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Clínica MédicaEndocrinologia

Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo primário

Rastrear apenas quem tem indicação, confirmar bioquimicamente antes da imagem e separar doença unilateral de bilateral.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 48 anos apresenta ganho de peso central, estrias violáceas largas, face em lua cheia, fraqueza proximal e hipertensão de difícil controle. Exames: cortisol salivar noturno elevado, cortisol urinário livre de 24h aumentado e ausência de supressão no teste de 1 mg de dexametasona overnight. Qual é o próximo passo para diferenciar a etiologia da síndrome de Cushing?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata das duas causas endócrinas de hipertensão que a prova brasileira mais cobra: o hiperaldosteronismo primário e a síndrome de Cushing. O eixo é o caminho diagnóstico — quando suspeitar, qual exame abre a investigação, o que confirma, o que define subtipo e o que decide entre operar e medicar.

Ficam de fora o manejo geral da hipertensão essencial, a crise hipertensiva e a hipertensão na gestação, cada um com capítulo próprio. Feocromocitoma, apneia obstrutiva do sono, estenose de artéria renal e coarctação entram só como diagnóstico diferencial, no ponto em que o achado laboratorial separa um do outro. Insuficiência adrenal, que é o outro lado da mesma glândula, também tem capítulo próprio.

Três documentos brasileiros governam o tema, e é preciso saber de qual deles a banca está copiando. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 é a régua da sociedade médica, mas encolheu o assunto a uma tabela e remete o leitor às Diretrizes de 2020 para aprofundamento. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, do mesmo ano de 2025, tem quadro próprio de suspeita e declara copiá-lo da diretriz de 2020. Os três não dizem exatamente a mesma coisa, e as diferenças caem em número — idade, limiar de pressão, dose.

O que este capítulo faz de diferente é ler as tabelas contra os parágrafos que as geraram. Em pelo menos dois pontos o texto e a tabela do mesmo documento discordam, e o aluno que responder pela tabela marca a alternativa errada em questões que já estão no acervo. Onde as três fontes concordam, o capítulo diz que concordam — para que o desacordo, quando aparecer, seja lido pelo que é, e não como exagero de quem escreveu.

03

O que muda decisão

Quando se investiga, e por que essa pergunta vem antes de todas

Hipertensão secundária é a hipertensão com causa identificável e tratável, capaz de curar ou de melhorar o controle pressórico. Não se rastreia em todo hipertenso: rastreia-se diante de indício vindo da história, do exame físico ou dos exames de rotina. Essa frase é comum aos três documentos brasileiros. O que muda é a lista de indícios — e é dela que sai a questão de prova.

A diretriz de 2020 publicou a lista mais completa, o Quadro 15.1, com dez itens numerados: hipertensão estágio 3 antes dos 30 anos ou após os 55; resistente ou refratária; uso de hormônios, fármacos ou substâncias que elevam a pressão; a tríade do feocromocitoma; indícios de apneia obstrutiva do sono; fácies típica ou biótipo de doença que cursa com hipertensão; sopros arteriais ou massas abdominais; pulsos assimétricos ou ausentes nos membros inferiores; hipopotassemia espontânea ou grave induzida por diuréticos, com o corte de 3,0 mEq/L; e exame de urina ou de função renal alterado.

O protocolo do Ministério da Saúde de 2025 traz um quadro equivalente, o Quadro 2, com nove linhas, e no rodapé declara a origem: a diretriz de 2020. A comparação linha a linha mostra três edições que o quadro não sinaliza. A faixa etária virou antes dos 30 anos ou após os 50. O critério de gravidade deixou de ser hipertensão estágio 3 e passou a ser lesão em órgão-alvo, ligada à idade por conectivo aditivo — quem tem 58 anos e nenhuma lesão, pela leitura literal, não preenche o indício. E o corte de 3,0 mEq/L da hipopotassemia saiu, restando apenas as palavras espontânea ou grave.

A diretriz de 2025 tomou o caminho oposto: apagou a lista consolidada. Onde havia um capítulo inteiro sobre causas secundárias, hoje há um parágrafo e uma tabela de rastreamento por causa, o Quadro 4.5. A faixa etária dos 30 e dos 55 anos sobreviveu dentro de uma única linha, a da estenose de artéria renal, e não vale mais como gatilho geral.

Vinheta: mulher de 57 anos, pressão de 158 por 96 com três drogas em dose plena, potássio de 3,3 mEq/L, sem lesão de órgão-alvo documentada. Pelo protocolo do Ministério ela preenche resistência e hipopotassemia, mas não idade, porque falta a lesão de órgão-alvo. Pela diretriz de 2020 preenche resistência, mas não idade — não tem estágio 3 — nem hipopotassemia, porque o potássio não está abaixo de 3,0. Pela diretriz de 2025 preenche a resistência, que é o gatilho que sobrou. O erro que o aluno marca é justificar a investigação pela idade acima de 55 anos: esse número, hoje, mora na linha da estenose de artéria renal.

O limiar da resistência decide quem entra na fila

Se o gatilho que sobrou é a hipertensão resistente, então a definição de resistente é a porta de entrada de toda a investigação endócrina. E é aqui que os dois documentos brasileiros de 2025 se separam com mais consequência prática.

A diretriz de 2025 define resistente como a pressão de consultório que permanece acima da meta proposta para aquele paciente, com três ou mais classes de ações sinérgicas em doses máximas preconizadas ou toleradas — de preferência um tiazídico ou similar, um inibidor do sistema renina-angiotensina e um bloqueador de canal de cálcio de ação prolongada — por pelo menos 30 a 60 dias, afastada a pseudorresistência. Também é resistente quem atingiu o controle com quatro ou mais drogas. Como a mesma diretriz cravou meta única de 130 por 80, o limiar da resistência acompanha a meta.

O protocolo do Ministério ancora em número fixo: resistente é a pressão que permanece igual ou acima de 140 por 90 apesar de três ou mais classes em doses máximas; resistente controlada é a pressão abaixo de 140 por 90 que exigiu quatro ou mais medicamentos; refratária é a pressão igual ou acima de 140 por 90 com cinco ou mais.

A faixa entre os dois limiares não é estreita. Um paciente em 136 por 86 com três drogas otimizadas é resistente pela sociedade médica e não é pelo protocolo do Ministério — e, como a resistência é o indício mais citado para investigar causa secundária, é o mesmo paciente que ganha ou perde a dosagem de aldosterona e renina conforme o documento adotado. O erro que o aluno marca, num enunciado que diz apenas pressão não controlada com três drogas, é responder pelo número decorado sem reparar em qual documento o enunciado cita.

Guarde a epidemiologia que a diretriz de 2025 publica: a prevalência de resistente varia de 6 a 18 por cento, o estudo brasileiro ReHOT encontrou 11,7 por cento, e entre os resistentes de 3,6 a 17,6 por cento são refratários. Antes de rotular, é obrigatório excluir pseudorresistência — técnica de medida, avental branco, inércia terapêutica e falta de adesão — e confirmar com monitorização ambulatorial, ou residencial quando aquela não estiver disponível.

Hiperaldosteronismo primário: a linha que perdeu o número

O hiperaldosteronismo primário é a causa endócrina mais comum de hipertensão secundária. A suspeita nasce da combinação de hipertensão resistente ou refratária com hipopotassemia, com nódulo adrenal, ou com nenhum dos dois — a diretriz é explícita ao escrever, na própria linha da tabela, que a hipopotassemia não é obrigatória. Declarar a polaridade do critério dessa forma é acerto do documento: a maioria dos pacientes com aldosteronismo primário tem potássio normal, e a versão decorada que exige hipopotassemia perde justamente esses.

A triagem é a dosagem simultânea de aldosterona e da atividade ou concentração de renina plasmática, com o cálculo da relação entre as duas. Até aqui os documentos concordam. O problema é o número.

No Quadro 15.2 da diretriz de 2020, a linha do hiperaldosteronismo primário traz, na coluna de rastreamento, o texto completo: determinações de aldosterona acima de 15 nanogramas por decilitro e atividade ou concentração de renina plasmática, com cálculo da relação aldosterona sobre renina maior que 30. Logo abaixo, remete aos testes confirmatórios do Quadro 15.7.

No Quadro 4.5 da diretriz de 2025, a mesma linha aparece assim: determinações de aldosterona e atividade ou concentração de renina plasmática e testes confirmatórios, seguida dos nomes dos quatro testes entre parênteses. A tabela ganhou a lista dos confirmatórios, que antes era uma remissão, e perdeu os dois cortes numéricos. A linha que manda rastrear deixou de dizer o que é um rastreamento positivo — e a relação aldosterona sobre renina é exatamente o que as mensagens principais do capítulo de 2020 chamam de melhor teste inicial para indicar avaliação adicional.

Vinheta: homem de 39 anos, hipertenso, pressão de 162 por 100 com anlodipino, losartana e hidroclorotiazida, potássio de 3,4 mEq/L. Colhe aldosterona de 21 nanogramas por decilitro e atividade de renina plasmática de 0,4 nanograma por mililitro por hora. A relação é 52,5, e a aldosterona está acima de 15 — o rastreamento é positivo pelos dois cortes e o paciente segue para teste confirmatório. O erro que o aluno marca é dizer que a aldosterona elevada isolada já fecha o diagnóstico: sem a renina não se separa o aldosteronismo primário do secundário, em que a renina está alta.

Confirmar, e só depois olhar a imagem

Rastreamento positivo não é diagnóstico. Os quatro testes confirmatórios que a diretriz de 2025 apenas nomeia estão detalhados no Quadro 15.7 da de 2020, e é dali que saem os números que a prova cobra.

O teste da infusão salina usa dois litros de soro fisiológico a 0,9 por cento em quatro horas, com início entre 8 e 9h30; na posição sentada, que tem maior sensibilidade, o corte de melhor desempenho é aldosterona acima de 6,0 nanogramas por decilitro, e deitado, 6,8. É contraindicado na hipertensão grave, na insuficiência cardíaca descompensada, na insuficiência renal e na hipocalemia grave. O teste do captopril usa 50 miligramas por via oral com o paciente sentado por duas horas e é positivo com aldosterona acima da faixa de 8,5 a 13,9 nanogramas por decilitro, ou supressão maior que 30 por cento; é seguro e indicado na insuficiência renal, mas tem baixa reprodutibilidade. O da fludrocortisona usa 0,1 miligrama de seis em seis horas por quatro dias, com dosagem às 10 horas do quinto dia, e é positivo com aldosterona acima de 6 nanogramas por decilitro e renina suprimida — padrão-ouro cuja limitação o próprio quadro registra: exige internação e é pouco viável na prática.

Confirmado o excesso de aldosterona, vem a subtipagem, e ela decide cirurgia. A tomografia com cortes finos é o exame de imagem de melhor acurácia, e a ressonância não acrescenta. Mas imagem mostra estrutura, não função: o cateterismo de veias adrenais, com coleta simultânea de aldosterona e cortisol nos dois lados, é o exame de maior acurácia para diferenciar os subtipos. A diretriz de 2020 dá as indicações com número: adrenais normais ou com alterações bilaterais na tomografia; e nódulos pequenos, abaixo de 1,5 centímetro, em quem teve o diagnóstico de hipertensão depois dos 40 anos, pela possibilidade de o nódulo ser achado sem função.

A aritmética dos subtipos merece atenção porque ela não fecha nas duas pontas. O texto diz que a hiperplasia adrenal cortical bilateral é a causa mais frequente, com 50 a 60 por cento, e que os adenomas produtores de aldosterona respondem por 40 por cento. Na ponta de baixo, 50 mais 40 dá 90, e sobram dez pontos percentuais para o carcinoma adrenocortical produtor de aldosterona e para a hiperplasia unilateral, que a frase seguinte declara existirem como causas mais raras. Na ponta de cima, 60 mais 40 dá 100, e não sobra nada para elas. Das duas extremidades da faixa publicada, só uma é compatível com a frase que vem logo depois.

Tratar: unilateral opera, bilateral medica, e o alvo não é só a pressão

Doença unilateral lateralizada tem tratamento cirúrgico: adrenalectomia unilateral, de preferência laparoscópica, salvo contraindicação. Doença bilateral tem tratamento medicamentoso com antagonista mineralocorticoide.

A diretriz de 2020 dá para essa indicação a faixa de espironolactona de 50 a 400 miligramas por dia. O mesmo documento, no quadro de medicamentos anti-hipertensivos, imprime 25 a 100 miligramas por dia em uma a duas tomadas. Duas faixas do mesmo fármaco no mesmo documento, e a de cima é quatro vezes o teto da de baixo.

A diretriz de 2025 repete o quadro com 25 a 100 miligramas por dia e, no capítulo da hipertensão resistente, prescreve a espironolactona como quarta droga na faixa de 25 a 50 miligramas por dia, com redução para 12,5 se aparecer ginecomastia — o efeito adverso mais comum — ou troca pela eplerenona, sem efeito hormonal e de menor potência. Recomenda cautela com filtração glomerular estimada abaixo de 30 mililitros por minuto por 1,73 metro quadrado e potássio acima de 5,5 mEq/L, com monitorização em intervalos de pelo menos três a seis meses.

O protocolo do Ministério publica sua própria tabela de posologia, declarando adaptá-la da diretriz de 2020: dose habitual de 25 a 100 miligramas por dia e dose máxima de 200 miligramas por dia, em uma a duas administrações. O teto de 200 não é nenhum dos dois números da fonte declarada — fica ao dobro do quadro de medicamentos e à metade da faixa do capítulo de aldosteronismo. Na mesma seção o protocolo lista as apresentações disponíveis: comprimidos de 25 e de 100 miligramas.

Vinheta: paciente com aldosteronismo por hiperplasia bilateral, pressão acima da meta com 100 miligramas de espironolactona por dia, potássio de 4,1 mEq/L e função renal normal. Subir a dose é correto pelo capítulo de aldosteronismo de 2020 e até 200 miligramas pelo protocolo do Ministério, e ultrapassa o teto dos dois quadros de medicamentos. O erro que o aluno marca é tratar 100 miligramas como teto absoluto e trocar de classe: esse teto é do quadro de anti-hipertensivos, escrito para a hipertensão essencial, não para o excesso de mineralocorticoide.

Quatro barras horizontais sobre um eixo de espironolactona em miligramas por dia, de 0 a 400. O capítulo do aldosteronismo de 2020 vai de 50 a 400; o quadro de anti-hipertensivos de 2020 e 2025, de 25 a 100; o capítulo da hipertensão resistente de 2025, de 25 a 50, com marca em 12,5; e o protocolo do Ministério, de 25 a 100 como dose habitual e até 200 como máxima. Linhas verticais destacam os 100 e os 200 miligramas.
O mesmo comprimido tem quatro faixas de dose em documentos brasileiros vigentes: em 100 mg por dia o quadro de anti-hipertensivos já é teto, e o capítulo do aldosteronismo ainda autoriza subir até 400.

Um ponto costuma escapar, e é o que o documento faz de melhor aqui: a diretriz de 2020 escreve que o alvo principal do tratamento medicamentoso é o desbloqueio da renina, além do controle pressórico e da correção da hipocalemia, para reduzir a incidência cumulativa de eventos cardiovasculares. Renina que continua suprimida sob espironolactona significa bloqueio insuficiente, mesmo com a pressão na meta.

Cushing: a legenda que trocou de lugar entre o parágrafo e a tabela

A síndrome de Cushing iatrogênica, por corticoide exógeno, é relativamente comum; a endógena é rara. Entre as endógenas, a doença de Cushing, adenoma hipofisário produtor de corticotropina, responde por 85 por cento dos casos, e os 15 por cento restantes vêm de tumor ou hiperplasia adrenal, independentes de corticotropina. A hipertensão ocorre em 75 a 80 por cento dos pacientes, por três mecanismos somados: o cortisol potencializa a ação vasopressora das catecolaminas, age nos receptores mineralocorticoides e ativa o sistema renina-angiotensina por aumentar a produção hepática de angiotensinogênio.

Refazendo a conta pelos numeradores: de cada cem pacientes com Cushing endógeno, cerca de 66 têm origem hipofisária e hipertensão, e cerca de 12 têm origem adrenal e hipertensão. A hipófise é a aposta por frequência — mas o exame que separa as duas não é a imagem, e sim a dosagem de corticotropina.

O diagnóstico laboratorial tem duas etapas que não se invertem. Primeiro documenta-se o hipercortisolismo; só depois se busca a origem. E é na descrição da primeira etapa que os dois formatos do mesmo documento discordam.

O parágrafo da diretriz de 2020, no item dedicado à síndrome de Cushing, escreve que o diagnóstico laboratorial do hipercortisolismo é feito pela dosagem de cortisol basal, entre parênteses, útil para excluir uso exógeno de dexametasona ou betametasona, mais cortisol salivar à meia-noite e cortisol em urina de 24 horas, além do teste de depressão com dexametasona 1 miligrama às 23 horas, dosando o cortisol sérico entre 7 e 8 horas da manhã seguinte. No parágrafo, o cortisol basal não é teste de triagem: é a dosagem que flagra corticoide de fora. E a dexametasona é o único fármaco do teste de supressão.

A tabela do mesmo documento, o Quadro 15.2, comprimiu esse parágrafo numa célula, e as palavras trocaram de dono. A célula lista, na coluna de rastreamento, cortisol basal, cortisol salivar à meia-noite, cortisol urinário livre de 24 horas e teste de supressão com dexametasona ou betametasona, seguido de tomar dexametasona 1 miligrama às 23 a 24 horas e dosar cortisol matinal entre 7 e 8 horas. O cortisol basal aparece sem a ressalva, em série com os testes que de fato triam. E as duas palavras que no parágrafo qualificavam o cortisol basal, ou betametasona, migraram para o nome do teste de supressão — que passa a admitir um fármaco para o qual a célula não dá dose nenhuma, porque dose para ele nunca houve.

Essa célula atravessou intacta para o Quadro 4.5 da diretriz de 2025, e o parágrafo que a corrigia não atravessou: no documento de 2025 a palavra cortisol aparece uma única vez fora dessa célula, num trecho sobre distúrbios do sono. Quem estudar Cushing pela diretriz vigente lê a versão que já vinha trocada, sem a frase que a desfazia.

A consequência é verificável no acervo. Três questões vivas usam justamente o cortisol sérico isolado como alternativa incorreta — randômico ao meio-dia, em coleta única às 16 horas, matinal isolado às 8 horas. Nas três, a resposta certa é um dos testes de triagem validados. Quem responder pela tabela da diretriz, que abre a lista com cortisol basal, marca errado nas três.

Triar, confirmar a origem e não pedir imagem cedo demais

A triagem do hipercortisolismo endógeno se faz com um dos três testes de primeira linha, preferencialmente com dois resultados concordantes: cortisol salivar noturno, cortisol livre urinário de 24 horas e supressão noturna com 1 miligrama de dexametasona. O cortisol sérico colhido em horário qualquer não serve, porque o hormônio tem ritmo circadiano e o valor isolado não distingue pico fisiológico de excesso.

Os discriminadores de maior especificidade são estrias purpúreas largas, fraqueza muscular proximal e equimoses fáceis, ao lado de pletora facial, obesidade central com extremidades afiladas, fácies em lua cheia, giba dorsal, hirsutismo, amenorreia, queda de libido e hipopotassemia. Obesidade comum não produz o conjunto: produz o peso, não a fraqueza proximal nem a estria larga e violácea.

Confirmado o excesso de cortisol, a corticotropina plasmática separa os dois mundos. Suprimida ou indetectável, a origem é adrenal — adenoma ou carcinoma — e o exame de localização é a tomografia de adrenais. Normal ou elevada, a origem é dependente de corticotropina, e aí se disputa hipófise contra secreção ectópica. A ressonância de sela e o cateterismo de seios petrosos inferiores pertencem a esse segundo ramo, e só a ele.

O perfil da secreção ectópica tem assinatura própria: instalação em semanas em vez de meses, perda de peso em vez de ganho, hipopotassemia acentuada com alcalose metabólica, hiperpigmentação de mucosas e cicatrizes pelo excesso extremo de corticotropina, e um tumor plausível — classicamente o carcinoma pulmonar de pequenas células, em tabagista. A doença de Cushing hipofisária é mais insidiosa e tem distúrbio eletrolítico menos marcado.

A ordem importa porque imagem pedida cedo produz achado que não explica nada. A diretriz de 2020 é explícita: os exames de imagem só devem ser realizados após o diagnóstico clínico e laboratorial de hipercortisolismo. Vinheta: mulher de 45 anos com fenótipo cushingoide e hipertensão de difícil controle; a ressonância de sela vem com microadenoma de 4 milímetros. O erro que o aluno marca é operar a hipófise: sem hipercortisolismo documentado e sem corticotropina dosada, aquele microadenoma é achado de imagem numa população em que ele é comum.

Feocromocitoma no diferencial, com os dois sentidos do erro

O feocromocitoma entra neste capítulo como diferencial, e a diretriz de 2020 faz aqui o que raramente se vê numa tabela de rastreamento: dá os dois sentidos do erro do teste, com números.

A tríade clássica é cefaleia, sudorese profusa e palpitações, com hipertensão resistente ou paroxística. A concomitância da tríade com crise hipertensiva tem sensibilidade de 89 por cento e especificidade de 67 por cento: o quadro clínico erra por excesso em um terço dos que não têm o tumor, e deixa passar cerca de um em dez dos que têm.

As metanefrinas plasmáticas livres, metanefrina e normetanefrina, têm sensibilidade de 97 por cento e especificidade de 93 por cento. E o documento nomeia os falso-positivos com faixa de magnitude: estresse agudo — doença aguda, sepse, infarto, insuficiência cardíaca descompensada — e antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos e levodopa elevam catecolaminas, em geral abaixo de duas vezes o limite superior da normalidade, e devem ser suspensos duas semanas antes da coleta. Acima de duas vezes o limite, a probabilidade diagnóstica é alta.

O preparo pré-operatório é o ponto de segurança da questão: bloqueio alfa-adrenérgico primeiro, com hidratação e aumento da ingesta de sódio por pelo menos duas semanas, e betabloqueador só depois, se houver taquicardia sintomática. O erro que o aluno marca é iniciar betabloqueador isolado, que retira a vasodilatação beta e deixa a vasoconstrição alfa sem oposição.

Prevalência ajuda a selecionar quem rastrear

Os dois documentos da mesma sociedade abrem a seção de hipertensão secundária com a mesma frase e números diferentes. Em 2020: a real prevalência é desconhecida, mas se estima entre 10 e 20 por cento, podendo ser maior ou menor conforme a população avaliada, especialmente a idade, os recursos diagnósticos disponíveis e a experiência do médico responsável. Em 2025: a real prevalência é desconhecida, mas é estimada entre 5 e 10 por cento. A faixa caiu pela metade e a oração que nomeava o que a faz variar saiu junto. Dois parágrafos adiante, o texto de 2025 remete quem quiser aprofundamento ao documento de 2020 — que carrega a outra faixa.

Dá para testar qual leitura sobrevive à plausibilidade recalculando pelos numeradores. A diretriz de 2020 registra que o aldosteronismo primário pode estar presente em 22 por cento dos pacientes com hipertensão resistente. A de 2025 dá a prevalência de resistente: 11,7 por cento no ReHOT, dentro de uma faixa de 6 a 18 por cento. Multiplicando, o aldosteronismo alcançado pela via da resistência responde por cerca de 2,6 por cento de todos os hipertensos, entre 1,3 e 4,0 por cento nas pontas da faixa. Esse número cabe confortavelmente dentro de 5 a 10 por cento.

A mesma página de 2020 traz outro número, atribuído a Gordon: a incidência de aldosteronismo primário na população de hipertensos primários estaria entre 5 e 15 por cento, provavelmente cerca de 12. Se 12 por cento de todos os hipertensos tivessem aldosteronismo primário, a hipertensão secundária como um todo não poderia ser 5 a 10 por cento: uma causa isolada excederia a categoria inteira. E o próprio denominador, hipertensos primários, é incompatível com o numerador — quem tem aldosteronismo primário, por definição, não é hipertenso primário.

A leitura que sobrevive é a de que o número alto vem de série selecionada, de serviço que rastreia, e não da população geral de hipertensos; e a de que a faixa de 2 a 4 por cento é o que a epidemiologia brasileira sustenta pela via da resistência. Nenhum dos dois documentos escreve qual denominador está usando, e é essa omissão, não a divergência, que produz a confusão.

Convergências entre diretrizes: o que realmente muda a conduta

Um capítulo que só cataloga discordância deforma o objeto. Boa parte desta matéria é estável entre as três fontes, e é justamente por isso que os pontos anteriores merecem atenção.

A linha do feocromocitoma é idêntica em 2020 e 2025 e coerente com a anamnese dirigida do protocolo do Ministério: mesma tríade, mesmo rastreamento por metanefrinas. A linha da coarctação de aorta é idêntica, com os mesmos 10 milímetros de mercúrio de diferença sistólica entre membros superiores e inferiores. Os cortes do índice de apneia e hipopneia são os mesmos, incluindo o de 30 eventos por hora para forma grave. A assimetria renal de mais de 1,5 centímetro e a arteriografia convencional como padrão-ouro também atravessaram sem alteração. Duas regras que concordam não são vão, e não devem ser lidas como se fossem.

A diretriz de 2025 também acerta ao publicar o ensaio negativo que contraria a prática difundida. Sobre a denervação simpática renal, registra que o Simplicity HTN-3, com 535 participantes e 171 no grupo sham, não encontrou redução da pressão de 24 horas contra o controle — menos 2,0 milímetros de mercúrio, intervalo de confiança de 95 por cento de menos 5,0 a 1,1, p de 0,98 — e imprime esse resultado ao lado do Radiance-HTN Trio, que encontrou menos 6,3, com intervalo de menos 9,3 a menos 3,2 e p abaixo de 0,0001. Chama os resultados de bastante controversos e atribui a divergência à falta de protocolos homogêneos.

Recusa extrapolação, também. Ao sugerir o escore PREVENT para estimar risco cardiovascular, ressalta que faltam dados populacionais brasileiros nesses modelos e escreve que o risco aferido por escores internacionais pode estar subestimado por deixar de fora os fatores mais prevalentes aqui.

E desconfia da própria medida. Ao recomendar a espironolactona de 25 a 50 miligramas por dia como quarta droga, a diretriz publica, na página seguinte, um ensaio clínico randomizado em que a amilorida até 10 miligramas por dia foi não inferior à espironolactona até 25 miligramas por dia na redução da pressão sistólica domiciliar em hipertensos resistentes já em terapia tripla padrão, com taxas de controle semelhantes. A dose menor, no piso da faixa que ela mesma recomenda, empatou com a alternativa mais barata — e o documento imprime isso.

O que ela faz em seguida, porém, é o achado. Ao oferecer a amilorida como alternativa para quem não tolera antagonista mineralocorticoide, o texto prescreve 10 a 20 miligramas por dia. Uma página adiante, o mesmo capítulo escreve que em nosso meio existe apenas a amilorida nas doses de 2,5 e 5 miligramas, em associação com hidroclorotiazida ou clortalidona — e o quadro de medicamentos do próprio documento imprime, para ela, 2,5 a 5 miligramas em uma tomada. A dose recomendada é o dobro do máximo disponível na melhor das hipóteses e quatro vezes na pior, e alcançá-la exigiria multiplicar o tiazídico que vem no mesmo comprimido e que o paciente já toma separadamente. A autorização e o impedimento estão a duas páginas um do outro.

04

As réguas, lado a lado

Cinco tabelas para separar o que cada documento brasileiro imprime: os gatilhos de investigação, a linha do hiperaldosteronismo antes e depois, a célula do Cushing contra o parágrafo do mesmo documento, os testes confirmatórios com seus cortes, e as doses publicadas de espironolactona e amilorida.

  1. 1Hipertensão com indício — resistente ou refratária, hipopotassemia, nódulo adrenal, fácies típica, sopro ou massa abdominal, pulsos assimétricos, urina ou função renal alterada, uso de substância que eleva a pressão: investigar causa secundária. Sem indício, não rastrear.
  2. 2Antes de rotular como resistente, excluir pseudorresistência: técnica de medida, avental branco, inércia terapêutica e falta de adesão. Confirmar com monitorização ambulatorial, ou residencial se a ambulatorial não estiver disponível.
  3. 3Suspeita de hiperaldosteronismo primário: dosar aldosterona e atividade ou concentração de renina plasmática e calcular a relação. Positivo pela diretriz de 2020 com aldosterona acima de 15 nanogramas por decilitro e relação maior que 30.
  4. 4Rastreamento positivo: teste confirmatório — infusão salina, captopril, fludrocortisona ou furosemida intravenosa. Só então tomografia de adrenais com cortes finos.
  5. 5Tomografia normal, bilateral, ou nódulo abaixo de 1,5 centímetro com diagnóstico de hipertensão depois dos 40 anos: cateterismo de veias adrenais para lateralizar, se o paciente for candidato a cirurgia.
  6. 6Lateralizado: adrenalectomia unilateral laparoscópica. Bilateral ou sem condição cirúrgica: antagonista mineralocorticoide, com alvo de desbloqueio da renina além do controle da pressão e da correção do potássio.
  7. 7Suspeita de síndrome de Cushing: primeiro afastar corticoide exógeno pela anamnese medicamentosa. Depois triar com cortisol salivar noturno, cortisol livre urinário de 24 horas ou supressão com 1 miligrama de dexametasona às 23 horas, dosando cortisol entre 7 e 8 horas.
  8. 8Hipercortisolismo confirmado, de preferência por dois testes concordantes: dosar corticotropina plasmática. Suprimida, origem adrenal e tomografia de adrenais. Normal ou elevada, origem dependente de corticotropina e ressonância de sela, com cateterismo de seios petrosos quando preciso.
  9. 9Imagem só depois do diagnóstico clínico e laboratorial de hipercortisolismo, para não decidir por incidentaloma.
  10. 10Paroxismo de cefaleia, sudorese e palpitações: metanefrinas plasmáticas livres ou fracionadas urinárias. Confirmado, bloqueio alfa antes do bloqueio beta, com hidratação e sódio por pelo menos duas semanas.

Os gatilhos de investigação, documento por documento

IndícioDiretriz Brasileira 2020, Quadro 15.1Protocolo do Ministério 2025, Quadro 2Diretriz Brasileira 2025
IdadeEstágio 3 antes dos 30 ou após os 55 anosLesão de órgão-alvo mais diagnóstico antes dos 30 ou após os 50 anosSó dentro da linha da estenose de artéria renal, antes dos 30 ou após os 55
Resistente ou refratáriaItem 2 da listaAncorada em 140 por 90 mmHgAncorada na meta individual, de 130 por 80 mmHg
HipopotassemiaEspontânea ou grave por diurético, abaixo de 3,0 mEq/LEspontânea ou grave por diurético, sem corte numéricoAparece como achado clínico nas linhas do aldosteronismo e do Cushing
Substâncias que elevam a pressãoItem 3, com remissão ao Quadro 15.7Hormônios exógenos, medicamentos e outras substânciasCitado no parágrafo, com remissão ao capítulo 2
Lista consolidada de indíciosSim, dez itens numeradosSim, nove linhas, com fonte declarada na diretriz de 2020Não há lista consolidada; há a tabela de rastreamento por causa

A linha do hiperaldosteronismo primário, 2020 e 2025

ElementoQuadro 15.2 de 2020Quadro 4.5 de 2025
Achado clínico que disparaResistente ou refratária, com ou sem hipopotassemia, com ou sem nódulo adrenalIdêntico, com a mesma ressalva de hipopotassemia não obrigatória
Corte de aldosteronaAcima de 15 nanogramas por decilitroNão consta
Corte da relação aldosterona sobre reninaMaior que 30Não consta
Testes confirmatóriosRemissão ao Quadro 15.7Nomeados na célula: infusão salina, captopril, fludrocortisona, furosemida intravenosa
ImagemTomografia com cortes finos ou ressonânciaIdêntico
Cateterismo de veias adrenaisColeta seletiva de aldosterona e cortisol, para subtipo, quando indicadoIdêntico

Cushing: o parágrafo contra a célula, no mesmo documento de 2020

ElementoItem 15.4.6, parágrafoQuadro 15.2, célula
Cortisol basalÚtil para excluir uso exógeno de dexametasona ou betametasonaPrimeiro item da lista de rastreamento, sem ressalva
Fármaco do teste de supressãoDexametasona 1 miligramaDexametasona ou betametasona
Dose da betametasonaNão se aplica: não é fármaco do testeNão informada
Horário de tomar a dexametasona23 horas23 a 24 horas
Dosagem do cortisol na manhã seguinteEntre 7 e 8 horasEntre 7 e 8 horas
O que atravessou para a diretriz de 2025O parágrafo não atravessouA célula atravessou sem alteração para o Quadro 4.5

Testes confirmatórios do hiperaldosteronismo primário, Quadro 15.7 de 2020

TesteProcedimentoResultado positivoLimitação declarada
Infusão salinaDois litros de soro fisiológico a 0,9 por cento em 4 horas, início entre 8h e 9h30Sentado, aldosterona acima de 6,0 nanogramas por decilitro; deitado, acima de 6,8Crise hipertensiva, hipervolemia e hipocalemia; contraindicado em hipertensão grave, insuficiência cardíaca descompensada, insuficiência renal e hipocalemia grave
Captopril50 miligramas por via oral, sentado por 2 horas, dosagens em 0, 1 e 2 horasAldosterona acima de 8,5 a 13,9 nanogramas por decilitro, ou supressão maior que 30 por centoHipotensão; baixa reprodutibilidade; indicado na insuficiência renal
Fludrocortisona0,1 miligrama de 6 em 6 horas por 4 dias, dosar às 10 horas do quinto diaAldosterona acima de 6 nanogramas por decilitro com renina suprimidaPadrão-ouro, mas exige internação e é pouco viável na prática
Furosemida intravenosaNomeado entre os quatro confirmatórios na diretriz de 2025Corte não impresso na tabela de 2025A tabela de 2025 nomeia o teste sem trazer procedimento nem corte

Espironolactona e amilorida: as doses publicadas

Documento e localFármacoDose impressa
Diretriz 2020, quadro de anti-hipertensivosEspironolactona25 a 100 miligramas por dia, 1 a 2 tomadas
Diretriz 2020, item 15.4.1, aldosteronismo por hiperplasiaEspironolactona50 a 400 miligramas por dia
Diretriz 2025, quadro de anti-hipertensivosEspironolactona25 a 100 miligramas por dia, 1 a 2 tomadas
Diretriz 2025, item 12.6.2, quarta droga na resistenteEspironolactona25 a 50 miligramas por dia; 12,5 se houver ginecomastia
Protocolo do Ministério 2025, tabela de posologiaEspironolactona25 a 100 habituais, máxima de 200 miligramas por dia; comprimidos de 25 e 100 mg
Diretriz 2025, quadro de anti-hipertensivosAmilorida2,5 a 5 miligramas por dia, 1 tomada, em associação com tiazídico
Diretriz 2025, item 12.6.2, alternativa ao antagonista mineralocorticoideAmilorida10 a 20 miligramas por dia

A relação aldosterona sobre renina maior que 30, com aldosterona acima de 15 nanogramas por decilitro, é o par de números que a diretriz de 2020 imprime e a de 2025 deixou de imprimir. Enunciado que peça o rastreamento inicial do hiperaldosteronismo espera a relação; enunciado que peça o corte espera esses números.

Cortisol sérico isolado, em qualquer horário, não é teste de triagem de hipercortisolismo, apesar de o cortisol basal abrir a lista da célula da tabela. No parágrafo que gerou a célula, ele serve para flagrar corticoide exógeno.

A corticotropina não diagnostica síndrome de Cushing: ela define a origem depois do diagnóstico. Alternativa que ofereça a corticotropina como rastreamento inverte as duas etapas.

O teste de supressão com dose alta, de 8 miligramas de dexametasona, separa doença hipofisária de secreção ectópica dentro do ramo dependente de corticotropina. Não é triagem.

Amilorida existe no Brasil apenas em 2,5 e 5 miligramas e em associação fixa com tiazídico. A faixa de 10 a 20 miligramas por dia do texto da diretriz de 2025 não corresponde a nenhuma apresentação isolada disponível.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A partir de que idade a hipertensão de início tardio levanta suspeita

Após os 50 anos, e junto com lesão de órgão-alvo

O Quadro 2 do protocolo do Ministério da Saúde define o indício de início precoce e tardio como presença de lesões em órgãos-alvo e diagnóstico antes dos 30 anos ou após os 50 anos de idade. A conjunção é aditiva: a idade sozinha não preenche o indício.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, 2025, Quadro 2, p. 9. Arquivo criado em 24 de julho de 2025.

Após os 55 anos, e apenas para estenose de artéria renal

O Quadro 4.5 da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 mantém a faixa de antes dos 30 ou após os 55 anos, mas dentro da linha da estenose de artéria renal, ao lado de sopro abdominal, edema agudo de pulmão súbito e assimetria renal maior que 1,5 centímetro. Não há lista geral de gatilhos por idade.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624, Quadro 4.5, p. 46. Arquivo criado em 30 de setembro de 2025.

Após os 55 anos, com hipertensão estágio 3, como gatilho geral

O Quadro 15.1 da diretriz de 2020, que o protocolo do Ministério declara como fonte, escreve o primeiro indício como hipertensão estágio 3 antes dos 30 anos ou após os 55 anos, valendo para qualquer causa secundária.

Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658, Quadro 15.1, p. 612 do artigo.

Na prova

O avaliador só pode cobrar um número se disser de onde ele vem. Enunciado que cite o protocolo do Ministério ou o Sistema Único de Saúde tende a esperar 50 anos com lesão de órgão-alvo; enunciado que cite a sociedade médica tende a esperar 55. Enunciado sem citação raramente cobra a idade isolada — cobra a resistência ou a hipopotassemia, que são os indícios estáveis.

Qual pressão define hipertensão resistente, e portanto quem é investigado

Acima da meta individual, que é 130 por 80

A diretriz de 2025 define resistente como pressão de consultório acima da meta proposta para aquele paciente, com três ou mais classes sinérgicas em doses máximas preconizadas ou toleradas por pelo menos 30 a 60 dias, afastada a pseudorresistência; e também quem atingiu o controle com quatro ou mais drogas. A mesma diretriz cravou meta única de 130 por 80.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624, capítulo 12, item 12.1, p. 105.

Igual ou acima de 140 por 90

O Quadro 2 do protocolo do Ministério define resistente como pressão que permanece igual ou acima de 140 por 90 apesar de três ou mais classes em doses máximas; resistente controlada como pressão abaixo de 140 por 90 que exigiu quatro ou mais medicamentos; e refratária como pressão igual ou acima de 140 por 90 com cinco ou mais.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, 2025, Quadro 2, p. 9.

Na prova

Repare no que o enunciado informa: se ele traz a pressão entre 130 por 80 e 140 por 90 com três drogas otimizadas, o caso foi montado para separar as duas réguas, e a palavra resistente no comando provavelmente vem acompanhada da fonte. Se traz pressão claramente acima de 140 por 90, as duas réguas coincidem e a pergunta é outra.

Qual a prevalência de hipertensão arterial secundária

Entre 10 e 20 por cento

A diretriz de 2020 escreve que a real prevalência é desconhecida, mas se estima entre 10 e 20 por cento, podendo ser maior ou menor conforme a população avaliada, especialmente a idade, os recursos diagnósticos disponíveis e a experiência do médico responsável. É o documento ao qual a diretriz de 2025 remete quem quiser aprofundamento no tema.

Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658, item 15.1, p. 609 do artigo.

Entre 5 e 10 por cento

A diretriz de 2025 abre o item 4.6 com a mesma frase e a faixa de 5 a 10 por cento, sem a oração que nomeava o que faz o número variar. O protocolo do Ministério de 2025 traz a mesma faixa de 5 a 10 por cento.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624, item 4.6, p. 45; e Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, Ministério da Saúde, 2025, p. 9.

Na prova

Duas questões que respondam 10 a 20 e 5 a 10 podem estar as duas certas, cada uma pela fonte que cita — não há aqui erro a corrigir, e sim uma faixa que mudou entre 2021 e 2025 sem que o documento novo explicasse a mudança. Diante de enunciado sem fonte, o número mais seguro é o do documento mais recente, e o mais seguro de tudo é reparar que a questão provavelmente quer o gatilho de investigação, não a prevalência.

A partir de que idade a tomografia deixa de bastar e o cateterismo entra

Diagnóstico de hipertensão depois dos 40 anos, com nódulo abaixo de 1,5 cm

A diretriz de 2020 indica o cateterismo de veias adrenais em pacientes com adrenais normais ou com alterações bilaterais na tomografia, e também naqueles com nódulos adrenais pequenos, abaixo de 1,5 centímetro, com idade de diagnóstico da hipertensão superior a 40 anos, pela possibilidade de se tratar de adenoma sem função.

Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658, item 15.4.1, p. 609 do artigo.

Acima dos 35 anos, pela sociedade de endocrinologia norte-americana

A régua internacional mais citada em questões brasileiras usa o corte de 35 anos, sob o argumento de que acima dessa idade a tomografia não distingue de forma confiável um adenoma funcionante de um achado sem função coexistindo com hiperplasia bilateral.

Régua atribuída à Endocrine Society e reproduzida em questões do acervo; a diretriz brasileira de 2020 imprime 40 anos no item 15.4.1.

Na prova

Enunciado com paciente na faixa dos 36 aos 40 anos e nódulo pequeno está no ponto em que as duas réguas divergem — leia o comando procurando a fonte citada. Fora dessa faixa estreita, as duas coincidem, e a resposta é cateterizar antes de operar sempre que a tomografia não for inequívoca e o paciente for candidato à cirurgia.

06

Caso resolvido

Mulher de 41 anos, encaminhada da unidade básica por hipertensão de difícil controle. Está em uso de anlodipino 10 miligramas, losartana 100 miligramas e hidroclorotiazida 25 miligramas, todos há oito meses, com boa adesão confirmada pela retirada regular na farmácia. Pressão de consultório de 156 por 98, repetida em duas ocasiões com manguito adequado; monitorização residencial com média de 148 por 94. Refere cãibras e fraqueza para subir escadas. Não usa diurético adicional, laxante, anti-inflamatório nem descongestionante. Exames: sódio 143, potássio 3,0 mEq/L, bicarbonato 31, creatinina 0,9 miligrama por decilitro, sumário de urina normal. Sem estrias violáceas, sem fácies em lua cheia, sem giba.
Excluir pseudorresistência antes de rotular
A diretriz manda afastar quatro causas antes de chamar de resistente: falha na técnica de medida, efeito do avental branco, inércia terapêutica e falta de adesão. Aqui a técnica foi cuidada, a adesão está documentada, as doses estão plenas há mais de 30 a 60 dias e a monitorização fora do consultório confirma o descontrole. É resistente verdadeira pelas duas réguas: está acima de 130 por 80 e acima de 140 por 90.
Reconhecer os indícios de causa secundária
Dois indícios se somam: hipertensão resistente e hipopotassemia espontânea, sem diurético espoliador adicional além do tiazídico, com potássio de 3,0 mEq/L — que atinge o corte de 3,0 impresso no Quadro 15.1 de 2020 e satisfaz sem discussão o critério sem número dos documentos de 2025. A alcalose metabólica com bicarbonato de 31 completa a assinatura do excesso de mineralocorticoide.
Escolher o rastreamento certo
Dosar aldosterona e atividade ou concentração de renina plasmática e calcular a relação. Suponha aldosterona de 24 nanogramas por decilitro e atividade de renina de 0,3 nanograma por mililitro por hora: a relação é 80, e a aldosterona está acima de 15. Positivo pelos dois cortes que a diretriz de 2020 imprime e que a de 2025 deixou de imprimir. Antes da coleta, corrigir o potássio, porque hipocalemia acentuada inibe a secreção de aldosterona e pode produzir resultado falsamente baixo.
Confirmar antes de olhar a adrenal
Rastreamento positivo pede teste confirmatório. Com hipopotassemia presente e pressão alta, o teste da infusão salina é o menos confortável — a própria tabela o contraindica em hipertensão grave e hipocalemia grave. O teste do captopril é seguro e ambulatorial, com a ressalva de baixa reprodutibilidade; o da fludrocortisona é padrão-ouro, mas exige internação. Corrigido o potássio e com a pressão em nível tolerável, qualquer um serve.
Subtipar com o exame que mede função, não estrutura
Confirmado o excesso, a tomografia com cortes finos entra para localizar. Se vier normal, bilateral, ou com nódulo abaixo de 1,5 centímetro — e esta paciente teve o diagnóstico de hipertensão depois dos 40 anos —, o cateterismo de veias adrenais define o lado. Imagem mostra onde há caroço; a coleta em cada veia mostra de onde vem o hormônio.
Decidir o tratamento pelo subtipo, e definir o alvo
Lateralizado, adrenalectomia unilateral laparoscópica, que é a via com maior chance de cura da hipertensão e correção do potássio. Bilateral, espironolactona. E o alvo do tratamento medicamentoso não é apenas a pressão na meta: a diretriz de 2020 escreve que o alvo principal é o desbloqueio da renina, além do controle pressórico e da correção da hipocalemia, com a finalidade de reduzir a incidência cumulativa de eventos cardiovasculares.
07

Agora feche você

Homem de 58 anos, tabagista de 45 maços-ano, chega ao pronto-socorro com seis semanas de fraqueza muscular intensa, edema de membros inferiores e perda de 7 quilos. Ao exame: pressão de 172 por 102, hiperpigmentação de mucosa oral e de cicatrizes antigas, sem estrias violáceas e sem obesidade central. Exames: glicemia de 268 miligramas por decilitro, potássio de 2,5 mEq/L, bicarbonato de 36, pH de 7,50. Nega uso de corticoide. A radiografia de tórax mostra alargamento hilar à direita. Complete o raciocínio: qual é a sequência diagnóstica, qual é a origem mais provável, e o que separa este quadro do fenótipo clássico.
Reconhecer que o fenótipo ausente não afasta
Complete: por que a inexistência de estrias violáceas e de obesidade central não afasta hipercortisolismo neste paciente, e o que na velocidade de instalação explica isso.
Escolher o teste que abre a investigação
Complete: qual dos três testes de triagem você pede, e por que o cortisol sérico colhido agora, na emergência, não responde à pergunta.
Ler o eletrólito como pista etiológica
Complete: por que potássio de 2,5 com alcalose metabólica marcada, num hipercortisolismo, empurra o diagnóstico para uma origem específica, e qual mecanismo produz essa intensidade.
Definir a origem
Complete: qual dosagem separa origem adrenal de origem dependente de corticotropina, e o que o resultado esperado neste caso indica.
Explicar a hiperpigmentação
Complete: por que a mucosa e as cicatrizes escurecem neste paciente e não escurecem no portador de adenoma adrenal produtor de cortisol.
Pedir a imagem certa, na ordem certa
Complete: qual imagem você solicita depois de definida a origem, e por que a ressonância de sela seria a escolha errada aqui.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar cortisol sérico isolado como triagem A célula da tabela abre a lista com cortisol basal, mas o parágrafo que a gerou reserva essa dosagem para flagrar corticoide exógeno. Triagem de hipercortisolismo é cortisol salivar noturno, cortisol livre urinário de 24 horas ou supressão com 1 miligrama de dexametasona.
  2. 2Aceitar betametasona como fármaco do teste de supressão As palavras ou betametasona pertencem, no parágrafo original, à ressalva do cortisol basal. Na tabela elas migraram para o nome do teste, que segue sem dose para esse fármaco. O teste de supressão noturno é com dexametasona 1 miligrama.
  3. 3Pedir corticotropina como rastreamento A corticotropina define a origem, não o diagnóstico. Dosá-la antes de documentar o hipercortisolismo devolve um número que não separa nada, porque não existe excesso confirmado a atribuir.
  4. 4Pedir imagem antes da confirmação bioquímica Ressonância de sela e tomografia de adrenais acham lesões pequenas em pessoas sem doença. A própria diretriz escreve que a imagem só deve ser realizada após o diagnóstico clínico e laboratorial de hipercortisolismo.
  5. 5Exigir hipopotassemia para suspeitar de hiperaldosteronismo A linha da tabela diz, com todas as letras, que a hipopotassemia não é obrigatória. Hipertensão resistente basta, com ou sem potássio baixo, com ou sem nódulo adrenal.
  6. 6Dosar aldosterona sem renina Aldosterona alta isolada não separa o aldosteronismo primário do secundário. Na estenose de artéria renal a aldosterona também sobe, mas a renina está alta; no primário, suprimida. O rastreamento é a relação entre as duas.
  7. 7Operar pela tomografia, sem lateralizar Nódulo visível não prova nódulo funcionante. Com adrenais normais, alterações bilaterais, ou nódulo pequeno em quem adoeceu depois dos 40 anos, o cateterismo de veias adrenais é o que define o lado — e operar sem ele arrisca ressecar um achado e manter a hipersecreção do outro lado.
  8. 8Usar o teto do quadro de anti-hipertensivos no aldosteronismo Os quadros de medicamentos das duas diretrizes imprimem 25 a 100 miligramas de espironolactona por dia, faixa escrita para a hipertensão essencial. O capítulo de aldosteronismo da diretriz de 2020 dá 50 a 400 miligramas por dia para a hiperplasia, e o protocolo do Ministério autoriza até 200.
  9. 9Prescrever amilorida em dose que não existe em comprimido O texto da diretriz de 2025 oferece 10 a 20 miligramas por dia como alternativa ao antagonista mineralocorticoide; uma página adiante o mesmo capítulo registra que aqui só existem 2,5 e 5 miligramas, sempre em associação fixa com tiazídico.
  10. 10Iniciar betabloqueador isolado no feocromocitoma Sem bloqueio alfa prévio, retirar a vasodilatação beta deixa a vasoconstrição alfa sem oposição e precipita crise hipertensiva. Alfa primeiro, com hidratação e sódio por pelo menos duas semanas; beta depois, se houver taquicardia sintomática.
  11. 11Justificar a investigação pela idade acima de 55 anos Esse número, na diretriz vigente, mora dentro da linha da estenose de artéria renal. Como gatilho geral ele existiu na diretriz de 2020, e o protocolo do Ministério, que declara copiá-la, imprime 50 e ainda exige lesão de órgão-alvo junto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Confirmada a hipercortisolismo por dois testes de rastreio positivos (cortisol salivar noturno, cortisol urinário 24h, não supressão à dexametasona), o próximo passo na investigação etiológica é dosar o ACTH plasmático, que separa causas ACTH-dependentes (doença de Cushing hipofisária, ACTH ectópico) das ACTH-independentes (adrenais). Ressonância de sela ou TC de adrenais são realizadas depois, guiadas pelo ACTH, para evitar interpretar incidentalomas. O teste de tolerância à insulina não diferencia etiologia. Aldosterona/renina investigam hiperaldosteronismo, não Cushing.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite sem consultar: os três testes de triagem do hipercortisolismo; o que o cortisol basal serve para excluir; o exame que separa origem adrenal de origem dependente de corticotropina; o par de cortes do rastreamento do hiperaldosteronismo na diretriz de 2020; a ordem alfa antes de beta no feocromocitoma.

em 30 dias

Explique por que a mesma célula de tabela sobre a síndrome de Cushing contradiz o parágrafo do documento que a publicou, e por que essa célula sobreviveu à diretriz seguinte enquanto o parágrafo não. Depois recalcule, a partir dos 22 por cento de aldosteronismo entre resistentes e dos 11,7 por cento de resistentes do ReHOT, quanto o aldosteronismo primário representa entre todos os hipertensos, e diga qual das duas faixas publicadas de prevalência de hipertensão secundária esse número sustenta. Feche resolvendo do zero um caso de hipertensão resistente com potássio de 3,1: escolha o exame de rastreamento, o confirmatório, o de subtipagem e o tratamento.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Ambulatório de clínica médica. Homem de 44 anos vem em retorno trazendo exames pedidos na consulta anterior por hipertensão que não controla com três remédios. O potássio veio 3,1 e a relação aldosterona sobre renina veio alta. Ele chega assustado porque leu na internet que aldosterona alta é tumor de glândula, e quer saber se vai precisar operar. Cabe a você explicar o que o exame mostrou e o que ele ainda não mostrou, por que existe um segundo exame antes de qualquer decisão sobre cirurgia, e o que muda na vida dele se o tratamento for com comprimido em vez de operação. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo primário — Preparatório para provas | OsceLabs