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Cetoacidose diabética e estado hiperosmolar
Duas emergências com os mesmos três pilares — fluido, insulina e potássio — e prioridades opostas. A prova cobra o corte que separa uma da outra, as contas que se fazem antes de prescrever e o eletrólito que decide se a insulina entra.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem de 26 anos, diabético tipo 1, chega ao PS com dor abdominal, náuseas, vômitos e respiração profunda. Exame: FC 122 bpm, PA 96x60 mmHg, FR 28 ipm, desidratado, hálito cetônico. Glicemia 480 mg/dL. Gasometria: pH 7,18, HCO3 10 mEq/L. Cetonúria 3+. Qual é a primeira medida terapêutica prioritária?
Como esse tema cai
Quase nenhuma questão deste tema pergunta o diagnóstico. A vinheta entrega glicemia, gasometria e eletrólitos no segundo parágrafo e quer saber o que você faz nos próximos sessenta minutos: qual fluido e em que velocidade, se a insulina pode entrar agora, quando acrescentar glicose e quando desligar a bomba. Este é um capítulo feito de cortes e doses — e é justamente por isso que ele se decora errado com facilidade, porque cada documento tem a sua versão do mesmo número.
Antes dos números, a situação documental brasileira, que muda o que se espera de você conforme o cenário. Não existe PCDT nem protocolo do Ministério da Saúde para crises hiperglicêmicas: na lista de PCDT do gov.br e nos relatórios da Conitec, o que há é o PCDT do Diabete Melito Tipo 1 (Portaria Conjunta nº 17, de 12 de novembro de 2019), que cita a cetoacidose apenas como a complicação que a insulina previne, sem nenhuma linha de tratamento. O documento federal que descreve as duas emergências é o Caderno de Atenção Básica nº 36, de 2013, e ele fala do lugar da UBS: reconhecer, hidratar, dar uma fração da insulina diária e encaminhar. O manejo hospitalar, no Brasil, é da Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes.
E há uma pegadinha de data que vale ouro. A diretriz da SBD é apresentada como edição 2025, mas o capítulo de cetoacidose tem última revisão em 27 de março de 2023, enquanto o de estado hiperosmolar é de 13 de julho de 2025. No meio dos dois, em agosto de 2024, saiu o consenso conjunto de cinco sociedades (ADA, EASD, JBDS, AACE e Diabetes Technology Society) que mudou as definições de cetoacidose e de estado hiperosmolar. Resultado: o texto brasileiro da cetoacidose é anterior à mudança, o do estado hiperosmolar é posterior e mesmo assim manteve o corte antigo de osmolalidade. Onde os números não batem, quase sempre é isso — não é erro de ninguém, é diferença de calendário.
O eixo do capítulo são as duas emergências lado a lado. Os pilares são os mesmos três — fluido, insulina e potássio —, as contas são as mesmas e a vigilância do potássio é idêntica. O que muda é a prioridade: na cetoacidose o inimigo é a acidose, e o tempo curto; no estado hiperosmolar o inimigo é a osmolalidade, e a velocidade com que ela cai. Mais de um terço das admissões por crise hiperglicêmica tem apresentação mista, o que significa que a pergunta 'é uma ou é outra?' nem sempre tem resposta binária: conduz-se pelo componente que domina.
Fica de fora o que tem capítulo próprio nesta apostila: o tratamento crônico do diabetes tipo 2 e o esquema basal-bólus do diabetes tipo 1. Hipoglicemia grave também não é assunto daqui. O que fica é reconhecer, classificar, conduzir e saber a hora de desligar a insulina intravenosa.
O que muda decisão
Duas emergências, um motor só
As duas nascem do mesmo desequilíbrio: falta insulina e sobram hormônios contrarreguladores — glucagon, cortisol, catecolaminas e hormônio do crescimento. O que separa uma da outra é quanta insulina ainda resta.
Na cetoacidose a deficiência é absoluta, ou quase. Sem insulina não há freio para a lipólise: o tecido adiposo despeja ácidos graxos livres no fígado, que os converte em corpos cetônicos. O beta-hidroxibutirato é o principal deles, produzido em proporção de cerca de 20 para 1 em relação ao acetoacetato. Como são ácidos, consomem bicarbonato e abrem o ânion-gap. Ao mesmo tempo, a gliconeogênese e a glicogenólise sem oposição, somadas à queda da captação periférica, elevam a glicemia. É um quadro de horas a poucos dias.
No estado hiperosmolar sobra insulina residual — pouca demais para fazer a glicose entrar nas células, suficiente para travar a lipólise. Por isso não há cetogênese relevante e não há acidose. A hiperglicemia sobe sem contrapeso, a diurese osmótica arrasta água e eletrólitos por dias, e o que adoece o paciente é a desidratação e a hipertonicidade. É um quadro de dias a uma semana.
Essa diferença de relógio explica o exame físico. O paciente com estado hiperosmolar chega muito mais seco, e ainda assim pode parecer menos desidratado do que está: a hipertonicidade puxa água do intracelular e preserva, por algum tempo, o volume intravascular. Já o paciente com cetoacidose chega taquipneico, com respiração de Kussmaul — inspirações profundas para compensar a acidose — e hálito de acetona.
O estado de consciência é um dos melhores separadores. Na cetoacidose o paciente costuma estar alerta, salvo na forma grave. No estado hiperosmolar a alteração do estado mental é a regra, e a deterioração neurológica se concentra acima de 320 mOsmol/L de osmolalidade efetiva. Daí uma frase que a diretriz brasileira escreve com todas as letras e que rende questão: estupor ou coma com osmolalidade efetiva abaixo de 320 exige procurar imediatamente outra causa para o rebaixamento. Sinais focais como hemiparesia e hemianopsia, e mesmo convulsões, podem aparecer no estado hiperosmolar e regredir com a correção.
Dor abdominal é achado de cetoacidose: aparece em mais da metade dos casos. Numa série citada pela diretriz brasileira, 46% dos episódios de cetoacidose cursaram com dor abdominal contra nenhum dos episódios de estado hiperosmolar. A ressalva importa: se a dor não some com a correção da desidratação e da acidose, ela pode não ser consequência da crise, e sim a causa dela — pancreatite, apendicite, isquemia mesentérica.
Os precipitantes são praticamente os mesmos e dominados por dois: infecção — pneumonia e infecção do trato urinário à frente — e insulina que deixou de ser aplicada. Depois vêm infarto, acidente vascular encefálico, embolia pulmonar, trauma, pancreatite, álcool e cocaína, corticoide, tiazídico em dose alta, simpaticomiméticos, antipsicóticos de segunda geração, inibidores de checkpoint, transtornos alimentares, falha de bomba de infusão e, no caso da cetoacidose euglicêmica, o inibidor de SGLT2. Em até 22% dos pacientes internados por cetoacidose há reinternação em 30 dias, o que diz o quanto o precipitante social e comportamental pesa.
Mortalidade: o consenso de 2024 reporta letalidade intra-hospitalar em torno de 3% na cetoacidose, 5% no estado hiperosmolar e 8% na forma mista. A diretriz brasileira registra menos de 1% na cetoacidose em centros de excelência, podendo passar de 5% em idosos e doentes graves, e de 10 a 20% no estado hiperosmolar — de 5 a 10 vezes a da cetoacidose. Quando há edema cerebral, a mortalidade chega a 30%.

Os critérios da cetoacidose e a classificação de gravidade
O consenso de 2024 organizou o diagnóstico em três componentes, e os três precisam estar presentes. Primeiro, hiperglicemia: glicemia igual ou maior que 200 mg/dL ou história prévia de diabetes, qualquer que seja a glicemia — foi assim que a cetoacidose euglicêmica entrou no critério em vez de ficar como exceção. Segundo, cetose: beta-hidroxibutirato igual ou maior que 3,0 mmol/L, ou cetonúria de 2+ ou mais na fita. Terceiro, acidose metabólica: pH abaixo de 7,3 e/ou bicarbonato abaixo de 18 mmol/L.
A diretriz brasileira, no capítulo revisado em 2023, escreve o mesmo trio com um número diferente: glicemia acima de 200 mg/dL, acidose metabólica com pH venoso abaixo de 7,3 e/ou bicarbonato abaixo de 15 mEq/L, e cetonemia acima de 3 mmol/L. O pH é idêntico nos dois. A faixa de bicarbonato entre 15 e 18 é exatamente onde os documentos se separam, e é onde uma questão bem construída vai bater.
Cetonemia entre 1,5 e 3,0 mmol/L não fecha o diagnóstico e não o exclui: é a faixa de risco aumentado. Nela, a diretriz brasileira manda confirmar com gasometria venosa e usar o ânion-gap acima de 12 como desempate. Vale registrar a correspondência aproximada entre fita de urina e cetonemia que a diretriz publica: 1+ equivale a cerca de 0,5 mmol/L, 2+ a cerca de 0,7 mmol/L e 3+ a cerca de 3 mmol/L.
Por que beta-hidroxibutirato e não cetonúria: a fita de urina reage ao acetoacetato e à acetona pela reação do nitroprussiato, e não mede beta-hidroxibutirato, que é o cetoácido dominante. A cetonemia capilar tem sensibilidade de 98% e especificidade de 79% para cetoacidose; a cetonúria, sensibilidade de 98% e especificidade de 35%. Há falso-negativo de cetonúria com urina exposta ao ar por muito tempo, urina muito ácida e uso de grandes doses de vitamina C, e falso-positivo com captopril, N-acetilcisteína e valproato. O corte de 3,0 mmol/L tem mais de 90% de sensibilidade e especificidade e correlaciona-se bem com bicarbonato abaixo de 18 mEq/L.
Gasometria venosa basta. O consenso de 2024 eliminou explicitamente a necessidade de sangue arterial para avaliar o estado ácido-básico nessas duas emergências — a punção arterial dói, sangra e não acrescenta decisão.
O ânion-gap, calculado como sódio menos a soma de cloro e bicarbonato, é normal entre 4 e 12. Acima de 12 indica acidose metabólica de ânion-gap alto, compatível com cetoacidose. O consenso de 2024 o rebaixou: não é critério diagnóstico de primeira linha nem critério de resolução, porque cerca de um terço dos pacientes tem distúrbio ácido-básico misto na chegada e porque a infusão de grandes volumes de salina produz acidose hiperclorêmica de ânion-gap normal na recuperação. Onde não há dosagem de cetona disponível, ele continua útil — e no Brasil isso não é hipótese remota.
A gravidade, na diretriz brasileira, é classificada só pelo pH venoso: leve entre 7,20 e 7,30, moderada entre 7,10 e 7,20, grave abaixo de 7,10. O consenso de 2024 usa quatro variáveis e amarra cada faixa a um lugar de internação: leve é pH acima de 7,25 e abaixo de 7,30, bicarbonato de 15 a 18, beta-hidroxibutirato de 3 a 6 e paciente alerta, tratável em enfermaria ou observação; moderada é pH de 7,0 a 7,25, bicarbonato de 10 a menos de 15, beta-hidroxibutirato de 3 a 6, alerta ou sonolento, em unidade intermediária; grave é pH abaixo de 7,0, bicarbonato abaixo de 10, beta-hidroxibutirato acima de 6, estupor ou coma, em UTI. O próprio documento avisa que nem todas as variáveis precisam estar preenchidas para classificar.
Repare que 'grave' não quer dizer a mesma coisa nos dois textos: entre pH 7,0 e 7,10 o paciente é grave para a diretriz brasileira e moderado para o consenso internacional. Além do pH, a diretriz brasileira lista outros marcadores de gravidade que mudam o lugar do paciente mesmo com pH mais alto: cetonemia acima de 6 mmol/L, bicarbonato abaixo de 5 mmol/L, potássio abaixo de 3,5 mmol/L na admissão, Glasgow abaixo de 12, saturação abaixo de 92% em ar ambiente com função respiratória prévia normal, pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, frequência cardíaca acima de 100 ou abaixo de 60 e ânion-gap acima de 16.
Um detalhe que confunde: leucocitose é regra na crise hiperglicêmica e é proporcional ao grau de cetonemia, por hipercortisolemia e descarga de catecolaminas. Ela não prova infecção. O que levanta suspeita de infecção é leucometria acima de 25.000/µL ou desvio à esquerda acima de 10%.
Cetoacidose euglicêmica: quando o número que você espera não aparece
Cerca de 10% dos pacientes com cetoacidose chegam com glicemia abaixo de 200 mg/dL. É a cetoacidose euglicêmica, e ela mata pelo atraso: o médico olha a glicemia, descarta a hipótese e vai procurar outra causa para a acidose.
A diretriz brasileira a define por glicemia abaixo de 200 mg/dL, pH abaixo de 7,3, bicarbonato abaixo de 18 mEq/L, ânion-gap acima de 10 a 12 mEq/L e cetonemia elevada, usando 1,6 mmol/L como o valor que obriga a colher gasometria em paciente sintomático. Note que aqui o próprio corpo brasileiro trabalha com bicarbonato abaixo de 18 — o mesmo número do consenso de 2024, e diferente do capítulo brasileiro da cetoacidose clássica.
Quem entra nessa lista: usuários de inibidor de SGLT2, que hoje respondem pela maioria dos casos; gestantes, com ou sem diabetes, sobretudo no fim da gravidez; jejum prolongado ou restrição intensa de carboidrato; abuso de álcool e doença hepática crônica; glicogenoses; pancreatite; sepse; cocaína; gastroparesia; doença renal crônica terminal. O mecanismo comum é produção hepática de glicose reduzida somada a perda urinária de glicose — a cetogênese acontece, a glicemia não sobe.
O inibidor de SGLT2 acrescenta uma armadilha laboratorial: além de aumentar a excreção urinária de glicose e a produção de corpos cetônicos, ele aumenta a reabsorção tubular de acetoacetato, o que pode reduzir a cetonúria justamente em quem tem mais risco. Em quem usa a droga, a fita de urina é o pior exame possível; a cetonemia capilar é obrigatória.
Em números absolutos o evento é raro. Num estudo canadense e britânico com mais de 350 mil pacientes, a incidência foi de 2,03 por 1.000 pacientes-ano com inibidor de SGLT2 contra 0,75 com inibidor de DPP-4, risco relativo 2,85 (IC 95% 1,99 a 4,08). Uma metanálise de 72 ensaios randomizados em diabetes tipo 2 não encontrou aumento de risco como classe. O risco concentra-se em quem tem fator precipitante — cirurgia, doença aguda, jejum, vômitos, álcool, redução da insulina basal — e em quem foi rotulado como tipo 2 sem ser.
O tratamento é o da cetoacidose com duas diferenças que a prova cobra. Primeira: suspender o inibidor de SGLT2 na admissão e não reiniciá-lo durante a internação. Segunda: a solução com glicose entra desde o início, junto com a salina, e não quando a glicemia cair — porque a insulina precisa correr para fechar a cetogênese e a glicemia já está baixa. A diretriz brasileira prescreve NaCl 0,45% com soro glicosado 5% a 150-250 mL/h; o consenso de 2024 prescreve glicose a 5% ou 10% junto do NaCl 0,9% no momento em que a insulina começa.
Prevenção com nome e prazo: suspender o inibidor de SGLT2 de 3 a 4 dias antes de cirurgia de grande porte, procedimento invasivo programado ou exercício muito intenso, como maratona. A meia-vida da droga é de cerca de 13 horas, mas a glicosúria persiste por vários dias depois da última dose. Reintrodução só depois de liberada a ingestão oral e resolvidos os fatores de risco. No Brasil, o inibidor de SGLT2 não é aprovado para diabetes tipo 1.
Estado hiperosmolar: quatro critérios e uma ausência
O consenso de 2024 exige quatro componentes, todos presentes: glicemia igual ou maior que 600 mg/dL; osmolalidade sérica efetiva calculada acima de 300 mOsm/kg — ou osmolalidade total acima de 320 mOsm/kg; ausência de cetonemia significativa, com beta-hidroxibutirato abaixo de 3,0 mmol/L ou cetonúria menor que 2+; e ausência de acidose, com pH igual ou maior que 7,3 e bicarbonato igual ou maior que 15 mmol/L.
A diretriz brasileira de 2025 escreve os mesmos quatro com um corte de osmolalidade bem mais alto: hiperglicemia marcante acima de 600 mg/dL, osmolalidade plasmática efetiva acima de 320 mOsmol/L, ausência de hipercetonemia significativa e ausência de acidose com pH acima de 7,30 e bicarbonato acima de 15 mmol/L. Vinte mOsm separam os dois documentos, e o paciente que cai nessa faixa tem estado hiperosmolar por um critério e não tem pelo outro.
A alteração do estado mental não é critério formal em nenhum dos dois, mas é o que traz o paciente ao pronto-socorro e é o que a vinheta descreve. Ela se correlaciona com a osmolalidade efetiva, não com a glicemia isolada — e é por isso que a conta importa mais que o número bruto de glicose.
O potássio sérico chega normal ou elevado em cerca de um terço dos pacientes, apesar de depleção corporal importante: a hipertonicidade e a falta de insulina jogam potássio para fora da célula. O fósforo sérico costuma estar normal ou até alto apesar de balanço negativo. Nenhum dos dois reflete o estoque real.
O déficit de água é maior que na cetoacidose: 100 a 220 mL/kg contra cerca de 100 mL/kg. Um paciente de 70 kg pode dever 7 a 15 litros. Isso explica por que a reposição volêmica, sozinha, já derruba a glicemia — de 35 a 70 mg/dL por hora sem uma gota de insulina.
A pressa aqui é inimiga. O tempo esperado para corrigir a hiperglicemia no estado hiperosmolar é de 8 a 10 horas, e a queda não deve passar de 90 a 120 mg/dL por hora. A osmolalidade deve cair entre 3 e 8 mOsm/kg por hora, e o sódio não deve variar mais que 10 mmol/L em 24 horas. Correção rápida demais é a receita de edema cerebral e de síndrome de desmielinização osmótica. A normalização completa de eletrólitos e osmolalidade pode levar até 72 horas, e tudo bem.
As três contas que se fazem antes de prescrever
Nenhuma decisão de fluido se toma com o sódio que veio no laudo, e nenhuma classificação de estado hiperosmolar se faz com a glicemia isolada. São três contas, todas de cabeça.
Ânion-gap = sódio aferido − (cloro + bicarbonato). Normal de 4 a 12. Acima de 12, acidose metabólica de ânion-gap alto.
Osmolalidade plasmática total = 2 × sódio aferido + glicemia (mg/dL) ÷ 18 + ureia (mg/dL) ÷ 6. O divisor da ureia é 6 porque o laboratório brasileiro dosa ureia; a fórmula internacional traz 2,8 porque lá se dosa o nitrogênio ureico, e a ureia equivale a cerca de 2,14 vezes o nitrogênio ureico — aplicar o 2,8 a um valor de ureia infla a osmolalidade estimada. Osmolalidade plasmática efetiva = 2 × sódio aferido + glicemia ÷ 18 — a ureia sai da conta. A razão é fisiológica e cai em prova: a ureia atravessa livremente a membrana celular, distribui-se dos dois lados e não gera gradiente osmótico, portanto não desidrata a célula. É por isso que o critério do estado hiperosmolar usa a efetiva, e é por isso que um paciente urêmico pode ter osmolalidade total altíssima sem hipertonicidade real.
Sódio corrigido = sódio aferido + 1,6 × [(glicemia em mg/dL − 100) ÷ 100]. Com glicemia acima de 400 mg/dL, o fator passa a 2,4, porque o de 1,6 subestima cada vez mais a natremia real conforme a hiperglicemia se agrava. A hiperglicemia puxa água do intracelular para o extracelular e dilui o sódio: a hiponatremia do laudo costuma ser aparência.
Um exemplo para fixar. Paciente com sódio 128 mEq/L, cloro 96, bicarbonato 6, glicemia 620 mg/dL e ureia 56 mg/dL. Ânion-gap = 128 − (96 + 6) = 26, alto. Osmolalidade efetiva = 2 × 128 + 620 ÷ 18 = 256 + 34,4 = 290,4 mOsm/L. Osmolalidade total = 290,4 + 56 ÷ 6 = 290,4 + 9,3 = 299,7 mOsm/L. Sódio corrigido, com glicemia acima de 400, = 128 + 2,4 × 5,2 = 140,5 mEq/L.
Leia o que as três contas dizem juntas. O ânion-gap alto sustenta cetoacidose. A osmolalidade efetiva de 290 está abaixo do corte de estado hiperosmolar pelos dois documentos — logo, apesar da glicemia de 620, isto não é estado hiperosmolar. E o sódio de 128 do laudo, que assustaria, na verdade é 140 depois de corrigido: não há hiponatremia verdadeira e não há indicação nenhuma de solução hipotônica.
Durante o tratamento, o sódio aferido sobe — cada 100 mg/dL de queda da glicemia eleva o sódio em cerca de 1,6 mmol/L. Essa subida é esperada e, isoladamente, não indica trocar para solução hipotônica.
Hidratação: o primeiro litro é o que muda o desfecho
A reposição volêmica vem antes de tudo. Ela restaura o volume circulante, melhora a perfusão tecidual e renal — o que aumenta a excreção urinária de glicose e de cetoácidos —, reduz os hormônios contrarreguladores e, com isso, melhora a sensibilidade à insulina. Sozinha, derruba a glicemia de 35 a 70 mg/dL por hora.
O déficit estimado é de cerca de 100 mL/kg na cetoacidose e de 100 a 220 mL/kg no estado hiperosmolar. A diretriz brasileira prescreve, na ausência de comprometimento cardíaco ou renal, solução salina isotônica de NaCl 0,9% a 15 a 20 mL/kg na primeira hora — o que dá 1,0 a 1,4 litro num adulto de 70 kg. O consenso de 2024 prescreve salina isotônica ou cristaloide balanceado a 500 a 1.000 mL/h nas primeiras 2 a 4 horas, repondo metade do déficit estimado em 8 a 12 horas e o restante em 24 a 48 horas. São redações diferentes do mesmo objetivo, mas os números que aparecem nas alternativas denunciam o documento.
A escolha do fluido seguinte depende do sódio corrigido, não do aferido. Com sódio corrigido igual ou acima de 150 mEq/L, troca-se para NaCl 0,45% a 250-500 mL/h. Abaixo disso, mantém-se NaCl 0,9% a 250-500 mL/h. Um estudo clássico revisado pela diretriz mostrou que usar solução isotônica em vez de hipotônica no paciente com sódio acima de 150 associou-se a maior mortalidade — é a justificativa do desvio.
A solução com glicose entra por critério de glicemia, não de tempo. Na cetoacidose, quando a glicemia chega a 200-250 mg/dL, acrescenta-se soro glicosado a 5% (ou 5 a 10%, no consenso de 2024) mantido junto da salina. No estado hiperosmolar, quando a glicemia chega a 250-300 mg/dL, troca-se para solução glicofisiológica ou NaCl 0,45% com soro glicosado 5%, mantendo 150 a 250 mL/h. O objetivo não é normalizar a glicemia: é segurá-la em 150-200 mg/dL na cetoacidose e em 200-300 mg/dL no estado hiperosmolar, para que a insulina possa continuar correndo sem hipoglicemia.
Reidratar depressa não é virtude universal. Em idosos, cardiopatas, gestantes e pacientes com doença renal crônica em diálise, o consenso de 2024 recomenda bolus menores, da ordem de 250 mL, com reavaliação hemodinâmica frequente: nesses pacientes o protocolo padrão associa-se a sobrecarga volêmica, necessidade de ventilação mecânica e internação mais longa. No estado hiperosmolar do idoso, a reidratação insuficiente também cobra o seu preço, na forma de lesão renal aguda que não reverte. É julgamento à beira do leito, e a diretriz diz isso.
Um estudo randomizado comparou 1.000 mL/h com 500 mL/h de salina na cetoacidose e não encontrou diferença na velocidade de resolução dos distúrbios eletrolíticos. Na população pediátrica, o ensaio de Kuppermann mostrou que nem a velocidade de infusão nem o teor de cloreto de sódio do fluido influenciaram significativamente o desfecho neurológico — o que enterrou a ideia de que hidratar rápido causaria edema cerebral em criança.
Insulina: a infusão, o alvo de queda e o momento do soro glicosado
A insulina de escolha é a regular, por via intravenosa, em infusão contínua. Análogo de ação rápida é igualmente eficaz, e a preferência pela regular é de custo e de experiência. A diluição habitual é 100 unidades em 100 mL de soro fisiológico, ou seja, 1 U/mL.
A dose é 0,1 U/kg/h na cetoacidose e 0,05 U/kg/h no estado hiperosmolar sem cetose relevante. Se o estado hiperosmolar vier com beta-hidroxibutirato igual ou acima de 3,0 mmol/L, cetonúria de 2+ ou mais, pH abaixo de 7,30 ou bicarbonato abaixo de 18 — ou seja, forma mista —, a infusão começa em 0,1 U/kg/h.
Não se faz bolus de rotina. A diretriz brasileira registra isso como recomendação classe IIa nível B no capítulo de cetoacidose: iniciar a infusão contínua sem bolus intravenoso inicial. O consenso de 2024 admite um bolus de 0,1 U/kg apenas quando houver atraso previsto na obtenção do acesso ou na montagem da infusão. Kitabchi comparou bolus de 0,07 U/kg seguido de 0,07 U/kg/h contra infusão direta de 0,07 ou 0,14 U/kg/h e não achou diferença no tempo até a resolução.
Duas travas antes de ligar a bomba: potássio dosado e acima do corte, e reposição volêmica em curso. Insulina em paciente hipocalêmico é erro com desfecho imediato.
O alvo é uma queda de 50 a 70 mg/dL por hora — o consenso de 2009 escrevia 50 a 75. Doses maiores não derrubam a glicemia mais depressa, porque os receptores já estão saturados nessa faixa. Se a glicemia não cair pelo menos 50 mg/dL na primeira hora, a sequência é: conferir o acesso venoso, lembrar que a insulina adsorve no equipo (despreza-se 10% do volume inicial e troca-se o conjunto a cada 6 horas) e, só depois de excluídas essas causas, dobrar a taxa de infusão a cada hora até obter a queda.
Quando a glicemia chega a 200-250 mg/dL, dois movimentos simultâneos: reduzir a insulina para 0,05 U/kg/h — a diretriz brasileira aceita 0,02 a 0,05 — e acrescentar soro glicosado. Não se desliga a insulina porque a glicemia normalizou: a hiperglicemia se corrige em cerca de 6 horas e a cetoacidose em cerca de 12, e é a insulina que fecha a cetogênese. Desligar antes é reabrir a cetose.
Em paciente com má perfusão periférica, a glicemia capilar não serve — usa-se sangue venoso ou arterial.
Além da glicemia, dois parâmetros de acompanhamento quando disponíveis: a cetonemia deve cair cerca de 0,5 mmol/L por hora e o bicarbonato deve subir cerca de 3 mEq/L por hora.
Cetoacidose leve e não complicada pode ser tratada com análogo de ação rápida por via subcutânea a cada 1 a 2 horas, em pronto-socorro ou unidade de internação, desde que haja equipe para medir glicemia de hora em hora. Uma revisão Cochrane de 2016 não encontrou vantagem nem desvantagem da via subcutânea sobre a intravenosa na cetoacidose leve a moderada. Isso não vale para cetoacidose grave, instabilidade hemodinâmica nem para o estado hiperosmolar.
Uma insulina que não serve neste cenário: a degludeca. Meia-vida de 25 horas e duração de efeito de 42 horas fazem com que leve de três a quatro dias até o equilíbrio — tempo que a transição não tem.
Potássio: o eletrólito que decide se a insulina entra
Este é o ponto que mais mata em prova e no plantão, e o motivo é uma inversão entre o que o laudo mostra e o que o corpo tem.
O paciente chegou com depleção corporal de potássio de 3 a 6 mmol/kg, produzida por diurese osmótica, vômitos e hiperaldosteronismo. Mas o potássio sérico está normal ou alto, porque a acidose e a falta de insulina empurram potássio de dentro para fora da célula. Num estudo prospectivo, 82% dos pacientes com cetoacidose estavam normocalêmicos ou hipercalêmicos na chegada — e 63% desenvolveram hipocalemia durante o tratamento.
A insulina inverte esse fluxo em minutos. Junto com a correção da acidose, a expansão volêmica e o aumento da caliurese, ela derruba o potássio sérico em 1 a 2 mmol/L nas primeiras 48 horas. É por isso que a dosagem de potássio precede a insulina, sempre.
Abaixo de 3,3 mEq/L a insulina não entra. Repõe-se potássio e hidrata-se, e só se liga a bomba quando o valor ultrapassar 3,3 — sob pena de arritmia, fraqueza da musculatura respiratória e parada cardíaca. De 5 a 10% dos pacientes com cetoacidose chegam nessa situação. O consenso de 2024 subiu esse corte para 3,5 mmol/L; a lógica é a mesma, o número andou uma casa.
Entre 3,3 e 5,2 mEq/L, com diurese presente, a insulina entra e o potássio entra junto: 10 a 20 mEq de KCl por litro de soro, com a meta de manter o potássio entre 4 e 5 mEq/L. Acima de 5,2 mEq/L não se repõe nada — apenas se recontrola a cada 2 horas e se começa a repor quando cair abaixo do corte.
Sem diurese não há reposição segura: o débito urinário adequado, da ordem de 0,5 mL/kg/h, é pré-requisito.
O preço do erro tem número. Hipocalemia abaixo de 3,5 mmol/L ocorre em 55% dos pacientes tratados por cetoacidose e em 51% dos tratados por estado hiperosmolar. Hipocalemia grave, igual ou abaixo de 2,5 mmol/L, ocorre em 16% e 9% respectivamente, e associa-se a mortalidade intra-hospitalar quase cinco vezes maior (OR ajustado 4,9; IC 95% 1,3 a 18,8).
Frequência de controle: a cada 1 hora enquanto o potássio estiver abaixo de 3,3 mEq/L; a cada 2 horas nas demais faixas segundo a diretriz brasileira; o consenso de 2024 pede uma dosagem 2 horas após o início da insulina e depois a cada 4 horas até a resolução. O potássio dosado na gasometria é mais rápido e mais fácil, e não substitui o plasmático.

Bicarbonato, fosfato e as reposições que quase nunca se fazem
Bicarbonato de sódio não é tratamento de rotina da cetoacidose. Fluido e insulina resolvem a acidose: à medida que os cetoácidos são metabolizados, o bicarbonato se regenera sozinho.
A evidência é consistente. Num ensaio com 39 pacientes com pH entre 6,83 e 7,08, randomizados para receber ou não bicarbonato (dose média de 120 ± 40 mmol), não houve diferença em parâmetro clínico algum nem no tempo de normalização bioquímica. Num randomizado com 21 adultos, não houve vantagem na velocidade de queda da glicemia ou da cetonemia, nem na subida do pH ou do bicarbonato no sangue e no líquor. Em outro, com 32 pacientes, o bicarbonato atrasou a queda dos corpos cetônicos totais, do lactato e da relação lactato/piruvato. Nunca houve ensaio prospectivo abaixo de pH 6,9.
Os riscos são reais: hipocalemia, acidose liquórica paradoxal, edema cerebral, redução da captação tecidual de oxigênio, alcalose de rebote e atraso na resolução da cetose.
O corte de pH em que os documentos admitem repor, e a dose, estão no bloco de divergências — é uma das três discordâncias numéricas deste tema.
Fosfato também não se repõe de rotina. Hipofosfatemia leve é comum durante o tratamento e assintomática; ensaios randomizados não mostraram benefício da reposição sobre oxigenação tecidual, duração da cetoacidose, dose de insulina necessária ou mortalidade, e a reposição rápida provoca hipocalcemia. Repõe-se apenas na depleção extrema com repercussão — fraqueza muscular, comprometimento respiratório ou cardíaco, anemia hemolítica —, com 20 a 30 mEq de fosfato de potássio ou glicerofosfato por litro de fluido, monitorando o cálcio.
Uma reposição que quase sempre se faz e costuma ser esquecida na prescrição: profilaxia de tromboembolismo com heparina de baixo peso molecular em dose profilática. Cetoacidose e, sobretudo, estado hiperosmolar são estados pró-trombóticos.
Resolução e a transição para a insulina subcutânea
A diretriz brasileira considera a cetoacidose resolvida com glicemia abaixo de 200 mg/dL, pH acima de 7,30 e bicarbonato acima de 18 mEq/L, ânion-gap abaixo de 12 mEq/L e resolução da cetonemia — somados ao controle do fator precipitante. O consenso de 2024 simplificou: cetona plasmática abaixo de 0,6 mmol/L e pH venoso igual ou acima de 7,3 ou bicarbonato igual ou acima de 18 mmol/L, idealmente com glicemia abaixo de 200 mg/dL, e retirou expressamente o ânion-gap dos critérios. O consenso de 2009 usava glicemia abaixo de 200 mais dois de três: bicarbonato igual ou acima de 15, pH venoso acima de 7,3 e ânion-gap igual ou abaixo de 12.
Cetonúria não é critério de resolução, e isso é regra explícita nos dois lados. Com o início da insulina, parte do beta-hidroxibutirato se converte em acetoacetato — que é justamente o que a fita mede. O resultado é uma falsa impressão de cetose persistente por horas ou dias num paciente já compensado.
O outro falso persistente é a acidose hiperclorêmica de ânion-gap normal, que aparece na fase de recuperação por perda de cetoânions e por infusão de grandes volumes de fluido rico em cloreto. É autolimitada e sem consequência clínica — mas, se lida como cetoacidose que não resolveu, prolonga a infusão de insulina sem necessidade. O sinal que diferencia é o ânion-gap: fechado, com cloro alto e bicarbonato baixo, é hipercloremia; aberto, é cetose.
No estado hiperosmolar a resolução é clínica e osmótica: paciente alerta, com estado mental normalizado e aceitando alimentação, osmolalidade plasmática efetiva abaixo de 315 mOsmol/L pela diretriz brasileira — abaixo de 300 mOsm/kg pelo consenso de 2024 —, diurese acima de 0,5 mL/kg/h, glicemia abaixo de 250 mg/dL e correção dos distúrbios hidroeletrolíticos, sem acidose.
A transição tem um intervalo que não se negocia: prescreve-se o esquema basal-bólus subcutâneo e mantém-se a infusão intravenosa por 1 a 2 horas depois da primeira dose subcutânea. A recomendação formal da diretriz brasileira pede ao menos 2 horas; a nota do mesmo capítulo aceita cerca de 1 hora, ou 2 horas se a insulina subcutânea for a regular. Desligar a bomba na mesma hora em que se aplica a subcutânea produz um vazio de insulina e recidiva de hiperglicemia ou de cetose.
A dose: quem já usava insulina volta à dose prévia, dividida proporcionalmente em 50% basal e 50% bólus. Na primo-descompensação, calcula-se por peso — 0,4 a 0,8 U/kg/dia pela diretriz brasileira, 0,5 a 0,6 U/kg/dia pelo consenso de 2024, e cerca de 0,3 U/kg/dia em quem tem risco de hipoglicemia, como idoso frágil ou doente renal crônico —, administrando 60 a 80% desse total. Alternativa: multiplicar por 24 a média da taxa de infusão intravenosa das últimas 4 a 6 horas de bom controle, preferindo as horas em que o paciente já estava reidratado e sem acidose. Do total, 40 a 60% vai como basal e o restante se divide nas refeições.
Duas regras de alta que a prova cobra em vinheta de caso: o inibidor de SGLT2 não é iniciado nem mantido durante a internação; e a mudança de esquema, quando o episódio revela terapia insuficiente ou droga precipitante, se faz na alta e não se adia para o ambulatório. Alta com insulina em quantidade suficiente, material de aplicação e monitorização, orientação de dias de doença e retorno em 2 a 4 semanas — até 22% dos pacientes internados por cetoacidose reinternam em 30 dias, e cerca de 40% dessas reinternações são novo episódio de cetoacidose.
As complicações que importam são do tratamento
Hipoglicemia é a mais comum. Nos estudos de tratamento de cetoacidose, glicemia abaixo de 70 mg/dL ocorreu em 16 a 28% dos pacientes, e abaixo de 40 mg/dL em 2%. Hipoglicemia grave durante o tratamento associou-se a mortalidade cerca de cinco vezes maior. Prevenção: glicemia capilar a cada 1 a 2 horas, redução da insulina para 0,05 U/kg/h e entrada do soro glicosado quando a glicemia chega a 250 mg/dL.
Hipocalemia vem em seguida, com os números já vistos: mais da metade dos pacientes, e mortalidade quase cinco vezes maior na forma grave. Prevenção: potássio antes da insulina, reposição junto do fluido e controle seriado.
Acidose metabólica hiperclorêmica de ânion-gap normal é esperada na recuperação, autolimitada, e menos frequente com solução balanceada e com infusão mais lenta de salina. Não se trata — reconhece-se, para não prolongar a insulina.
Edema cerebral é raro no adulto: estimado em menos de 0,1% dos episódios, com mortalidade de 30% quando ocorre. Concentra-se em jovens e em correções rápidas de osmolalidade. Instala-se tipicamente nas primeiras 12 horas de tratamento, podendo aparecer antes dele ou, raramente, até 24 a 48 horas depois. Os sinais são cefaleia que começa ou piora após o início do tratamento, alteração do estado neurológico com irritabilidade, confusão ou incapacidade de despertar, incontinência, paralisia de nervo craniano, papiledema e queda de saturação; a tríade de Cushing — hipertensão, bradicardia e depressão respiratória — é sinal tardio de hipertensão intracraniana. O que evita: corrigir osmolalidade e glicemia devagar, não deixar a glicemia cair abaixo de 200 mg/dL cedo demais e não usar bicarbonato sem indicação. Na suspeita, a diretriz brasileira sugere manitol 0,25 a 0,5 g/kg; o consenso de 2024 acrescenta suporte ventilatório e limiar baixo para neuroimagem.
Síndrome de desmielinização osmótica, antiga mielinólise pontina central, é o espelho: acontece na correção rápida demais da hiponatremia e é risco específico do estado hiperosmolar, onde o paciente hipertônico pode estar relativamente hiponatrêmico. A prevenção é corrigir com salina 0,9% e manter a queda de osmolalidade entre 3 e 8 mOsm/kg por hora.
Tromboembolismo, sobretudo no estado hiperosmolar, justifica a profilaxia com heparina de baixo peso molecular já citada.
Fecha o raciocínio uma obviedade que a pressa apaga: nada disso resolve enquanto o precipitante não for encontrado e tratado. Infecção, infarto, acidente vascular encefálico, pancreatite, medicação nova, insulina que acabou. A crise hiperglicêmica é quase sempre a manifestação de outra coisa.
Classificar a gravidade e separar cetoacidose de estado hiperosmolar
Os dois diagnósticos saem do mesmo painel de exames, colhido de uma vez: glicemia, gasometria venosa, eletrólitos com cloro, ureia, creatinina e cetonemia capilar. O que separa um do outro não é a glicemia — é a presença de cetose e de acidose de um lado, e a osmolalidade efetiva do outro. A gravidade da cetoacidose, essa sim, é escala ordinal: define onde o paciente vai ficar internado e quão apertada é a margem de erro.
- 1Colha tudo de uma vez: glicemia, gasometria venosa, sódio, potássio, cloro, bicarbonato, ureia, creatinina, cetonemia capilar, hemograma e urina. Peça um eletrocardiograma — hipercalemia e isquemia aparecem nele antes do laboratório voltar.
- 2Faça as três contas antes de prescrever: ânion-gap, osmolalidade plasmática efetiva e sódio corrigido para a hiperglicemia.
- 3Separe: cetose com acidose é cetoacidose, mesmo com glicemia abaixo de 200 mg/dL; glicemia acima de 600 mg/dL com osmolalidade efetiva alta, sem cetose e sem acidose, é estado hiperosmolar; os dois juntos são forma mista, e conduz-se pelo componente que domina.
- 4Classifique a gravidade pelo pH venoso e defina o lugar do paciente — enfermaria, unidade intermediária ou UTI.
- 5Abra soro: cristaloide 15 a 20 mL/kg na primeira hora, na ausência de comprometimento cardíaco ou renal. Em idoso, cardiopata ou renal crônico, bolus de 250 mL com reavaliação.
- 6Leia o potássio ANTES da insulina. Abaixo de 3,3 mEq/L, reponha e adie a insulina até ultrapassar o corte.
- 7Insulina regular em infusão contínua, sem bolus: 0,1 U/kg/h na cetoacidose, 0,05 U/kg/h no estado hiperosmolar sem cetose. Alvo de queda: 50 a 70 mg/dL por hora.
- 8Reveja o fluido pelo sódio corrigido: igual ou acima de 150 mEq/L, troque para NaCl 0,45% a 250-500 mL/h; abaixo disso, mantenha o isotônico na mesma faixa de velocidade.
- 9Glicemia em 200-250 mg/dL na cetoacidose (250-300 no estado hiperosmolar): reduza a insulina para 0,05 U/kg/h e acrescente soro glicosado. A insulina continua até a cetose fechar.
- 10Procure e trate o precipitante — infecção, infarto, acidente vascular encefálico, pancreatite, medicação, insulina que acabou.
- 11Resolvido: prescreva basal-bólus subcutâneo e só desligue a infusão 1 a 2 horas depois da primeira dose subcutânea.
Cetoacidose leve — pH venoso entre 7,20 e 7,30
Classificação da diretriz brasileira, que usa apenas o pH. No consenso de 2024 esta faixa corresponde a pH acima de 7,25 e abaixo de 7,30, bicarbonato de 15 a 18 mmol/L, beta-hidroxibutirato de 3 a 6 mmol/L e paciente alerta — tratável em enfermaria ou unidade de observação, inclusive com análogo de ação rápida por via subcutânea a cada 1 a 2 horas, desde que haja glicemia capilar horária.
Cetoacidose moderada — pH venoso entre 7,10 e 7,20
No consenso de 2024, a faixa moderada é mais larga: pH de 7,0 a 7,25, bicarbonato de 10 a menos de 15 mmol/L, beta-hidroxibutirato de 3 a 6 mmol/L, paciente alerta ou sonolento, em unidade intermediária ou de cuidados semi-intensivos. Insulina intravenosa em infusão contínua é a regra aqui.
Cetoacidose grave — pH venoso abaixo de 7,10
O consenso de 2024 marca a forma grave mais embaixo: pH abaixo de 7,0, bicarbonato abaixo de 10 mmol/L, beta-hidroxibutirato acima de 6 mmol/L, estupor ou coma, em UTI. Entre 7,0 e 7,10 o mesmo paciente é grave por um documento e moderado pelo outro. A diretriz brasileira acrescenta indicadores de gravidade independentes do pH: cetonemia acima de 6 mmol/L, bicarbonato abaixo de 5 mmol/L, potássio de admissão abaixo de 3,5 mmol/L, Glasgow abaixo de 12, saturação abaixo de 92% em ar ambiente, pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, frequência cardíaca acima de 100 ou abaixo de 60 e ânion-gap acima de 16.
| Parâmetro | Cetoacidose diabética | Estado hiperosmolar hiperglicêmico |
|---|---|---|
| Perfil típico | Mais comum no diabetes tipo 1; ocorre também no tipo 2 | Quase sempre diabetes tipo 2, idoso, com sede ou acesso à água prejudicados |
| Instalação | Horas a poucos dias | Dias a uma semana |
| Glicemia | Igual ou acima de 200 mg/dL — ou qualquer valor em quem já tem diabetes (consenso 2024). Cerca de 10% chegam abaixo de 200: é a forma euglicêmica | Igual ou acima de 600 mg/dL |
| Cetonas | Beta-hidroxibutirato igual ou acima de 3,0 mmol/L, ou cetonúria de 2+ ou mais | Beta-hidroxibutirato abaixo de 3,0 mmol/L, ou cetonúria menor que 2+ |
| pH e bicarbonato | pH abaixo de 7,3 e/ou bicarbonato abaixo de 15 mEq/L (SBD, 2023) — abaixo de 18 mmol/L no consenso de 2024 | pH igual ou acima de 7,3 e bicarbonato igual ou acima de 15 mmol/L |
| Osmolalidade efetiva | Em geral normal ou pouco elevada | Acima de 320 mOsmol/L (SBD, 2025) — acima de 300 mOsm/kg no consenso de 2024 |
| Ânion-gap | Alto, acima de 12 mEq/L | Normal, salvo componente misto |
| Estado mental | Alerta, exceto na forma grave | Alteração é a regra; a deterioração se concentra acima de 320 mOsmol/L |
| Dor abdominal | Em mais da metade dos casos | Incomum — quando presente, procure outra causa |
| Déficit de água | Cerca de 100 mL/kg | De 100 a 220 mL/kg |
| Insulina intravenosa | 0,1 U/kg/h | 0,05 U/kg/h — sobe para 0,1 U/kg/h se houver cetose e acidose associadas |
| Quando entra o soro glicosado | Glicemia em 200-250 mg/dL, mantendo depois 150-200 mg/dL | Glicemia em 250-300 mg/dL, mantendo depois 200-300 mg/dL |
| Velocidade segura de correção | Queda de 50 a 70 mg/dL por hora | Queda não superior a 90-120 mg/dL por hora; osmolalidade caindo 3 a 8 mOsm/kg/h; sódio no máximo 10 mmol/L em 24 h |
| Critérios de resolução | Glicemia abaixo de 200 mg/dL, pH acima de 7,30 e bicarbonato acima de 18 mEq/L, ânion-gap abaixo de 12, cetonemia resolvida (abaixo de 0,6 mmol/L) | Alerta e se alimentando, osmolalidade efetiva abaixo de 315 mOsmol/L (SBD) ou de 300 (consenso 2024), diurese acima de 0,5 mL/kg/h, glicemia abaixo de 250 mg/dL |
| Mortalidade hospitalar | Cerca de 3% (consenso 2024); abaixo de 1% em centros de excelência e acima de 5% em idosos e doentes graves (SBD) | Cerca de 5% (consenso 2024); 10 a 20% pela SBD — de 5 a 10 vezes a da cetoacidose |
Reposição de potássio por faixa (vale para as duas emergências)
| Potássio sérico | Insulina | Reposição de cloreto de potássio | Recontrole |
|---|---|---|---|
| Abaixo de 3,3 mEq/L | NÃO iniciar. Adiar até ultrapassar 3,3 mEq/L | 10 a 30 mEq de KCl 19,1% por litro de soro fisiológico, correndo em 1 hora, até passar de 3,3 | A cada 1 hora |
| De 3,3 a 5,2 mEq/L | Iniciar | 10 a 20 mEq de KCl 19,1% por litro de soro, para manter o potássio entre 4 e 5 mEq/L | A cada 2 horas |
| Acima de 5,2 mEq/L | Iniciar | Nenhuma. Começa a repor quando cair abaixo de 5,2 mEq/L, com diurese presente | A cada 2 horas |
Reposição de potássio pressupõe diurese. Sem débito urinário adequado, da ordem de 0,5 mL/kg/h, reavalie a função renal antes de repor.
O corte que trava a insulina é 3,3 mEq/L nos dois capítulos brasileiros e no consenso da ADA de 2009. O consenso de 2024 subiu para 3,5 mmol/L e baixou o corte de reposição de 5,2 para 5,0 mmol/L, com 10 a 20 mmol/L/h até ultrapassar o limite inferior. A lógica é idêntica; o número andou uma casa.
Potássio dosado na gasometria venosa é mais rápido, mas não substitui a dosagem plasmática para decidir a insulina.
Ânion-gap normal é de 4 a 12 mEq/L. Acima de 12 sustenta o diagnóstico quando a cetonemia fica entre 1,5 e 3,0 mmol/L. O consenso de 2024 o tirou dos critérios de primeira linha e da resolução, porque grandes volumes de salina produzem acidose hiperclorêmica de ânion-gap normal.
Gasometria venosa basta: o consenso de 2024 eliminou a coleta arterial para avaliação ácido-básica nessas emergências.
Cetonúria não monitora tratamento. A fita mede acetoacetato e acetona; com a insulina, o beta-hidroxibutirato se converte em acetoacetato e a fita segue positiva por horas ou dias num paciente já compensado.
Osmolalidade efetiva = 2 × sódio + glicemia ÷ 18. A total soma ureia ÷ 6 — o 2,8 das fórmulas internacionais vale para o nitrogênio ureico, não para a ureia que o laboratório brasileiro reporta — e serve para outra pergunta: a ureia não gera gradiente através da membrana e não desidrata a célula.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Repor apenas abaixo de pH 6,9, com 50 a 100 mmol diluídos em 200 a 400 mL (SBD, capítulo revisado em 2023)
Classifica o bicarbonato como classe IIb nível B: pode ser considerado quando o pH estiver abaixo de 6,9, para reduzir o risco potencial de hipocontratilidade cardíaca e arritmia. Dose de 50 a 100 mmol diluídos em 200 a 400 mL de solução isotônica. Registra que a administração de rotina não melhora a resolução da acidose, a duração do tratamento nem a mortalidade, e lista os riscos do uso inadequado: alcalose metabólica, acidose liquórica paradoxal, edema cerebral, anóxia tecidual e atraso na normalização do lactato e da cetonemia, além de hipocalemia durante a infusão.
Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Pessanha AB, Raduan RA, Marino EC, Lamounier RN. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (capítulo com última revisão em 27/03/2023). DOI: 10.29327/5238993.2023-6.
Considerar abaixo de pH 7,0, com 100 mmol em 400 mL a cada 2 horas até o pH passar de 7,0 (consenso de cinco sociedades, 2024)
Afirma que a administração de rotina não é recomendada e que fluido e insulina bastam para resolver a acidose, mas admite que acidose grave produz efeitos vasculares adversos e coloca o limiar em pH abaixo de 7,0. Quando indicado, 100 mmol de bicarbonato de sódio a 8,4% em 400 mL de água estéril — solução isotônica — a cada 2 horas, até obter pH acima de 7,0. Move o corte um décimo para cima em relação ao texto brasileiro e ao consenso de 2009.
Umpierrez GE et al. Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes: A Consensus Report (ADA, EASD, JBDS, AACE e Diabetes Technology Society). Diabetes Care 2024;47(8):1257-1275.
Repor abaixo de pH 6,9, com 100 mmol e 20 mEq de KCl em 400 mL a 200 mL/h, repetindo a cada 2 horas (ADA, 2009)
Detalha o esquema que virou padrão de protocolo institucional: 100 mmol de bicarbonato (duas ampolas) com 20 mEq de cloreto de potássio em 400 mL de água estéril, correndo a 200 mL/h por 2 horas até o pH venoso ultrapassar 7,0, repetindo a infusão a cada 2 horas se o pH continuar abaixo de 7,0. O mesmo documento registra que nenhum estudo prospectivo randomizado testou a reposição em pH abaixo de 6,9, e que nove estudos somando 434 pacientes não mostraram vantagem do bicarbonato acima desse valor.
Kitabchi AE, Umpierrez GE, Miles JM, Fisher JN. Hyperglycemic Crises in Adult Patients With Diabetes. Diabetes Care 2009;32(7):1335-1343.
Na prova
Os três documentos concordam no essencial — bicarbonato não é rotina — e discordam numa faixa estreitíssima de pH. Se o enunciado der pH de 7,05 ou mais, nenhum deles repõe, e a discussão nem se abre. A faixa contestada é entre 6,9 e 7,0: uma alternativa que autorize bicarbonato com pH 6,95 só faz sentido no mundo do consenso de 2024; uma que exija pH abaixo de 6,9 é o corpo brasileiro e o texto de 2009. As alternativas também traem a origem pela dose: '50 a 100 mmol em 200 a 400 mL' é a redação da diretriz brasileira, '100 mmol em 400 mL a cada 2 horas' é a de 2024, e a menção a '20 mEq de KCl junto ao bicarbonato' é impressão digital do texto de 2009. Vinheta em serviço público brasileiro, com vocabulário de protocolo do SUS, puxa o corpo nacional; enunciado que cite nominalmente ADA, EASD ou 'consenso de 2024' puxa o corte de 7,0. Régua geral: prova oficial do MEC tende a conduta SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.
Sem bolus: iniciar direto a infusão de 0,1 U/kg/h (SBD, capítulo de cetoacidose, 2023)
Recomendação R12, classe IIa nível B: deve ser considerado iniciar a insulinoterapia em infusão contínua, sem bolus intravenoso inicial. O sumário de evidências aponta que estudos recentes mostram que o bolus antes da infusão não é necessário, e cita o ensaio de Kitabchi que comparou bolus de 0,07 U/kg seguido de infusão de 0,07 U/kg/h contra infusão direta de 0,07 ou de 0,14 U/kg/h, sem diferença no tempo até a resolução, além de estudos retrospectivos com o mesmo achado.
Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Pessanha AB, Raduan RA, Marino EC, Lamounier RN. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (capítulo com última revisão em 27/03/2023). DOI: 10.29327/5238993.2023-6.
Bolus de 0,1 U/kg seguido de 0,1 U/kg/h — ou dispensar o bolus subindo a infusão (ADA 2009; SBD, capítulo de cetoacidose euglicêmica, 2023)
O texto de 2009 descreve o algoritmo com bolus intravenoso de 0,1 U/kg seguido de infusão de 0,1 U/kg/h, e admite dispensar o bolus desde que a infusão seja de 0,14 U/kg/h — porque, sem bolus, doses abaixo de 0,1 U/kg/h podem não alcançar concentração suficiente para suprimir a cetogênese hepática. O capítulo brasileiro de cetoacidose euglicêmica mantém a mesma estrutura com outro número: bolus de 0,1 U/kg seguido, em até cinco minutos, de infusão de 0,1 U/kg/h, ou, alternativamente, infusão de 0,15 U/kg/h sem bolus. É divergência dentro da própria diretriz brasileira, entre dois capítulos revisados com um mês de diferença.
Kitabchi AE, Umpierrez GE, Miles JM, Fisher JN. Hyperglycemic Crises in Adult Patients With Diabetes. Diabetes Care 2009;32(7):1335-1343. E: Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Raduan RA. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética euglicêmica. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (última revisão em 18/04/2023). DOI: 10.29327/557753.2022-22.
Infusão de taxa fixa de 0,1 U/kg/h; bolus de 0,1 U/kg apenas se houver atraso no acesso (consenso de cinco sociedades, 2024)
Adota a infusão intravenosa de taxa fixa iniciada em 0,1 U/kg/h como padrão e reserva o bolus de 0,1 U/kg, intravenoso ou intramuscular, para a situação em que se antecipa demora na obtenção do acesso venoso ou na montagem da infusão. Na cetoacidose leve, oferece alternativa subcutânea: 0,1 U/kg de análogo de ação rápida a cada 1 hora, ou 0,2 U/kg a cada 2 horas.
Umpierrez GE et al. Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes: A Consensus Report (ADA, EASD, JBDS, AACE e Diabetes Technology Society). Diabetes Care 2024;47(8):1257-1275.
Na prova
Os números das alternativas entregam o documento antes do raciocínio clínico. '0,14 U/kg/h' aparece exclusivamente no texto da ADA de 2009. '0,15 U/kg/h' aparece exclusivamente no capítulo brasileiro de cetoacidose euglicêmica. '0,1 U/kg/h em infusão contínua sem bolus' é a redação atual dos dois lados. Uma alternativa que fale em 'bolus seguido de infusão' descreve o algoritmo clássico e ainda é encontrada em protocolo institucional brasileiro; uma que diga 'sem bolus' segue os dois textos mais recentes. Se o enunciado for de cetoacidose euglicêmica ou citar inibidor de SGLT2, o capítulo brasileiro aplicável é justamente o que mantém o bolus — detalhe fino, e é exatamente onde uma banca constrói distrator. O que não muda em documento nenhum: a insulina nunca começa antes do potássio.
Salina isotônica 0,9%, 15 a 20 mL/kg na primeira hora (SBD 2023, classe I nível B; ADA 2009; Ministério da Saúde, 2013)
A diretriz brasileira recomenda, na ausência de comprometimento cardíaco ou renal, infusão de NaCl 0,9% em média de 15 a 20 mL/kg na primeira hora, com a escolha seguinte dependendo da evolução dos eletrólitos e da diurese. É o mesmo número do consenso de 2009, que escreve 15 a 20 mL/kg/h ou 1 a 1,5 litro na primeira hora. O Caderno de Atenção Básica nº 36 prescreve soro fisiológico 0,9% intravenoso em acesso calibroso já na unidade básica, antes do encaminhamento. Um ensaio randomizado comparando 1.000 com 500 mL/h de salina não mostrou diferença na resolução dos distúrbios eletrolíticos.
Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Pessanha AB, Raduan RA, Marino EC, Lamounier RN. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (capítulo com última revisão em 27/03/2023). DOI: 10.29327/5238993.2023-6. E: Kitabchi AE, Umpierrez GE, Miles JM, Fisher JN. Hyperglycemic Crises in Adult Patients With Diabetes. Diabetes Care 2009;32(7):1335-1343. E: BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica nº 36 — Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: Diabetes Mellitus. Brasília, 2013, item 4.2 e Tabela 5.
Solução balanceada deve ser considerada — classe IIa, nível A (SBD, 2023)
Recomendação R7: o uso de soluções balanceadas na reposição intravenosa deve ser considerado, por corrigir hipovolemia e hiperosmolaridade com resolução mais rápida da cetoacidose e menor risco de acidose hiperclorêmica. Sustenta-se na metanálise de Catahay e colaboradores, que comparou soluções isotônicas com Ringer lactato e encontrou risco relativo de 1,46 (IC 95% 1,10 a 1,94; p = 0,009) a favor das balanceadas, com heterogeneidade de 12%. É a recomendação de maior nível de evidência de todo o capítulo brasileiro de cetoacidose — nível A —, ainda que com classe IIa.
Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Pessanha AB, Raduan RA, Marino EC, Lamounier RN. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (capítulo com última revisão em 27/03/2023). DOI: 10.29327/5238993.2023-6. (apoiada em Catahay JA et al. Heart Lung 2022;54:74-79).
Salina isotônica OU cristaloide balanceado, 500 a 1.000 mL/h nas primeiras 2 a 4 horas (consenso de cinco sociedades, 2024)
Deixa a escolha do fluido inicial para disponibilidade, custo e recursos locais, e registra que estudos prospectivos, observacionais e metanálises recentes mostram resolução mais rápida da cetoacidose, internação mais curta e menos acidose hiperclorêmica com soluções balanceadas — Ringer lactato ou Plasma-Lyte — em comparação com salina isotônica, citando Alghamdi 2022, Self 2020, Catahay 2022, Jahangir 2022 e Bergmann 2021. Registra também que grandes volumes de salina se associam a acidose hiperclorêmica de ânion-gap normal e a internação mais longa em UTI. Prescreve 500 a 1.000 mL/h nas primeiras 2 a 4 horas e reposição de metade do déficit em 8 a 12 horas.
Umpierrez GE et al. Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes: A Consensus Report (ADA, EASD, JBDS, AACE e Diabetes Technology Society). Diabetes Care 2024;47(8):1257-1275.
Na prova
Aqui a diferença não é de restrição econômica — Ringer lactato existe em qualquer pronto-socorro brasileiro. É diferença de data e de força de recomendação: a mesma diretriz brasileira mantém a salina como classe I e coloca a balanceada como classe IIa com nível A de evidência, ou seja, evidência forte para uma recomendação ainda facultativa. A velocidade é o que denuncia o documento nas alternativas: '15 a 20 mL/kg na primeira hora' é a redação brasileira e a de 2009; '1.000 a 1.500 mL na primeira hora' é a mesma coisa traduzida para um adulto de 70 a 75 kg; '500 a 1.000 mL/h nas primeiras 2 a 4 horas' só existe depois de 2024. Uma alternativa que ofereça Ringer lactato como fluido inicial não está errada por sê-lo — o que decide é se o enunciado pediu a conduta padrão ou a de melhor evidência. Enunciado de UBS ou de protocolo do SUS puxa soro fisiológico; enunciado de terapia intensiva com vocabulário de estudo recente abre espaço para a balanceada.
Corpo brasileiro: bicarbonato abaixo de 15 na cetoacidose e osmolalidade efetiva acima de 320 no estado hiperosmolar (SBD, 2023 e 2025)
O capítulo de cetoacidose define o diagnóstico por glicemia acima de 200 mg/dL, acidose metabólica com pH venoso abaixo de 7,3 e/ou bicarbonato abaixo de 15 mEq/L, e cetonemia acima de 3 mmol/L — já com preferência explícita pela cetonemia sobre a cetonúria e com o ânion-gap acima de 12 como recurso quando a cetonemia fica entre 1,5 e 3,0. O capítulo de estado hiperosmolar, publicado em julho de 2025, mantém osmolalidade plasmática efetiva acima de 320 mOsmol/L. Curiosamente, o capítulo brasileiro de cetoacidose euglicêmica já usa bicarbonato abaixo de 18 mEq/L — o número internacional — para a mesma doença em outra apresentação.
Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Pessanha AB, Raduan RA, Marino EC, Lamounier RN. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (capítulo com última revisão em 27/03/2023). DOI: 10.29327/5238993.2023-6. E: Santomauro Jr AC, Santomauro AT, Barbosa CCMC, Raduan RA, Marino EC, Lamounier RN. Manejo da síndrome hiperglicêmica hiperosmolar não cetótica. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2025). DOI: 10.29327/5660187.2025-5. E: Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Raduan RA. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética euglicêmica. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (última revisão em 18/04/2023). DOI: 10.29327/557753.2022-22.
Consenso de 2024: bicarbonato abaixo de 18, beta-hidroxibutirato obrigatório, ânion-gap fora e osmolalidade efetiva acima de 300
Muda quatro coisas de uma vez. A hiperglicemia passa a ser glicemia igual ou acima de 200 mg/dL OU história prévia de diabetes independentemente da glicemia, o que incorpora a forma euglicêmica ao critério. A cetose passa a ser definida por beta-hidroxibutirato quantitativo igual ou acima de 3,0 mmol/L, idealmente à beira do leito, ou cetonúria de 2+ ou mais. A acidose passa a ser pH abaixo de 7,3 e/ou bicarbonato abaixo de 18 mmol/L. O ânion-gap sai dos critérios de primeira linha e da definição de resolução, mantido apenas onde não há dosagem de cetona. No estado hiperosmolar, a osmolalidade efetiva cai de 320 para acima de 300 mOsm/kg (ou total acima de 320). Some-se a dispensa do sangue arterial e a definição de resolução por cetona plasmática abaixo de 0,6 mmol/L.
Umpierrez GE et al. Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes: A Consensus Report (ADA, EASD, JBDS, AACE e Diabetes Technology Society). Diabetes Care 2024;47(8):1257-1275.
Documento federal brasileiro: glicemia acima de 250 mg/dL, pH abaixo de 7,3 e bicarbonato abaixo de 15 (Ministério da Saúde, 2013)
O Caderno de Atenção Básica nº 36 define cetoacidose por hiperglicemia acima de 250 mg/dL, cetonemia e acidose metabólica com pH abaixo de 7,3 e bicarbonato abaixo de 15 mEq/L, e descreve a síndrome hiperosmolar hiperglicêmica não cetótica como hiperglicemia superior a 600-800 mg/dL com desidratação e alteração do estado mental, na ausência de cetose, afirmando que 'ocorre apenas no diabetes tipo 2'. É o corte de glicemia mais alto dos três documentos, e o único a fixar a doença em um tipo de diabetes. Reflete a literatura de 2006-2009 que o caderno cita, e não foi revisado desde 2013.
BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica nº 36 — Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: Diabetes Mellitus. Brasília, 2013, item 4.2 e Tabela 5.
Na prova
Cada número denuncia um documento e uma década. 'Glicemia igual ou acima de 200 mg/dL ou história prévia de diabetes' só existe a partir de 2024. 'Glicemia acima de 250 mg/dL' vem do texto federal de 2013 e do consenso de 2009. Beta-hidroxibutirato quantitativo dentro do critério diagnóstico é assinatura de 2024; cetonúria como critério principal é texto antigo. Ânion-gap listado entre os critérios diagnósticos ou de resolução é anterior a 2024. Osmolalidade efetiva acima de 320 é corpo brasileiro; acima de 300, consenso de 2024. E a afirmação de que o estado hiperosmolar 'ocorre apenas no diabetes tipo 2' aparece no caderno do Ministério da Saúde, mas os textos recentes descrevem a forma mista em mais de um terço das crises e casos em adultos jovens — uma alternativa com esse absoluto costuma ser distrator. Cenário de UBS, programa do SUS ou menção ao Ministério da Saúde puxa o caderno de 2013 e o encaminhamento; cenário de emergência ou UTI com vocabulário de sociedade internacional puxa o consenso de 2024.
Caso resolvido
- as três contas, antes de qualquer prescrição
- Ânion-gap = 129 − (94 + 6) = 29 mEq/L, muito acima de 12. Osmolalidade efetiva = 2 × 129 + 578 ÷ 18 = 258 + 32,1 = 290,1 mOsm/L. Sódio corrigido, com glicemia acima de 400 e fator 2,4 = 129 + 2,4 × 4,78 = 140,5 mEq/L.
- diagnóstico
- Glicemia acima de 200, cetonemia de 5,8 mmol/L e acidose com pH 6,98 e bicarbonato 6: os três componentes estão presentes. É cetoacidose diabética. A osmolalidade efetiva de 290 exclui estado hiperosmolar pelos dois documentos, apesar da glicemia alta — e o sódio de 129 do laudo, corrigido, é 140: não há hiponatremia verdadeira nem indicação de solução hipotônica.
- gravidade e onde interna
- pH 6,98 é cetoacidose grave pela diretriz brasileira (abaixo de 7,10) e também pelo consenso de 2024 (abaixo de 7,0), reforçada por bicarbonato de 6 e pressão sistólica abaixo de 90 mmHg. Vai para UTI ou sala de emergência com monitorização. Repare: se o pH fosse 7,05, ela seria grave para o texto brasileiro e moderada para o internacional.
- primeiro movimento — fluido
- NaCl 0,9% (ou cristaloide balanceado) 15 a 20 mL/kg na primeira hora: 900 a 1.200 mL para 60 kg. O sódio corrigido de 140 mantém o isotônico. Só a expansão já vai derrubar a glicemia de 35 a 70 mg/dL na primeira hora.
- segundo movimento — potássio antes da insulina
- Potássio de 5,7 mEq/L está acima de 5,2: não se repõe potássio agora, e a insulina está liberada. Recontrole em 2 horas — e a expectativa é que caia, porque a insulina vai devolver o potássio para dentro da célula.
- terceiro movimento — insulina
- Insulina regular em infusão contínua a 0,1 U/kg/h, ou seja, 6 U/h, sem bolus. Alvo: queda de 50 a 70 mg/dL por hora. Leucocitose de 16.400 sem desvio não obriga antibiótico: ela é proporcional à cetonemia. O que levantaria infecção seria acima de 25.000 ou desvio à esquerda acima de 10% — mas a busca do precipitante continua, e aqui ele já tem nome: três dias sem insulina.
- segunda hora
- Potássio de 4,1 mEq/L. Entra na faixa de 3,3 a 5,2: acrescenta-se 10 a 20 mEq de KCl por litro de soro, com meta de manter entre 4 e 5. Glicemia 470, queda de 108 em duas horas, dentro do esperado.
- quinta hora
- Glicemia 238 mg/dL, pH 7,16, bicarbonato 12, cetonemia 3,1 mmol/L. A glicemia chegou à faixa de 200-250: reduz-se a insulina para 0,05 U/kg/h (3 U/h) e acrescenta-se soro glicosado 5%, mirando manter a glicemia entre 150 e 200. A insulina não desliga — a cetose ainda não fechou, e é a insulina que a fecha.
- bicarbonato, entra ou não
- Na chegada o pH era 6,98. Pela diretriz brasileira, o corte é abaixo de 6,9: não repõe. Pelo consenso de 2024, o corte é abaixo de 7,0: poderia ser considerado. Este paciente cai exatamente na faixa em que os documentos discordam — e, na prática, a conduta que os dois sustentam é fluido e insulina, que é o que corrigiu a acidose.
- décima quarta hora — resolução
- Glicemia 168 mg/dL, pH 7,34, bicarbonato 19 mEq/L, cetonemia capilar 0,4 mmol/L, ânion-gap 9, paciente alerta e aceitando dieta. Critérios de resolução preenchidos. A cetonúria ainda marca 2+ na fita — e isso não muda nada: o beta-hidroxibutirato virou acetoacetato, que é o que a fita mede.
- transição
- Prescreve-se basal-bólus subcutâneo com a dose que ela usava antes, dividida 50% basal e 50% bólus, e mantém-se a infusão intravenosa por 1 a 2 horas depois da primeira dose subcutânea. Desligar a bomba no mesmo minuto da aplicação abre um vazio de insulina e traz a cetose de volta.
- o que decide a próxima internação
- O precipitante foi acesso à insulina, não erro de dose. Alta com insulina em quantidade suficiente, material de aplicação, orientação de dias de doença — incluindo medir cetona em casa quando adoecer — e retorno em 2 a 4 semanas. Sem isso, a chance de reinternar em 30 dias é da ordem de um em cinco.
Agora feche você
- as contas
- Osmolalidade efetiva = 2 × 152 + 940 ÷ 18 = 304 + 52,2 = 356,2 mOsm/L. Osmolalidade total = 356,2 + 84 ÷ 6 = 356,2 + 14 = 370,2 mOsm/L. Sódio corrigido, fator 2,4 = 152 + 2,4 × 8,4 = 172,2 mEq/L. Ânion-gap = 152 − (110 + 20) = 22 mEq/L.
- diagnóstico
- Glicemia acima de 600, osmolalidade efetiva de 356 (acima de 320 e de 300), cetonemia de 1,1 abaixo de 3,0, pH 7,33 e bicarbonato 20 sem acidose: os quatro critérios do estado hiperosmolar estão preenchidos. A instalação em quatro dias, a ausência de dor abdominal e de Kussmaul e o rebaixamento de consciência completam o quadro. O ânion-gap de 22 chama atenção, mas sem cetose e sem acidose ele aponta para outra causa — a lesão renal aguda com creatinina de 2,1.
- o achado que reordena tudo
- Potássio de 3,1 mEq/L. Diurético tiazídico, perdas por diurese osmótica de dias e ingestão pobre — e, ao contrário do padrão, ela chegou hipocalêmica em vez de normo ou hipercalêmica.
- conduta
- …
Onde a banca derruba
- 1Ligar a insulina antes de olhar o potássio Atrai porque a insulina parece ser o tratamento e a hiperglicemia parece ser o problema. Mas o potássio sérico alto ou normal da chegada esconde depleção corporal de 3 a 6 mmol/kg, e a insulina devolve o íon para dentro da célula em minutos. Abaixo de 3,3 mEq/L a insulina não entra: repõe-se potássio e hidrata-se primeiro. De 5 a 10% das cetoacidoses chegam assim, e hipocalemia grave durante o tratamento associa-se a mortalidade quase cinco vezes maior.
- 2Desligar a insulina quando a glicemia normaliza É o erro mais intuitivo do tema: a glicemia caiu, o problema acabou. Não acabou. A hiperglicemia se corrige em cerca de 6 horas e a cetoacidose em cerca de 12 — e é a insulina que fecha a cetogênese. Quando a glicemia chega a 200-250 mg/dL, o movimento é duplo e simultâneo: reduzir a infusão para 0,05 U/kg/h e acrescentar soro glicosado, segurando a glicemia entre 150 e 200 até a cetose resolver.
- 3Usar cetonúria para dizer que a cetoacidose resolveu Atrai porque a fita é barata, rápida e está na mão. Ela mede acetoacetato e acetona, não beta-hidroxibutirato — que é o cetoácido dominante, em proporção de 20 para 1. Com o início da insulina, o beta-hidroxibutirato se converte em acetoacetato e a fita fica mais positiva justamente quando o paciente está melhorando, podendo permanecer assim por horas ou dias. Cetonúria não monitora tratamento e não é critério de resolução em documento nenhum.
- 4Descartar cetoacidose porque a glicemia está normal Cerca de 10% dos episódios chegam com glicemia abaixo de 200 mg/dL. O gatilho quase sempre tem nome: inibidor de SGLT2, gestação, jejum prolongado, álcool, doença hepática. E o inibidor de SGLT2 ainda reduz a cetonúria por aumento da reabsorção tubular de acetoacetato — a fita de urina engana exatamente em quem tem mais risco. Paciente sintomático em uso da droga pede cetonemia capilar e gasometria, com qualquer glicemia.
- 5Ler o sódio do laudo sem corrigir para a hiperglicemia A hiperglicemia puxa água do intracelular e dilui o sódio: a hiponatremia costuma ser aparente. Corrigir muda a conduta em duas direções opostas — um sódio de 129 com glicemia de 578 é, na verdade, 140, e não autoriza solução hipotônica nenhuma; um sódio de 148 com glicemia de 940 é 172, e aí a troca para NaCl 0,45% está indicada. Use fator 1,6 até 400 mg/dL de glicemia e 2,4 acima disso.
- 6Confundir acidose hiperclorêmica da recuperação com cetoacidose persistente Atrai porque o bicarbonato continua baixo e o pH não sobe como deveria. Mas o ânion-gap está fechado e o cloro, alto: é acidose de ânion-gap normal produzida pela perda de cetoânions e pelo grande volume de fluido rico em cloreto. É autolimitada e sem consequência clínica. Lida como cetose persistente, prolonga a infusão de insulina e a internação sem motivo — foi um dos argumentos para o consenso de 2024 tirar o ânion-gap dos critérios de resolução.
- 7Dar bicarbonato porque o pH está baixo Atrai pela simetria: acidose, dá base. Ensaios randomizados com pH entre 6,83 e 7,08 não mostraram diferença em nenhum desfecho, e um deles mostrou atraso na queda dos corpos cetônicos e do lactato. Os riscos são concretos: hipocalemia, acidose liquórica paradoxal, edema cerebral, queda da captação tecidual de oxigênio. O uso se restringe à acidose muito grave — pH abaixo de 6,9 pela diretriz brasileira, abaixo de 7,0 pelo consenso de 2024 — e nunca houve ensaio prospectivo abaixo de 6,9.
- 8Corrigir o estado hiperosmolar na velocidade da cetoacidose Atrai porque os números assustam — glicemia de 900, osmolalidade de 350 — e a tentação é normalizar depressa. A hiperglicemia do estado hiperosmolar leva de 8 a 10 horas para se corrigir, e deve levar: a queda não pode passar de 90 a 120 mg/dL por hora, a osmolalidade deve descer entre 3 e 8 mOsm/kg por hora e o sódio no máximo 10 mmol/L em 24 horas. Ir mais rápido é edema cerebral e síndrome de desmielinização osmótica. A insulina também é metade: 0,05 U/kg/h.
- 9Tratar a leucocitose como prova de infecção Leucocitose é regra na crise hiperglicêmica e proporcional ao grau de cetonemia, por descarga de cortisol e catecolaminas. Antibiótico por leucograma alto isolado é conduta reflexa. O que aumenta a suspeita é leucometria acima de 25.000/µL ou desvio à esquerda acima de 10% — e, de todo modo, o precipitante tem de ser procurado sempre, porque a crise hiperglicêmica quase nunca é o evento primário.
Na cetoacidose diabética, a PRIMEIRA prioridade é a reposição volêmica vigorosa com soro fisiológico 0,9%, pois o paciente tem grande déficit hídrico e a hidratação por si já reduz a glicemia e melhora a perfusão. A insulina é fundamental, mas deve ser iniciada após início da hidratação e apenas se o potássio for ≥ 3,3 mEq/L, para evitar hipocalemia grave. Bicarbonato só é considerado em pH < 6,9. Repor potássio depende do valor sérico. Dieta oral é contraindicada na fase aguda com vômitos e acidose.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Homem de 58 anos, diabético tipo 2, é trazido ao PS com rebaixamento do sensório e desidratação intensa iniciados há 3 dias após quadro de infecção urinária. PA 92/58 mmHg, FC 118 bpm, FR 22 ipm, T 37,8 °C. Exames: glicemia 780 mg/dL, sódio 148 mEq/L, potássio 4,2 mEq/L, pH arterial 7,32, bicarbonato 19 mEq/L, cetonúria negativa, osmolaridade sérica calculada 340 mOsm/kg. Qual a conduta inicial mais adequada?
O quadro é estado hiperglicêmico hiperosmolar (glicemia muito alta, osmolaridade > 320, cetose ausente/mínima, acidose leve). A pedra angular do tratamento é a reposição volêmica agressiva com salina isotônica, iniciando ANTES/junto à insulina. Insulina em bolus antes da hidratação agrava a hipovolemia (desvia água para o intracelular) e é contraindicada. Bicarbonato só se pH < 6,9 (aqui 7,32). Glicosada 5% e insulina SC são inadequados para emergência hiperosmolar. Potássio está normal (4,2); repor em altas doses antes da insulina não é indicado — repõe-se se K < 5,2 e diurese presente, mas não em bolus.
Mulher de 24 anos, com diabetes mellitus tipo 1, é trazida ao pronto-socorro com dor abdominal, vômitos e respiração profunda. Suspendeu a insulina há 2 dias por gastroenterite. PA 96/60 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm, T 37,2 °C. Glicemia capilar 480 mg/dL. Gasometria: pH 7,12, HCO3 8 mEq/L, ânion gap elevado, cetonas séricas positivas. Após iniciar reposição volêmica vigorosa com salina, qual cuidado é imprescindível antes ou junto ao início da insulinoterapia endovenosa?
Na cetoacidose diabética, a insulina desloca potássio para o intracelular; se o potássio inicial for < 3,3 mEq/L, deve-se repor potássio ANTES da insulina para evitar hipocalemia grave e arritmia. Bicarbonato só é considerado em pH < 6,9. Insulina de longa ação SC não é o manejo agudo (usa-se EV regular). Restrição de hidratação é inadequada na DKA (paciente desidratado). Aguardar a glicemia cair sozinha retarda a resolução da acidose.
Mulher de 28 anos, com diabetes tipo 1, chega ao pronto-socorro com náuseas, dor abdominal e polidipsia. PA 100/60 mmHg, FC 112 bpm, FR 28 ipm com respiração profunda, T 36,8 °C. Glicemia capilar 420 mg/dL. Gasometria: pH 7,12, HCO3 8 mEq/L. Eletrólitos: Na 132 mEq/L, K 5,4 mEq/L. Iniciada hidratação com salina 0,9%. Qual é o critério para iniciar a insulinoterapia endovenosa contínua com segurança neste momento?
Na cetoacidose diabética, a insulina deve ser adiada se o potássio estiver < 3,3 mEq/L (risco de arritmia por hipocalemia grave, pois a insulina desloca K para o intracelular); aqui K = 5,4, então pode-se iniciar. Não se aguarda queda espontânea da glicemia para começar insulina. Correção prévia do pH e reposição de bicarbonato não são pré-requisitos (bicarbonato só em pH < 6,9). K < 5,0 não é critério — o limite crítico é o piso de 3,3.
Homem de 30 anos é levado à UPA com poliúria, polidipsia, dor abdominal, náuseas e respiração profunda e rápida há 1 dia. Glicemia capilar 480 mg/dL, cetonúria fortemente positiva e gasometria com pH 7,18 e bicarbonato baixo. Após confirmar o diagnóstico de cetoacidose diabética, qual é a medida inicial mais importante do manejo?
Na cetoacidose diabética, a primeira prioridade é a reposição volêmica vigorosa com salina isotônica, que corrige a desidratação e melhora a perfusão. A insulina é essencial, porém iniciada após início da hidratação e com atenção ao potássio, nunca como medida isolada anterior à volemia. Bicarbonato só se considera em acidose muito grave (pH <6,9), não de rotina. Antibiótico só se houver infecção identificada como fator precipitante.
Homem de 29 anos é levado à sala de emergência com rebaixamento do sensório e respiração profunda e rápida. Familiar relata poliúria e emagrecimento nas últimas semanas. Ao exame: desidratado, hálito cetônico, FC 122 bpm, PA 96x60 mmHg. Exames: glicemia 480 mg/dL, pH 7,10, bicarbonato 8 mEq/L, cetonúria 3+, sódio 134 mEq/L e potássio 5,4 mEq/L. Após iniciar reposição volêmica vigorosa com salina, qual a próxima medida essencial antes de iniciar a insulina intravenosa?
Na cetoacidose diabética, a insulina desloca potássio para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave; por isso deve-se checar o potássio e só iniciar insulina se ≥3,3 mEq/L, repondo potássio antes se abaixo disso. Neste caso o K está 5,4 (aceitável para iniciar insulina, mas a verificação é o passo obrigatório). Incorreto: bicarbonato só é considerado em pH muito baixo (geralmente <6,9) e é controverso; não é rotina em pH 7,10. Iniciar insulina em bolus ignora o risco de hipocalemia, e o bolus não é mais recomendado de rotina. Errado porque a insulina é essencial para cessar a cetogênese — hidratação isolada não corrige a acidose.
Homem de 24 anos, sem diagnóstico prévio de diabetes, é levado à UPA com poliúria, polidipsia, dor abdominal e respiração rápida e profunda há 1 dia. Glicemia capilar 480 mg/dL, cetonúria 3+, pH 7,18, bicarbonato 12 mEq/L. Está desidratado, consciente. Além da hidratação venosa vigorosa, qual é o passo IMEDIATO mais importante antes de iniciar a insulina intravenosa?
Na cetoacidose diabética, a insulina desloca potássio para o intracelular, podendo precipitar hipocalemia grave e arritmias. Por isso, deve-se verificar o potássio antes de iniciar a insulina: se K+ < 3,3 mEq/L, repor potássio e adiar a insulina. Bicarbonato só é considerado em acidose muito grave (pH < 6,9), não neste caso. Insulina de longa ação SC não é a via de manejo agudo (usa-se insulina regular IV). Glicose a 5% só entra quando a glicemia cai para ~200–250 mg/dL, para evitar hipoglicemia, não desde o início.
Homem de 45 anos, com diabetes tipo 2 há 8 anos em uso de metformina e glicazida, chega à UPA sonolento após quadro gripal. PA 96/60 mmHg, FC 118 bpm, mucosas secas, respiração de Kussmaul e hálito cetônico. Glicemia capilar 480 mg/dL. Gasometria: pH 7,18, HCO3 10 mEq/L; cetonúria 3+. Após iniciar hidratação com salina isotônica, o potássio sérico retorna em 3,2 mEq/L. Qual a conduta correta em relação à insulinoterapia?
Na cetoacidose diabética, se o potássio inicial for <3,3 mEq/L, a insulina deve ser ADIADA e o potássio reposto primeiro, pois a insulina desloca K+ para o intracelular e pode precipitar arritmia fatal por hipocalemia grave. Iniciar insulina de imediato é perigoso nesse cenário. Bicarbonato só é considerado em acidose muito grave (pH <6,9) e não é medida inicial prioritária. Insulina EV em bomba é a via preferencial no manejo da CAD, e a reposição de potássio é indispensável (D está errada em ambos os pontos).
Um homem de 24 anos é levado ao pronto-socorro com rebaixamento do nível de consciência, respiração profunda e rápida, e hálito com odor de acetona. A família relata poliúria, polidipsia e emagrecimento nas últimas semanas, sem diagnóstico prévio de diabetes. Ao exame: desidratado, PA 100x60 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 irpm (padrão de Kussmaul), Glasgow 13. Exames: glicemia 480 mg/dL, cetonúria fortemente positiva, pH arterial 7,10, bicarbonato 8 mEq/L. Considerando o quadro, qual é o diagnóstico e a conduta inicial imediata mais adequada, respectivamente?
Hiperglicemia, cetonúria intensa, acidose metabólica (pH 7,10, bicarbonato baixo) e respiração de Kussmaul em jovem definem cetoacidose diabética. A conduta imediata é hidratação venosa vigorosa com salina e insulinoterapia (com correção de potássio e da causa). Errada: o EHH cursa com glicemias muito mais altas, sem cetose/acidose importantes, e não se trata com insulina SC em dose baixa nessa gravidade. A acidose láctica por sepse não explica cetonúria e hiperglicemia. Salicilatos daria distúrbio misto e história de ingestão, ausentes.
Um homem de 34 anos é levado ao pronto-socorro com rebaixamento do nível de consciência. A esposa relata poliúria, polidipsia, emagrecimento e mal-estar há duas semanas, sem diagnóstico prévio de diabetes. Ao exame: torporoso, desidratado (+++), respiração profunda e rápida, hálito cetônico, PA 90x60 mmHg, FC 122 bpm, FR 28 irpm. Exames: glicemia 480 mg/dL, pH 7,12, bicarbonato 8 mEq/L, cetonúria +++, potássio 5,4 mEq/L, sódio 132 mEq/L. Diante do quadro, assinale o diagnóstico e a primeira medida terapêutica, respectivamente.
Hiperglicemia, acidose metabólica com ânion-gap (pH 7,12, HCO3 8), cetonúria e hálito cetônico em paciente jovem definem cetoacidose diabética. A primeira medida é a reposição volêmica agressiva com salina 0,9%, que já reduz a glicemia e restaura a perfusão; a insulina vem em seguida, e nunca antes da hidratação (risco de agravar hipovolemia e hipocalemia). O estado hiperosmolar cursa com glicemias muito mais altas e sem cetoacidose importante. Bicarbonato só é considerado em pH < 6,9, não empregado de rotina.
Mulher, 24 anos, diabética tipo 1, é levada ao pronto-socorro com dor abdominal, vômitos e respiração profunda e rápida iniciados há 12 horas, após ter suspendido a insulina por gripe. Ao exame: desidratada, PA 100/60 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm, Tax 37,2 °C. Glicemia capilar 480 mg/dL. Gasometria arterial: pH 7,08, HCO3 6 mEq/L, pCO2 20 mmHg. Cetonemia positiva. Eletrólitos: Na+ 134 mEq/L, K+ 5,4 mEq/L (VR 3,5–5,0), creatinina 1,4 mg/dL. Iniciada reposição volêmica vigorosa com soro fisiológico 0,9%. Assinale a conduta CORRETA quanto ao início da insulinoterapia venosa neste momento.
Correta: Na cetoacidose diabética, a insulinoterapia só deve ser iniciada após o início da reposição volêmica e desde que o K+ seja >3,3 mEq/L; abaixo disso, a insulina agrava a hipocalemia (desloca K+ para o intracelular) e pode causar arritmias, devendo-se repor potássio antes. Aqui o K+ é 5,4 mEq/L (seguro) e a volemia já foi iniciada, então a insulina 0,1 U/kg/h em BIC é adequada. Erra por ignorar a checagem obrigatória do potássio antes da insulina, ainda que neste caso ele esteja normal — o princípio de conduta é a ressalva. Erra só hidratação não corrige a cetogênese; a insulina é indispensável para interromper a lipólise/cetogênese. A hipercalemia leve não contraindica nem exige redução da dose de insulina; a dose padrão é 0,1 U/kg/h. Bicarbonato só é considerado com pH <6,9, não a 7,08; seu uso indiscriminado aumenta risco de hipocalemia e edema cerebral.
Homem, 68 anos, com diabetes tipo 2 e demência, é trazido do lar de idosos por rebaixamento progressivo do nível de consciência há 3 dias, associado a poliúria e ingesta hídrica reduzida. Ao exame: torporoso (Glasgow 12), mucosas muito secas, turgor diminuído, PA 90/50 mmHg, FC 110 bpm, FR 18 ipm, afebril. Glicemia 950 mg/dL. Gasometria: pH 7,34, HCO3 20 mEq/L. Cetonemia negativa/traços. Na+ 150 mEq/L, ureia 90 mg/dL, creatinina 2,0 mg/dL. Osmolaridade sérica calculada 345 mOsm/kg. Qual é o diagnóstico mais provável?
Correta: o estado hiperglicêmico hiperosmolar caracteriza-se por hiperglicemia acentuada (geralmente >600 mg/dL), osmolaridade efetiva elevada (>320 mOsm/kg), pH >7,30, bicarbonato >18 mEq/L e cetonemia ausente/mínima, tipicamente em idoso com DM2 e rebaixamento de consciência — exatamente o quadro descrito (glicemia 950, osmolaridade 345, pH 7,34, cetonemia negativa). Erra: a CAD cursa com pH <7,30, HCO3 baixo e cetonemia franca, ausentes aqui. Acidose láctica não explica a hiperglicemia extrema com osmolaridade tão alta e pH quase normal. A cetoacidose alcoólica ocorre em etilista, geralmente com glicemia normal/baixa e cetose. Coma mixedematoso cursa com hipotermia e sinais de hipotireoidismo, sem a hiperglicemia/hiperosmolaridade descritas.
Mulher, 19 anos, diabética tipo 1, chega ao pronto-socorro com náuseas, dor abdominal e hálito cetônico. Exames confirmam cetoacidose diabética. O médico plantonista inicia o manejo. Além da insulinoterapia, qual é a medida INICIAL fundamental do tratamento da cetoacidose diabética?
Correta: a pedra angular do tratamento inicial da cetoacidose diabética é a reposição volêmica vigorosa com solução salina isotônica (SF 0,9%), pois esses pacientes têm déficit hídrico importante; a hidratação isolada já reduz a glicemia e melhora a perfusão, e precede/acompanha a insulinoterapia. Bicarbonato não é medida de rotina — reservado para pH <6,9. Não há indicação de transfusão na CAD. O tratamento é feito com insulina regular EV em infusão contínua, não NPH subcutânea nessa fase. Restrição hídrica é o oposto do necessário — o paciente está desidratado e precisa de reposição volêmica.
Mulher, 24 anos, diabética tipo 1, é levada ao pronto-socorro com náuseas, vômitos e respiração profunda e rápida (respiração de Kussmaul) há 12 horas, após interromper a insulina por conta própria. PA 100x60 mmHg, FC 118 bpm, FR 30 ipm, SatO2 98%, T 36,8 °C. Glicemia capilar 480 mg/dL. Gasometria arterial: pH 7,18 (VR 7,35–7,45), PaCO2 22 mmHg (VR 35–45), HCO3- 8 mEq/L (VR 22–26). Cetonúria 3+. Qual é o distúrbio ácido-base primário deste caso?
Correta: pH baixo (7,18) indica acidemia; o HCO3- reduzido (8 mEq/L) identifica a acidose como metabólica — quadro clássico de cetoacidose diabética (glicemia 480, cetonúria 3+, Kussmaul). A PaCO2 de 22 mmHg reflete a compensação respiratória esperada (hiperventilação/Kussmaul), não um distúrbio primário. Alcalose metabólica cursaria com pH alto e HCO3- elevado — o oposto do observado. Acidose respiratória teria PaCO2 elevada e HCO3- normal ou alto por compensação, não PaCO2 de 22. Alcalose respiratória cursa com pH alto e PaCO2 baixa; aqui o pH está baixo. A queda do HCO3- prova que há componente metabólico, e a compensação respiratória é adequada, não configurando distúrbio misto.
Adolescente, 15 anos, sexo feminino, com diagnóstico de diabetes mellitus tipo 1 há 4 anos em uso de insulina glargina 22 U/dia e insulina lispro nas refeições, é trazida ao pronto-socorro com relato de vômitos e dor abdominal iniciados há 12 horas, após quadro de infecção urinária. Ao exame: desidratada, taquipneica (FR 28 ipm), PA 96x60 mmHg, FC 118 bpm, T 37,2 °C, hálito cetônico. Glicemia capilar 380 mg/dL. Gasometria arterial: pH 7,18, HCO3 10 mEq/L. Cetonúria 3+. Potássio sérico 5,4 mEq/L (VR 3,5-5,0). Após iniciar reposição volêmica vigorosa com soro fisiológico 0,9%, qual é a conduta CORRETA em relação à insulinoterapia e ao potássio neste momento?
Correta: No manejo da cetoacidose diabética, a insulina regular em infusão contínua (0,1 U/kg/h) deve ser iniciada após o início da reposição volêmica, e a reposição de potássio só é necessária quando K < 5,2-5,3 mEq/L (aqui está 5,4, portanto apenas monitorar). A insulina só deve ser postergada/suspensa se K < 3,3 mEq/L, o que não é o caso. A (parcialmente correta na insulina, mas o corte para adicionar potássio é 5,2-5,3, não 3,3 — abaixo de 3,3 a insulina é adiada, não o potássio adicionado) inverte os cortes. Errada: postergar a insulina mantém a cetogênese; a insulina é essencial para reverter a acidose. Erra ao repor potássio 'independentemente do valor' (não se repõe com K elevado) e o bolus de insulina é dispensável/não recomendado rotineiramente em pediatria. Erra: insulina SC não é o padrão na CAD grave e bicarbonato não está indicado com pH ≥ 6,9-7,0.
Mulher, 24 anos, diabética tipo 1, é levada ao pronto-socorro com vômitos, dor abdominal e respiração profunda há 12 horas, após interromper a insulina por náuseas. Ao exame: desidratada, FR 28 ipm, PA 100/60 mmHg, FC 118 bpm, Glasgow 15. Exames: glicemia 480 mg/dL, pH arterial 7,08, bicarbonato 8 mEq/L, ânion-gap 28, cetonemia positiva, potássio sérico 3,2 mEq/L (VR 3,5–5,0), sódio 134 mEq/L, creatinina 1,3 mg/dL. Iniciada reposição volêmica com salina isotônica. Qual a conduta CORRETA em relação à insulinoterapia neste momento?
Correta: Nas diretrizes de CAD, se o potássio inicial for < 3,3 mEq/L, a insulina deve ser ADIADA e o potássio reposto primeiro (20–30 mEq/h), pois a insulina desloca K+ para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave com arritmia/parada respiratória. A paciente tem K 3,2, logo repor antes de insulinizar. Iniciar insulina com K 3,2 é perigoso — contraindicado antes de corrigir a hipocalemia. O bolus é opcional e, além disso, insulinizar com K < 3,3 é o erro central. Bicarbonato só é considerado com pH < 6,9, não < 7,10; e não substitui a prioridade do potássio. Infusão sem repor potássio, com K 3,2, incorre no mesmo erro de hipocalemia iatrogênica.
Homem, 68 anos, com diabetes tipo 2 e demência, trazido pela família por rebaixamento progressivo do nível de consciência há 3 dias, associado a ingesta hídrica reduzida e uso recente de diurético. Ao exame: mucosas muito secas, turgor diminuído, PA 90/50 mmHg, FC 120 bpm, FR 18 ipm, Glasgow 11, sem respiração de Kussmaul. Exames: glicemia 920 mg/dL, sódio 150 mEq/L, pH arterial 7,34, bicarbonato 20 mEq/L, cetonúria ausente/traços, osmolaridade sérica calculada 340 mOsm/kg, creatinina 2,1 mg/dL. Qual é o diagnóstico mais provável?
Correta: o estado hiperglicêmico hiperosmolar define-se por glicemia > 600 mg/dL, osmolaridade efetiva > 320 mOsm/kg, pH > 7,30, bicarbonato > 18 mEq/L e cetose ausente/mínima, tipicamente em idoso com DM2 e rebaixamento por hiperosmolaridade — exatamente o quadro (glicemia 920, osm 340, pH 7,34, HCO3 20, sem cetose relevante). CAD exige pH ≤ 7,30, bicarbonato baixo e cetose significativa — aqui o pH e o bicarbonato estão preservados e não há cetonemia, afastando componente cetoacidótico. Acidose láctica cursaria com ânion-gap elevado por lactato e não explica a hiperglicemia extrema com osmolaridade de 340. Diabetes insipidus causa poliúria hipotônica, não hiperglicemia de 920 mg/dL com cetose ausente — não é o mecanismo primário.
Mulher, 32 anos, diabética tipo 1, chega ao pronto-socorro com poliúria, polidipsia, náuseas e hálito cetônico. Exames: glicemia 410 mg/dL, pH arterial 7,15, bicarbonato 12 mEq/L, ânion-gap 22, cetonemia fortemente positiva, potássio 4,5 mEq/L. Qual das medidas abaixo é a PRIMEIRA a ser realizada no manejo inicial?
Correta: o primeiro passo no manejo da cetoacidose diabética é sempre a reposição volêmica com salina isotônica (NaCl 0,9%), que corrige a hipovolemia, melhora a perfusão e já reduz parcialmente a glicemia; insulina e demais medidas vêm em seguida. Bicarbonato só é indicado em CAD com pH < 6,9, não neste pH de 7,15. A insulina é fundamental, mas vem APÓS iniciar a hidratação e conferir o potássio — não é o primeiro passo. Soro glicosado só entra quando a glicemia cai para ~200–250 mg/dL, não no início com glicemia de 410. Com potássio de 4,5 mEq/L (normal), não há indicação de repô-lo primeiro; a hidratação precede.
Mulher, 24 anos, diabética tipo 1, chega ao pronto-socorro com náuseas, vômitos e dor abdominal há 1 dia após parar a insulina. Glicemia 480 mg/dL, pH 7,12, bicarbonato 8 mEq/L (VR 22–26) e cetonúria 3+. Iniciada hidratação com soro fisiológico 0,9%. Demais exames: K+ 3,1 mEq/L (VR 3,5–5,0), Na+ 134 mEq/L, creatinina 1,1 mg/dL, diurese presente. Qual a conduta mais adequada em relação à insulinoterapia neste momento?
Correta: Pelo protocolo (ADA/SBD), com K+ < 3,3 mEq/L a insulina deve ser ADIADA, pois ela desloca potássio para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave com arritmia; repõe-se potássio até K+ ≥ 3,3 mEq/L e só então inicia-se a insulina. Errada: iniciar insulina com K+ 3,1 é justamente o erro perigoso que o corte busca evitar. Errada: bicarbonato só é considerado com pH < 6,9. Errada: reposição de potássio junto da insulina é a conduta da faixa K+ 3,3–5,2, não quando K+ < 3,3. Errada: bolus é dispensável na maioria dos protocolos e omitir potássio em paciente hipocalêmico é conduta insegura.
Homem, 72 anos, hipertenso, trazido pela família por rebaixamento do nível de consciência há 2 dias, precedido de poliúria intensa e ingesta hídrica reduzida. PA 100/60 mmHg, FC 110 bpm, mucosas secas, Glasgow 12. Glicemia 820 mg/dL, pH 7,33, bicarbonato 19 mEq/L (VR 22–26), cetonúria em traços, osmolalidade sérica 340 mOsm/kg (VR 285–295) e Na+ 148 mEq/L. Qual o diagnóstico mais provável?
Correta: o quadro reúne os critérios do estado hiperglicêmico hiperosmolar: glicemia > 600 mg/dL, osmolalidade > 320 mOsm/kg, pH > 7,30, bicarbonato > 18 mEq/L, cetose ausente/mínima e alteração do sensório, tipicamente em idoso com desidratação. Errada: pH > 7,30, bicarbonato > 18 e ausência de cetose significativa afastam cetoacidose. Errada: a cetoacidose euglicêmica cursa com glicemia próxima do normal e acidose com cetose, o oposto do caso. Errada: não há hiperlactatemia nem foco séptico, e a hiperglicemia extrema explica o quadro. Errada: o diabetes insipidus causa poliúria hipotônica sem hiperglicemia acentuada nem hiperosmolaridade por glicose.
Mulher, 30 anos, diabética tipo 1, procura o pronto-socorro com náuseas, vômitos e hálito cetônico. Glicemia 510 mg/dL, pH 7,10, bicarbonato 9 mEq/L (VR 22–26), cetonúria 3+. Ao exame: PA 100/60 mmHg, FC 108 bpm, mucosas desidratadas e turgor cutâneo diminuído. Qual a PRIMEIRA medida terapêutica a ser instituída?
Correta: a primeira medida na cetoacidose diabética é a reposição volêmica com soro fisiológico 0,9%, que restaura a perfusão, reduz a hiperglicemia por diluição/melhora da filtração e antecede a insulina. Errada: a insulina é iniciada após o início da hidratação e conhecimento do potássio, pois pode agravar hipocalemia. Errada: bicarbonato só é indicado com pH < 6,9. Errada: potássio só é reposto após dosagem, quando K+ < 5,2 mEq/L com diurese presente. Errada: glicose hipertônica não tem indicação em paciente hiperglicêmico; a glicose só entra na solução quando a glicemia cai para ~200 mg/dL.
Homem, 22 anos, diabético tipo 1, apresenta há 3 dias poliúria e vômitos repetidos, com interrupção da insulina. Chega ao pronto-socorro desidratado e taquipneico. PA 96/58 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm, T 36,8 °C. Exames: glicemia 480 mg/dL; cetonúria 3+; Na+ 138 mEq/L; K+ 3,4 mEq/L; Cl- 88 mEq/L; pH 7,29 (VR 7,35-7,45); PaCO2 30 mmHg (VR 35-45); HCO3- 14 mEq/L (VR 22-26). Considerando o ânion-gap e a relação delta/delta, o distúrbio ácido-base é:
Correta: Ânion-gap = Na+ - (Cl- + HCO3-) = 138 - (88 + 14) = 36 mEq/L (elevado; VR ~8-12), confirmando acidose metabólica com AG alto (cetoacidose diabética). A chave está na relação delta/delta: ΔAG = 36 - 12 = 24 e ΔHCO3- = 24 - 14 = 10, razão = 2,4 (>2). Razão >2 indica que o HCO3- caiu MENOS do que o esperado pela elevação do AG, revelando alcalose metabólica oculta (pelos vômitos) — confirmada pelo HCO3- corrigido (14 + 24 = 38, elevado). Erra: ignora o delta/delta e o HCO3- corrigido alto, perdendo a alcalose associada; a PaCO2 (Winter: 1,5×14+8 ≈ 29) está adequada, mas isso não exclui a alcalose metabólica concomitante. Erra: a PaCO2 está baixa (compensatória), não elevada. Erra: o AG está claramente elevado, não é acidose hiperclorêmica. Erra: a PaCO2 está dentro do previsto pela fórmula de Winter, sem alcalose respiratória sobreposta.
Homem, 24 anos, diabético tipo 1, chega com dor abdominal, vômitos e respiração de Kussmaul. Exames: glicemia 480 mg/dL, pH 7,08, bicarbonato 8 mEq/L, cetonemia positiva, potássio sérico 3,1 mEq/L (VR 3,5–5,0), creatinina 1,1 mg/dL. Iniciada hidratação vigorosa com soro fisiológico. A equipe pergunta sobre o início da insulinoterapia. Qual é a conduta mais adequada neste momento?
Correta: Na cetoacidose diabética há déficit corporal total de potássio mesmo quando o valor sérico está normal ou alto; um potássio de entrada já baixo (< 3,3 mEq/L) contraindica iniciar insulina de imediato, pois a insulina desloca ainda mais potássio para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave com arritmia/parada. A conduta é repor potássio primeiro e só liberar a insulina quando K > 3,3 mEq/L. Iniciar insulina com K 3,1 é o erro clássico e perigoso. Bicarbonato só é considerado com pH < 6,9 e piora a hipocalemia — não indicado aqui. Cálcio protege o miocárdio na HIPERcalemia, situação oposta à do paciente. Solução glicosada isolada não corrige o distúrbio eletrolítico central do manejo da CAD.
Mulher, 22 anos, portadora de diabetes melito tipo 1, é levada ao pronto-socorro com náuseas, dor abdominal, poliúria e polidipsia há 2 dias, após interromper a insulina. Ao exame: desidratada, respiração profunda e ampla, FC 118 bpm, PA 100x60 mmHg, FR 28 ipm. Glicemia capilar 480 mg/dL. Gasometria arterial: pH 7,18 (VR 7,35–7,45), pCO2 22 mmHg (VR 35–45), HCO3 9 mEq/L (VR 22–26). Eletrólitos: Na 138 mEq/L, Cl 100 mEq/L, K 5,2 mEq/L. A interpretação correta do distúrbio ácido-base é:
Passo 1 — ânion-gap = Na − (Cl + HCO3) = 138 − (100 + 9) = 29 mEq/L (VR ~8–12), portanto acidose metabólica de AG elevado, compatível com cetoacidose diabética. Passo 2 — a compensação respiratória esperada pela fórmula de Winter é pCO2 = 1,5 × HCO3 + 8 ± 2 = 1,5 × 9 + 8 = 21,5 ± 2 (19,5–23,5 mmHg); o pCO2 medido de 22 mmHg está dentro do previsto, confirmando compensação adequada, sem distúrbio respiratório sobreposto. Errada: o AG está elevado (29), não normal. Errada: haveria acidose respiratória associada se o pCO2 estivesse ACIMA do esperado (~>25); aqui está dentro do previsto. Errada: alcalose respiratória primária exigiria pCO2 abaixo do esperado por Winter, o que não ocorre. Errada: o distúrbio primário é metabólico (HCO3 e pH baixos com hiperventilação compensatória), não respiratório.
Homem, 19 anos, com diabetes mellitus tipo 1 há 3 anos, é levado ao pronto-socorro com vômitos, dor abdominal e sonolência após interromper a insulina há 2 dias por quadro gripal. Exame: desidratado, respiração de Kussmaul, PA 100x60 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm. Glicemia 480 mg/dL; gasometria arterial pH 7,10; HCO3 8 mEq/L; ânion-gap 24; cetonemia positiva. Eletrólitos: Na 134 mEq/L; K 3,1 mEq/L (VR 3,5–5,0). Iniciada reposição volêmica vigorosa com salina 0,9%. Qual é a conduta CORRETA em relação ao potássio e à insulina neste momento?
Na cetoacidose diabética o potássio corporal total está sempre depletado, mesmo quando o sérico está normal, pela acidose e diurese osmótica. Com K < 3,3 mEq/L, a insulina desloca potássio para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave com arritmia e parada — por isso a diretriz manda REPOR potássio primeiro e adiar a insulina até K ≥ 3,3 mEq/L (opção correta). Iniciar insulina com K de 3,1 é contraindicado justamente pelo risco de hipocalemia fatal. Bicarbonato só é considerado em pH < 6,9; em pH 7,10 não há benefício e há risco de hipocalemia e acidose liquórica paradoxal. O tratamento da CAD grave (pH 7,10) exige insulina EV em infusão contínua, não esquema subcutâneo intermitente. Glicose só é adicionada quando a glicemia cai para ~200 mg/dL durante a insulinoterapia, não como medida inicial com glicemia de 480.
Homem, 22 anos, diabético tipo 1, admitido com náuseas, vômitos e dor abdominal difusa há 1 dia após interromper a insulina por conta própria. Ao exame: PA 100/60 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm com padrão de Kussmaul, afebril, mucosas desidratadas. Glicemia capilar 512 mg/dL. Gasometria arterial: pH 7,08, HCO3 6 mEq/L, ânion-gap 28. Cetonúria 3+. Na 134 mEq/L, K 3,0 mEq/L (VR 3,5-5,0), creatinina 1,3 mg/dL. Iniciada reposição volêmica com soro fisiológico 0,9%. Qual o próximo passo no manejo?
Correta: Na CAD, potássio < 3,3 mEq/L contraindica temporariamente a insulina, pois esta desloca K+ para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave com arritmia/parada respiratória. A conduta é repor potássio primeiro e só iniciar insulina quando K ≥ 3,3 mEq/L. Iniciar insulina com K 3,0 é justamente o erro que pode ser fatal. Bicarbonato só é considerado com pH < 6,9 pelas diretrizes atuais (ADA), não < 7,1, e não melhora desfecho. Reposição rotineira de fosfato não é recomendada e não precede a insulina; só se fosfato < 1,0 mg/dL com disfunção; além disso não corrige o problema imediato do potássio.
Homem, 30 anos, diabético tipo 1, em tratamento de cetoacidose diabética há 4 horas com soro fisiológico 0,9% e insulina regular EV 0,1 U/kg/h. Reavaliação: glicemia caiu de 480 para 238 mg/dL, gasometria com pH 7,22, HCO3 12 mEq/L, ânion-gap 20 (persistentemente elevado), cetonúria ainda 2+, K 4,2 mEq/L. Paciente consciente, hemodinamicamente estável. Qual a conduta mais adequada neste momento?
Correta: Quando a glicemia atinge ~200-250 mg/dL na CAD, mas a acidose ainda não resolveu (ânion-gap elevado, cetose persistente, HCO3 baixo), deve-se adicionar soro glicosado 5% e reduzir/ajustar a insulina para mantê-la em infusão sem causar hipoglicemia — a insulina é necessária para suprimir a cetogênese. Suspender insulina interrompe a correção da cetose e faz o ânion-gap voltar a subir. Transição para SC só é feita após critérios de resolução (glicemia < 200 E dois de: HCO3 ≥ 15, pH > 7,3, ânion-gap ≤ 12), ainda não atingidos. Aumentar a insulina sem glicose precipitaria hipoglicemia.
Mulher, 19 anos, diabética tipo 1, apresenta há 3 dias poliúria, polidipsia intensa e perda de peso, com piora após um quadro de infecção de vias aéreas superiores. Chega ao pronto-socorro sonolenta, com respiração profunda e rápida (Kussmaul) e hálito com odor de fruta. PA 95/60 mmHg, FC 122 bpm, FR 30 ipm, afebril. Glicemia capilar 468 mg/dL. Gasometria: pH 7,12, HCO3 8 mEq/L, ânion-gap 24. Cetonúria 3+, osmolaridade sérica 305 mOsm/kg. Qual o diagnóstico mais provável?
Correta: o quadro é clássico de cetoacidose diabética: diabético tipo 1 jovem, fator precipitante infeccioso, hiperglicemia (468 mg/dL), acidose metabólica com ânion-gap elevado (pH 7,12, HCO3 8, AG 24), cetonúria 3+ e respiração de Kussmaul com hálito cetônico. O estado hiperosmolar cursa com glicemia geralmente > 600 mg/dL, osmolaridade > 320 mOsm/kg, pH > 7,30 e cetose ausente/mínima — típico de idosos com DM2. Acidose lática não cursa com hiperglicemia e cetonúria marcantes. Cetose de jejum não gera glicemia elevada nem acidose grave. Intoxicação por salicilato causa distúrbio misto (alcalose respiratória + acidose metabólica), sem hiperglicemia e cetonúria maciça.
Homem, 24 anos, diabético tipo 1, suspendeu a insulina há 3 dias e evoluiu com vômitos incoercíveis nas últimas 48 horas. Ao exame: desidratado, taquipneico, glicemia capilar 'HI', cetonúria 3+. Exames: Na 138 mEq/L, K 4,5 mEq/L, Cl 92 mEq/L, HCO3 18 mEq/L. Gasometria arterial: pH 7,35, PaCO2 33 mmHg. Qual é a interpretação ácido-base MAIS completa?
Correta: o ânion-gap = 138 - (92 + 18) = 28 mEq/L (elevado), confirmando a acidose metabólica cetoacidótica. A chave é o delta-delta (delta-ratio): delta-AG = 28 - 12 = 16 e delta-HCO3 = 24 - 18 = 6, resultando em razão 16/6 = 2,7 (>2). Razão >2 indica que a queda do HCO3 foi MENOR do que o esperado pelo consumo de ânions — há um distúrbio que 'sustenta' o bicarbonato: uma alcalose metabólica concomitante, explicada pela perda de HCl nos vômitos. A compensação respiratória é adequada (Winter: 1,5 x 18 + 8 = 35 ± 2; PaCO2 33 dentro da faixa), afastando componente respiratório. Errada: é a pegadinha — ignora o delta-ratio e perde a alcalose oculta. Errada: acidose com AG normal associada exigiria delta-ratio <1 (queda de HCO3 maior que o esperado), o oposto do encontrado. Errada: a PaCO2 está adequada por Winter, não caracterizando alcalose respiratória (padrão da intoxicação por salicilato, ausente aqui). Errada: sem distúrbio respiratório, não há terceiro componente.
Homem, 19 anos, universitário, portador de diabetes mellitus tipo 1 há 4 anos, é trazido ao pronto-socorro com dor abdominal, vômitos e respiração profunda há 1 dia, após interromper a insulina por conta própria. Ao exame: desidratado, ritmo respiratório de Kussmaul, FC 118 bpm, PA 100/60 mmHg, FR 28 ipm, SatO2 97%. Exames: glicemia 480 mg/dL, pH arterial 7,08, HCO3- 8 mEq/L, cetonúria 3+, sódio 134 mEq/L, potássio 3,1 mEq/L (VR 3,5-5,0). Iniciada reposição volêmica com soro fisiológico 0,9%. Em relação à insulinoterapia neste momento, a conduta correta é:
Correta: Na cetoacidose diabética, quando o potássio inicial está abaixo de 3,3 mEq/L, a insulina DEVE ser adiada, pois ela desloca o K+ para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave com arritmia; repõe-se potássio (e mantém-se a hidratação) até K+ >= 3,3 mEq/L, e só então inicia-se a insulina. O caso traz K+ 3,1. Erram porque iniciam insulina com potássio proibitivo (o bolus inicial, aliás, é hoje dispensável). Bicarbonato só é considerado se pH < 6,9 — aqui o pH é 7,08. A via de escolha na CAD é a EV em bomba de infusão, não SC.
Mulher, 24 anos, diabética tipo 1, suspendeu a insulina há 3 dias por um quadro gripal. Chega ao pronto-socorro com dor abdominal, vômitos e respiração profunda e ampla. PA 100/60 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm, SatO2 98%, T 36,8 °C. Exames: glicemia 482 mg/dL, pH 7,05, HCO3 8 mEq/L (VR 22-26), ânion-gap 24 mEq/L, cetonemia positiva, sodio 134 mEq/L (VR 135-145), potassio 3,0 mEq/L (VR 3,5-5,0). Iniciada reposicao volemica com soro fisiologico 0,9%. Qual e a conduta imediata mais adequada na sequencia do tratamento?
Gabarito: o quadro e cetoacidose diabetica (glicemia >250, pH 7,05, HCO3 8, anion-gap elevado, cetonemia positiva). A regra determinante aqui e o potassio: com K+ 3,0 mEq/L (< 3,3), a insulina esta CONTRAINDICADA de inicio, pois desloca potassio para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave e arritmia fatal. Deve-se repor KCl e so iniciar a insulina quando K+ >= 3,3 mEq/L (a hidratacao ja foi iniciada). Iniciar insulina com K+ 3,0 e o erro classico — agravaria a hipocalemia. Bicarbonato so e indicado se pH < 6,9; com pH 7,05 nao ha beneficio e ha risco de hipocalemia/alcalose paradoxal. Soro glicosado so entra quando a glicemia cai para <200-250 mg/dL, para permitir manter a insulina sem hipoglicemia — a glicemia aqui e 482. Insulina SC em bolus nao e a via de escolha na CAD com instabilidade/acidose grave (absorcao erratica) e, alem disso, esbarra na mesma contraindicacao pela hipocalemia.
Um homem de 22 anos com diabetes mellitus tipo 1 há oito anos é trazido ao pronto-socorro de uma UPA com náuseas, vômitos e dor abdominal iniciados há um dia. O irmão informa que ele interrompeu a insulina há três dias por falta na farmácia. Ao exame, está sonolento, desidratado, com respiração profunda e ritmada, hálito cetônico, PA 96x60 mmHg e FC 118 bpm. A glicemia capilar é de 486 mg/dL, a gasometria arterial mostra pH 7,08 e bicarbonato 8 mEq/L, e há cetonúria de 3+. O potássio sérico é de 4,2 mEq/L. Quais são, respectivamente, o diagnóstico e a conduta inicial mais adequada?
Hiperglicemia (> 250 mg/dL), acidose metabólica (pH < 7,3 e bicarbonato baixo) e cetonúria em paciente com DM1 que suspendeu insulina definem cetoacidose diabética. A prioridade é a reposição volêmica com soro fisiológico 0,9%, seguida de insulina regular endovenosa contínua, sempre monitorando e repondo potássio (que cai com a insulinoterapia). O bicarbonato não é rotina e só é considerado em acidose muito grave (pH < 6,9), nunca como primeira medida. Estado hiperglicêmico hiperosmolar ocorre no DM2, sem acidose importante e com hiperosmolaridade acentuada. NPH subcutânea com alta é inadequada e perigosa em emergência metabólica.
Homem de 72 anos, portador de diabetes mellitus tipo 2 em uso de gliclazida, é levado por familiares à UPA com rebaixamento progressivo do nível de consciência há três dias, precedido de poliúria intensa, adinamia e recusa alimentar. Relatam quadro de disúria e febre baixa na última semana. Ao exame: Glasgow 12, mucosas muito secas, turgor cutâneo reduzido, PA 88/58 mmHg, FC 120 bpm, sem respiração de Kussmaul e sem hálito cetônico. Exames: glicemia 920 mg/dL, sódio 148 mEq/L, ureia 92 mg/dL, pH arterial 7,34, bicarbonato 20 mEq/L, cetonúria ausente, osmolaridade plasmática calculada de 375 mOsm/kg. Qual é o diagnóstico mais provável?
O quadro reúne os critérios do estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH): glicemia muito elevada (> 600 mg/dL), osmolaridade > 320 mOsm/kg, pH > 7,30, bicarbonato > 18 mEq/L, ausência de cetose significativa e rebaixamento de consciência com desidratação profunda, tipicamente em idoso com DM2 e fator precipitante infeccioso. Errada porque na cetoacidose há acidose metabólica (pH < 7,30), bicarbonato baixo e cetonúria/cetonemia, ausentes aqui. A cetoacidose euglicêmica cursa com glicemia normal ou pouco elevada, o oposto deste caso. A acidose láctica exigiria acidose metabólica com hiperlactatemia, incompatível com pH 7,34 e bicarbonato de 20.
Homem de 24 anos, com diabetes mellitus tipo 1, chega ao pronto-socorro de um hospital do SUS com dor abdominal, vômitos, respiração profunda e desidratação após interromper a insulina por falta na farmácia. Exames iniciais: glicemia 480 mg/dL, pH arterial 7,10, bicarbonato 8 mEq/L, cetonúria +++ e potássio sérico de 3,0 mEq/L. A equipe já iniciou a expansão volêmica com soro fisiológico 0,9%. Considerando o resultado do potássio, qual é a conduta mais adequada neste momento?
Na cetoacidose diabética, a insulina desloca potássio para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave e arritmias. Com potássio < 3,3 mEq/L, deve-se adiar a insulina e repor potássio primeiro, mantendo-o acima desse valor antes de iniciar/continuar a insulina. O bolus de insulina com potássio de 3,0 é perigoso e desnecessário; a infusão contínua só começa após corrigir o potássio. O bicarbonato não é recomendado de rotina, sendo reservado a pH < 6,9, e pioraria a hipocalemia. Não repor potássio já baixo ao iniciar insulina agravaria a hipocalemia com risco de parada cardíaca.
Mulher de 32 anos, com diabetes mellitus tipo 1, está internada em enfermaria do SUS em tratamento de cetoacidose diabética. Recebeu expansão volêmica, insulina regular em infusão contínua e reposição de potássio. Após algumas horas, mantém-se orientada, com melhora da desidratação. Nova avaliação laboratorial mostra glicemia de 210 mg/dL, porém persistem pH 7,20, bicarbonato 12 mEq/L e ânion-gap elevado, com cetonúria ainda presente. Qual é a conduta mais apropriada neste momento?
Na cetoacidose, quando a glicemia cai para cerca de 200-250 mg/dL mas a acidose e o ânion-gap ainda não se resolveram, deve-se acrescentar soro glicosado a 5% e manter a insulina, necessária para cessar a cetogênese; a insulina é titulada, não suspensa, e a glicose evita hipoglicemia. Suspender a insulina interromperia a correção da cetoacidose, ainda ativa. A resolução exige critérios bioquímicos (bicarbonato ≥ 15-18, pH > 7,30, fechamento do ânion-gap), ainda não atingidos. O bicarbonato não é indicado com pH 7,20, sendo reservado a pH < 6,9.
Uma mulher de 24 anos, com diabetes mellitus tipo 1 diagnosticado há 8 anos, é levada à unidade de pronto atendimento com dor abdominal difusa, náuseas e vômitos há 2 dias, após interromper a insulina por conta própria. Ao exame: desidratada, taquipneica com respiração profunda, hálito cetônico, PA 100/60 mmHg, FC 120 bpm, FR 28 irpm, glicemia capilar 480 mg/dL. A gasometria arterial mostra pH 7,12, bicarbonato 8 mEq/L e a fita urinária revela cetonúria (+++). Considerando o quadro, qual é a conduta inicial mais adequada?
Correta: na cetoacidose diabética, a prioridade é a reposição volêmica com salina isotônica; a insulina só deve ser iniciada após confirmar potássio ≥ 3,3 mEq/L, pois a insulina agrava a hipocalemia (risco de arritmia). Errada: reposição de volume precede a insulina, e bolus de insulina isolado sem hidratação é inadequado e perigoso. Errada: bicarbonato não é recomendado de rotina, reservado a pH < 6,9. Errada: glicose 5% só entra quando a glicemia cai a ~200-250 mg/dL, ainda com insulina, não como medida inicial.
Um homem de 32 anos, sabidamente diabético tipo 1, comparece à emergência de uma UPA com poliúria, polidipsia, dor abdominal e vômitos iniciados há 24 horas, relatando ter esquecido de aplicar a insulina nos últimos dias. Ao exame apresenta-se lúcido, desidratado, taquipneico, com hálito adocicado. Os exames mostram: glicemia 520 mg/dL, pH arterial 7,10, bicarbonato 9 mEq/L, cetonemia positiva e ânion gap elevado. Qual é o diagnóstico mais provável?
Correta: a tríade hiperglicemia (> 250 mg/dL), acidose metabólica (pH < 7,3 e bicarbonato baixo) com ânion gap elevado e cetonemia/cetonúria em paciente jovem com DM1 e omissão de insulina define cetoacidose diabética. Errada: no estado hiperglicêmico hiperosmolar há glicemia muito mais elevada (geralmente > 600 mg/dL), pH > 7,3, bicarbonato > 18 e ausência de cetose significativa, típico de idosos com DM2. Errada: acidose láctica não cursa com cetonemia e hiperglicemia por omissão de insulina. Errada: cetose de jejum não produz hiperglicemia nem acidose grave.
Uma mulher de 68 anos, com diabetes mellitus tipo 2 e hipertensão, é trazida por familiares a uma unidade de emergência com rebaixamento progressivo do nível de consciência há 3 dias, precedido de quadro infeccioso respiratório. Ao exame: torporosa, mucosas muito secas, PA 90/50 mmHg, FC 110 bpm, sem hálito cetônico. Exames: glicemia 890 mg/dL, sódio 150 mEq/L, pH arterial 7,32, bicarbonato 20 mEq/L, cetonúria ausente/traços e osmolaridade sérica calculada de 340 mOsm/kg. Além da hidratação venosa vigorosa, qual conduta complementar é essencial neste caso?
Correta: o quadro é estado hiperglicêmico hiperosmolar (glicemia > 600 mg/dL, osmolaridade > 320 mOsm/kg, pH > 7,3, ausência de cetose importante, idoso com DM2). A infecção é o precipitante mais comum e seu tratamento é essencial junto à hidratação e insulina EV. Errada: não há acidose significativa a corrigir. Errada: a insulinoterapia é feita por via endovenosa contínua após início da hidratação, não NPH subcutânea. Errada: o pilar do tratamento é justamente a reposição volêmica agressiva pela desidratação profunda; a correção deve ser gradual, mas não se restringe líquido.
Uma mulher de 22 anos, com diabetes mellitus tipo 1 há oito anos, é levada à UPA por familiares. Relatam que ela suspendeu a insulina há três dias por dificuldade de acesso à medicação e, desde então, apresenta poliúria, polidipsia, vômitos repetidos e dor abdominal difusa. Ao exame: regular estado geral, sonolenta mas responsiva, mucosas muito secas, turgor cutâneo diminuído, respiração ampla e profunda, hálito cetônico, PA 90x60 mmHg, FC 124 bpm, FR 28 irpm, temperatura axilar 36,4 °C. Exames colhidos na admissão: glicemia capilar 480 mg/dL, gasometria arterial com pH 7,10 e bicarbonato 8 mEq/L, sódio 132 mEq/L, potássio 3,0 mEq/L, cetonúria +++/4. Qual é a conduta inicial mais adequada?
Correta: na cetoacidose diabética, a insulina desloca potássio para o meio intracelular; com caliemia inicial < 3,3 mEq/L há risco de hipocalemia grave, arritmias e parada respiratória. As diretrizes (SBD/Ministério da Saúde) determinam hidratação com SF 0,9% e reposição de potássio antes de iniciar a insulina, retomando-a quando K ≥ 3,3 mEq/L. Alternativa 2: iniciar insulina com K de 3,0 mEq/L é justamente o erro que precipita hipocalemia grave. Alternativa 3: bicarbonato só é considerado com pH < 6,9, e a via subcutânea não é adequada na cetoacidose com instabilidade e desidratação. Alternativa 4: insulina NPH não trata cetoacidose, e adiar a reposição de potássio é inaceitável.
Um jovem de 19 anos, com diabetes mellitus tipo 1 diagnosticado na infância, procura a unidade de pronto atendimento acompanhado da mãe. Ela informa que ele teve um quadro de vômitos e diarreia há dois dias e, desde então, vem apresentando poliúria, polidipsia intensa, dor abdominal e prostração progressiva. Ao exame físico: regular estado geral, desidratado, sonolento, hálito cetônico, respiração ampla e profunda, PA 100x60 mmHg, FC 116 bpm, FR 30 irpm, abdome difusamente doloroso, sem sinais de irritação peritoneal. Exames: glicemia 420 mg/dL, gasometria arterial com pH 7,15 e bicarbonato 10 mEq/L, ânion gap 24 mEq/L, cetonemia positiva e cetonúria +++/4. Qual é o diagnóstico?
Correta: a tríade diagnóstica da cetoacidose diabética está completa — hiperglicemia (> 250 mg/dL), acidose metabólica com ânion gap elevado (pH 7,15 e bicarbonato 10 mEq/L) e cetonemia/cetonúria, em paciente com diabetes tipo 1 e fator precipitante (gastroenterite com omissão/insuficiência de insulina). Respiração de Kussmaul, hálito cetônico e dor abdominal completam o quadro clássico. Alternativa 2: no estado hiperglicêmico hiperosmolar a glicemia costuma ultrapassar 600 mg/dL, com osmolalidade > 320 mOsm/kg, sem cetose e sem acidose relevante, e acomete sobretudo idosos com diabetes tipo 2. Alternativa 3: o paciente tem diabetes tipo 1 e não usa metformina, além de apresentar cetonemia franca. Alternativa 4: não há história de ingestão de salicilato, e a intoxicação cursa com alcalose respiratória associada, zumbido e sem cetonúria maciça.
Adolescente de 16 anos, sexo masculino, com diabetes mellitus tipo 1 há três anos, é levado à Unidade de Pronto Atendimento pela mãe por vômitos e dor abdominal há 12 horas. Ela refere que o filho interrompeu as aplicações de insulina há dois dias, após quadro de infecção de vias aéreas superiores na semana anterior. Ao exame físico: sonolento, mucosas secas, desidratado (++/4+), respiração profunda e ritmada, hálito cetônico, PA 100/60 mmHg, FC 122 bpm, FR 28 irpm, temperatura axilar 36,8 °C. Glicemia capilar 480 mg/dL. Gasometria arterial: pH 7,12; bicarbonato 8 mEq/L; ânion gap 24. Cetonúria 3+. Sódio 132 mEq/L e potássio 3,1 mEq/L. Qual é, respectivamente, o diagnóstico e a conduta imediata?
O quadro é clássico de cetoacidose diabética (glicemia > 250 mg/dL, pH < 7,30, bicarbonato < 15 mEq/L, ânion gap elevado e cetonúria), desencadeada por omissão de insulina e infecção. O ponto de decisão é o potássio de 3,1 mEq/L: a insulina desloca potássio para o intracelular e pode precipitar hipocalemia grave com arritmia e parada respiratória. Por isso, diretrizes brasileiras (SBD) e internacionais determinam hidratação com SF 0,9% e reposição de potássio, postergando a insulina até K ≥ 3,3 mEq/L. Erra porque bicarbonato só é considerado com pH < 6,9. Erra ao iniciar insulina com potássio abaixo do limiar de segurança e ao adiar a reposição. Erra: o diagnóstico: há acidose e cetose francas, e o estado hiperglicêmico hiperosmolar cursa sem cetoacidose significativa e com osmolaridade muito elevada.
Uma mulher de 22 anos, com diabetes mellitus tipo 1 desde os 14 anos, é levada ao pronto-socorro de uma UPA por familiares, com vômitos, dor abdominal difusa e sonolência há um dia. Relata ter interrompido as aplicações de insulina há três dias por falta do medicamento e refere disúria há uma semana. Ao exame: regular estado geral, desidratada (3+/4+), respiração de Kussmaul, hálito cetônico, PA 100x60 mmHg, FC 122 bpm, FR 28 irpm, Tax 37,8 °C, sonolenta, porém responsiva; glicemia capilar 480 mg/dL. Exames: pH 7,08; bicarbonato 8 mEq/L; ânion gap 24; sódio 134 mEq/L; potássio 3,0 mEq/L; cetonúria 3+; diurese presente. Foi iniciada hidratação endovenosa com solução fisiológica a 0,9%. Nesse momento, a conduta correta quanto à insulinoterapia é
Trata-se de cetoacidose diabética grave (pH 7,08; bicarbonato 8; ânion gap elevado; cetonúria 3+) desencadeada por suspensão da insulina e provável infecção urinária. O ponto central é o potássio de 3,0 mEq/L: apesar do déficit corporal total de potássio, a acidose e a insulinopenia deslocam o íon para o extracelular, de modo que um potássio já baixo na admissão sinaliza depleção grave. A insulina promove entrada rápida de potássio na célula e pode precipitar hipocalemia grave, com arritmias e fraqueza da musculatura respiratória. Por isso, os protocolos brasileiros (SBD/Ministério da Saúde) e as diretrizes internacionais recomendam: com K < 3,3 mEq/L, ADIAR a insulina, manter a hidratação e repor potássio (20-30 mEq/h) até K ≥ 3,3 mEq/L. Errada porque inicia insulina com K < 3,3, exatamente o cenário de risco. Errada porque bicarbonato não é recomendado com pH ≥ 6,9 e, isoladamente, agrava a hipocalemia. Errada porque a via subcutânea não é adequada na cetoacidose grave com desidratação/má perfusão, e a insulina — por qualquer via — permanece contraindicada até a correção do potássio.
Mulher de 24 anos, com diabetes melito tipo 1 há 8 anos, é levada à unidade de pronto atendimento com náuseas, vômitos e dor abdominal há dois dias, após interromper as aplicações de insulina por desabastecimento do medicamento. Ao exame: regular estado geral, consciente e orientada, desidratada (2+/4+), respiração de Kussmaul, hálito cetônico, PA 100x60 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 irpm, Tax 36,5 °C. Glicemia capilar 480 mg/dL. Exames: pH 7,10; bicarbonato 8 mEq/L; ânion gap 24 mEq/L; sódio 134 mEq/L; potássio 3,1 mEq/L; cloro 102 mEq/L; creatinina 1,1 mg/dL; cetonúria 3+. Foi iniciada hidratação endovenosa com solução salina isotônica a 0,9%. Considerando o quadro, qual é a conduta adequada neste momento?
Trata-se de cetoacidose diabética (hiperglicemia, acidose metabólica com ânion gap elevado e cetonúria) desencadeada por omissão de insulina. O ponto decisivo é o potássio de 3,1 mEq/L: apesar do déficit corporal total de potássio, a acidose desloca o íon para o extracelular, de modo que uma caliemia já baixa na admissão indica depleção grave. A insulina empurra o potássio para dentro da célula e pode precipitar hipocalemia grave, arritmias e parada cardíaca — por isso as diretrizes brasileiras (SBD) e internacionais determinam reposição de KCl e adiamento da insulina até K ≥ 3,3 mEq/L, mantendo a hidratação. Errada porque inicia insulina com potássio abaixo do limiar de segurança, aguardando a arritmia que se pretende evitar. Errada porque bicarbonato só é considerado com pH < 6,9; com pH 7,10 a correção vem da hidratação e da insulina, e a alcalinização indevida agrava a hipocalemia e a acidose liquórica. Errada porque a glicose de 480 mg/dL ainda não justifica soro glicosado (reservado para glicemia ≈ 200-250 mg/dL) e a via subcutânea é inadequada na paciente desidratada e com má perfusão, na qual se indica insulina regular endovenosa contínua após a correção do potássio.
Homem de 63 anos com diabetes tipo 2, em uso de hidroclorotiazida, chega ao pronto-socorro com poliúria, vômitos e prostração. Glicemia 610 mg/dL, pH venoso 7,22, bicarbonato 13 mEq/L, cetonemia capilar 4,1 mmol/L, sódio 134, cloro 96, potássio 3,0 mEq/L, com diurese presente. Segundo o consenso internacional de 2024 sobre crises hiperglicêmicas em adultos, qual a conduta inicial?
A hipocalemia exige reposição antes da insulina, que reduz ainda mais o potássio circulante. O consenso de 2024 adota o limiar de 3,5 mEq/L. Reduzir a dose ou mudar a via não elimina esse risco; bicarbonato não está indicado neste pH. Fonte: https://link.springer.com/article/10.1007/s00125-024-06183-8
Homem de 58 anos com diabetes tipo 2 em uso de dapagliflozina, metformina e enalapril está no segundo dia de pós-operatório de colecistectomia videolaparoscópica, com náuseas, vômitos e ingestão alimentar mínima. Queixa-se de mal-estar e respiração 'pesada'. FR 26 irpm, PA 108x66 mmHg. Glicemia capilar 178 mg/dL. Gasometria venosa: pH 7,17, bicarbonato 11 mEq/L. Sódio 138, cloro 100, potássio 4,2 mEq/L. Cetonemia capilar 4,6 mmol/L. Qual a interpretação e a conduta?
O ânion-gap é 138 − (100 + 11) = 27 mEq/L, ou seja, acidose de ânion-gap alto — o que já afasta a acidose hiperclorêmica, que cursa com ânion-gap normal. A cetonemia de 4,6 mmol/L, acima do corte de 3,0, com pH 7,17 e bicarbonato 11, fecha cetoacidose mesmo com glicemia de 178 mg/dL: é a forma euglicêmica, definida pela diretriz brasileira como glicemia abaixo de 200 mg/dL com pH abaixo de 7,3, bicarbonato abaixo de 18 mEq/L, ânion-gap acima de 10–12 e cetonemia elevada. O contexto é o clássico: inibidor de SGLT2 somado a cirurgia, jejum e vômitos. O tratamento é o da cetoacidose com duas diferenças cobradas em prova — suspender o inibidor de SGLT2 na admissão e iniciar a solução com glicose junto da salina desde o começo, porque a insulina precisa correr para fechar a cetogênese e a glicemia já está baixa. Atribuir à metformina confunde com acidose lática, que não cursa com cetonemia elevada. Chamar de cetose de jejum subestima: ela não produz pH de 7,17. E afastar cetoacidose pela glicemia abaixo de 250 mg/dL comete exatamente o erro que dá nome à síndrome. Prevenção que também cai: suspender o inibidor de SGLT2 de 3 a 4 dias antes de cirurgia de grande porte.
Mulher de 78 anos, institucionalizada, com diabetes tipo 2, é levada ao pronto-socorro por confusão mental progressiva há quatro dias. Muito desidratada, Glasgow 12, sem hálito cetônico e sem taquipneia. Glicemia 940 mg/dL, sódio 152 mEq/L, potássio 4,4, cloro 112, bicarbonato 20 mEq/L, ureia 96 mg/dL, pH venoso 7,33, cetonemia capilar 0,8 mmol/L. Qual é a osmolalidade plasmática efetiva e o diagnóstico?
A osmolalidade plasmática efetiva é 2 × sódio + glicemia ÷ 18 = 2 × 152 + 940 ÷ 18 = 304 + 52,2 = 356,2 mOsm/L. A ureia entra apenas na osmolalidade total: 356,2 + 96 ÷ 2,8 = 390,5 mOsm/L — exatamente o valor de 390 oferecido como distrator, o clássico de trocar total por efetiva. A distinção não é acadêmica: a ureia atravessa livremente a membrana celular, distribui-se dos dois lados e não gera gradiente osmótico, ou seja, não desidrata a célula, e por isso o critério do estado hiperosmolar usa a efetiva. Os quatro critérios estão preenchidos: glicemia acima de 600 mg/dL, osmolalidade efetiva acima de 320 mOsmol/L pela diretriz brasileira (acima de 300 pelo consenso de 2024), cetonemia de 0,8 abaixo de 3,0 e ausência de acidose, com pH 7,33 e bicarbonato 20. O valor de 304 calcula apenas o dobro do sódio e ignora a glicose. E as duas opções de cetoacidose erram o diagnóstico: sem cetose e sem acidose não há cetoacidose, e o rebaixamento de consciência com osmolalidade efetiva acima de 320 é o padrão do estado hiperosmolar.
Homem de 30 anos em tratamento de cetoacidose diabética há 5 horas, com soro fisiológico e insulina regular em infusão contínua de 0,1 U/kg/h. A glicemia caiu de 520 para 235 mg/dL. Gasometria atual: pH 7,21, bicarbonato 13 mEq/L; cetonemia capilar 3,4 mmol/L; potássio 4,3 mEq/L. Qual a conduta?
A hiperglicemia se corrige antes da cetoacidose: a glicemia cai abaixo de 250 mg/dL em cerca de 4 a 8 horas, enquanto a acidose leva cerca de 12. Este paciente ainda tem pH 7,21, bicarbonato 13 e cetonemia de 3,4 mmol/L, ou seja, a cetose está aberta — e é a insulina que a fecha. Quando a glicemia chega à faixa de 200-250 mg/dL, o movimento é duplo e simultâneo: reduzir a infusão para 0,05 U/kg/h e acrescentar soro glicosado a 5%, titulando as duas infusões para manter a glicemia entre 150 e 200 mg/dL. Suspender a insulina — seja mantendo só a hidratação, seja passando de imediato ao esquema basal-bólus subcutâneo — desliga a droga com cetose ativa, o que reabre a cetogênese e é o erro mais comum do tema; a passagem ao subcutâneo ainda antecipa uma transição que só se faz após os critérios de resolução, e com sobreposição de 1 a 2 horas. Manter a insulina plena sem acrescentar glicose leva à hipoglicemia dentro de uma hora. Subir a infusão para 0,14 U/kg/h aumenta a dose sem necessidade: doses acima de 0,1 U/kg/h não derrubam a glicemia mais depressa porque os receptores já estão saturados, e o critério para dobrar a infusão é a glicemia não cair 50 mg/dL na primeira hora, o que não aconteceu aqui.
Mulher de 24 anos internada por cetoacidose diabética, em insulina intravenosa contínua. Após 14 horas: glicemia 165 mg/dL, pH venoso 7,34, bicarbonato 19 mEq/L, sódio 139, cloro 112 mEq/L, ânion-gap 8 mEq/L, cetonemia capilar 0,4 mmol/L. Está alerta e aceitando dieta. A cetonúria permanece 2+. Qual a conduta?
Os critérios de resolução estão preenchidos: glicemia abaixo de 200 mg/dL, pH acima de 7,30, bicarbonato acima de 18 mEq/L, ânion-gap abaixo de 12 e cetonemia resolvida — o consenso de 2024 usa cetona plasmática abaixo de 0,6 mmol/L, e ela está em 0,4. Manter a infusão até a cetonúria negativar usa um parâmetro que não é critério de resolução em documento nenhum: a fita mede acetoacetato, e com o início da insulina o beta-hidroxibutirato se converte justamente em acetoacetato, deixando a fita positiva por horas ou dias num paciente já compensado. Esperar o bicarbonato passar de 22 mEq/L inventa um alvo que nenhuma fonte usa. Desligar a infusão de imediato inverte a lógica da transição: a insulina subcutânea é aplicada primeiro e a infusão é mantida por 1 a 2 horas depois, porque desligar antes cria um vazio de insulina e recidiva de hiperglicemia ou cetose — a diretriz brasileira, na recomendação formal, pede ao menos 2 horas de sobreposição. E ler o cloro de 112 com bicarbonato de 19 como doença em curso descreve corretamente a acidose hiperclorêmica de ânion-gap normal da fase de recuperação, produzida pelo volume de fluido rico em cloreto, mas erra a conclusão: ela é autolimitada, sem consequência clínica, e não justifica prolongar a infusão.
Homem de 41 anos com cetoacidose diabética grave: pH venoso 6,84, bicarbonato 4 mEq/L, potássio 4,0 mEq/L, PA 88x54 mmHg. Já recebeu 1.500 mL de soro fisiológico e está em insulina regular 0,1 U/kg/h. Sobre a reposição de bicarbonato de sódio neste paciente, é correto afirmar:
A administração de bicarbonato não é rotina e não melhora resolução da acidose, duração do tratamento nem mortalidade — ensaios randomizados com pH entre 6,83 e 7,08 não mostraram diferença, e um deles mostrou atraso na queda dos corpos cetônicos e do lactato. Mas ela não é proibida: a diretriz brasileira a coloca como classe IIb, podendo ser considerada com pH abaixo de 6,9, na dose de 50 a 100 mmol diluídos em 200 a 400 mL de solução isotônica — o que afasta a leitura de contraindicação formal. O consenso de 2024 usa o limiar de pH abaixo de 7,0, com 100 mmol em 400 mL a cada 2 horas até o pH ultrapassar 7,0. Este paciente, com pH 6,84, está abaixo de ambos os cortes. Indicar de rotina abaixo de 7,20 expande a indicação para uma faixa em que há evidência de ausência de benefício. O bolus rápido não diluído descreve uma administração perigosa: a diluição em solução isotônica existe justamente para reduzir risco de hipocontratilidade cardíaca e arritmia. E o gatilho pelo ânion-gap acima de 20 cria um critério inexistente. Atenção adicional em qualquer reposição: o bicarbonato agrava a hipocalemia, e o potássio precisa ser vigiado de perto durante a infusão.
Mulher de 70 anos com estado hiperglicêmico hiperosmolar recebeu 1.500 mL de soro fisiológico 0,9% na primeira hora e está hemodinamicamente estável, com diurese presente. Novos exames: glicemia 780 mg/dL, sódio aferido 148 mEq/L, potássio 4,6 mEq/L. Qual a conduta quanto ao fluido?
No estado hiperglicêmico hiperosmolar, após a reposição inicial, mantém-se solução isotônica ou cristaloide balanceado e ajusta-se a velocidade conforme hemodinâmica, balanço hídrico e sódio. À medida que a glicose cai, o sódio costuma subir; essa elevação isolada não indica NaCl 0,45%. O consenso de 2024 reserva solução hipotônica para quando a osmolalidade não está diminuindo apesar de balanço hídrico positivo adequado e insulina. Como a vinheta não fornece tendência da osmolalidade, não é possível justificar a troca apenas pelo sódio corrigido. Fonte: ADA/EASD/JBDS/AACE/DTS Consensus Report, 2024, PMID 39052901.
Mulher de 21 anos com diabetes tipo 1 chega ao pronto-socorro com vômitos e dor abdominal há 12 horas; interrompeu a insulina há três dias. Pesa 60 kg. PA 94x60 mmHg, FC 126 bpm, FR 30 irpm com incursões profundas, Glasgow 15, mucosas secas. Exames: glicemia 542 mg/dL, pH venoso 7,08, bicarbonato 8 mEq/L, sódio 130 mEq/L, potássio 5,6 mEq/L, cloro 96 mEq/L, cetonemia capilar 5,4 mmol/L. Diurese presente. Qual a conduta inicial?
O trio diagnóstico está completo: glicemia acima de 200 mg/dL, cetonemia de 5,4 mmol/L (acima de 3,0) e acidose metabólica com pH 7,08 e bicarbonato 8 mEq/L. A sequência é fluido, potássio, insulina. O fluido vem primeiro porque a expansão sozinha já derruba a glicemia de 35 a 70 mg/dL por hora e melhora a sensibilidade à insulina; a dose brasileira é 15 a 20 mL/kg na primeira hora. O potássio de 5,6 mEq/L está acima de 5,2: não se repõe agora, mas a insulina está liberada, com recontrole em 2 horas porque a insulina vai derrubá-lo. Erra: o corte: bicarbonato só é considerado abaixo de pH 6,9 pela diretriz brasileira, ou abaixo de 7,0 pelo consenso de 2024 — nunca em 7,08 — e ainda pioraria a hipocalemia iminente. Começar por bolus de insulina erra duas vezes: o bolus não é recomendado como rotina e a hidratação nunca se adia. A D repõe potássio em quem está com 5,6 mEq/L, com risco de hipercalemia grave. A E propõe via subcutânea, aceitável apenas na cetoacidose leve não complicada, o que não é o caso de um pH de 7,08 com hipotensão.
Homem de 34 anos está em tratamento de cetoacidose diabética há 10 horas, hemodinamicamente estável, alerta e com diurese adequada. Exames atuais: fósforo 1,7 mg/dL (referência 2,5 a 4,5), cálcio normal e potássio 4,4 mEq/L. Não há fraqueza muscular, comprometimento respiratório, arritmia nem sinais de hemólise. Qual é a conduta quanto ao fósforo?
Hipofosfatemia leve é comum durante o tratamento e não se repõe: os ensaios não mostraram benefício sobre oxigenação tecidual, duração da cetoacidose, necessidade de insulina ou mortalidade, e a reposição rápida provoca hipocalcemia. A reposição de 20 a 30 mEq por litro fica reservada à depleção extrema com repercussão — fraqueza muscular, comprometimento respiratório ou cardíaco, anemia hemolítica —, que este paciente não apresenta. Suspender o potássio junto trocaria um risco teórico por outro imediato, e interromper a insulina antes da resolução da cetose reabre a cetogênese.
Mulher de 82 anos, 55 kg, com insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida, chega ao pronto-socorro com cetoacidose diabética moderada precipitada por infecção urinária. Está com mucosas secas, pressão de 104x62 mmHg, frequência cardíaca de 104 bpm, estertores em bases pulmonares e turgência jugular discreta. Qual é a estratégia de reposição volêmica?
Em idosos, cardiopatas, gestantes e pacientes em diálise, o consenso recomenda bolus menores, da ordem de 250 mL, com reavaliação hemodinâmica frequente — nesses pacientes o esquema padrão se associa a sobrecarga volêmica, necessidade de ventilação mecânica e internação mais longa. Os 15 a 20 mL/kg na primeira hora e os 1.000 mL por hora são exatamente o esquema padrão que a exceção afasta. Adiar a reposição por causa de um exame de imagem retira a medida que mais muda o desfecho. E a escolha do fluido depende do sódio corrigido, não do risco de congestão: solução hipotônica de entrada não tem indicação aqui.
Mulher de 57 anos com diabetes tipo 2 usa dapagliflozina, metformina e gliclazida. Está programada para artroplastia total de joelho daqui a três semanas, com anestesia geral e jejum prolongado. Procura a unidade básica para orientação pré-operatória. Qual é a orientação correta quanto à dapagliflozina?
O inibidor do cotransportador de sódio-glicose 2 é suspenso de três a quatro dias antes de cirurgia de grande porte, procedimento invasivo programado ou exercício muito intenso, e só volta depois de liberada a ingestão oral e resolvidos os fatores de risco. Suspender na manhã da cirurgia é insuficiente: a meia-vida de cerca de 13 horas engana, porque a glicosúria persiste por vários dias após a última dose. Manter a droga no jejum é justamente a combinação que produz cetoacidose com glicemia pouco elevada. A substituição pontual por insulina no dia do procedimento não resolve o efeito residual, e a suspensão definitiva não decorre de um procedimento cirúrgico isolado.
Qual é a frequência recomendada de controle laboratorial durante a fase aguda do tratamento da cetoacidose diabética grave?
A titulação da insulina, da hidratação e da reposição de potássio depende de medidas frequentes, com glicemia horária e demais exames a cada poucas horas até a estabilização. Espaçar os controles engana quem quer reduzir punções e custos, mas nesse intervalo o potássio pode despencar e a glicemia cair abruptamente, e é justamente a monitorização que evita as complicações iatrogênicas.
Paciente jovem com cetoacidose diabética grave apresenta, durante o tratamento, cefaleia, bradicardia, hipertensão e rebaixamento do sensório após 8 horas de melhora laboratorial. Qual a hipótese e a conduta?
Deterioração neurológica após melhora laboratorial, com bradicardia e hipertensão, indica edema cerebral com hipertensão intracraniana, exigindo redução do aporte de fluidos e terapia hiperosmolar imediata. Atribuir a hipoglicemia engana quem associa alteração do sensório em diabético a queda de glicemia, hipótese que deve ser checada em segundos com glicemia capilar, mas a tríade descrita aponta pressão intracraniana elevada.
Paciente em tratamento de estado hiperosmolar apresenta melhora da glicemia, mas mantém rebaixamento de consciência desproporcional à osmolalidade atual. Qual a conduta?
O nível de consciência deve acompanhar a queda da osmolalidade, e a persistência do rebaixamento obriga a buscar outra causa ou a reavaliar a velocidade da correção, com atenção ao edema cerebral. Considerar o quadro esperado engana quem atribui tudo à hiperosmolalidade, e essa atribuição faz perder um acidente vascular ou uma meningite que precipitou a descompensação.
Qual é a explicação para a hipofosfatemia que surge durante o tratamento da cetoacidose diabética?
Assim como ocorre com o potássio, a insulina promove entrada de fosfato na célula e desmascara a depleção causada pela diurese osmótica, o que pode gerar fraqueza muscular e disfunção respiratória em casos graves. Atribuir à hidratação engana quem raciocina por diluição, mas o mecanismo dominante é o deslocamento transcelular mediado pela insulina, e a reposição é reservada a casos selecionados.
Qual característica clínica sugere que a dor abdominal em paciente com cetoacidose diabética NÃO é apenas manifestação do distúrbio metabólico?
A dor abdominal da cetoacidose regride com a correção metabólica, e sua persistência com sinais de irritação peritoneal após a normalização indica causa cirúrgica real que precisa ser investigada. Valorizar a amilase elevada engana quem busca pancreatite, pois ela pode se elevar de forma inespecífica na cetoacidose sem que exista doença pancreática.
Qual alteração do sódio deve ser corrigida na interpretação laboratorial do paciente com hiperglicemia grave?
A glicose atrai água do intracelular para o plasma e dilui o sódio, de modo que o valor medido subestima o sódio real e precisa de correção para orientar a escolha do fluido. Aceitar o valor bruto engana quem lê o exame de forma literal, e isso pode levar a interpretar como hiponatremia verdadeira o que na realidade é um déficit de água livre já importante.
Mulher de 52 anos com diabetes tipo 2 em uso de inibidor do cotransportador de sódio e glicose apresenta náusea, vômitos e dispneia após cirurgia. Glicemia 178 mg/dL, pH 7,18, bicarbonato 12 mEq/L e cetonemia elevada. Qual o diagnóstico?
A glicosúria induzida pela droga mantém a glicemia relativamente baixa enquanto a cetogênese avança, produzindo cetoacidose com glicemia próxima do normal, especialmente em situações de estresse, jejum e cirurgia. Excluir cetoacidose pela glicemia engana quem usa o valor glicêmico como critério obrigatório, e essa exclusão precipitada é a razão de o diagnóstico ser perdido justamente no pós-operatório.
Homem de 19 anos com cetoacidose diabética apresenta pH 6,95, bicarbonato 5 mEq/L, glicemia 620 mg/dL, sonolência, PA 88x54 mmHg e frequência cardíaca de 132 bpm. Qual a conduta quanto ao local de tratamento?
Acidose profunda, alteração do sensório e instabilidade hemodinâmica definem cetoacidose grave, que exige monitorização contínua, insulina endovenosa e reavaliações laboratoriais frequentes em ambiente de terapia intensiva. Tratar em enfermaria com insulina subcutânea engana quem se apoia em protocolos de cetoacidose leve, que existem mas se aplicam a pacientes estáveis e sem esse grau de acidose.
Qual exame é mais adequado para monitorar a resolução da cetose durante o tratamento?
O beta-hidroxibutirato é o cetoácido predominante na cetoacidose, e sua dosagem sérica acompanha fielmente a resolução do quadro. A fita urinária engana porque detecta acetoacetato: durante a melhora, o beta-hidroxibutirato se converte em acetoacetato e a cetonúria pode até aumentar, dando a falsa impressão de piora e levando a decisões erradas sobre a infusão de insulina.
Segundo o consenso internacional de 2024 para adultos, qual conjunto define a resolução bioquímica da cetoacidose diabética e permite planejar a transição segura para insulina subcutânea?
A resolução exige correção da cetose e da acidose: cetonemia abaixo de 0,6 mmol/L e pH venoso ≥7,3 ou bicarbonato ≥18 mmol/L; idealmente, a glicemia também fica abaixo de 200 mg/dL. O ânion gap pode enganar na acidose hiperclorêmica e não é o critério recomendado. A cetonúria por fita também não deve guiar a resolução. Para retirar a infusão intravenosa, é necessário planejar a cobertura subcutânea e manter sobreposição de 1–2 horas após a basal, além de considerar alimentação e condição clínica.
Mulher de 74 anos, diabética tipo 2, chega desidratada e sonolenta, com glicemia de 890 mg/dL, osmolalidade sérica de 340 mOsm/kg, pH 7,34, bicarbonato 22 mEq/L e cetonemia mínima. Qual o diagnóstico?
Hiperglicemia extrema com hiperosmolalidade, alteração do sensório e acidose ausente ou mínima caracteriza o estado hiperosmolar, típico de idosos com diabetes tipo 2 e déficit de água muito maior que na cetoacidose. Interpretar como cetoacidose engana quem enxerga apenas a hiperglicemia, mas a insulina residual desses pacientes é suficiente para conter a cetogênese, o que muda o ritmo da hidratação e da insulinoterapia.
Qual é a razão para a hidratação no estado hiperglicêmico hiperosmolar ser mais cautelosa e prolongada do que na cetoacidose?
Nesses pacientes o déficit hídrico é muito maior e se instalou ao longo de dias, de modo que a correção precisa ser gradual para evitar deslocamento osmótico brusco e edema cerebral, com atenção adicional à função cardíaca do idoso. Achar que o déficit é menor engana quem se guia pela ausência de acidose, mas a desidratação é justamente mais profunda nesse quadro.
Paciente em tratamento de cetoacidose diabética apresenta potássio sérico de 3,1 mEq/L antes do início da insulina. Qual a conduta?
Com potássio abaixo de 3,3 mEq/L a insulina deve ser adiada, porque ela desloca o íon para o intracelular e pode precipitar arritmia fatal e fraqueza muscular respiratória. Iniciar a insulina e repor depois engana quem prioriza a correção da acidose, mas o risco imediato de vida nesse momento é a hipocalemia, e a acidose tolera alguns minutos a mais do que o coração tolera um potássio de 2,5.
Qual complicação, mais frequente em crianças e adolescentes, é temida durante o tratamento da cetoacidose diabética?
Lesão cerebral, incluindo edema, é complicação grave da cetoacidose pediátrica e exige atenção a cefaleia, alteração do nível de consciência e outros sinais neurológicos. Seu mecanismo não deve ser reduzido a erro de hidratação ou queda da glicemia. No ensaio PECARN, as velocidades e concentrações de solução estudadas não produziram diferenças significativas nos desfechos neurológicos. Isso não autoriza hidratação sem protocolo nem correções arbitrárias: a terapêutica deve ser cuidadosamente monitorada. A ausência de sinais iniciais não elimina a necessidade de vigilância durante o tratamento.
Homem de 24 anos com diabetes tipo 1 chega ao pronto-socorro com náusea, vômitos, dor abdominal e respiração profunda. Glicemia 480 mg/dL, pH 7,12, bicarbonato 8 mEq/L, cetonemia positiva e potássio sérico 4,2 mEq/L. Qual a sequência inicial do tratamento?
A prioridade inicial é restaurar a volemia, o que já reduz a glicemia e melhora a perfusão renal, seguida de insulina contínua e de reposição de potássio guiada pelo valor sérico, uma vez que o potássio corporal total está depletado apesar do valor plasmático. Iniciar insulina antes da expansão engana quem foca na hiperglicemia, mas isso desloca potássio e água para o intracelular e pode precipitar colapso circulatório e arritmia.
Qual é o precipitante mais comum de cetoacidose diabética em pacientes com diagnóstico prévio de diabetes tipo 1?
A interrupção ou o erro de uso da insulina é o gatilho mais frequente, à frente das infecções, o que torna a investigação de barreiras de acesso, de adesão e de técnica parte do tratamento e da prevenção de recaídas. Culpar apenas a infecção engana quem procura um foco em todo paciente, e essa busca isolada deixa intacto o problema que vai trazer o paciente de volta em semanas.
Qual medida contribui de forma decisiva para prevenir novos episódios de cetoacidose após a alta hospitalar?
A prevenção da recorrência depende de educação estruturada, acesso garantido aos insumos, plano escrito para dias de doença e retorno precoce, porque a maioria dos episódios decorre de falhas evitáveis no uso da insulina. Marcar retorno tardio engana quem considera o episódio resolvido com a alta, mas o período logo após a internação é justamente o de maior risco de nova descompensação.
Qual é a fisiopatologia central da cetoacidose diabética?
A falta de insulina somada ao excesso de glucagon, catecolaminas, cortisol e hormônio do crescimento libera ácidos graxos do tecido adiposo, que o fígado converte em corpos cetônicos, ao mesmo tempo em que a gliconeogênese eleva a glicemia. Pensar em acidose lática engana quem vê acidose com ânion gap elevado, mas o mecanismo e o tratamento são distintos, ainda que possam coexistir no paciente em choque.
Qual sinal clínico é característico da acidose metabólica grave e reflete a compensação respiratória?
A hiperventilação profunda e regular busca eliminar dióxido de carbono e compensar a acidose metabólica, sendo um dos sinais mais visíveis à beira do leito na cetoacidose. A respiração de Cheyne-Stokes engana quem associa padrões respiratórios anormais a gravidade, mas ela é cíclica com apneias e aponta lesão do sistema nervoso central ou insuficiência cardíaca avançada.
Em qual situação o bicarbonato de sódio pode ser considerado na cetoacidose diabética?
O bicarbonato só é cogitado em acidose extrema, e mesmo aí o benefício é incerto, porque a correção da acidose vem da insulina e da hidratação que interrompem a produção de cetoácidos. Usá-lo rotineiramente engana quem quer corrigir o pH diretamente, mas o alcalinizante piora a hipocalemia, agrava a acidose intracelular no sistema nervoso central e retarda o clareamento das cetonas.
Durante o tratamento de cetoacidose diabética, a glicemia cai para 210 mg/dL, mas o ânion gap permanece elevado. Qual a conduta?
Com o ânion gap ainda aberto, a cetogênese permanece ativa e a insulina precisa continuar; adiciona-se glicose ao soro justamente para permitir manter a infusão sem provocar hipoglicemia. Suspender a insulina ao ver a glicemia cair engana quem trata o número da glicemia em vez do distúrbio metabólico, e essa suspensão reabre a produção de cetoácidos e prolonga a internação.
Qual conduta é adequada na transição da insulina endovenosa para subcutânea após resolução da cetoacidose?
A insulina endovenosa tem meia-vida de minutos, e suspendê-la sem sobreposição com a subcutânea deixa o paciente sem insulina circulante e reabre a cetogênese, por isso o período de sobreposição é obrigatório. Aguardar a próxima refeição engana quem organiza a prescrição pelo horário das refeições, mas o intervalo sem cobertura basta para recomeçar o distúrbio.
Qual das causas abaixo é a principal responsável pela mortalidade em pacientes adultos com cetoacidose diabética?
Na maioria dos casos o que mata não é a cetoacidose em si, mas o evento que a precipitou e as comorbidades, o que torna a busca ativa do fator desencadeante parte essencial do tratamento. Focar apenas na correção metabólica engana quem enxerga o distúrbio bioquímico como o problema completo, e essa visão faz perder a pneumonia, o infarto ou o abdome agudo que trouxeram o paciente.
Qual conduta em relação à insulina é correta na cetoacidose diabética grave?
A infusão contínua em dose baixa fornece nível estável de insulina, suprime a lipólise e permite queda controlada da glicemia, evitando as oscilações que aumentam risco de hipoglicemia, hipocalemia e edema cerebral. Recorrer a bolus repetidos em dose alta engana quem quer corrigir rápido, mas essa estratégia produz justamente as quedas abruptas de osmolalidade e de potássio que causam as complicações mais graves.
Sobre a diferenciação entre cetoacidose diabética e estado hiperglicêmico hiperosmolar, qual conjunto caracteriza o segundo?
O estado hiperosmolar cursa com hiperglicemia extrema, desidratação profunda e osmolalidade muito elevada, sem acidose significativa nem cetose relevante, porque a insulina residual é suficiente para inibir a lipólise, mas não para controlar a glicemia. Ele acomete tipicamente idosos com diabetes tipo 2 e tem mortalidade mais alta que a cetoacidose, com rebaixamento do sensório proporcional à osmolalidade.
Sobre os fatores precipitantes da cetoacidose diabética, qual conjunto é o mais frequente?
Os precipitantes mais frequentes são a infecção e a omissão ou subdose de insulina, incluindo falhas de bomba, além da apresentação inaugural do diabetes tipo 1. Identificar e tratar o fator desencadeante é parte essencial do manejo — corrigir apenas o distúrbio metabólico sem tratar a infecção subjacente leva a recidiva e prolonga a internação.
Adolescente de 15 anos apresenta poliúria, polidipsia e perda de 7 kg em 1 mês, evoluindo com vômitos, dor abdominal e respiração profunda e rápida. Glicemia 480 mg/dL, pH 7,08, bicarbonato 8 mEq/L, cetonúria intensa, potássio 5,4 mEq/L. Qual a sequência inicial correta de conduta?
O tratamento da cetoacidose começa pela reposição volêmica, que já reduz a glicemia e melhora a perfusão, seguida de insulina em infusão contínua e monitorização do potássio, que cai rapidamente com a insulina mesmo partindo de valores elevados. Começar pela insulina engana quem foca na hiperglicemia, mas isso desloca potássio para o intracelular em um paciente com déficit corporal total, com risco de arritmia. Bicarbonato só se considera em acidose extrema.
Durante o tratamento da cetoacidose, a glicemia cai para 210 mg/dL, mas persistem acidose e cetonemia. Qual a conduta?
O alvo do tratamento é a resolução da acidose e da cetose, não apenas a normalização da glicemia — por isso, quando a glicemia se aproxima de 200 mg/dL, acrescenta-se glicose à infusão para permitir a manutenção da insulina sem hipoglicemia. Suspender a insulina engana quem toma a glicemia como parâmetro de cura, e resulta em reativação da cetogênese e prolongamento do quadro.
Sobre a transição da insulina endovenosa para subcutânea na resolução da cetoacidose, qual cuidado é essencial?
A insulina endovenosa tem meia-vida de poucos minutos, e a suspensão sem sobreposição da subcutânea deixa o paciente sem insulina circulante, com retorno da cetogênese — por isso a dose subcutânea é aplicada uma a duas horas antes de desligar a bomba. Esse detalhe operacional é uma das causas mais frequentes de recidiva da cetoacidose dentro do próprio hospital.
Segundo o consenso internacional de 2024 sobre crises hiperglicêmicas em adultos, qual conduta em relação ao potássio deve preceder ou acompanhar a insulinoterapia na cetoacidose diabética?
Na cetoacidose, o potássio sérico pode estar normal ou elevado apesar da depleção corporal. Insulina e correção do quadro reduzem esse valor. O consenso de 2024 orienta iniciar reposição quando o potássio cai abaixo de 5,0 mmol/L, buscando manter 4–5 mmol/L, com atenção à função renal e à monitorização. Se estiver abaixo de 3,5 mmol/L, deve-se repor primeiro e adiar insulina até ultrapassar 3,5. Recomenda-se medir novamente duas horas após iniciar insulina e, em geral, a cada quatro horas até resolução, intensificando conforme a gravidade.
Paciente com cetoacidose diabética apresenta, durante o tratamento, cefaleia intensa, vômitos e rebaixamento do nível de consciência, após melhora inicial. Qual complicação deve ser suspeitada, especialmente em crianças e adolescentes?
Cefaleia intensa, vômitos e deterioração neurológica durante o tratamento da cetoacidose exigem suspeita imediata de edema cerebral, complicação rara, grave e mais frequente em crianças e adolescentes. Sua causa não é completamente compreendida: alterações osmóticas, hipoperfusão e inflamação podem contribuir, de modo que não se deve atribuí-la exclusivamente a uma correção rápida. Hipoglicemia também pode causar rebaixamento do nível de consciência e deve ser checada prontamente, mas não explica por si só o conjunto descrito. Fonte: consenso ADA/EASD/JBDS/AACE/DTS de 2024 sobre crises hiperglicêmicas.
Paciente com cetoacidose diabética em tratamento apresenta glicemia de 210 mg/dL, mas mantém pH 7,20 e cetonemia positiva. Qual a conduta?
A glicemia se normaliza antes da cetoacidose, e suspender a insulina nesse momento interrompe justamente o que está bloqueando a cetogênese: a conduta é associar glicose à infusão para permitir manter a insulina até a resolução dos critérios de cetoacidose — pH, bicarbonato e cetonemia. Suspender pelo valor da glicemia engana porque a glicemia é o parâmetro mais visível e monitorado, e essa interrupção precoce é causa frequente de recidiva do quadro.
Homem de 58 anos, diabético, apresenta no segundo dia de pós-operatório náuseas, dor abdominal, respiração de Kussmaul e glicemia de 190 mg/dL. Gasometria mostra pH 7,18 com bicarbonato de 11 mEq/L e ânion gap elevado; cetonas urinárias positivas. Usava inibidor do cotransportador de sódio-glicose até a véspera da cirurgia. Qual o diagnóstico?
Acidose com ânion gap elevado e cetonemia em paciente com glicemia apenas discretamente elevada, em uso recente de inibidor do cotransportador de sódio-glicose, caracteriza a cetoacidose euglicêmica, forma que se esconde justamente porque a glicemia não chama atenção. Descartar cetoacidose pela glicemia é o erro que a questão testa e que atrasa o tratamento por horas. O manejo exige insulina com aporte de glicose simultâneo, hidratação e suspensão do fármaco. Acidose lática por metformina cursaria com lactato alto e cetonas negativas.
Paciente diabética com pielonefrite enfisematosa apresenta glicemia de 460 mg/dL, cetonemia e pH de 7,22. Além do tratamento da infecção, qual a conduta metabólica?
A infecção grave é gatilho clássico de cetoacidose, e o tratamento exige insulina endovenosa contínua, hidratação e reposição de potássio, com atenção à correção antes de iniciar insulina se o potássio estiver baixo. Manter apenas basal engana quem trata o número da glicemia sem reconhecer a descompensação aguda. Metformina é formalmente contraindicada nesse cenário pelo risco de acidose lática e pela instabilidade hemodinâmica.
Mulher de 34 anos, previamente hígida, chega com fraqueza muscular e potássio de 7,2 mEq/L. Exames: pH 7,22, bicarbonato 12 mEq/L, glicemia 480 mg/dL, cetonúria positiva. Qual a explicação do potássio elevado?
Na cetoacidose diabética a falta de insulina e a acidose empurram potássio para fora da célula, de modo que a dosagem sérica alta convive com déficit corporal total importante — assim que a insulinoterapia começa, o potássio despenca. Interpretar o valor como excesso corporal verdadeiro leva a não repor potássio durante o tratamento e a provocar hipocalemia grave, motivo pelo qual a insulina é suspensa quando o potássio inicial está abaixo de 3,3 mEq/L.
Adolescente de 16 anos com diabetes tipo 2 e obesidade apresenta glicemia de 780 mg/dL, osmolaridade de 340 mOsm/kg, cetonemia mínima, pH 7,34 e rebaixamento do sensório. Qual o diagnóstico?
Glicemia extrema com hiperosmolaridade e pH praticamente normal, sem cetose significativa, define o estado hiperosmolar — típico de diabetes tipo 2 e cada vez mais visto em adolescentes obesos. A desidratação é ainda maior que na cetoacidose e a mortalidade é mais alta, o que torna a reposição volêmica generosa e cuidadosa a peça central do tratamento.
Segundo o consenso internacional de 2024 sobre crises hiperglicêmicas em adultos, qual critério define a resolução bioquímica da cetoacidose diabética?
É necessário resolver a cetose e corrigir a acidose conforme esses critérios. Idealmente, a glicemia também deve estar abaixo de 200 mg/dL, mas sua redução isolada não demonstra resolução. A cetonúria pode persistir durante a recuperação, pois o beta-hidroxibutirato é convertido em acetoacetato. A transição da insulina intravenosa para a subcutânea exige planejamento da cobertura insulínica e das necessidades nutricionais; não se deve suspender a infusão apenas porque a glicemia normalizou.
Adolescente de 14 anos, obeso, com acantose nigricans e história familiar de diabetes tipo 2, chega com glicemia de 690 mg/dL, sódio corrigido de 152 mEq/L, osmolalidade de 340 mOsm/kg, pH de 7,33 e cetonemia discreta. Está sonolento e muito desidratado. Qual o diagnóstico?
Hiperglicemia extrema com hiperosmolaridade, desidratação profunda e cetose mínima, com pH quase normal, define o estado hiperosmolar, que na pediatria aparece sobretudo em adolescentes obesos com diabetes tipo 2 e tem mortalidade maior que a da cetoacidose. A diferença de tratamento é relevante: aqui a reposição hídrica é bem mais volumosa e a insulina entra depois e em dose menor, porque a hidratação sozinha já derruba muito a glicemia. Confundir com cetoacidose leva a subhidratar e a antecipar insulina, o que agrava o colapso circulatório.
Qual complicação rara, porém descrita, pode ocorrer durante o tratamento da cetoacidose diabética e cursa com dor torácica e enfisema subcutâneo?
Pressões intratorácicas elevadas pela respiração de Kussmaul e pelos vômitos podem romper alvéolos e dissecar ar até o mediastino, produzindo dor torácica, crepitação cervical e o sinal auscultatório de crepitação sincrônica ao batimento cardíaco; o curso costuma ser benigno, com resolução espontânea. A hipercoagulabilidade da cetoacidose é real e favorece trombose venosa, sobretudo associada a cateter central, mas não explica enfisema subcutâneo. Ruptura esofágica cursaria com quadro séptico e derrame pleural, muito mais grave.
Como diferenciar, no leito, uma cetoacidose diabética de uma cetose de jejum prolongado em criança com vômitos?
Criança pequena entra em cetose com poucas horas de jejum e vômitos, mas ali falta o ingrediente central: a hiperglicemia. Glicemia normal ou baixa com cetonemia e acidose discreta é cetose de jejum, que responde a glicose oral ou endovenosa. Usar apenas a cetonúria é o erro que interna criança com virose como se fosse diabetes; e a glicada, além de demorar, não distingue o quadro agudo.
Adolescente de 17 anos com diabetes tipo 1 chega à Unidade Básica de Saúde com poliúria, polidipsia, dor abdominal e vômitos há dois dias, após interromper a insulina por falta na farmácia. Ao exame: desidratação, respiração profunda e rápida, hálito cetônico, FC 122 bpm, PA 100x60 mmHg. Glicemia capilar 480 mg/dL, cetonúria 4+. Qual é a conduta correta?
Hiperglicemia com cetonúria, respiração de Kussmaul e desidratação caracteriza cetoacidose diabética, emergência que exige hidratação venosa imediata e transferência para serviço com insulinoterapia venosa, reposição eletrolítica e monitorização. Insulina subcutânea com alta domiciliar não corrige a acidose nem repõe volume. Hidratação oral é insuficiente diante de vômitos e desidratação. Bicarbonato oral não tem papel no tratamento e pode agravar distúrbios eletrolíticos.
Mulher de 78 anos com diabetes tipo 2 é trazida à Unidade de Pronto Atendimento com sonolência progressiva há três dias, após quadro de infecção urinária tratada com hidratação insuficiente. Ao exame: mucosas secas, turgor reduzido, PA 92x58 mmHg, FC 118 bpm. Glicemia 780 mg/dL, sódio 152 mEq/L, cetonúria ausente, pH arterial 7,35 e bicarbonato 22 mEq/L. Qual é o diagnóstico e a prioridade terapêutica?
Hiperglicemia extrema com hiperosmolaridade, ausência de cetose e pH preservado caracteriza estado hiperglicêmico hiperosmolar, em que o déficit de volume é enorme e a reposição volêmica precede e orienta a insulinoterapia. Cetoacidose exigiria acidose metabólica e cetose, ausentes, e bicarbonato não é conduta prioritária mesmo nela. Restrição hídrica agravaria a desidratação. A infecção é o desencadeante e deve ser tratada, mas não dispensa a correção do distúrbio metabólico.
Adolescente de 17 anos, diabético tipo 1, é levado ao pronto-socorro com dor abdominal, vômitos e respiração rápida e profunda há 12 horas, após interromper a insulina por falta na farmácia. Ao exame apresenta desidratação importante, PA 96x60 mmHg, FC 130 bpm, FR 32 ipm, hálito cetônico e Glasgow 14. Exames iniciais: glicemia 486 mg/dL, pH 7,08, bicarbonato 8 mEq/L, sódio 134 mEq/L, potássio 3,1 mEq/L e cetonúria de três cruzes. A conduta correta neste momento é:
Na cetoacidose diabética com potássio abaixo de 3,3 mEq/L, a insulina deve ser adiada até a correção do potássio, porque ela desloca o íon para o intracelular e pode precipitar arritmia fatal; a prioridade é volume com salina isotônica e reposição de potássio. Iniciar a bomba de insulina de imediato, nesse cenário de hipocalemia, é exatamente o erro que a diretriz alerta. Bicarbonato não é recomendado de rotina, sendo considerado apenas em pH abaixo de 6,9, e pode agravar a hipocalemia. Insulina basal subcutânea com alta não trata a acidose instalada nem corrige a desidratação.
Gestante de 29 anos, com 23 semanas, é internada em maternidade com diagnóstico de cetoacidose diabética, apresentando glicemia de 320 mg/dL, pH de 7,18, bicarbonato de 10 mEq/L, cetonúria de três cruzes e ânion gap elevado. Ela tem diabetes tipo 1 e interrompeu a insulina por vômitos há dois dias. Está desidratada, com pressão arterial de 96x58 mmHg e frequência cardíaca de 126 bpm. A cardiotocografia mostra taquicardia fetal e variabilidade reduzida. Quanto ao padrão cardiotocográfico alterado, a conduta correta é
A cetoacidose diabética compromete a oxigenação fetal por acidose e desidratação maternas, e o padrão cardiotocográfico alterado costuma reverter com a correção metabólica, de modo que a prioridade é tratar a mãe, evitando prematuridade iatrogênica. Operar em paciente acidótica e desidratada eleva a mortalidade materna e fetal. Suspender a insulina perpetua a cetogênese e agrava a acidose. O corticoide antenatal eleva a glicemia e não deve preceder a estabilização metabólica, sendo administrado com ajuste da insulina após a correção.
Mulher de 60 anos, com diabetes tipo 2, é trazida à Unidade Básica de Saúde por familiares devido a mal-estar, náuseas, respiração profunda e sonolência iniciados há um dia, após quadro de infecção urinária não tratada. Ao exame: desidratada, mucosas secas, respiração ampla e profunda, hálito cetônico, PA 96x58 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm, temperatura 37,8 °C, sonolenta mas responsiva, glicemia capilar acima do limite de leitura do aparelho, cetonúria de três cruzes na fita urinária. A conduta imediata correta é:
Hiperglicemia acentuada com cetonúria, respiração de Kussmaul, desidratação e rebaixamento do sensório em paciente com fator precipitante infeccioso caracteriza cetoacidose diabética, e a prioridade inicial é a reposição volêmica com cristaloide, seguida de transporte urgente para tratamento hospitalar com insulina e correção eletrolítica. Aplicar insulina antes da hidratação agrava a hipovolemia e o risco de hipocalemia grave. Tratar apenas a infecção urinária ignora a emergência metabólica instalada. Hidratação oral e observação são insuficientes diante de sonolência e instabilidade.
Adolescente de 16 anos chega ao pronto-socorro com poliúria, polidipsia, vômitos e dor abdominal há dois dias. Ao exame, encontra-se desidratado, com respiração de Kussmaul, frequência cardíaca de 128 bpm, pressão arterial de 100 x 60 mmHg e hálito cetônico. Glicemia de 480 mg/dL, pH de 7,08, bicarbonato de 6 mEq/L, cetonemia positiva e potássio sérico de 3,1 mEq/L. Foi iniciada hidratação endovenosa. A conduta correta em relação à insulinoterapia é:
Na cetoacidose diabética, o potássio corporal total está depletado mesmo quando o valor sérico é normal, e a insulina desloca potássio para o intracelular; com potássio sérico abaixo de 3,3 mEq/L, a insulina deve ser adiada até a reposição inicial, sob risco de arritmias graves e fraqueza muscular respiratória. Iniciar insulina em bolus com hipocalemia é justamente o erro mais perigoso. Bicarbonato é reservado a acidose extrema e não é a primeira medida. Suspender a reposição de potássio durante a insulinoterapia agrava a hipocalemia.
Mulher de 52 anos, com diabetes tipo 2 em uso de inibidor do cotransportador de sódio e glicose, é internada com náuseas, vômitos, dor abdominal e mal-estar iniciados após três dias de dieta muito restritiva e quadro infeccioso. Ao exame, frequência respiratória de 26 irpm, frequência cardíaca de 108 bpm, desidratação moderada, hálito cetônico. Glicemia de 190 mg/dL, pH de 7,15, bicarbonato de 10 mEq/L, ânion gap elevado e cetonemia fortemente positiva. A interpretação e a conduta corretas são:
Os inibidores do cotransportador de sódio e glicose podem precipitar cetoacidose com glicemia próxima do normal, sobretudo em jejum prolongado, dieta muito restritiva em carboidratos, infecção ou cirurgia; o diagnóstico exige acidose com ânion gap elevado e cetonemia, e o tratamento é suspender o fármaco, hidratar, administrar insulina com oferta concomitante de glicose e tratar o fator precipitante. Excluir o diagnóstico pela glicemia é o erro característico dessa apresentação. Manter o fármaco perpetua a cetogênese. Tratar só a infecção deixa a acidose sem correção.
Homem de 27 anos, com diabetes tipo 1, está internado em tratamento de cetoacidose diabética com insulina endovenosa contínua, hidratação e reposição de potássio. Após oito horas, encontra-se lúcido, sem vômitos, aceitando líquidos, com glicemia de 190 mg/dL, pH de 7,32, bicarbonato de 19 mEq/L, ânion gap normalizado e cetonemia em queda. Sinais vitais estáveis, com boa perfusão periférica e diurese adequada. A equipe discute a transição do tratamento. A conduta correta é:
A resolução da cetoacidose se define por normalização do ânion gap, melhora do pH e do bicarbonato e capacidade de alimentação por via oral; a transição exige aplicar insulina subcutânea e manter a infusão endovenosa por período de sobreposição, pois a meia-vida da insulina endovenosa é muito curta e sua suspensão isolada leva à recidiva da cetoacidose. Suspender sem sobreposição é erro clássico. Prolongar a infusão sem necessidade aumenta tempo de internação e risco. Deixar o paciente sem insulina é inaceitável no diabetes tipo 1.
Mulher de 78 anos, com diabetes tipo 2, é levada ao pronto-socorro por familiares após vários dias de mal-estar, poliúria e ingesta hídrica reduzida, evoluindo com sonolência progressiva. Ao exame, encontra-se torporosa, com mucosas muito secas, turgor reduzido, pressão arterial de 92 x 56 mmHg, frequência cardíaca de 118 bpm e sem hálito cetônico. Glicemia de 820 mg/dL, sódio corrigido elevado, osmolalidade sérica muito aumentada, pH de 7,36 e cetonemia negativa. A conduta inicial prioritária é:
No estado hiperglicêmico hiperosmolar, o déficit volêmico é muito grande e a prioridade é a reposição vigorosa com cristaloide, que já reduz a glicemia, seguida de insulina em infusão e reposição de potássio conforme níveis, com correção lenta da osmolalidade para evitar edema cerebral. Iniciar insulina antes da hidratação desloca líquido para o intracelular e agrava a hipotensão. Correção rápida da osmolalidade traz risco neurológico. Bicarbonato não tem indicação, pois não há acidose significativa nesse quadro.
Homem de 34 anos, com diabetes tipo 1, chega ao pronto-socorro com cetoacidose diabética. Ele relata tosse produtiva com expectoração amarelada, febre e dor torácica ventilatório-dependente há três dias, e informa que manteve as doses habituais de insulina. Ao exame, temperatura axilar de 38,6 °C, frequência respiratória de 30 irpm, estertores em base direita, saturação de 93% em ar ambiente e desidratação moderada. A radiografia mostra consolidação em lobo inferior direito. Além do tratamento da cetoacidose, a conduta correta é:
A cetoacidose diabética quase sempre tem um fator precipitante, e a infecção é o mais comum, seguida de omissão de insulina, uso de determinados fármacos e eventos agudos como infarto; identificar e tratar esse fator é parte essencial do manejo, pois sem isso a descompensação recidiva. Considerar a cetoacidose um evento aleatório impede a prevenção. Suspender a insulina em paciente com diabetes tipo 1 agrava a cetoacidose. Adiar o tratamento da pneumonia mantém o gatilho da descompensação em atividade.
Gestante de 28 anos, com 34 semanas, com diabetes mellitus tipo 1, é internada com náuseas, vômitos, dor abdominal e respiração profunda. Ela relata que reduziu a insulina nos últimos dias por medo de hipoglicemia. Ao exame, está desidratada, com hálito cetônico, frequência respiratória de 28 ipm, pressão arterial de 100x60 mmHg e frequência cardíaca de 124 bpm. Os exames mostram glicemia de 260 mg/dL, pH de 7,20, bicarbonato de 12 mEq/L e cetonemia elevada, com cardiotocografia mostrando variabilidade reduzida. A conduta correta é
A cetoacidose diabética na gestação pode ocorrer com glicemias relativamente baixas e exige hidratação venosa, insulina em infusão contínua e correção eletrolítica, com monitorização fetal, pois o padrão cardiotocográfico costuma melhorar com a correção metabólica materna, evitando prematuridade iatrogênica. Cesariana com mãe acidótica aumenta a mortalidade. Suspender a insulina perpetua a cetogênese. Bicarbonato isolado não interrompe a produção de cetoácidos e não é a base do tratamento.
Homem de 40 anos é atendido no pronto-socorro com náuseas, vômitos e respiração profunda há um dia. Ele tem diabetes tipo 1 e interrompeu a insulina por falta do medicamento. Ao exame: desidratado, PA 104x62 mmHg, FC 118 bpm, FR 30 ipm, hálito cetônico, sonolento, sem sinais focais. Exames: glicemia 486 mg/dL, pH 7,10, bicarbonato 8 mEq/L, ânion gap elevado, cetonemia positiva, potássio sérico 5,4 mEq/L, sódio 132 mEq/L, creatinina 1,8 mg/dL. A conduta imediata correta quanto ao potássio é:
Na cetoacidose diabética, o potássio sérico pode estar normal ou elevado apesar da depleção corporal total, e a insulina desloca o potássio para o intracelular, provocando queda rápida, de modo que a conduta é reposição volêmica com insulina, monitorização estreita e reposição de potássio assim que o valor começar a cair. Quelante agravaria a depleção. Suspender qualquer reposição arrisca hipocalemia grave. Bicarbonato em bolus reduz ainda mais o potássio e não é rotineiramente indicado.
Homem de 27 anos, diabético tipo 1, está em terapia intensiva com cetoacidose diabética tratada com insulina regular em infusão contínua, hidratação e reposição de potássio. Após 14 horas, apresenta glicemia de 190 mg/dL, pH de 7,36, bicarbonato de 20 mEq/L, ânion gap normalizado e cetonemia negativa. Está lúcido, sem náuseas e aceitando dieta oral. A equipe planeja retirar a infusão contínua e reorganizar o esquema de insulina para a enfermaria. Qual é a conduta correta?
A transição segura da insulina venosa para a subcutânea exige sobreposição: aplica-se a insulina basal e mantém-se a infusão por uma a duas horas, porque a insulina regular endovenosa tem meia-vida muito curta e sua suspensão isolada permite o retorno da cetoacidose. Suspender a infusão sem cobertura basal, usando apenas correções conforme glicemia, é o erro clássico que provoca recidiva. Prolongar a infusão por 48 horas após a resolução dos critérios é desnecessário. Suspender toda insulina em diabético tipo 1 é inaceitável, pois ele depende de reposição contínua.
Mulher, 27 anos, com diabetes mellitus tipo 1, com 28 semanas, interna com vômitos e dor abdominal há 1 dia, após episódio febril. FR 28 ipm com respiração profunda, PA 100/60 mmHg, FC 122 bpm, hálito cetônico. Glicemia 210 mg/dL, pH 7,12, bicarbonato 9 mEq/L, cetonemia elevada, potássio 3,2 mEq/L (VR 3,5–5,0). Cardiotocografia com variabilidade reduzida e desacelerações tardias ocasionais. Qual a conduta correta?
Hidratação vigorosa, insulina intravenosa em infusão contínua, reposição de potássio antes ou junto do início da insulina e tratamento do fator precipitante, com reavaliação seriada da vitalidade fetal, é a conduta correta: a cetoacidose na gestação pode ocorrer com glicemias relativamente baixas, chamada euglicêmica, e as alterações cardiotocográficas costumam reverter com a correção metabólica materna. Indicar cesariana imediata é erro clássico, pois operar em plena acidose aumenta a mortalidade materna e fetal. Administrar insulina em bolus alto sem repor potássio precipita hipocalemia grave e arritmia. O bicarbonato não é indicado de rotina, ficando reservado a acidose extrema. Suspender a insulina interrompe justamente o tratamento da cetogênese, que persiste independentemente do valor da glicemia.
Mulher, 30 anos, com diabetes mellitus tipo 2 em uso de dapagliflozina até a descoberta da gestação há 2 semanas, chega com 10 semanas apresentando náuseas, vômitos, dor abdominal e respiração profunda. PA 104/64 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm. Glicemia 168 mg/dL, pH 7,14, bicarbonato 8 mEq/L, ânion gap elevado, cetonemia fortemente positiva e potássio 3,3 mEq/L (VR 3,5–5,0). Qual a interpretação e a conduta?
A interpretação correta é de cetoacidose diabética euglicêmica, quadro em que a acidose com cetonemia intensa ocorre com glicemias relativamente baixas, situação favorecida pelo uso recente de inibidor de SGLT2 e pelo estado cetogênico da gestação, e a conduta é hidratação vigorosa, insulina intravenosa contínua com aporte de glicose, reposição de potássio antes ou junto do início da insulina e suspensão definitiva do inibidor de SGLT2, contraindicado na gestação. A hiperêmese não produz ânion gap elevado com cetonemia dessa magnitude e acidose grave. A acidose láctica por sepse exigiria foco infeccioso e lactato elevado. A intoxicação por salicilatos cursaria com alcalose respiratória associada e história de ingestão. A alcalose respiratória fisiológica não cursa com pH de 7,14.
Mulher, 44 anos, internada na UTI com cetoacidose diabética, recebe hidratação e insulina intravenosa contínua. Após 6 horas, apresenta glicemia de 240 mg/dL, pH 7,20, bicarbonato 14 mEq/L, ânion gap 20 mEq/L, potássio 3,9 mEq/L e sódio corrigido 140 mEq/L. Está lúcida, com diurese preservada e sem vômitos. Recebeu 3 litros de solução salina isotônica até o momento, com melhora progressiva dos parâmetros hemodinâmicos. Qual o ajuste correto neste momento?
Na cetoacidose diabética, quando a glicemia atinge cerca de 200 a 250 mg/dL mas o ânion gap permanece elevado e a acidose não se resolveu, associa-se solução glicosada e mantém-se a insulina, que é necessária para interromper a cetogênese, com reposição contínua de potássio. Suspender a insulina fecha prematuramente a via terapêutica e permite a recidiva da cetose. Suspender a hidratação prejudica a perfusão e a depuração de cetoácidos. Bicarbonato é reservado a pH abaixo de 6,9, e seu uso rotineiro não melhora desfechos. Trocar para insulina basal subcutânea isolada antes do fechamento do ânion gap e da resolução da acidose leva à recaída.
Homem, 52 anos, internado na UTI, apresenta gasometria com pH 7,12; PaCO2 22 mmHg; bicarbonato 7 mEq/L. Sódio 138 mEq/L; cloro 101 mEq/L; glicemia 620 mg/dL; cetonúria 3+; potássio 5,4 mEq/L; creatinina 1,8 mg/dL. Exame: desidratado, respiração de Kussmaul, PA 96/58 mmHg, FC 124 bpm, lúcido. Diurese preservada. É diabético tipo 1 e interrompeu a insulina há 3 dias por dificuldade de acesso à medicação. Qual a conduta inicial correta?
O tratamento da cetoacidose diabética começa pela reposição volêmica com cristaloide para restaurar a perfusão, seguida ou acompanhada de insulina intravenosa contínua e de reposição de potássio guiada pelo valor sérico, lembrando que o potássio corporal total está depletado mesmo quando o sérico está normal ou alto. Iniciar insulina antes da reposição volêmica agrava a hipovolemia e pode precipitar colapso e hipocalemia. Bicarbonato é reservado a pH abaixo de 6,9 e não melhora desfechos nessa faixa. Insulina subcutânea em esquema fixo é inadequada na cetoacidose com hipoperfusão. Restringir fluidos mantém a hipoperfusão e retarda a resolução da acidose.
Mulher, 74 anos, internada na UTI, apresenta glicemia de 880 mg/dL, sódio corrigido de 152 mEq/L e osmolalidade sérica calculada de 340 mOsm/kg. Exame: torporosa, mucosas muito secas, PA 92/54 mmHg, FC 118 bpm, sem respiração de Kussmaul. Cetonúria negativa; pH 7,34; bicarbonato 22 mEq/L; creatinina 2,4 mg/dL; potássio 4,0 mEq/L. É diabética tipo 2 e teve infecção urinária não tratada nas últimas semanas. Qual o diagnóstico e a conduta inicial?
Hiperglicemia extrema com hiperosmolalidade, desidratação profunda, ausência de cetose significativa e pH próximo do normal define o estado hiperglicêmico hiperosmolar, cujo tratamento prioriza reposição volêmica vigorosa, insulina intravenosa e correção do fator precipitante, aqui a infecção urinária. Cetoacidose exigiria cetonúria positiva e acidose com ânion gap elevado, e bicarbonato não está indicado. Diabetes insípido cursaria com poliúria com urina diluída sem hiperglicemia extrema. Não há hiponatremia, pois o sódio corrigido está elevado, e salina hipertônica agravaria a hiperosmolalidade. Acidose lática por metformina cursaria com acidose grave e lactato muito elevado, o que não corresponde ao pH descrito.
Mulher, 58 anos, diabética tipo 2 em uso de dapagliflozina e metformina, no terceiro dia de pós-operatório de colecistectomia, com náuseas, dor abdominal e taquipneia. Vinha em jejum prolongado. PA 106x64 mmHg, FC 108 bpm, FR 28 ipm, T 36,4 °C. Exames: glicemia 186 mg/dL; pH 7,18 (VR 7,35–7,45); bicarbonato 11 mEq/L (VR 22–26); ânion gap 24 mEq/L (VR 8–12); cetonemia 5,4 mmol/L (VR < 0,6). Qual o diagnóstico?
A cetoacidose diabética euglicêmica é o diagnóstico, pois há acidose com ânion gap de 24 mEq/L e cetonemia de 5,4 mmol/L com glicemia de apenas 186 mg/dL, apresentação típica do uso de inibidor de SGLT2 sob jejum e estresse cirúrgico. O estado hiperglicêmico hiperosmolar exigiria glicemia muito elevada e ausência de cetose significativa. A acidose lática por metformina não cursa com cetonemia expressiva e costuma associar-se a lactato elevado e injúria renal. A acidose hiperclorêmica por salina caracteriza-se por ânion gap normal, ao contrário do encontrado. A cetoacidose alcoólica requer etilismo e não é sustentada por nenhum dado da história apresentada.
Homem, 24 anos, diabético tipo 1, admitido com vômitos e dor abdominal. PA 96/60 mmHg, FC 128 bpm, FR 32 ipm com respiração profunda. Glicemia de 520 mg/dL, pH 7,08, bicarbonato de 6 mEq/L (VR 22–26), cetonemia positiva, sódio de 130 mEq/L, potássio de 3,2 mEq/L (VR 3,5–5,0) e creatinina de 1,6 mg/dL, com desidratação clínica evidente. Qual a conduta indicada antes de iniciar a insulinoterapia endovenosa?
Com potássio abaixo de 3,3 mEq/L, a insulina deve ser adiada até que a reposição de potássio seja iniciada, pois o hormônio desloca o íon para o intracelular e pode precipitar arritmias fatais. O bicarbonato é reservado a pH abaixo de 6,9 e não precede a correção do potássio. Iniciar insulina de imediato agrava a hipocalemia. Restringir hidratação em paciente desidratado com cetoacidose piora a perfusão e retarda a resolução. Administrar glicose hipertônica antes da insulina com glicemia de 520 mg/dL não faz qualquer sentido fisiopatológico.
Homem, 58 anos, diabético tipo 2 em uso de inibidor do cotransportador de sódio e glicose, submetido a cirurgia abdominal há dois dias com jejum prolongado. Apresenta náuseas, dor abdominal e taquipneia. PA 116/72 mmHg, FC 108 bpm, FR 28 ipm. Glicemia de 168 mg/dL, pH 7,18, bicarbonato de 11 mEq/L (VR 22–26), ânion gap de 22 mEq/L e cetonemia fortemente positiva. Qual o diagnóstico mais provável?
Acidose metabólica com ânion gap elevado e cetonemia positiva na presença de glicemia apenas discretamente elevada, em usuário de inibidor do cotransportador de sódio e glicose submetido a estresse cirúrgico e jejum, caracteriza cetoacidose euglicêmica. A cetoacidose clássica cursa com hiperglicemia acentuada, geralmente acima de 250 mg/dL. A acidose láctica pela metformina não cursaria com cetonemia fortemente positiva. A acidose hiperclorêmica exigiria ânion gap normal. A intoxicação por salicilato apresentaria história de ingestão, zumbido e padrão ácido-base misto característico.
Homem, 34 anos, diabético tipo 1, internado para apendicectomia, apresenta no pré-operatório náuseas, dor abdominal difusa e respiração profunda. Exame: FR 28 ipm, FC 118 bpm, PA 106x62 mmHg, mucosas secas, hálito cetônico. Glicemia de 428 mg/dL; gasometria com pH 7,18, bicarbonato de 10 mEq/L e ânion gap elevado; cetonemia positiva; potássio de 3,2 mEq/L. Qual a conduta mais adequada?
A cetoacidose diabética deve ser tratada antes do procedimento sempre que a urgência permitir, com hidratação vigorosa, reposição de potássio antes ou junto ao início da insulina quando o potássio está abaixo de 3,3 mEq/L e infusão contínua de insulina, monitorando eletrólitos e resolução da acidose. Levar ao centro cirúrgico sem corrigir os distúrbios expõe a arritmias e colapso hemodinâmico. Iniciar insulina em bolus sem repor potássio pode desencadear hipopotassemia grave com parada cardíaca. O bicarbonato não é medida inicial e é reservado a acidose muito grave. Adiar por sete dias é inadequado em apendicite, que exige tratamento em horas, e o correto é estabilizar rapidamente e operar assim que possível.
Adolescente de 16 anos, obeso, é admitido com rebaixamento do nível de consciência progressivo há 2 dias, precedido de poliúria e polidipsia intensas. PA 92x56 mmHg, FC 136 bpm, mucosas muito secas. Glicemia 920 mg/dL (VR 70-99); sódio corrigido 152 mEq/L; osmolalidade plasmática 340 mOsm/kg; pH 7,32; bicarbonato 19 mEq/L; cetonúria discreta; creatinina 2,2 mg/dL. Qual a conduta inicial mais adequada?
A reposição volêmica vigorosa antes do início da insulinoterapia é a conduta inicial no estado hiperglicêmico hiperosmolar, pois o déficit de volume é maior que na cetoacidose e a insulina precoce desloca água para o intracelular, agravando o colapso circulatório. O bolus alto de insulina antes da volemia é justamente o erro a evitar. O bicarbonato não é indicado com pH de 7,32. A restrição hídrica agravaria a desidratação e a lesão renal. O diurético aumenta as perdas e piora a hipovolemia.
Mulher, 26 anos, com diabetes tipo 1, internada por cetoacidose diabética, encontra-se em infusão contínua de insulina há 10 horas. PA 118x72 mmHg, FC 88 bpm, consciente e aceitando dieta. Exames atuais: glicemia 180 mg/dL; pH 7,36; bicarbonato 20 mEq/L; ânion gap 11 mEq/L (VR 8–12); cetonemia em queda; potássio 4,2 mEq/L; sem náuseas ou vômitos. Qual a conduta para a transição?
A resolução da cetoacidose, com fechamento do ânion gap, correção do pH e paciente aceitando dieta, permite a transição para insulina subcutânea, que deve ser aplicada com sobreposição de cerca de uma a duas horas antes de suspender a infusão, pela meia-vida muito curta da insulina endovenosa. Suspender a infusão antes da ação da insulina subcutânea provoca rebote de cetose. Manter apenas correções conforme glicemia capilar deixa a paciente sem insulina basal. Prolongar a infusão por dois dias é desnecessário. O antidiabético oral não substitui insulina em diabetes tipo 1.
Mulher, 29 anos, com diabetes tipo 1 e 28 semanas de gestação, apresenta vômitos e dor abdominal há 12 horas, após quadro infeccioso urinário. PA 102x60 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm. Exames: glicemia 210 mg/dL; pH 7,18; bicarbonato 12 mEq/L; ânion gap 22 mEq/L; cetonemia elevada; potássio 3,4 mEq/L. Cardiotocografia com desacelerações variáveis e variabilidade reduzida. Qual a conduta?
A cetoacidose diabética na gestação pode ocorrer com glicemias relativamente baixas e frequentemente produz alterações da cardiotocografia que revertem com a correção materna, de modo que a prioridade é tratar a mãe com hidratação, insulina em infusão e reposição de potássio, reavaliando o feto após a estabilização. A cesariana de emergência em mãe acidótica aumenta a mortalidade materna e fetal. O bolus único de insulina sem infusão contínua não resolve a cetose. O bicarbonato isolado não interrompe a cetogênese. Suspender a insulina agrava a acidose.
Homem, 76 anos, diabético tipo 2, trazido por confusão progressiva há 3 dias, com poliúria e redução da ingesta hídrica. PA 96x58 mmHg, FC 116 bpm, T 37,4 °C, mucosas muito secas. Exames: glicemia 890 mg/dL; sódio medido 148 mEq/L; potássio 4,0 mEq/L; pH 7,34; bicarbonato 20 mEq/L; cetonemia discreta; ureia elevada; osmolalidade calculada muito aumentada. Qual a conduta inicial?
O estado hiperglicêmico hiperosmolar cursa com déficit volêmico muito grande, e a hidratação vigorosa com salina isotônica é a medida inicial, precedendo ou acompanhando o início da insulina, que só deve começar após reposição volêmica e com potássio acima do limite mínimo de segurança. Iniciar insulina em bolus alto antes da reposição desloca água para o intracelular e agrava o choque. O bicarbonato não está indicado com pH de 7,34. Reduzir a glicemia muito rapidamente favorece edema cerebral. Restringir líquidos é o oposto do tratamento necessário.
Mulher, 24 anos, portadora de diabetes mellitus tipo 1, é levada ao pronto-socorro com vômitos há 2 dias e sonolência progressiva desde a manhã. PA 90/60 mmHg, FC 124 bpm, FR 28 ipm, T 36,4 °C. Glicemia capilar 480 mg/dL. Gasometria arterial: pH 7,08 (VR 7,35–7,45); bicarbonato 6 mEq/L (VR 22–26). Cetonemia 5,4 mmol/L (VR < 0,6). Potássio sérico 3,1 mEq/L (VR 3,5–5,0). Foi iniciada expansão com solução salina a 0,9%. Qual a conduta correta quanto à insulinoterapia?
A conduta correta é adiar a insulina e repor potássio endovenoso até a potassemia superar 3,3 mEq/L: a insulina desloca potássio para o intracelular e, com potássio de 3,1 mEq/L já na admissão, precipitaria arritmia por hipocalemia grave. Iniciar insulina em bomba com reposição apenas oral não corrige a potassemia em tempo hábil na vigência de vômitos. Insulina subcutânea rápida com postergação do potássio comete o mesmo erro e ainda usa via inadequada para cetoacidose com pH de 7,08. Bicarbonato endovenoso não está indicado como medida prioritária e agrava a hipocalemia ao deslocar mais potássio para dentro da célula. Associar glicose a 5% de imediato é medida reservada para quando a glicemia cai abaixo de 200 a 250 mg/dL e não resolve o distúrbio de potássio que contraindica a insulina agora.
Homem, 32 anos, diabético tipo 1, internado há 10 horas por cetoacidose diabética, encontra-se em insulinoterapia endovenosa contínua. Está alerta, sem náusea e aceitando dieta oral. Exames atuais: glicemia 190 mg/dL; pH 7,34 (VR 7,35–7,45); bicarbonato 19 mEq/L (VR 22–26); ânion gap 10 mEq/L (VR 8–12); cetonemia 0,4 mmol/L (VR < 0,6); potássio 4,2 mEq/L (VR 3,5–5,0). PA 122/76 mmHg, FC 82 bpm, FR 16 ipm. Qual a conduta?
O critério de resolução da cetoacidose está preenchido: ânion gap normalizado em 10 mEq/L e cetonemia de 0,4 mmol/L, com paciente alerta e aceitando dieta. A transição correta é aplicar insulina basal subcutânea e manter a infusão venosa por cerca de 2 horas, evitando a lacuna de ação que reabre a cetogênese. Suspender a infusão de imediato com apenas insulina prandial deixa o paciente sem cobertura basal e provoca recidiva. Manter a infusão até o bicarbonato passar de 22 mEq/L prolonga o tratamento sem necessidade, pois o bicarbonato se recompõe mais lentamente que o ânion gap. Aguardar cetonúria negativa também atrasa a transição, já que a fita urinária detecta acetoacetato e permanece positiva após a resolução metabólica. Metformina com dieta não substitui insulina no diabetes tipo 1, em que há deficiência absoluta do hormônio.
Homem de 22 anos com diabetes tipo 1 suspendeu insulina por vômitos. Apresenta desidratação e respiração profunda, glicemia 380 mg/dL, pH 7,15, bicarbonato 10 mEq/L e beta-hidroxibutirato 5,8 mmol/L. Potássio inicial 4,7 mEq/L. Qual intervenção dirigida à causa é a mais adequada entre as opções?
Fluidos, insulina e correção eletrolítica são pilares; insulina pode reduzir rapidamente o potássio sérico. Referência: https://doi.org/10.2337/dci24-0032
Homem de 22 anos com diabetes tipo 1 suspendeu insulina por vômitos. Apresenta desidratação e respiração profunda, glicemia 380 mg/dL, pH 7,15, bicarbonato 10 mEq/L e beta-hidroxibutirato 5,8 mmol/L. Potássio inicial 4,7 mEq/L. Qual é o diagnóstico mais provável?
Hiperglicemia, cetonemia importante e acidose metabólica caracterizam cetoacidose. Referência: https://doi.org/10.2337/dci24-0032
Homem de 22 anos com diabetes tipo 1 suspendeu insulina por vômitos. Apresenta desidratação e respiração profunda, glicemia 380 mg/dL, pH 7,15, bicarbonato 10 mEq/L e beta-hidroxibutirato 5,8 mmol/L. Potássio inicial 4,7 mEq/L. Qual mecanismo explica melhor o quadro?
A falta de insulina promove cetogênese e diurese osmótica, causando acidose e desidratação. Referência: https://doi.org/10.2337/dci24-0032
Homem de 22 anos com diabetes tipo 1 suspendeu insulina por vômitos. Apresenta desidratação e respiração profunda, glicemia 380 mg/dL, pH 7,15, bicarbonato 10 mEq/L e beta-hidroxibutirato 5,8 mmol/L. Potássio inicial 4,7 mEq/L. Qual achado complementar favorece especificamente essa hipótese?
A acidose cetótica diferencia o quadro de hiperglicemia isolada sem cetose relevante. Referência: https://doi.org/10.2337/dci24-0032
Pessoa com diabetes tipo 1 suspendeu insulina, apresenta cetonemia elevada e a gasometria representada. Qual alteração fisiopatológica liga o diagrama ao quadro?

Deficiência de insulina favorece cetogênese; o tamponamento dos ácidos reduz bicarbonato e desloca o ponto para acidemia.
Por que cetonas urinárias podem parecer persistir ou aumentar durante melhora da cetose, ao contrário da queda do beta-hidroxibutirato mostrada?

A recuperação altera a proporção das cetonas; monitoramento sanguíneo de beta-hidroxibutirato é mais adequado para essa tendência.
Após tratar a cetose, o beta-hidroxibutirato normaliza, mas o cloro sobe e o bicarbonato segue um pouco baixo. Qual hipótese deve ser considerada antes de afirmar falha da terapia da cetose?

Reposição rica em cloro e perda de cetoânions podem manter acidose de gap normal apesar da resolução da cetose.
Glicemia elevada e cetonemia importante, associadas à acidose, sugerem qual emergência?

Hiperglicemia, cetonemia e acidose sustentam o quadro.
Qual eletrólito deve ser acompanhado de perto durante a administração de insulina nesse quadro?

A insulina desloca potássio para o interior celular.
Depois de corrigido o potássio, a glicose está abaixo de 200, mas persiste cetose. Qual estratégia permite continuar sua resolução com segurança?

O substrato evita hipoglicemia enquanto a insulina continua suprimindo cetogênese.
Às seis horas, qual dado modifica a segurança da continuidade da insulina e qual resposta é apropriada?

A insulina pode agravar hipocalemia e arritmias; a cetose ainda precisa de tratamento após corrigir esse risco.
A queda da glicose no gráfico foi acompanhada de normalização completa das cetonas?

Beta-hidroxibutirato permanece 2,5 mmol/L no ponto final.
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Reescreva de memória a tabela cetoacidose × estado hiperosmolar, linha por linha, e depois crave os números-âncora sem consultar: critérios da cetoacidose (glicemia ≥ 200 ou história de diabetes, beta-hidroxibutirato ≥ 3,0 mmol/L ou cetonúria ≥ 2+, pH < 7,3 e/ou bicarbonato < 15 no texto brasileiro e < 18 no de 2024); gravidade pelo pH (7,20-7,30, 7,10-7,20, abaixo de 7,10); critérios do estado hiperosmolar (glicemia ≥ 600, osmolalidade efetiva > 320 no Brasil e > 300 em 2024, cetona < 3,0, pH ≥ 7,3 e bicarbonato ≥ 15); fluido de 15 a 20 mL/kg na primeira hora; troca para NaCl 0,45% com sódio corrigido ≥ 150; insulina 0,1 e 0,05 U/kg/h; queda-alvo de 50 a 70 mg/dL/h; soro glicosado em 200-250 (cetoacidose) e 250-300 (estado hiperosmolar); potássio 3,3 e 5,2; bicarbonato só abaixo de pH 6,9; sobreposição de 1 a 2 horas na transição. Refaça as três contas do caso resolvido no papel, sem olhar.
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Trabalhe as quatro divergências como se fosse montar as alternativas. Para o bicarbonato, escreva os três cortes com ano e dose e marque a faixa contestada entre pH 6,9 e 7,0. Para a insulina, liste os quatro números que existem no mundo — 0,1 U/kg/h sem bolus, bolus de 0,1 U/kg, 0,14 U/kg/h e 0,15 U/kg/h — e diga de qual documento cada um vem, lembrando que o capítulo brasileiro de cetoacidose euglicêmica mantém o bolus que o capítulo de cetoacidose dispensa. Para o fluido, escreva as três velocidades (15-20 mL/kg na primeira hora, 1 a 1,5 L na primeira hora, 500-1.000 mL/h por 2 a 4 horas) e a metanálise que sustenta a solução balanceada (risco relativo 1,46; IC 95% 1,10-1,94). Para as definições, monte uma coluna com o que mudou em 2024: bicarbonato 15 para 18, cetonúria para beta-hidroxibutirato quantitativo, ânion-gap para fora, osmolalidade efetiva 320 para 300, sangue arterial dispensado. Feche revendo a tabela de potássio por faixa e a lista de complicações do tratamento com os respectivos números de frequência.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Homem de 26 anos com diabetes tipo 1 chega ao pronto-socorro trazido pela irmã, com náuseas, vômitos e dor abdominal difusa há um dia. Está sem aplicar insulina há três dias, desde que a caneta acabou. Consciente, taquipneico e visivelmente desidratado. Conduza o atendimento: colha a história dirigida, examine o paciente, peça os exames que decidem a conduta, interprete a gasometria e os eletrólitos — fazendo as contas — e prescreva a primeira hora dizendo, em ordem, o que entra primeiro e por quê. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
