PediatriaEmergências Pediátricas

Febre sem sinais localizatórios

A idade decide mais que o termômetro. A prova cobra a conduta por faixa etária no lactente febril sem foco — e o corte de leucócitos que dispara hemocultura e ceftriaxona.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Lactente de 8 meses é atendido na UBS com febre de 39 °C há 2 dias sem foco aparente, irritabilidade e recusa alimentar. Não há sintomas respiratórios nem exantema. A mãe nega diarreia. Considerando a investigação de febre sem sinais localizatórios nesse lactente, qual conduta é a mais apropriada?

02

Como esse tema cai

Febre sem sinais localizatórios (FSSL) é febre com menos de sete dias de duração em uma criança cuja história clínica e cujo exame físico não revelaram a causa. A maioria dessas crianças tem uma virose autolimitada ou está no pródromo de uma doença benigna; uma minoria tem infecção bacteriana grave — infecção urinária, bacteremia, meningite ou pneumonia sem estertores. Todo o capítulo é sobre separar as duas coisas sem submeter o resto das crianças a exames e antibiótico de que não precisam.

Duas entidades vizinhas não são FSSL e caem em outra conduta. Febre com foco identificado — otite, amigdalite, pneumonia com ausculta alterada, celulite — deixa de ser febre sem sinais localizatórios no instante em que o foco aparece: trata-se o foco. E febre de origem indeterminada, que na criança é febre de 38,3 °C ou mais, diária, por 14 dias ou mais, sem causa após avaliação clínica e laboratorial básica, é outro problema, com outro elenco de causas — infecciosas (30% a 40%), neoplásicas (20% a 30%), reumatológicas e inflamatórias (15% a 20%) e miscelânea (10% a 20%).

O instrumento oficial brasileiro na atenção primária é o AIDPI, e o manual de quadros de 2 meses a 5 anos classifica a febre por sinais de perigo, não por exames. A régua que diz quem colhe o quê e em que idade vem da Sociedade Brasileira de Pediatria: o protocolo do Hospital Universitário da USP, construído sobre os protocolos de Baraff e sobre os critérios de Rochester, publicado no Tratado de Pediatria em 2017 e reproduzido no documento científico de 2025. É desse par — AIDPI para o risco imediato, protocolo da SBP para a investigação — que sai quase toda questão de prova sobre criança febril.

As três decisões que a prova cobra vêm sempre na mesma ordem: a criança tem comprometimento do estado geral? Que idade tem? Que exames essa idade manda pedir? Quem inverte a ordem erra — a idade só governa depois que o estado geral foi considerado bom.

03

O que muda decisão

O que conta como febre — e o que é hipertermia

Como usar este capítulo: a sequência é estado geral, idade e risco de infecção bacteriana invasiva; só então vêm urina, sangue, líquor e decisão de tratar ou observar. Antitérmico controla desconforto, mas nunca substitui essa estratificação.

Febre, na régua brasileira, é temperatura axilar igual ou superior a 37,5 °C, o que corresponde a 38,0 °C na medida oral ou retal. A medida retal é o padrão-ouro de temperatura central pela precisão, mas é invasiva física e psicologicamente, e por isso não é a via da rotina. Em menores de 1 ano, a recomendação é termômetro digital na axila em qualquer cenário; em menores de 4 semanas, digital axilar sempre. Termômetro infravermelho fica reservado a crianças acima de 1 ano e a profissional treinado, porque o erro de manuseio é grande.

O AIDPI é mais largo de propósito: considera febril a criança com temperatura de 37,5 °C ou mais, quente ao toque ou com febre relatada na anamnese. Na atenção primária, febre que a mãe mediu em casa e passou até a chegada não é descartada — ela conta.

A temperatura corporal tem ritmo circadiano: os menores valores ocorrem na madrugada e os maiores no fim da tarde. No adulto essa amplitude é de cerca de 0,5 °C; no lactente pode chegar a 1 °C. Uma medida isolada de 37,6 °C às 18 horas, num dia quente, em criança agasalhada, não fecha nada.

Febre e hipertermia se separam à beira do leito, e a distinção muda a conduta. Na febre, o ponto de termorregulação subiu: a criança tem extremidades frias, não sua, sente frio, eventualmente treme, e apresenta taquicardia e taquipneia. Na hipertermia, o termostato está no lugar e o corpo apenas não consegue perder calor — excesso de roupa, ambiente aquecido, exercício intenso: extremidades quentes, sudorese intensa, sensação de calor, sem tremor. Hipertermia se resolve tirando a roupa e resfriando o ambiente, não com antitérmico.

Um ponto que a prova cobra em forma de distrator: a magnitude da febre não tem valor prognóstico nem etiológico. Quarenta graus não significa bactéria, nem 37,8 °C significa vírus. A única exceção reconhecida é o menor de 3 meses com leucocitose ou proteína C reativa elevada. No protocolo brasileiro, a altura da febre serve para uma coisa só: acima de 39 °C, na faixa de 3 a 36 meses, ela abre a investigação de bacteremia oculta.

Profissional aferindo a temperatura axilar de um lactente no colo do cuidador, com termômetro digital posicionado na axila e o braço da criança encostado no tórax.
Em menores de 1 ano a aferição recomendada é a axilar com termômetro digital. Febre é temperatura axilar de 37,5 °C ou mais — equivalente a 38,0 °C por via retal.

A primeira pergunta não é a idade: é o estado geral

Independentemente da idade, a criança febril com comprometimento do estado geral — letargia, irritabilidade que não cede ao colo, má perfusão, gemência, batimento de asa do nariz, dificuldade respiratória — é internada, colhe hemocultura, urocultura, líquor e radiografia de tórax e recebe antibiótico empírico. Essa via não passa por escore, por corte de leucócitos nem por idade. Ela é a primeira ramificação do protocolo brasileiro justamente para não ser esquecida.

Os parâmetros que a SBP manda usar nessa avaliação são objetivos. Frequência cardíaca: 160 bpm ou mais abaixo de 12 meses, 150 bpm ou mais dos 12 aos 24 meses, 140 bpm ou mais dos 2 aos 5 anos. Frequência respiratória: acima de 50 entre 6 e 12 meses e acima de 40 depois dos 12 meses, com saturação de oxigênio de 95% ou menos. Enchimento capilar acima de 3 segundos é alerta. Somam-se o grau de hidratação, avaliado por mucosas e turgor, e o grau de atividade e de responsividade aos estímulos. O conjunto classifica a criança em verde, amarelo ou vermelho — o chamado protocolo semáforo — e é essa cor que define a extensão da investigação.

Na atenção primária o instrumento é o AIDPI, e ele tem lista própria. Sinais gerais de perigo: a criança não consegue beber nem mamar, vomita tudo o que ingere, apresentou convulsão ou movimentos anormais há menos de 72 horas, está letárgica ou inconsciente, tem enchimento capilar acima de 2 segundos, ou apresenta batimento de asa do nariz e gemência. No quadro específico da febre entram ainda três achados: rigidez de nuca, petéquias e abaulamento de fontanela.

Qualquer um desses, em área sem risco de malária, classifica a criança como doença febril muito grave, e a conduta é fixa: primeira dose de antibiótico recomendado ainda na unidade, medidas para evitar hipoglicemia, antitérmico se a temperatura for de 38,0 °C ou mais e referência urgente ao hospital. Em área com risco de malária, acrescenta-se a gota espessa ou o teste rápido e, se positivo, a primeira dose do antimalárico — a classificação passa a se chamar malária grave ou doença febril muito grave, e a referência urgente continua.

Sem sinais de gravidade, a classificação é doença febril: antitérmico se temperatura de 38,0 °C ou mais, orientação sobre quando retornar imediatamente e reavaliação em dois dias se a febre persistir. E existe uma regra que o quadro do AIDPI destaca duas vezes: toda criança com doença falciforme que apresentar febre é referida ao hospital o mais breve possível, tenha ou não foco, tenha ou não sinal de perigo.

Menor de 3 meses: onde o exame físico mente

Abaixo de 30 dias, o bom aspecto não autoriza nada. A conduta é internação com investigação completa — pesquisa de vírus respiratório quando disponível, hemograma, hemocultura, urina I, urocultura, líquor e radiografia de tórax — e antibiótico empírico. Não há via ambulatorial nessa faixa, e a alternativa de prova que manda para casa o recém-nascido febril que está mamando bem é sempre a errada.

A razão é fisiológica, não excesso de zelo. Nessa idade os sinais focais são pobres: bacteremia, infecção urinária e meningite podem cursar apenas com febre e com uma criança que parece bem. Vale ainda o inverso — recém-nascidos, sobretudo prematuros, podem não fazer febre mesmo infectados, e apresentar hipotermia. Desnutridos graves também podem não elevar a temperatura na vigência de infecção. Ausência de febre não exclui infecção nas pontas da curva.

Entre 1 e 3 meses, sem comprometimento do estado geral, colhem-se pesquisa de vírus respiratório (quando disponível), hemograma e urina I, e aplicam-se os critérios de Rochester. Classificada como baixo risco, a criança colhe urocultura e vai para casa com reavaliação diária, sem antibiótico e sem punção lombar. Classificada como alto risco, interna, colhe hemocultura, urocultura, líquor e radiografia de tórax, recebe antibiótico empírico e tem reavaliação diária obrigatória.

Os critérios de Rochester olham quatro domínios. Aspecto: criança com bom aspecto. História prévia: nascida a termo, sem antibiótico no período perinatal, sem hiperbilirrubinemia inexplicada, sem internação prévia e sem doença de base. Exame físico: nenhum foco de infecção em pele, partes moles, ossos, articulações ou ouvido. Laboratório: leucócitos entre 5.000 e 15.000/mm³, bastonetes de até 1.500/mm³, até 10 leucócitos por campo no sedimento urinário e, havendo diarreia, até 5 leucócitos por campo no esfregaço de fezes. Na validação original, 1,0% dos classificados como baixo risco tinham infecção bacteriana grave, contra 12,3% dos de alto risco.

A infecção urinária é a infecção bacteriana grave mais frequente do lactente febril, e é por isso que urina I e urocultura entram sem que haja qualquer queixa urinária — não existe disúria referida aos 2 meses. O sedimento urinário orienta na hora; quem fecha o diagnóstico é a urocultura, e ela só vale se a amostra vier de cateterismo vesical ou de punção suprapúbica. Saco coletor contamina com frequência alta e serve, na prática, apenas quando o resultado é negativo.

Três a 36 meses: bacteremia oculta e o papel da vacina

Nessa faixa, com bom estado geral, o protocolo brasileiro olha dois dados antes de qualquer exame: a situação vacinal e a altura da febre. O que importa na situação vacinal são as conjugadas contra os dois agentes clássicos da bacteremia oculta. No calendário nacional, a pneumocócica conjugada é aplicada aos 2 e aos 4 meses com reforço aos 12 — a VPC20 vem substituindo a VPC10 no programa —, e o Haemophilus influenzae tipo b entra na pentavalente, aos 2, 4 e 6 meses. Uma criança de 15 meses com essas doses em dia cumpriu o esquema básico que o protocolo considera completo.

Com vacinação completa e temperatura axilar de até 39 °C, a conduta é considerar urina I e urocultura e reavaliar diariamente. Não há indicação de hemograma nem de hemocultura: a criança bem, vacinada e com febre moderada não entra em rastreio de bacteremia.

Acima de 39 °C, colhe-se hemograma. Leucócitos de 20.000/mm³ ou mais, ou neutrófilos de 10.000/mm³ ou mais, disparam hemocultura e radiografia de tórax. Radiografia alterada significa pneumonia, e o caso deixa de ser febre sem foco: trata-se a pneumonia. Radiografia normal caracteriza risco de bacteremia oculta, e a conduta é ceftriaxona 50 mg/kg por via intramuscular, uma vez ao dia, com reavaliação diária até o resultado das culturas. Abaixo desses cortes, apenas reavaliação diária, sem antibiótico.

Com esquema vacinal incompleto, a investigação é a mesma, mas a reavaliação diária passa a ser obrigatória — o protocolo não admite perder essa criança de vista, porque a proteção contra pneumococo e Haemophilus não está garantida.

Por que 20.000 e não os 15.000 leucócitos do protocolo clássico de Baraff: o protocolo do HU-USP propõe deliberadamente uma intervenção menor e foi validado ao longo de 12 meses de uso, período em que todos os casos de infecção bacteriana grave foram identificados e o uso empírico de antibiótico caiu. É um corte brasileiro, com justificativa brasileira, e é ele que a banca cobra quando o enunciado descreve hemograma de criança febril entre 3 e 36 meses.

Tratar a febre: o alvo é o desconforto, não o número

Não existe um valor de termômetro fixado por consenso para administrar antitérmico. A indicação é o desconforto evidente: choro intenso, irritabilidade, redução da atividade, redução do apetite, distúrbio do sono. Amarrar a família a um número alimenta a febrefobia e produz mais dose errada do que alívio.

Três drogas estão disponíveis no Brasil, todas eficazes e seguras dentro da faixa terapêutica e em monoterapia. Paracetamol, a partir de 3 kg e já no período neonatal: 10 a 15 mg/kg por dose, a cada 4 a 6 horas, no máximo 50 a 75 mg/kg ao dia. Dipirona, a partir de 3 meses e 5 kg: 10 a 16 mg/kg por dose, a cada 6 a 8 horas. Ibuprofeno, a partir de 6 meses e 5 kg: 5 a 10 mg/kg por dose, a cada 6 a 8 horas, até 40 mg/kg ao dia — a dose anti-inflamatória é outra, de 15 a 20 mg/kg. O ácido acetilsalicílico não é usado como antitérmico na criança, pelo risco de síndrome de Reye. Abaixo de 1 mês, o único antitérmico recomendado é o paracetamol, com dose ajustada pela idade gestacional.

Alternar antitérmicos não se sustenta. Os três agem no mesmo ponto — inibem a ciclo-oxigenase e reduzem a produção de prostaglandina E2 no hipotálamo —, de modo que a combinação não acrescenta mecanismo e multiplica o risco de erro. E o erro é a regra, não a exceção: em estudo brasileiro com 692 crianças, 26,7% dos cuidadores alternavam antitérmicos e cerca de 70% das doses ficavam abaixo da mínima recomendada; em outro, com 575 cuidadores, 43,3% das crianças receberam subdose, 48,7% dose adequada e 8,0% dose acima da terapêutica.

Uma armadilha de dose merece linha própria. No produto de referência, uma gota de dipirona contém 25 mg. A regra caseira de 'uma gota por quilo' entrega 25 mg/kg, acima do teto de 16 mg/kg — e a hipotensão que se costuma atribuir à droga é, em boa parte dos casos, superdosagem. Os gotejadores das diferentes apresentações comerciais não são equivalentes entre si, o que torna a prescrição em miligramas por quilo, e não em gotas, a única segura.

Métodos físicos têm início rápido de ação, efeito curto e produzem calafrio e irritabilidade — pouca vantagem sobre o medicamento e mais desconforto. Ficam reservados à hipertermia, definida como temperatura central de 40 °C ou mais acompanhada de alteração do sistema nervoso central. Banho frio, compressa gelada e fricção com álcool não entram na conduta da criança febril.

Dois usos preventivos não se justificam. Antitérmico não previne convulsão febril: metanálise de três estudos, com 540 crianças de 6 a 72 meses e história prévia de convulsão febril, não encontrou diferença entre antipirético profilático e placebo. E antitérmico profilático antes da vacinação não é rotina — o paracetamol pode reduzir a imunogenicidade de algumas vacinas, sobretudo nas primeiras doses. O uso é terapêutico, em caso de febre ou dor após a aplicação.

Em época de arbovirose, a escolha do antitérmico muda. Na suspeita de dengue, usam-se paracetamol e dipirona; ibuprofeno e ácido acetilsalicílico estão contraindicados pelo risco de sangramento e de comprometimento renal no contexto de extravasamento plasmático. O ponto que a prova mais explora vem depois: na dengue, a piora hemodinâmica costuma ocorrer justamente quando a febre cede, entre o terceiro e o sétimo dia de doença — defervescência não é sinal de melhora, é o momento de vigiar sinais de alarme.

Quando a febre já dura dias

O quadro do AIDPI faz uma pergunta que costuma passar batida: há mais de cinco dias, houve febre todos os dias? Se sim, a criança é encaminhada para investigação mesmo sem qualquer sinal de gravidade. É o gatilho que separa o 'reavalie em dois dias' do 'investigue', e é onde entram no diferencial quadros como a doença de Kawasaki, que se define justamente pela duração da febre.

A febre sem sinais localizatórios, por definição, tem menos de sete dias. Passado esse tempo sem causa, a moldura muda de nome e de lógica: febre de origem indeterminada, na criança, é febre de 38,3 °C ou mais, diária, por 14 dias ou mais, sem causa identificada após avaliação clínica e laboratorial básica. A investigação deixa de perseguir bacteremia oculta e passa a percorrer infecções arrastadas (tuberculose e micobactérias não tuberculosas, citomegalovírus, Epstein-Barr, HIV, endocardite, abscessos, doença da arranhadura do gato, salmonelose, infecções ósseas, malária, toxoplasmose), neoplasias, doenças reumatológicas e a miscelânea que inclui autoinflamatórias, febre factícia e febre por medicamento.

Na prática pediátrica, boa parte do que chega rotulado como febre de origem indeterminada é, no fim, sequência de viroses recorrentes que não preenche a definição clássica. Isso não dispensa a investigação: dispensa a pressa de tratar às cegas.

04

Conduta no lactente febril sem foco, por faixa etária

O protocolo brasileiro de referência é o do Hospital Universitário da USP, construído sobre Baraff e Rochester, publicado no Tratado de Pediatria em 2017 e reproduzido pela SBP em 2025. Ele se lê de cima para baixo: primeiro o estado geral, depois a idade, e só então os exames.

  1. 1Confirme que é febre e que não há foco: temperatura axilar de 37,5 °C ou mais (equivalente a 38,0 °C retal), menos de sete dias de duração e exame físico completo — incluindo otoscopia, orofaringe, pele, articulações e fontanela.
  2. 2Pergunte pelo estado geral antes de perguntar a idade. Havendo comprometimento (letargia, irritabilidade, má perfusão, gemência, batimento de asa do nariz), interne, colha hemocultura, urocultura, líquor e radiografia de tórax e inicie antibiótico empírico — em qualquer idade.
  3. 3Sem comprometimento, a idade governa. Abaixo de 30 dias: internação com investigação completa, incluindo líquor, e antibiótico empírico, mesmo com ótimo aspecto.
  4. 4De 1 a 3 meses: hemograma, urina I e pesquisa de vírus respiratório quando disponível; aplique os critérios de Rochester. Baixo risco vai para casa com urocultura colhida e reavaliação diária; alto risco interna com líquor e antibiótico empírico.
  5. 5De 3 a 36 meses com bom estado geral: confira a situação vacinal e a altura da febre. Até 39 °C, urina I e urocultura com reavaliação diária. Acima de 39 °C, hemograma.
  6. 6Hemograma com leucócitos de 20.000/mm³ ou mais, ou neutrófilos de 10.000/mm³ ou mais: hemocultura e radiografia de tórax. Radiografia alterada trata-se como pneumonia; radiografia normal recebe ceftriaxona 50 mg/kg por via intramuscular, uma vez ao dia, com reavaliação diária até o resultado das culturas.
  7. 7Marque o retorno antes de a família sair. A reavaliação diária é parte do protocolo, não gentileza — é ela que autoriza pedir menos exame.

0 a 30 dias

Internação sempre. Pesquisa de vírus respiratório, hemograma, hemocultura, urina I, urocultura, líquor e radiografia de tórax, com antibiótico empírico. Bom estado geral não muda a conduta.

1 a 3 meses

Hemograma e urina I decidem por Rochester. Baixo risco vai para casa com urocultura colhida e reavaliação diária, sem antibiótico; alto risco interna com líquor e antibiótico empírico.

3 a 36 meses

Vacinação e altura da febre decidem. Até 39 °C, urina I e urocultura com retorno diário. Acima de 39 °C, hemograma — e é o hemograma que abre a via da hemocultura e da ceftriaxona.

SituaçãoO que colherConduta
Qualquer idade, com comprometimento do estado geralHemocultura, urocultura, líquor e radiografia de tóraxInternação e antibiótico empírico imediato, sem passar por corte de exame
Menor de 30 dias, bom estado geralPesquisa de vírus respiratório, hemograma, hemocultura, urina I, urocultura, líquor e radiografia de tóraxInternação e antibiótico empírico, sem exceção
1 a 3 meses — Rochester de baixo riscoPesquisa de vírus respiratório, urina I e uroculturaAlta com reavaliação diária; sem antibiótico e sem líquor
1 a 3 meses — Rochester de alto riscoHemocultura, urocultura, líquor e radiografia de tóraxInternação, antibiótico empírico e reavaliação diária obrigatória
3 a 36 meses, temperatura axilar de até 39 °CUrina I e uroculturaReavaliação diária; sem hemograma e sem hemocultura
3 a 36 meses, temperatura axilar acima de 39 °CHemograma; se leucócitos ≥ 20.000/mm³ ou neutrófilos ≥ 10.000/mm³, hemocultura e radiografia de tóraxRadiografia alterada: tratar como pneumonia. Radiografia normal: ceftriaxona 50 mg/kg IM 1x/dia e reavaliação diária até o resultado das culturas
3 a 36 meses com esquema vacinal incompletoMesma investigação da faixa etáriaReavaliação diária obrigatória — a criança não pode sair sem retorno marcado

Critérios de Rochester — o que define BAIXO risco no lactente de até 60 dias

DomínioCritério
AspectoCriança com bom aspecto, sem toxemia
História préviaNascida a termo, sem antibiótico perinatal, sem hiperbilirrubinemia inexplicada, sem internação prévia e sem doença de base
Exame físicoSem foco de infecção em pele, partes moles, ossos, articulações ou ouvido
HemogramaLeucócitos entre 5.000 e 15.000/mm³ e bastonetes de até 1.500/mm³
UrinaAté 10 leucócitos por campo no sedimento urinário
Fezes (se houver diarreia)Até 5 leucócitos por campo no esfregaço
Desempenho na validaçãoInfecção bacteriana grave em 1,0% dos classificados como baixo risco, contra 12,3% no grupo de alto risco

Antitérmicos disponíveis no Brasil — dose por quilo

DrogaA partir deDose por vezIntervaloMáximo diário
ParacetamolNeonatos, acima de 3 kg10 a 15 mg/kg4 a 6 horas50 a 75 mg/kg/dia
Dipirona3 meses e acima de 5 kg10 a 16 mg/kg6 a 8 horas40 a 64 mg/kg/dia
Ibuprofeno6 meses e acima de 5 kg5 a 10 mg/kg6 a 8 horas40 mg/kg/dia
Ácido acetilsalicílicoNão se usa como antitérmico na criançaRisco de síndrome de Reye

O AIDPI usa enchimento capilar acima de 2 segundos como sinal geral de perigo; o documento da SBP de 2025 usa acima de 3 segundos como alerta na avaliação da criança febril. São réguas de cenários diferentes — a da atenção primária é deliberadamente mais sensível, porque quem aplica o quadro precisa errar para o lado de referir.

Toda criança com doença falciforme e febre é referida ao hospital, com ou sem foco, com ou sem sinal de perigo.

A reavaliação diária é o que sustenta a decisão de pedir menos exame. Alta sem retorno marcado transforma 'baixo risco' em aposta.

Abreviações do protocolo: PVR é pesquisa de vírus respiratório; UI é urina I, o sedimento urinário; Uroc é urocultura; Hmc é hemocultura; Hmg é hemograma.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual temperatura define febre e por qual via medir

Axilar de 37,5 °C, com a febre referida em casa contando (documentos brasileiros)

A SBP define febre como temperatura axilar igual ou superior a 37,5 °C, equivalente a 38,0 °C por via oral ou retal, e recomenda termômetro digital axilar em menores de 1 ano. O AIDPI considera febril a criança com temperatura de 37,5 °C ou mais, quente ao toque ou com febre relatada na anamnese.

SBP, Documento Científico nº 206, 2025; Ministério da Saúde/OPAS/UNICEF, AIDPI Criança 2 meses a 5 anos, 2017

Retal de 38,0 °C (guideline e critérios americanos)

O guideline da American Academy of Pediatrics de 2021 e os critérios de Rochester trabalham com temperatura retal igual ou superior a 38,0 °C, tomada como padrão-ouro de temperatura central.

AAP, Pediatrics 2021;148(2):e2021052228; Jaskiewicz et al., Pediatrics 1994;94(3):390-396

Na prova

As duas réguas apontam para a mesma temperatura central: o que muda é a via de aferição, não o limiar. Enunciado que informa temperatura retal está no corpo americano; enunciado com temperatura axilar, ou que aceita a febre medida em casa pela mãe, está no corpo brasileiro. O cenário confirma: unidade básica, classificação por cor e consulta de retorno puxam o AIDPI; pronto-socorro pediátrico com faixas descritas em dias de vida puxa o guideline americano.

Como decidir punção lombar e alta no lactente febril entre 22 e 60 dias

Corte por idade mais reavaliação diária (protocolo brasileiro)

Abaixo de 30 dias, internação com líquor e antibiótico empírico para todos. De 1 a 3 meses, os critérios de Rochester separam alto e baixo risco a partir de hemograma e urina I: o de baixo risco não faz líquor, não recebe antibiótico e vai para casa com urocultura colhida e reavaliação diária.

SBP, Documento Científico nº 206, 2025 (protocolo do HU-USP, Tratado de Pediatria 2017)

Três faixas de dias e marcadores inflamatórios (AAP, 2021)

O guideline americano separa 8-21, 22-28 e 29-60 dias e decide por marcadores: procalcitonina acima de 0,5 ng/mL, proteína C reativa acima de 20 mg/L e neutrófilos acima de 4.000/mm³ — ou, quando não há procalcitonina disponível, temperatura acima de 38,5 °C e neutrófilos acima de 5.200/mm³. Apenas a faixa de 8 a 21 dias faz punção lombar de rotina.

AAP, Evaluation and Management of Well-Appearing Febrile Infants 8 to 60 Days Old, Pediatrics 2021;148(2):e2021052228

Na prova

A causa da diferença é de disponibilidade: a régua americana depende de procalcitonina, que não é exame de rotina na rede pública brasileira, e o protocolo nacional substitui o marcador caro por uma reavaliação presencial diária. Enunciado que cita procalcitonina, ou que descreve a idade em dias de vida com faixas fechadas, saiu do corpo americano; enunciado com hemograma, urina I e retorno diário à unidade saiu do protocolo brasileiro. Prova oficial do MEC tende à conduta do SUS; em outras bancas, um distrator com procalcitonina denuncia de qual mundo a questão veio.

A partir de que temperatura administrar antitérmico

Tratar o desconforto, sem número fixo (SBP, 2025)

A SBP indica antitérmico quando a febre vem acompanhada de desconforto evidente — choro intenso, irritabilidade, redução da atividade, redução do apetite, distúrbio do sono — e sustenta que fixar um valor prende a família a um número de termômetro.

SBP, Documento Científico nº 206, 2025

Antitérmico com temperatura de 38,0 °C ou mais (AIDPI/Ministério da Saúde, 2017)

O manual de quadros do AIDPI instrui a dar antitérmico quando a temperatura for igual ou superior a 38,0 °C, e repete a instrução em todas as classificações de febre — de doença febril simples a doença febril muito grave, com ou sem risco de malária.

Ministério da Saúde/OPAS/UNICEF, Manual de Quadros de Procedimentos: AIDPI Criança 2 meses a 5 anos, 2017

Na prova

É divergência brasileira contra brasileira, e a causa está no destinatário e na data. O AIDPI é um algoritmo de 2017 escrito para padronizar a conduta de equipes inteiras na atenção básica, e algoritmo precisa de um número operacional; o documento da SBP, de 2025, fala ao pediatra que avalia caso a caso. Enunciado ambientado em unidade básica, com fluxograma ou cor de classificação, roda no AIDPI; enunciado de consultório que pergunta quando orientar a família a medicar roda no texto da sociedade.

06

Caso resolvido

Lactente de 22 dias, nascido a termo, sem intercorrências no parto e sem antibiótico no período neonatal, é trazido pela mãe por temperatura axilar de 38,1 °C aferida em casa há três horas. Mama bem, está ativo e reativo ao exame, corado, com enchimento capilar de 2 segundos, sem tiragem. Otoscopia, orofaringe, pele, articulações e fontanela sem alterações. Não há tosse, vômitos nem diarreia.
achado
Febre axilar acima de 37,5 °C, com menos de sete dias de duração, e exame físico completo sem foco: por definição, febre sem sinais localizatórios.
estado geral
Ativo, reativo, bem perfundido e mamando: não há comprometimento do estado geral. Isso afasta a via de urgência imediata — e não afasta a investigação.
idade
Vinte e dois dias. Abaixo de 30 dias o bom aspecto perde valor discriminatório: bacteremia, infecção urinária e meningite podem cursar apenas com febre em criança que parece bem.
conduta
Internação. Pesquisa de vírus respiratório, hemograma, hemocultura, urina I, urocultura, líquor e radiografia de tórax; antibiótico empírico logo após as coletas.
o que não fazer
Não se aplicam aqui os critérios de Rochester para liberar a criança: no protocolo brasileiro eles decidem a faixa de 1 a 3 meses. Também não cabe prescrever antitérmico e reavaliar em 48 horas.
07

Agora feche você

Menino de 16 meses, com esquema vacinal completo para a idade (duas doses de pneumocócica conjugada com reforço aos 12 meses e três doses de pentavalente), apresenta febre há um dia, com temperatura axilar de 39,6 °C na chegada. Depois do antitérmico está ativo, brincando, hidratado, com enchimento capilar de 2 segundos. Otoscopia normal, orofaringe sem exsudato, ausculta pulmonar limpa, abdome sem alterações, pele sem exantema. Hemograma: 22.400 leucócitos/mm³ com 12.100 neutrófilos/mm³.
achado
Febre sem sinais localizatórios, bom estado geral, 16 meses, vacinação completa e temperatura acima de 39 °C — exatamente a situação em que o protocolo brasileiro investiga bacteremia oculta.
leitura do hemograma
Leucócitos de 20.000/mm³ ou mais e neutrófilos de 10.000/mm³ ou mais: os dois cortes foram ultrapassados.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Bom estado geral libera o recém-nascido febril O aspecto tranquiliza, e nos primeiros 30 dias é justamente o dado menos confiável. O protocolo brasileiro interna, colhe líquor e inicia antibiótico empírico mesmo no lactente que está mamando bem e sorrindo no colo.
  2. 2A febre cedeu com o antitérmico, logo é viral Resposta ao antitérmico não separa vírus de bactéria: paracetamol, dipirona e ibuprofeno reduzem a prostaglandina E2 hipotalâmica seja qual for o agente. Alternativa que usa a defervescência como argumento diagnóstico é sempre a errada.
  3. 3Quanto mais alta a febre, mais grave a doença A magnitude não tem valor prognóstico nem etiológico; a única exceção é o menor de 3 meses com leucocitose ou proteína C reativa elevada. No protocolo brasileiro, o que a altura da febre faz é apenas abrir a investigação de bacteremia oculta acima de 39 °C, entre 3 e 36 meses.
  4. 4Alternar paracetamol e dipirona de três em três horas Os três antitérmicos disponíveis têm o mesmo mecanismo, de modo que alternar não acrescenta efeito e multiplica o erro de dose. Em estudo brasileiro com 692 crianças, 26,7% dos cuidadores alternavam e cerca de 70% das doses ficavam abaixo da mínima recomendada.
  5. 5Dipirona: uma gota por quilo No produto de referência, uma gota tem 25 mg. Uma gota por quilo entrega 25 mg/kg, acima do teto de 16 mg/kg — e a hipotensão atribuída à droga costuma ser, na verdade, superdosagem. Prescreva em miligramas por quilo: os gotejadores das apresentações não são equivalentes.
  6. 6Banho frio, compressa gelada ou fricção com álcool Efeito rápido, curto e desconfortável, com calafrio e irritabilidade. Método físico só se justifica na hipertermia — temperatura central de 40 °C ou mais com alteração do sistema nervoso central —, em que a criança perde calor mal e o termostato não está deslocado.
  7. 7Antitérmico profilático antes da vacina ou para evitar convulsão febril Nenhum dos dois se sustenta. Metanálise de três estudos com 540 crianças não mostrou redução de convulsão febril com antipirético profilático, e o paracetamol antes da vacinação pode reduzir a imunogenicidade das primeiras doses de algumas vacinas.
  8. 8Ibuprofeno na criança febril em época de dengue Anti-inflamatórios não esteroidais e ácido acetilsalicílico estão contraindicados na suspeita de dengue, pelo risco de sangramento e de comprometimento renal durante o extravasamento plasmático. E a armadilha maior vem depois: a piora hemodinâmica costuma aparecer quando a febre cede, entre o terceiro e o sétimo dia.
  9. 9Febre há seis dias sem foco: reavaliar em 48 horas de novo Febre todos os dias por mais de cinco dias é gatilho de investigação no AIDPI, mesmo sem sinal geral de perigo. É o ponto em que a doença de Kawasaki entra no diferencial e em que o retorno programado deixa de ser conduta suficiente.
  10. 10Urocultura colhida em saco coletor fechando diagnóstico de infecção urinária O saco coletor contamina com frequência alta e serve, na prática, quando o resultado é negativo. Cultura que vai definir antibiótico em lactente febril precisa de amostra por cateterismo vesical ou punção suprapúbica.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Em lactente com febre sem sinal localizatório, a infecção do trato urinário é causa frequente e deve ser ativamente investigada com urina I e urocultura coletadas por técnica confiável (jato médio, sondagem vesical ou punção suprapúbica). Antibiótico empírico sem coleta impede o diagnóstico e a cultura. Só hemograma não afasta ITU. O saco coletor tem altíssima taxa de falso-positivo por contaminação e não serve para urocultura decisória — pode ser usado como triagem negativa, mas cultura positiva de saco coletor não deve embasar tratamento.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite as três decisões na ordem: estado geral, idade, exames. Depois escreva de memória a conduta de cada faixa — menor de 30 dias, 1 a 3 meses com Rochester, 3 a 36 meses com e sem os 39 °C — e as três doses de antitérmico por quilo.

em 30 dias

Refaça sem consultar: os cortes de leucócitos e de neutrófilos que disparam hemocultura, radiografia e ceftriaxona; os números do Rochester; a dose de ceftriaxona intramuscular; os sinais gerais de perigo do AIDPI; e o que separa febre de hipertermia à beira do leito.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Lactente de 2 meses e 10 dias, nascido a termo, chega ao pronto-socorro com febre axilar de 38,4 °C há oito horas, sem tosse, sem diarreia e sem exantema. Está ativo, mamando e corado. Conduza a avaliação, decida quais exames colher e diga se essa criança vai para casa ou fica. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Febre sem sinais localizatórios — Preparatório para provas | OsceLabs