Clínica MédicaEndocrinologia

Secreção inapropriada de ADH: a urina que não dilui e o sintoma que decide

Hiponatremia com urina concentrada e volume normal: o que se exclui antes de nomear a síndrome e o que decide a conduta

Confirmar hiponatremia hipotônica euvolêmica, tratar pela gravidade dos sintomas e impedir correção excessiva.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Paciente com diabetes mellitus tipo 2 descompensado chega com sódio plasmático de 126 mEq/L, glicemia de 640 mg/dL e osmolalidade plasmática medida de 312 mOsm/kg. Está desidratado, com poliúria. Qual é a conduta correta em relação ao sódio?

02

Como esse tema cai

O recorte é o adulto com sódio plasmático baixo, plasma hipotônico, urina concentrada e volume clínico normal — e as decisões que essa combinação obriga: provar que a hipotonicidade é real, provar que o rim está concentrando quando deveria diluir, excluir as duas glândulas que imitam o quadro, achar a causa removível e escolher entre restringir água e infundir salina hipertônica.

Fica de fora o que já tem dono. A velocidade de correção do sódio, com a fórmula de reposição, o cálculo do déficit e o resgate de quem subiu depressa demais, pertence ao capítulo de distúrbios do sódio, e aqui entra só como trava. A hiponatremia da insuficiência cardíaca, da cirrose e da síndrome nefrótica é doença de base e mora nos capítulos delas. O diabete insípido, que é o outro lado da mesma molécula, tem capítulo próprio nesta apostila e protocolo federal próprio.

O capítulo de doenças da hipófise, ao delimitar o próprio recorte, manda hiponatremia, secreção inapropriada de hormônio antidiurético e velocidade de correção do sódio para o capítulo de distúrbios do sódio. É esse endereço que este capítulo completa: lá se corrige o eletrólito, e aqui se identifica o hormônio — porque a decisão de restringir água só é segura depois que o cortisol e a tireoide saíram da conta.

03

O que muda decisão

SIADH: excesso de ADH e hiponatremia

Há um protocolo clínico federal vigente para a doença do hormônio antidiurético que falta. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Insípido, aprovado por portaria conjunta em agosto de dois mil e vinte e cinco, ocupa quarenta e uma páginas, escreve desmopressina cinquenta e oito vezes e organiza a reposição do hormônio para a vida inteira. Para a doença do hormônio que sobra não existe documento equivalente. Nenhuma portaria, nenhum protocolo, nenhuma diretriz nacional específica.

A ausência muda a leitura do enunciado. Onde há protocolo federal, a régua do caso é a do documento, e o número cobrado costuma ser copiado dele. Aqui esse número não existe: a régua vem de consenso de especialistas e de revisão em periódico indexado, e o que se reconhece é o raciocínio, não o parágrafo. Quem procura a tabela oficial desta síndrome perde tempo, porque ela não foi escrita. O mesmo protocolo, aliás, nomeia a secreção inapropriada uma única vez em quarenta e uma páginas.

O protocolo do hormônio que falta ainda ajuda de um jeito indireto, e vale entender por quê. Ele dedica dezessete menções à restrição hídrica — todas descrevendo o que fazer quando a reposição de desmopressina retém água demais e derruba o sódio. O documento nacional que mais fala em restringir água fala dela como tratamento de uma hiponatremia causada por hormônio antidiurético em excesso, ainda que o excesso ali seja iatrogênico e não da doença.

Diante do doente, isso significa duas coisas. A primeira é que a conduta desta síndrome não se busca no portal de protocolos: busca-se no raciocínio fisiológico e na exclusão ordenada, e é isso que este capítulo treina. A segunda é que o paciente em uso de desmopressina que chega sonolento e com sódio baixo já está descrito em documento nacional, e a primeira medida nele é revisar a dose do hormônio antes de qualquer outra coisa.

A hiponatremia que não é falta de sal: o sódio cai porque a água ficou

O nome engana. Hiponatremia é uma concentração, e concentração é razão entre soluto e solvente. Nesta síndrome o numerador está quase intacto: o corpo tem sal suficiente. O que mudou foi o denominador. O rim recebeu ordem contínua de reter água livre, reteve, e o sódio que existe passou a estar diluído num volume maior de solvente.

Essa distinção não é acadêmica, porque ela decide o soro. Quando o sódio cai por perda — vômito, diarreia, diurético, terceiro espaço —, o paciente está seco e a solução isotônica corrige duas coisas ao mesmo tempo: repõe volume e repõe sal. Quando o sódio cai por retenção de água, a mesma solução isotônica pode piorar o número, porque o rim sob comando hormonal excreta o sal ofertado e retém a água que veio junto. É o mesmo frasco com efeitos opostos, e o que inverte o sinal é o mecanismo.

O hormônio antidiurético normalmente obedece à osmolalidade plasmática. Plasma diluído desliga o hormônio, o rim para de reabsorver água no ducto coletor e a urina sai clara e abundante até que a osmolalidade volte ao normal. Na síndrome esse termostato foi desligado: o hormônio continua sendo secretado, ou continua agindo, com o plasma já diluído. É o adjetivo inapropriada que carrega o diagnóstico inteiro, e ele descreve o contexto, não a quantidade — a dosagem do hormônio não faz parte da investigação de rotina justamente por isso.

A consequência clínica é que a doença raramente se apresenta com sintoma próprio. Ela chega como sonolência, náusea, cefaleia, marcha instável, queda, confusão em idoso — ou como nada, um achado de exame pedido por outra razão. O médico que espera um quadro típico não encontra; quem encontra é o que olha o sódio de todo paciente com sintoma neurológico vago e revisa a lista de medicamentos no mesmo movimento.

Antes de nomear a síndrome, prove que a osmolalidade caiu de verdade

O primeiro degrau não é o hormônio: é confirmar que existe hipotonicidade. Sódio plasmático baixo com osmolalidade plasmática normal ou alta não é esta doença, e a conduta é completamente outra. Há duas armadilhas clássicas, e as duas aparecem em enunciado com regularidade.

A primeira é a pseudo-hiponatremia. Quando o plasma carrega excesso de lipídio ou de proteína, a fase aquosa encolhe e o método de medida por diluição devolve um sódio falsamente baixo, com osmolalidade medida normal. Paciente com hipertrigliceridemia grave, com mieloma múltiplo ou com paraproteinemia entra nessa categoria. Não há água em excesso e não há nada a restringir: o que existe é artefato de laboratório, e a conduta é tratar o lipídio ou a proteína.

A segunda é a hiponatremia translocacional, e a causa que mais importa é a hiperglicemia. A glicose que não entra na célula puxa água do compartimento intracelular para o plasma, dilui o sódio de verdade e mantém a osmolalidade alta. O sódio baixo aqui é real, mas é consequência do soluto que sobrou, não de água retida. Tratar a glicemia devolve o sódio, e restringir água seria erro de raciocínio.

Por isso a osmolalidade plasmática entra antes do exame de urina e antes de qualquer decisão. Baixa, o caminho segue. Normal ou alta, o caminho muda de assunto — e o mesmo vale para o manitol e para as soluções de irrigação absorvidas durante procedimento endoscópico ou urológico, que produzem o mesmo padrão por mecanismo idêntico.

Um cuidado de leitura fecha o degrau. A osmolalidade que interessa é a medida, não a calculada: usar a fórmula em vez do osmômetro esconde justamente a pseudo-hiponatremia, em que a calculada vem baixa e a medida vem normal. Sem a medida disponível, conferem-se glicemia e perfil lipídico antes de seguir.

A urina que não dilui: o achado que separa esta síndrome de todas as outras

Confirmada a hipotonicidade, a pergunta seguinte é o que o rim está fazendo com a água. Diante de plasma diluído, o rim saudável tem resposta obrigatória: excretar água livre em grande quantidade, produzindo urina máximamente diluída. Se ele não faz isso, alguma coisa está mandando reter.

A tradução laboratorial é a osmolalidade urinária. Acima de cem miliosmóis por quilograma, com plasma hipotônico, a urina está inapropriadamente concentrada e o hormônio antidiurético está agindo. Esse é o achado que dá nome à doença, e é o único da lista que não se explica por outro mecanismo qualquer. Abaixo desse valor o rim está diluindo como deveria, e a hiponatremia tem outra explicação: ingestão de água acima da capacidade de excreção, ou aporte de soluto tão baixo que limita o volume urinário.

As duas exceções desse degrau valem nome próprio, porque a prova as usa. A polidipsia primária é o transtorno em que a ingestão ultrapassa a capacidade renal de excretar; a urina vem diluída e o tratamento é conter a ingestão. E há o padrão de quem vive de cerveja ou de dieta muito pobre em proteína e sal: sem soluto para carregar, o rim não consegue produzir volume urinário suficiente, e a urina também vem diluída. Nos dois casos a osmolalidade urinária baixa afasta a síndrome.

O segundo achado urinário é o sódio. Acima de trinta a quarenta miliequivalentes por litro, num paciente com ingestão normal de sal e sem diurético recente, a natriurese preservada indica que o rim não está tentando poupar volume. Esse dado separa a síndrome da hipovolemia verdadeira, em que o sódio urinário despenca porque o organismo está economizando sal para defender a circulação.

Há um par de exames de apoio que a prova gosta de oferecer como pista e que raramente é o divisor. O ácido úrico costuma estar baixo e a ureia também, porque a expansão discreta do volume aumenta a excreção dos dois. São coerentes com o diagnóstico e ajudam quando o quadro está ambíguo, mas nenhum deles substitui a dupla osmolalidade urinária e sódio urinário. Diante da questão, é essa dupla que resolve; diante do doente, é ela que se pede na mesma coleta.

Dois segmentos de ducto coletor lado a lado: em um deles os canais de água estão inseridos na parede e setas mostram a água voltando para o capilar, com pequeno volume de urina escura saindo; no outro os canais estão recolhidos dentro das células, não há passagem de água e sai um grande volume de urina clara.
Diante de plasma diluído, o rim que não recebe estímulo hormonal recolhe os canais de água e elimina urina abundante e clara. Quando o hormônio antidiurético continua agindo, a água volta para a circulação e a urina sai concentrada, em pequeno volume — é esse contraste que a osmolalidade urinária mede.

Volume normal é um exame físico, e é o passo em que mais se erra

A euvolemia é critério, e é o critério que se mede com as mãos, não com o laboratório. O paciente desta síndrome não tem edema, não tem estase jugular, não tem ascite — e também não tem mucosa seca, não tem taquicardia postural, não tem hipotensão ortostática, não tem turgor diminuído. Está, ao exame, com volume normal, e é exatamente essa normalidade que fecha o diagnóstico.

O erro mais comum é ler euvolemia como ausência de edema e parar aí. Metade do exame fica de fora, e é a metade que separa esta doença da hipovolemia: o doente seco também não tem edema, e o soro que ele precisa é o que a síndrome não tolera.

Quando o exame físico não decide, existe uma manobra diagnóstica que decide. Infunde-se solução isotônica e observa-se o sódio nas horas seguintes. Na hipovolemia o volume se restaura, o estímulo do hormônio some e o sódio sobe. Na síndrome o sal ofertado é excretado, a água fica, e o sódio não sobe ou até cai — o que confirma o diagnóstico e, ao mesmo tempo, avisa que aquele soro precisa ser suspenso.

Do outro lado da fronteira estão os estados de volume aumentado com sódio baixo: insuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica. Neles o hormônio também está alto, e por razão fisiológica legítima — o volume circulante efetivo caiu, ainda que a água corporal total tenha subido. Há edema visível, o sódio urinário costuma estar baixo, e o tratamento é o da doença de base. Nomear essas situações como esta síndrome é erro de classe, não de detalhe.

Falta um vizinho que a prova reserva para o paciente neurocirúrgico: a síndrome perdedora de sal cerebral. Ela aparece depois de hemorragia subaracnóidea ou de traumatismo, tem sódio baixo e urina concentrada como a nossa, e se distingue por um único eixo — o volume, que está reduzido. A consequência prática é grande: ali o tratamento é repor sal e volume, e restringir água piora o quadro. Quando o enunciado descreve balanço hídrico negativo, perda de peso e sinais de desidratação num paciente com lesão cerebral, o rótulo muda e a conduta se inverte.

As duas glândulas que se excluem antes de assinar o diagnóstico

Aqui está a parte endócrina do raciocínio, e é a que a prova cobra com mais frequência do que se imagina. A definição exige função tireoidiana e função adrenal normais, e essa exigência não é burocrática: as duas deficiências produzem hiponatremia hipotônica com urina concentrada e volume aparentemente normal — ou seja, um quadro laboratorialmente indistinguível.

A insuficiência adrenal é a mais perigosa das duas. O cortisol exerce freio tônico sobre a liberação do hormônio antidiurético; faltando cortisol, o freio some e o hormônio sobe. O resultado é urina concentrada, sódio urinário preservado, ácido úrico baixo e euvolemia clínica — a mesma fotografia. Se o médico assinar a síndrome e prescrever restrição hídrica, o paciente perde a única coisa que ainda estava compensando e caminha para crise adrenal.

A armadilha fica mais fina na forma secundária, de origem hipofisária. Na insuficiência adrenal primária a aldosterona também falta, o potássio sobe e a pele escurece, o que dá dois sinais de alerta. Na secundária a aldosterona está preservada, o potássio é normal e não há hiperpigmentação: some justamente o achado que faria o clínico desconfiar. É por isso que o cortisol entra na investigação por regra, e não por suspeita — e é por isso que o paciente com doença hipofisária conhecida merece atenção redobrada.

O hipotireoidismo grave completa o par, por mecanismo diferente e mais lento: a queda do débito cardíaco e do ritmo de filtração reduz a entrega de água ao segmento diluidor e sustenta a liberação do hormônio. É quadro de mixedema avançado, não de hipotireoidismo subclínico, mas a dosagem entra na mesma coleta porque custa pouco e fecha o critério.

A conduta que decorre disso é simples e vale gravar como sequência. Diante de hiponatremia hipotônica com urina concentrada e volume normal, peça função tireoidiana e avalie o eixo adrenal antes de restringir água. Havendo dúvida razoável de insuficiência adrenal em paciente instável, colhe-se o cortisol e administra-se corticoide sem esperar o resultado: a dose de resgate não prejudica quem não tem a doença, e a espera pode matar quem tem.

A lista de causas, e a que o paciente já está tomando

As causas se organizam em quatro famílias, e reconhecê-las por família é mais útil do que decorar listas. A primeira é a neoplasia que produz o hormônio por conta própria: o carcinoma de pequenas células do pulmão é o exemplo clássico, e a hiponatremia pode ser a primeira manifestação da doença, antes de qualquer sintoma respiratório. Um sódio baixo persistente e inexplicado em tabagista de longa data é indicação de imagem de tórax, não de mais um controle laboratorial.

A segunda família é a doença do sistema nervoso central, que desregula o centro de liberação: meningite, encefalite, hemorragia subaracnóidea, acidente vascular, traumatismo, tumor. A terceira é a doença pulmonar não maligna, com a pneumonia à frente, seguida da tuberculose e da ventilação com pressão positiva. A quarta, e a mais frequente no dia a dia, é o fármaco.

A família farmacológica tem nomes que se repetem no enunciado: carbamazepina e oxcarbazepina, inibidores seletivos da recaptação de serotonina, antipsicóticos, ciclofosfamida, vincristina, desmopressina e as anfetaminas de uso recreativo. O tiazídico merece nota à parte: ele causa hiponatremia com muita frequência, sobretudo em mulher idosa e magra, mas por mecanismo próprio, e o uso recente de diurético é critério de exclusão desta síndrome, não de inclusão.

Além dos quatro grupos há duas situações que o caso descrito costuma usar para armar a pergunta. O pós-operatório, em que dor, náusea e opioide sustentam a liberação do hormônio enquanto o paciente recebe solução hipotônica — combinação que produz hiponatremia grave em pessoas previamente sadias e responde por boa parte dos casos evitáveis. E o idoso, em que o limiar osmótico de liberação já está deslocado e qualquer um dos gatilhos acima basta.

Diante do doente, a leitura da prescrição rende mais que qualquer exame adicional, e a pergunta certa é temporal: o que foi introduzido nas últimas semanas. A maioria dos casos por fármaco aparece nos primeiros dias a três meses de uso, e é por isso que o antidepressivo iniciado há um mês em paciente idosa que agora anda instável explica o caso melhor do que qualquer investigação de imagem.

O sintoma decide a conduta, e o número não decide sozinho

Esta é a frase que organiza o tratamento inteiro, e é onde a questão costuma separar quem entendeu. A urgência não vem do valor do sódio: vem da presença de sintoma neurológico grave e da velocidade com que o sódio caiu. Um sódio muito baixo instalado ao longo de semanas, em paciente lúcido e sem queixa, é menos urgente do que uma queda menor instalada em horas, com vômito e rebaixamento.

A razão é o cérebro. Diante de plasma hipotônico o neurônio começa a exportar osmóis para não inchar, e essa adaptação leva um a dois dias. Quando a queda é lenta, a célula já se adaptou e tolera o número. Quando a queda é rápida, não houve tempo, a água entra e o edema cerebral se instala — convulsão, coma, herniação. É a mesma adaptação que, mais adiante, explica por que a correção rápida é perigosa.

Havendo sintoma grave — convulsão, rebaixamento de consciência, vômitos repetidos, desconforto respiratório —, a conduta é solução salina hipertônica em alíquotas, imediatamente, sem esperar exame etiológico e sem discutir a causa. O alvo inicial é pequeno e definido: elevar o sódio o suficiente para tirar o cérebro do edema, o que costuma exigir poucos miliequivalentes, e reavaliar em seguida.

Não havendo sintoma grave, a pressa desaparece e o tratamento muda de natureza: trata-se a causa, retira-se o fármaco responsável e restringe-se a água. Nesse cenário, prescrever solução isotônica por reflexo é o erro mais frequente, porque ela pode baixar ainda mais o sódio no rim que continua concentrando a urina. É o mesmo raciocínio da manobra diagnóstica, agora invertido: o que serve para provar não serve para tratar.

Entre os dois extremos existe a faixa de sintoma moderado — cefaleia, náusea sem vômito, confusão leve, desatenção — que a beira do leito resolve mal e o relógio resolve bem. Ali o critério que decide é o tempo de instalação, e a regra de segurança é tratar como agudo tudo o que não se pode provar crônico. Sódio anterior documentado no prontuário é o dado que muda a conduta, e vale procurá-lo antes de prescrever.

A velocidade da correção é uma trava, e vale mesmo quando tudo dá certo

Corrigir depressa demais causa lesão própria, e ela não é reversível. A célula cerebral que exportou osmóis para sobreviver ao plasma diluído precisa de dias para recuperá-los; se o plasma voltar ao normal em horas, a célula fica hipotônica em relação ao meio, perde água e sofre desmielinização osmótica. O quadro aparece dias depois da correção, com disartria, disfagia, paresia e alteração de consciência, num paciente cujo sódio já está normal.

Por isso o limite diário é uma trava independente do sucesso terapêutico. A referência de segurança mais usada é não elevar o sódio mais do que oito a dez miliequivalentes por litro nas primeiras vinte e quatro horas, com margem menor ainda em quem tem risco somado: desnutrição, alcoolismo, hipopotassemia, doença hepática avançada, hiponatremia muito prolongada.

A mecânica fina dessa correção — fórmula de reposição, cálculo do déficit, monitorização de hora em hora e manobras de resgate quando o sódio subiu demais — pertence ao capítulo de distúrbios do sódio e não se repete aqui. O que este capítulo guarda é a decisão anterior: reconhecer a síndrome e entender que a pressa é escolha clínica, não automatismo.

Há um detalhe que muda conduta e é fácil de perder. Quando a causa é removida de repente — o fármaco é suspenso, a náusea cede, o volume é restaurado —, o hormônio despenca, o rim volta a excretar água livre em grande quantidade e o sódio sobe sozinho, rápido demais. O paciente que começa a urinar em abundância logo depois do tratamento precisa de sódio medido de novo, e não de comemoração: a autocorreção é a causa mais comum de ultrapassar o limite diário.

Restrição hídrica: o que ela é, quando falha e o que se soma

Restringir água é a primeira medida do paciente sem sintoma grave, e é uma prescrição com número, não uma orientação vaga. O volume total de líquidos precisa ficar abaixo do volume urinário diário, e na prática costuma-se prescrever entre quinhentos e mil mililitros por dia, contando tudo o que é líquido: água, café, chá, sopa, sucos. Prescrever sem esse detalhe é a razão mais comum de a medida não funcionar.

A restrição tem previsores de falha que se medem antes de começar, e conhecê-los evita perder dias. Urina muito concentrada indica que o rim vai excretar pouca água livre mesmo com pouca oferta. E quando a soma de sódio e potássio urinários se aproxima ou ultrapassa o sódio plasmático, o paciente está eliminando urina mais concentrada em cátions do que o próprio plasma: nesse cenário a restrição isolada tende a fracassar, e insistir só atrasa.

Quando ela não basta, somam-se recursos que aumentam a excreção de água livre. A ureia por via oral funciona por diurese osmótica e é barata, com o inconveniente do sabor; sal por via oral somado a diurético de alça produz efeito semelhante. Os antagonistas do receptor de vasopressina resolvem o mecanismo diretamente, mas não estão disponíveis na rede pública brasileira, e por isso quase nunca são a resposta esperada em questão de perfil público.

O que sustenta o resultado, porém, não é o recurso somado: é a causa removida. Retirada a droga, tratada a pneumonia, controlada a doença de base, a síndrome cede sozinha. Quando a causa não pode ser removida — a neoplasia que segue produzindo o hormônio —, o tratamento passa a ser crônico, e aí a restrição precisa ser negociada com o paciente, porque uma restrição que ninguém cumpre é uma prescrição que não existe.

Duas medidas de bom senso completam a prescrição e raramente aparecem escritas. A primeira é revisar a dieta: aumentar a oferta de sal e de proteína dá ao rim o soluto de que ele precisa para carregar água para fora, e é a metade barata do tratamento. A segunda é conferir o que mais está infundindo no paciente internado — soro de manutenção hipotônico, diluição de antibiótico, água livre por sonda —, porque a restrição prescrita na dieta não vale nada se o acesso venoso a desfaz.

Medicamentos causais: reconhecer mecanismo e risco

Dois antiepilépticos da mesma família causam esta síndrome, e as duas bulas profissionais brasileiras registram o problema de maneiras que não se completam. A soma delas é a conduta; nenhuma sozinha a entrega.

A bula da carbamazepina nomeia o mecanismo. Ela classifica como comum a hiponatremia com redução da osmolaridade do sangue causada por efeito semelhante ao do hormônio antidiurético, e cita a secreção inapropriada ao listar as interações. Traz também um calendário de vigilância: medir o sódio antes de começar em quem tem doença renal com sódio baixo ou usa outra droga que derruba o sódio, repetir em cerca de duas semanas e depois mensalmente nos três primeiros meses. E encerra dizendo que, observada a hiponatremia, a restrição de água é contramedida importante. Não escreve nenhum valor de corte, e não escreve em momento algum o verbo suspender.

A bula da oxcarbazepina faz o inverso. Ela traz o número — sódio abaixo de cento e vinte e cinco milimoles por litro — e diz que os níveis voltaram ao normal quando a dose foi reduzida, descontinuada ou quando se tratou de forma conservadora com restrição hídrica. Em compensação, não escreve a palavra antidiurético uma única vez. O mecanismo que explica o achado está ausente justamente do documento que dá o corte.

A mesma bula da oxcarbazepina ainda se desencontra internamente sobre a frequência. Na seção de advertências ela registra sódio abaixo daquele corte em até dois vírgula sete por cento dos pacientes tratados; na tabela de reações adversas, a nota de rodapé chama o mesmo evento, com o mesmo corte, de muito raro. As duas frases descrevem o mesmo achado no mesmo documento e diferem em ordens de grandeza. Para o prescritor a leitura segura é a maior das duas: vigiar como se fosse frequente.

A leitura clínica que sai daí é direta. A vigilância de sódio nesses pacientes é obrigação de quem prescreve, o calendário mínimo é o das duas primeiras semanas e dos três primeiros meses, e a decisão diante do sódio caindo tem três degraus disponíveis: reduzir a dose, trocar ou retirar a droga, e restringir água. Quem espera a bula dizer qual dos três espera em vão — a escolha é do prescritor, e se faz pelo sintoma e pela velocidade da queda, exatamente como no resto deste capítulo.

04

Do sódio baixo à prescrição: quatro degraus e uma bifurcação

A questão desta síndrome quase nunca pede o nome da doença. Ela entrega um sódio baixo, um par de exames de urina e uma lista de medicamentos, e pergunta o que fazer. O caminho que resolve tem quatro degraus de identificação e uma única bifurcação de conduta, e nenhum atalho: a bifurcação só é segura depois que os quatro degraus foram vencidos.

  1. 1Confirme a hipotonicidade antes de olhar a urina. Osmolalidade plasmática medida abaixo de 275 mOsm/kg. Se vier normal ou alta, o assunto é outro: hipertrigliceridemia, paraproteinemia, hiperglicemia, manitol ou solução de irrigação absorvida — e nenhum deles se trata restringindo água.
  2. 2Peça osmolalidade e sódio urinários na mesma coleta. Urina acima de 100 mOsm/kg com plasma hipotônico é urina que não dilui, e sódio urinário acima de 30 mEq/L é natriurese preservada. Urina diluída afasta a síndrome e aponta polidipsia ou aporte insuficiente de soluto.
  3. 3Examine o volume com as mãos, não com o laboratório. Procure edema, estase e ascite de um lado; mucosa seca, ortostase e taquicardia postural do outro. Ausentes os dois conjuntos, o critério de euvolemia está cumprido. Na dúvida, o teste com solução isotônica separa — e o resultado já diz se o soro deve continuar.
  4. 4Exclua tireoide e adrenal antes de escrever o diagnóstico. TSH com T4 livre e avaliação do cortisol. A insuficiência adrenal secundária não dá hipercalemia nem hiperpigmentação, então a suspeita clínica falha e a dosagem é que protege. Restringir água num paciente com déficit de cortisol o empurra para a crise.
  5. 5Só então bifurque pela clínica. Sintoma neurológico grave manda salina hipertônica agora, sem esperar etiologia. Sem sintoma grave, a conduta é remover a causa — o fármaco em primeiro lugar — e restringir líquidos com volume escrito na prescrição. Em qualquer dos dois ramos, o teto de elevação nas primeiras 24 horas continua valendo.

Prove que a osmolalidade caiu

Degrau um, a hipotonicidade. Osmolalidade plasmática medida abaixo de 275 mOsm/kg. Normal ou alta manda procurar pseudo-hiponatremia (lipídio, proteína) ou causa translocacional (glicose, manitol, solução de irrigação) — e nesses casos não há água a restringir.

Prove que o rim não dilui

Degrau dois, a urina. Osmolalidade urinária acima de 100 mOsm/kg com plasma hipotônico é urina inapropriadamente concentrada. Sódio urinário acima de 30–40 mEq/L, com ingestão normal de sal e sem diurético recente, mostra natriurese preservada.

Prove que o volume é normal

Degrau três, o volume. Sem edema, estase ou ascite; e também sem mucosa seca, taquicardia postural ou ortostase. Na dúvida, teste com solução isotônica: o sódio sobe na hipovolemia e não sobe aqui. Em pós-operatório de neurocirurgia, pese o paciente — a síndrome perdedora de sal cerebral é hipovolêmica.

Exclua tireoide e adrenal

Degrau quatro, as glândulas. TSH com T4 livre e avaliação do eixo adrenal antes de restringir água. Na insuficiência adrenal secundária o potássio é normal e não há hiperpigmentação: o sinal que faria desconfiar não aparece. Havendo dúvida em paciente instável, colhe-se o cortisol e administra-se corticoide.

A mesma hiponatremia, quatro rótulos e quatro condutas

CenárioUrina e volumeConduta
Secreção inapropriada de ADHOsm urinária > 100 mOsm/kg; Na urinário > 30 mEq/L; euvolemiaTratar a causa, retirar o fármaco e restringir líquidos a 500–1.000 mL/dia
Hipovolemia verdadeira (vômito, diurético, terceiro espaço)Na urinário < 20–30 mEq/L; mucosa seca, ortostaseSolução isotônica: o sódio sobe quando o volume é restaurado
Hipervolemia (insuficiência cardíaca, cirrose, nefrose)Na urinário baixo; edema, estase, asciteTratar a doença de base; restrição de água e sal, diurético conforme o caso
Perdedora de sal cerebral (pós-hemorragia subaracnóidea)Osm urinária alta, mas volume REDUZIDO e balanço negativoRepor sal e volume; restringir água piora
Polidipsia primária ou dieta pobre em solutoOsm urinária < 100 mOsm/kgConter a ingestão de água; corrigir o aporte de sal e proteína

O que decide a pressa

QuadroLeituraPrimeira medida
Convulsão, coma, vômitos repetidos, desconforto respiratórioSintoma grave: edema cerebral em curso, qualquer que seja o númeroSalina hipertônica a 3% em alíquotas, imediatamente
Cefaleia, náusea, confusão leve, desatençãoSintoma moderado: decide o tempo de instalaçãoTratar como agudo o que não se prova crônico; corrigir com cautela
Assintomático, sódio conhecido baixo há semanasCrônico adaptado: o cérebro já exportou osmóisCausa e restrição hídrica; nunca correção rápida

A dosagem sérica do hormônio antidiurético não faz parte da investigação de rotina: o diagnóstico é de contexto, e o hormônio pode estar dentro da faixa de referência sendo inapropriado para aquela osmolalidade.

Ácido úrico e ureia baixos apoiam o diagnóstico, mas não o fazem. Eles ajudam quando o quadro está ambíguo e nunca substituem a osmolalidade urinária.

Uso recente de diurético é critério de exclusão. O tiazídico causa hiponatremia com frequência, sobretudo em mulher idosa e magra, mas por mecanismo próprio.

Autocorreção é armadilha do tratamento: removida a causa, o rim volta a excretar água livre e o sódio pode subir depressa demais. Diurese abundante depois da primeira medida pede sódio de controle, não comemoração.

Sódio persistentemente baixo e inexplicado em tabagista de longa data é indicação de imagem de tórax: o carcinoma de pequenas células pode se manifestar primeiro pelo eletrólito.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Com que frequência a hiponatremia grave ocorre com oxcarbazepina — em até dois vírgula sete por cento ou muito raramente?

Na seção de advertências e precauções, o documento registra que têm sido observados níveis séricos de sódio abaixo de 125 mmol/L, usualmente assintomáticos e sem necessidade de ajuste da terapia, em até 2,7% dos pacientes tratados — frequência que, na escala usual de bula, corresponde a evento comum.

Bula profissional de Trileptal (oxcarbazepina), Novartis, seção de advertências e precauções.

Na nota de rodapé da tabela de reações adversas, o mesmo documento descreve hiponatremia clinicamente significante, com o mesmo corte de sódio abaixo de 125 mmol/L, como evento que pode ocorrer muito raramente durante o uso do medicamento.

Bula profissional de Trileptal (oxcarbazepina), Novartis, nota de rodapé da tabela de reações adversas.

Na prova

As duas frases estão no mesmo documento, descrevem o mesmo achado com o mesmo corte e diferem em ordens de grandeza. O enunciado que cobrar frequência vai reproduzir uma das duas, e o sinal está na palavra que acompanha: percentual explícito vem da seção de advertências, qualificador de raridade vem da tabela de reações adversas. Para o prescritor, a leitura segura é a maior das duas — vigiar como se fosse frequente.

Diante do sódio caindo em paciente com carbamazepina, reduz-se a dose, retira-se a droga ou restringe-se água?

A bula da carbamazepina manda medir sódio antes de iniciar nos pacientes de risco, repetir em cerca de duas semanas e depois mensalmente nos três primeiros meses, e afirma que, observada a hiponatremia, a restrição de água é uma contramedida importante se clinicamente indicada. Não escreve valor de corte nem o verbo suspender.

Bula profissional de Tegretard (carbamazepina), Cristália, seção de advertências e precauções.

A bula da oxcarbazepina afirma que os níveis séricos de sódio retornaram ao normal quando a dose foi reduzida, quando o medicamento foi descontinuado ou quando o paciente foi tratado conservadoramente, por exemplo com restrição hídrica — colocando as três saídas no mesmo plano, sem hierarquia.

Bula profissional de Trileptal (oxcarbazepina), Novartis, seção de advertências e precauções.

Na prova

Nenhum dos dois documentos hierarquiza as três saídas, e o enunciado que pedir a conduta vai depender do contexto clínico que ele mesmo descreveu. Sintoma neurológico grave tira a discussão de cena e manda salina hipertônica; queda assintomática e lenta admite reduzir dose e restringir água com sódio de controle; recorrência ou sódio muito baixo empurra para a troca do anticonvulsivante em conjunto com quem indicou.

O paciente neurocirúrgico com sódio baixo e urina concentrada: restringe água ou repõe volume?

Descrições da síndrome de secreção inapropriada em doença do sistema nervoso central sustentam que a hemorragia subaracnóidea e o traumatismo são causas clássicas, e que nesses pacientes a urina concentrada com euvolemia indica restrição hídrica como primeira medida quando não há sintoma grave.

Distúrbios na secreção e ação do hormônio antidiurético. Arq Bras Endocrinol Metab, volume 47, número 4, 2003.

A descrição da síndrome perdedora de sal cerebral atribui ao mesmo cenário neurocirúrgico um estado de depleção de volume, com balanço hídrico negativo e perda de peso, em que a conduta correta é repor sal e volume — e em que restringir água agrava a lesão cerebral.

Material de discussão de casos em hiponatremia da Sociedade Brasileira de Nefrologia, abril de 2021.

Na prova

O eixo que separa as duas é um só, e é o volume: o enunciado que descreve balanço hídrico negativo, perda de peso, hipotensão postural ou necessidade de reposição está apontando para a perdedora de sal, em que a conduta se inverte. Sem esses dados, com volume descrito como normal, o caminho é o da síndrome de secreção inapropriada.

O corte de osmolalidade plasmática que confirma a hipotonicidade — 270 ou 280 mOsm/kg?

No corpo do texto, na seção de diagnóstico laboratorial, a revisão brasileira descreve a síndrome como hiponatremia com redução da osmolalidade plasmática abaixo de 280 mOsm/kg, e exige excreção urinária de sódio acima de 100 mEq/L.

Distúrbios na secreção e ação do hormônio antidiurético. Arq Bras Endocrinol Metab, volume 47, número 4, 2003, seção de diagnóstico laboratorial.

Na tabela de critérios diagnósticos do mesmo artigo, seiscentos e setenta caracteres adiante, o critério essencial passa a ser osmolalidade plasmática abaixo de 270 mOsm/kg; e, em outra passagem, a excreção urinária de sódio exigida cai para 20 a 25 mmol/L.

Distúrbios na secreção e ação do hormônio antidiurético. Arq Bras Endocrinol Metab, volume 47, número 4, 2003, tabela de critérios diagnósticos.

Na prova

O documento diverge de si mesmo em dez unidades no corte de osmolalidade e em quatro a cinco vezes no sódio urinário, e nenhum dos dois pares aparece como número redondo nos enunciados brasileiros. O que se cobra é a direção, não a casa decimal: plasma claramente hipotônico com urina que não dilui. Na prática contemporânea a referência é 275 mOsm/kg para o plasma e 30 a 40 mEq/L para o sódio urinário, e o enunciado que trouxer qualquer valor dentro dessas faixas está descrevendo o mesmo quadro. Diante do doente, o que decide é a combinação, e não o número isolado.

06

Caso resolvido

Mulher de 74 anos chega ao pronto-socorro trazida pela filha por confusão e marcha instável há três dias, sem febre e sem trauma. Faz uso de sertralina, iniciada há cinco semanas por episódio depressivo, e de levotiroxina há anos. Não usa diurético. Ao exame está lúcida mas desatenta, sem edema, sem estase jugular, mucosas úmidas, sem variação postural da pressão, peso estável segundo a filha. Exames: sódio plasmático 121 mEq/L, potássio 4,1 mEq/L, glicemia 96 mg/dL, osmolalidade plasmática medida 251 mOsm/kg, osmolalidade urinária 462 mOsm/kg, sódio urinário 58 mEq/L, ácido úrico 2,1 mg/dL, TSH 2,4 mUI/L com T4 livre normal.
confirme a hipotonicidade
Passo um. A osmolalidade plasmática medida está em 251 mOsm/kg, abaixo do corte de 275, e a glicemia é normal. Não há pseudo-hiponatremia nem causa translocacional: a hiponatremia é hipotônica e verdadeira. O primeiro degrau está vencido, e só agora a urina interessa.
leia a urina
Passo dois. Osmolalidade urinária de 462 mOsm/kg com plasma a 251 é urina inapropriadamente concentrada — o rim deveria estar despejando água livre e não está. Sódio urinário de 58 mEq/L, sem diurético, mostra natriurese preservada. Os dois achados que dão nome à doença estão presentes, e o ácido úrico baixo apoia sem decidir.
meça o volume com as mãos
Passo três. Não há edema, estase nem ascite; não há mucosa seca, ortostase nem taquicardia postural, e o peso está estável. Os dois conjuntos de sinais estão ausentes, o que é a definição operacional de euvolemia. Sem esse passo, a paciente poderia ser uma hipovolêmica que precisaria de soro — exatamente o oposto do que se vai prescrever.
exclua as glândulas
Passo quatro. O TSH com T4 livre normal fecha a tireoide. Falta o eixo adrenal, e ele não pode ser dispensado só porque o potássio está normal: na insuficiência adrenal secundária o potássio é normal e não há hiperpigmentação. Colhe-se cortisol matinal antes de restringir água; estando a paciente estável e lúcida, é possível aguardar o resultado.
escolha o ramo e escreva a prescrição
Passo cinco. Não há convulsão, coma nem vômitos repetidos: o sintoma é moderado e o quadro se instalou em dias, com fármaco introduzido há cinco semanas. O ramo é o conservador. Suspende-se a sertralina em conjunto com quem a indicou, prescreve-se restrição de líquidos entre 800 e 1.000 mL por dia contando tudo, revisa-se o soro de manutenção, e o sódio é medido de novo. Como a causa foi removida, o risco agora é a autocorreção: se a diurese aumentar muito, o sódio precisa ser reavaliado antes do prazo.
07

Agora feche você

Homem de 58 anos, tabagista de quarenta anos-maço, interna para investigação de emagrecimento e tosse. No segundo dia apresenta uma crise convulsiva tônico-clônica generalizada. Sódio plasmático 112 mEq/L; havia um sódio de 126 mEq/L colhido na admissão, quarenta e oito horas antes. Osmolalidade plasmática medida 238 mOsm/kg, osmolalidade urinária 610 mOsm/kg, sódio urinário 71 mEq/L. Recebeu solução glicosada a 5% em veia desde a admissão. Sem edema e sem sinais de desidratação. Radiografia de tórax com massa hilar à direita.
classifique a pressa
Diga, em uma frase, se este caso é agudo ou crônico e o que sustenta a resposta — e explique por que a resposta muda a primeira medida antes de qualquer discussão sobre a causa.
prescreva a primeira medida
Escreva o que se administra agora, em que forma e com que alvo inicial. Depois diga qual é o teto de elevação do sódio nas primeiras vinte e quatro horas e por que ele continua valendo mesmo neste cenário.
encontre o que está piorando o caso
Aponte, na descrição da internação, um item da prescrição que está contribuindo para a queda do sódio e explique o mecanismo pelo qual ele contribui.
nomeie a causa e o que ela obriga
Diga qual é a causa mais provável da síndrome neste paciente, qual exame confirma a hipótese e por que o sódio baixo, aqui, é um achado que muda a investigação de lugar.
antecipe a armadilha do dia seguinte
Explique o que pode acontecer com o sódio quando o quadro começar a responder, qual sinal à beira do leito anuncia esse risco e o que se faz diante dele.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de hiponatremia dilucional todo sódio baixo Sódio baixo com osmolalidade plasmática normal ou alta não é esta doença. Hipertrigliceridemia grave e paraproteinemia produzem sódio falsamente baixo com osmolalidade medida normal; hiperglicemia e manitol produzem sódio verdadeiramente baixo com osmolalidade alta. Nos dois grupos restringir água é erro de raciocínio, e a osmolalidade medida — não a calculada — é o exame que separa.
  2. 2Ler euvolemia só como ausência de edema A metade que falta é a que separa esta síndrome da hipovolemia: mucosa seca, turgor, taquicardia postural, hipotensão ortostática. O doente seco também não tem edema, e nele a solução isotônica é o tratamento, enquanto aqui ela pode derrubar mais o sódio. Quando o exame não decide, o teste com isotônica decide, e o resultado diz se o soro continua.
  3. 3Restringir água antes de olhar o cortisol A insuficiência adrenal produz hiponatremia hipotônica com urina concentrada e volume aparentemente normal — a mesma fotografia. Na forma secundária não há hipercalemia nem hiperpigmentação, de modo que o sinal de alerta não aparece. Restringir água nesse paciente retira a única compensação que restava e abre caminho para a crise adrenal.
  4. 4Infundir solução isotônica por reflexo diante do sódio baixo No rim que continua concentrando a urina, o sal ofertado é excretado e a água fica. O resultado é sódio igual ou pior depois do soro. A isotônica tem lugar como teste diagnóstico controlado, com sódio medido em seguida, e como tratamento apenas quando o paciente está de fato hipovolêmico.
  5. 5Tratar pelo número e não pelo sintoma Um sódio muito baixo instalado ao longo de semanas em paciente lúcido é menos urgente do que uma queda menor instalada em horas com vômito e sonolência. A salina hipertônica se indica pelo sintoma neurológico grave e pela velocidade de instalação. Procurar um sódio anterior no prontuário muda a conduta mais do que repetir o exame.
  6. 6Considerar o alvo atingido quando o sódio sobe sozinho Removida a causa, o hormônio despenca, o rim volta a excretar água livre e o sódio sobe sem que ninguém prescreva nada. Essa autocorreção é a via mais comum de ultrapassar o teto diário de elevação e de produzir desmielinização osmótica. Diurese abundante depois do início do tratamento é sinal de reavaliar o sódio, não de relaxar.
  7. 7Prescrever restrição hídrica sem volume e sem previsor de falha Restrição sem número não é prescrição. O total de líquidos precisa ficar abaixo do volume urinário, na prática entre 500 e 1.000 mL por dia, contando café, chá, sopa e sucos. E há previsores de falha mensuráveis: urina muito concentrada, e soma de sódio com potássio urinários próxima ou acima do sódio plasmático. Nesses casos, insistir isoladamente atrasa.
  8. 8Esquecer o soro de manutenção do paciente internado A restrição escrita na dieta não vale nada se o acesso venoso a desfaz. Solução hipotônica de manutenção, diluição de antibiótico e água livre por sonda somam volume que ninguém contabiliza. No pós-operatório, essa combinação com dor, náusea e opioide produz hiponatremia grave em pessoas previamente sadias — e é o cenário evitável mais frequente do tema.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A osmolalidade plasmática medida está elevada, o que exclui de saída a síndrome de secreção inapropriada, cuja definição exige hipotonicidade. Aqui o sódio está realmente baixo, mas por translocação de água do compartimento intracelular para o plasma sob efeito osmótico da glicose. Corrigir a hiperglicemia devolve a água ao intracelular e o sódio sobe junto. Restringir água num paciente desidratado e poliúrico agrava a depleção; a salina hipertônica não tem indicação sem sintoma neurológico grave e com plasma hipertônico; e a ureia trata um mecanismo que não é o deste caso. A investigação hormonal só entra depois de confirmada a hipotonicidade.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite, sem olhar, os quatro degraus na ordem: hipotonicidade confirmada por osmolalidade medida; urina que não dilui, com osmolalidade urinária acima de 100 mOsm/kg e sódio urinário acima de 30 mEq/L; volume clínico normal pelos dois conjuntos de sinais; e tireoide e adrenal excluídas. Em seguida diga em voz alta a bifurcação: o que manda salina hipertônica e o que manda restrição hídrica. Feche escrevendo o volume diário de líquidos que você prescreveria e os dois previsores de falha da restrição.

em 30 dias

Refaça de memória a tabela dos quatro rótulos da hiponatremia — secreção inapropriada, hipovolemia, hipervolemia e perdedora de sal cerebral — com o sódio urinário, o volume e a conduta de cada um, e explique por que a solução isotônica muda de papel entre eles. Depois liste as quatro famílias de causa e, para a família farmacológica, escreva o calendário mínimo de vigilância de sódio que a bula da carbamazepina impõe. Termine dizendo por que o tiazídico está fora da síndrome e por que a autocorreção é perigosa.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Num plantão de clínica médica, treine a sequência que este capítulo desenha e que a pressa atropela. Diante de um sódio baixo, pergunte primeiro pela osmolalidade medida; depois peça osmolalidade e sódio urinários na mesma coleta; depois examine o volume com as mãos, procurando os dois conjuntos de sinais, e não apenas o edema; e só então peça tireoide e cortisol. Antes de prescrever, leia a lista de medicamentos procurando o que foi introduzido nas últimas semanas, e confira o que está correndo na veia. A bifurcação vem por último: se há convulsão, rebaixamento ou vômitos repetidos, a salina hipertônica não espera exame nenhum; se não há, a conduta é remover a causa e escrever o volume de líquidos permitido por dia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hiponatremia com urina concentrada e volume normal – Secreção inapropriada de ADH: a urina que não dilui e o sintoma que decide — Preparatório para provas | OsceLabs