Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Infecção pelo HPV e verrugas anogenitais

Infecção pelo HPV e verrugas genitais (condiloma)

O vírus que quase todo mundo pega, a verruga que poucos têm e o teste que não se pede

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 41 anos, vivendo com HIV em uso regular de antirretroviral, trata verrugas perianais com ácido tricloroacético 80% em aplicações semanais. Após seis sessões, as lesões persistem e uma delas está agora endurecida, com superfície ulcerada e sangramento ao toque. Qual a conduta?

02

Como esse tema cai

Este capítulo separa três coisas que a vinheta gosta de misturar num vírus só. A primeira é a infecção pelo HPV, presente num dado momento em mais da metade dos jovens brasileiros sexualmente ativos e não vacinados, quase sempre sem sintoma nenhum e quase sempre resolvida sozinha. A segunda é a verruga anogenital — o condiloma acuminado —, que atinge cerca de 1% a 2% da população, é causada por tipos de baixo risco oncogênico e se diagnostica com o olho. A terceira é a lesão precursora do colo, causada por tipos de alto risco, que se procura por rastreamento e não por queixa. São três populações diferentes, três condutas diferentes e três exames diferentes: tratar a segunda como se fosse a terceira é o erro mais caro da matéria.

O eixo do capítulo é uma frase operacional: o teste de HPV não faz o diagnóstico da verruga, e a verruga não pede teste de HPV. O protocolo nacional é explícito nas duas pontas — a tipagem viral não é recomendada para diagnóstico de infecção, e testes de detecção viral não são indicados em nenhuma situação no seguimento de quem teve condiloma. O que a verruga pede é exame ginecológico completo, coleta de rastreamento conforme a idade, anuscopia quando as lesões são perianais, biópsia nas situações definidas e tratamento destrutivo da lesão visível. Toda alternativa que troca esse pacote por um exame molecular está errada por regra, não por opinião.

O segundo eixo é a partição do tratamento em duas colunas — o que o paciente aplica em casa e o que o serviço aplica no ambulatório — atravessada por um filtro que a banca adora: a gestação. Imiquimode e podofilotoxina são domiciliares e estão fora da gravidez; ácido tricloroacético e crioterapia são ambulatoriais e podem ser usados na gestante. Sobre essa mesma cena costuma vir a pergunta obstétrica que separa quem estudou: condiloma não muda a via de parto, e cesárea não protege o recém-nascido da papilomatose de laringe.

O que fica de fora, e onde está: o rastreamento do câncer do colo pelo teste de DNA-HPV e o algoritmo da genotipagem estão em Rastreamento do câncer do colo do útero; a conduta por NIC, a conização e o seguimento das margens estão em Lesões precursoras do colo e câncer invasor; o calendário vacinal completo, com suas janelas e simultaneidades, está nos capítulos de calendário da criança e do adolescente e adulto; o condiloma plano da sífilis secundária está em Úlceras genitais e no capítulo de sífilis; e a notificação de violência contra criança e adolescente está em Maus-tratos na infância e em Notificação de violência e responsabilidade médica.

03

O que muda decisão

Um vírus, três infecções: clínica, subclínica e latente

O HPV é um DNA-vírus de cadeia dupla, não encapsulado, da família Papillomaviridae, que infecta epitélios escamosos. São mais de 200 tipos descritos, dos quais cerca de 40 acometem o trato anogenital. A transmissão é por qualquer tipo de atividade sexual e, excepcionalmente, durante o parto; por fômites é rara. O risco estimado de aquisição é de 15% a 25% a cada nova parceria sexual, e a quase totalidade das pessoas sexualmente ativas adquire a infecção em algum momento da vida.

Os tipos anogenitais se dividem por potencial oncogênico. De baixo risco: 6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70, 72 e 81. De alto risco: 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 68, 73 e 82. Os tipos 26, 53 e 66 são provavelmente de alto risco, e 34, 57 e 83 têm risco indeterminado. A frase que resolve metade das questões de correlação é do próprio protocolo: os tipos que causam verrugas genitais são quase sempre diferentes daqueles que causam câncer. Os tipos 6 e 11 respondem por cerca de 90% das verrugas genitais; os tipos 16 e 18, por cerca de 71% dos cânceres de colo do útero.

A mesma infecção se apresenta de três modos. A infecção clínica é a que se vê a olho nu — o condiloma acuminado e as neoplasias intraepiteliais vulvares — e atinge cerca de 1% da população sexualmente ativa. A subclínica só aparece na propedêutica subsidiária (colpocitologia, colposcopia, histologia) e atinge cerca de 4%. A latente não tem lesão nenhuma e só se detecta por biologia molecular. O protocolo do Ministério da Saúde dá os mesmos números por outro caminho: 1% a 2% da população apresenta verrugas anogenitais e 2% a 5% das mulheres mostram alterações no exame preventivo provocadas pelo HPV.

O contraste com a prevalência da infecção é o coração do capítulo. O inquérito nacional POP-Brasil avaliou pessoas de 16 a 25 anos, sexualmente ativas e não vacinadas, recrutadas em unidades básicas das 26 capitais e do Distrito Federal: de 7.694 participantes, 6.388 forneceram amostra válida, e 53,6% (IC 95% 51,4 a 55,8) tinham algum tipo de HPV; 35,2% tinham pelo menos um tipo de alto risco, com diferença entre os sexos (38,6% nas mulheres e 29,2% nos homens). Os dois tipos que causam verruga circulavam em boa parte dessa população — HPV 6 em 5,6% e HPV 11 em 1,4% —, e mesmo assim a doença visível fica na casa de 1% a 2%. Infecção não é doença: essa é a distância que separa o número epidemiológico do número clínico.

A maioria das infecções se resolve espontaneamente, em período aproximado de até 24 meses, e a prevalência é maior em mulheres abaixo dos 30 anos. Quando a infecção de alto risco persiste, o tempo médio até o câncer cervical é de cerca de 20 anos, modulado pelo tipo viral, pela carga viral, pela capacidade de persistência e pelo estado imunológico. Tabagismo e imunodeficiências — inclusive a causada pelo HIV —, desnutrição, cânceres e drogas imunossupressoras são fatores predisponentes. Infecção por um tipo não impede infecção por outros: infecção múltipla é comum.

Diagrama em quatro faixas empilhadas de largura decrescente: uma faixa muito larga no topo, uma segunda faixa menor, uma terceira bem mais estreita e uma última faixa fina na base, com uma linha tracejada horizontal separando as duas de cima das duas de baixo.
As quatro camadas do HPV numa população jovem não vacinada: infecção detectável (cerca de metade), infecção subclínica (cerca de 4%), verruga visível (1% a 2%) e câncer (uma fração mínima, após cerca de 20 anos de persistência). A linha tracejada é o que o olho enxerga: abaixo dela está o que só aparece com exame.

O diagnóstico é o olho — e o teste molecular é a alternativa errada

O diagnóstico das verrugas anogenitais é tipicamente clínico. As lesões são polimórficas; quando pontiagudas, chamam-se condiloma acuminado. Variam de um a vários milímetros, podem atingir alguns centímetros, são únicas ou múltiplas, achatadas ou papulosas, mas sempre papilomatosas — daí a superfície fosca, aveludada ou em couve-flor. Apresentam-se da cor da pele, eritematosas ou hiperpigmentadas. Em geral são assintomáticas, mas podem ser pruriginosas, dolorosas, friáveis ou sangrantes.

No homem, as lesões ocorrem mais frequentemente no folheto interno do prepúcio, no sulco bálano-prepucial ou na glande, podendo acometer pele do pênis e escroto. Na mulher, costumam estar na vulva, na vagina e no colo. Em ambos, podem aparecer nas regiões inguinais ou perianais — e as manifestações perianais são mais frequentes, ainda que não exclusivas, em quem tem atividade sexual anal receptiva. Menos frequentemente, aparecem em áreas extragenitais, como conjuntivas e mucosas nasal, oral e laríngea.

A biópsia tem indicações definidas, e são três: dúvida diagnóstica ou suspeita de neoplasia e outras doenças; lesões atípicas ou que não respondam adequadamente aos tratamentos; e lesões suspeitas em pessoas com imunodeficiências — incluindo HIV, cânceres e uso de drogas imunossupressoras —, situação em que a biópsia deve ser considerada com mais frequência e mais precocemente. Fora dessas três portas, biopsiar verruga típica não é conduta padrão.

O que a mulher com verruga anogenital precisa é de exame ginecológico completo, incluindo o exame preventivo do colo e, quando as alterações citológicas indicarem, colposcopia com ou sem biópsia. Quem tem lesões anais deve, idealmente, fazer exame proctológico com anuscopia e toque retal. A citologia de canal anal ainda é objeto de debate, mas pode ter importância em populações com maior incidência de câncer anorretal. A Febrasgo acrescenta duas regras finas: anuscopia para quem tem lesão condilomatosa perianal, neoplasia intraepitelial de alto grau ou imunodepressão; e nada de vulvoscopia com ácido acético caçando lesão subclínica, pela alta taxa de falso-positivos na vulva.

E a trava que decide alternativa: testes que identificam os diferentes tipos de HPV não são recomendados na rotina clínica nem no rastreamento de assintomáticos com a finalidade de diagnosticar a infecção. Esses testes servem ao rastreio de câncer genital — colo e pênis —, não ao diagnóstico da verruga. No seguimento, o protocolo é ainda mais direto: testes de detecção viral não são indicados em nenhuma situação, por não trazerem qualquer benefício às pessoas acometidas.

O diferencial que a banca monta em torno da verruga

A série brasileira mais recente sobre queixa anogenital ajuda a calibrar o que aparece de fato. Em 4.029 consultas de um ambulatório de IST de hospital terciário em São Paulo, entre outubro de 2012 e agosto de 2024, o condiloma acuminado respondeu por 2.841 atendimentos (70,5%), seguido de sífilis em 303 (7,5%), herpes simples em 177 (4,4%), carcinoma espinocelular em 171 (4,2%), líquen escleroso e atrófico em 89 (2,2%), molusco contagioso em 79 (2,0%), eczema em 50 (1,2%) e líquen plano em 40 (1,0%). Os casos de sífilis eram todos de sífilis primária. As idades extremas foram de 10 meses e 92 anos — as duas com diagnóstico de condiloma.

Dois diagnósticos dessa lista merecem atenção especial porque mudam a conduta. O carcinoma espinocelular em quarto lugar é o argumento clínico da regra de biópsia: lesão que não responde, que ulcera, que endurece ou que aparece em imunodeprimido não é verruga até prova em contrário. E o líquen escleroso, logo acima do molusco, lembra que placa branca vulvar ou peniana com anel de constrição não é HPV e não se trata com cáustico.

O diferencial que a vinheta usa para pegar o candidato é o condiloma plano da sífilis secundária. Nome parecido, doença oposta: o condiloma plano é uma placa úmida, achatada, acinzentada, altamente infectante, que vem acompanhada de roséola, sifílides palmoplantares, micropoliadenopatia e sinais constitucionais — e trata com penicilina benzatina, não com cáustico. O condiloma acuminado é seco, verrucoso, pontiagudo, em couve-flor, sem manifestação sistêmica.

Completam a lista o molusco contagioso — pápulas hemisféricas com umbilicação central, causadas por poxvírus — e as variantes anatômicas normais que geram consulta e ansiedade: as pápulas perláceas do pênis, dispostas em fileira regular na coroa da glande, e a papilomatose vestibular da vulva, com projeções simétricas de base individual e superfície lisa. Nenhuma das duas é IST, nenhuma se trata, e nenhuma justifica cáustico. Diante de lesão de aspecto atípico, pigmentada, endurecida, ulcerada ou de crescimento rápido em bloco — o quadro que aponta para tumor de Buschke-Löwenstein ou para carcinoma —, a conduta é biópsia, não destruição.

Tratar é destruir a lesão visível — e nada além disso

O objetivo do tratamento das verrugas anogenitais é a destruição das lesões identificáveis. O protocolo nacional é frontal quanto ao limite disso: apesar de haver recomendação de tratamento, não há evidência de que os tratamentos disponíveis modifiquem a história natural da infecção pelo HPV. Independentemente do que se faça, as lesões podem desaparecer, permanecer inalteradas ou aumentar em número e volume, e recidivas são frequentes em período variável, de meses a anos. A Febrasgo registra que a regressão espontânea do condiloma acuminado ocorre em 30% a 60% dos casos.

O tratamento se individualiza pelas características das lesões, pela disponibilidade de recursos, pelos efeitos adversos e pela experiência do profissional. Como se trata de doença em geral autolimitada, devem-se evitar tratamentos que gerem cicatrizes desfigurantes. As situações de imunodeficiência não modificam as recomendações terapêuticas — o que muda é o prognóstico: esses pacientes tendem a responder pior e exigem mais atenção pela possibilidade de complicações.

Há uma régua de tempo que a prova cobra literalmente: recomenda-se considerar a mudança de opção terapêutica quando não houver melhora significativa após três sessões, ou se as verrugas não desaparecerem após seis sessões. A combinação de tratamentos é possível, com controle estrito dos efeitos inflamatórios sobre o tecido normal. Todos os métodos podem produzir bolhas, úlceras e cicatrizes, e o paciente precisa ser alertado sobre infecção secundária e seus sinais.

Vale ainda a advertência de biossegurança que às vezes vira alternativa: procedimentos que geram aerossóis e fumaça — eletrocauterização, laser — transportam partículas virais passíveis de inalação, e exigem máscara e normas-padrão de biossegurança.

Casa ou ambulatório: a partição que decide a alternativa

Os tratamentos se dividem em domiciliares, aplicados pelo próprio paciente, e ambulatoriais, aplicados por profissional de saúde. No SUS, os autotratamentos incorporados são o imiquimode e a podofilotoxina. O imiquimode provoca menos efeitos locais que a podofilotoxina, mas leva mais tempo — quatro meses contra quatro semanas —, sem diferença nas taxas de abandono. As duas posologias fecham essa aritmética: o imiquimode vai até 16 semanas por episódio, e a podofilotoxina admite no máximo quatro ciclos de sete dias.

O imiquimode 50 mg/g creme é um modulador da resposta imune, por indução de interferon alfa e outras citocinas. Não destrói o vírus: auxilia na eliminação da verruga, e novas lesões podem surgir durante o tratamento. Aplica-se em dias alternados, três vezes por semana, à noite, deixando agir de seis a dez horas antes de lavar. É de uso externo apenas — não vai na uretra, na vagina, no colo do útero nem na parte interna do ânus. A inflamação local é o mecanismo de ação, e não motivo para suspender; a exposição solar durante o tratamento deve ser evitada pelo aumento da sensibilidade a queimaduras. Cada sachê é de uso único.

A podofilotoxina é a forma purificada da podofilina, com ação antimitótica e absorção sistêmica muito baixa. O ciclo é fixo e cai em prova: duas aplicações por dia, manhã e noite, por três dias consecutivos, seguidos de quatro dias sem aplicação. Se restar verruga após sete dias, repete-se o ciclo, até o máximo de quatro. A irritação local no segundo ou terceiro dia acompanha o início da necrose da verruga.

No ambulatório, o ácido tricloroacético a 80% ou 90% é um cáustico que coagula quimicamente o conteúdo proteico do condiloma. Aplica-se pequena quantidade com aplicador de algodão do tamanho da lesão, evitando a mucosa normal, e espera-se secar — o branqueamento é semelhante ao da porcelana. Começa-se com aplicações semanais. Pode ser usado na gestação, e não deve ser prescrito para uso domiciliar, pelo potencial de dano tecidual.

A podofilina a 10% a 25% em solução é antimitótica derivada de planta e pode lesar tanto o tecido doente quanto o são. Aplicações semanais, limitando cada sessão a 0,5 mL e a 10 cm² de área tratada — o excesso absorvido causa cardio, neuro e nefrotoxicidade. É contraindicada na gestação. A eletrocauterização exige equipamento e anestesia local, é apropriada para lesões exofíticas, pedunculadas e volumosas, e pode resolver tudo numa sessão, com risco de cicatriz desfigurante e, excepcionalmente, estenose ou fístula em uretra, canal anal e vagina. A exérese cirúrgica por shaving, com tesoura delicada ou lâmina sob anestesia local, tem uma vantagem que nenhum cáustico oferece: entrega fragmento para estudo histopatológico. A crioterapia com nitrogênio líquido, que ferve a -192 °C e promove citólise térmica, é atóxica, pode ser usada na gestação e é muito apropriada para lesões isoladas e queratinizadas.

Do lado da prateleira, a Rename 2024 lista no Componente Básico da Assistência Farmacêutica os três agentes que são medicamento: imiquimode 50 mg/g creme, podofilotoxina 1,5 mg/g creme e podofilina em solução tópica de 100 a 250 mg/mL — ou seja, de 10% a 25%. O ácido tricloroacético e o nitrogênio líquido ficam fora da relação nacional de medicamentos essenciais. A recomendação clínica não muda por isso, mas a lista ajuda a prever o que a unidade básica costuma ter à mão e o que depende do serviço de referência.

Dois painéis lado a lado. À esquerda, ícone de casa acima de dois pictogramas de creme em bisnaga. À direita, ícone de prédio de serviço de saúde acima de cinco pictogramas: cotonete com gota, frasco conta-gotas, ponteira elétrica, bisturi e frasco de spray com vapor frio.
A partição que a alternativa costuma inverter: em casa, apenas imiquimode e podofilotoxina; no ambulatório, ácido tricloroacético, podofilina, eletrocauterização, exérese e crioterapia. Cáustico não vai para casa.

Quem sai da unidade básica: os casos especiais do fluxograma

O fluxograma nacional para verruga anogenital tem uma bifurcação única e ela é a primeira pergunta: caso especial, sim ou não? São considerados casos especiais, e vão para referência, gestantes, crianças, imunossuprimidos, verrugas de grande volume e doença disseminada. Fora deles, o serviço escolhe entre tratamento domiciliar autoaplicado e tratamento ambulatorial. Reavalia-se depois: se surgirem novas lesões ou as antigas não melhorarem, considera-se mudar de terapia e mantém-se o seguimento.

Em torno da lesão, o protocolo pendura o pacote que vale para toda IST e que a estação de habilidades cobra por itens: orientação centrada na pessoa e em suas práticas sexuais; ajudar a pessoa a reconhecer e minimizar o próprio risco; oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C; oferecer testagem molecular para clamídia e gonococo; oferecer vacinação para hepatites A e B e para HPV quando indicado; informar sobre prevenção combinada; tratar, acompanhar e orientar a pessoa e suas parcerias; e notificar quando indicado.

Os fatores de risco que o mesmo fluxograma lista para IST — idade abaixo de 30 anos, parcerias novas ou múltiplas, parceria com IST, história prévia ou presença de outra IST e uso irregular de preservativo — são os que a vinheta espalha pelo enunciado para justificar a testagem ampliada. Encontrar uma IST obriga a procurar as outras.

Uma população merece rotina própria: pessoas com prática sexual anal, em especial as que vivem com HIV, têm maior incidência de verrugas perianais e de complicações com lesões malignizáveis e neoplasias. A orientação para reconhecer queixas proctológicas e, idealmente, o exame periódico da região devem entrar na rotina de atendimento.

Gestante: o que pode, o que não pode e por que a cesárea não entra

Na gestação, as lesões podem crescer rápido, atingir grande volume e se tornar friáveis e sangrantes, e o tratamento costuma ter pior resultado. A regra farmacológica é curta e simétrica: podofilina e imiquimode não devem ser usados na gestação — a Febrasgo acrescenta a podofilotoxina e o 5-fluorouracil à mesma lista —, enquanto o ácido tricloroacético e o nitrogênio líquido são boas opções. Para lesões volumosas, a eletrocoagulação ou a exérese tangencial por shaving são, por vezes, as melhores escolhas.

A Febrasgo detalha o manejo obstétrico do ácido tricloroacético: aplicação com swab, semanal, com bicarbonato de sódio ou lavagem com sabão neutro se houver excesso, e tratamento até a 34ª a 36ª semana, para evitar áreas cruentas na vulva no periparto. Métodos físicos exigem anestesia e respeito ao intervalo mínimo de duas semanas entre sessões, tempo de cicatrização da vulva. E o tratamento na gestação só está indicado diante de infecção clínica — condiloma — ou lesão invasora: lesão intraepitelial de baixo ou alto grau se conduz no puerpério.

A pergunta obstétrica que fecha a estação é a via de parto. Lesões induzidas pelo HPV, clínicas ou subclínicas, não contraindicam o parto vaginal: a cesárea se indica por critério obstétrico ou diante de grandes condilomas que obstruam o canal de parto — o protocolo nacional acrescenta o sangramento, e classifica ambas como ocorrências excepcionais. A complicação mais temida do binômio HPV e gestação é a papilomatose de laringe, causada pelos tipos 6 e 11, e ela não tem relação com a via de parto: comparada ao parto vaginal, a cesárea não alterou o risco de papilomatose de laringe nem protegeu os recém-nascidos da contaminação pelo HPV, com grau de recomendação A.

Sobre a transmissão vertical, a régua fina: cerca de 98% dos casos de infecção pelo HPV ocorrem por transmissão sexual; a via vertical é possível por mecanismo periconceptual, pré-natal ou perinatal, e a presença de condiloma no trato genital inferior durante a gestação aumenta o risco de transmissão vertical em 230 vezes. Ainda assim, a proporção de crianças expostas que se contaminam qualifica a transmissão vertical como de baixa efetividade na disseminação do vírus. O HPV não faz viremia nem é excretado no leite: não se transmite por sangue nem pela amamentação. A positividade do HPV-DNA no neonato parece transitória, com eliminação em média de 6 a 12 meses após o nascimento. E o HPV não causa infertilidade.

No que toca ao colo na gravidez, dois números encerram a discussão de conduta expectante: a progressão da NIC para carcinoma invasor durante a gestação varia de 0 a 0,4%, e de 48% a 70% das NIC 2 e 3 regridem no curso da gravidez. Procedimentos excisionais — excisão da zona de transformação ou conização — não devem ser realizados na gestação, salvo suspeita de câncer invasor, pelo risco de sangramento, abortamento e parto pré-termo. Toda paciente com NIC diagnosticada na gravidez é reavaliada com colpocitologia e colposcopia 12 semanas após o parto.

Criança com verruga anogenital: suspeitar sem acusar

A ocorrência de lesões anogenitais em crianças deve sempre levantar a suspeita de abuso sexual. Ainda que possa ocorrer na ausência de abuso, o achado merece investigação cuidadosa — e a investigação precisa evitar, ao mesmo tempo, a negligência da possibilidade de abuso e as consequências indesejáveis de uma acusação injustificada.

Duas crenças frequentes atrapalham essa investigação, e o protocolo nacional as desmonta nominalmente: a presença de lesões em membros da família não é prova de abuso, e a ausência de lesões em um potencial abusador não significa que não houve violação. Crenças assim geram demandas equivocadas de profissionais de saúde, conselhos e autoridades judiciárias. O manejo é individualizado e judicioso.

Do lado da criança, vale lembrar o que o fluxograma já dizia: criança é caso especial e vai para referência. E, do lado da prevenção, a Instrução Normativa vigente inclui as pessoas vítimas de abuso sexual entre os grupos prioritários da vacina, com esquema que depende da faixa etária.

Vacinar: o que a vacina faz, quando faz e para quem

A vacina HPV é profilática, não terapêutica: previne a infecção pelos tipos contidos nela e suas complicações — verrugas genitais, papilomatose de laringe e cânceres de colo, vulva, vagina, ânus, pênis, boca e orofaringe —, e é potencialmente mais eficaz em quem se vacina antes do primeiro contato sexual. Ela não trata a verruga que já existe, não elimina infecção estabelecida e não substitui rastreamento.

O esquema de rotina no SUS é dose única da HPV4 dos 9 anos aos 14 anos, 11 meses e 29 dias, para meninas e meninos, com agenda oportuna aos 9 anos. Para adolescentes sem histórico vacinal dos 15 aos 19 anos, 11 meses e 29 dias, há estratégia de resgate em dose única, organizada por cada estado. A mudança das duas doses para a dose única foi formalizada pela Nota Técnica nº 41/2024, que também criou o resgate e incluiu a papilomatose respiratória recorrente entre os grupos prioritários.

Fora da rotina, a vacina existe para grupos prioritários com prescrição médica, e é aqui que a Instrução Normativa de 2026 guarda o detalhe menos conhecido. Imunodeprimidos de 9 a 45 anos recebem três doses (0, 2 e 6 meses). Pessoas com papilomatose respiratória recorrente recebem três doses a partir dos 2 anos de idade. Pessoas de 15 a 45 anos usuárias de profilaxia pré-exposição ao HIV recebem três doses. Mulheres diagnosticadas com NIC 2 ou 3 e adenocarcinoma in situ submetidas a procedimento excisional do colo — LEEP ou conização — são vacinadas com três doses independentemente da idade, no mesmo ano do procedimento, no perioperatório ou até 12 meses após o tratamento; quem já tem uma ou duas doses apenas completa o esquema. E as pessoas vítimas de abuso sexual, de 9 a 45 anos, seguem esquema por faixa: duas doses (0 e 6 meses) dos 9 aos 14 anos, 11 meses e 29 dias, e três doses (0, 2 e 6 meses) dos 15 aos 45 anos.

As regras de situação especial completam o quadro. A vacina é contraindicada na gestação; se a mulher engravidar depois de vacinada ou for vacinada inadvertidamente, nenhuma intervenção adicional é necessária além do acompanhamento do pré-natal. Gestante que pertença a grupo prioritário e tenha prescrição de doses adicionais suspende a dose seguinte e completa o esquema no pós-parto. Quem amamenta pode ser vacinada. A HPV4 pode ser administrada simultaneamente com as demais vacinas do calendário vigente, sem necessidade de intervalo.

Duas frases finais, que ligam este capítulo aos de rastreamento e são armadilha frequente. A primeira: vacinação não altera a conduta de rastreamento — mulher vacinada rastreia igual, porque a vacina não cobre todos os tipos oncogênicos e o status vacinal individual não é registrado de forma confiável. A segunda: a vacinação da menina antes da gravidez é o que reduz a transmissão vertical e a papilomatose de laringe do recém-nascido, não a escolha da via de parto depois.

Parceria, seguimento e a conversa que a estação cobra

Como o tratamento não erradica o vírus, recorrências são frequentes, e a orientação é objetiva: o paciente e suas parcerias devem retornar ao serviço caso identifiquem novas lesões. Não há exame de controle — testes de detecção viral não são indicados em nenhuma situação no seguimento.

As parcerias sexuais devem ser orientadas e examinadas, e o profissional precisa de segurança para eliminar dúvidas sobre transmissão. Pelo caráter assintomático da infecção e pelo período de incubação potencialmente longo, na maioria das vezes não há como estabelecer em qual parceria a infecção começou — é inclusive possível que tenha vindo de uma parceria que nunca apresentou manifestação alguma. Alternativa que afirma quem contaminou quem está errada por princípio.

O impacto psicossocial é parte do manejo, e o protocolo nomeia as quatro preocupações típicas: a evolução das lesões, muitas vezes longa e com recidivas; o potencial de transmissão a outras parcerias; a origem da infecção numa determinada parceria; e, sobretudo, a possibilidade de transformação maligna. A presença de lesões pode trazer insegurança à relação, inclusive com risco de estabelecimento de violência — daí a importância de abrir consulta para as parcerias.

Uma distinção de vocabulário fecha o capítulo e costuma virar item de comunicação: entre as IST, o protocolo brasileiro classifica o herpes genital e o condiloma acuminado como não curáveis, porém tratáveis. Dizer ao paciente que o tratamento remove a lesão sem eliminar o vírus é informação correta; prometer cura não é.

04

As três réguas: quem aplica, o que a gestação veta e quantas doses

A primeira tabela é a partição que decide a maior parte das alternativas de conduta — o agente, quem o aplica, com que frequência e o que a gravidez proíbe. A segunda guarda os números que a banca troca entre si, com a fonte de cada um ao lado, porque quase todos existem em duas versões que medem coisas diferentes. A terceira é o quadro vacinal completo, incluindo o grupo prioritário mais recente, que quase nunca aparece nas listas decoradas.

  1. 1Lesão típica: diagnóstico clínico; teste molecular para HPV não confirma verruga e não orienta o tratamento.
  2. 2Biopsiar se lesão atípica, pigmentada, endurecida, ulcerada, fixa, imunossupressão, dúvida diagnóstica ou falha terapêutica.
  3. 3Escolher tratamento aplicado pela pessoa ou pelo profissional conforme número, volume, localização, gestação, preferência e disponibilidade.
  4. 4Na gestação, evitar podofilina/podofilotoxina e não usar imiquimode de rotina; preferir métodos físicos ou ácido tricloroacético conforme protocolo.
  5. 5Cesárea não previne transmissão vertical; reservar para obstrução do canal ou risco relevante de sangramento.
  6. 6Vacinar conforme calendário mesmo após infecção prévia: a vacina previne novas infecções, não trata a verruga presente.

A frase que resolve a questão de exame complementar

Testes que identificam os tipos de HPV não são recomendados na rotina clínica nem no rastreamento de assintomáticos com finalidade de diagnóstico da infecção, e, no seguimento de quem teve verruga, testes de detecção viral não são indicados em nenhuma situação. Servem ao rastreio de câncer genital, e é lá que vivem.

A régua de tempo do tratamento

Sem melhora significativa após três sessões, ou sem desaparecimento após seis sessões, muda-se a opção terapêutica. Combinar métodos é possível, com controle estrito da inflamação sobre o tecido normal.

Os cinco casos especiais do fluxograma

Gestante, criança, imunossuprimido, verruga de grande volume e doença disseminada saem da unidade básica e vão para referência. Fora deles, escolhe-se entre tratamento domiciliar e ambulatorial.

As três portas da biópsia

Dúvida diagnóstica ou suspeita de neoplasia; lesão atípica ou que não responde ao tratamento; lesão suspeita em pessoa com imunodeficiência — nesta, com mais frequência e mais precocemente. Verruga típica que responde não se biopsia.

A via de parto

Lesão induzida pelo HPV não contraindica parto vaginal. A cesárea entra por indicação obstétrica, por obstrução do canal de parto ou por sangramento — e não protege o recém-nascido da papilomatose de laringe.

AgenteQuem aplicaPosologiaGestaçãoO detalhe que decide
Imiquimode 50 mg/g cremeO próprio paciente, em casa3×/semana, em dias alternados, 6 a 10 h de contato; até 16 semanas por episódioNão usarSó uso externo: fora de uretra, vagina, colo e interior do ânus. A inflamação local é o mecanismo, não efeito adverso a suspender
Podofilotoxina 1,5 mg/g cremeO próprio paciente, em casa2×/dia por 3 dias, depois 4 dias sem; máximo de 4 ciclosNão usarForma purificada da podofilina, com absorção sistêmica muito baixa
Ácido tricloroacético 80% a 90%Profissional, no ambulatórioSemanal, conforme respostaPode usarBranqueamento em porcelana marca o efeito. Não se prescreve para uso domiciliar
Podofilina 10% a 25%Profissional, no ambulatórioSemanal; máximo de 0,5 mL e 10 cm² por sessãoContraindicadaAbsorção em excesso causa cardio, neuro e nefrotoxicidade
EletrocauterizaçãoProfissional, no ambulatórioPode resolver tudo em uma sessãoOpção nas lesões volumosasAnestesia local; risco de cicatriz desfigurante e, excepcionalmente, estenose ou fístula
Exérese cirúrgica (shaving)Profissional, no ambulatórioSessão única, sob anestesia localOpção nas lesões volumosasÉ a única que entrega fragmento para estudo histopatológico
Crioterapia com nitrogênio líquidoProfissional, no ambulatórioSemanal, conforme respostaPode usarAtóxica; ideal em lesão isolada e queratinizada

Os números que a prova troca — e o que cada um mede

PerguntaRespostaFonte
Quantos jovens sexualmente ativos têm HPV detectável?53,6% (IC 95% 51,4 a 55,8), em não vacinados de 16 a 25 anosPOP-Brasil, 6.388 amostras válidas nas 26 capitais e no DF
Quantos têm tipo de alto risco?35,2% no total; 38,6% nas mulheres e 29,2% nos homensPOP-Brasil
Quantos têm verruga anogenital visível?1% a 2% da população; a infecção clínica atinge cerca de 1% da população sexualmente ativaPCDT-IST 2022; Protocolo Febrasgo nº 28
Quantas mulheres têm alteração citológica por HPV?2% a 5% no exame preventivo; a infecção subclínica atinge cerca de 4%PCDT-IST 2022; Protocolo Febrasgo nº 28
Qual o risco a cada nova parceria sexual?15% a 25%PCDT-IST 2022
Quanto das verrugas genitais vem dos tipos 6 e 11?Cerca de 90%Nota Técnica nº 41/2024
Quanto dos cânceres de colo vem dos tipos 16 e 18?Cerca de 71%Nota Técnica nº 41/2024
O condiloma regride sozinho?Em 30% a 60% dos casosProtocolo Febrasgo nº 28
Quanto tempo até o câncer, quando a infecção de alto risco persiste?Cerca de 20 anos, em médiaPCDT-IST 2022
Quanto o condiloma aumenta o risco de transmissão vertical?230 vezesProtocolo Febrasgo nº 28

Vacina HPV4 no SUS: grupo, esquema e a pegadinha de cada linha

QuemEsquemaDetalhe que a alternativa esconde
9 anos a 14 anos, 11 meses e 29 diasDose únicaRotina do calendário; agenda oportuna aos 9 anos, meninas e meninos
15 anos a 19 anos, 11 meses e 29 dias, sem históricoDose únicaEstratégia de resgate, organizada por cada estado
Imunodeprimidos de 9 a 45 anos3 doses (0, 2 e 6 meses)Imunodeficiência primária ou erro inato da imunidade, imunossupressores, HIV/aids, transplantados e pacientes oncológicos, com prescrição
Papilomatose respiratória recorrente3 doses (0, 2 e 6 meses)A partir dos 2 anos de idade; entrou como grupo prioritário em 2024
Usuários de PrEP, de 15 a 45 anos3 doses (0, 2 e 6 meses)Basta comprovar que faz PrEP; qualquer sala de vacina da rede
NIC 2, NIC 3 ou adenocarcinoma in situ tratados por LEEP ou conização3 doses (0, 2 e 6 meses)Independentemente da idade, no mesmo ano do procedimento — perioperatório ou até 12 meses após. Quem já tem 1 ou 2 doses apenas completa
Vítimas de abuso sexual de 9 a 14 anos, 11 meses e 29 dias2 doses (0 e 6 meses)A faixa muda o esquema: aqui não são três doses
Vítimas de abuso sexual de 15 a 45 anos3 doses (0, 2 e 6 meses)Registrar com o CID correspondente para que a dose seja contabilizada
GestanteContraindicadaVacinação inadvertida não pede intervenção além do pré-natal; quem é de grupo prioritário completa o esquema no pós-parto. Lactante pode ser vacinada

As duas fontes brasileiras contam a mesma epidemiologia com recortes diferentes: o protocolo federal fala em 1% a 2% da população com verruga e 2% a 5% das mulheres com alteração citológica; o protocolo da Febrasgo fala em 1% de infecção clínica e 4% de infecção subclínica na população sexualmente ativa. Enunciado que cita porcentagem de população pede o primeiro par; enunciado que separa infecção clínica de subclínica pede o segundo.

A série de São Paulo publica dois conjuntos de números para os mesmos diagnósticos, um no corpo do texto e outro na Tabela 1. Apenas os da tabela somam exatamente as 4.029 consultas, e são esses os usados aqui.

Dos agentes do fluxograma, imiquimode, podofilotoxina e podofilina constam da Rename 2024, no Componente Básico da Assistência Farmacêutica; o ácido tricloroacético e o nitrogênio líquido não constam. Isso não muda a recomendação clínica, mas ajuda a prever o que a unidade básica tem à mão.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Para que serve tratar o condiloma: destruir a lesão ou cortar a transmissão

Tratar destrói a lesão e não muda a história natural — Ministério da Saúde

O objetivo do tratamento é a destruição das lesões identificáveis. Apesar de haver recomendação de tratamento, não há evidência de que os tratamentos disponíveis modifiquem a história natural da infecção pelo HPV, e as lesões podem desaparecer, permanecer inalteradas ou aumentar, independentemente do que se faça.

PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, Ministério da Saúde, 2022, seção 11.5.

Tratar porque a lesão transmite — Febrasgo

Embora a regressão espontânea dos condilomas acuminados ocorra em 30% a 60% dos casos, recomenda-se o tratamento dessas lesões em razão da elevada transmissibilidade — argumento que a Febrasgo usa justamente no contexto da gestação, em que as opções terapêuticas são mais estreitas.

Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 28 — Infecção pelo papilomavírus humano na gravidez, Femina 2025;53(3):206-12.

Na prova

O recorte aparece no verbo do enunciado. Pergunta que diz "o objetivo do tratamento das verrugas anogenitais é" ou cita o fluxograma nacional está no mundo federal, e a resposta é a destruição das lesões identificáveis, com a ressalva explícita de que os tratamentos não modificam a história natural da infecção. Cenário obstétrico, com termo de consentimento e ambulatório de patologia do trato genital inferior, está no mundo da sociedade, que justifica tratar a gestante pela transmissibilidade. Alternativa que promete redução comprovada de transmissão como benefício do tratamento extrapola o texto federal; alternativa que manda simplesmente não tratar porque o condiloma regride sozinho ignora a recomendação das duas fontes.

Condiloma volumoso e queratinizado na gestante: intervir agora ou aguardar o parto

Tratar na gestação, com método físico — Ministério da Saúde

O ácido tricloroacético ou o nitrogênio líquido são boas opções na gestante e, por vezes, especialmente no caso de lesões volumosas, a eletrocoagulação ou a exérese tangencial por shaving são as melhores opções.

PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, Ministério da Saúde, 2022, seção 11.8.

Evitar o cáustico na lesão grande e, se possível, aguardar o fim da gestação — Febrasgo

Em lesões queratinizadas e de grande volume ou extensão, deve ser evitado o ácido tricloroacético, sendo preferível aguardar o término da gestação; uma alternativa é aplicá-lo em pequenas áreas, fracionando a região tratada. O tratamento com o cáustico é recomendado até a 34ª a 36ª semana, para evitar áreas cruentas na vulva no periparto.

Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 28 — Infecção pelo papilomavírus humano na gravidez, Femina 2025;53(3):206-12.

Na prova

As duas fontes concordam no essencial — podofilina, podofilotoxina e imiquimode ficam fora da gravidez, e o ácido tricloroacético e a crioterapia entram —, e divergem no que fazer com a lesão grande e queratinizada. Vinheta ambientada em unidade básica ou pronto-atendimento, citando o fluxograma nacional, pede a conduta federal, com método físico. Vinheta de acompanhamento pré-natal em serviço especializado, que menciona idade gestacional avançada, cicatrização da vulva e periparto, pede a conduta da sociedade. Em qualquer das duas, alternativa que indica cesariana por causa da lesão está errada, salvo obstrução do canal de parto.

06

Caso resolvido

Mulher de 22 anos, sem comorbidades, comparece à unidade básica queixando-se de "verrugas" que apareceram há cerca de três meses. Não está grávida, tem parceiro fixo há um ano, usa preservativo de forma irregular e nunca fez preventivo. Ao exame, seis lesões papilomatosas, pontiagudas, de 2 a 5 mm, na fúrcula, no períneo e na região perianal, da cor da pele, sem ulceração, sem endurecimento e sem secreção. Sem linfonodomegalia inguinal. Sorologias desconhecidas. Diz que trabalha em dois turnos e que voltar toda semana à unidade seria difícil.
achado
Lesões polimórficas, pontiagudas, papilomatosas, de superfície fosca e cor da pele, sem ulceração e sem quadro sistêmico: é condiloma acuminado, e o diagnóstico se faz aqui, com o olho. Nada na descrição aciona as três portas da biópsia — não há dúvida diagnóstica, não há lesão atípica ou refratária e não há imunodeficiência.
régua
Verruga anogenital em pessoa não gestante, imunocompetente, com lesões de pequeno volume e sem doença disseminada: não é caso especial e, portanto, não sai da unidade básica. Como as lesões são perianais, cabe idealmente exame proctológico com anuscopia e toque retal. E como ela tem 22 anos e nunca fez preventivo, a coleta segue a régua do rastreamento vigente, que é assunto de outro capítulo — a verruga não antecipa nem substitui o rastreamento.
o que NÃO fazer
Não solicitar tipagem de HPV: não é recomendada na rotina clínica para diagnóstico da infecção. Não biopsiar lesão típica que ainda nem foi tratada. Não prescrever ácido tricloroacético para ela aplicar em casa — o cáustico não vai para uso domiciliar. E não prometer cura: o condiloma é classificado como não curável, porém tratável.
conduta
A dificuldade de retorno semanal empurra a escolha para o autotratamento: imiquimode 50 mg/g creme, em dias alternados, três vezes por semana, à noite, com seis a dez horas de contato antes da lavagem, por até 16 semanas — ou podofilotoxina, em ciclos de três dias de aplicação seguidos de quatro sem, no máximo quatro ciclos. Instrução detalhada de aplicação é imprescindível, e a irritação local do imiquimode é esperada, não motivo para suspender. Em torno disso, o pacote de toda IST: testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, testagem molecular para clamídia e gonococo, vacinação para hepatites A e B, orientação sobre prevenção combinada, exame e orientação da parceria e retorno se surgirem novas lesões. Reavaliação com a régua das três e das seis sessões.
07

Agora feche você

Gestante de 30 anos, 31 semanas, primigesta, chega ao pré-natal preocupada. Refere que as "verrugas" da vulva, presentes antes de engravidar, cresceram muito no último mês, agora sangram ao toque e incomodam para sentar. Traz uma prescrição de imiquimode feita em outro serviço, que ainda não iniciou. Ao exame, lesões condilomatosas confluentes na vulva e no períneo, algumas queratinizadas, com cerca de 3 cm no maior eixo, friáveis, sem obstrução do intróito. Apresentação cefálica, altura uterina compatível, sem outras intercorrências. Sorologias do pré-natal não reagentes. Ela pergunta se vai precisar de cesariana e se pode se vacinar agora. Qual a conduta?
achado
É o comportamento clássico do condiloma na gestação: crescimento rápido, grande volume, lesão friável e sangrante. Gestante é caso especial no fluxograma nacional e vai para referência, e o tratamento na gravidez costuma ter pior resultado do que fora dela — o que muda a expectativa, não a indicação.
o detalhe que vira o caso
A prescrição que ela traz está entre os agentes vetados. Podofilina e imiquimode não devem ser usados na gestação, e a Febrasgo acrescenta à mesma lista a podofilotoxina e o 5-fluorouracil. Sobram o ácido tricloroacético a 80% a 90%, a crioterapia com nitrogênio líquido e, para lesões volumosas, os métodos físicos — eletrocoagulação ou exérese tangencial.
o relógio obstétrico
Com 31 semanas, o cáustico ainda cabe na janela que a Febrasgo recomenda, até a 34ª a 36ª semana, para não deixar áreas cruentas na vulva no periparto. Métodos físicos exigem anestesia e intervalo mínimo de duas semanas entre sessões, tempo de cicatrização da vulva. É exatamente aqui que as duas fontes brasileiras divergem quanto à lesão queratinizada e volumosa: o protocolo federal indica o método físico, e o da sociedade prefere fracionar a aplicação do cáustico ou aguardar o término da gestação.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir teste de HPV para diagnosticar a verruga — ou para dar alta É a alternativa errada mais frequente da matéria, e ela erra duas vezes. Na entrada, porque o diagnóstico das verrugas anogenitais é clínico e a tipagem viral não é recomendada na rotina para diagnóstico de infecção. Na saída, porque o protocolo registra que testes de detecção viral não são indicados em nenhuma situação no seguimento, por não trazerem benefício às pessoas acometidas. O teste molecular pertence ao rastreamento de câncer genital — outro paciente, outra pergunta, outro capítulo.
  2. 2Mandar o cáustico para casa e o creme para o ambulatório A partição é fixa e a alternativa costuma invertê-la. Em casa, e apenas em casa, entram imiquimode e podofilotoxina, os dois autotratamentos incorporados ao SUS. No ambulatório, com profissional, entram ácido tricloroacético, podofilina, eletrocauterização, exérese e crioterapia. O ácido tricloroacético tem proibição explícita de prescrição para uso domiciliar, pelo potencial de dano tecidual. E o imiquimode, mesmo em casa, é de uso externo: não vai na uretra, na vagina, no colo nem na parte interna do ânus.
  3. 3Indicar cesariana por causa do condiloma A presença de lesões clínicas ou subclínicas induzidas pelo HPV não contraindica o parto vaginal. A cesárea se indica por critério obstétrico, por obstrução do canal de parto ou por sangramento — descritos como ocorrências excepcionais. O argumento que a alternativa usa para justificar a cirurgia, prevenir a papilomatose de laringe do recém-nascido, é justamente o que a evidência derruba: comparada ao parto vaginal, a cesárea não alterou o risco de papilomatose de laringe nem protegeu os neonatos da contaminação, com grau de recomendação A. O que reduz esse desfecho é vacinar a menina antes da gravidez.
  4. 4Tratar condiloma plano como se fosse condiloma acuminado Os nomes se parecem e as doenças são opostas. O condiloma plano é lesão da sífilis secundária: placa úmida, achatada, acinzentada, altamente infectante, acompanhada de roséola, sifílides palmoplantares, micropoliadenopatia e sinais constitucionais, e o tratamento é penicilina benzatina. O condiloma acuminado é seco, verrucoso, pontiagudo, em couve-flor, sem quadro sistêmico. Aplicar cáustico numa sífilis secundária não trata a doença e ainda apaga o achado que faria o diagnóstico.
  5. 5Insistir na mesma terapia — e não olhar de novo para a lesão que mudou Há uma régua numérica que a banca cobra literalmente: sem melhora significativa após três sessões, ou sem desaparecimento após seis, muda-se a opção terapêutica. E há uma régua clínica que corre em paralelo: lesão atípica, que não responde ao tratamento ou que aparece em pessoa com imunodeficiência é indicação de biópsia — nesta última, a biópsia deve ser considerada com mais frequência e mais precocemente. Na série paulista de queixa anogenital, o carcinoma espinocelular foi o quarto diagnóstico mais comum. Imunodepressão não muda a recomendação terapêutica; muda o prognóstico e o limiar de biopsiar.
  6. 6Usar a vacina como tratamento — ou como desconto no rastreamento A vacina HPV é profilática. Não trata a verruga existente, não elimina infecção estabelecida e é potencialmente mais eficaz em quem se vacina antes do primeiro contato sexual. Vacinar não altera a conduta de rastreamento: mulher vacinada rastreia igual, porque a vacina não cobre todos os tipos oncogênicos e o status vacinal individual não tem registro confiável. E a mulher de 30 anos com condiloma, sem imunodepressão, sem PrEP e sem tratamento excisional prévio do colo, não entra em nenhum grupo prioritário do programa — a vacina não é oferecida a ela no SUS.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Duas réguas convergem para a biópsia. A primeira é temporal: recomenda-se considerar a mudança de opção terapêutica quando não houver melhora significativa após três sessões, ou se as verrugas não desaparecerem após seis — e aqui já são seis. A segunda é morfológica: lesões atípicas ou que não respondam adequadamente aos tratamentos, e lesões suspeitas em pessoas com imunodeficiência, são indicação formal de biópsia, e nos imunodeprimidos o procedimento deve ser considerado com mais frequência e mais precocemente. Endurecimento, ulceração e sangramento são exatamente o quadro que tira a lesão da categoria verruga: na maior série brasileira de queixa anogenital, o carcinoma espinocelular foi o quarto diagnóstico mais frequente. Prolongar o cáustico contraria a régua das seis sessões — a imunodepressão não modifica as recomendações terapêuticas, apenas piora a resposta esperada. A tipagem viral não é recomendada para diagnóstico nem para decisão terapêutica. A vacina é profilática, não trata lesão existente. E observar uma lesão com sinais de alarme troca uma possível neoplasia por uma estatística de regressão que se aplica a verrugas típicas.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória a tabela de quem aplica o quê: os dois de casa (imiquimode três vezes por semana até 16 semanas; podofilotoxina em ciclos de 3 dias com 4 de intervalo, máximo 4 ciclos) e os cinco do ambulatório (ácido tricloroacético 80% a 90%, podofilina 10% a 25% com limite de 0,5 mL e 10 cm², eletrocauterização, exérese por shaving e crioterapia). Marque quais podem ser usados na gestante — ácido tricloroacético e crioterapia — e quais estão vetados — podofilina, podofilotoxina e imiquimode. Depois recite as três indicações de biópsia, os cinco casos especiais do fluxograma e a régua das três e das seis sessões.

em 30 dias

Monte a tabela dos números e diga, para cada um, o que ele mede e de onde vem: 53,6% de HPV detectável e 35,2% de alto risco em jovens não vacinados (POP-Brasil) contra 1% a 2% da população com verruga e 2% a 5% das mulheres com alteração citológica (protocolo federal); 90% das verrugas por 6 e 11 e 71% dos cânceres de colo por 16 e 18; 15% a 25% de risco por nova parceria; 30% a 60% de regressão espontânea; 230 vezes de aumento do risco de transmissão vertical na presença de condiloma. Em seguida escreva o quadro vacinal completo pelo grupo, não pela idade — incluindo a mulher tratada por NIC 2+ ou adenocarcinoma in situ com procedimento excisional, que recebe três doses em qualquer idade, no mesmo ano do procedimento. Feche com os três reflexos: não pedir teste viral, não indicar cesárea pela lesão, e não prometer cura.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Paciente de 26 anos chega à unidade básica com lesões verrucosas na vulva e na região perianal, notadas há dois meses, e diz que "queria fazer o exame que descobre o tipo do vírus". Conduza a consulta: feche o diagnóstico pelo exame, decida se este é ou não um caso especial do fluxograma, escolha entre tratamento domiciliar e ambulatorial justificando pela rotina de vida da paciente, ofereça o pacote de testagem de toda IST e explique, sem prometer cura, o que o tratamento faz e o que ele não faz. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Infecção pelo HPV e verrugas genitais – Infecção pelo HPV e verrugas anogenitais — Preparatório para provas | OsceLabs