Ginecologia e ObstetríciaContracepção, ISTs, climatério e uroginecologia

Prolapso de órgãos pélvicos: o grau mede, o sintoma decide

Nove medidas em centímetros para estadiar, e uma régua municipal que aceita o encaminhamento "independente do grau". Três números de risco cirúrgico ao longo da vida que respondem a três perguntas diferentes, dois números raciais que trocaram de dono no caminho, uma referência sobre homens sustentando a hereditariedade em mulheres, e o estudo brasileiro mais citado do tema, que excluiu de propósito o estágio mais comum.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 62 anos, G4P4 (todos partos vaginais), na pós-menopausa há 10 anos, procura atendimento por sensação de "bola na vagina" que piora ao final do dia e ao fazer esforço. Ao exame ginecológico em posição de litotomia e durante a manobra de Valsalva, observa-se descida da parede vaginal anterior, com exteriorização do colo vesical além do introito. Colo uterino e paredes posterior e apical mantêm-se em posição habitual. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo não é sobre a anatomia do assoalho pélvico nem sobre técnica cirúrgica. É sobre a distância entre duas coisas que o tema mistura o tempo todo: a medida e a decisão. O sistema de quantificação existe para transformar a descida das paredes vaginais em centímetros reprodutíveis, e ele faz isso muito bem. O que ele não faz, em documento brasileiro nenhum, é dizer quem opera, quem recebe pessário e quem vai para a fila.

A banca explora exatamente essa distância. A vinheta entrega o estágio com precisão de um centímetro e depois pergunta a conduta — e a resposta não sai do número, sai da queixa, do risco cirúrgico e do que a mulher quer. Em outra vinheta a banca faz o inverso: descreve a queixa e cobra o estágio, e aí o número é tudo, com o hímen valendo zero e o sinal do centímetro mudando o estágio.

O material do capítulo é a conferência do que os documentos brasileiros do tema dizem contra os artigos que eles próprios listam. Três atribuições não sobrevivem à conferência: um percentual cujo sujeito é maior do que a doença, dois números de risco que trocaram de grupo entre a origem e a citação, e uma referência sobre homens sustentando uma frase sobre hereditariedade em mulheres. Cada uma dessas trocas tem um erro correspondente que o aluno marca com convicção.

Fica de fora a incontinência urinária, que tem capítulo próprio nesta apostila e cuja primeira linha conservadora coincide com a do prolapso. Fica de fora também o detalhe técnico das cirurgias reconstrutivas: o que interessa aqui é qual compartimento cada família de técnica trata, qual delas a régua brasileira chama de padrão e por que a parede anterior avançada quase nunca é um problema só de parede anterior.

03

O que muda decisão

O hímen é o zero, e o zero é a única coisa que não se discute

O sistema de quantificação do prolapso mede seis pontos e três distâncias auxiliares, todos em centímetros, com um único referencial: o plano do hímen vale zero. Ponto acima do hímen recebe número negativo; ponto além do hímen recebe número positivo. Os seis pontos são dois na parede anterior (Aa e Ba), dois no ápice (C, no colo ou na cúpula, e D, no fórnice posterior) e dois na parede posterior (Ap e Bp). As três medidas auxiliares são o comprimento vaginal total, o hiato genital e o corpo perineal.

Os cortes dos estágios são de decorar, porque a banca cobra a fronteira e não o meio da faixa. No estágio I o ponto de maior descida está a mais de 1 cm acima do hímen. No estágio II ele está a 1 cm ou menos do plano himenal, para cima ou para baixo — ou seja, entre −1 e +1. No estágio III ele passa de mais de 1 cm além do hímen, mas não chega a protruir mais do que o comprimento vaginal total menos 2 cm. No estágio IV a eversão vaginal é essencialmente completa. O estágio 0 é a ausência de prolapso, com Aa, Ba, Ap e Bp em −3 cm e o ápice alojado nos 2 cm mais profundos da vagina.

Repare no desenho: as duas pontas da escala dependem do comprimento vaginal total, e o miolo não. Estágio 0 e estágio IV são definidos em relação ao tamanho da vagina daquela mulher; I, II e III são definidos em relação ao hímen. Quem decora só "menos um, mais um" acerta a fronteira que mais cai e erra as duas pontas.

Escala vertical em centímetros com o plano do hímen marcado como zero, valores negativos acima e positivos abaixo. O estágio I fica acima de menos 1 centímetro; o estágio II ocupa a faixa estreita de menos 1 a mais 1; o estágio III fica abaixo de mais 1; e o estágio IV, na base, é a eversão completa. Uma faixa no alto, em menos 3 centímetros, marca o estágio 0. Chaves laterais indicam que I, II e III se medem contra o hímen e que 0 e IV se medem contra o comprimento vaginal total.
Só os estágios I, II e III se medem contra o hímen; as duas pontas da escala, 0 e IV, dependem do comprimento vaginal total daquela mulher — decorar menos um e mais um acerta o meio e erra as pontas.

A versão em português mais citada desses critérios é a do estudo brasileiro de 2009 da Escola Paulista de Medicina, e ela reescreve três coisas. Diz que no estágio 0 os pontos apicais ficam "entre −2 cm e o comprimento vaginal total", quando o original delimita a faixa entre o comprimento vaginal total negativo e esse valor menos 2 — isto é, os 2 cm mais altos da vagina, e não uma faixa que começa a 2 cm do hímen. Diz que o hiato genital é a medida "da uretra ao fórnice vaginal", quando o original vai do meio do meato uretral externo até a borda posterior do hímen. E diz que o corpo perineal vai "do fórnice ao ânus", quando o original parte da margem posterior do hiato genital. Medir o hiato genital até o fórnice não mede o hiato: mede a vagina inteira.

O grau mede; quem abre a porta é a bola

A queixa que leva a mulher ao consultório quase sempre é a mesma frase, e o protocolo brasileiro de sociedade a registra assim: sensação de peso ou de "bola na vagina". O diagnóstico, diz o mesmo documento, é comumente confirmado pelo exame físico, com a mulher em posição ginecológica e manobra de Valsalva. A ultrassonografia e a ressonância entram para avaliar mobilidade do colo vesical, resíduo, avulsão do levantador e outras questões de compartimento — não para dizer se há prolapso.

A régua de rede pública que decide o acesso trabalha com o mesmo princípio e com uma exigência a mais. O protocolo municipal de regulação ambulatorial de cirurgia ginecológica de Santo André, na versão revista em novembro de 2025, encaminha à uroginecologia a paciente com prolapso genital sintomático — dispareunia, alteração da qualidade de vida, queixas intestinais, queixas urinárias — independente do grau, desde que ela deseje tratamento cirúrgico. A segunda porta é o prolapso com incontinência urinária associada sem resposta a 6 meses de tratamento clínico otimizado, e o protocolo escreve o que conta como otimizado: exercícios para os músculos do assoalho pélvico, treinamento vesical, perda de peso quando necessário, redução de cafeína e de álcool.

A exigência a mais está na coluna de exames mínimos: ultrassom transvaginal ou outro exame com avaliação dos órgãos pélvicos, validade de um ano, e citologia oncótica, validade de um ano. É uma imagem obrigatória para um diagnóstico que o protocolo nacional chama de clínico. Não é contradição de conteúdo — é a rede protegendo a vaga do especialista contra o encaminhamento cru —, mas é exatamente o tipo de linha que uma questão de regulação transforma em pegadinha.

O terceiro número dessa régua é a prioridade. Prolapso genital sintomático entra codificado como N81 na faixa intermediária, a mesma da incontinência urinária de esforço, da miomatose sintomática intratável clinicamente e da endometriose peritoneal sintomática. Acima dela só ficam as suspeitas de neoplasia. Abaixo, a bexiga hiperativa refratária, os cistos de Bartholin e de Skene e a esterilização. Uma mulher com a vagina evertida e outra com um mioma grande sintomático disputam a mesma faixa de fila.

Onze, treze e vinte por cento: três números, três perguntas

O acervo brasileiro repete três percentuais de risco cirúrgico ao longo da vida como se fossem versões do mesmo dado, e eles respondem a perguntas diferentes. O estudo brasileiro de 2009 escreve que, aos 80 anos, 11,1% das mulheres têm ou tiveram indicação cirúrgica para correção de prolapso genital ou de incontinência urinária, citando o levantamento americano de 1997. O protocolo de sociedade de 2019 escreve que mulheres dos Estados Unidos têm 13% de chance de serem submetidas à cirurgia de prolapso ao longo da vida, citando o levantamento americano de 2014.

Os dois números não se contradizem porque não medem a mesma coisa. O primeiro é prolapso ou incontinência; o segundo é prolapso apenas. E o levantamento de 2014, que o protocolo cita, publica os três números de uma vez: risco de qualquer cirurgia primária por prolapso ou incontinência de esforço até os 80 anos de 20,0%, risco de cirurgia de prolapso de 12,6% e risco de cirurgia de incontinência de esforço de 13,6%. O "13%" do protocolo é o arredondamento de 12,6 — e fica a um décimo de distância do 13,6 que pertence à outra doença.

A conta que fecha o raciocínio é a mais reveladora. Somando os dois riscos isolados, 12,6 mais 13,6 dá 26,2 — e o risco combinado publicado é 20,0. A diferença de 6,2 pontos não é erro de ninguém: são as mulheres operadas das duas coisas, contadas uma vez no risco combinado e duas vezes na soma. Quase um quarto de quem opera por uma dessas condições opera pela outra também, e é essa sobreposição que o número combinado absorve.

Falta ainda a distância temporal. De 11,1% em 1997 para 20,0% em 2014, com a mesma pergunta e a mesma idade de corte, o risco quase dobrou em dezessete anos — e o que mudou não foi a doença, foi a taxa de cirurgia disponível. Citar 11,1% hoje como "risco de operar" é citar a oferta cirúrgica de uma década que já passou; citar 20% como "risco de prolapso" é confundir doença com procedimento.

Cinco vezes o quê — o número que trocou de dono no caminho

O protocolo brasileiro de 2019 escreve, sobre raça: "um estudo mostrou que mulheres brancas e latinas têm, respectivamente, 4,9 e 5,4 vezes mais chances de apresentar prolapso". O estudo citado é o levantamento americano de 2009 sobre diferenças raciais no prolapso, e ele publica outra coisa. Na análise multivariada, tomando mulheres afro-americanas como referência, a razão de prevalência de prolapso sintomático foi de 5,35 para mulheres brancas e de 4,89 para latinas.

São os mesmos dois algarismos, trocados de grupo. O 4,9 é das latinas na origem e virou das brancas na citação; o 5,4 é das brancas na origem e virou das latinas. Nenhuma conduta muda por causa disso, e é por isso que a troca atravessa a revisão de um documento oficial: os dois números são vizinhos e os dois grupos aparecem na mesma frase. O que ela demonstra é o mecanismo — quando dois valores próximos entram numa construção com "respectivamente", a ordem é a única coisa que os separa, e a ordem é o que se perde.

A troca menor esconde uma troca maior. O mesmo artigo publica um segundo desfecho, anatômico: borda de maior descida no plano do hímen ou além dele. Para esse desfecho, a razão de prevalência das brancas em relação às afro-americanas é de 1,40. O texto brasileiro escreve "mais chances de apresentar prolapso" sem dizer qual dos dois, e o leitor natural entende o anatômico — que é o que se enxerga no exame. A diferença entre os dois desfechos é de quase quatro vezes: 5,35 contra 1,40.

A leitura clinicamente honesta é essa: a diferença racial grande está em queixar-se de prolapso, não em ter descida além do hímen. Prolapso anatômico é distribuído de forma muito mais parecida entre os grupos do que o número de cinco vezes sugere; o que varia muito é quem procura atendimento e relata o sintoma. Numa vinheta que descreve uma mulher negra com abaulamento até o hímen, quem carrega "prolapso é cinco vezes mais comum em brancas" na cabeça hesita — e hesita com base num número que nunca foi anatômico.

A referência que fala de homens

O mesmo protocolo escreve que estudos epidemiológicos mostram que indivíduos de famílias com predisposição ao prolapso têm risco de 2,58 vezes de apresentar a condição, e ancora tanto essa frase quanto a lista de doenças do colágeno e da elastina numa única referência. Essa referência, na lista do próprio documento, é uma revisão sistemática com metanálise de estudos de associação de genes candidatos para sintomas do trato urinário inferior em homens, publicada em 2014.

O grupo que assina aquela revisão publicou, no ano seguinte, a versão que caberia aqui: uma revisão sistemática com metanálise dos estudos de associação genética de sintomas urinários e de prolapso em mulheres. É esse artigo, e não o dos homens, que sustenta a frase — e ele não publica 2,58. Publica que ter parente de primeiro grau afetado por incontinência ou prolapso está associado a um aumento de risco de aproximadamente duas a três vezes para desenvolver qualquer uma das duas condições.

O que o artigo em mulheres traz de concreto é mais modesto e mais útil do que um número único. Só duas variantes alcançaram credibilidade epidemiológica moderada na análise agrupada, e apenas uma delas se associou a prolapso: a variante do gene do colágeno tipo I, com razão de chances de 1,3 e intervalo de confiança de 1,0 a 1,7 em 838 mulheres. Nenhuma variante testada nos genes do colágeno tipo III, da laminina e das metaloproteinases mostrou efeito significativo. O mesmo artigo registra que a evidência sobre prolapso na síndrome de Ehlers-Danlos é inconsistente.

A convergência que salva o aluno é brasileira. O estudo caso-controle da Escola Paulista mediu história familiar positiva em parentes de primeiro grau e encontrou razão de chances de 2,27, com intervalo de 1,04 a 4,9. Está dentro da faixa de duas a três vezes que a revisão em mulheres descreve. A frase de conteúdo sobrevive intacta; o que não sobrevive é o algarismo com duas casas decimais e a referência que o carrega.

O estudo brasileiro que deixou o estágio II de fora

O caso-controle da Escola Paulista de Medicina reuniu 316 mulheres na pós-menopausa, todas sem terapia hormonal e sem cirurgia vaginal prévia, entre agosto de 2006 e agosto de 2007. O grupo caso teve 107 mulheres nos estágios III ou IV; o grupo controle, 209 mulheres nos estágios 0 ou I. O critério de exclusão que define o estudo está escrito em uma linha: não foram incluídas as pacientes que apresentavam prolapso no estágio II.

É um desenho deliberado e legítimo — separar extremos aumenta o contraste e a chance de detectar associação. Mas ele significa que o estudo brasileiro mais citado sobre fatores de risco para prolapso não olhou para a faixa em que o prolapso passa pelo hímen, que é onde o sintoma começa e onde a maior parte das mulheres está. Levar as razões de chances desse estudo para uma paciente de estágio II é extrapolar para o único grupo que ele não estudou.

A tabela de regressão logística tem sete linhas. Presença de pelo menos um parto normal, razão de chances de 7,22, intervalo de 1,84 a 28,27. Peso do recém-nascido igual ou maior que 4.000 g, 2,9, intervalo de 1,24 a 6,79. História familiar positiva, 2,27, intervalo de 1,04 a 4,9. Cesariana, 0,43, intervalo de 0,24 a 0,78 — protetora. Parto a fórcipe, 1,0, sem significância. E duas variáveis contínuas: idade, 1,05 por ano, e índice de massa corporal, 1,08 por unidade.

Aí está a aparente contradição do artigo. O resumo diz que "somente três variáveis" se apresentaram como fatores de risco independentes, e a discussão afirma que o índice de massa corporal acima de 25 não foi fator independente — enquanto a tabela mostra idade e índice de massa corporal com valores de p de 0,02 e 0,025. Não há erro: o resumo conta as variáveis dicotômicas, as que descrevem um antecedente presente ou ausente, e a discussão testa o índice de massa corporal dicotomizado no corte de 25. Idade e índice de massa corporal entraram como contínuas, e uma variável contínua com razão de chances por unidade parece fraca sem que seja.

A aritmética prova. Razão de chances de 1,05 por ano de idade, aplicada a duas mulheres com 30 anos de diferença, dá 1,05 elevado a 30, ou seja, 4,3 vezes — mais do que a história familiar e mais do que a macrossomia. Razão de 1,08 por unidade de índice de massa corporal, entre uma mulher com 22 e outra com 32, dá 2,2 vezes. E a cesariana protetora com 0,43 é o inverso: cada cesariana divide as chances por 2,3. Ler a tabela linha a linha, sem exponenciar, faz idade e peso parecerem detalhes quando são os dois maiores efeitos depois do parto vaginal.

Uma última leitura sobre o campeão da tabela. A razão de 7,22 do parto vaginal tem intervalo que vai de 1,84 a 28,27 — a ponta de cima é quinze vezes a ponta de baixo. O ponto estimado é o que se decora, mas o que o estudo consegue afirmar é que existe efeito e que ele é grande; o tamanho exato, com 107 casos, o desenho não resolve.

Cinquenta e oito vírgula oito por cento de quem

Três prevalências circulam pelos textos brasileiros do tema e cada uma tem um denominador diferente. A primeira: prevalência estimada de 21,7% em mulheres de 18 a 83 anos, chegando a 30% entre 50 e 89 anos. A segunda: cerca de 30% a 50% das mulheres multíparas com mais de 50 anos. A terceira, brasileira e de campo, vem de um ambulatório especializado de Fortaleza: entre 85 pacientes com disfunção do assoalho pélvico, 58,8% tinham prolapso estádio II, 14,1% estádio III e 2,4% estádio IV, e 55,3% apresentavam defeito da parede anterior.

Refaça os numeradores. Com 85 mulheres, 58,8% são 50 pacientes, 14,1% são 12, 2,4% são 2 e 55,3% são 47. A soma dos três estádios dá 64 de 85, ou 75,3% — o que significa que 21 mulheres, quase um quarto do ambulatório, não têm prolapso estadiável acima do estágio I. Faz sentido: o ambulatório é de disfunção do assoalho pélvico, não de prolapso, e recebe também incontinência e disfunção defecatória.

O denominador muda tudo o que se pode dizer da série. "58,8% têm estágio II" é verdade entre mulheres já encaminhadas a um serviço especializado por queixa de assoalho pélvico; não é a distribuição do prolapso na comunidade, nem entre multíparas, nem entre idosas. Levar esse percentual para uma questão de rastreamento populacional erra pelo mesmo mecanismo que faz alguém confundir prevalência em ambulatório de referência com prevalência na população.

Falta ainda separar quem tem descida de quem tem doença. O protocolo brasileiro escreve que as desordens do assoalho pélvico — prolapso e incontinências fecal e urinária, no plural e somadas — afetam 25% das mulheres norte-americanas. É um número de um conjunto de três condições, e é o número que mais aparece truncado em prova como "25% das mulheres têm prolapso". A doença é o subconjunto; o percentual é do conjunto. Somar a queixa ao achado e o achado à população é o erro que percorre as três prevalências.

Pessário: recomendação A, e um protocolo de setenta e uma páginas

Nas recomendações finais do protocolo brasileiro, a primeira linha é o pessário: o prolapso pode ser tratado conservadoramente com pessários vaginais, com bons índices de satisfação e qualidade de vida, grau A de recomendação. Não há corte de estágio nessa frase. O pessário é dispositivo de borracha ou silicone que dá suporte estrutural a qualquer defeito do assoalho pélvico, com uma exceção anotada no próprio texto: o defeito distal.

O manejo tem duas partes que caem em prova. A primeira é o preparo: recomenda-se preparar a mucosa vaginal com creme de estrogênio na mulher na pós-menopausa antes de introduzir o pessário, e manter o uso depois. A segunda é o motivo do abandono, que é sempre local — fissuras vaginais, desconforto, dor, leucorreia e retenção urinária. Fístula urogenital é rara e, quando ocorre, está associada a cuidado e manejo inadequados do dispositivo, não ao dispositivo.

O contraponto é o treinamento dos músculos do assoalho pélvico. Uma revisão sistemática mostrou melhora de sintomas e de grau do prolapso, mas a maioria dos estudos incluídos tinha pacientes nos estágios I e II. A conclusão do protocolo é literal: a fisioterapia não reduz anatomicamente o prolapso grave, embora amenize os sintomas e melhore a função muscular. É a diferença entre "melhora o que a mulher sente" e "sobe a parede vaginal", e a vinheta de estágio III que oferece fisioterapia como tratamento definitivo está testando exatamente isso.

Do lado da execução, a rede brasileira tem um protocolo de enfermagem construído e validado no Ceará. Ele nasceu de 3.630 artigos levantados, dos quais 44 entraram na análise, publicados entre 2002 e 2015, e chegou a 71 páginas com 13 seções, 11 quadros — sete deles apenas para descrever os sete tipos de pessário, com indicações, vantagens e desvantagens — e 14 figuras, três delas fluxogramas. Sete avaliadores o julgaram por técnica Delphi: quatro enfermeiros, dois fisioterapeutas e um médico. O índice de validade de conteúdo global ficou em 0,98. A única reserva registrada no domínio de conteúdo e apresentação foi sobre o número de páginas.

Guarde o contraste, porque ele é o retrato da assistência ao prolapso no país. Existe um documento de 71 páginas ensinando a colocar e acompanhar o pessário, e um protocolo de regulação de 11 páginas que exige ultrassonografia para aceitar o encaminhamento de um diagnóstico clínico. O tratamento com melhor grau de recomendação é o que menos depende do especialista, e é justamente o que a fila não precisa esperar.

A parede anterior avançada quase nunca está sozinha

A regra anatômica que mais muda conduta cirúrgica no tema é esta: defeito avançado da parede anterior costuma vir acompanhado de defeito do ápice. O protocolo brasileiro registra que os defeitos de parede anterior, especialmente nos estágios avançados, estão frequentemente associados a defeito do ápice vaginal, e cita a série em que mulheres com defeito anterior de estágio III têm associação quase universal com descida apical. Corrigir só a parede anterior nessa mulher é tratar a saliência e deixar o suporte que a produziu.

Por isso a divisão por compartimento organiza toda a cirurgia do prolapso. No anterior, colporrafia anterior e reparo paravaginal são as técnicas mais empregadas; a tela transvaginal tem indicação pontual em recidiva e em prolapso grande. No posterior, colporrafia posterior e reparo do defeito transverso; e a régua brasileira é taxativa em grau A: a interposição de tela sintética não melhora o resultado no compartimento posterior, portanto não há vantagem em usá-la ali.

No ápice estão as decisões de maior porte. A fixação nos ligamentos uterossacros e a fixação no ligamento sacroespinhal têm boa eficácia; a sacrocolpopexia abdominal é considerada padrão, com taxas de sucesso de 78% a 100%, ao custo de maior tempo cirúrgico, retorno mais lento e custo elevado. Uma metanálise das fixações uterossacras encontrou sucesso de 81,2% na parede anterior, 98,3% no ápice e 87,4% na parede posterior — números que dizem o óbvio e o importante ao mesmo tempo: a técnica apical resolve o ápice muito melhor do que resolve as paredes.

Duas travas de segurança fecham o bloco. A cistoscopia para comprovar permeabilidade ureteral é obrigatória na fixação uterossacra, porque o risco de lesão do ureter nessa técnica vai de 1% a 11%. E o fio permanente usado nessa fixação tem taxa de erosão descrita de até 22%. São dois números que explicam por que a escolha da técnica apical não é indiferente e por que a cistoscopia entrou no protocolo como passo, e não como recurso.

A incontinência que só aparece depois

Há uma armadilha clínica que a prova adora e que só existe no prolapso avançado do compartimento anterior. A parede que desce angula e comprime a uretra, e essa obstrução mecânica pode mascarar uma incontinência urinária de esforço que existe. A mulher chega continente, é operada, o suporte volta ao lugar, a uretra desangula — e a perda urinária aparece na semana seguinte, atribuída à cirurgia.

A avaliação que evita isso é de consultório e não custa nada: reduzir o prolapso — com pinça, espéculo ou pessário — e pedir tosse ou Valsalva com a bexiga confortavelmente cheia. Se houver perda com o prolapso reduzido, a incontinência oculta está demonstrada e se discute procedimento antincontinência associado. Se não houver, não se acrescenta um procedimento com morbidade própria a quem não precisa dele.

O erro simétrico também cai. Indicar faixa suburetral de rotina a toda mulher que vai operar prolapso expõe à retenção e à disfunção miccional sem seleção — e a régua brasileira de sociedade, ao tratar das faixas sintéticas, é explícita em que a simples presença de prolapso não contraindica nem indica o material sintético. O que indica é a incontinência demonstrada; o que contraindica são lesão inadvertida da uretra, correção de divertículo ou de fístula uretral e risco de má cicatrização, como após irradiação pélvica.

Fecha o raciocínio a decisão sobre o útero, que também é preferência antes de ser técnica. A revisão citada no protocolo brasileiro mostra maior recidiva do prolapso quando se preserva o útero, com menor tempo cirúrgico e menor sangramento. E, do outro lado da mesa, os estudos de preferência mostram que até 60% das mulheres consultadas optaram por não retirar o útero no momento do tratamento do prolapso. Recidiva e preferência puxam para lados opostos, e é o enunciado que diz qual dos dois está sendo cobrado.

04

As réguas do tema, lado a lado

Três quadros resolvem a maior parte das questões: os cortes exatos do estadiamento, os números de risco cirúrgico com a pergunta que cada um responde, e a porta de entrada da rede pública com a prioridade que ela atribui.

  1. 1Confirmar o sintoma-índice — sensação de bola ou peso vaginal — e o impacto urinário, intestinal e sexual.
  2. 2Examinar com Valsalva e quantificar pelo POP-Q; o estágio descreve anatomia, mas não mede incômodo.
  3. 3Pesquisar retenção, infecção urinária, incontinência oculta e lesão da mucosa quando o quadro indicar.
  4. 4Assintomática ou pouco incomodada: observação, correção de fatores agravantes e treinamento do assoalho pélvico.
  5. 5Sintomática que deseja tratamento conservador: oferecer pessário, ensinar cuidado e programar revisão da mucosa.
  6. 6Cirurgia depende de sintomas, compartimentos, desejo sexual/reprodutivo, comorbidades e preferência — não apenas do estágio.

O zero fica no hímen, e o sinal muda o estágio

Acima do hímen o centímetro é negativo; além dele, positivo. Entre −1 e +1 o estágio é II, e essa faixa de dois centímetros é a fronteira mais cobrada. Abaixo de −1, estágio I. Acima de +1, estágio III, até o limite que depende do comprimento vaginal total.

12,6 mais 13,6 não dá 20,0

Risco de cirurgia de prolapso até os 80 anos, 12,6%; de cirurgia de incontinência de esforço, 13,6%; de qualquer uma das duas, 20,0%. A soma passa 6,2 pontos do combinado porque quem opera as duas coisas é contado uma vez só no total.

O grau não abre a porta; o sintoma abre

A régua municipal encaminha o prolapso sintomático independente do grau, desde que haja desejo de tratamento cirúrgico. O grau volta a mandar depois, na escolha entre pessário, reconstrução e procedimento obliterativo — e ali quem manda mesmo é o risco cirúrgico e a preferência da mulher.

Estadiamento: onde está o ponto de maior descida

EstágioPosição do ponto de maior descidaO que costuma vir junto na vinheta
0Aa, Ba, Ap e Bp em −3 cm; ápice nos 2 cm mais profundos da vaginaExame normal; a definição depende do comprimento vaginal total
IMais de 1 cm acima do hímen (menor que −1)Achado de exame; sintoma costuma estar ausente
IIA 1 cm ou menos do hímen, para cima ou para baixo (entre −1 e +1)Onde a queixa de bola na vagina começa; é a faixa mais cobrada
IIIMais de 1 cm além do hímen, sem eversão completaPeso, dificuldade miccional; fisioterapia não corrige anatomia aqui
IVEversão vaginal essencialmente completaÚlcera de decúbito, discussão de procedimento obliterativo

Risco cirúrgico ao longo da vida: qual número responde a qual pergunta

NúmeroPergunta que ele respondeOnde o aluno encontra
11,1%Cirurgia de prolapso ou de incontinência até os 80 anos, taxa de 1997Estudo brasileiro de fatores de risco, 2009
12,6%Cirurgia de prolapso apenas, até os 80 anos, taxa de 2007-2011Levantamento americano de 2014
13%O mesmo 12,6% arredondadoProtocolo brasileiro de sociedade, 2019
13,6%Cirurgia de incontinência de esforço apenasLevantamento americano de 2014
20,0%Qualquer cirurgia primária pelas duas condiçõesLevantamento americano de 2014

Porta de entrada e prioridade na rede pública

SituaçãoO que a régua municipal exigePrioridade atribuída
Prolapso sintomático com desejo de tratamento cirúrgicoEncaminhar independente do grau; imagem pélvica e citologia com validade de um anoIntermediária, código N81
Prolapso com incontinência urinária associada6 meses de tratamento clínico otimizado antes do encaminhamentoIntermediária
Incontinência urinária de esforçoMesma faixa do prolapso sintomáticoIntermediária
Bexiga hiperativa refratária ao tratamento inicialEncaminhamento após falha do tratamento clínicoBaixa
Suspeita de neoplasia ginecológicaEncaminhamento imediatoMáxima

As duas pontas da escala — estágios 0 e IV — dependem do comprimento vaginal total; o miolo depende só do hímen. Quem decora apenas a fronteira de ±1 cm resolve a questão mais frequente e erra as duas menos frequentes.

Nenhum documento brasileiro consultado condiciona o pessário a um estágio. O que condiciona é a presença de defeito distal, o trofismo da mucosa e a adesão ao acompanhamento.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Tela sintética no compartimento anterior

A tela ganha em anatomia

A metanálise brasileira sobre tela no prolapso de parede vaginal anterior concluiu que a cirurgia com tela apresenta melhor taxa de cura anatômica e menor recorrência, e o protocolo de sociedade registra recidiva e prolapso grande, de estágio II ou maior, como indicações pontuais à tela transvaginal, com grau A.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 65 (Femina 2019;47(1):42-5), recomendações finais, citando Juliato CR et al., Rev Bras Ginecol Obstet 2016;38(7):356-64

A tela empata no que a mulher sente

A mesma metanálise, no mesmo parágrafo do protocolo, não encontrou diferença quanto à cura subjetiva, à reoperação e à qualidade de vida, e registrou maior tempo cirúrgico e maior perda sanguínea com a tela; por isso o protocolo escreve que, no prolapso anterior, a utilização deve ser individualizada.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 65 (Femina 2019;47(1):42-5), seção de tratamento reconstrutivo do compartimento anterior

Na prova

O desfecho citado no enunciado é que seleciona a resposta, e o mesmo documento sustenta as duas. Enunciado que fala em cura anatômica, recorrência ou recidiva está desenhando a tela; enunciado que fala em qualidade de vida, satisfação, reoperação ou tempo cirúrgico está desenhando o tecido nativo. Quando o enunciado não nomeia desfecho nenhum e pede a conduta padrão numa cirurgia primária, a resposta é a colporrafia.

Preservar ou retirar o útero na correção do prolapso apical

Retirar dura mais

A revisão sistemática com metanálise sobre histeropreservação relata maior taxa de recidiva do prolapso quando o útero é preservado, com menor tempo cirúrgico e menor sangramento; o protocolo registra a evidência com grau B e aponta a heterogeneidade das técnicas como limitação.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 65 (Femina 2019;47(1):42-5), citando de Oliveira SA et al., Int Urogynecol J 2017;28(11):1617-30

A mulher prefere manter

Os estudos de preferência citados no mesmo protocolo mostram que até 60% das mulheres consultadas optaram por não realizar a histerectomia no momento do tratamento do prolapso, e o texto abre explicitamente a discussão da histeropexia para mulheres jovens, sobretudo sem prole constituída.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 65 (Femina 2019;47(1):42-5), citando Frick AC et al., Female Pelvic Med Reconstr Surg 2013;19(2):103-9 e Korbly NB et al., Am J Obstet Gynecol 2013;209(5):470.e1-6

Na prova

O eixo cobrado aparece na frase que descreve a paciente, não na pergunta. Vinheta que menciona recidiva, reoperação ou prolapso recorrente está cobrando durabilidade e aponta para a histerectomia. Vinheta que menciona idade jovem, prole não constituída, desejo expresso de manter o útero ou decisão compartilhada está cobrando preferência e aponta para a preservação. Identificar o eixo vale mais do que decorar taxas.

Idosa de altíssimo risco cirúrgico com prolapso avançado: pessário ou procedimento obliterativo

Obliterativo é seguro e resolve

As técnicas obliterativas parciais e completas permitem cirurgia com anestesia local, têm menor morbidade perioperatória, menor perda sanguínea e recuperação rápida; a colpocleise é descrita como efetiva, com sucesso subjetivo em torno de 100%, e uma revisão com 4.776 procedimentos encontrou 6,8% de complicações e 0,15% de mortalidade, com a ressalva de grau C de restringir a técnica a mulheres sem atividade sexual.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 65 (Femina 2019;47(1):42-5), tratamento obliterativo do compartimento apical e recomendações finais

Pessário vem antes, porque não é cirurgia

O pessário é a primeira linha conservadora com grau A, sem corte de estágio, e a própria revisão sistemática brasileira sobre pessários no prolapso feminino sustenta a satisfação e a qualidade de vida das usuárias; procedimento obliterativo, por menor que seja, continua sendo cirurgia sob anestesia.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 65 (Femina 2019;47(1):42-5), recomendações finais, citando de Albuquerque Coelho SC, Castro EB, Juliato CR, Int Urogynecol J 2016;27(12):1797-803

Na prova

A frase de desfecho da vinheta decide. Se ela diz que a paciente deseja evitar procedimento invasivo, ou que o risco anestésico é proibitivo, ou que se busca a conduta inicial, o alvo é o pessário. Se ela diz que a paciente aceita cirurgia, que não tem mais atividade sexual e que o prolapso recidivou ou é total, o alvo é o obliterativo. Trofismo preservado e ausência de úlcera de decúbito são pistas plantadas a favor do pessário.

06

Caso resolvido

Mulher de 71 anos, seis partos vaginais, na pós-menopausa há vinte anos, chega à unidade básica queixando-se de peso vaginal e de "uma bola que aparece no fim do dia" há dois anos. Tem doença pulmonar obstrutiva crônica em oxigênio domiciliar e cardiopatia isquêmica com angina aos pequenos esforços. Ao exame, em litotomia e sob Valsalva, a parede vaginal anterior desce e ultrapassa o hímen em cerca de 3 cm; o colo uterino permanece a 4 cm acima do hímen e a parede posterior está em posição habitual. A mucosa é trófica e não há úlcera. Ela nega perda urinária aos esforços e diz, sem que se pergunte, que não quer passar por cirurgia.
Nomear o compartimento antes do estágio
Desce a parede anterior; o colo está a −4 e a parede posterior não desce. É defeito de compartimento anterior, com o ápice ainda sustentado. Não é prolapso uterino, e não é prolapso de cúpula, porque o útero está presente. Só depois de nomear o compartimento o estágio faz sentido.
Estadiar pelo ponto de maior descida
O ponto de maior descida está a cerca de +3 cm, ou seja, mais de 1 cm além do hímen, e não há eversão vaginal completa. Isso é estágio III. Guardar que o corte inferior desse estágio é o mesmo +1 cm que fecha o estágio II pelo lado de baixo evita a hesitação na fronteira.
Deixar o estágio de lado para escolher o tratamento
Nenhuma régua brasileira consultada usa o estágio para escolher entre conservador e cirúrgico. O que a vinheta oferece é risco anestésico proibitivo, recusa explícita de procedimento invasivo, mucosa trófica e ausência de úlcera de decúbito. Esse conjunto seleciona o pessário, que é primeira linha com grau A e não tem corte de estágio.
Preparar a mucosa e combinar o retorno
Na pós-menopausa, prepara-se a mucosa vaginal com creme de estrogênio antes de introduzir o dispositivo e mantém-se o uso depois. O acompanhamento existe para pegar cedo o que faz a mulher abandonar o pessário: fissura, desconforto, dor local, leucorreia e retenção urinária. Fístula urogenital é rara e está ligada a manejo inadequado, não ao dispositivo.
Não prometer o que a fisioterapia não entrega
Treinamento dos músculos do assoalho pélvico pode ser associado e ajuda nos sintomas, mas o protocolo brasileiro é explícito em que ele não reduz anatomicamente o prolapso acentuado, e os estudos que sustentam o benefício concentram-se nos estágios I e II. Oferecê-lo como tratamento definitivo aqui seria prometer o que a evidência não dá.
Se ela mudasse de ideia sobre operar
Aí sim a régua de encaminhamento se aplica: prolapso sintomático, independente do grau, com desejo de tratamento cirúrgico, encaminhado à uroginecologia com imagem pélvica e citologia oncótica dentro da validade de um ano, na faixa intermediária de prioridade. E antes de qualquer reconstrução seria preciso reduzir o prolapso e testar a tosse, porque ela é continente com um prolapso anterior avançado.
07

Agora feche você

Mulher de 54 anos, três partos vaginais, um deles de recém-nascido de 4.250 g, com mãe e irmã operadas de "queda da bexiga". Índice de massa corporal de 32. Procura o ambulatório por sensação de peso vaginal que piora ao fim do dia e melhora deitada, sem perda urinária e sem queixa intestinal. Ao exame sob Valsalva, o ponto de maior descida da parede anterior chega exatamente ao plano do hímen; o ápice e a parede posterior estão bem sustentados. Ela pergunta se "já está na hora de operar" e se as filhas vão ter o mesmo problema.
Estágio
Ponto de maior descida no plano do hímen significa zero centímetro, dentro da faixa que vai de −1 a +1. Determine o estágio a partir desse corte e diga por que o valor zero não é estágio 0.
Conduta inicial
Liste o que a régua brasileira oferece a essa mulher antes de qualquer cirurgia, e diga o que a régua municipal exigiria caso ela manifestasse desejo de tratamento cirúrgico.
A pergunta sobre as filhas
Traduza a hereditariedade em número honesto. Diga qual é a faixa de risco por parente de primeiro grau que o levantamento genético em mulheres descreve, e qual foi a razão de chances medida no estudo brasileiro para história familiar positiva.
O peso dos antecedentes dela
Ordene, pelo estudo brasileiro, o efeito dos fatores presentes nesta paciente: parto vaginal, macrossomia, história familiar e índice de massa corporal. Explique por que a razão de chances do índice de massa corporal parece pequena e não é.
O que não prometer
Diga o que a fisioterapia entrega neste estágio e o que ela não entrega em estágios avançados, e por que essa diferença muda a conversa com a paciente.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler o estágio como indicação cirúrgica O estadiamento quantifica a descida e não contém decisão terapêutica. A régua de rede pública encaminha o prolapso sintomático independente do grau, e o protocolo de sociedade recomenda o pessário sem corte de estágio. Vinheta que entrega estágio III e espera que você marque cirurgia por causa do número está testando essa confusão.
  2. 2Achar que estágio II é quase nada O estágio II é a faixa de dois centímetros centrada no hímen, e é justamente onde a mulher começa a sentir a bola. É também o estágio mais comum na casuística brasileira de ambulatório especializado, com metade das pacientes. Tratar estágio II como achado sem importância é ignorar o grupo que mais se queixa.
  3. 3Corrigir só a parede anterior num defeito anterior avançado Defeito de parede anterior em estágio avançado está frequentemente associado a defeito do ápice, e a série citada no protocolo brasileiro descreve associação quase universal no estágio III. Reparar apenas a parede deixa no lugar o suporte apical que produziu a saliência, e a recidiva é a consequência esperada.
  4. 4Operar a mulher continente sem reduzir o prolapso e pedir tosse O prolapso anterior avançado angula a uretra e pode esconder incontinência de esforço. A pesquisa é de consultório: reduzir o prolapso com pinça, espéculo ou pessário e pedir tosse ou Valsalva com bexiga confortavelmente cheia. Sem essa manobra, a perda urinária estreia no pós-operatório e é atribuída à cirurgia.
  5. 5Repetir que 25% das mulheres têm prolapso O percentual é de desordens do assoalho pélvico como conjunto — prolapso mais incontinência urinária mais incontinência fecal — em mulheres norte-americanas. Truncar o sujeito transforma um número de conjunto em número de doença. O mesmo mecanismo aparece quando alguém leva os 58,8% de estágio II de um ambulatório de referência para a população geral.
  6. 6Somar riscos de cirurgia que se sobrepõem Risco de cirurgia de prolapso de 12,6% mais risco de cirurgia de incontinência de esforço de 13,6% não dá o risco combinado: a soma passa 6,2 pontos dos 20,0% publicados, porque as mulheres operadas das duas condições entram duas vezes na soma e uma vez no total. Qualquer par de riscos que compartilhe pacientes se comporta assim.
  7. 7Tomar as cinco vezes do risco racial como diferença anatômica A razão de prevalência próxima de cinco, tendo mulheres afro-americanas como referência, é de prolapso sintomático. Para o desfecho anatômico — borda no plano do hímen ou além dele — a razão publicada é de 1,40. São quase quatro vezes de diferença entre o que se sente e o que se vê, e o texto brasileiro que cita o estudo não faz essa separação.
  8. 8Medir o hiato genital até o fórnice O hiato genital vai do meio do meato uretral externo até a borda posterior do hímen, e o corpo perineal parte da margem posterior do hiato até o meio do ânus. A versão em português mais citada do sistema troca as duas referências pelo fórnice vaginal. Medir até o fórnice é medir o comprimento da vagina com outro nome.
  9. 9Chamar de prolapso de cúpula quem tem útero Prolapso de cúpula vaginal é entidade da mulher histerectomizada. Com útero presente, a descida do ápice é prolapso uterino, e a descida isolada da parede anterior com o colo em posição habitual é defeito de compartimento anterior. A troca de nome aparece como distrator em toda vinheta que descreve o colo uterino em posição normal.
  10. 10Prometer que a fisioterapia corrige o prolapso avançado A revisão citada no protocolo brasileiro mostra melhora de sintomas e de grau, mas a maioria dos estudos incluídos tinha pacientes nos estágios I e II. A conclusão registrada é que o treinamento muscular não reduz anatomicamente o prolapso grave. Oferecer fisioterapia como tratamento definitivo de estágio III é a resposta plantada para quem não leu essa ressalva.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a descida da parede vaginal ANTERIOR com exteriorização do colo vesical caracteriza cistocele (defeito do compartimento anterior) — o compartimento mais comumente acometido no POP. Retocele é defeito da parede POSTERIOR — não descrito. Prolapso uterino apical implica descida do colo uterino, que aqui está em posição habitual. Enterocele é herniação de alças de delgado, tipicamente pela parede posterior/apical, não descrita. Prolapso de cúpula ocorre em mulher HISTERECTOMIZADA, o que não é o caso (útero presente).

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Desenhe de memória uma reta com o hímen no zero e marque as quatro fronteiras: −1, +1, comprimento vaginal total menos 2, e −3 para os quatro pontos de parede no estágio 0. Escreva ao lado qual estágio ocupa cada faixa e sublinhe as duas definições que dependem do comprimento vaginal total. Em seguida escreva os seis pontos do sistema e as três medidas auxiliares, e diga em uma frase de onde a onde vai o hiato genital e de onde a onde vai o corpo perineal, com o hímen no lugar do fórnice. Termine com os cinco números do risco cirúrgico ao longo da vida — 11,1, 12,6, 13, 13,6 e 20,0 — e escreva ao lado de cada um a pergunta que ele responde.

em 30 dias

Refaça os dois casos do capítulo decidindo passo a passo e depois monte três colunas: o que o protocolo de sociedade diz, o que a régua municipal de regulação diz e o que o estudo brasileiro de fatores de risco diz, sobre encaminhamento, sobre pessário e sobre parto vaginal. Em cada linha escreva a frase do enunciado que identificaria o recorte cobrado. Feche recalculando três coisas a partir dos numeradores: quantas das 85 mulheres do ambulatório de Fortaleza estão em cada estádio e quantas sobram fora dos três; quanto vale a razão de chances de 1,05 por ano de idade em trinta anos de diferença e a de 1,08 por unidade em dez unidades de índice de massa corporal; e por quantos pontos a soma de 12,6 com 13,6 passa dos 20,0 do risco combinado, dizendo quem são as mulheres desses pontos.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você atende, no ambulatório de ginecologia, uma mulher de 67 anos que chega dizendo que "tem uma bola que desce". Colha a história dirigida ao que muda a queixa ao longo do dia, a sintomas urinários e intestinais, ao número e à via dos partos, ao peso dos recém-nascidos, à história familiar de queda de bexiga ou de útero em mãe e irmãs, e a tosse crônica, constipação e esforço físico repetido; pergunte de forma direta o que ela deseja do tratamento e se aceitaria cirurgia; examine em litotomia com Valsalva nomeando qual parede desce e onde está o colo em relação ao hímen, e avalie o trofismo da mucosa e a presença de úlcera; e conduza a conversa dizendo em voz alta que o número do exame mede a descida e não decide sozinho o tratamento, e o que a rede pública pede para aceitar o encaminhamento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Prolapso de órgãos pélvicos: o grau mede, o sintoma decide — Preparatório para provas | OsceLabs