. Isso é a peri-hepatite, ou síndrome de Fitz-Hugh-Curtis, e é uma complicação da DIP — não uma doença hepática.

A apresentação que a vinheta usa é uma mulher jovem com dor em hipocôndrio direito, de caráter pleurítico, que piora à inspiração profunda e ao movimento, acompanhada de queixas ginecológicas que podem ser discretas ou já ter melhorado. O fígado em si não sofre: transaminases costumam estar normais ou pouco alteradas, e é exatamente essa dissociação — dor de hipocôndrio direito intensa com prova hepática limpa — que aponta o diagnóstico.

O diferencial que a banca arma é colecistite aguda, e a saída é a mesma sempre: procurar a pelve. A mulher com dor em hipocôndrio direito que também tem dor à mobilização do colo e dor anexial não tem duas doenças — tem uma DIP que subiu.

E a conduta é a parte anticlimática, que é justamente o que a questão testa: a peri-hepatite não muda o tratamento. Trata-se a DIP, com o mesmo esquema que se usaria sem ela. Fitz-Hugh-Curtis não indica cirurgia, não indica hepatologista e não prolonga o esquema por si só.

O que não fazer

Não esperar exame para iniciar o antibiótico. Ultrassonografia, cultura, biologia molecular e proteína C reativa entram para etiologia e gravidade, não para autorização. Diante de suspeita clínica, trata-se.

Não usar monoterapia, e não usar quinolona empiricamente. A DIP é polimicrobiana por construção, e o ciprofloxacino está fora do tratamento empírico brasileiro por causa da resistência do gonococo.

Não retirar o DIU antes de instituir o antibiótico. Se houver indicação de remoção, ela vem depois de duas doses do esquema — e, na maioria das vezes, não há indicação nenhuma.

Não prescrever doxiciclina nem quinolona para gestante — e não tratar gestante em regime ambulatorial. Suspeita de DIP na gestação interna e recebe antibiótico intravenoso de amplo espectro.

Não internar por idade nem por imunossupressão isoladamente. Adolescentes e pessoas vivendo com HIV usam os mesmos critérios de internação das demais.

Não deixar de tratar a parceria dos últimos dois meses, e não condicionar esse tratamento a ela ter sintoma ou exame positivo. Não recomendar duchas vaginais. E não encerrar a consulta sem oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C — a DIP é a porta de entrada de quem já provou ter exposição a IST.

04

Do critério ao esquema: o que fecha, quem interna, o que se prescreve

Três tabelas e quatro estágios resolvem o tema. Uma tabela decide se é DIP, outra decide onde a paciente fica, a terceira decide o que entra na veia ou no bolso dela; os estágios traduzem o achado anatômico em conduta. Antes de todas, o caminho que o fluxograma do protocolo percorre — inclusive os dois galhos que saem da unidade básica antes de qualquer critério.

  1. 1Mulher sexualmente ativa com dor abdominal baixa ou dor pélvica: DIP entra no diferencial, independentemente da história de atividade sexual recente.
  2. 2Antes dos critérios, dois galhos de saída. Sangramento vaginal, atraso menstrual ou parto ou aborto recente: referenciar. Quadro abdominal grave — defesa muscular, dor à palpação ou febre: referenciar em caráter emergencial.
  3. 3Exame clínico completo: sinais vitais, exame abdominal, exame especular com inspeção do colo procurando friabilidade e corrimento mucopurulento, e exame bimanual com mobilização do colo e palpação dos anexos. Sem toque bimanual não existem dois dos três critérios maiores.
  4. 4Três critérios maiores mais um menor, ou um critério elaborado: é DIP. O antibiótico começa aqui — não depois da ultrassonografia, não depois da cultura.
  5. 5Não fechou: colher material e investigar gonorreia, clamídia, tricomoníase e vaginose bacteriana, e procurar outras causas de dor pélvica.
  6. 6Fechou: passar pela lista de internação. Nenhum critério presente, tratamento ambulatorial com retorno agendado em três dias.
  7. 7Retorno em três dias: melhorou, completa os 14 dias e enfatiza adesão. Não melhorou, interna e passa para a via intravenosa — a ausência de resposta após 72 horas é, ela própria, critério de internação.
  8. 8Em qualquer ponto do caminho: testar para HIV, sífilis e hepatites B e C, oferecer testagem molecular para clamídia e gonococo, tratar as parcerias dos últimos dois meses e orientar abstinência sexual até a cura clínica.

Grau I

Salpingite sem peritonite. Tubas inflamadas, abdome sem sinais de irritação peritoneal. É o único estágio de tratamento ambulatorial, e corresponde ao "quadro clínico leve e exame abdominal e ginecológico sem sinais de pelviperitonite" do PCDT.

Grau II

Salpingite com peritonite. O processo alcançou o peritônio pélvico: defesa, dor à descompressão, estado geral pior. Interna, e o antibiótico passa a ser intravenoso.

Grau III

Complexo tubo-ovariano, subdividido em A (hidrossalpinge) e B (abscesso tubo-ovariano íntegro). Interna. Abscesso íntegro que não responde ao antibiótico vai para drenagem — punção guiada por ultrassonografia, culdotomia se ocupa o fundo de saco, ou cirurgia.

Grau IV

Abscesso tubo-ovariano roto. Estabilização hemodinâmica, antibiótico e laparotomia ou laparoscopia imediata para drenagem, controle de sangramento e retirada das estruturas acometidas, se necessário. É o único estágio em que o tempo da cirurgia é agora.

Grupo de critériosItensQuantos precisam estar presentes
Maiores (achados de exame físico)Dor no hipogástrio · Dor à palpação dos anexos · Dor à mobilização do colo uterinoOs três
Menores (inflamação inespecífica)Temperatura axilar acima de 37,5 °C · Conteúdo vaginal ou secreção endocervical anormal · Massa pélvica · Mais de dez leucócitos por campo de imersão em material de endocérvice · Leucocitose em sangue periférico · Proteína C reativa ou VHS elevada · Comprovação laboratorial de infecção cervical por gonococo, clamídia ou micoplasmasUm, somado aos três maiores
Elaborados (a doença vista)Evidência histopatológica de endometrite · Abscesso tubo-ovariano ou coleção de fundo de saco de Douglas em estudo de imagem · Laparoscopia com evidência de DIPUm sozinho fecha o diagnóstico

Critérios de internação — e o que cada um está protegendo

Critério (Quadro 43 do PCDT)O que está em jogo
Abscesso tubo-ovarianoColeção organizada não se resolve com antibiótico oral e pode romper. Além de internar, o achado por si só já fecha o diagnóstico — é critério elaborado.
GravidezAlto risco de abortamento e corioamnionite. Toda gestante com DIP suspeita ou confirmada interna e recebe antibiótico intravenoso de amplo espectro. Doxiciclina e quinolonas estão contraindicadas.
Ausência de resposta clínica após 72 h de antibiótico oralA melhora deve acontecer nos três primeiros dias. Passado esse prazo sem resposta, muda-se a via e se reabre o diagnóstico — inclusive com laparoscopia diagnóstica, se necessário.
Intolerância a antibióticos orais ou dificuldade de seguimento ambulatorialEsquema de catorze dias que a paciente não consegue tomar, ou retorno que ela não conseguirá cumprir, equivale a não tratar. O critério é logístico e vale tanto quanto os clínicos.
Estado geral grave, com náuseas, vômitos e febreVômito impede o esquema oral e sinaliza doença mais avançada. É o correspondente clínico dos estágios com peritonite.
Dificuldade na exclusão de emergência cirúrgica (apendicite, gravidez ectópica)Aqui a internação é para observar e decidir, não para tratar a DIP. O antibiótico começa mesmo assim: tratar DIP não prejudica o diagnóstico das outras causas de dor pélvica baixa.

Esquemas do PCDT: droga, dose, via e duração

CenárioPrimeira opçãoSegunda opçãoTerceira opção
AmbulatorialCeftriaxona 500 mg, IM, dose única + doxiciclina 100 mg, VO, 2×/dia, 14 dias + metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 2×/dia, 14 dias (equivale a 500 mg de 12/12 h)Cefotaxima 500 mg, IM, dose única + doxiciclina 100 mg, VO, 2×/dia, 14 dias + metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO, 2×/dia, 14 dias— (não há)
HospitalarCeftriaxona 1 g, IV, 1×/dia, 14 dias + doxiciclina 100 mg, VO, 2×/dia, 14 dias + metronidazol 400 mg, IV, 12/12 hClindamicina 900 mg, IV, 3×/dia, 14 dias + gentamicina 3–5 mg/kg, IV ou IM, 1×/dia, 14 diasAmpicilina/sulbactam 3 g, IV, 6/6 h, 14 dias + doxiciclina 100 mg, VO, 2×/dia, 14 dias
Parcerias sexuais dos dois meses anteriores, sintomáticas ou nãoCeftriaxona 500 mg, IM, dose única + azitromicina 1 g, VO, dose única

O parenteral é suspenso 24 horas após a cessação dos sintomas, e a via oral se estende até completar 14 dias. Quatorze dias é o total de tratamento, não o tempo de internação.

A doxiciclina aparece por via oral mesmo dentro do esquema hospitalar: a infusão intravenosa dói e a biodisponibilidade é equivalente, de modo que a via oral é preferida sempre que a paciente tolera.

Metronidazol e álcool não se misturam: orientar abstinência de bebida alcoólica durante o uso e nas 24 horas seguintes, pelo efeito dissulfiram-símile.

A gentamicina vai em dose única diária de 3 a 5 mg/kg. O esquema fracionado de 8 em 8 horas foi substituído pelo intervalo estendido, que aproveita o efeito pós-antibiótico e a morte bacteriana dependente de concentração, com potencial de menor nefrotoxicidade.

Quinolona não entra em tratamento empírico de DIP no Brasil, por causa da resistência emergente e em expansão de N. gonorrhoeae ao ciprofloxacino. Monoterapia também não: a doença é polimicrobiana por construção.

A febre é, ao mesmo tempo, critério menor de diagnóstico e motivo de referenciamento no fluxograma quando acompanhada de abdome em defesa. Somar para fechar o diagnóstico e tirar a paciente do manejo ambulatorial são coisas diferentes.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantos achados bastam para começar o antibiótico

PCDT do Ministério da Saúde: três critérios maiores mais um menor, ou um elaborado

O diagnóstico clínico se faz a partir de três grupos, e a régua é explícita: presença de três critérios maiores mais um critério menor, ou de um critério elaborado. Os elaborados aumentam a especificidade. A defesa escrita pelos autores do protocolo é de arquitetura de sistema: apoiar o diagnóstico só em achado clínico, num cenário em que muitas mulheres chegam com quadro inespecífico, aumentaria o número de falso-positivos — infecção urinária e cisto anexial também produzem dor no baixo ventre e dor vaginal — e levaria a tratamentos agressivos desnecessários; laboratório e imagem, rotulados de maiores ou menores, seriam então parte essencial do diagnóstico presuntivo precoce.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT-IST, capítulo 10, Quadro 42 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021, texto alterado em 4/7/2024); e a réplica dos autores do protocolo publicada na DST J Bras Doenças Sex Transm, 2021.

CDC 2021: um dos três critérios mínimos de exame pélvico basta

O tratamento presuntivo deve ser iniciado em mulheres jovens sexualmente ativas e outras mulheres sob risco de IST que apresentem dor pélvica ou dor abdominal baixa, se nenhuma outra causa for identificada e se um ou mais dos três critérios mínimos estiverem presentes ao exame pélvico: dor à mobilização do colo, dor uterina ou dor anexial. O texto americano registra o motivo em uma frase: exigir que os três critérios mínimos estejam presentes antes de iniciar o tratamento empírico resulta em sensibilidade insuficiente. Os demais achados — temperatura oral acima de 38,3 °C, secreção cervical mucopurulenta ou friabilidade, leucócitos abundantes à microscopia do conteúdo vaginal, VHS ou proteína C reativa elevadas, documentação laboratorial de gonococo ou clamídia — existem para aumentar a especificidade, não para autorizar o tratamento.

CDC, Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, MMWR Recomm Rep 2021;70(4), seção Pelvic Inflammatory Disease.

Crítica publicada no Brasil: os três grupos derivam de critério aposentado lá fora

Carta ao editor publicada na revista brasileira de IST sustenta que a regra de três maiores mais um menor descende dos critérios de Hager, de 1983, vistos pela última vez nas diretrizes do CDC de 1998, e que os critérios atuais do CDC — rastreáveis a 2002 e mantidos sem mudança na edição de 2021 — os substituíram. A crítica é de atualização de referência, não de mérito clínico do documento inteiro.

Savaris RF, carta ao editor sobre o Protocolo Brasileiro para IST 2020: doença inflamatória pélvica, DST J Bras Doenças Sex Transm, 2021.

Na prova

As duas réguas produzem condutas diferentes na mesma vinheta, então o enunciado precisa entregar o recorte. Menção nominal ao Ministério da Saúde, ao PCDT, ao protocolo brasileiro de IST ou à unidade básica de saúde puxa a régua dos três grupos — e o vocabulário denuncia sozinho: as expressões "critério maior", "critério menor" e "critério elaborado" só existem no corpo brasileiro. Menção ao CDC, ou cenário de centro terciário e conduta internacional, puxa a régua dos três critérios mínimos. As alternativas também entregam: se uma delas oferece "dor à mobilização do colo isoladamente já autoriza o tratamento" e outra exige a contagem, a questão está pedindo que se distinga uma régua da outra. Vale a régua geral: prova oficial do MEC tende à conduta do SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam. E há o ponto onde ninguém diverge, que costuma ser a alternativa correta de conduta: nas duas réguas o antibiótico começa antes de exame de imagem ou cultura.

Retirar o DIU da paciente com DIP

Recomendação clássica, hoje abandonada: retirar o dispositivo ao diagnóstico

A conduta tradicional mandava remover o DIU assim que a DIP fosse diagnosticada. O raciocínio é o de infecção associada a corpo estranho — próteses ortopédicas, cardíacas, dentárias, oftálmicas: a presença do material favorece a formação de biofilme, que reduz ou impede a resposta adequada ao tratamento e predispõe a recidiva. Os autores do protocolo brasileiro sustentam que essa plausibilidade biológica continua valendo nos casos graves, em que a remoção do corpo estranho é considerada essencial para otimizar o tratamento — feita, nesses casos, depois de iniciado o esquema antibiótico.

Réplica dos autores do Protocolo Brasileiro para IST à carta ao editor, DST J Bras Doenças Sex Transm, 2021.

PCDT do Ministério da Saúde: não remover; havendo indicação, só após duas doses do esquema

Se a paciente for usuária de DIU, não há necessidade de remoção do dispositivo. Caso exista indicação de remoção, ela não deve ser anterior à instituição da antibioticoterapia e deve ser realizada somente após duas doses do esquema terapêutico. Orienta-se uso de métodos de barreira e não se recomendam duchas vaginais. O protocolo situa o risco: usuárias de DIU têm risco ligeiramente aumentado de DIP, mais alto nos primeiros 20 dias após a inserção, e o responsável por esse risco é a exposição a IST no momento da inserção, não o dispositivo — tanto que o risco cai nas mulheres tratadas para IST antes de inserir.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT-IST, capítulo 10, item 10.9.1 (anexo em vigor, alterado em 4/7/2024); mesma conduta reproduzida no protocolo PRO.UGIN.017 v3 da Maternidade Escola Assis Chateaubriand, de dezembro de 2024.

CDC 2021: não remover; reconsiderar se não houver melhora em 48 a 72 horas

Se uma usuária de DIU recebe diagnóstico de DIP, o dispositivo não precisa ser removido; a mulher recebe o tratamento recomendado e seguimento clínico próximo. Se não houver melhora clínica em 48 a 72 horas do início do tratamento, considera-se a remoção. A base é direta: revisão sistemática não encontrou diferença de desfecho entre mulheres que mantiveram e que removeram o dispositivo — com a ressalva de que os estudos incluíram sobretudo DIU de cobre e outros não hormonais, sem dados de desfecho para o DIU de levonorgestrel. O risco de DIP associado ao DIU fica confinado às três primeiras semanas após a inserção.

CDC, Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, MMWR Recomm Rep 2021;70(4), subseção Intrauterine Devices.

Na prova

O que mudou é a direção padrão: a conduta antiga retirava, a atual mantém. Alternativa que manda remover o DIU imediatamente ao diagnóstico está fora das duas réguas contemporâneas, e é o distrator mais frequente do tema. A diferença que resta entre os documentos atuais é o gatilho da remoção quando ela é cogitada — o brasileiro condiciona a remoção a já terem sido dadas duas doses do esquema; o americano condiciona à ausência de melhora em 48 a 72 horas. Enunciado que fala em número de doses de antibiótico está no corpo brasileiro; enunciado que fala em janela de horas sem melhora clínica está no corpo americano. Protocolos estaduais e de serviço podem acrescentar a retirada quando a inserção foi recente, dentro de três semanas — vocabulário que denuncia documento local, não a régua federal.

Qual antibiótico, em que dose, e o que a parceria recebe

PCDT do Ministério da Saúde: ceftriaxona, doxiciclina e metronidazol, com quinolona vedada

No ambulatório, ceftriaxona 500 mg IM em dose única com doxiciclina 100 mg VO de 12/12 h e metronidazol 250 mg, dois comprimidos, VO de 12/12 h, ambos por 14 dias; a segunda opção troca a ceftriaxona por cefotaxima 500 mg IM. No hospital, ceftriaxona 1 g IV ao dia com doxiciclina oral e metronidazol 400 mg IV de 12/12 h, tendo clindamicina com gentamicina e ampicilina/sulbactam com doxiciclina como alternativas. Quinolona está vedada no tratamento empírico, por causa da resistência emergente e em expansão de N. gonorrhoeae ao ciprofloxacino. A parceria dos dois meses anteriores ao diagnóstico recebe ceftriaxona 500 mg IM com azitromicina 1 g VO, ambas em dose única.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT-IST, capítulo 10, Quadro 44 e itens 10.3 e 10.6 (anexo em vigor, alterado em 4/7/2024).

CDC 2021: mesmo esqueleto, com cefamicinas, probenecida e uma exceção para quinolona

O regime intramuscular ou oral recomendado é ceftriaxona 500 mg IM em dose única com doxiciclina 100 mg VO de 12/12 h e metronidazol 500 mg VO de 12/12 h por 14 dias — com a alternativa de cefoxitina 2 g IM em dose única associada a probenecida 1 g VO concomitante. Entre os parenterais recomendados figuram cefotetana 2 g IV de 12/12 h e cefoxitina 2 g IV de 6/6 h, que cobrem anaeróbios melhor que a ceftriaxona. Quinolona é desaconselhada pela resistência do gonococo, mas o documento abre exceção: havendo alergia a cefalosporina, baixa prevalência comunitária e baixo risco individual de gonorreia e seguimento provável, levofloxacino ou moxifloxacino com metronidazol podem ser considerados. Para a parceria, avaliação, testagem e tratamento presuntivo de clamídia e gonorreia — e a droga anticlamídia de escolha desde 2021 é a doxiciclina por sete dias.

CDC, Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, MMWR Recomm Rep 2021;70(4), seção Pelvic Inflammatory Disease.

Na prova

A divergência não é de qualidade da recomendação: é de farmácia e de vigilância. Cefotetana não é comercializada no Brasil e probenecida não integra o arsenal do SUS, de modo que as opções que dependem delas simplesmente não existem no documento nacional. A dose única injetável associada a orais é engenharia de adesão para um sistema em que o retorno é incerto — a mesma razão pela qual a parceria recebe azitromicina 1 g em dose única, aplicada presencialmente, em vez de sete dias de doxiciclina que ninguém acompanha. E a vedação brasileira à quinolona é mais dura que a americana porque a régua nacional não pretende individualizar por prevalência local de resistência. Para identificar o recorte: menção a cefoxitina, cefotetana ou probenecida denuncia corpo americano; doses escritas como "250 mg, 2 comprimidos" denunciam o quadro brasileiro, que descreve a apresentação que a farmácia entrega. Cuidado com a falsa divergência do metronidazol ambulatorial: 250 mg com dois comprimidos duas vezes ao dia é a mesma coisa que 500 mg de 12 em 12 horas — os dois documentos prescrevem a mesma dose. E a edição de 2021 do CDC trouxe o metronidazol para dentro do regime intramuscular ou oral recomendado, onde antes ele era opcional, aproximando-se do que o quadro brasileiro já fazia; enunciado que trate cobertura antianaeróbia como acessório está usando régua anterior a 2021.

Estadiar a DIP para decidir a conduta

Publicação científica do protocolo brasileiro: o estadiamento de Gainesville orienta o tratamento

A laparoscopia teve seu mérito ao suscitar a classificação diagnóstica de Gainesville, ainda bastante utilizada de acordo com achados clínicos e ultrassonográficos e importante para nortear o tratamento: grau I, salpingite sem peritonite; grau II, salpingite com peritonite; grau III, complexo tubo-ovariano, subdividido em A, hidrossalpinge, e B, abscesso tubo-ovariano; grau IV, abscesso tubo-ovariano roto; grau V, qualquer dos anteriores associado a tuberculose genital. O tratamento ambulatorial se aplica às mulheres com quadro clínico leve e sem sinais de pelviperitonite, que é o estádio I; os demais estádios requerem tratamento hospitalar.

Menezes MLB, Giraldo PC, Linhares IM, Boldrini NAT, Aragón MG. Protocolo Brasileiro para IST 2020: doença inflamatória pélvica. Epidemiol Serv Saúde. 2021;30(Esp.1):e2020602. Classificação original em Monif GR, Am J Obstet Gynecol 1982;143:489-95.

PCDT do Ministério da Saúde: sem quadro de estadiamento — quem decide é a lista de internação

O capítulo 10 do protocolo em vigor não traz classificação por estágios. O critério de onde a paciente fica é textual e operacional: o tratamento ambulatorial se aplica a mulheres com quadro clínico leve e exame abdominal e ginecológico sem sinais de pelviperitonite, e os seis itens do Quadro 43 — abscesso tubo-ovariano, gravidez, ausência de resposta após 72 horas, intolerância a antibiótico oral ou dificuldade de seguimento, estado geral grave e dificuldade de excluir emergência cirúrgica — definem a internação. O nome Monif aparece no documento apenas na teoria que explica por que a infecção se torna polimicrobiana, não como classificação de gravidade.

Brasil, Ministério da Saúde, PCDT-IST, capítulo 10, itens 10.3.1 e Quadro 43 (anexo em vigor, alterado em 4/7/2024).

Crítica publicada no Brasil: conceito de 1982 esvaziado pelo ensaio PEACH

Carta ao editor na revista brasileira de IST sustenta que o estádio de Gainesville é conceito antiquado, proposto por Gilles Monif em 1982, com pouco significado hoje: sua finalidade era orientar o tratamento como ambulatorial ou hospitalar para preservar a estrutura tubária, e essa premissa foi desmontada pelo ensaio PEACH, que não encontrou vantagem do tratamento intravenoso hospitalar sobre o oral ambulatorial na DIP de gravidade leve a moderada.

Savaris RF, carta ao editor sobre o Protocolo Brasileiro para IST 2020: doença inflamatória pélvica, DST J Bras Doenças Sex Transm, 2021.

Na prova

Duas nomenclaturas, um mesmo conteúdo: Monif e Gainesville nomeiam o mesmo trabalho de 1982, e a questão pode usar qualquer um dos dois. O grau V — associação com tuberculose genital — só aparece no corpo brasileiro, e é a pegadinha de nomenclatura mais provável do tema. Para identificar o recorte: enunciado que pede "o estágio" ou apresenta alternativas em algarismos romanos está no corpo do estadiamento; enunciado que pergunta "há indicação de internação?" está na lista do Quadro 43. Na prática as duas chegam ao mesmo destino — peritonite interna, abscesso interna, abscesso roto vai para a sala —, o que muda é o vocabulário exigido. E há um sinal externo útil: quando o cenário é unidade básica de saúde com suporte mínimo de laboratório, o documento aplicável é o que percorre o fluxograma por critérios, não o que exige estadiamento por imagem.

06

Caso resolvido

Mulher de 23 anos procura a unidade básica de saúde com dor no baixo ventre há quatro dias, contínua, que piora à relação sexual e ao caminhar rápido, iniciada dois dias após o término da menstruação. Refere corrimento vaginal amarelado há cerca de duas semanas e sangramento de escape entre as menstruações no último mês, que atribuía ao anticoncepcional oral de baixa dosagem que usa. Nega náuseas e vômitos, nega disúria e diz que o intestino está funcionando normalmente. Duas parcerias sexuais nos últimos três meses, uso irregular de preservativo. Última menstruação há nove dias, ciclos regulares. Ao exame: temperatura axilar de 37,9 °C, pressão arterial 118×72 mmHg, frequência cardíaca de 92 bpm. Abdome doloroso à palpação profunda do hipogástrio, sem defesa e sem descompressão dolorosa. Ao exame especular, corrimento mucopurulento saindo do orifício externo do colo, que sangra ao toque do swab. Ao toque bimanual, dor intensa à mobilização do colo e dor à palpação de ambos os anexos, sem massas palpáveis. Teste de gravidez negativo. Hemograma com 13.800 leucócitos.
achado
Mulher jovem, sexualmente ativa, com dor pélvica de quatro dias iniciada logo após a menstruação — o momento do ciclo em que o muco cervical perde efeito bacteriostático e a menstruação retrógrada favorece a ascensão. Duas parcerias em três meses e preservativo irregular colocam a paciente na faixa de risco que o fluxograma lista.
achado
O sangramento de escape em usuária de anticoncepcional de baixa dosagem não é efeito colateral presumido: o protocolo registra que essa queixa, embora comum, pode ser indicativa de DIP e deve ser investigada. Somado ao corrimento e à friabilidade do colo, aponta cervicite que subiu.
galhos do fluxograma
Sem sangramento vaginal anormal em curso, sem atraso menstrual, sem parto ou aborto recente: não referencia por essa via. Sem defesa muscular e sem quadro abdominal grave: não referencia pela segunda via. A paciente pode ser diagnosticada e tratada na unidade.
critérios maiores
Os três estão presentes: dor no hipogástrio, dor à palpação dos anexos e dor à mobilização do colo uterino. Os dois últimos só apareceram porque o toque bimanual foi feito.
critérios menores
Há três, e um bastaria: temperatura axilar de 37,9 °C (acima de 37,5 °C), secreção endocervical anormal e leucocitose em sangue periférico. Diagnóstico fechado por três maiores mais um menor.
internação
Nenhum dos seis critérios está presente. Não há abscesso, o teste de gravidez é negativo, ela ainda não iniciou antibiótico, não há intolerância oral nem impedimento de seguimento, o estado geral é bom sem náuseas ou vômitos, e não há dúvida de abdome cirúrgico. Tratamento ambulatorial.
conduta
Ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única, aplicada na unidade, mais doxiciclina 100 mg por via oral de 12 em 12 horas por 14 dias e metronidazol 250 mg, dois comprimidos, por via oral de 12 em 12 horas por 14 dias. Orientar abstinência de álcool durante o metronidazol e nas 24 horas seguintes.
conduta
Não pedir ultrassonografia para autorizar o antibiótico. A imagem serve para avaliar complicação e gravidade, e nada nesse quadro sugere abscesso; se for solicitada, é em paralelo, sem atrasar a primeira dose.
conduta
Testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, testagem molecular para clamídia e gonococo, orientação de prevenção combinada e vacinação quando indicada. Abstinência sexual até a cura clínica.
parcerias
As duas parcerias dos últimos dois meses, sintomáticas ou não, recebem ceftriaxona 500 mg intramuscular e azitromicina 1 g por via oral, ambas em dose única.
seguimento
Retorno agendado em três dias. Havendo melhora, completa os 14 dias com reforço de adesão. Não havendo, interna e passa para a via intravenosa — a ausência de resposta após 72 horas é critério de internação, e é a hora de reabrir o diagnóstico.
07

Agora feche você

Mulher de 31 anos é atendida no pronto-socorro com dor pélvica há seis dias, febre não medida em casa e piora importante nas últimas 24 horas, com náuseas e dois episódios de vômito. Iniciou há três dias, por conta própria, um antibiótico que sobrou em casa e do qual não sabe o nome. Usa DIU de cobre inserido há dois anos, com controle ultrassonográfico normal na ocasião. Parceria sexual única há um ano, sem preservativo. Última menstruação há treze dias, ciclos regulares. Ao exame: temperatura axilar de 38,4 °C, pressão arterial 104×62 mmHg, frequência cardíaca de 112 bpm. Abdome doloroso à palpação do hipogástrio e da fossa ilíaca direita, com defesa voluntária e descompressão dolorosa duvidosa. Ao especular, conteúdo vaginal purulento e fio do DIU visível no orifício externo. Ao toque bimanual, dor intensa à mobilização do colo e massa dolorosa em anexo direito, de limites imprecisos. Teste de gravidez negativo. Hemograma com 19.200 leucócitos e 12% de bastões, proteína C reativa de 148 mg/L. Ultrassonografia transvaginal mostra, em anexo direito, formação heterogênea de 6,5 cm com paredes espessas e conteúdo com debris, sem líquido livre significativo na pelve.
achado
Massa anexial de 6,5 cm com paredes espessas e conteúdo com debris à ultrassonografia transvaginal, em mulher com dor pélvica, febre e dor à mobilização do colo: abscesso tubo-ovariano.
diagnóstico
O abscesso tubo-ovariano em estudo de imagem é critério elaborado — fecha o diagnóstico de DIP sozinho, sem necessidade de contar maiores e menores, que aqui também estão presentes em profusão.
estadiamento
Sem sinais de rotura e sem líquido livre significativo, o quadro corresponde ao grau III do estadiamento, na variante B: abscesso tubo-ovariano íntegro.
internação
conduta
DIU
reavaliação
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir ultrassonografia transvaginal antes de iniciar o antibiótico Atrai porque parece rigor: a paciente tem dor pélvica, o exame é acessível, não invasivo e vai mostrar se há abscesso. Só que a régua é explícita nos dois lados do Atlântico — o tratamento começa diante da suspeição clínica, independentemente da avaliação de imagem. A imagem serve para estadiar e detectar complicação, não para autorizar. A armadilha fica mais escorregadia porque a ultrassonografia realmente é útil e realmente deve ser pedida; o erro está na ordem, não no exame. Alternativa que diga "solicitar ultrassonografia e reavaliar em 24 horas" numa paciente que já preenche os critérios está trocando trompa por confirmação.
  2. 2Retirar o DIU assim que se diagnostica DIP Atrai porque é a conduta que se aprendeu, é intuitiva — tirar o corpo estranho de dentro de um órgão infectado — e tem plausibilidade biológica de biofilme a seu favor. Mas a evidência direta desmontou a intuição: revisão sistemática não achou diferença de desfecho entre manter e retirar. O protocolo brasileiro diz que não há necessidade de remoção e, havendo indicação, ela só ocorre após duas doses do esquema; o CDC diz que o dispositivo não precisa ser removido e que a remoção se reconsidera se não houver melhora em 48 a 72 horas. E o dado que fecha o argumento na vinheta: o risco de DIP atribuível ao DIU se concentra nos primeiros 20 dias após a inserção, e o responsável por ele é a exposição a IST no momento do procedimento, não o dispositivo.
  3. 3Prescrever ciprofloxacino porque "cobre gonococo e Gram-negativos" Atrai porque a quinolona é oral, cômoda, de amplo espectro, e porque em outras infecções pélvicas ela é escolha razoável. A vedação brasileira é literal e sem exceção: devido à resistência emergente e em expansão de N. gonorrhoeae ao ciprofloxacino, não se recomenda tratamento empírico para DIP com quinolonas. O CDC também desaconselha, mas abre uma janela estreita — alergia a cefalosporina, baixa prevalência local de gonorreia e seguimento provável —, e é justamente essa exceção que a banca usa para montar o distrator. Em questão com recorte brasileiro, quinolona em DIP é erro sempre.
  4. 4Contar os três critérios maiores e parar por aí Atrai porque os três maiores são os achados mais lembrados do tema e porque, no CDC, um deles já bastaria. Na régua brasileira não bastam: são precisos três maiores MAIS um menor, ou um critério elaborado sozinho. A vinheta costuma dar os três maiores e esconder o menor num dado de rotina — a temperatura axilar de 37,8 °C no cabeçalho, o leucograma de 12.500 no rodapé, o "corrimento cervical de aspecto purulento" no exame especular. Quem contou só os maiores erra a alternativa que pergunta o que fechou o diagnóstico.
  5. 5Internar a adolescente ou a paciente com HIV só por isso Atrai porque as duas parecem populações frágeis e porque a adolescente de fato tem risco cerca de três vezes maior de DIP aguda. Mas o protocolo é explícito nas duas frentes: pacientes adolescentes não necessitam obrigatoriamente ser internadas, e a decisão usa os mesmos critérios das adultas; pessoas imunocomprometidas têm comportamento similar ao de quem tem imunidade normal, desenvolvem abscesso tubo-ovariano com mais facilidade e merecem maior cuidado, sem necessidade de internação por esse motivo. A internação segue a lista de seis critérios — e nenhum deles é idade ou sorologia.
  6. 6Tratar só a paciente e mandar a parceria "procurar atendimento se tiver sintoma" Atrai porque parece razoável não medicar quem não está doente e porque a parceria costuma estar assintomática mesmo. É justamente esse o ponto: parcerias de mulheres com DIP por clamídia ou gonococo frequentemente são assintomáticas, e esperar sintoma garante a reinfecção da paciente que acabou de completar catorze dias de tratamento. A régua é o tratamento empírico de todas as parcerias dos dois meses anteriores ao diagnóstico, sintomáticas ou não, com ceftriaxona 500 mg IM e azitromicina 1 g VO em dose única.
  7. 7Prolongar o antibiótico porque a cultura de controle veio positiva Atrai porque cultura positiva soa como falha terapêutica. Mas a cura da DIP é clínica — definida pelo desaparecimento dos sinais e sintomas —, e o estudo PEACH mostrou que, avaliadas por critério bacteriológico após trinta dias, 40% das mulheres ainda apresentam um ou mais agentes bacterianos. Não se estende o esquema por isso. A conduta de controle que existe é outra, e vem da régua americana: reteste para clamídia e gonococo em três meses, para pegar reinfecção, não para testar cura.
  8. 8Ler "14 dias" como tempo de internação Atrai porque o quadro hospitalar do protocolo escreve "ceftriaxona 1 g, IV, 1x/dia, por 14 dias", e a leitura literal manda a paciente passar duas semanas no hospital. A nota de rodapé do mesmo quadro corrige: o uso parenteral deve ser suspenso 24 horas após a cessação dos sintomas, e a continuação por via oral se estende até 14 dias. Quatorze dias é o total de antibiótico, contando a parte que ela toma em casa.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: dor à mobilização do colo, dor anexial e febre configuram doença inflamatória pélvica; o esquema ambulatorial recomendado é ceftriaxona IM (cobre gonococo) + doxiciclina (clamídia) + metronidazol (anaeróbios). Metronidazol isolado não cobre gonococo/clamídia. Fluconazol trata candidíase. Amoxicilina não cobre adequadamente os patógenos da DIP. Nitrofurantoína é para infecção urinária baixa.

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Recuperação

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a vinheta os usa. Diagnóstico: três critérios maiores MAIS um menor, OU um critério elaborado. Maiores, todos de exame físico: dor no hipogástrio, dor à palpação dos anexos, dor à mobilização do colo uterino. Menores, sete: temperatura axilar acima de 37,5 °C, conteúdo vaginal ou secreção endocervical anormal, massa pélvica, mais de dez leucócitos por campo de imersão em material de endocérvice, leucocitose periférica, PCR ou VHS elevada, comprovação laboratorial de gonococo, clamídia ou micoplasmas. Elaborados, três: endometrite à histopatologia, abscesso tubo-ovariano ou de fundo de saco em imagem, laparoscopia com evidência de DIP. Internação, seis critérios: abscesso tubo-ovariano, gravidez, ausência de resposta após 72 h de antibiótico oral, intolerância a antibiótico oral ou dificuldade de seguimento, estado geral grave com náuseas e vômitos e febre, dificuldade de excluir emergência cirúrgica. Ambulatorial: ceftriaxona 500 mg IM dose única + doxiciclina 100 mg VO 12/12 h por 14 dias + metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, VO 12/12 h por 14 dias — que é 500 mg de 12 em 12 horas; segunda opção troca ceftriaxona por cefotaxima 500 mg IM. Hospitalar: ceftriaxona 1 g IV 1×/dia + doxiciclina 100 mg VO 12/12 h + metronidazol 400 mg IV 12/12 h; alternativas, clindamicina 900 mg IV 8/8 h com gentamicina 3–5 mg/kg IV 1×/dia, ou ampicilina/sulbactam 3 g IV 6/6 h com doxiciclina. Parenteral suspenso 24 h após cessarem os sintomas; oral completa 14 dias. Estadiamento de Monif, também chamado de Gainesville: I salpingite sem peritonite (ambulatorial), II com peritonite, III complexo tubo-ovariano (A hidrossalpinge, B abscesso íntegro), IV abscesso roto (cirurgia imediata); o corpo brasileiro acrescenta grau V, qualquer dos anteriores com tuberculose genital. Parcerias: dois meses, sintomáticas ou não, ceftriaxona 500 mg IM + azitromicina 1 g VO em dose única. Seguimento: melhora nos três primeiros dias, retorno agendado em 3 dias no ambulatorial, retorno na primeira semana após alta hospitalar. Sequelas na coorte de sete anos: 21,3% de recorrência, 19% de infertilidade, 42,7% de dor pélvica crônica. VPP do diagnóstico clínico para salpingite: 65% a 90%. Cerca de 65% dos casos são oligossintomáticos ou assintomáticos. Um caso de DIP para cada oito a dez casos de cervicite.

em 30 dias

As decisões, não os números. O eixo do capítulo é o limiar: DIP se diagnostica clinicamente, com achados imprecisos, e o antibiótico começa antes de qualquer imagem ou cultura — porque tratar quem não tem custa catorze dias de comprimido e não tratar quem tem custa trompa, e porque tratar não estraga a investigação de gravidez ectópica, apendicite ou cisto de ovário, que seguem em paralelo. O esquema tem três drogas por construção, não por hábito: a teoria de Monif explica que o consumo de oxigênio e a queda do potencial de oxirredução criam anaerobiose e transformam qualquer DIP em doença polimicrobiana, de modo que a cobertura precisa alcançar gonococo, clamídia e anaeróbios mesmo quando o laboratório identificou um agente só — monoterapia está errada por princípio, e quinolona empírica está fora pela resistência do gonococo. Duas frentes viraram o contrário do que se ensinava: o DIU não se retira, e quando a remoção é cogitada ela vem depois do antibiótico, porque o risco atribuível ao dispositivo se concentra nos primeiros vinte dias após a inserção e o culpado é a exposição a IST daquele momento, não o dispositivo; e o abscesso tubo-ovariano íntegro não é indicação de cirurgia, é indicação de internação com antibiótico intravenoso, ficando a drenagem para quem não responde e a sala para quem rompe. Onde as réguas divergem, o vocabulário entrega: "critério maior, menor e elaborado" é corpo brasileiro; "um dos três critérios mínimos ao exame pélvico" é CDC; cefoxitina, cefotetana e probenecida são corpo americano, e o Brasil se afasta ali por disponibilidade no SUS e por engenharia de adesão — dose única injetável aplicada na hora, para um sistema em que o retorno é incerto. E a razão de tudo isso está nas sequelas: infertilidade, gravidez ectópica e dor pélvica crônica aumentam com o número de episódios, e nenhuma intervenção posterior recupera trompa perdida.

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Agora atenda

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Caso do acervo

Mulher de 23 anos com dor no baixo ventre há quatro dias iniciada logo após a menstruação, corrimento amarelado há duas semanas e sangramento de escape em uso de anticoncepcional de baixa dosagem; temperatura axilar de 37,9 °C, colo friável com secreção mucopurulenta no orifício externo, dor intensa à mobilização do colo e dor em ambos os anexos ao toque bimanual, teste de gravidez negativo e 13.800 leucócitos, em unidade básica de saúde — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença inflamatória pélvica — Preparatório para provas | OsceLabs