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Clínica MédicaEndocrinologia

Insuficiência adrenal e crise addisoniana

Reconhecer deficiência de cortisol, diferenciar formas primária e central e tratar a crise antes da confirmação laboratorial.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 46 anos, previamente hígido, é internado por pneumonia. No 2º dia refere náuseas, fraqueza intensa e hipotensão postural. PA 84/54 mmHg (deitado), FC 104 bpm, T 37,2 °C. Exames: sódio 126 mEq/L, potássio 5,8 mEq/L, glicemia 62 mg/dL. Hemodinâmica não responde bem à reposição volêmica. À anamnese, refere hiperpigmentação de dobras cutâneas e mucosa oral há meses. Qual a conduta imediata mais adequada?

02

Como esse tema cai

Insuficiência adrenal cai em prova por dois caminhos que quase não se cruzam. O primeiro é ambulatorial: fadiga que arrasta há meses, perda de peso, náusea, escurecimento de pregas palmares e de cicatrizes antigas, vontade incomum de comer sal, pressão que cai ao levantar. O segundo é o pronto-socorro: hipotensão que não sobe com volume nem com vasopressor, dor abdominal sem defesa, hiponatremia com hipercalemia e hipoglicemia num paciente que ninguém sabia que tinha a doença. A primeira vinheta cobra reconhecimento e topografia; a segunda cobra uma conduta que precede o exame. Quem estuda só uma delas erra a outra.

O recorte é o adulto com doença adquirida. A hiperplasia adrenal congênita, que também é uma insuficiência adrenal primária, decorre de defeito enzimático, tem protocolo federal separado e capítulo próprio nesta coleção. O hipercortisolismo, o outro lado da mesma glândula, tem o seu. Ficam aqui a doença de Addison, a insuficiência adrenal central por lesão de hipófise ou hipotálamo, a forma terciária que o corticoide de uso prolongado fabrica em consultório, e a crise addisoniana.

A régua nacional é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal, aprovado pela Portaria Conjunta de 24 de novembro de 2020. Ele encerrou uma linhagem que começou em 2010 e cobria apenas a forma primária, e passou a incluir as formas central e terciária. Ao lado dele circulam uma versão resumida de 2023, publicada pelo mesmo Ministério, e resumos estaduais que declaram copiar a portaria federal. Enunciado que cita corte de cortisol, dose de crise ou critério de inclusão está lendo um desses documentos — e eles não dizem a mesma coisa.

Este capítulo mostra onde eles divergem, com os números na mão, porque é exatamente aí que a banca escolhe o gabarito.

03

O que muda decisão

As duas vinhetas, e o que cada uma cobra

A insuficiência adrenal é a falência da produção de cortisol, com ou sem falência da produção de aldosterona. A divisão que governa tudo o que vem depois é anatômica: primária quando o defeito está na própria glândula, secundária quando está na hipófise, terciária quando está no hipotálamo. As duas últimas o protocolo agrupa sob o nome de insuficiência adrenal central, e essa etiqueta única vale porque, do ponto de vista funcional, elas se comportam do mesmo jeito.

Na apresentação crônica, as queixas são inespecíficas de propósito — fadiga, perda de peso, náusea, vômito, dor abdominal, dor articular e muscular — e é por isso que o diagnóstico costuma sair tarde, muitas vezes só durante a crise. O que dá especificidade são três achados que pertencem à forma primária: hiperpigmentação cutânea, hipotensão postural e avidez por sal. A pigmentação não é depósito de pigmento nem efeito do sol: quando o cortisol cai, a proopiomelanocortina sobe e é clivada em corticotropina e no hormônio estimulador de melanócitos. Por isso ela aparece onde o sol não bate — prega palmar, cicatriz, mucosa oral, gengiva.

Os dois outros achados vêm da falta de mineralocorticoide, e é aqui que a prova separa as formas. Hiponatremia ocorre nas duas, primária e central, porque a falta de cortisol libera secreção de hormônio antidiurético. Hipercalemia só ocorre na primária. O paciente que suspendeu prednisona por conta própria e chega com sódio de 132 e potássio de 4,2, sem pigmentação nenhuma, tem insuficiência adrenal central: a zona glomerulosa responde à renina e ao potássio, não à corticotropina, e continua trabalhando.

O antecedente muda o peso da suspeita. Para a forma primária, pesam as síndromes poliglandulares autoimunes — a do tipo 1 com candidíase mucocutânea, hipoparatireoidismo e diabetes tipo 1; a do tipo 2 com tireoidopatia autoimune, diabetes tipo 1 e hipogonadismo — e a história de tuberculose, paracoccidioidomicose ou infecção pelo vírus da imunodeficiência humana. Para a forma central, pesa o corticoide: doses equivalentes a mais de 5 miligramas de prednisona por mais de 30 dias, ou 20 miligramas por mais de duas semanas, já suprimem o eixo. Pesam também cirurgia de hipófise, radioterapia de sistema nervoso central e, cada vez mais, os antineoplásicos que agem no sistema imune.

Por que só a primária perde sal, e a tabela que diz o contrário

O protocolo federal de 2020 é explícito na introdução: somente na forma primária haverá deficiência de mineralocorticoide. A frase é repetida no capítulo de tratamento, com outras palavras — a principal diferença entre tratar a forma primária e tratar a central é que a central dispensa a reposição de mineralocorticoide. Duas afirmações, dois pontos distantes do documento, mesma regra.

A versão resumida do mesmo protocolo, publicada em janeiro de 2023 e destinada à consulta rápida, abre com uma tabela de três linhas: classificação, local do defeito, deficiência de mineralocorticoide. A linha da primária diz glândula adrenal e sim. A linha da secundária diz hipófise e não. A linha da terciária diz hipotálamo e sim — e traz, na própria célula ao lado, o rótulo insuficiência adrenal central, o mesmo rótulo da linha que acabou de dizer não.

A célula está errada, e o erro tem consequência de prova. A forma terciária é central: o defeito é a queda da secreção do hormônio liberador de corticotropina, o eixo renina-angiotensina permanece intacto, a aldosterona é preservada e o paciente não precisa de fludrocortisona. Quem responder pela tabela do resumo marca que a terciária exige mineralocorticoide, e marca errado. A ironia é que o resumo declara, no rodapé da segunda página, que a versão completa é a portaria de 2020 — o documento que diz o contrário.

Vale registrar o inverso, porque o resumo não é pior que o completo em tudo. No parágrafo em que descreve o hipoaldosteronismo da forma primária, o protocolo completo escreve que os pacientes podem apresentar hiponatremia e hipercalcemia, quando o eletrólito que a deficiência de mineralocorticoide retém é o potássio — e o mesmo documento tinha escrito hipercalemia duas páginas antes, e escreve hipercalemia de novo um parágrafo acima. A tabela do resumo escreve hipercalemia, corretamente, sem sinalizar que corrigiu nada. Cada um dos dois documentos conserta um erro do outro, e nenhum dos dois avisa.

Os cortes do cortisol: três, cinco, quinze e dezoito

O primeiro passo é o cortisol sérico basal colhido pela manhã, entre seis e nove horas. A dosagem mede cortisol total, e cerca de noventa por cento dele circula ligado à globulina ligadora de cortisol. Isso importa na prática: gestação e anticoncepcional oral elevam essa proteína e podem elevar falsamente o cortisol, e o protocolo manda suspender a reposição de estradiol antes de investigar o eixo. Cortisol salivar e cortisol livre urinário de 24 horas, que são a triagem do excesso, não têm valor no diagnóstico da falta.

Os cortes não são um só, e a assimetria entre eles é a primeira coisa que uma banca explora. Na abertura do capítulo de diagnóstico laboratorial, o protocolo diz que a insuficiência é altamente provável com cortisol basal de 3 a 5 microgramas por decilitro ou menos — uma faixa, não um número. Descendo o texto, a forma primária ganha o corte de 5 e a forma central ganha o corte de 3. O motivo é fisiológico e vale entender: a forma central pode ter secreção residual de corticotropina, então um cortisol de 4 ainda é compatível com eixo parcialmente funcionante.

No topo, o número é 15: cortisol basal igual ou acima disso tem alto valor preditivo de resposta normal ao estímulo, e torna qualquer das duas formas pouco provável. Entre os extremos fica a zona cinzenta, e é ela que manda para o teste de estímulo — de 5 a 15 na forma primária, de 3 a 15 na central. O quarto número, 18, é de leitura pós-teste: cortisol igual ou acima de 18 em qualquer tempo do teste de estímulo afasta o diagnóstico.

O protocolo pisa nesse degrau duas vezes. O texto corrido da forma primária escreve cortisol basal menor que 5; o fluxograma da mesma seção escreve menor ou igual a 5. Um paciente com cortisol de exatamente 5,0 entra pelo fluxograma e não entra pelo parágrafo. E o resumo estadual de Santa Catarina, que declara copiar a portaria federal, adota o sinal do parágrafo e descarta o do fluxograma.

Do lado da corticotropina, o corte é maior que 100 picogramas por mililitro — ou, na formulação do texto, ao menos duas vezes acima do limite superior do método. O número tem origem declarada: em indivíduos saudáveis, o teste de tolerância à insulina elevou a corticotropina a níveis médios de 110 picogramas por mililitro, e o protocolo raciocina que acima de 100 já se está diante de estímulo máximo. É uma justificativa honesta, e rara em documento normativo.

O teste de estímulo que o Brasil não tem

Aqui está o vão mais silencioso do tema. O teste de estímulo rápido com corticotropina sintética — o teste da cortrosina, também chamado de teste da cosintropina — é o exame confirmatório clássico da insuficiência adrenal em qualquer livro-texto. O protocolo federal de 2020 registra, em uma frase que quase passa despercebida, que a cortrosina não possui registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, e que por isso a alternativa para confirmar o diagnóstico no país é o teste de tolerância à insulina.

O teste de tolerância à insulina não é um substituto confortável. Consiste em administrar insulina, de 0,1 unidade por quilo, ou 0,05 quando se suspeita de hipopituitarismo, com o objetivo de atingir glicemia de 40 miligramas por decilitro, e dosar cortisol nos tempos zero, trinta, sessenta e noventa minutos — mesmo que o paciente já tenha recebido glicose endovenosa para corrigir a hipoglicemia antes do fim do teste. Precisa de supervisão médica em ambiente com recursos para intercorrência. É contraindicado em quem tem história de convulsão, cardiopatia ou doença vascular cerebral, e em criança com menos de vinte quilos.

A consequência prática é uma cadeia de exclusões. Um idoso com suspeita de insuficiência adrenal central e antecedente coronariano fica sem os dois testes: o disponível é contraindicado e o indicado não é comercializado. O protocolo não resolve o impasse; o resumo estadual de Santa Catarina resolve, e resolve por decreto administrativo, com a linha que autoriza enviar relato médico justificando quando o teste de estímulo for impossível.

O protocolo de 2010, que antecedeu esta linhagem, mandava fazer o teste com 250 microgramas de corticotropina por via intravenosa ou intramuscular, com cortisol em trinta e sessenta minutos. Ou seja: durante uma década a régua federal prescreveu um exame com um fármaco sem registro no país, e foi a edição seguinte que disse isso em voz alta. Não é um deslize isolado — é o mesmo padrão da hidrocortisona oral, que aparece na próxima seção.

A crise: a conta de cem mais cinquenta a cada seis horas

A crise addisoniana é o cenário em que a conduta precede o diagnóstico. O protocolo é direto: paciente instável deve ser imediatamente tratado com glicocorticoide intravenoso, na forma de succinato sódico de hidrocortisona, mesmo antes dos testes de confirmação, pelo risco de vida. Paciente hemodinamicamente estável pode esperar métodos mais precisos. O gatilho de suspeita que o texto destaca é a dupla dor abdominal com hipotensão que não responde a volume ou a vasopressor.

As doses estão no mesmo item, e é ali que a aritmética não fecha. A linha do adulto diz: dose inicial de 20 a 30 miligramas por dia divididas entre duas e quatro aplicações; em estresse ou crise adrenal, 200 miligramas por dia, a saber, 50 miligramas por via intravenosa a cada seis horas. Três linhas abaixo, sob o título da crise, o mesmo documento escreve: dose de ataque de 100 miligramas por via intravenosa para escolares, adolescentes e adultos; dose de manutenção após a dose de ataque, 50 miligramas por via intravenosa a cada seis horas.

Some o primeiro dia como o texto manda somar: 100 de ataque mais quatro doses de 50 dão 300 miligramas, não 200. A conta só fecha em 200 se a dose de ataque substituir a primeira dose de manutenção — leitura que a expressão após a dose de ataque não autoriza. E fecha na outra ponta: 300 miligramas por dia é uma dose que este mesmo protocolo imprime, três parágrafos adiante, ao tratar da indução do parto na gestante com insuficiência adrenal, onde a faixa recomendada é de 200 a 300 miligramas por dia em duas a quatro aplicações. O documento conhece o número 300; ele apenas não o escreve na linha do adulto em crise.

Duas escadas de dose acumulada de hidrocortisona nas primeiras 24 horas. A escada de 50 miligramas a cada 6 horas sobe em quatro degraus e termina em 200 miligramas. A escada com ataque de 100 miligramas seguido de quatro doses de 50 termina em 300 miligramas. Linhas tracejadas marcam os patamares de 200 e de 300.
Somando como o texto manda somar, o ataque de 100 mg mais quatro doses de 50 mg fecham o primeiro dia em 300 mg — e não nos 200 mg que a linha vizinha do mesmo protocolo prescreve.

Há uma segunda inconsistência no mesmo item, e ela é de sistema de dose. A criança recebe a dose de estresse em superfície corporal — de 60 a 100 miligramas por metro quadrado por dia. Mas a linha da crise abandona a superfície corporal e volta a miligramas fixos por faixa etária: 20 para recém-nascido, 50 para lactente e pré-escolar, 100 para escolar. Para a mesma situação clínica, o protocolo publica dois esquemas que não se convertem um no outro.

Um detalhe que a prova adora: durante a crise não é necessário manter fludrocortisona, porque a hidrocortisona, na dose alta usada na crise, já tem atividade mineralocorticoide suficiente. A fludrocortisona entra depois, quando o paciente melhora, hidrata, perfunde e volta à via oral. Alternativa que oferece fludrocortisona como tratamento da crise aguda é distrator, sempre.

Cinco posologias da mesma prednisona

A reposição crônica no Brasil se faz com prednisona ou com fosfato sódico de prednisolona — glicocorticoides de pequeno efeito mineralocorticoide e menor incidência de miopatia do que os fluorados. A dexametasona não é preconizada pelo protocolo de 2020, o que é uma reversão notável: no protocolo de 2010 ela era fármaco do próprio protocolo, com apresentação em elixir, comprimido e injetável, e dose adulta declarada de 0,25 a 0,75 miligrama por dia.

Quanto de prednisona? Depende de onde no documento se lê. O capítulo da forma primária diz que a dose habitual é de 5,0 a 7,5 miligramas por dia, e que a forma central pode precisar de menos, de 2,5 a 5,0. O capítulo da forma central diz que a dose média é de 5,0 miligramas por dia, e que alguns pacientes se controlam com 2,5. O item de esquema de administração, que é a tabela que o prescritor consulta, diz apenas dose inicial em adultos de 2,5 a 7,5 miligramas por dia, sem separar as formas. E o parágrafo da gestante manda usar cerca de 7,5 miligramas por dia.

Some a edição anterior e a lista fica maior. O protocolo de 2010 imprimia três números para o mesmo fármaco na mesma indicação: no texto corrido, muitos pacientes se controlariam com 2,5 a 3,75 miligramas por dia; no esquema de administração, 2,5 a 7,5; e na tabela de equivalências, dose adulta de 5 miligramas. O valor 3,75 não aparece em nenhum outro documento da linhagem — é um número adaptado, e a tabela de equivalências do próprio documento o desmente, já que 3,75 miligramas de prednisona equivalem a cerca de 15 miligramas de hidrocortisona, abaixo dos 20 que a mesma tabela chama de dose adulta equivalente.

O que sobra de estável, e que vale decorar, é a regra do estresse: dobrar pelo menos a dose habitual. As situações que contam estão listadas — síndrome febril igual ou acima de 38,5 graus, gastroenterite com desidratação, parto normal ou cesariana, cirurgia com anestesia geral e grandes traumas. E as que não contam estão listadas também, o que é mais raro e mais cobrável: não se dobra a dose por estresse emocional nem antes de exercício físico habitual. Para o exercício, o que o protocolo admite é fracionar a dose do dia conforme o horário da atividade.

A apresentação que não existe no país

O protocolo de 2020 escreve, sem rodeio: no tratamento crônico a preferência é pelo uso da hidrocortisona oral, que não é disponível no Brasil. É uma frase de duas orações em que a segunda anula a primeira, e ela explica por que a reposição brasileira é feita com prednisona enquanto a literatura internacional discute esquemas de hidrocortisona em duas ou três tomadas.

O protocolo de 2010 chegou mais perto do absurdo. A lista de fármacos trazia hidrocortisona apenas como solução injetável de 100 e de 500 miligramas, e o texto dizia que a hidrocortisona deve ser administrada por via intramuscular ou intravenosa. Na tabela de glicocorticoides, na mesma página, a dose equivalente em adultos aparecia como 20 miligramas por dia, em duas a quatro tomadas, com meia-vida de 12 horas e via intravenosa ou intramuscular. Escrito assim, o protocolo prescrevia uma manutenção crônica de 5 a 10 miligramas por dose, por punção, a partir de frascos cujo menor conteúdo é 100 miligramas — descartando mais de oitenta por cento do frasco a cada aplicação, todos os dias, pela vida inteira.

Ninguém tratou assim, evidentemente. Mas o texto normativo permaneceu no ar por dez anos, e é dele que descendem os enunciados que pedem hidrocortisona de manutenção por via parenteral. A leitura correta hoje é a do protocolo vigente: hidrocortisona parenteral é fármaco de crise, de dose de estresse e da gestante sem via oral, cuja manutenção parenteral é de aproximadamente 20 miligramas por dia. Manutenção crônica ambulatorial é comprimido de prednisona ou solução oral de prednisolona.

A fludrocortisona escapa desse problema. Ela existe no país como comprimido de 0,1 miligrama, é dispensada pelo componente especializado da assistência farmacêutica, e a dose de manutenção é justamente 0,1 miligrama por dia, com variação de 0,05 a 0,3 em crianças e de 0,05 a 0,4 em adultos. É a única linha de posologia do tema em que apresentação, dose e documento coincidem sem ressalva.

Etiologia infecciosa: interpretar dados regionais

Em país desenvolvido, a adrenalite autoimune responde por cerca de 70 a 90 por cento da insuficiência adrenal primária. No Brasil, o protocolo cita um estudo paulista em que a etiologia autoimune é a mais frequente com 39 por cento, seguida de paracoccidioidomicose com 28, tuberculose com 11 e adrenoleucodistrofia com 7,3. Esse é o parágrafo que faz o candidato brasileiro pensar em micose profunda diante de um Addison, e ele está certo em pensar.

Só que o número tem contexto, e o protocolo o descarta. A fonte é uma casuística de 82 pacientes de dois serviços: 38 de um hospital universitário paulistano e 44 de um serviço do interior. No primeiro, a etiologia autoimune responde por 52,6 por cento e a paracoccidioidomicose por 18,4. No segundo, a autoimune cai para 25 por cento e a paracoccidioidomicose sobe para 36,4. O artigo original explica por quê, em uma frase que o protocolo não copiou: o segundo serviço fica em região endêmica de paracoccidioidomicose e é referência de pesquisa e assistência nessa doença. Os 28 por cento não descrevem nenhum dos dois centros, nem nenhum estado — descrevem a média ponderada de duas populações escolhidas por conveniência.

A aritmética da tabela original também não fecha. As duas colunas por serviço somam 100,0 por cento cada uma. A coluna do total soma 101,1. Refazendo linha a linha com os denominadores publicados, a linha autoimune dá 20 pacientes num centro e 11 no outro, ou seja 31 de 82, que são 37,8 por cento — e a tabela imprime 39, o equivalente a 32 pacientes. Sobra um paciente. É justamente esse valor arredondado para cima que o protocolo federal reproduz.

Há uma leitura que não sobrevive à conta, e ela é a que o aluno tende a fazer: transportar os 70 a 90 por cento europeus para o Brasil e manter as demais causas brasileiras. Paracoccidioidomicose com 28, tuberculose com 11 e adrenoleucodistrofia com 7,3 somam 46,3 pontos. Somados aos 70 por cento da ponta de baixo da faixa europeia, dão 116,3 por cento. As duas afirmações não podem descrever a mesma população em nenhuma das pontas — e o protocolo as imprime lado a lado, sem dizer isso.

Paracoccidioidomicose e insuficiência adrenal

Vale seguir o fio da paracoccidioidomicose, porque ele mostra como um número derivado se comporta. O consenso brasileiro da doença, na edição de 2017, diz que o comprometimento adrenal é observado em média em 56 por cento dos casos autopsiados, variando de 48,2 a 80,0 por cento; que de 15 a 50 por cento dos doentes avaliados em vida têm reserva funcional comprometida sem manifestação clínica; e que 3,5 por cento dos pacientes apresentam doença de Addison com necessidade de reposição vitalícia.

Duas dessas leituras não convivem. Se metade dos vivos perdesse função e apenas 48,2 por cento dos autopsiados tivessem a glândula acometida, haveria mais gente perdendo função em vida do que gente com glândula doente na necropsia. A leitura que sobrevive é a da outra ponta: 15 por cento dos vivos com reserva comprometida contra 80 por cento de acometimento anatômico na autópsia, com a diferença explicada por lesão que existe e não chega a comprometer a função.

A comparação entre as duas edições do consenso é instrutiva por outro motivo. Na edição de 2006, o comprometimento adrenal aparecia em cerca de 40 a 50 por cento dos necropsiados, e a doença de Addison em cerca de 3 por cento. A faixa de autópsia de 2017 e a de 2006 se sobrepõem em uma fatia mínima, entre 48,2 e 50. E, no entanto, a frase dos 15 a 50 por cento de reserva comprometida atravessou as duas edições palavra por palavra, assim como a frase da incidência em zonas endêmicas, de três a quatro casos novos por milhão até um a três por cem mil habitantes ao ano. Quando duas edições concordam em quase tudo, o que mudou merece atenção; e o que mudou aqui foi o teto da autópsia, que subiu trinta pontos.

A prevalência da própria insuficiência adrenal também mudou de faixa entre as edições do protocolo. O documento de 2010 registrava 0,45 a 11,7 casos por 100 mil habitantes, sem recorte geográfico. O de 2020 registra 39 a 221 casos por milhão de habitantes na Europa — o mesmo que 3,9 a 22,1 por 100 mil. O piso subiu quase nove vezes, o teto quase dobrou, e apareceu um qualificador continental que antes não existia. Sumiu, junto, a oração que a fonte original trazia: a de que a prevalência era três vezes maior que a observada na década de 1970, e a de que a doença seria clinicamente evidente em cerca de um a cada oito mil europeus. Essa última, aliás, equivale a 12,5 por 100 mil, acima do teto de 11,7 que o mesmo parágrafo declarava.

O protocolo de 2020 fecha o assunto com uma recusa que merece elogio: inexistem dados epidemiológicos disponíveis no Brasil. Ele não extrapola a faixa europeia para cá, e o capítulo também não vai extrapolar. Uma estimativa grosseira ajuda a medir o tamanho do que não se sabe: se 3,5 por cento dos pacientes com paracoccidioidomicose desenvolvem Addison, e a incidência em zona endêmica vai de um a três casos por 100 mil ao ano, a contribuição da micose para a prevalência de insuficiência adrenal primária cabe dentro da faixa europeia — mas cabe porque a faixa é larga o bastante para acomodar quase qualquer valor, e não porque o dado exista.

Consensos clínicos que não podem desaparecer no resumo

O acompanhamento tem uma regra que a prova cobra e que o resumo perdeu. O protocolo completo diz que a reposição de glicocorticoide não deve ser monitorada por exames laboratoriais como corticotropina e cortisol sérico, e que o que vale é a avaliação clínica: fragilidade capilar, giba, estrias violáceas, face em lua cheia, fraqueza proximal e hipertensão indicam excesso; hipotensão arterial, hipotensão ortostática e sonolência indicam falta. A versão resumida de 2023 mantém a lista de sinais clínicos e apaga a proibição. Quem lê só o resumo não encontra nada que impeça pedir cortisol para ajustar a dose — e pedir cortisol para ajustar a dose é o distrator clássico do tema.

O mineralocorticoide, ao contrário, tem alvo laboratorial: dosar atividade de renina ou renina plasmática, sódio e potássio, com objetivo de normalizar sódio entre 135 e 145 e potássio entre 3,5 e 5,5 miliequivalentes por litro, sem suprimir a renina, e mantendo pressão normal. Renina suprimida ou hipertensão indicam excesso de fludrocortisona.

Os resumos estaduais acrescentam sua própria camada. O de Santa Catarina, de maio de 2021, declara reproduzir a portaria federal e faz três edições que ninguém sinalizou. Restringe a codificação a dois códigos da lista federal de seis, deixando de fora justamente o da crise addisoniana, embora mantenha um ramo inteiro de critérios para a forma central. Publica o teste de tolerância à insulina nos tempos basal, 15, 30, 45 e 60 minutos, quando a portaria federal escreve zero, 30, 60 e 90 — dois tempos que não existem na fonte foram inventados, e o tempo de 90 minutos, que é o que pega o respondedor tardio, foi descartado. E transforma o monitoramento semestral do primeiro ano seguido de anual em semestral permanente, sem creatinina.

É importante dizer também onde os documentos concordam, para que as divergências não pareçam maiores do que são. A prescrição máxima mensal de fludrocortisona no formulário catarinense é de 124 comprimidos — exatamente quatro por dia em um mês de 31 dias, isto é, o teto federal de 0,4 miligrama por dia, ao pé da letra. O critério de exclusão é o mesmo nos dois. A lista de sinais de excesso de glicocorticoide é a mesma nos três documentos federais e atravessou intacta da edição de 2010 para a de 2020. E o protocolo é honesto quanto ao próprio alicerce: reconhece que são escassos os ensaios clínicos randomizados com desfechos clínicos no tema, e que a prescrição se baseia em estudos observacionais e em consenso de sociedades.

Essa honestidade tem precedente na linhagem. O protocolo de 2010 discutiu a reposição de deidroepiandrosterona e publicou os dois lados: dois ensaios randomizados curtos, com poucos pacientes, mostraram melhora de qualidade de vida; um estudo com mais pacientes e um ano de seguimento mostrou benefício limítrofe. A conclusão foi não recomendar. Publicar o ensaio que enfraquece a própria hipótese ao lado do que a favorece é o comportamento que se espera de um documento normativo, e é o motivo pelo qual esta linhagem merece ser lida na íntegra, e não pelo resumo.

04

As réguas, lado a lado

Quatro tabelas para separar o que cada documento brasileiro imprime: a topografia e o que ela decide, os cortes laboratoriais edição por edição, as doses de crise com a conta do primeiro dia, e as edições silenciosas que os resumos fizeram sobre a portaria que dizem reproduzir.

  1. 1Suspeita clínica: colher cortisol sérico e corticotropina entre seis e nove horas da manhã. A corticotropina vai em tubo com ácido etilenodiaminotetracético, no gelo, e centrifugada em centrífuga refrigerada — pré-analítica que, se falhar, devolve um número que não serve.
  2. 2Cortisol basal igual ou abaixo de 5 microgramas por decilitro com corticotropina acima de 100 picogramas por mililitro: insuficiência adrenal primária muito provável. Cortisol igual ou abaixo de 3 com corticotropina baixa ou normal: insuficiência adrenal central.
  3. 3Cortisol igual ou acima de 15 microgramas por decilitro com corticotropina normal: diagnóstico pouco provável, encerrar.
  4. 4Zona cinzenta — de 5 a 15 na forma primária, de 3 a 15 na central: teste de estímulo. Como a cortrosina não tem registro no país, o teste possível é o de tolerância à insulina, contraindicado em convulsão, cardiopatia, doença vascular cerebral e criança abaixo de vinte quilos. Cortisol igual ou acima de 18 em qualquer tempo afasta o diagnóstico.
  5. 5Confirmada a forma primária: dosar aldosterona e renina. Aldosterona abaixo de 3 nanogramas por decilitro com renina elevada define o hipoaldosteronismo e obriga a repor mineralocorticoide.
  6. 6Imagem depois do laboratório: tomografia de abdome superior com cortes finos na forma primária, dispensada quando a causa já é síndrome poliglandular autoimune ou adrenoleucodistrofia; ressonância de hipófise e hipotálamo na forma central, com avaliação dos demais eixos hipofisários.
  7. 7Paciente instável com suspeita de crise: hidrocortisona intravenosa antes de qualquer confirmação, junto com volume e correção da hipoglicemia. Colher exames não pode atrasar o corticoide.

Topografia: o que cada forma decide

Primária (Addison)SecundáriaTerciária
Local do defeitoGlândula adrenalHipófiseHipotálamo
Agrupamento do protocoloIsoladaInsuficiência adrenal centralInsuficiência adrenal central
CorticotropinaElevada, em geral acima de 100 pg/mLBaixa ou normalBaixa ou normal
HiperpigmentaçãoPresenteAusenteAusente
HiponatremiaPode ocorrerPode ocorrerPode ocorrer
HipercalemiaSó nestaNãoNão
Deficiência de mineralocorticoideSimNãoNão — a tabela do resumo de 2023 imprime sim
Fludrocortisona na manutençãoSimNãoNão
Corte do cortisol basalIgual ou abaixo de 5 mcg/dLIgual ou abaixo de 3 mcg/dLIgual ou abaixo de 3 mcg/dL
ImagemTomografia de abdome superiorRessonância de hipófiseRessonância de hipófise e hipotálamo

Cortes laboratoriais, edição por edição

ParâmetroProtocolo de 2010Protocolo de 2020Resumo estadual de Santa Catarina, 2021
Cortisol que indicaMenor que 3 mcg/dLMenor que 5 no texto, igual ou menor que 5 no fluxogramaMenor que 5
Cortisol que excluiMaior que 16 mcg/dLIgual ou maior que 15 mcg/dLNão imprime
Cortisol pós-estímulo que afastaMaior que 18 mcg/dLIgual ou maior que 18 mcg/dL, em qualquer tempoSó no ramo da forma central
Corticotropina de inclusãoMaior que 45 pg/mLDuas vezes o limite superior, em geral acima de 100 pg/mLIgual ao federal
Teste de estímulo250 mcg de corticotropina, tempos 30 e 60 minTolerância à insulina, tempos 0, 30, 60 e 90 minTempos basal, 15, 30, 45 e 60 min
Critério de exclusão laboratorialCortisol baixo sem corticotropina concomitanteNão existe maisNão existe
Prevalência citada0,45 a 11,7 por 100 mil39 a 221 por milhão, na EuropaNão cita

Crise addisoniana no adulto: as duas linhas do mesmo item

Linha do protocolo de 2020O que mandaTotal do primeiro dia
Esquema de administração, adulto200 mg/dia, a saber 50 mg por via intravenosa a cada seis horas200 mg
Crise addisoniana, ataque100 mg por via intravenosa para escolar, adolescente e adulto
Crise addisoniana, manutenção50 mg por via intravenosa a cada seis horas, após o ataque100 + 4 x 50 = 300 mg
Indução do parto, gestante200 a 300 mg/dia em duas a quatro aplicaçõesAté 300 mg
Criança, estresse ou crise60 a 100 mg/m2/dia
Criança, crise, por faixa etária20 mg no recém-nascido, 50 no lactente e pré-escolar, 100 no escolarSistema de dose diferente do anterior

O que os resumos editaram sem sinalizar

ItemPortaria de 2020Resumo do Ministério, 2023Resumo de Santa Catarina, 2021
Mineralocorticoide na forma terciáriaNãoSim, na tabelaNão trata
Eletrólito do hipoaldosteronismoHipercalcemia, no item 3.2.1HipercalemiaPotássio elevado
Nome do teste de estímuloTolerância à insulina, e a cortrosina sem registroSó realizar teste de estímuloAmbos, com escape administrativo
Monitorar a dose por cortisol e corticotropinaProibido expressamenteA proibição desapareceuNão trata
Verbo da dose na gestantePreconiza-seSugere-seNão trata
Códigos da classificação de doençasSeis códigos, incluindo o da criseSeis códigosDois códigos, sem o da crise
Sódio, potássio e creatininaSemestral no primeiro ano, depois anualIgual ao federalSemestral sempre, e sem creatinina
Teto de fludrocortisona0,4 mg/dia no adulto0,4 mg/dia124 comprimidos por mês, que é o mesmo teto

Hipercalemia é o achado que separa. Hiponatremia não separa: ocorre nas duas formas, porque a falta de cortisol libera hormônio antidiurético.

Cortisol salivar e cortisol livre urinário de 24 horas triam excesso, não falta. Enunciado que os oferece como investigação inicial de insuficiência adrenal está oferecendo distrator.

Corticotropina não é exame de triagem: ela define a topografia depois que o cortisol baixo já foi documentado.

Na crise, fludrocortisona não entra. A hidrocortisona em dose alta já tem efeito mineralocorticoide, e o mineralocorticoide oral começa depois, com o paciente hidratado e tolerando a via oral.

Dexametasona não é preconizada para reposição pelo protocolo vigente, embora tenha sido fármaco do protocolo de 2010 com dose adulta declarada. Ela permanece útil quando se quer tratar sem invalidar uma dosagem de cortisol subsequente — mas esse raciocínio pressupõe um teste confirmatório que o país não tem registrado.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A forma terciária exige reposição de mineralocorticoide?

Não — é central, e central não perde aldosterona

O protocolo completo afirma, na introdução, que somente na insuficiência adrenal primária haverá deficiência de mineralocorticoide, e repete no capítulo de tratamento que a principal diferença entre a forma primária e a central é a ausência de necessidade de repor mineralocorticoide nesta última. A forma terciária é, pela definição do próprio documento, uma insuficiência adrenal central.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal, Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 20, de 24 de novembro de 2020, itens 1 e 6.2.

Sim — a tabela do resumo oficial diz sim

A tabela de classificação que abre a versão resumida do mesmo protocolo tem três linhas. A da forma terciária traz hipotálamo na coluna do local do defeito, o rótulo de insuficiência adrenal central na coluna vizinha, e sim na coluna de deficiência de mineralocorticoide — o oposto do que a linha da forma secundária, com o mesmo rótulo, traz.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal — versão resumida, Ministério da Saúde, arquivo criado em 16 de janeiro de 2023, página 1, tabela de classificação.

Na prova

Se o enunciado cobra a fisiologia do eixo, ou cita a portaria completa, a resposta é que a terciária dispensa mineralocorticoide. Se o enunciado reproduz uma tabela de três linhas com as colunas classificação, local do defeito e deficiência de mineralocorticoide, ele está copiando o resumo, e o gabarito pode vir do erro da célula. Reconhecer a origem do quadro é o que salva a questão.

Qual é o teste de estímulo utilizável no Brasil

Tolerância à insulina, porque a cortrosina não tem registro

O protocolo vigente registra que, em função de a cortrosina não possuir registro na agência reguladora brasileira, a alternativa para confirmar o diagnóstico é o teste de hipoglicemia insulínica, com insulina de 0,05 a 0,1 unidade por quilo, alvo de glicemia de 40 miligramas por decilitro e cortisol nos tempos zero, trinta, sessenta e noventa minutos, sob supervisão e com contraindicações explícitas.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal, 2020, item 3.2.1.

Estímulo com corticotropina sintética, como manda a edição anterior e a literatura

O protocolo federal de 2010 prescrevia teste de estímulo com 250 microgramas de corticotropina por via intravenosa ou intramuscular, com cortisol aos trinta e sessenta minutos, e usava o resultado como critério formal de inclusão. O formulário estadual catarinense de 2021 continua listando o teste com hormônio estimulador de corticotropina nos tempos basal e sessenta minutos como documento aceitável.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — Insuficiência Adrenal Primária, Doença de Addison, Portaria SAS/MS nº 15, de 15 de janeiro de 2010, itens 4.2 e 5; e formulário de insuficiência adrenal da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, maio de 2021.

Na prova

Enunciado de banca nacional que descreve indisponibilidade, contraindicação ou impasse diagnóstico está lendo a portaria de 2020 e espera o teste de tolerância à insulina. Enunciado que descreve a investigação em termos genéricos, sem citar o país, costuma esperar o teste de estímulo com corticotropina sintética, que é o padrão internacional. O sinal a farejar é a menção a disponibilidade ou a documento brasileiro.

Qual é a dose total de hidrocortisona no primeiro dia da crise

Duzentos miligramas por dia

A linha do adulto no item de esquema de administração escreve, para estresse ou crise adrenal, duzentos miligramas por dia, detalhando entre parênteses cinquenta miligramas por via intravenosa a cada seis horas. Lido isoladamente, esse é o total do dia.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal, 2020, item 6.5, linha do succinato sódico de hidrocortisona.

Trezentos miligramas, se a dose de ataque for somada

Três linhas abaixo, sob o subtítulo da crise, o mesmo item manda dar cem miligramas por via intravenosa como dose de ataque no adulto e cinquenta miligramas a cada seis horas como manutenção após a dose de ataque. Somado como está escrito, o primeiro dia totaliza trezentos miligramas — número que o próprio protocolo imprime, adiante, como teto da faixa recomendada na indução do parto.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal, 2020, item 6.5, subtítulo da crise, e item 6.5, parágrafo da gestante.

Na prova

O que a banca cobra quase sempre é o primeiro gesto, não o total do dia: cem miligramas de hidrocortisona por via intravenosa em bolus, junto com soro fisiológico. Se a alternativa oferecer um total diário, a leitura segura é a faixa de duzentos a trezentos miligramas, porque cobre as duas linhas do documento.

Com que frequência se repetem sódio, potássio e creatinina no seguimento

Semestral no primeiro ano, depois anual

A portaria federal preconiza a pesquisa de hipotensão postural e a realização de exames de sódio, potássio e creatinina a cada seis meses no primeiro ano e, depois disso, anualmente, com ajuste de dose se necessário.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal, 2020, item 7.

Semestral para sempre, e sem creatinina

O formulário estadual catarinense, que declara reproduzir a mesma portaria, escreve monitoramento com dosagem a cada seis meses de atividade de renina ou renina plasmática, sódio e potássio, sem o recorte do primeiro ano e sem incluir creatinina no painel.

Formulário de insuficiência adrenal da Diretoria de Assistência Farmacêutica da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, maio de 2021, campo de monitoramento.

Na prova

Banca federal e banca de residência costumam seguir a portaria. Prova de concurso estadual ou de serviço pode seguir o formulário local, e nesses casos o enunciado costuma citar o componente especializado da assistência farmacêutica ou a renovação do processo. Quando o enunciado fala em dispensação, leia formulário; quando fala em seguimento clínico, leia portaria.

06

Caso resolvido

Mulher de 39 anos chega ao pronto-socorro trazida pelo marido, com vômitos há três dias e prostração progressiva. Nos últimos oito meses vinha perdendo peso, cansando-se cedo e passando a pôr sal direto na comida; foi tratada duas vezes como gastrite e uma como depressão. Tem tireoidite de Hashimoto em uso de levotiroxina. Ao exame: pressão de 78 por 48 mmHg deitada, frequência cardíaca de 124, temperatura de 37,6 graus, mucosas secas, abdome difusamente doloroso sem defesa, escurecimento de pregas palmares e mancha acastanhada na gengiva. Exames: sódio 124 mEq/L, potássio 6,1 mEq/L, glicemia capilar 52 mg/dL, creatinina 1,4 mg/dL. Recebeu dois mil mililitros de soro fisiológico sem melhora sustentada da pressão.
Reconhecer que a vinheta já entregou a resposta
Hipotensão que não responde a volume, dor abdominal sem irritação peritoneal, hiponatremia com hipercalemia, hipoglicemia e hiperpigmentação em áreas que o sol não alcança. O protocolo aponta exatamente essa combinação como a que deve levantar a suspeita de crise addisoniana no pronto-socorro. A tireoidite autoimune reforça: a associação com Addison compõe a síndrome poliglandular autoimune do tipo 2.
Tratar antes de confirmar
A paciente está instável, e o protocolo é explícito: paciente instável deve ser imediatamente tratado com succinato sódico de hidrocortisona por via intravenosa, mesmo antes dos testes de confirmação. Dose de ataque de cem miligramas em bolus, com manutenção de cinquenta miligramas a cada seis horas, expansão continuada com soro fisiológico e correção da hipoglicemia com glicose. Colher cortisol e corticotropina antes da primeira dose é desejável, e nunca motivo para adiá-la.
Não repor mineralocorticoide agora
A hidrocortisona, na dose usada na crise, já tem atividade mineralocorticoide suficiente. Fludrocortisona é comprimido, e a paciente está vomitando. Ela entra depois, quando a perfusão estiver restabelecida e a via oral liberada, junto com a troca do glicocorticoide intravenoso pelo oral.
Deixar o laboratório resolver a topografia
A pigmentação e a hipercalemia já apontam para a forma primária, e o par cortisol baixo com corticotropina acima de cem picogramas por mililitro confirma. Como se trata de forma primária, acrescenta-se a dosagem de aldosterona e renina: aldosterona abaixo de três nanogramas por decilitro com renina elevada define o hipoaldosteronismo e obriga a repor mineralocorticoide na alta.
Investigar a causa sem atrasar nada
Tomografia de abdome superior com cortes finos procura calcificação ou massa, que apontariam etiologia infecciosa ou metastática. Se houver lesão, biópsia guiada. Como já existe uma doença autoimune conhecida, o anticorpo anti-21-hidroxilase pode encerrar a questão etiológica; e, sendo o caso de síndrome poliglandular autoimune, o protocolo dispensa a investigação por imagem.
Preparar a alta com o que o protocolo cobra
Prednisona ou fosfato sódico de prednisolona em dose de manutenção, na faixa habitual de cinco a sete miligramas e meia por dia para a forma primária, acrescida de acetato de fludrocortisona de 0,1 miligrama por dia. Educação sobre a regra de dobrar a dose em febre, gastroenterite, cirurgia e trauma. Identificação portátil, pulseira, corrente ou cartão, informando a condição e contatos de emergência. Retorno com endocrinologista em dois a seis meses, com sódio, potássio e creatinina semestrais no primeiro ano.
07

Agora feche você

Homem de 61 anos, portador de doença pulmonar obstrutiva crônica, vinha em uso de prednisona 20 miligramas por dia havia sete meses por exacerbações repetidas. Decidiu suspender de uma vez, por conta própria, ao ler sobre efeitos adversos. Cinco dias depois procura o pronto atendimento com fadiga incapacitante, náusea, dor abdominal difusa e tontura ao levantar. Ao exame: pressão de 94 por 58 mmHg deitado, caindo a 76 por 50 em pé, frequência cardíaca de 108, sem hiperpigmentação de mucosas ou de pregas. Exames: sódio 131 mEq/L, potássio 4,2 mEq/L, glicemia 66 mg/dL. Complete o raciocínio: qual é a forma, o que a define nesta vinheta, o que muda no tratamento e o que muda na investigação.
Nomear a forma a partir de dois achados negativos
Complete: quais são os dois achados ausentes nesta vinheta que, juntos, apontam para a insuficiência adrenal central, e por que a ausência de cada um deles tem explicação fisiológica distinta.
Decidir se o corte de cortisol muda
Complete: o corte de cortisol basal que sustenta o diagnóstico nesta forma é igual ao da forma primária? Diga qual é e por que o protocolo usa um número mais baixo aqui.
Escolher o que repor
Complete: quais fármacos entram na manutenção deste paciente, qual fica de fora em relação à forma primária, e qual é a faixa de dose que o protocolo reserva para esta forma.
Definir o exame de imagem
Complete: qual exame de imagem esta forma pede, e por que a tomografia de adrenais não responde à pergunta aqui.
Lembrar do resto do eixo
Complete: além do cortisol, quais eixos hipofisários o protocolo manda avaliar quando não há antecedente conhecido de hipopituitarismo, e por que essa lista importa antes de dar alta.
Fechar a prevenção
Complete: qual orientação teria evitado este episódio, e qual é o limiar de dose e de tempo que o protocolo usa para dizer que o eixo já está suprimido.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Repor mineralocorticoide na forma central Vinheta: homem de 58 anos, operado de macroadenoma hipofisário há dois anos, chega com fadiga, náusea e sódio de 130, com potássio de 4,1 e sem pigmentação. O erro que o aluno marca é prednisona associada a fludrocortisona. A aldosterona é regulada pela renina e pelo potássio, não pela corticotropina: na forma central ela está preservada, e mineralocorticoide ali é dose sem alvo.
  2. 2Ajustar a dose de reposição pelo cortisol sérico Vinheta: paciente em uso de prednisona há um ano volta para consulta e o enunciado oferece exames de controle. O erro que o aluno marca é dosar cortisol e corticotropina para titular a dose. A portaria proíbe expressamente esse monitoramento e manda usar avaliação clínica. Quem estudou pela versão resumida não encontra a proibição, porque ela desapareceu na passagem.
  3. 3Esperar o resultado do cortisol para tratar a crise Vinheta: mulher de 42 anos com Hashimoto, vômitos há dois dias, pressão de 80 por 50, sódio de 128, potássio de 5,9 e glicemia de 58. O erro que o aluno marca é colher cortisol e corticotropina e aguardar. O protocolo manda tratar o instável antes da confirmação. Colher antes é permitido; atrasar o corticoide não é.
  4. 4Tratar a crise com fludrocortisona Vinheta: a mesma paciente, e a alternativa oferece fludrocortisona 0,1 miligrama por via oral junto com soro. O erro que o aluno marca é confundir a reposição crônica com o resgate agudo. Fludrocortisona é comprimido, de ação lenta, inútil em quem vomita e desnecessária enquanto a hidrocortisona em dose alta estiver fazendo o papel mineralocorticoide.
  5. 5Achar que hiponatremia separa as formas Vinheta: sódio de 126 num paciente sem pigmentação, e a alternativa conclui doença de Addison. O erro que o aluno marca é usar o sódio como discriminador. Hiponatremia ocorre nas duas formas. O discriminador é o potássio, acompanhado da pigmentação e do valor da corticotropina.
  6. 6Dobrar a dose por estresse emocional ou antes de exercício Vinheta: paciente com Addison compensado pergunta o que fazer antes de uma prova importante e antes da corrida de domingo. O erro que o aluno marca é dobrar a dose nas duas situações. O protocolo lista as situações de estresse que contam — febre igual ou acima de 38,5 graus, gastroenterite com desidratação, parto, cirurgia com anestesia geral, grande trauma — e exclui expressamente o estresse emocional e o exercício habitual, para o qual admite apenas fracionar a dose do dia.
  7. 7Pedir cortisol livre urinário ou salivar para investigar a falta Vinheta: enunciado ambulatorial com fadiga e pigmentação, alternativas com quatro exames. O erro que o aluno marca é cortisol livre urinário de 24 horas, por associação com a investigação do excesso. O protocolo diz textualmente que salivar e urinário não têm valor no diagnóstico da insuficiência adrenal.
  8. 8Confundir a tomografia com o primeiro exame Vinheta: cortisol baixo, corticotropina alta, e a alternativa oferece tomografia de adrenais como próximo passo. O erro que o aluno marca é inverter a ordem. Imagem vem depois da definição bioquímica e da topografia, e é dispensada quando a causa já está estabelecida como síndrome poliglandular autoimune ou adrenoleucodistrofia.
  9. 9Ler o número brasileiro de etiologia como se fosse nacional Vinheta: enunciado afirma que a paracoccidioidomicose responde por 28 por cento dos casos no Brasil e pede a conduta. O erro que o aluno marca é generalizar. O valor vem de uma casuística de 82 pacientes de dois serviços, um deles referência em micose profunda numa região endêmica, onde a fatia é de 36,4 por cento, contra 18,4 por cento no outro.
  10. 10Tratar corticotropina como exame de triagem Vinheta: suspeita clínica forte e a alternativa manda dosar corticotropina isoladamente. O erro que o aluno marca é pular o cortisol. A corticotropina responde onde está o defeito, não se ele existe; sem cortisol baixo documentado, não há o que localizar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro (hiponatremia, hipercalemia, hipoglicemia, hipotensão refratária, hiperpigmentação) é crise adrenal por insuficiência adrenal primária (Addison). A conduta é hidrocortisona EV de estresse IMEDIATA, sem esperar confirmação — o atraso é fatal. Pode-se colher cortisol/ACTH antes, mas nunca postergar o tratamento. Fludrocortisona (mineralocorticoide oral) não trata a crise aguda (a hidrocortisona já tem efeito mineralocorticoide em dose alta). Dexametasona é opção se quiser preservar o teste de estímulo, mas não se posterga o tratamento aguardando o teste. Repor só eletrólitos sem corticoide não corrige a causa e mantém o risco de óbito.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite sem consultar: os três achados específicos da forma primária; o único eletrólito que separa primária de central; os quatro cortes de cortisol e a qual forma cada um pertence; o corte de corticotropina que sustenta a forma primária; o teste de estímulo utilizável no país e suas quatro contraindicações; a dose de ataque de hidrocortisona no adulto em crise; as cinco situações que mandam dobrar a dose e as duas que não mandam.

em 30 dias

Explique por que a tabela do resumo oficial de 2023 diz que a forma terciária tem deficiência de mineralocorticoide, e por que a portaria que ela declara resumir diz o contrário em dois lugares distintos. Depois refaça a conta do primeiro dia de crise no adulto a partir das duas linhas do item de esquema de administração, e diga em qual das duas pontas ela fecha e por quê. Feche recalculando, a partir dos 39, 28, 11 e 7,3 por cento da casuística brasileira, quanto sobra para as demais causas, compare com a soma publicada na coluna de total e explique por que a faixa europeia de 70 a 90 por cento de etiologia autoimune não pode ser transportada para esse mesmo conjunto.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Ambulatório de clínica médica, primeira consulta após alta hospitalar. Mulher de 39 anos recebeu alta há dez dias com diagnóstico de doença de Addison, em uso de prednisona e fludrocortisona. Chega com duas perguntas e um susto: quer saber por quanto tempo vai tomar remédio, e por que precisa andar com uma pulseira, coisa que ela associa a doença grave e não quer usar. Conta também que na semana passada teve febre e não sabia se mudava alguma coisa na medicação, então não mudou. Cabe a você explicar o que aconteceu com a glândula dela, por que a reposição não tem prazo para acabar, o que exatamente muda quando ela adoece, e por que a identificação que ela não quer usar é o que garante o tratamento certo caso ela chegue desacordada a um pronto-socorro que não a conhece. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Insuficiência adrenal e crise addisoniana — Preparatório para provas | OsceLabs