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Diarreia aguda infecciosa no adulto

Diarreia aguda infecciosa e reidratação

A prova cobra o volume e o tempo de cada plano de reidratação e a lista curtíssima de quem recebe antibiótico. O erro que mais rende alternativa errada é tratar diarreia aquosa com quinolona e pedir coprocultura para todo mundo.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 44 anos apresenta diarreia aquosa volumosa, com mais de 10 evacuações ao dia, aspecto de 'água de arroz', vômitos e cãibras, com instalação em poucas horas. Vive em área com surto de doença diarreica e saneamento precário. Ao exame: PA 84x50 mmHg, FC 122 bpm, turgor cutâneo diminuído, mucosas secas e olhos encovados. Qual é a medida terapêutica prioritária?

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Como esse tema cai

A régua brasileira da diarreia aguda cabe em dois documentos. O quadro Manejo do Paciente com Diarreia (Ministério da Saúde, 2023) manda na conduta: é dele que saem a avaliação do estado de hidratação, os planos A, B e C, os volumes, as doses de ondansetrona e a lista de antibióticos. O capítulo de Doenças Diarreicas Agudas do Guia de Vigilância em Saúde (6ª edição revisada, 2024) manda na vigilância: definição de caso, definição de surto, o que se notifica e onde. Os dois conversam — o Guia de 2024 remete explicitamente ao documento de 2023 para o tratamento.

O eixo da conduta no adulto é o estado de hidratação, não a etiologia. Saber se a diarreia é por norovírus, por Escherichia coli enterotoxigênica ou por Salmonella muda muito pouco: na maioria esmagadora dos casos o tratamento é o mesmo líquido. A etiologia só muda a conduta em duas situações, e o documento de 2023 as nomeia: disenteria com comprometimento do estado geral e cólera grave. Fora delas, antibiótico é ineficaz, seleciona resistência e não deve ser prescrito.

Menores de 5 anos seguem o AIDPI, e é lá que moram o zinco e as particularidades da criança pequena. Este capítulo trata do adulto e do adolescente acima de 10 anos ou 30 kg — a faixa em que os planos são os mesmos, mas os volumes, as doses e o esquema antibiótico são outros. Trocar de faixa é uma das maneiras mais baratas de errar uma questão fácil.

A definição é por número e por tempo: três ou mais evacuações em 24 horas com queda de consistência, com duração de até 14 dias. Acima de 14 dias o quadro deixa de ser diarreia aguda, vira diarreia persistente ou crônica e sai do fluxo deste capítulo — muda a investigação e muda o serviço que resolve.

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O que muda decisão

O que conta como diarreia aguda, e o que já não conta

O Guia de Vigilância em Saúde define caso de doença diarreica aguda como a pessoa que apresenta aumento do número de evacuações — mínimo de três episódios em 24 horas — com diminuição da consistência das fezes, geralmente líquidas ou semilíquidas, com duração de até 14 dias. Os três elementos são cumulativos: frequência, consistência e tempo. Uma única evacuação líquida não é caso; fezes pastosas sem aumento de frequência não são caso; e um quadro de três semanas não é caso de DDA.

Pode haver sangue ou muco, e aí o quadro ganha o nome de disenteria — que não é outra doença, é uma apresentação. Podem vir dor abdominal, febre, náusea e vômito, e o vômito pode preceder a diarreia dependendo do agente. O curso habitual é autolimitado, de 2 a 14 dias.

Duas definições operacionais valem decorar porque aparecem em questão de vigilância. Caso novo é aquele em que, após a normalização da função intestinal por 48 horas, o paciente volta a apresentar quadro de DDA — antes disso, é o mesmo episódio. E as causas não infecciosas precisam ser excluídas na anamnese: uso recente de laxativos, antiácidos e antibióticos, ingestão de bebida alcoólica, excesso de bebidas lácteas. Diarreia depois de sete dias de amoxicilina não entra no mesmo fluxo que diarreia depois de um churrasco.

Aquosa ou inflamatória: a única classificação etiológica que muda alguma coisa

A separação clinicamente útil é entre diarreia aquosa e diarreia inflamatória. A aquosa é de intestino delgado, alto volume, sem sangue, com pouca ou nenhuma febre: norovírus, rotavírus, Escherichia coli enterotoxigênica, Vibrio cholerae e as toxinas pré-formadas. A inflamatória é de cólon, menor volume, com sangue, muco, tenesmo, cólica intensa e febre: Shigella, Campylobacter, Salmonella não tifoide, E. coli enteroinvasiva, Entamoeba histolytica.

O tempo entre a exposição e o sintoma é um dado clínico, não um detalhe de tabela. Bacillus cereus e Staphylococcus aureus produzem quadro em 1 a 6 horas, com vômito proeminente, diarreia pouco importante, febre rara e resolução em 24 horas — é intoxicação por toxina já formada no alimento, não infecção que se instala, e por isso antibiótico não tem o que fazer. Do outro lado, Vibrio cholerae tem incubação de 5 a 7 dias e produz diarreia profusa e aquosa, tipicamente afebril. Entamoeba histolytica leva de 2 a 4 semanas e pode durar meses.

Alguns agentes carregam risco além da desidratação. As E. coli produtoras de toxina Shiga, a Shigella dysenteriae tipo 1, Campylobacter e Aeromonas podem desencadear síndrome hemolítico-urêmica. Quando a diarreia sanguinolenta evolui com anemia, plaquetopenia e queda da função renal, o quadro deixa de ser gastroenterite e passa a ser SHU — que tem ficha de notificação individual própria no Sinan.

Corte do intestino delgado com lúmen cheio de líquido claro ao lado de corte do cólon com mucosa ulcerada e conteúdo com sangue e muco.
Os dois mecanismos que separam as diarreias agudas: secreção de água e eletrólitos com mucosa íntegra, à esquerda, e invasão da mucosa com sangue e muco, à direita.

A avaliação do estado de hidratação: dois sinais, e um deles com asterisco

O quadro do Ministério da Saúde de 2023 organiza a avaliação em observar, explorar e decidir. Observa-se estado geral, olhos, sede, lágrimas e boca ou língua. Explora-se sinal da prega abdominal, pulso e perda de peso. Quatro variáveis carregam a maior relação de sensibilidade e especificidade segundo a Organização Mundial da Saúde: estado geral, olhos, sede e sinal da prega.

A regra de decisão é aritmética e vale a pena guardar exatamente assim. Sem sinais, é plano A. Dois ou mais sinais da coluna B, é paciente com desidratação e plano B. Dois ou mais sinais sendo pelo menos um dos marcados com asterisco, é desidratação grave e plano C. Os asteriscos são três: estado geral comatoso, hipotônico, letárgico ou inconsciente; não ser capaz de beber; pulso fraco ou ausente. Um paciente com olhos fundos e boca muito seca tem dois sinais, mas nenhum asterisco — é plano B, não C.

Há uma cláusula de segurança explícita no documento: em caso de dúvida entre duas classificações, estabelece-se o plano considerando o pior cenário. E há uma restrição de uso: a perda de peso só é critério aplicável quando o paciente está internado e evolui com diarreia e vômito, porque só aí existe um peso anterior confiável. Na porta de entrada, ninguém sabe quanto o paciente pesava anteontem.

Plano A: o que o adulto leva para casa

O plano A não trata desidratação, previne. O paciente ingere mais líquido que o habitual após cada evacuação diarreica e após cada episódio de vômito, em pequenas quantidades e com maior frequência — líquidos caseiros como água, chá, suco, água de coco e sopas, ou solução de sais de reidratação oral. Refrigerante está fora, e chá e suco preferencialmente não devem ser adoçados.

O volume é a diferença que a prova cobra. A tabela do Ministério da Saúde dá volume fixo para os pequenos — 50 a 100 mL para menores de 1 ano, 100 a 200 mL de 1 a 10 anos — e para maiores de 10 anos escreve outra coisa: a quantidade que o paciente aceitar. O adulto é a única faixa sem número, e isso é conteúdo, não omissão: acima dessa idade a sede é guia confiável e o volume necessário depende do que está sendo perdido.

A alimentação habitual se mantém, em adultos e em crianças. Não há dieta de repouso intestinal, não há suspensão de leite, não há sopa rala por três dias. E o zinco, que aparece no plano A, é prescrição de criança: 10 mg/dia até 6 meses e 20 mg/dia dos 6 meses aos 5 anos, por 10 a 14 dias. Não existe zinco de adulto nesse protocolo.

O retorno é objetivo: procurar o serviço de saúde imediatamente se não melhorar em 2 dias ou se aparecer qualquer sinal de alerta — piora da diarreia em frequência ou volume, vômitos repetidos, sangue nas fezes, diminuição da diurese, muita sede, recusa de alimentos. O paciente também sai orientado a reconhecer os sinais de desidratação, a preparar o SRO e a lavar as mãos, tratar a água de consumo e higienizar alimentos.

Plano B: 50 a 100 mL/kg em 4 a 6 horas, e o paciente não vai embora antes

O plano B é reidratação oral feita dentro do estabelecimento de saúde. A orientação inicial de volume é de 50 a 100 mL/kg, média de 75 mL/kg, administrados no período de 4 a 6 horas. Num adulto de 70 kg isso significa algo entre 3.500 e 7.000 mL de SRO no período — número que costuma parecer errado a quem nunca fez, e não é. A quantidade efetivamente ingerida depende da sede do paciente, e a solução é administrada continuamente até que os sinais de desidratação desapareçam.

Se durante o plano B houver vômitos persistentes que impeçam a ingestão, entra uma dose de ondansetrona. No adulto e em quem tem mais de 10 anos ou mais de 30 kg, a dose é 8 mg. O documento marca um alerta em separado: não utilizar em gestantes. O antiemético existe aqui com um propósito único e declarado — garantir que o paciente consiga tomar o soro. Não é tratamento da diarreia.

A reavaliação segue o mesmo quadro de sinais. Se os sinais de desidratação sumiram, o paciente passa ao plano A. Se continua desidratado, a próxima etapa não é pular direto para a veia: é a sonda nasogástrica, com gastróclise. Se evoluiu para desidratação grave, aí sim vai para o plano C. E existe um prazo escrito: se após 6 horas de tratamento não houver melhora da desidratação, encaminha-se ao hospital de referência para internação.

A alta do plano B tem condição, e ela é literal no documento: o paciente permanece no estabelecimento de saúde até a reidratação completa. Mandar para casa com um envelope de SRO e um 'volte se piorar' um paciente que ainda tem prega lenta é exatamente o que o plano B foi escrito para impedir.

Plano C: a expansão do adulto é a mesma da criança acima de 1 ano

O plano C é endovenoso, hospitalar, e tem duas fases. Na fase de expansão, a partir de 1 ano de idade — portanto para todo adulto — administra-se soro fisiológico a 0,9% ou Ringer lactato 30 mL/kg em 30 minutos e, em seguida, 70 mL/kg em 2 horas e 30 minutos. São 100 mL/kg em três horas. O esquema de menores de 1 ano é outro e não deve ser transposto: lá, os mesmos 30 mL/kg correm em 1 hora e os 70 mL/kg em 5 horas.

A fase de manutenção e reposição vale para todas as faixas etárias e é onde a resposta costuma escapar. A manutenção é soro glicosado a 5% com soro fisiológico a 0,9% na proporção de 4:1: até 10 kg, 100 mL/kg; de 10 a 20 kg, 1.000 mL mais 50 mL/kg do que exceder 10 kg; acima de 20 kg, 1.500 mL mais 20 mL/kg do que exceder 20 kg, com teto de 2.000 mL. À manutenção soma-se reposição com glicosado e fisiológico na proporção de 1:1, iniciando com 50 mL/kg/dia e reavaliando conforme as perdas, e KCl a 10% na dose de 2 mL para cada 100 mL da solução de manutenção.

A via oral volta cedo: começa-se o SRO assim que o paciente puder beber, geralmente 2 a 3 horas após o início da reidratação endovenosa, concomitantemente ao soro. A infusão endovenosa só é interrompida quando o paciente ingere SRO em quantidade suficiente para se manter hidratado, e ele fica em observação por pelo menos 6 horas antes de qualquer decisão de alta. Se não houver melhora, a conduta prevista é aumentar a velocidade de infusão.

Antibiótico: duas situações, e nenhuma delas é 'diarreia forte'

O documento de 2023 é direto: antibióticos devem ser usados somente em casos de diarreia com sangue — disenteria — acompanhada de comprometimento do estado geral, ou em caso de cólera grave. Em outras condições, os antibióticos são ineficazes, causam resistência antimicrobiana e não devem ser prescritos. Volume alto de evacuações, número de dias e desconforto do paciente não entram nessa conta.

O gatilho completo, como está escrito, é sangue nas fezes com comprometimento do estado geral conforme o quadro de hidratação, e/ou febre alta persistente, dor abdominal, tenesmo ou comprometimento sistêmico. Para adolescentes e adultos, isto é, acima de 30 kg ou de 10 anos, o esquema é ciprofloxacino 500 mg por via oral de 12 em 12 horas por 3 dias. A alternativa é ceftriaxona 50 a 100 mg/kg por via intramuscular, uma vez ao dia, por 3 a 5 dias. Crianças até 30 kg têm outro esquema: azitromicina 10 mg/kg/dia no primeiro dia e 5 mg/kg/dia por mais 4 dias.

A reavaliação é em 2 dias, e a regra do que fazer depois é a parte mais esquecida do protocolo. Se persistir sangue nas fezes após 48 horas do início do tratamento, o adulto ou maior de 10 anos em boas condições gerais segue apenas os planos A, B ou C conforme o estado de hidratação — sem antibioticoterapia. Só quem está com as condições gerais comprometidas recebe ceftriaxona 50 a 100 mg/kg intramuscular por 3 a 5 dias ou vai para internação. Persistência de sangue, isoladamente, não é motivo para repetir ou trocar antibiótico.

Há ainda uma orientação de temperatura que a vinheta às vezes usa como pista: paciente com 39 ºC ou mais, além do quadro diarreico, exige investigar e tratar outras causas possíveis, como pneumonia, otite, amigdalite, faringite e infecção urinária. Febre alta não é automaticamente parte da gastroenterite.

Antiparasitário, antiemético, antidiarreico: o que a régua permite

Antiparasitários têm duas indicações escritas. Amebíase, quando o tratamento da disenteria por Shigella fracassar ou quando se identificam nas fezes trofozoítos de Entamoeba histolytica englobando hemácias: metronidazol 50 mg/kg/dia, três vezes ao dia, por 10 dias. Giardíase, quando a diarreia durar 14 dias ou mais e se identificarem cistos ou trofozoítos nas fezes ou no aspirado intestinal: metronidazol 15 mg/kg/dia, três vezes ao dia, por 5 dias. Fora disso, antiparasitário empírico não faz parte do protocolo.

O antiemético tem indicação única: vômitos persistentes, dentro do plano B, para garantir que o paciente consiga ingerir o SRO. Não é medicação de alta, não é prescrição de rotina e não vai para gestante.

Antidiarreicos não devem ser usados — a frase está em caixa alta no documento, sem faixa etária, sem exceção e sem qualificador. É a regra brasileira, e é o ponto em que ela mais se afasta da literatura internacional, como o bloco de divergências detalha.

Exames: quem realmente precisa, e para quê

O diagnóstico etiológico das DDA é laboratorial — parasitológico, cultura de bactérias e pesquisa de vírus nas fezes —, mas a finalidade que o documento brasileiro dá a esse exame é populacional: conhecer o padrão dos agentes circulantes e, sobretudo, orientar as medidas de prevenção e controle na vigência de surtos. Na ocorrência de surto, recomenda-se coletar amostras de fezes para pesquisa de bactérias, vírus e outros parasitos intestinais oportunistas, e as fezes devem ser coletadas antes da administração de antibióticos.

No caso individual do adulto com diarreia aquosa, sem febre, sem sangue e com boa condição geral, exame de fezes não muda nada: o resultado chega depois do fim do quadro e a conduta seria a mesma. O gatilho para testar o indivíduo, na diretriz da IDSA de 2017, é a presença de febre, fezes com sangue ou muco, cólica ou dor abdominal intensa, ou sinais de sepse — nesses casos investiga-se Salmonella, Shigella, Campylobacter, Yersinia, Clostridioides difficile e STEC.

Quando se investiga surto e se coleta água, há uma armadilha operacional que vale conhecer: é preciso pedir ao laboratório exame microbiológico para identificar o agente etiológico, e não apenas a análise de potabilidade. Potabilidade diz se a água serve para consumo; não diz qual bactéria adoeceu as doze pessoas do condomínio.

Cólera: a exceção em que o antibiótico entra pela transmissão

A cólera produz diarreia aquosa profusa, com ou sem vômitos, dor abdominal e cãibras, caracteristicamente sem febre, e pode levar à desidratação grave e ao choque em poucas horas. A base do tratamento é a mesma de qualquer DDA: hidratação. O Ministério da Saúde descreve solução de SRO no plano B para a maioria dos sintomáticos e fluidos endovenosos no plano C para a desidratação grave.

O antibiótico é complementar e não substitui a administração de líquidos, mas na cólera ele tem papel próprio, porque reduz o volume e a duração das perdas e o período de excreção do vibrião. A tabela oficial traz, para maiores de 12 anos e adultos, inclusive gestantes, doxiciclina 300 mg em dose única como primeira escolha, com azitromicina 1 g em dose única ou ciprofloxacino 1 g em dose única como alternativas. Para menores de 12 anos, doxiciclina 2 a 4 mg/kg em dose única, ou azitromicina 20 mg/kg em dose única, com máximo de 1 g.

Dose única de doxiciclina liberada para gestante costuma soar errado a quem decorou a contraindicação da classe. É exatamente por ser dose única e por ser cólera — quadro que mata por desidratação em horas — que o balanço se inverte, e é assim que está no documento oficial.

Quando não é gastroenterite

Uso recente de antibiótico muda a hipótese. Diarreia que começa durante ou até semanas depois de um curso antimicrobiano, sobretudo em paciente hospitalizado, idoso ou com internação recente, levanta infecção por Clostridioides difficile — que não responde ao fluxo do plano A e exige investigação e tratamento próprios. Antidiarreico nesse cenário é especialmente ruim, pelo risco de megacólon tóxico.

No idoso, três armadilhas se repetem. Diarreia paradoxal por fecaloma, em que o líquido escapa ao redor da impactação e o exame revela ampola cheia. Isquemia mesentérica, com dor desproporcional ao exame e depois evacuação sanguinolenta. E diverticulite ou apendicite que se apresentam com alteração do hábito intestinal, dor localizada e defesa — quadro cirúrgico com sintoma digestivo alto de aparência banal.

Doença inflamatória intestinal pode abrir como disenteria que não cede: diarreia com sangue arrastada por semanas, perda de peso, manifestações extraintestinais. Se o quadro passa de 14 dias, ele deixa de ser DDA por definição — e o encaminhamento previsto no protocolo é para investigação, não para mais um ciclo de antibiótico. Em pessoa vivendo com HIV/aids, Cryptosporidium e Cystoisospora belli entram no diferencial da diarreia arrastada e aquosa, e o Guia de Vigilância lista os dois como agentes de adultos com aids.

Vigilância: MDDA, definição de surto e o que se notifica

A vigilância das DDA integra a vigilância das doenças de transmissão hídrica e alimentar e opera por monitorização — a MDDA. Ela não capta todos os casos do país: monitora os casos atendidos em unidades de saúde eleitas sentinelas pela vigilância epidemiológica das secretarias municipais. Os casos são registrados nos impressos I e II da MDDA e consolidados no Sivep-DDA na semana epidemiológica correspondente à data de início dos sinais e sintomas, com um conjunto mínimo de dados: idade, procedência, data de início dos sintomas, data do atendimento e plano de tratamento.

A definição de surto de DDA é mais larga do que a intuição sugere: a ocorrência de dois casos ou mais relacionados entre si, com histórico de exposição à mesma fonte, ou a alteração do padrão epidemiológico — aumento de casos, ocorrência de casos graves, mudança de faixa etária ou de sexo — considerando o monitoramento sistemático local. Dois casos ligados por um almoço já são surto.

Diante da suspeita de surto, qualquer unidade de saúde notifica: comunica a Secretaria Municipal de Saúde assim que toma conhecimento e registra no Sinan a Ficha de Investigação de Surto – DTA, como síndrome diarreica aguda ou com o CID-10 correspondente quando o quadro é específico. Surtos que configurem evento de saúde pública com potencial de ameaça devem ser notificados imediatamente ao Ministério da Saúde. Em unidade sentinela, além do Sinan, registra-se no Sivep-DDA o número de surtos identificados, investigados e com amostras coletadas. Casos que evoluírem para síndrome hemolítico-urêmica ganham ficha de notificação individual própria.

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Da porta ao plano: classificar, hidratar, decidir o antibiótico

O adulto com diarreia aguda é resolvido em três decisões encadeadas, nesta ordem: qual o estado de hidratação, qual plano ele determina, e se existe indicação de antibiótico. A etiologia entra só na terceira decisão, e quase sempre para dizer que não há indicação.

  1. 1Confirmar que é diarreia aguda: três ou mais evacuações em 24 horas, consistência diminuída, até 14 dias de evolução
  2. 2Excluir causa não infecciosa na anamnese: laxativo, antiácido, antibiótico recente, álcool, excesso de lácteos
  3. 3Classificar o estado de hidratação pelo quadro do Ministério da Saúde e definir o plano A, B ou C — na dúvida, o pior cenário
  4. 4Executar o plano com o volume e o tempo escritos, reavaliando pelos mesmos sinais
  5. 5Perguntar se há sangue nas fezes COM comprometimento do estado geral, ou cólera grave: só aí entra antibiótico
  6. 6Verificar se o caso se relaciona a outros — dois casos ligados à mesma fonte já configuram surto e disparam notificação e coleta

Plano A — sem sinais de desidratação

Prega desfaz-se imediatamente, olhos sem alteração, sem sede, pulso cheio. Tratamento domiciliar: líquidos após cada evacuação e cada vômito, na quantidade que o adulto aceitar, alimentação habitual, retorno em 2 dias ou antes se sinal de alerta.

Plano B — dois ou mais sinais, nenhum com asterisco

Irritado, olhos fundos, sedento bebendo avidamente, boca seca, prega desfaz-se lentamente, pulso ainda cheio. SRO de 50 a 100 mL/kg (média 75) em 4 a 6 horas, no serviço, até sumirem os sinais; ondansetrona 8 mg se vômito persistente, exceto gestante.

Plano C — dois ou mais sinais com pelo menos um asterisco

Letárgico ou inconsciente, incapaz de beber, pulso fraco ou ausente, prega desfaz-se em mais de 2 segundos. Expansão endovenosa com SF 0,9% ou Ringer lactato 30 mL/kg em 30 minutos e 70 mL/kg em 2h30, seguida de manutenção e reposição com KCl, SRO a partir de 2-3 horas e observação de no mínimo 6 horas.

EtapaA — sem desidrataçãoB — com desidrataçãoC — desidratação grave
Estado geralAtivo, alertaIrritado, intranquiloComatoso, hipotônico, letárgico ou inconsciente*
OlhosSem alteraçãoFundosFundos
SedeSem sedeSedento, bebe rápido e avidamenteNão é capaz de beber*
LágrimasPresentesAusentesAusentes
Boca/línguaÚmidaSeca ou levemente secaMuito seca
Sinal da prega abdominalDesaparece imediatamenteDesaparece lentamenteDesaparece muito lentamente (mais de 2 segundos)
PulsoCheioCheioFraco ou ausente*
Perda de peso (só em internado)Sem perdaAté 10%Acima de 10%
DecisãoSem sinais de desidrataçãoDois ou mais sinaisDois ou mais sinais, ao menos um com asterisco

Volume e tempo de cada plano no adulto (Ministério da Saúde, 2023)

PlanoO que se administraVolumeTempo e local
ALíquidos caseiros ou SRO após cada evacuação e cada vômitoMaiores de 10 anos: a quantidade que o paciente aceitarDomicílio; retorno em 2 dias ou antes, se sinal de alerta
BSolução de SRO, continuamente, guiada pela sede50 a 100 mL/kg (média de 75 mL/kg)4 a 6 horas, no estabelecimento de saúde, até desaparecerem os sinais
B — vômito persistenteOndansetrona, dose única, para viabilizar o SRO8 mg (adultos e maiores de 10 anos / mais de 30 kg)Durante o plano B; não utilizar em gestantes
B — sem melhoraGastróclise por sonda nasogástrica se persiste desidratadoMesma meta do plano BEncaminhar ao hospital se não houver melhora em 6 horas
C — expansãoSF 0,9% ou Ringer lactato, endovenoso30 mL/kg e, a seguir, 70 mL/kg30 minutos e, a seguir, 2 horas e 30 minutos (a partir de 1 ano)
C — manutençãoSG 5% + SF 0,9% na proporção 4:1, com KCl 10% 2 mL/100 mLAcima de 20 kg: 1.500 mL + 20 mL/kg do que exceder 20 kg (máximo 2.000 mL)24 horas, em ambiente hospitalar
C — reposiçãoSG 5% + SF 0,9% na proporção 1:1Iniciar com 50 mL/kg/dia e reavaliar conforme as perdas24 horas; SRO concomitante 2 a 3 horas após iniciar a veia

Antibiótico na diarreia aguda do adulto: as duas únicas portas

SituaçãoPrimeira escolha (adulto / mais de 30 kg)AlternativaReavaliação
Disenteria com comprometimento do estado geral, febre alta persistente, dor abdominal, tenesmo ou comprometimento sistêmicoCiprofloxacino 500 mg VO 12/12h por 3 diasCeftriaxona 50 a 100 mg/kg IM, 1x/dia, por 3 a 5 diasEm 2 dias; se persiste sangue e as condições gerais estão boas, seguir só os planos A/B/C, sem antibiótico
Cólera graveDoxiciclina 300 mg VO em dose única (inclusive gestantes)Azitromicina 1 g ou ciprofloxacino 1 g, dose únicaHidratação é a base; o antibiótico é complementar
Amebíase (falha do tratamento de Shigella ou trofozoíto de E. histolytica englobando hemácias)Metronidazol 50 mg/kg/dia, 3x/dia, por 10 dias-Depende de identificação nas fezes
Giardíase (diarreia de 14 dias ou mais com cistos ou trofozoítos)Metronidazol 15 mg/kg/dia, 3x/dia, por 5 dias-Quadro já saiu da definição de diarreia aguda
Diarreia aquosa, sem sangue, qualquer volumeNenhum antibiótico-Ineficaz, seleciona resistência e não deve ser prescrito

A alternativa com ceftriaxona vem escrita em mg/kg em todas as faixas do documento de 2023, inclusive na linha de adolescentes e adultos.

Zinco é prescrição de menores de 5 anos (10 mg/dia até 6 meses; 20 mg/dia dos 6 meses aos 5 anos, por 10 a 14 dias). Não há dose de adulto nesse protocolo.

Na dúvida entre duas classificações de hidratação, o plano é o do pior cenário — a regra está escrita no próprio quadro.

As fezes devem ser coletadas antes da administração de antibióticos, e na coleta de água em surto pede-se exame microbiológico, não apenas análise de potabilidade.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Antibiótico empírico na diarreia com sangue do adulto

Régua brasileira: trata quem tem disenteria com comprometimento do estado geral

O protocolo nacional autoriza iniciar antibiótico imediatamente, sem exame, quando há sangue nas fezes somado a comprometimento do estado geral, febre alta persistente, dor abdominal, tenesmo ou comprometimento sistêmico — e reavaliar em 2 dias.

Manejo do Paciente com Diarreia, Ministério da Saúde, 2023

Régua da IDSA: não tratar empiricamente enquanto se aguarda a investigação

A recomendação 30 diz que a terapia antimicrobiana empírica para diarreia com sangue, enquanto se aguardam os resultados da investigação, não é recomendada em adultos imunocompetentes, com exceções limitadas; a recomendação 35 orienta evitar antimicrobiano nas infecções por STEC O157 e outras produtoras de toxina Shiga 2, pelo risco de síndrome hemolítico-urêmica.

IDSA Clinical Practice Guidelines for Infectious Diarrhea, 2017

Na prova

A causa da diferença é laboratório e perfil de agente: o documento brasileiro é sindrômico, escrito para serviço que não tem coprocultura em tempo útil e num cenário em que a disenteria bacteriana com repercussão sistêmica é dominada por Shigella; a diretriz americana pressupõe painel molecular disponível na porta de entrada e tem no STEC O157 uma preocupação epidemiológica de primeira ordem. Enunciado que cita o Ministério da Saúde, unidade básica, protocolo do SUS ou paciente sem acesso a exame recorta o mundo brasileiro. Enunciado que descreve diarreia sanguinolenta afebril após carne malpassada, ou que oferece alternativa mencionando síndrome hemolítico-urêmica e STEC, recorta o mundo da IDSA.

Qual antibiótico usar na disenteria do adulto

Ciprofloxacino como escolha nacional

Para adolescentes e adultos acima de 30 kg, o esquema é ciprofloxacino 500 mg por via oral de 12 em 12 horas por 3 dias, com ceftriaxona intramuscular como alternativa. Crianças até 30 kg ficam com azitromicina.

Manejo do Paciente com Diarreia, Ministério da Saúde, 2023

Escolha guiada por resistência local e história de viagem

Quando há indicação de terapia empírica, a recomendação 31 da IDSA orienta fluoroquinolona como ciprofloxacino, ou azitromicina, conforme os padrões locais de sensibilidade e a história de viagem; o guideline do ACG indica azitromicina na diarreia do viajante com febre.

IDSA, 2017; ACG Clinical Guideline (Riddle, DuPont, Connor), 2016

Na prova

A diferença aqui é de método, não de fármaco: o documento brasileiro fixa uma escolha única porque é um cartaz de rede, usado por quem não tem antibiograma nem perfil local publicado; os documentos internacionais deixam a escolha aberta porque contam com vigilância de resistência acessível ao prescritor. Vinheta com viagem recente, com Campylobacter nomeado ou com menção a resistência a quinolona aponta para o raciocínio da azitromicina; vinheta de posto de saúde brasileiro citando o protocolo nacional aponta para a escolha fixa do documento de 2023.

Loperamida na diarreia aguda do adulto

Proibição sem exceção no documento brasileiro

O documento de 2023 encerra a seção de medicamentos com a frase, em destaque, de que antidiarreicos não devem ser usados — sem faixa etária, sem qualificador e sem distinguir diarreia aquosa de inflamatória.

Manejo do Paciente com Diarreia, Ministério da Saúde, 2023

Permitida na aquosa do adulto imunocompetente, vetada na inflamatória

A recomendação 47 da IDSA admite loperamida em adultos imunocompetentes com diarreia aquosa aguda, e a veta em qualquer idade quando há suspeita ou comprovação de quadro em que possa resultar megacólon tóxico, ou seja, diarreia inflamatória ou com febre; o ACG vai além e indica loperamida junto ao antibiótico na diarreia do viajante para encurtar sintomas.

IDSA, 2017; ACG Clinical Guideline (Riddle, DuPont, Connor), 2016

Na prova

A causa da proibição brasileira é o formato do documento: um cartaz único, para todas as idades e para serviços sem triagem, em que a regra simples protege mais do que a regra condicional — o mesmo papel orienta a criança desnutrida e o adulto do plantão. Enunciado ambientado em UBS, citando o Ministério da Saúde ou tratando de criança segue a proibição; enunciado sobre viajante adulto, com diarreia aquosa e sem febre, e alternativas que combinam antibiótico com sintomático, está no terreno das diretrizes de fora.

Para que serve o exame de fezes na diarreia aguda

Uso populacional: o laboratório serve à vigilância

No corpo brasileiro, a pesquisa etiológica é descrita para conhecer os agentes circulantes e orientar prevenção e controle, sendo imprescindível na vigência de surtos — quando se coletam fezes, água e alimento, antes do antibiótico.

Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, Ministério da Saúde, 2024

Uso individual: testar quem tem sinal de gravidade

A recomendação 8 da IDSA indica pesquisa em fezes para Salmonella, Shigella, Campylobacter, Yersinia, Clostridioides difficile e STEC diante de febre, fezes com sangue ou muco, cólica ou dor abdominal intensa, ou sinais de sepse, e a recomendação 14 alerta que o painel molecular detecta DNA, não necessariamente organismo viável.

IDSA Clinical Practice Guidelines for Infectious Diarrhea, 2017

Na prova

A causa é disponibilidade: painel molecular sindrômico não está na porta de entrada do SUS e a coprocultura costuma chegar depois do fim do quadro, de modo que o documento brasileiro reserva o laboratório para a pergunta coletiva. Cenário de surto, unidade sentinela, MDDA, Sivep-DDA ou coleta de água e alimento é vocabulário exclusivo do corpo brasileiro. Cenário de paciente individual imunossuprimido, séptico ou com dor intensa, e alternativa mencionando painel molecular, é vocabulário da diretriz internacional.

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Caso resolvido

Homem de 34 anos, 70 kg, chega à UBS com 2 dias de diarreia aquosa, cerca de 10 evacuações por dia, sem sangue nem muco, com náuseas e dois episódios de vômito. Nega febre, viagem e uso recente de medicamentos. Comeu em um evento no fim de semana, e um colega de trabalho teve quadro parecido. Ao exame: intranquilo, olhos fundos, muito sedento bebendo com avidez, mucosa oral seca, prega abdominal desfaz-se lentamente, pulso cheio, PA 116x72 mmHg, FC 98 bpm, afebril.
definição
Três ou mais evacuações em 24 horas com queda de consistência e 2 dias de evolução: é diarreia aguda. Sem sangue, sem febre, sem uso recente de antibiótico ou laxante — quadro aquoso, provavelmente viral ou por E. coli enterotoxigênica.
classificação
Quatro sinais da coluna B (intranquilo, olhos fundos, sedento bebendo avidamente, prega lenta), nenhum com asterisco: pulso cheio e o paciente bebe. São dois ou mais sinais sem asterisco — plano B.
volume
SRO de 50 a 100 mL/kg em 4 a 6 horas, na unidade. Para 70 kg, algo entre 3.500 e 7.000 mL, com a média de 75 mL/kg em torno de 5.250 mL, administrados continuamente e guiados pela sede.
vômito
Se os vômitos impedirem a ingestão do soro, uma dose de ondansetrona 8 mg — a dose de quem tem mais de 10 anos ou 30 kg. Não é gestante, portanto não incide o alerta do documento.
antibiótico
Nenhum. Não há sangue nas fezes nem comprometimento do estado geral, e não é cólera. Volume alto de evacuações não é indicação. Antidiarreico também não entra.
reavaliação
Reavaliar pelos mesmos sinais. Se sumirem, passa ao plano A com alimentação habitual e orientação de retorno. Se continuar desidratado, gastróclise por sonda nasogástrica; se piorar para desidratação grave, plano C; e se não houver melhora em 6 horas, encaminhar ao hospital.
vigilância
Dois casos relacionados à mesma exposição já configuram surto. A unidade comunica a Secretaria Municipal de Saúde e registra a Ficha de Investigação de Surto – DTA no Sinan, com coleta de fezes antes de qualquer antibiótico e, se houver alimento ou água suspeitos, coleta com pedido de exame microbiológico.
07

Agora feche você

Mulher de 47 anos, 60 kg, com 3 dias de diarreia, hoje com 8 evacuações contendo sangue e muco, tenesmo, cólica intensa e temperatura axilar de 38,8 ºC. Está prostrada, com olhos fundos, sedenta, boca seca e prega abdominal que desfaz lentamente; pulso cheio, PA 104x66 mmHg, FC 104 bpm. Não usou antibiótico recentemente e não viajou.
achado
Diarreia aguda de padrão inflamatório: sangue, muco, tenesmo, cólica e febre. Quatro sinais da coluna B, nenhum com asterisco.
hidratação
Plano B: SRO de 50 a 100 mL/kg em 4 a 6 horas, na unidade, até desaparecerem os sinais de desidratação. Para 60 kg, 3.000 a 6.000 mL.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever quinolona porque a diarreia é volumosa Número de evacuações, volume e incômodo não indicam antibiótico em lugar nenhum do protocolo. As portas são duas: disenteria com comprometimento do estado geral e cólera grave. O enunciado costuma caprichar no sofrimento do paciente para tornar a alternativa com ciprofloxacino atraente.
  2. 2Trocar o esquema de expansão do adulto pelo do lactente A partir de 1 ano, e portanto em todo adulto, são 30 mL/kg em 30 minutos seguidos de 70 mL/kg em 2 horas e 30 minutos. Os mesmos volumes em 1 hora e 5 horas pertencem ao menor de 1 ano. As duas linhas aparecem no mesmo quadro e a alternativa errada é sempre a de baixo.
  3. 3Parar o plano C na expansão Depois dos 100 mL/kg vêm manutenção com glicosado e fisiológico 4:1 (com teto de 2.000 mL acima de 20 kg), reposição 1:1 iniciando com 50 mL/kg/dia, KCl 10% 2 mL a cada 100 mL de manutenção, SRO concomitante a partir de 2 a 3 horas e observação de no mínimo 6 horas. Alternativa que só cita a expansão está incompleta por desenho.
  4. 4Repetir ou escalonar o antibiótico porque o sangue persistiu Após 48 horas, adulto com boas condições gerais e sangue nas fezes segue apenas com plano A, B ou C — sem antibioticoterapia. Só as condições gerais comprometidas levam a ceftriaxona ou internação. Persistência de sangue isolada não é falha terapêutica no protocolo.
  5. 5Prescrever zinco para o adulto Zinco é medicação de menor de 5 anos: 10 mg/dia até 6 meses e 20 mg/dia dos 6 meses aos 5 anos, por 10 a 14 dias. A alternativa com zinco em adulto é atraente justamente por ser o detalhe mais decorado do capítulo pediátrico.
  6. 6Dar ondansetrona a gestante, ou como tratamento da diarreia O antiemético existe no plano B com finalidade única: permitir que o paciente ingira o soro quando há vômitos persistentes. A dose do adulto é 8 mg, e o documento marca em destaque que não deve ser utilizado em gestantes.
  7. 7Chamar de infecção o vômito que começou 3 horas depois do almoço Incubação de 1 a 6 horas com vômito proeminente, diarreia discreta, febre rara e resolução em 24 horas é toxina pré-formada de Staphylococcus aureus ou Bacillus cereus. Não há bactéria a combater no intestino, e a conduta é hidratação — mas dois ou mais casos ligados ao mesmo alimento configuram surto e disparam notificação.
  8. 8Notificar todo caso de diarreia no Sinan, ou não notificar nada Caso isolado só entra quando atendido em unidade sentinela, pelos impressos I e II da MDDA e consolidado no Sivep-DDA por semana epidemiológica. Surto — dois casos ou mais relacionados, ou alteração do padrão — é comunicado à Secretaria Municipal de Saúde e registrado no Sinan pela Ficha de Investigação de Surto – DTA, em qualquer unidade de saúde.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é de cólera com desidratação grave e choque hipovolêmico; a prioridade absoluta é a reposição volêmica agressiva (hidratação venosa) para corrigir a perda hídrica, que é a principal causa de morte. A antibioticoterapia (ex.: doxiciclina/azitromicina) é adjuvante, reduz a duração, mas não substitui a hidratação como medida vital imediata. Loperamida (antimotilidade) é contraindicada em diarreia infecciosa aguda com toxina. Dieta zero prolongada é inadequada; a realimentação precoce é recomendada. Repor apenas potássio ignora a hipovolemia que ameaça a vida.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reproduza de cabeça os três asteriscos do quadro de hidratação (comatoso ou letárgico, incapaz de beber, pulso fraco ou ausente) e a regra dos dois sinais. Depois escreva o volume e o tempo dos planos B e C do adulto: 50 a 100 mL/kg em 4 a 6 horas; 30 mL/kg em 30 minutos mais 70 mL/kg em 2h30. Por fim, diga em voz alta as duas únicas situações que recebem antibiótico.

em 30 dias

Monte três vinhetas curtas e classifique-as sem consultar: adulto com diarreia aquosa e olhos fundos; adulto com disenteria febril e prostração; adulto letárgico que não consegue beber. Para cada uma, escreva plano, volume, se há antibiótico e qual, o que fazer na reavaliação e se o caso dispara notificação de surto. Confira contra a tabela de volumes e a de antibióticos.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 52 anos chega ao pronto atendimento com 4 dias de diarreia, hoje com fezes com sangue e muco, febre de 38,9 ºC, cólica intensa e tenesmo. Está prostrado, com olhos fundos e boca seca; a prega abdominal desfaz-se lentamente e o pulso está cheio. Classifique o estado de hidratação, prescreva o plano com volume e tempo, decida sobre antibiótico e diga o que fazer na reavaliação de 48 horas. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Diarreia aguda infecciosa e reidratação – Diarreia aguda infecciosa no adulto — Preparatório para provas | OsceLabs