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Clínica MédicaEndocrinologia

Tireotoxicose e doença de Graves

Tireotoxicose e hipertireoidismo: doença de Graves, tireoidites e crise tireotóxica

Distinguir produção aumentada de liberação hormonal, escolher terapia antitireoidiana e executar a sequência correta da crise tireotóxica.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 40 anos, há 10 dias com dor cervical anterior irradiada para a mandíbula, febre baixa e mal-estar, precedidos por quadro de infecção de vias aéreas superiores. Refere palpitações e nervosismo. Ao exame: FC 104 bpm, tireoide firme e muito dolorosa à palpação. Exames: TSH < 0,01 mUI/L (VR 0,4–4,0), T4 livre elevado, VHS 68 mm/h (VR < 20) e proteína C-reativa aumentada. A captação de iodo radioativo em 24 horas está reduzida (2%; VR 15–35%). Qual a conduta mais adequada?

02

Como esse tema cai

O recorte é o excesso de hormônio tireoidiano no adulto, do reconhecimento à primeira prescrição, com as três portas que a prova alterna: a glândula autoimune difusa, a glândula nodular do idoso e a glândula que apenas vaza. Entram a separação entre as três, a escolha do antitireoidiano, a regra de segurança que interrompe o fármaco e a sequência da emergência.

Ficam de fora a indicação cirúrgica detalhada e o preparo pré-operatório, que já têm dono no capítulo de Cirurgia de Cabeça e Pescoço; o nódulo frio e o câncer diferenciado, que são outra pergunta; e o hipotireoidismo, que é o capítulo três desta mesma apostila. A tireotoxicose da gestante entra apenas no ponto em que a régua se inverte, porque é ali que ela é cobrada como pegadinha de escolha de fármaco.

A unidade de trabalho aqui é a questão de prova. Cada seção termina onde uma alternativa se decide, e as contas que aparecem são as que a fonte imprimiu ou as que dá para recuperar da fonte por álgebra.

03

O que muda decisão

Tireotoxicose e hipertireoidismo: o complemento necessário

Esta apostila de Endocrinologia tinha dez capítulos antes deste. O terceiro se chama Hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano. Nenhum dos outros nove trata da glândula funcionando demais. Ampliando a busca para o acervo inteiro do preparatório, nas cinco grandes áreas, existe um único capítulo que nomeia o hipertireoidismo no título, e ele não é de clínica médica: é de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, e o subtítulo diz a que veio — quem vai para a mesa.

O vão é exatamente esse formato. Existe quem roteie para a cirurgia e não existe quem prescreva. É o desenho inverso do vizinho que prescreve e não encaminha: aqui o vizinho decide a operação e nunca escreve o primeiro comprimido.

A demanda mede bem. Restringindo às quatro trilhas de prova do banco, que somam 11.290 questões ativas, o eixo da glândula hiperfuncionante aparece em 197 questões contando enunciado, alternativas e comentário; 150 delas estão nas trilhas de prova; em 46 o assunto está no enunciado, isto é, a vinheta é sobre isso; e em 27 dessas 46 a alternativa correta carrega uma ação do eixo — pedir a captação, escolher o antitireoidiano, suspender o fármaco, sequenciar a emergência. Portância de 27 em 46 não é mobília de vinheta: é decisão.

O teste inverso mede mais alto ainda. Em 75 questões de prova o assunto aparece só em distrator: nem no enunciado, nem na alternativa certa. Hipertireoidismo é uma das respostas erradas mais reaproveitadas do banco, o que significa que o aluno precisa saber excluí-lo com a mesma firmeza com que precisa saber diagnosticá-lo.

O rótulo de tema das questões é o retrato do vão. Das 46 portantes, 29 carregam o rótulo do capítulo cirúrgico, o que sugeriria que o dono é a cirurgia. Mas a subespecialidade das mesmas 46 diz outra coisa: 20 estão marcadas como endocrinologia clínica contra 11 de cirurgia de cabeça e pescoço, e outras 7 são de obstetrícia. O rótulo aponta para a mesa de operação enquanto a maioria das perguntas quer saber o que se prescreve antes dela.

Tireotoxicose não é hipertireoidismo, e a palavra sumiu do documento federal

As duas palavras não são sinônimas e a diferença decide o tratamento. Tireotoxicose é hormônio tireoidiano em excesso no sangue, qualquer que seja a origem. Hipertireoidismo é o subconjunto em que a glândula está de fato fabricando esse excesso. Toda glândula hiperfuncionante causa tireotoxicose; nem toda tireotoxicose vem de glândula hiperfuncionante.

O antitireoidiano existe para bloquear a fabricação. Ele age sobre a enzima que organifica o iodo dentro da glândula. Onde não há fabricação em curso — a glândula inflamada que apenas derrama o estoque pronto, o hormônio que entrou pela boca, o tecido tireoidiano fora do pescoço — o fármaco não tem substrato para bloquear e o paciente recebe risco sem benefício. É por isso que a distinção não é vocabulário: é a diferença entre tratar e agredir.

Duas glândulas tireoides lado a lado: a da esquerda fabricando hormônio, a da direita vazando hormônio pronto por fendas no contorno, com a mesma quantidade final representada abaixo de cada uma.
A mesma quantidade de hormônio no sangue pode vir de uma glândula que fabrica demais ou de uma glândula que vaza o que já tinha pronto. O remédio que bloqueia a fábrica só serve para a primeira.

A palavra que carrega essa distinção viajou mal entre os documentos. O consenso da especialidade, em 28 páginas, escreve tireotoxicose 70 vezes. O relatório federal que decidiu qual antitireoidiano o país compra, em 79 páginas, escreve uma vez. A edição preliminar do mesmo relatório, de julho, escreve zero. E a versão de dez páginas que circula nos serviços escreve zero.

A única ocorrência federal, na página 12, é esta: “A maioria dos pacientes apresenta sinais e sintomas característicos da tireotoxicose, tais como mudanças de comportamento, irritabilidade, labilidade emocional, fadiga, nervosismo, palpitações, tremores, insônia”. A palavra entrou como rótulo de uma lista de sintomas, não como nome de uma classe de doenças. Ela descreve o que o paciente sente, e não o grupo em que o fármaco do relatório deixa de funcionar.

Some-se a cronologia: a palavra não estava na edição de julho, apareceu uma vez na de setembro, e voltou a desaparecer na versão para os serviços. O termo não encolheu por acidente de diagramação — ele foi introduzido na reescrita e no lugar em que menos decide. O documento que resolve qual remédio o sistema público compra nunca nomeia o conjunto de pacientes em que esse remédio é inútil.

A captação separa o que o laboratório junta

O par de exames que abre o caso é o mesmo nas três portas: hormônio estimulador suprimido e fração livre alta. Ele confirma a tireotoxicose e não diz nada sobre a causa. Quem separa é a captação de iodo radioativo em 24 horas, com ou sem cintilografia.

A leitura tem três alturas e cada uma manda para um lugar diferente. Captação alta e difusa por toda a glândula é doença de Graves. Captação focal, concentrada em um ou mais pontos com o restante do parênquima apagado, é adenoma tóxico ou bócio multinodular tóxico. Captação baixa, próxima de zero, é tireoidite, tireotoxicose factícia ou sobrecarga de iodo — e é a única das três em que o antitireoidiano está errado.

As bancas já usam esse número diretamente. Uma questão do banco entrega, na própria vinheta, captação de 2% em 24 horas com valor de referência de 15 a 35%, acompanhada de velocidade de hemossedimentação de 68 e dor cervical irradiada para a mandíbula depois de uma infecção de vias aéreas. A alternativa correta é anti-inflamatório e betabloqueador, com a justificativa de quadro autolimitado. Nenhum antitireoidiano.

Três cintilografias planares da tireoide: captação difusa e homogênea aumentada, dois focos hipercaptantes com supressão do restante da glândula e captação global praticamente ausente.
Um único ponto de partida no sangue, três destinos na cintilografia: glândula toda captante, focos autônomos com o restante suprimido, ou captação globalmente baixa.

Há um atalho que a prova aceita e que dispensa a imagem. Quando a vinheta traz bócio difuso com sopro sobre a glândula e sinais oculares — proptose, retração palpebral, edema conjuntival —, o diagnóstico de Graves já está fechado clinicamente, e o anticorpo antirreceptor do hormônio estimulador confirma. As vinhetas que trazem esse conjunto quase sempre perguntam a etiologia e não a conduta; as que omitem os olhos costumam pedir o exame que decide.

A pegadinha da sobrecarga de iodo merece nome próprio. Contraste iodado recente ou amiodarona derrubam a captação por diluição do marcador, e não por ausência de doença. Nessas duas situações a captação baixa perde o poder de separar e a leitura volta para a clínica, para o anticorpo e para a ultrassonografia com estudo de fluxo.

As três portas, e as que a prova guarda para o fim

A doença de Graves é a resposta mais frequente e a mais fácil de reconhecer quando a banca quer que se reconheça: mulher jovem, bócio difuso, sopro sobre a glândula, olhos acometidos e, em minoria dos casos, a placa endurecida na região pré-tibial. O anticorpo antirreceptor é o exame de confirmação. É autoimune, é a única das causas de tireotoxicose com doença ocular própria, e é a única em que o tratamento clínico prolongado tem chance real de remissão.

O bócio multinodular tóxico e o adenoma tóxico são a porta do paciente mais velho, com aumento cervical de crescimento lento e anos de história. Não há olhos acometidos, não há anticorpo, e a captação é focal. A diferença prática é o prognóstico do tratamento clínico: o nódulo autônomo não entra em remissão, de modo que o antitireoidiano aqui é preparo e ponte, não tratamento definitivo. O tratamento definitivo é radioiodo ou cirurgia.

As tireoidites são a terceira porta e a que mais engana. A subaguda vem depois de infecção de vias aéreas altas, dói, a glândula está endurecida e sensível, e a velocidade de hemossedimentação está alta. A indolor e a pós-parto fazem o mesmo desenho laboratorial sem dor nenhuma. As três compartilham a captação baixa e a mesma evolução em três tempos: fase de vazamento com excesso de hormônio, fase de esgotamento com hormônio baixo, e retorno. Tratar a primeira fase com antitireoidiano é antecipar a segunda sem ter encurtado a primeira.

Sobram as causas que a prova guarda para diferenciar quem estudou. Tireotoxicose factícia, por ingestão do hormônio, cursa com captação baixa, sem bócio e com tireoglobulina baixa — o marcador que a separa da tireoidite, em que a tireoglobulina está alta porque veio do tecido rompido. Struma ovarii é tecido tireoidiano em teratoma de ovário. E o excesso de gonadotrofina coriônica da gravidez inicial produz tireotoxicose transitória por estímulo cruzado do receptor.

Essa última é a mais cobrada de todas as variantes, e por isso vale a régua fechada. Sete das 46 questões portantes do banco são obstétricas, e quase todas desenham o mesmo quadro: primeiro trimestre, vômitos incoercíveis, perda de peso, taquicardia, sem bócio, sem sinais oculares, sem doença tireoidiana prévia, hormônio estimulador suprimido. A resposta correta em todas é hidratação e antiemético, com reavaliação da função depois da melhora dos vômitos, e sem antitireoidiano. O que separa da doença de Graves na gestante é a presença de bócio, de olhos acometidos e do anticorpo.

Metimazol e tiamazol: a mesma molécula em nomes diferentes

O fármaco de primeira linha tem um problema de identidade que atravessa todos os documentos brasileiros. A mesma molécula aparece como tiamazol, como metimazol, e por três siglas diferentes formadas com as mesmas letras em ordens distintas. O carbimazol, que às vezes aparece ao lado, é outra coisa: é o pró-fármaco que se converte nela.

A contagem por documento mostra o tamanho da confusão. No relatório federal final, tiamazol aparece 131 vezes, uma das siglas 137 vezes, a sigla com as letras trocadas 12 vezes, e metimazol apenas 4. Na edição preliminar do mesmo relatório, a sigla trocada aparece zero vez — ela foi introduzida na reescrita entre julho e setembro, para nomear um fármaco que já tinha sigla no próprio documento.

O resultado é uma frase que se repete três vezes no mesmo relatório com a sigla trocando de forma no meio. Numa passagem: “sociedades médicas de todo o mundo, incluindo as supracitadas, recomendam priorizar” — e vem uma das siglas. Duas páginas adiante, a mesmíssima frase, e vem a outra. O próprio documento define as duas como equivalentes numa terceira passagem, ao escrever que o fármaco é “também conhecido por” o segundo nome; mas quem lê linearmente encontra duas siglas antes de encontrar a definição que as une.

O consenso da especialidade fecha o problema pelo outro lado. Nas suas 28 páginas, a palavra tiamazol não aparece nenhuma vez. Ele chama o fármaco por uma sigla que o relatório federal usa três vezes em 79 páginas, e chama a classe inteira por outra sigla, 92 vezes. Quem procura no consenso o nome que a portaria federal incorporou não encontra nada, e quem procura no relatório federal a sigla da especialidade encontra três ocorrências perdidas.

Para o estudo isso tem consequência prática e imediata: buscar por um só nome perde a fonte. Vale procurar sempre pelos dois nomes por extenso e pelas siglas nas duas ordens de letras, e vale desconfiar de qualquer resumo que use uma forma só. Para a prova, a consequência é menor mas existe: os enunciados do banco usam quase sempre o nome comercial mais antigo ou a forma por extenso mais conhecida, e nunca a sigla.

A mesma régua invertida entre a criança e a gestante

Os dois antitireoidiános disponíveis no país são a mesma dupla em toda parte, e a ordem de preferência entre eles se inverte conforme quem está na frente. Não é uma régua que mudou de altura: é a mesma régua lida em direções opostas por dois subgrupos, e cada direção é imposta por um dano diferente.

Na criança, o consenso da especialidade escreve que os efeitos colaterais são “mais frequentes e/ou graves com o uso de” propiltiouracila, “o que faz do” outro fármaco “a droga antitireoidiana de escolha em pacientes pediátricos”. O relatório federal chega ao mesmo lugar por outro caminho: “alertas de hepatotoxicidade grave e morte em crianças devido ao uso de” propiltiouracila “foram reportados nas últimas décadas, de forma que sociedades médicas de todo o mundo (...) recomendam priorizar” o outro “neste grupo etário”.

No primeiro trimestre da gestação, o mesmo consenso escreve o contrário, e escreve como recomendação numerada: “No primeiro trimestre da gestação, a droga antitireoidiana recomendada para o tratamento de hipertireoidismo é” a propiltiouracila, “sendo necessária a substituição” do outro fármaco “em mulheres que já usavam previamente à gestação”. O motivo é outro dano: “relatos de aplasia cútis, atresia cloacal, fístula traqueoesofágica e anomalias faciais”.

O desenho completo é de duas trocas obrigatórias na mesma paciente. A mulher em uso do fármaco de primeira linha que planeja engravidar troca para a propiltiouracila antes ou no início da gestação, e o consenso escreve que ela deve voltar ao fármaco anterior “até o final do 1º trimestre”. O remédio proibido como primeira escolha na criança de dez anos é o obrigatório no feto de dez semanas, e volta a ser o preterido na semana treze.

O detalhe que desarma o raciocínio errado é a categoria de risco na gravidez: os dois fármacos são categoria D. A bula profissional do primeiro escreve “Gravidez – Categoria D” e a nota técnica federal atribui a mesma categoria ao segundo. Isto é, o número que o aluno costuma procurar para decidir é idêntico nos dois e não decide nada. Quem escolhe é qual malformação e qual lesão de órgão se está evitando, e em que janela.

Sobra um contraponto honesto, e ele é do próprio consenso. O texto restringe a propiltiouracila “aos casos de hipertireoidismo grave, crise tireotóxica e no primeiro trimestre da gestação”, justamente por causa da hepatotoxicidade. Ou seja: o fármaco é restringido porque agride o fígado e, em seguida, é indicado no paciente mais grave de todos, aquele em que a falência hepática seria menos tolerada. Não é contradição, é troca deliberada: nessa situação a propiltiouracila faz algo que a outra não faz, que é bloquear também a conversão periférica do hormônio.

Agranulocitose, e os dez por cento que a doença já causa

A regra de segurança do antitireoidiano é determinística e cai em prova com frequência desproporcional à sua dificuldade. A bula profissional escreve que “os pacientes devem ser orientados para comunicar ao seu médico qualquer sintoma de agranulocitose, tais como febre ou dor de garganta”, e que “a droga deve ser descontinuada na presença de agranulocitose, anemia aplástica (pancitopenia), hepatite ou dermatite esfoliativa”.

Traduzida para a beira do leito, a regra é curta: paciente em uso de antitireoidiano que aparece com febre ou dor de garganta suspende o fármaco e colhe hemograma com contagem diferencial, antes de qualquer outra coisa. Não se pede para esperar, não se troca por outro antitireoidiano por conta própria, e não se prescreve antibiótico por telefone tratando como faringite banal.

O contraponto que quase ninguém sabe está na mesma bula, e ele inverte a leitura de um hemograma isolado: “cerca de 10% dos pacientes com hipertireoidismo não tratados apresentam leucopenia (contagem de leucócitos de menos de 4000 por milímetro cúbico), frequentemente com granulocitopenia relativa”. A doença já derruba os leucócitos em um de cada dez pacientes antes de qualquer remédio.

A consequência prática é o hemograma de base. Sem uma contagem colhida antes de iniciar o fármaco, o hemograma que volta baixo dois meses depois não distingue reação ao medicamento de leucopenia que já existia. O exame que decide não é o segundo: é o primeiro, colhido quando ninguém ainda precisava dele.

A bula acrescenta dois modificadores de risco que a prova raramente usa e que valem para a vida: a agranulocitose é mais comum acima dos 40 anos e com doses de 40 miligramas ou mais por dia. As vinhetas do banco costumam trazer mulheres de trinta e poucos anos em doses de 20 miligramas, isto é, no canto de menor risco da tabela — o que não muda a conduta diante de febre, apenas explica por que a maioria dos hemogramas volta normal.

Crise tireotóxica: a ordem das drogas é a resposta

A crise tireotóxica é a única situação do tema em que a pergunta não é qual remédio, e sim em que ordem. As vinhetas do banco desenham sempre o mesmo quadro: doença de Graves conhecida, uso irregular do antitireoidiano, um gatilho — infecção, extração dentária, cirurgia —, e depois febre alta, agitação ou confusão, taquiarritmia e sinais de insuficiência cardíaca.

O escore de Burch-Wartofsky aparece explicitamente nos enunciados, com o corte já entregue: uma questão do banco informa valor 65 e acrescenta, entre parênteses, que acima de 45 é altamente sugestivo. Quando o escore vem dado, ele não é o que se está perguntando — ele é a licença para tratar como emergência, e a pergunta está sempre na prescrição.

A sequência correta tem quatro peças e uma trava temporal. Primeiro o antitireoidiano, e aqui a propiltiouracila é preferida porque bloqueia também a conversão periférica. Depois, e somente ao menos uma hora depois, o iodo inorgânico. Junto, o betabloqueador para a taquicardia e o corticoide. A alternativa correta de uma das questões do banco diz exatamente isso: propiltiouracila, seguida de iodeto após uma hora, associadas a propranolol e hidrocortisona.

Linha do tempo com dois quadrados em sequência separados por um intervalo marcado por relógio, e uma seta de retorno cortada por uma cruz indicando que a ordem inversa é proibida.
Primeiro o bloqueio da fabricação, e só depois o iodo. A ordem inversa entrega matéria-prima a uma glândula ainda ligada.

A trava de uma hora não é burocracia. O iodo em dose alta bloqueia a liberação do hormônio já pronto, mas também é matéria-prima para fabricar mais. Administrado antes do bloqueio da síntese, ele alimenta uma glândula que continua trabalhando e pode agravar o quadro. A hora de intervalo existe para que a enzima já esteja bloqueada quando o substrato chegar.

O betabloqueador merece um cuidado que a prova cobra. Diante de insuficiência cardíaca instalada — e as vinhetas costumam trazer estertores e ictus desviado —, ele entra com cautela e sob vigilância, porque parte do débito depende da taquicardia. Uma questão do banco escreve isso na própria alternativa correta: usar o betabloqueador com cautela pela insuficiência cardíaca. Não é contraindicação absoluta, é titulação vigiada.

Propiltiouracil no SUS: indicação restrita

Existe um único ato federal brasileiro sobre qual antitireoidiano o sistema público oferece, e ele é estreito. A comissão nacional recomendou por unanimidade em 1º de setembro de 2021, e a decisão saiu na Portaria da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde nº 65, de 23 de setembro de 2021, publicada no Diário Oficial em 27 de setembro: incorporar o fármaco “para o tratamento de hipertireoidismo em crianças e adolescentes”.

A sociedade de especialidade pediu mais durante a consulta pública, e pediu por escrito duas coisas: “ampliação de população (...) abrangendo adultos” e “a elaboração de um protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para hipertireoidismo”. A resposta federal veio em caixa alta e cedeu a um número de lei em vez de nomear um documento: para avaliar a incorporação para adultos, nova solicitação deveria ser feita obedecendo ao estabelecido na Lei nº 12.401 de 2011. A frase impressa traz inclusive o verbo grafado com uma letra a menos.

É cessão por escrito no formato mais puro: o pedido nomeia um documento que não existe, e a recusa nomeia uma lei que apenas descreve como pedir de novo. O protocolo clínico para hipertireoidismo continua não existindo. O país tem protocolo federal para o hipotireoidismo congênito, aprovado em 2021, e nenhum para a glândula funcionando demais em qualquer idade.

O vão que isso abre é justamente o do paciente da prova. Das 46 questões portantes do banco, apenas uma pequena minoria é pediátrica; a esmagadora maioria traz adultos, e são adultos que o ato federal não cobre. O documento que decide o remédio decidiu para quem quase nunca é perguntado.

Vale registrar o que a consulta pública não fez. O relatório informa que a matéria ficou aberta por vinte dias e que todas as contribuições recebidas concordaram com a recomendação preliminar; e informa também, numa linha só, que nenhuma contribuição foi feita à evidência clínica, à avaliação econômica ou à análise de impacto orçamentário. O que se submeteu ao público foi validado sem que ninguém tocasse nas contas.

Incorporação não substitui indicação clínica

A conta que sustentou a decisão vale ser recuperada, porque ela esconde a fração que interessa. A avaliação econômica publicou ganho de 0,07 evento adverso evitado por paciente por ano e custo incremental de menos R$ 241 por paciente por ano, com a razão declarada dominante. O relatório nunca escreve o inverso desse 0,07, que é o número que um clínico entenderia: é preciso trocar de fármaco cerca de 14 pacientes, por um ano, para que um único evento adverso deixe de acontecer. E o custo por evento evitado, que também não é impresso, sai da divisão dos dois números publicados: perto de R$ 3.500.

A mesma análise econômica traz um deslize aritmético que sobrevive em quatro lugares do documento. A população chamada de demanda aferida aparece como “cerca de 20 pacientes por ano” numa passagem, como 29 por ano em todos os cinco anos da tabela, como “cerca de 30 pacientes ao ano” em três resumos, e como “cerca de 70 pacientes ao ano” numa quarta. A economia de cinco anos atrelada a esse mesmo rótulo aparece como R$ 21 mil em três lugares e como R$ 51 mil no quarto. É o mesmo parâmetro com quatro valores e duas conclusões.

O leitor pode fechar a conta e ver o que não fecha. Entre os dois cenários, a população multiplica por 8,6 — de 29 para 249 pacientes ao ano — e a economia de cinco anos multiplica por 236, de R$ 20.588 para R$ 4.852.151. Com um preço fixo por comprimido e uma diferença fixa por paciente, os dois fatores teriam de ser iguais. A reconciliação possível está no próprio texto, que aplica um filtro de 40% de elegibilidade apenas à demanda aferida; ela encolhe a discrepância e não a fecha, e o documento não explica o resto.

Uma última medida, e ela é sobre auditabilidade e não sobre tireoide. A declaração de ausência de conflito de interesses aparece quatro vezes no relatório de 79 páginas, nas páginas 9, 33, 57 e 67 — uma por seção analítica. Na versão de dez páginas que os serviços fotocopiam, ela aparece zero vez, junto com financiamento, patrocínio e qualquer menção a sigilo. A omissão não é regra da casa: a casa declara, e repete. O que perde a declaração é o resumo.

04

Da tireotoxicose confirmada à primeira prescrição

A decisão treinada aqui tem três degraus e nenhum deles é escolher a dose. Primeiro confirmar que há excesso de hormônio; depois decidir se a glândula fabrica ou vaza; e só então prescrever, porque o segundo degrau é o que define se o antitireoidiano entra ou fica de fora.

  1. 1Confirme a tireotoxicose com hormônio estimulador suprimido e fração livre elevada. Se o estimulador estiver suprimido com fração livre normal, o quadro é subclínico e a decisão muda de capítulo.
  2. 2Procure na vinheta os três achados que fecham Graves sem imagem: bócio difuso, sopro sobre a glândula e acometimento ocular. Presentes os três, o anticorpo antirreceptor apenas confirma e a conduta já pode ser prescrita.
  3. 3Ausentes os sinais oculares, peça a captação de iodo em 24 horas. Alta e difusa manda para Graves; focal, para nódulo autônomo; baixa, para tireoidite, causa factícia ou sobrecarga de iodo.
  4. 4Se a captação for baixa, retire o antitireoidiano do plano. O tratamento é sintomático, com betabloqueador e anti-inflamatório na forma dolorosa, e a evolução esperada tem fase de hormônio baixo depois.
  5. 5Se a captação for alta ou focal, escolha o antitireoidiano pela idade e pela gestação, não pela categoria de risco, que é a mesma para os dois fármacos.
  6. 6Prescreva o hemograma de base junto da primeira receita e oriente por escrito que febre ou dor de garganta obrigam a suspender o fármaco e colher contagem diferencial antes de qualquer outra medida.

A captação em três alturas

O mesmo par de exames de sangue abre as três portas e não separa nenhuma. Quem separa é a altura da captação: cheia, focal, ou quase nula. A terceira altura é a única em que o antitireoidiano sai do plano, e é justamente a que a vinheta disfarça de infecção de garganta.

A hora entre as duas drogas

Na crise, o antitireoidiano vem primeiro e o iodo vem depois, com pelo menos uma hora de intervalo. Invertida, a sequência entrega matéria-prima a uma glândula que ainda está fabricando. É o único ponto do tema em que a resposta certa é uma ordem, e não um fármaco.

A régua que troca de lado

A ordem de preferência entre os dois antitireoidianos não muda de altura entre a criança e a gestante do primeiro trimestre: ela troca de posição. Cada direção é imposta por um dano diferente, e a categoria de risco na gravidez, por ser igual nos dois, não participa da escolha.

As três alturas da captação e o que cada uma decide

AchadoCaptação em 24 horasConduta que a prova espera
Bócio difuso, sopro, olhos acometidosAlta e difusaAntitireoidiano; anticorpo antirreceptor confirma
Aumento cervical antigo, idoso, sem olhosFocal, resto do parênquima apagadoAntitireoidiano como ponte; definitivo é radioiodo ou cirurgia
Dor cervical, febre baixa, pós-viralBaixa, com hemossedimentação altaAnti-inflamatório e betabloqueador; sem antitireoidiano
Sem dor, sem bócio, pós-parto ou uso ocultoBaixaSintomático; tireoglobulina separa vazamento de ingestão
Contraste ou amiodarona recentesBaixa por diluição do marcadorA captação perde o poder de separar; volte à clínica e ao anticorpo
Primeiro trimestre, vômitos, sem bócioNão se pede na gestaçãoHidratação e antiemético; reavaliar depois dos vômitos

A mesma dupla de fármacos, lida em duas direções

SubgrupoFármaco preferidoDano que impõe a direção
Criança e adolescenteO de primeira linha habitualHepatotoxicidade grave e morte descritas com o outro
Primeiro trimestre da gestaçãoO outroAplasia cútis, atresia cloacal e anomalias faciais
Segundo trimestre em dianteVolta ao de primeira linhaA janela de organogênese passou
Crise tireotóxicaO outro, apesar do fígadoBloqueia também a conversão periférica
Categoria de risco na gravidezIdêntica nos doisPor ser igual, não decide nada

A captação de iodo em 24 horas não se pede na gestação nem na lactação. Na gestante, a separação entre tireotoxicose transitória da gravidez e doença de Graves é clínica e sorológica: bócio, sinais oculares e anticorpo antirreceptor.

Hormônio estimulador suprimido com frações livres normais é doença subclínica, e a decisão de tratar depende de idade, cardiopatia e osso — não do valor isolado.

As duas edições do relatório federal citadas aqui não se contradizem: a de julho é a versão submetida a consulta pública e a de setembro é a final, com a recomendação já deliberada. As diferenças medidas entre elas são de reescrita, não de mudança de mérito.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual antitireoidiano é o preferido

O de primeira linha, exceto em duas janelas

A régua brasileira, tanto federal quanto de especialidade, coloca um dos fármacos em primeiro lugar e o outro em segundo, com base em frequência e gravidade de efeitos adversos e em relatos de hepatotoxicidade fatal em crianças. Essa direção vale para o adulto e para a criança.

Relatório federal de recomendação nº 667, setembro de 2021, e consenso brasileiro de 2013 da sociedade de especialidade.

O de segunda linha, no primeiro trimestre e na crise

O mesmo consenso, em recomendação numerada, inverte a ordem no primeiro trimestre por causa de malformações descritas com o outro fármaco, e obriga a substituição em quem já usava. E restringe esse mesmo segundo fármaco aos casos graves e à crise, onde ele passa a ser o preferido justamente por bloquear também a conversão periférica.

Consenso brasileiro de 2013, recomendação sobre gestação e passagem sobre restrição de uso.

Na prova

A banca quase nunca pergunta qual é o de primeira linha em abstrato. Ela monta uma vinheta com idade ou idade gestacional e espera que o candidato leia a direção certa. Quando a vinheta traz criança ou adolescente, a resposta é o fármaco habitual; quando traz primeira metade do primeiro trimestre, é o outro; quando traz crise tireotóxica, é o outro de novo, e a alternativa correta costuma trazer também a sequência com o iodo.

Quem é o dono do tema no acervo

A cirurgia, pelo rótulo

O único capítulo do acervo do preparatório que nomeia o assunto no título é cirúrgico e decide indicação operatória. E 29 das 46 questões de prova cujo enunciado carrega o eixo trazem justamente o rótulo temático desse capítulo.

Medição no banco de questões e na lista de capítulos do nível preparatório.

A clínica, pela subespecialidade e pelo conteúdo

As mesmas 46 questões, lidas pela subespecialidade atribuída, dão 20 para endocrinologia clínica contra 11 para cirurgia de cabeça e pescoço e 7 para obstetrícia. E das 27 questões em que a alternativa correta carrega ação, a maioria pede exame, fármaco, suspensão ou sequência, e não indicação cirúrgica.

Medição no banco de questões, camada de decisão sobre a alternativa correta.

Na prova

Na prática de estudo isso significa que procurar o assunto pelo rótulo temático leva ao capítulo errado. O material de cirurgia responde quando operar e como preparar; ele não responde qual exame separa as três portas, nem o que fazer diante de febre em quem usa o fármaco, nem em que ordem se trata a crise.

Quanto o país economiza ao trocar de fármaco

Vinte e um mil reais em cinco anos

Três passagens do relatório federal, incluindo o resumo executivo e as conclusões da análise, atribuem à população chamada de demanda aferida cerca de 30 pacientes por ano e uma economia da ordem de R$ 21 mil em cinco anos. A tabela do anexo lista 29 pacientes por ano em cada um dos cinco anos.

Relatório federal nº 667, resumo, conclusões e anexo de impacto orçamentário.

Cinquenta e um mil reais em cinco anos

Uma quarta passagem do mesmo documento atribui ao mesmo rótulo cerca de 70 pacientes por ano e um impacto de menos R$ 51 mil em cinco anos. Uma quinta escreve cerca de 20 pacientes por ano. O mesmo parâmetro aparece com quatro valores e a economia atrelada a ele, com dois.

Relatório federal nº 667, passagem intermediária da seção econômica.

Na prova

Nenhuma banca vai cobrar esse número. O uso aqui é outro: mostrar que a conta que autorizou a compra do remédio no país tem quatro populações para o mesmo rótulo, e que a economia por paciente entre os dois cenários publicados difere por um fator de vinte e sete sem explicação no texto. Quando a fonte erra a própria aritmética, decorar o número dela é pior do que entender a regra.

06

Caso resolvido

Mulher de 34 anos procura o pronto atendimento com palpitação, perda de seis quilos em dois meses com apetite preservado, tremor de extremidades, intolerância ao calor e insônia. Pressão de 138 por 62, frequência de 118, temperatura de 37,2. Palpa-se aumento difuso da glândula e ausculta-se sopro sobre ela; há proptose bilateral. Estimulador abaixo do limite de detecção e fração livre elevada. Nega uso de medicamentos, contraste recente e gestação.
Passo 1
Confirme que se trata de tireotoxicose e não pare aí. O estimulador suprimido com fração livre alta apenas estabelece que há excesso circulante; ele é idêntico nas três portas e não autoriza sozinho nenhuma prescrição.
Passo 2
Leia os três achados que dispensam a imagem. Aumento difuso, sopro sobre a glândula e proptose bilateral formam o conjunto que fecha a doença autoimune clinicamente. Com os três presentes, a captação de iodo deixa de ser necessária para decidir, e o anticorpo antirreceptor entra como confirmação e não como condição para tratar.
Passo 3
Trate os sintomas enquanto o bloqueio não age. O betabloqueador entra imediatamente pela frequência de 118 e pelo tremor, e é o que devolve conforto nas primeiras horas. Ele não interfere na produção de hormônio; apenas cobre o intervalo até o antitireoidiano fazer efeito.
Passo 4
Escolha o antitireoidiano pela janela, não pela categoria de risco. Adulta, não gestante e sem crise: entra o fármaco de primeira linha, em dose única diária. As duas exceções que inverteriam a escolha — primeiro trimestre e crise tireotóxica — não estão presentes aqui.
Passo 5
Prescreva o hemograma de base junto da receita e escreva a regra de suspensão. Sem contagem prévia, um hemograma baixo daqui a dois meses não distingue reação ao fármaco da leucopenia que cerca de um em cada dez pacientes já tem por causa da própria doença. E a paciente sai com a instrução por escrito: febre ou dor de garganta suspendem o comprimido e obrigam contagem diferencial antes de qualquer outra medida.
07

Agora feche você

Mulher de 40 anos com doença autoimune da tireoide conhecida e uso irregular do antitireoidiano é levada ao pronto-socorro por familiares. Cinco dias antes iniciou quadro infeccioso urinário. Chega agitada e desorientada, temperatura axilar de 39,4, frequência de 148 em fibrilação atrial de alta resposta, pressão de 150 por 60, estertores nas bases e ictus desviado. O escore de gravidade da crise está acima do corte que a torna altamente provável.
Passo 1
Diga por que o escore acima do corte não é a pergunta desta vinheta, e o que ele autoriza que ainda não estava autorizado.
Passo 2
Nomeie os quatro grupos de fármacos da emergência e escreva a ordem entre dois deles, dizendo qual intervalo mínimo separa um do outro e o que aconteceria se a ordem fosse invertida.
Passo 3
Justifique qual dos dois antitireoidianos é preferido aqui, sabendo que ele é o mesmo que os documentos restringem por hepatotoxicidade, e diga que propriedade adicional dele explica a inversão.
Passo 4
Explique como os estertores e o ictus desviado mudam a forma de usar o betabloqueador, sem transformá-lo em contraindicação, e diga qual parâmetro você vigia enquanto titula.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever antitireoidiano para tireoidite subaguda É o distrator mais bem construído do tema, porque o laboratório é idêntico ao da doença de Graves. A glândula inflamada não está fabricando: está derramando estoque. O antitireoidiano não tem o que bloquear, e a fase de hormônio baixo que vem depois chega mais cedo. Dor cervical irradiada para a mandíbula, quadro pós-viral, hemossedimentação alta e captação baixa fecham o diagnóstico, e o tratamento é anti-inflamatório com betabloqueador.
  2. 2Tratar tireotoxicose transitória da gestação como doença de Graves Primeiro trimestre, vômitos incoercíveis, perda de peso, taquicardia e estimulador suprimido não bastam. O que separa é o que a vinheta nega: sem bócio, sem sinais oculares, sem doença tireoidiana prévia e sem anticorpo. Nessas condições a conduta é hidratação e antiemético, com reavaliação da função depois que os vômitos cederem, e sem nenhum antitireoidiano.
  3. 3Escolher o fármaco pela categoria de risco na gravidez Os dois antitireoidianos disponíveis compartilham a mesma categoria de risco. Quem procura no rótulo o critério de escolha encontra dois valores idênticos e conclui que tanto faz. O que decide é a janela: no primeiro trimestre, o risco de malformação de um deles domina; depois dele, a hepatotoxicidade do outro volta a dominar.
  4. 4Dar o iodo antes do antitireoidiano na crise A alternativa costuma listar as quatro drogas certas em ordem trocada, e é assim que ela engana. O iodo bloqueia a liberação do hormônio pronto, mas serve de matéria-prima para fabricar mais. Antes do bloqueio da síntese, ele alimenta uma glândula ainda ligada. O intervalo mínimo de uma hora entre um e outro é parte da resposta.
  5. 5Tratar febre e dor de garganta como faringite em quem usa o fármaco É o cenário de agranulocitose até prova em contrário. A conduta é suspender o antitireoidiano e colher hemograma com contagem diferencial antes de qualquer antibiótico ou analgésico. Prescrever sintomático por telefone e reavaliar em três dias é a resposta errada mais plausível que a banca oferece.
  6. 6Ler um hemograma baixo sem hemograma de base A própria bula registra que cerca de um em cada dez pacientes com a doença não tratada já tem leucopenia. Sem contagem colhida antes da primeira dose, o hemograma baixo do segundo mês não distingue reação ao fármaco de achado que já existia. O exame que decide é o primeiro, não o segundo.
  7. 7Confiar na captação baixa depois de contraste ou amiodarona Sobrecarga de iodo derruba a captação por diluição do marcador, e não porque a glândula parou de fabricar. Nesse contexto o exame perde o poder de separar as portas, e a decisão volta para a clínica, o anticorpo antirreceptor e a ultrassonografia com estudo de fluxo.
  8. 8Esperar remissão de nódulo autônomo com tratamento clínico prolongado A chance real de remissão depois de um curso de antitireoidiano existe na doença autoimune difusa, não no nódulo que ganhou autonomia. No bócio multinodular tóxico e no adenoma tóxico o fármaco é ponte e preparo; o tratamento que resolve é radioiodo ou cirurgia. Manter o comprimido indefinidamente aguardando remissão é a armadilha do idoso com aumento cervical antigo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Dor tireoidiana após infecção viral, VHS muito elevado e captação de iodo BAIXA definem tireoidite subaguda de De Quervain: a tireotoxicose decorre da liberação (destruição folicular), não da síntese hormonal. Logo, o tratamento é sintomático — AINE (ou corticoide nos casos intensos) para a dor/inflamação e betabloqueador para os sintomas adrenérgicos; é autolimitada. As tionamidas (metimazol/propiltiouracila) bloqueiam a síntese hormonal, que aqui não está aumentada — são inúteis na tireoidite destrutiva. Cirurgia é desproporcional em doença autolimitada. A radioiodoterapia depende de captação adequada e é ineficaz/contraindicada com captação de apenas 2%.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Tireotoxicose confirmada é só o começo: o par de exames que a confirma não separa nenhuma das três portas. Bócio difuso com sopro e olhos acometidos fecham a doença autoimune sem imagem. Sem os olhos, a captação decide: alta e difusa é autoimune, focal é nódulo autônomo, baixa é tireoidite, causa factícia ou sobrecarga de iodo, e é a única em que o antitireoidiano fica de fora. Junto da primeira receita vão sempre duas coisas: o hemograma de base e a ordem escrita de suspender o fármaco diante de febre ou dor de garganta. Na crise, a ordem é antitireoidiano primeiro e iodo pelo menos uma hora depois, com betabloqueador e corticoide.

em 30 dias

A chave que os documentos não escrevem: cada régua deste tema tem um denominador diferente, e trocar o denominador inverte a resposta sem trocar um único estudo. A ordem de preferência entre os dois antitireoidianos não é uma propriedade dos fármacos, é uma função do subgrupo — a criança lê a régua num sentido por causa do fígado, a gestante do primeiro trimestre lê no sentido oposto por causa da organogênese, e o mesmo paciente troca duas vezes ao longo de uma gestação. A categoria de risco, por ser idêntica nos dois, é o número mais visível e o que menos decide. E o que o país comprou não é o que a prova cobra: o único ato federal sobre o fármaco cobre menores de 18 anos, o protocolo clínico pedido pela especialidade nunca foi escrito, e a esmagadora maioria das questões traz adultos.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Paciente adulta com palpitação, perda de peso e intolerância ao calor há semanas. Colha a história que separa a glândula que fabrica da glândula que vaza, examine o pescoço e os olhos procurando os três achados que fecham o diagnóstico sem imagem, defenda em voz alta se a captação de iodo é ou não necessária neste caso, e prescreva dizendo o que vai junto da primeira receita além do comprimido. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Tireotoxicose e hipertireoidismo – Tireotoxicose e doença de Graves — Preparatório para provas | OsceLabs