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Clínica MédicaEndocrinologia

Hipoglicemia: sem diabetes e na emergência

Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave

Duas perguntas que caem juntas e se resolvem com réguas diferentes: quem, sem diabetes, merece investigação, e o que se faz nos primeiros minutos de uma hipoglicemia grave. O que decide a questão é o corte que abre cada porta e a leitura da amostra colhida durante o episódio.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 29 anos com diabetes mellitus tipo 1 apresenta, durante atividade física intensa, sudorese fria, tremores, taquicardia, fome e confusão. Glicemia capilar no momento: 48 mg/dL. Está consciente e capaz de deglutir. Qual é a conduta imediata mais apropriada?

02

Como esse tema cai

Hipoglicemia cai na prova em duas roupas diferentes e o candidato costuma tratar as duas com o mesmo número. Na pessoa com diabetes, 70 mg/dL é um limiar de ação: abaixo disso trata-se, com ou sem sintoma, porque quem já perdeu contrarregulação cai rápido. Na pessoa sem diabetes, 70 mg/dL não significa nada — o corte que autoriza chamar o episódio de hipoglicemia e sair investigando é 55 mg/dL, e ele só vale se vier acompanhado de sintoma no momento da coleta e de melhora quando a glicose sobe. São dois números com funções distintas, e o enunciado quase sempre entrega qual dos dois está em jogo pela primeira linha da vinheta.

As duas metades também têm donos documentais diferentes. O manejo agudo é território de documento brasileiro: o Caderno de Atenção Básica n.º 36 descreve o que a unidade de saúde faz, os Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192 descrevem o que a ambulância faz, e a Rename 2024 define o que existe para ser administrado no SUS. A investigação da hipoglicemia de quem não tem diabetes segue o caminho inverso: o corpo normativo brasileiro trata da pessoa com diabetes, e a régua da investigação vem da diretriz da Endocrine Society de 2009 — o que o Brasil tem de próprio nesse terreno são casuísticas hospitalares, e a maior delas publicada em português, com 24 casos do Hospital das Clínicas da FMUSP, é usada aqui para calibrar a duração real do jejum diagnóstico.

Fica fora deste capítulo o que já tem endereço próprio: cetoacidose diabética e estado hiperosmolar, insulinoterapia e escolha de hipoglicemiante oral, e a hipoglicemia do recém-nascido. A hipoglicemia da pessoa com diabetes entra aqui só na parte que decide conduta na emergência — a classificação em níveis, a regra dos 15 e o que se faz com quem não engole.

03

O que muda decisão

Setenta e cinquenta e cinco não fazem a mesma coisa

O Caderno de Atenção Básica n.º 36 define hipoglicemia como glicemia abaixo de 70 mg/dL, com ou sem sintomas, e acrescenta uma observação que a maioria dos candidatos ignora: os sintomas costumam aparecer só entre 60 e 50 mg/dL, e esse limiar se desloca. Sobe em quem vive hiperglicêmico — o paciente com médias altas pode sentir tudo a 80 mg/dL, a chamada hipoglicemia relativa — e desce em quem faz tratamento intensivo e se acostumou a glicemias baixas. Ou seja: 70 é a linha administrativa de agir, não a linha em que o corpo reclama.

A orientação da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2023 organiza isso em três níveis. O nível 1 vai de 70 a 54 mg/dL e é clinicamente importante independentemente de sintoma: é o momento de agir para não deixar virar coisa pior. O nível 2 é a glicemia abaixo de 54 mg/dL, o limiar em que a neuroglicopenia começa e a ação precisa ser imediata. O nível 3 não tem número: é o evento grave, definido pela alteração do funcionamento mental ou físico que exige a ajuda de outra pessoa para a recuperação, qualquer que seja a glicemia registrada. Repare no que essa definição faz — ela transforma gravidade em função, e não em valor. Um paciente que convulsionou com 52 mg/dL teve hipoglicemia grave; um que corrigiu sozinho com 38 mg/dL não teve.

No indivíduo sem diabetes o raciocínio muda de natureza. Não existe limiar de ação, porque não há insulina exógena para ajustar — existe um corte diagnóstico. Esse corte é 55 mg/dL, e ele só conta dentro da tríade de Whipple. Uma glicemia de 62 mg/dL colhida no jejum de um check-up, em pessoa assintomática, não é hipoglicemia e não abre investigação nenhuma. Guardar essa separação evita o erro mais caro do tema: pedir tomografia de abdome para caçar insulinoma em quem nunca preencheu a tríade.

A tríade de Whipple é a porta, e ela tem três batentes

A tríade de Whipple exige três coisas simultâneas: sintomas ou sinais compatíveis com hipoglicemia; concentração plasmática de glicose baixa, medida no momento em que os sintomas estão presentes; e resolução desses sintomas quando a glicose é elevada. Faltando qualquer um dos três, o caso não é de hipoglicemia — é de sintoma inespecífico com uma glicemia baixa por perto. A ordem importa: a glicemia tem de ser do episódio, não de outro dia.

Glicemia baixa isolada e assintomática costuma ser artefato. O tubo que demorou a ser processado continua consumindo glicose pelas hemácias; leucocitose ou policitemia extremas aceleram esse consumo; e o glicosímetro capilar tem imprecisão justamente na faixa baixa. Chama-se pseudo-hipoglicemia, e a conduta é repetir com coleta adequada, não investigar pâncreas.

Os sintomas se dividem em dois grupos e o grupo que aparece na vinheta informa o quanto o quadro avançou. Os autonômicos — tremor, sudorese, palpitação, palidez, fome, ansiedade, parestesias — são o alarme: nascem da descarga adrenérgica que tenta corrigir a queda. Os neuroglicopênicos — confusão, alteração de comportamento, dificuldade de concentração, visão turva, sonolência, convulsão, coma — não são alarme, são o dano: o cérebro já está sem substrato. Um paciente que chega confuso, sem ter passado pelo alarme, é um paciente com percepção reduzida de hipoglicemia.

Percepção reduzida é diagnóstico com instrumento próprio. O questionário de Clarke tem oito perguntas de múltipla escolha, cada uma classificada como percepção normal ou reduzida, e quatro ou mais respostas de percepção reduzida caracterizam a condição, que se associa a risco seis vezes maior de hipoglicemia grave. A versão em português brasileiro foi adaptada transculturalmente e validada. O que muda na conduta é imediato: quem tem percepção reduzida precisa de meta glicêmica afrouxada, e não de mais rigor.

Quem já estava doente e quem parecia bem

A lista de causas de hipoglicemia é longa e decorá-la em bloco não ajuda. O que organiza é uma pergunta única, feita antes de qualquer exame: esta pessoa já estava doente ou medicada, ou parecia saudável até o episódio? As duas respostas levam a listas quase sem interseção, e o enunciado sempre diz de qual lado está.

No lado de quem já estava doente ou medicado, medicamento é de longe a causa mais comum — insulina e secretagogos em primeiro lugar, mas também a longa lista de fármacos que potencializam o efeito hipoglicemiante, como sulfametoxazol, fluoroquinolonas, genfibrozila, inibidores da monoaminoxidase e propranolol. Vem depois o álcool, que não causa hipoglicemia por si: causa quando se soma a jejum, porque o etanol bloqueia a gliconeogênese e o fígado sem glicogênio fica sem saída. Somam-se a sepse, a insuficiência hepática, a renal e a cardíaca, a inanição e a desnutrição, e a deficiência de cortisol da insuficiência adrenal. Nesse lado, a hipoglicemia é mais um item de uma lista de problemas — e a causa costuma estar escrita no próprio enunciado.

No lado de quem parecia bem, as causas são poucas e cada uma tem assinatura laboratorial. Hiperinsulinismo endógeno reúne insulinoma, nesidioblastose, hipoglicemia pós-bariátrica e a hipoglicemia autoimune por anticorpo anti-insulina. Do outro grupo estão a hipoglicemia factícia, acidental ou maliciosa, por insulina ou por secretagogo — e essa é a razão de o rastreio de sulfonilureia entrar na rotina, não como excentricidade. Fecha a lista o tumor não-ilhota produtor de IGF-2, em geral volumoso e mesenquimal, que provoca hipoglicemia sem insulina alta.

A anamnese resolve boa parte antes do laboratório. Acesso a insulina ou a secretagogo em casa ou no trabalho é dado de história: profissional de saúde, familiar de pessoa com diabetes, cuidador. Ganho de peso por comer para não passar mal aponta para hipoglicemia de jejum crônica. Sintoma que aparece duas a cinco horas depois das refeições, e nunca no jejum, aponta para o mundo pós-prandial — e esse detalhe muda o teste que se pede.

A amostra crítica: colher enquanto ainda está baixo

Toda a investigação depende de uma coleta feita durante o episódio, com a glicemia ainda baixa. Chamam-na amostra crítica, e ela contém glicose plasmática, insulina, peptídeo C, proinsulina, beta-hidroxibutirato e rastreio de hipoglicemiantes orais no sangue — mais anticorpo anti-insulina quando o padrão sugerir causa autoimune. No fim do episódio, aplica-se 1 mg de glucagon e mede-se a resposta glicêmica. Coleta feita depois de corrigir a glicose não vale nada: os hormônios já voltaram ao normal e o exame sai limpo.

O peptídeo C é o discriminador do tema inteiro. Insulina e peptídeo C nascem da mesma molécula precursora e são secretados juntos, em quantidades equimolares. Toda insulina produzida pelo pâncreas vem acompanhada de peptídeo C; insulina injetada não vem. Portanto: insulina alta com peptídeo C alto significa que o pâncreas está secretando — e a pergunta seguinte é por que; insulina alta com peptídeo C suprimido significa que a insulina veio de fora, e nenhum exame de imagem vai encontrar tumor nenhum.

O beta-hidroxibutirato responde outra pergunta: a hipoglicemia está sendo mediada por insulina? A insulina inibe a cetogênese. Se há insulina agindo, o corpo cetônico fica baixo — abaixo de 2,7 mmol/L. Se o beta-hidroxibutirato está alto com insulina baixa, a hipoglicemia não é insulínica: é de doença crítica, inanição, álcool ou deficiência de cortisol. O tumor não-ilhota produtor de IGF-2 é a exceção que confirma a lógica — insulina e peptídeo C baixos, mas beta-hidroxibutirato também baixo, porque o IGF-2 age no receptor de insulina e produz o mesmo efeito metabólico sem ser insulina.

A resposta ao glucagon fecha a leitura. Aumento glicêmico superior a 25 mg/dL após 1 mg de glucagon indica que ainda havia glicogênio hepático mobilizável no fim de um jejum prolongado — o que só ocorre porque a insulina em excesso o preservou. Em quem estava hipoglicêmico por falta de substrato, esse estoque não existe e a resposta é pobre.

Ilustração comparando a secreção pancreática, em que insulina e peptídeo C saem juntos e em quantidades iguais do mesmo precursor, com a injeção de insulina externa, que chega à circulação desacompanhada de peptídeo C.
Insulina e peptídeo C nascem da mesma molécula e são secretados juntos: insulina endógena sempre vem com peptídeo C, insulina injetada nunca vem. É por isso que o peptídeo C suprimido diante de insulina alta encerra a discussão sem exame de imagem.

O jejum: quando o episódio não acontece na frente do médico

Quando a história é convincente mas ninguém conseguiu colher no momento do sintoma, recria-se a circunstância sob supervisão. O jejum supervisionado permite líquidos sem caloria e sem cafeína, e nada mais. Glicose, insulina e peptídeo C são colhidos no início e a cada quatro a seis horas; quando a glicemia cai abaixo de 60 mg/dL, as coletas passam a ser de uma a duas horas, com o paciente sob vigilância próxima. O teste é encerrado quando a tríade se completa — glicemia abaixo de 45 mg/dL acompanhada de neuroglicopenia — ou quando as 72 horas se esgotam sem que nada aconteça.

As 72 horas são um teto, não uma duração obrigatória, e essa distinção decide questão. Na casuística brasileira de 24 casos de hiperinsulinismo endógeno do Hospital das Clínicas da FMUSP, o critério diagnóstico foi preenchido com jejum médio de 20 horas, e o jejum noturno de 12 horas repetido em dias sucessivos bastou para o diagnóstico em toda a série. Quem tem insulinoma raramente aguenta muito tempo sem comer; quem chega ao terceiro dia sem preencher critério quase sempre não tem a doença.

Sintoma que aparece de duas a cinco horas depois das refeições e nunca no jejum não se investiga com jejum — o jejum vai sair normal e o paciente terá passado três dias sem comer à toa. O teste que reproduz o gatilho é a refeição mista, com coletas seriadas no período pós-prandial. Esse é o quadro típico do paciente operado de bypass gástrico, e a sobrecarga de 75 g de glicose não substitui a refeição mista, porque não reproduz o que ele come de fato.

Hiperinsulinismo endógeno: insulinoma e o que se parece com ele

O insulinoma é o tumor da lista: em geral único, pequeno, benigno e intrapancreático, com hipoglicemia de jejum e ganho de peso pela alimentação defensiva. Confirmado o padrão bioquímico, o problema vira localizar. Na série brasileira, os métodos convencionais de imagem — ultrassonografia, tomografia e ressonância — tiveram sensibilidade entre 50% e 80%, enquanto a ultrassonografia intraoperatória localizou perto de 100% dos tumores. Isso tem consequência prática: bioquímica positiva com imagem negativa não afasta insulinoma, e o paciente não deve sair da investigação por causa de uma tomografia limpa.

A nesidioblastose, ou hiperinsulinismo pancreatogênico não-insulinoma, é a doença difusa das ilhotas, sem tumor a apontar. Foram três casos na série de 24. Ela e a hipoglicemia pós-bariátrica compartilham o padrão pós-prandial, que é o que as separa clinicamente do insulinoma clássico.

A hipoglicemia autoimune por anticorpo anti-insulina fecha o grupo. O anticorpo se liga à insulina e a devolve à circulação de forma desordenada, produzindo insulina medida em valores muito altos, peptídeo C também alto e anticorpo positivo. É rara e cai como diferencial elegante quando a imagem não encontra nada.

O tratamento do hiperinsulinismo com tumor identificado é a ressecção. Quando não há como ressecar, ou o paciente não tem condição cirúrgica, o controle é clínico: refeições fracionadas, inibidores de alfa-glicosidase, diazóxido e análogos de somatostatina. Na série brasileira, o diazóxido foi usado em 6 a 15 mg/kg/dia no pré-operatório. Vale saber onde isso esbarra no SUS: a Rename 2024 traz o acetato de octreotida no Componente Especializado, no grupo de financiamento 1B, com o PCDT da Acromegalia como documento norteador — a incorporação está amarrada a outra doença. O diazóxido fica fora do elenco. Na prática, o tratamento clínico prolongado do hiperinsulinismo irressecável no SUS depende de via administrativa própria, e a resposta padronizada continua sendo cirúrgica.

Hipoglicemia grave: os primeiros minutos

Todo rebaixamento de consciência tem glicemia capilar medida e anotada. Não é zelo: é a causa reversível mais rápida da lista, e a única que se resolve em três minutos com o que já está no carro de emergência. Enquanto isso, decide-se por qual via corrigir, e a pergunta é uma só — este paciente engole com segurança?

Quem engole recebe carboidrato de absorção rápida por via oral, e é aqui que entra a regra dos 15 da orientação da Sociedade Brasileira de Diabetes: 15 g no nível 1, o equivalente a uma colher de sopa de açúcar em meio copo de água, três balas moles, uma colher de sopa de mel, 150 mL de refrigerante comum, um copo de suco integral de laranja ou um sachê de glicose instantânea — porção que sobe a glicemia 30 a 40 mg/dL em 15 minutos. Abaixo de 54 mg/dL, no nível 2, a quantidade dobra para 30 g. Repete-se a glicemia capilar em 15 minutos e corrige-se de novo se ainda estiver baixa. O Caderno de Atenção Básica descreve a mesma manobra com faixa um pouco diferente, de 10 a 20 g repetidos em 10 a 15 minutos, e traz as equivalências caseiras que o paciente entende: 10 g são duas colheres de chá de açúcar, 100 mL de suco de fruta ou duas balas.

Quem não engole não recebe nada pela boca à força — o risco é aspiração. Enquanto a ajuda não chega, o familiar pode esfregar açúcar ou mel na face interna da bochecha, com a cabeça lateralizada. Chegando o serviço de saúde, a via é endovenosa. O protocolo AC29 do SAMU manda 30 a 50 mL de glicose a 50% por via endovenosa ou intraóssea, repetindo a glicemia capilar e a dose se os sintomas persistirem. O Caderno de Atenção Básica descreve a mesma correção com 25 mL de glicose a 50% em acesso de grande calibre, infundidos a 3 mL/min, mantendo em seguida uma veia com glicose a 10% até a consciência voltar plenamente ou a glicemia passar de 60 mg/dL.

Há uma ordem que não se inverte. No etilista, no hepatopata e no desnutrido, a tiamina vem antes da glicose — 100 mg por via intramuscular no protocolo AC29, para prevenir a encefalopatia de Wernicke-Korsakoff. A razão é metabólica: a glicose administrada consome o pouco cofator que resta para ser metabolizada, e o paciente com reserva marginal pode ser empurrado para a encefalopatia justamente pelo tratamento correto da hipoglicemia. No protocolo específico da intoxicação e abstinência alcoólica, o ATox 4, a dose de tiamina é 300 mg por via intramuscular, e a correção é feita com 40 mL de glicose a 50% já a partir de glicemia capilar abaixo de 70 mg/dL.

Corrigir é metade. A outra metade é impedir a recorrência, e ela depende do que causou o episódio. Quem hipoglicemiou por sulfonilureia precisa de observação de 48 a 72 horas, porque o fármaco continua estimulando secreção muito depois de a glicemia normalizar — e o idoso com função renal reduzida acumula. Insulina de ação prolongada tem o mesmo problema. Quem hipoglicemiou por jejum somado a álcool volta a hipoglicemiar assim que a infusão for suspensa, se não comer. E ninguém sai com a mesma prescrição que produziu o evento: hipoglicemia grave é indicação de rever esquema, não de reforçar orientação.

04

Da amostra crítica ao limiar de ação

Duas decisões seguidas, e elas não se misturam. Diante do paciente rebaixado, o que importa é o limiar de tratar e a via — e aí os documentos brasileiros mandam. Diante do paciente sem diabetes que teve episódios repetidos, o que importa é a leitura de um conjunto de cinco resultados colhidos ao mesmo tempo, e aí a régua é a bioquímica.

  1. 11. Em qualquer rebaixamento de consciência, medir e anotar a glicemia capilar antes de atribuir o quadro a outra causa.
  2. 22. Perguntar se o paciente engole com segurança. Se engole: carboidrato de absorção rápida por via oral, 15 g entre 70 e 54 mg/dL e 30 g abaixo de 54 mg/dL, reavaliando a glicemia em 15 minutos.
  3. 33. Se não engole: nada pela boca à força. Açúcar ou mel na face interna da bochecha com a cabeça lateralizada enquanto se obtém acesso.
  4. 44. Se o paciente for etilista, hepatopata ou desnutrido, aplicar tiamina por via intramuscular ANTES da glicose — 100 mg pelo protocolo AC29, 300 mg pelo protocolo do álcool.
  5. 55. Corrigir por via endovenosa com glicose a 50%: 30 a 50 mL no atendimento de urgência, ou 25 mL a 3 mL/min seguidos de manutenção com glicose a 10% na unidade de saúde. Repetir a glicemia capilar e a dose se os sintomas persistirem.
  6. 66. Identificar a causa antes de decidir o destino. Sulfonilureia ou insulina de ação prolongada: observação de 48 a 72 horas. Jejum com álcool: alimentar antes de suspender a infusão.
  7. 77. No paciente SEM diabetes, só investigar se a tríade de Whipple estiver documentada — sintoma, glicemia abaixo de 55 mg/dL medida no momento do sintoma e resolução ao corrigir.
  8. 88. Colher a amostra crítica DURANTE o episódio: glicose, insulina, peptídeo C, proinsulina, beta-hidroxibutirato e rastreio de hipoglicemiantes orais; depois, resposta glicêmica a 1 mg de glucagon.
  9. 99. Se o episódio não ocorre espontaneamente: jejum supervisionado quando o sintoma é de jejum, encerrado ao completar a tríade ou em 72 horas; teste de refeição mista quando o sintoma é pós-prandial.
  10. 1010. Com padrão de hiperinsulinismo endógeno e rastreio de secretagogo negativo, partir para localização — lembrando que imagem convencional negativa não afasta insulinoma.

Nível 1 — glicemia entre 70 e 54 mg/dL

Clinicamente importante independentemente de sintoma. É o momento de agir para não deixar evoluir: 15 g de carboidrato de absorção rápida, reavaliando em 15 minutos.

Nível 2 — glicemia abaixo de 54 mg/dL

Limiar em que a neuroglicopenia começa. A ação é imediata e a quantidade dobra: 30 g de carboidrato de absorção rápida, reavaliando em 15 minutos.

Nível 3 — evento grave, definido pela dependência de terceiro

Estado mental ou físico alterado que exige ajuda de outra pessoa para a recuperação, qualquer que seja o valor da glicemia. Nada pela boca à força; via endovenosa e busca da causa.

InsulinaPeptídeo CBeta-hidroxibutiratoRastreio de hipoglicemiante oralO que o conjunto significa
≥ 3 µU/mL≥ 0,2 nmol/L (0,6 ng/mL)≤ 2,7 mmol/LNegativoHiperinsulinismo endógeno: insulinoma, nesidioblastose, hipoglicemia pós-bariátrica ou hipoglicemia autoimune
≥ 3 µU/mL≥ 0,2 nmol/L≤ 2,7 mmol/LPositivoHipoglicemia por secretagogo — sulfonilureia ou glinida, acidental, factícia ou maliciosa. Não é insulinoma
Alta, muitas vezes desproporcionalSuprimido≤ 2,7 mmol/LNegativoInsulina exógena: hipoglicemia factícia ou erro de dose. Nenhuma imagem vai encontrar tumor
< 3 µU/mL< 0,2 nmol/L> 2,7 mmol/LNegativoHipoglicemia não mediada por insulina: doença crítica, inanição, álcool com jejum ou deficiência de cortisol
< 3 µU/mL< 0,2 nmol/L≤ 2,7 mmol/LNegativoMediador semelhante à insulina: tumor não-ilhota produtor de IGF-2, que age no receptor de insulina

Limiares e doses da hipoglicemia grave nos documentos brasileiros

Documento (ano)Quando tratarO que administrarO que o documento acrescenta
Ministério da Saúde, Caderno de Atenção Básica n.º 36 (2013)Sinais de hipoglicemia grave; a hipoglicemia é definida abaixo de 70 mg/dL, com sintomas surgindo em geral entre 60 e 50 mg/dL25 mL de glicose a 50% por via endovenosa em acesso de grande calibre, a 3 mL/min, mantendo veia com glicose a 10%Manter até consciência plena ou glicemia acima de 60 mg/dL; em uso de sulfonilureia, observar 48 a 72 horas
Ministério da Saúde, SAMU 192, protocolo AC29 (2014)Glicemia capilar abaixo de 60 mg/dL com sinais e sintomas de hipoglicemia30 a 50 mL de glicose a 50% por via endovenosa ou intraóssea, repetindo se os sintomas persistiremTiamina 100 mg por via intramuscular antes da glicose no etilista, hepatopata ou desnutrido
Ministério da Saúde, SAMU 192, protocolo ATox 4 (2016)Glicemia capilar abaixo de 70 mg/dL no paciente com intoxicação ou abstinência alcoólica40 mL de glicose a 50% por via endovenosa, repetindo se a hipoglicemia persistirTiamina 300 mg por via intramuscular, se disponível
Sociedade Brasileira de Diabetes (2023)Nível 1 entre 70 e 54 mg/dL e nível 2 abaixo de 54 mg/dL, no paciente capaz de engolir15 g de carboidrato de absorção rápida no nível 1 e 30 g no nível 2, reavaliando em 15 minutosNo nível 3 com rebaixamento: açúcar ou mel na face interna da bochecha e glucagon intramuscular ou subcutâneo, se disponível

Causas de hipoglicemia por contexto clínico

ContextoCausasPista que a vinheta entrega
Pessoa doente, hospitalizada ou em uso de medicamentoInsulina e secretagogos; fármacos que potencializam o efeito hipoglicemiante; álcool somado a jejum; sepse; insuficiência hepática, renal e cardíaca; inanição e desnutrição; deficiência de cortisolA hipoglicemia é mais um item numa lista de problemas, e o medicamento ou o jejum já estão escritos no enunciado
Pessoa aparentemente saudávelInsulinoma; nesidioblastose e hipoglicemia pós-bariátrica; hipoglicemia autoimune por anticorpo anti-insulina; hipoglicemia factícia por insulina ou secretagogo; tumor não-ilhota produtor de IGF-2Episódios repetidos e estereotipados, ganho de peso por comer para não passar mal, acesso a insulina ou a secretagogo em casa ou no trabalho

Setenta e cinquenta e cinco convivem no mesmo tema com funções diferentes e não se anulam. O 70 mg/dL é limiar de ação na pessoa com diabetes — abaixo dele se trata, com ou sem sintoma. O 55 mg/dL é corte diagnóstico da tríade de Whipple na pessoa sem diabetes — abaixo dele, com sintoma simultâneo e resolução ao corrigir, existe hipoglicemia a explicar. Um manda tratar, o outro autoriza investigar.

Dentro do mesmo manual do SAMU 192 há dois limiares e duas doses de tiamina, e a diferença tem origem identificável: o AC29 é de 2014 e descreve a hipoglicemia genérica, com corte de 60 mg/dL exigindo sintomas e tiamina 100 mg como profilaxia; o ATox 4 é de 2016 e descreve o paciente alcoolizado, com corte de 70 mg/dL sem exigir sintoma — porque o intoxicado não relata sintoma de forma confiável — e tiamina 300 mg, dose do protocolo do álcool e não da hipoglicemia. Os dois seguem vigentes lado a lado e nenhum foi ajustado ao outro.

Os critérios bioquímicos aparecem com sinais diferentes conforme a fonte: a insulina é descrita como igual ou acima de 3 µU/mL na tabela reproduzida no Endotext e como acima de 3 µU/mL na casuística brasileira; o beta-hidroxibutirato aparece como abaixo de 2,7 mmol/L numa versão e igual ou abaixo de 2,7 mmol/L noutra. A diferença de sinal fica registrada e não se uniformiza — nenhum caso real se decide nessa casa decimal.

Peptídeo C de 0,2 nmol/L e de 0,6 ng/mL são o mesmo valor em unidades diferentes: o primeiro é o número da diretriz internacional, o segundo é o da casuística brasileira e o que costuma sair no laudo do laboratório daqui. Conferir a unidade do laudo antes de comparar.

O corte de 45 mg/dL que encerra o jejum supervisionado não compete com o 55 mg/dL do critério diagnóstico: 55 é o valor que caracteriza hipoglicemia quando há sintoma, e 45 com neuroglicopenia é o gatilho operacional que autoriza interromper um teste supervisionado.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Limiar e dose da glicose hipertônica na hipoglicemia grave

Vinte e cinco mililitros em bólus lento, com manutenção

25 mL de glicose a 50% por via endovenosa em acesso de grande calibre, infundidos a 3 mL/min, mantendo em seguida uma veia com glicose a 10% até a recuperação plena da consciência ou glicemia acima de 60 mg/dL; depois, retomar o esquema oral e observar enquanto durar o pico da insulina.

Ministério da Saúde, Cadernos de Atenção Básica n.º 36, 2013, Quadro 11.

Trinta a cinquenta mililitros a partir de 60 mg/dL com sintomas

30 a 50 mL de glicose a 50% por via endovenosa ou intraóssea, indicados quando a glicemia capilar está abaixo de 60 mg/dL e há sinais e sintomas de hipoglicemia, repetindo a glicemia capilar e a dose se os sintomas persistirem.

Ministério da Saúde, Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, protocolo AC29, 2014.

Quarenta mililitros a partir de 70 mg/dL no paciente alcoolizado

40 mL de glicose a 50% por via endovenosa, indicados quando a glicemia capilar está abaixo de 70 mg/dL no paciente com intoxicação ou abstinência alcoólica, com repetição se a hipoglicemia persistir.

Ministério da Saúde, Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, protocolo ATox 4, 2016.

Na prova

Os três documentos são do Ministério da Saúde e o que os separa é o cenário e o ano de elaboração. O Caderno descreve a unidade de saúde, que tem tempo de manter uma veia com glicose a 10% e observar o paciente por horas; os protocolos do SAMU descrevem a ambulância, que corrige e transporta; e o protocolo do álcool, dois anos mais novo, sobe o limiar porque o paciente intoxicado não relata sintoma de forma confiável, e o critério do AC29 depende de sintoma. O enunciado denuncia o recorte pelo lugar: unidade básica, enfermaria ou acompanhamento longitudinal puxam o Caderno; chamada de urgência, ambulância ou menção à equipe do SAMU puxam o AC29; hálito etílico, agitação e abstinência puxam o ATox 4. Prova oficial do MEC tende a conduta do SUS; em outras bancas, uma alternativa que cite a manutenção com glicose a 10% ou a observação de 48 a 72 horas está falando o vocabulário do Caderno, e uma que cite via intraóssea está falando o do SAMU.

Glucagon como medida de resgate fora do hospital

Glucagon intramuscular ou subcutâneo no evento grave

No nível 3, com rebaixamento de consciência, além de posicionar o paciente e usar açúcar ou mel na face interna da bochecha enquanto se aguarda o serviço de emergência, administra-se glucagon por via intramuscular ou subcutânea conforme orientação médica — recomendação apresentada condicionada à disponibilidade.

Sociedade Brasileira de Diabetes, Orientações sobre hipoglicemia para profissionais de saúde, 2023.

Glicose hipertônica endovenosa como via padronizada no SUS

A glicose em solução injetável a 500 mg/mL (50%) integra o Componente Básico da Assistência Farmacêutica, ao lado das concentrações de 5% e 10%, e é o que a rede tem padronizado para corrigir a hipoglicemia grave; o elenco financiado não alcança o glucagon em nenhuma apresentação.

Ministério da Saúde, Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024, Portaria GM/MS n.º 6.324/2024.

Na prova

A causa da diferença é de disponibilidade, não de evidência: o glucagon funciona, a própria orientação brasileira o menciona, e é justamente por isso que ela o condiciona a um se disponível. Vinheta em domicílio, com familiar treinado, criança em casa ou paciente sem acesso venoso, é o mundo em que o glucagon aparece como alternativa plausível; vinheta em unidade básica, pronto-atendimento ou ambulância do SUS é o mundo da glicose hipertônica endovenosa. Um distrator que ofereça glucagon nasal denuncia recorte internacional, porque essa apresentação está fora do elenco brasileiro. E há um detalhe fisiológico que o enunciado às vezes usa como armadilha: o glucagon depende de glicogênio hepático para funcionar, e no etilista em jejum prolongado esse estoque já se esgotou.

Duração do jejum necessária para fechar o diagnóstico de hiperinsulinismo

Jejum supervisionado de até 72 horas como teste de referência

Quando o episódio espontâneo não pode ser observado, recria-se a circunstância com jejum supervisionado de até 72 horas, com coletas de glicose, insulina e peptídeo C a cada quatro a seis horas e a cada uma a duas horas quando a glicemia cai abaixo de 60 mg/dL.

Diretriz da Endocrine Society de 2009 (Cryer e cols.), com o protocolo reproduzido no Endotext, NCBI Bookshelf.

Jejum curto repetido bastou na casuística brasileira

Na série de 24 casos de hiperinsulinismo endógeno do Hospital das Clínicas da FMUSP, o critério diagnóstico foi preenchido com jejum médio de 20 horas, e o jejum noturno de 12 horas repetido em dias sucessivos foi suficiente para o diagnóstico em toda a casuística.

Felício JS e cols., Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, 2012;56(2).

Na prova

As duas posições descrevem o mesmo teste com leituras operacionais diferentes: 72 horas é o teto do protocolo, e o jejum se encerra quando a tríade se completa, o que na prática acontece bem antes na maioria dos insulinomas. Enunciado que fala em teste do jejum prolongado e pergunta a duração máxima do protocolo está pedindo o número da diretriz internacional. Enunciado que descreve um paciente que já preencheu critério na primeira madrugada está no terreno da leitura operacional, e a alternativa que manda completar as 72 horas mesmo com critério preenchido é o distrator construído para quem decorou só o teto. Cenário de centro terciário e vocabulário de protocolo puxam o primeiro corpo; cenário de enfermaria brasileira com coleta seriada puxa o segundo.

Quanto carboidrato dar por via oral na hipoglicemia leve

Faixa única de dez a vinte gramas, repetida em 10 a 15 minutos

O paciente ingere de 10 a 20 g de carboidrato de absorção rápida e repete em 10 a 15 minutos se necessário, com equivalências caseiras de 10 g em duas colheres de chá de açúcar, 100 mL de suco de fruta ou duas balas; a orientação é a mesma qualquer que seja o valor da glicemia.

Ministério da Saúde, Cadernos de Atenção Básica n.º 36, 2013, Quadro 11.

Regra dos 15 escalonada pelo nível da hipoglicemia

Ingerem-se 15 g de carboidrato de absorção rápida no nível 1, quantidade que eleva a glicemia 30 a 40 mg/dL em 15 minutos, e o dobro, 30 g, no nível 2, quando a glicemia está abaixo de 54 mg/dL; reavalia-se a glicemia capilar 15 minutos depois e corrige-se de novo se persistir.

Sociedade Brasileira de Diabetes, Orientações sobre hipoglicemia para profissionais de saúde, 2023.

Na prova

A diferença é de data e de desenho. O Caderno é de 2013 e escreve para o paciente e o familiar tratarem em casa, com uma faixa única e medidas caseiras — não classifica. A orientação da SBD é de 2023 e já parte da classificação em três níveis, difundida depois, escalonando a dose pelo valor da glicemia. Enunciado que traz o valor da glicemia capilar e usa as palavras nível 1 ou nível 2 está no vocabulário da SBD; enunciado de atenção básica que descreve orientação a familiar, sem classificar, está no do Caderno. E há um sinal que resolve a questão sem precisar de nenhum dos dois: quando as alternativas separam 15 de 30 gramas, o que está sendo cobrado é a classificação da hipoglicemia, não a quantidade.

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Caso resolvido

Mulher de 29 anos, técnica de enfermagem, sem diabetes, procura atendimento por episódios de sudorese, tremor e confusão nas primeiras horas da manhã, há quatro meses, que melhoram assim que ela come. Ganhou 6 kg no período porque passou a fazer lanches noturnos para não acordar mal. Num episódio presenciado na própria unidade, a glicemia plasmática foi de 38 mg/dL, com melhora completa após glicose. A amostra colhida no mesmo momento mostrou insulina de 62 µU/mL, peptídeo C de 0,05 nmol/L, beta-hidroxibutirato de 0,3 mmol/L e rastreio de hipoglicemiantes orais negativo.
achado
A tríade de Whipple está documentada: sintoma neuroglicopênico, glicemia de 38 mg/dL medida no momento do sintoma e resolução completa ao elevar a glicose. Essa é a única porta que autoriza investigar, e ela está aberta. O ganho de peso por alimentação defensiva reforça que os episódios são de jejum e vêm de longe.
leitura da amostra crítica
Insulina alta com peptídeo C suprimido. Insulina e peptídeo C nascem da mesma molécula precursora e são secretados juntos em quantidades equimolares — toda insulina que o pâncreas produz vem acompanhada de peptídeo C. Insulina de 62 µU/mL com peptídeo C de 0,05 nmol/L só é possível se a insulina veio de fora. O beta-hidroxibutirato baixo apenas confirma que há insulina agindo.
descarte dos diferenciais
Insulinoma, nesidioblastose e hipoglicemia pós-bariátrica teriam peptídeo C igual ou acima de 0,2 nmol/L, porque a fonte é o próprio pâncreas. Hipoglicemia por sulfonilureia teria peptídeo C alto e rastreio de hipoglicemiante oral positivo, e o rastreio veio negativo — é exatamente para isso que ele é colhido. Doença crítica, inanição e deficiência de cortisol cursariam com insulina baixa e beta-hidroxibutirato acima de 2,7 mmol/L.
conduta
Não solicitar tomografia de pâncreas nem qualquer método de localização: o diagnóstico é de administração de insulina exógena, e imagem nesse contexto só produz achado incidental e mais exame. A investigação passa a ser de acesso — profissão, ambiente doméstico, quem mais na casa usa insulina — e o desfecho é de segurança e de cuidado da pessoa, com apoio de saúde mental quando a administração for autoinfligida, além do rastreamento de erro ou de terceiro envolvido. A hipoglicemia em si se trata como qualquer outra, com atenção a que a insulina exógena de ação prolongada recidiva por horas.
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Agora feche você

Homem de 58 anos, trazido pelo SAMU a uma unidade de pronto-atendimento, encontrado caído na calçada. Hálito etílico, magro, sem sinais de trauma, Glasgow 10 (abertura ocular ao chamado, palavras desconexas, localiza a dor). Etilista pesado há anos, segundo o irmão, e não se alimenta direito há dois dias. Pressão arterial 108 x 66 mmHg, frequência cardíaca 104 bpm, saturação 95% em ar ambiente, temperatura 35,8 °C. Glicemia capilar de 34 mg/dL.
achado
Rebaixamento de consciência com glicemia capilar de 34 mg/dL em etilista desnutrido, após dois dias de ingestão alimentar mínima. O paciente não tem diabetes e não usa medicamento hipoglicemiante: a hipoglicemia aqui nasce da soma de jejum com álcool, porque o etanol bloqueia a gliconeogênese e o fígado sem glicogênio fica sem rota de reposição.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Investigar hipoglicemia em quem nunca preencheu a tríade de Whipple Atrai porque uma glicemia de 58 mg/dL num check-up parece achado que exige explicação, e porque insulinoma é diagnóstico bonito. Mas sem sintoma no momento da coleta e sem resolução ao corrigir, não há hipoglicemia — há um número. Glicemia baixa isolada e assintomática costuma ser pseudo-hipoglicemia por demora no processamento do tubo, leucocitose extrema ou imprecisão do glicosímetro na faixa baixa, e a conduta é repetir com coleta adequada.
  2. 2Colher a amostra crítica depois de corrigir a glicemia Atrai porque o reflexo treinado é tratar primeiro e pedir exame depois, e porque o paciente já está melhor quando alguém lembra da investigação. O problema é que insulina, peptídeo C e beta-hidroxibutirato voltam ao normal em minutos: a amostra sai limpa e o paciente vira caso sem explicação, obrigado a repetir o episódio ou a fazer jejum supervisionado por causa de uma coleta perdida. Colhe-se com a glicemia ainda baixa, antes da glicose.
  3. 3Dar glicose antes da tiamina no etilista, no hepatopata e no desnutrido Atrai porque uma glicemia de 30 mg/dL parece a urgência maior da cena e porque a tiamina soa como cuidado de rotina que pode esperar. A ordem é o contrário: o protocolo AC29 manda tiamina 100 mg por via intramuscular antes da glicose, justamente porque a glicose consome o cofator restante para ser metabolizada e pode empurrar para a encefalopatia de Wernicke-Korsakoff quem tinha reserva marginal. A alternativa que inverte a ordem é o distrator mais frequente do tema.
  4. 4Chamar de insulinoma todo hiperinsulinismo com peptídeo C alto Atrai porque insulina alta com peptídeo C alto é exatamente o padrão do insulinoma, e a memória para por aí. Falta o quinto exame: o rastreio de hipoglicemiante oral no sangue. Sulfonilureia e glinida estimulam a secreção do próprio pâncreas e reproduzem o padrão inteiro — insulina alta, peptídeo C alto, beta-hidroxibutirato baixo. É por isso que o rastreio faz parte da amostra crítica, e não é exame de exceção.
  5. 5Liberar o paciente que hipoglicemiou por sulfonilureia assim que a glicemia normaliza Atrai porque o paciente acorda, conversa, come e a glicemia de controle vem em 130 mg/dL. Mas o fármaco continua estimulando a secreção de insulina muito depois disso, e o idoso com função renal reduzida acumula — o Caderno de Atenção Básica é explícito ao mandar observar de 48 a 72 horas para detectar recorrência. Alta precoce nesse cenário significa o mesmo paciente de volta em poucas horas, muitas vezes pior.
  6. 6Usar o corte de 70 mg/dL para decidir investigar quem não tem diabetes Atrai porque 70 mg/dL é o número mais repetido do tema e porque ele realmente é a definição de hipoglicemia na pessoa com diabetes. Só que ali ele é limiar de ação, criado para quem tem insulina ou secretagogo circulando. Na pessoa sem diabetes o número que abre investigação é 55 mg/dL, dentro da tríade de Whipple. Confundir os dois transforma variação fisiológica em doença e enche o serviço de tomografia de pâncreas.
  7. 7Pedir jejum de 72 horas para sintoma pós-prandial Atrai porque o jejum prolongado é o teste emblemático da hipoglicemia e porque parece o exame mais completo. Mas ele reproduz o gatilho errado: quem só passa mal duas a cinco horas depois de comer — o padrão do paciente operado de bypass gástrico — atravessa o jejum sem sintoma nenhum e sai com exame normal. O teste que reproduz o gatilho é a refeição mista, e a sobrecarga de 75 g de glicose não a substitui, porque não é o que o paciente come.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Em hipoglicemia com paciente consciente e capaz de deglutir, a conduta é a regra dos 15: administrar 15 g de carboidrato de absorção rápida (ex.: suco, glicose oral) e reavaliar em 15 minutos. Insulina agravaria a hipoglicemia. Glucagon IM reserva-se ao paciente inconsciente ou incapaz de deglutir. Soro glicosado 5% em manutenção lenta é insuficiente para correção rápida e desnecessário na via oral disponível. Dosar peptídeo C é irrelevante e retardaria o tratamento de uma emergência.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Diga em voz alta os três batentes da tríade de Whipple e o corte que a acompanha na pessoa sem diabetes. Depois, sem consultar: o que separa insulinoma de hipoglicemia factícia por insulina, e o que separa insulinoma de hipoglicemia por sulfonilureia? Por fim, qual medicamento vem antes da glicose no etilista e por quê.

em 30 dias

Tríade de Whipple com glicemia abaixo de 55 mg/dL abre a investigação no não-diabético; 70 mg/dL é limiar de ação em quem tem diabetes. Níveis da SBD: 1 entre 70 e 54, 2 abaixo de 54, 3 definido pela necessidade de ajuda de terceiro. Regra dos 15: 15 g no nível 1, 30 g no nível 2, reavaliar em 15 minutos. Sem engolir: nada pela boca à força, tiamina antes da glicose no etilista, hepatopata e desnutrido (100 mg no AC29, 300 mg no ATox 4), depois glicose 50% — 30 a 50 mL pelo AC29, 25 mL a 3 mL/min com manutenção de glicose a 10% pelo Caderno n.º 36. Sulfonilureia: observar 48 a 72 horas. Amostra crítica com insulina, peptídeo C, proinsulina, beta-hidroxibutirato e rastreio de hipoglicemiante oral, colhida durante o episódio: peptídeo C alto com rastreio negativo é hiperinsulinismo endógeno, alto com rastreio positivo é secretagogo, suprimido é insulina exógena, baixo com beta-hidroxibutirato alto é doença crítica, inanição, álcool ou falta de cortisol, e baixo com beta-hidroxibutirato baixo é tumor produtor de IGF-2. Jejum supervisionado até 72 horas para sintoma de jejum, refeição mista para sintoma pós-prandial. Rename 2024: glicose a 50% no Componente Básico; glucagon fora do elenco.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 71 anos, com diabetes tipo 2 em uso de glibenclamida, é levado pela filha ao pronto-atendimento por sonolência e fala arrastada desde a madrugada. Comeu pouco no dia anterior por causa de um mal-estar. Glicemia capilar de 29 mg/dL. Conduza a correção, decida a ordem das medidas e defina por quanto tempo esse paciente precisa ficar em observação — e por quê. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave – Hipoglicemia: sem diabetes e na emergência — Preparatório para provas | OsceLabs