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Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica

Duas rotas saem da mesma queixa: a síndrome do intestino irritável se diagnostica por critério positivo, e a diarreia crônica se investiga por uma lista que, no SUS, não é a lista da diretriz americana. A prova cobra o critério de Roma IV palavra por palavra, a lista inicial de exames e qual medicamento o paciente vai de fato conseguir na farmácia.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos apresenta dor abdominal em cólica no quadrante inferior esquerdo, associada a distensão e alteração do hábito intestinal com períodos de diarreia e constipação há mais de 1 ano. A dor melhora após a evacuação. Nega febre, sangramento, emagrecimento ou despertar noturno pelos sintomas. Exames laboratoriais e colonoscopia normais. Qual o diagnóstico mais provável?

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Como esse tema cai

A queixa que chega à unidade básica é quase sempre a mesma: "faz meses que meu intestino não regula". Dali saem duas rotas que a prova adora embaralhar. Uma é a diarreia crônica — mais de quatro semanas de fezes amolecidas, um sintoma que exige investigação e que pode terminar em doença celíaca, doença inflamatória intestinal, colite microscópica, insuficiência pancreática, parasitose ou neoplasia. A outra é a síndrome do intestino irritável, que não é o que sobra depois de excluir tudo: é um diagnóstico que se firma pelo preenchimento de um critério, com uma lista curta de exames ao lado.

As duas rotas dividem a mesma porta de entrada e se separam por dois achados. O primeiro é o sinal de alarme — sangue, anemia, emagrecimento, massa, febre persistente, história familiar de câncer colorretal. O segundo é o tempo: diarreia crônica se conta em semanas, e a síndrome do intestino irritável exige três meses de sintomas com início há pelo menos seis. Um paciente com cinco semanas de diarreia tem diarreia crônica e ainda não pode receber o rótulo funcional.

O que a banca cobra, na prática, é bastante concreto: o enunciado de Roma IV palavra por palavra, incluindo a frequência mínima de dor e o jeito de contar o subtipo; a lista de exames iniciais que o protocolo brasileiro manda pedir na atenção primária, que não é a lista da diretriz americana; e qual medicamento o paciente vai de fato encontrar na farmácia do SUS — porque quase todo o arsenal citado nas diretrizes internacionais para essa síndrome não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. A diarreia aguda infecciosa, com seus planos de hidratação e sua decisão de antibiótico, é assunto de outro capítulo desta apostila.

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O que muda decisão

Quatro semanas, trinta dias, seis meses: três relógios diferentes

O corte que abre a investigação de diarreia crônica no adulto é mais de quatro semanas. É esse o prazo do protocolo de regulação ambulatorial em gastroenterologia adulto do TelessaúdeRS-UFRGS, que o usa como condição de encaminhamento à especialidade — com uma ressalva que muita gente pula: encaminha-se a diarreia crônica na impossibilidade de realizar diagnóstico ou tratamento na atenção primária. Duração sozinha não encaminha ninguém. O que encaminha é duração mais impasse.

Esse relógio não é o mesmo da criança. Na pediatria, a diarreia que passa de catorze dias é chamada de persistente e a que passa de trinta dias é chamada de crônica; no adulto, o documento de regulação trabalha com quatro semanas e não usa a faixa intermediária. São dois documentos com finalidades diferentes — um organiza a fila da especialidade, o outro organiza a conduta nutricional e o risco de desnutrição —, e por isso vale conferir de qual população o enunciado está falando antes de aplicar o número.

E nenhum dos dois é o relógio da síndrome do intestino irritável. Roma IV exige que a dor abdominal recorrente esteja presente nos últimos três meses, com início dos sintomas há pelo menos seis meses. É um critério deliberadamente lento: serve para impedir que uma diarreia pós-infecciosa de dois meses, ou um episódio de estresse agudo, receba um rótulo crônico. Na prática de consultório isso significa que existe um intervalo — entre a quarta semana e o sexto mês — em que o paciente já é caso de investigação e ainda não é caso de rótulo funcional.

A distinção importa porque muda a conduta. Quem tem diarreia crônica de seis semanas e nenhum sinal de alarme entra na avaliação inicial e nos tratamentos empíricos; não se prescreve para ele um plano de manejo de doença funcional de longo prazo. Quem preenche Roma IV entra num plano que é, por definição, de anos.

Roma IV: um dia por semana, e duas de três

O critério diagnóstico de Roma IV, publicado em 2016, é este: dor abdominal recorrente, em média pelo menos um dia por semana nos últimos três meses, associada a duas ou mais das três características seguintes — (1) relacionada à defecação; (2) associada a mudança na frequência das evacuações; (3) associada a mudança na forma, isto é, na aparência das fezes. Os critérios devem estar preenchidos nos últimos três meses, com início dos sintomas há pelo menos seis meses antes do diagnóstico.

Três mudanças em relação a Roma III derrubam candidato todo ano. A primeira: o termo desconforto saiu. Roma III falava em "dor ou desconforto"; Roma IV fala só em dor. O motivo é linguístico e foi assumido pelo comitê — há idiomas em que a palavra desconforto não existe ou significa outra coisa, e estudos mostraram que os próprios pacientes entendiam o termo de maneiras muito diferentes.

A segunda: a frequência mínima de dor subiu de três dias por mês (Roma III) para um dia por semana em média (Roma IV). Parece pouco, mas quase dobra a exigência e foi baseada em estudo populacional com o objetivo declarado de aumentar sensibilidade e especificidade do conjunto.

A terceira é a mais cobrada de todas. Roma III exigia que a dor melhorasse com a defecação. Roma IV trocou por relacionada à defecação — e essa troca é substantiva, porque parte dos pacientes piora ao evacuar. Quem decorou "dor que alivia ao evacuar" está decorando o critério antigo, e o distrator que aparece na alternativa é exatamente esse.

Distensão e inchaço abdominal são sintomas comuns e não são obrigatórios. Roma III havia retirado o inchaço da definição por ser inespecífico demais; Roma IV o reconhece como frequente, mas não o exige. Um enunciado que descreve dor típica, alteração de forma das fezes e nenhuma menção a distensão continua compatível com o diagnóstico.

Por fim, a lógica: o diagnóstico é positivo, não de exclusão. É a única recomendação da diretriz americana de 2021 sobre a síndrome que recebeu simultaneamente força forte e alta qualidade de evidência — a estratégia positiva comparada à estratégia de exclusão melhora a relação custo-efetividade. O rendimento diagnóstico de investigar exaustivamente um paciente com sintomas típicos e sem sinais de alarme é baixo, e o custo da investigação é alto.

O subtipo se conta só nos dias em que a fezes é anormal

Definido o diagnóstico, define-se o subtipo — e é aqui que a maioria dos erros acontece. A classificação usa a escala de Bristol de forma das fezes, criada nos anos 1990 no Bristol Royal Infirmary, com sete tipos: (1) caroços duros e separados, difíceis de eliminar; (2) em forma de salsicha, mas grumosa; (3) como salsicha, com rachaduras na superfície; (4) como salsicha ou cobra, lisa e macia; (5) pedaços moles com bordas nítidas, eliminados facilmente; (6) pedaços fofos de bordas irregulares, fezes pastosas; (7) aquosa, sem pedaços sólidos, inteiramente líquida.

Para a subtipagem, contam como anormais apenas os tipos 1 e 2 e os tipos 6 e 7. Os tipos 3 e 4 são normais. O tipo 5 se associa a diarreia em algum grau na descrição original, mas não entra na conta dos extremos.

A mudança que Roma IV introduziu foi tornar explícito que o subtipo é definido pelo hábito intestinal predominante nos dias com evacuação anormal, e não pela média de todos os dias — que incluiria dias de hábito normal. O comitê chegou a isso analisando dados de um levantamento populacional: incluir na conta os dias sem evacuação não aumentava a especificidade da subtipagem, enquanto restringir a análise aos dias com evacuação anormal aumentava.

Os cortes são os mesmos de sempre, aplicados a essa base: síndrome do intestino irritável com constipação (SII-C) quando mais de 25% das evacuações são do tipo 1 ou 2 e menos de 25% são do tipo 6 ou 7; com diarreia (SII-D) quando mais de 25% são do tipo 6 ou 7 e menos de 25% são do tipo 1 ou 2; mista (SII-M) quando mais de 25% caem em cada extremo; e não subtipada (SII-N) quando não se encaixa em nenhum dos três.

Para fazer isso direito, a recomendação é um diário de evacuações de catorze dias. Em ensaio clínico é obrigatório; em consultório, é o que separa a subtipagem verdadeira da impressão do paciente sobre si mesmo. E a subtipagem não é enfeite: a diretriz americana registra que categorizar corretamente melhora a terapia, porque praticamente todo medicamento disponível age sobre um extremo ou sobre o outro.

Os sinais de alarme que tiram o paciente da rota funcional

O protocolo brasileiro de regulação ambulatorial reúne, numa única nota de rodapé repetida em dois protocolos, o que ele chama de suspeita de neoplasia maligna: sangramento intestinal crônico não decorrente de doença orificial; anemia por deficiência de ferro sem causa definida após investigação na atenção primária; massa abdominal com topografia colônica ou retal; alteração de hábito intestinal persistente; dor abdominal ou retal; tenesmo; febre persistente; emagrecimento; e história familiar de neoplasia colorretal. São nove itens, e a presença de qualquer um deles muda a rota: o encaminhamento passa a ser para gastroenterologia ou proctologia, e a colonoscopia entra em cena.

Repare que a lista não é feita de sintomas raros. Tenesmo, dor retal e alteração persistente de hábito intestinal são queixas que também aparecem na síndrome funcional — o que separa é a companhia. Alteração de hábito isolada, em pessoa jovem, com dor que se relaciona à defecação e nenhum dos outros oito itens, não é sinal de alarme; alteração de hábito com emagrecimento é.

Do lado internacional, a recomendação é explicitamente contra a colonoscopia de rotina em paciente com sintomas de síndrome do intestino irritável abaixo de 45 anos e sem sinais de alerta — recomendação condicional, evidência de baixa qualidade. O argumento é o mesmo do diagnóstico positivo: o rendimento é baixo e o custo, alto. O rastreamento de câncer colorretal em quem tem risco aumentado por história familiar tem régua própria, com idades de início e intervalos que dependem da idade do familiar ao diagnóstico, e é assunto do capítulo de câncer colorretal.

Há um detalhe de política pública que muda a leitura do enunciado: o protocolo registra que não existe recomendação do Ministério da Saúde nem política pública nacional de rastreamento populacional de câncer colorretal para pessoas sem risco aumentado. Ou seja, quando a questão pergunta o que fazer com o paciente de 52 anos, assintomático e sem história familiar, a resposta brasileira não é automaticamente a mesma da americana.

A avaliação inicial da diarreia crônica no SUS — e o que a lista não tem

O Quadro 13 do protocolo do TelessaúdeRS é a lista que a prova cobra. A avaliação inicial da diarreia crônica é: anamnese e exame físico; hemograma; glicemia; TSH; anti-HIV (ou teste rápido para HIV); parasitológico de fezes em três amostras; coprocultura; leucócitos fecais; e pesquisa de sangue oculto. São oito exames, e quatro deles são de fezes.

Junto vêm dois tratamentos empíricos que o documento posiciona antes do encaminhamento: o teste de restrição de lactose e derivados — o diagnóstico de intolerância pode ser clínico, pela melhora após excluir lactose por três semanas e pelo retorno dos sintomas na reintrodução — e o tratamento de parasitoses com albendazol 400 mg/dia por cinco dias. A inclusão do tratamento de parasitoses no quadro é a novidade desta edição do protocolo, e é o tipo de item que a banca gosta de cobrar porque combina medicamento, dose e duração numa linha só.

Vale ler a lista pelo que ela não tem. Não há calprotectina fecal, não há proteína C reativa e não há sorologia de doença celíaca. A ausência não é descuido: é o efeito de um documento cuja função é organizar o acesso à especialidade num sistema em que esses exames não estão distribuídos de maneira uniforme na atenção primária. A presença do anti-HIV, por outro lado, é decisão epidemiológica brasileira — diarreia crônica é apresentação clássica de imunodeficiência avançada, e o teste rápido está em toda unidade.

O parasitológico em três amostras também tem razão de ser, e a própria diretriz americana a concede. Ela recomenda contra a pesquisa rotineira de patógenos entéricos em todos os pacientes com síndrome do intestino irritável — recomendação condicional, baixa qualidade —, mas escreve, no corpo do texto, que como a giardíase tem maior prevalência em países em desenvolvimento é razoável realizar o teste nessas regiões. A giardíase merece atenção especial: o risco relativo de desenvolver síndrome do intestino irritável depois dela é de 3,4, e entre os pacientes com causa parasitária de enterite 41,9% desenvolvem a síndrome, contra 13,8% dos que tiveram infecção bacteriana.

Esse é o conceito de síndrome do intestino irritável pós-infecciosa, com prevalência agrupada estimada em 11% depois de uma gastroenterite e razão de chances de 3,51. Ela é mais comum em mulheres, em quem recebeu antibiótico e em quem tem história de ansiedade ou depressão. Num país com a nossa carga de parasitoses, o enunciado que descreve diarreia crônica surgida semanas depois de um quadro agudo está quase sempre apontando para esse caminho.

Doença celíaca: ter síndrome do intestino irritável já é indicação de rastrear

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca foi reescrito em 2025 e revogou a versão de 2015. Ele traz um quadro com as situações que indicam rastreamento sorológico mesmo sem manifestação clínica característica — e a síndrome do intestino irritável está nominalmente nessa lista, ao lado de elevação inexplicada de transaminases, colite microscópica, tireoidite de Hashimoto, doença de Graves, osteopenia ou osteoporose, ataxia ou neuropatia periférica não explicadas, aftas de repetição, defeitos de esmalte dentário, infertilidade e abortamentos de repetição, síndrome da fadiga crônica, epilepsia, cefaleia, psoríase, síndrome de Down e de Turner, entre outras. Ter o rótulo funcional, portanto, não dispensa o rastreio — obriga a ele.

O teste inicial é a dosagem sérica simultânea de anti-transglutaminase tecidual IgA (tTG IgA) e de IgA total. A razão de pedir os dois juntos é que a deficiência de IgA produz falso-negativo da sorologia — a chamada doença celíaca soronegativa. A sensibilidade do tTG IgA em sintomáticos vai de 92% a 100% e a especificidade de 91% a 100%; em assintomáticos rastreados, cai para 71% e 93%.

Duas travas do protocolo mudam conduta. A primeira: o anti-endomísio (EMA) tem excelente desempenho, mas exige técnica mais trabalhosa e onerosa e, por isso, não é recomendado como teste de rastreio no SUS. A segunda: a genotipagem HLA-DQ2 e DQ8 não foi incorporada ao SUS, por não fornecer diagnóstico conclusivo e ter elevado impacto orçamentário — decisão registrada em portaria própria de 2023 e repetida no protocolo.

A trava mais cobrada é temporal: o rastreamento e o diagnóstico devem ser feitos em vigência de dieta com glúten. Paciente que retirou o glúten por conta própria negativa a sorologia e cicatriza a mucosa; testar nessa condição produz um resultado que não significa nada. O caminho é reintroduzir o glúten e só então testar — conversa desagradável, porque o paciente costuma estar melhor sem ele.

A confirmação, no Brasil, é sempre histológica: os marcadores sorológicos não substituem a biópsia de duodeno por endoscopia digestiva alta. As exceções são apenas distúrbio de coagulação e gestação, em que a sedação inviabiliza o exame e o diagnóstico se apoia na clínica, na sorologia e na resposta à dieta. E há um quadro de indicações de biópsia independentemente da sorologia, em que a primeira linha é justamente diarreia crônica não sanguinolenta — seguida de diarreia com má absorção ou perda de peso, anemia ferropriva sem outra causa, sintomas digestivos com história familiar de doença celíaca, sintomas digestivos em portador de doença autoimune ou de deficiência de IgA, baixa estatura na criança, dermatite herpetiforme comprovada por biópsia cutânea e ostomia com alto débito inexplicado.

Ao pedir a endoscopia, peça a coleta certa: ao menos seis fragmentos, sendo dois do bulbo duodenal e quatro da segunda porção, acondicionados em frascos separados e identificados. A lesão celíaca não é uniforme dentro do próprio duodeno, e amostragem pobre produz laudo normal em paciente doente. No seguimento, a anti-transglutaminase IgA se repete seis meses após o início da dieta isenta de glúten; no primeiro ano, o acompanhamento é a cada três a seis meses, e anual depois disso.

Duas consequências do dano de mucosa aparecem em vinheta com frequência. A deficiência de dissacaridases produz intolerância temporária à lactose e à sacarose, que reverte em cerca de dois meses de dieta isenta de glúten, com a normalização das vilosidades — motivo pelo qual não se rotula intolerância definitiva no celíaco recém-diagnosticado. E o supercrescimento bacteriano do intestino delgado pode estar presente como doença secundária, o que explica o paciente aderente que continua com distensão e diarreia.

As causas que a lista inicial não pega

Quando a avaliação inicial volta normal e a diarreia persiste, sobram quatro diagnósticos que a lista de oito exames não alcança — e cada um tem um endereço anatômico e um endereço de política pública.

A colite microscópica é diarreia aquosa, sem sangue, tipicamente em pessoa mais velha e frequentemente associada a medicamentos. A colonoscopia é macroscopicamente normal: o diagnóstico só existe se o endoscopista colher biópsias de mucosa de aparência normal. É a causa que se perde por um pedido mal formulado. Ela aparece, aliás, na lista de indicações de rastreamento de doença celíaca do protocolo brasileiro — as duas andam juntas.

A diarreia por má absorção de ácidos biliares é a que segue colecistectomia ou ressecção ileal: os sais não reabsorvidos chegam ao cólon e aumentam a secreção de água. O sequestrante de ácidos biliares é o tratamento lógico, e aqui a régua internacional e a disponibilidade brasileira coincidem por caminhos diferentes: a diretriz americana não sugere sequestrantes para os sintomas globais de síndrome do intestino irritável com diarreia — recomendação condicional, evidência de qualidade muito baixa —, e a colestiramina não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. Note a diferença de construto: a recomendação negativa é sobre sintoma global de síndrome funcional, não sobre má absorção de sais biliares comprovada.

A insuficiência pancreática exócrina dá esteatorreia, e é a única dessas quatro causas com porta aberta e sinalizada no SUS: a pancreatina 10.000 e 25.000 UI está no Componente Especializado, amarrada aos protocolos de fibrose cística e de insuficiência pancreática exócrina. Quem preenche o protocolo, recebe.

E há o hipertireoidismo, que não é exatamente causa oculta — é justamente por ele que o TSH está na lista inicial de oito exames. Vale somar o uso abusivo de laxantes e a diarreia factícia, que costumam aparecer em vinheta com hipocalemia desproporcional ao quadro.

Do lado do tratamento, o mapa da farmácia é desigual: a colite microscópica tem como primeira linha internacional a budesonida de liberação ileal, e a Rename traz budesonida apenas em apresentações nasal e inalatória, amarradas a asma e doença pulmonar obstrutiva crônica; a mesalazina existe, mas no Componente Especializado e presa aos protocolos de doença de Crohn e de retocolite ulcerativa. Nenhuma das duas se dispensa para colite microscópica.

Mapa longitudinal do tubo digestivo com cinco marcadores ligados a cartões vazios: duodeno, jejuno, íleo terminal, cabeça do pâncreas e parede do cólon transverso.
Cada causa de diarreia crônica tem endereço anatômico: o duodeno responde pela doença celíaca, o jejuno pelo supercrescimento bacteriano, o íleo terminal pela má absorção de sais biliares, o pâncreas pela insuficiência exócrina e a parede do cólon pela colite microscópica — a única que exige biópsia de mucosa de aparência normal.

SIBO: o que a Federação Brasileira padronizou e o que o laboratório daqui consegue medir

O supercrescimento bacteriano do intestino delgado ganhou posicionamento oficial da Federação Brasileira de Gastroenterologia em 2025, publicado em Arquivos de Gastroenterologia. O documento existe porque o diagnóstico estava sendo feito de qualquer jeito, e ele padroniza três coisas: substrato, tempo e ponto de corte.

O teste respiratório usa glicose 75 g em 250 mL de água ou lactulose 10 g em 250 mL. A diferença entre os dois é topográfica: a glicose é absorvida rapidamente no delgado proximal, e a lactulose percorre todo o delgado. O teste dura 90 minutos, com coletas a cada 15 minutos. Considera-se positivo quando há, sobre o valor basal, elevação de hidrogênio ≥ 20 ppm, de metano ≥ 10 ppm, ou soma dos dois ≥ 15 ppm.

O preparo é longo e é parte da resposta: suspender antibióticos quatro semanas antes; evitar procinéticos e laxantes por pelo menos uma semana; jejum de 8 a 12 horas; restrição de carboidratos fermentáveis nas 24 horas anteriores; e nada de fumar ou fazer exercício intenso no dia. Teste mal preparado é a explicação mais comum de resultado que não bate com a clínica.

O padrão de referência continua sendo o aspirado de intestino delgado: jejunal com ≥ 10⁵ UFC/mL ou duodenal com ≥ 10³ UFC/mL. Repare que o ponto de corte muda com o sítio — dois logaritmos de diferença entre jejuno e duodeno —, e trocar um pelo outro inverte o laudo.

Há um limite prático que o próprio posicionamento registra: a experiência com equipamento que mede metano no Brasil é limitada e ele ainda não está disponível comercialmente. Na prática, o critério de metano existe no papel e a maior parte dos laboratórios brasileiros só consegue medir hidrogênio.

O tratamento preferencial é a rifaximina 550 mg três vezes ao dia por 14 dias, com taxa de resposta global de 47,4%. Quando ela não está disponível, o próprio documento oferece as alternativas: metronidazol 250 mg três vezes ao dia ou ciprofloxacino 250 a 500 mg duas vezes ao dia, por 10 a 14 dias. Essa frase — "quando a rifaximina não está disponível" — é a ponte entre a diretriz e a farmácia brasileira, e é o que a torna aplicável no SUS: metronidazol e ciprofloxacino estão os dois no Componente Básico da Rename, o primeiro na categoria Acesso e o segundo na categoria Alerta da classificação de uso racional de antimicrobianos.

Por fim, o posicionamento é explícito quanto à convivência: o supercrescimento coexiste com frequência com a síndrome do intestino irritável, podendo imitar ou agravar seus sintomas — o que complica tanto o diagnóstico quanto o manejo dos dois. Os fatores de risco são distúrbios de motilidade, redução da secreção ácida gástrica, alterações estruturais do delgado e imunodeficiências, com diabetes, esclerose sistêmica, doença de Crohn e uso crônico de opioide entre as condições associadas.

Tratar a síndrome com o que existe na farmácia básica

Aqui a distância entre a diretriz e o balcão é grande, e a prova brasileira gosta disso. Das terapias que a diretriz americana de 2021 recomenda com força forte, três não existem na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: rifaximina para os sintomas globais do subtipo com diarreia, ativadores de canal de cloro (lubiprostona) e agonistas da guanilato ciclase (linaclotida) para o subtipo com constipação. A alosetrona, antagonista 5-HT3 reservado a mulheres com sintomas graves refratários, e a eluxadolina, agonista/antagonista opioide misto, também não estão disponíveis por aqui.

O que sobra é mais do que parece, e boa parte está num lugar onde ninguém procura. A fibra solúvel — e não a insolúvel — é recomendação forte, de qualidade moderada, para os sintomas globais da síndrome. O agente formador de bolo fecal que consta da Rename é o plantago (Plantago ovata), 3 a 30 g por dia, em pó para dispersão oral, granulado simples ou pó efervescente, no Componente Básico — dentro do anexo de fitoterápicos, e não na lista principal.

No mesmo anexo está o segundo achado: hortelã (Mentha x piperita), em cápsula, 60 a 440 mg de mentol e 28 a 256 mg de mentona por dia, classificada sob código de antiespasmódico. A diretriz americana sugere o uso da hortelã para alívio dos sintomas globais — recomendação condicional, evidência de baixa qualidade —, atribuída ao bloqueio de canais de cálcio pelo L-mentol e ao consequente relaxamento da musculatura lisa. É a única coisa com endereço de antiespasmódico no Componente Básico: nenhum antiespasmódico sintético está na Rename. Butilbrometo de escopolamina, mebeverina, trimebutina, brometo de otilônio e pinavério — nenhum deles consta da lista, em nenhum componente.

O terceiro pilar disponível é o neuromodulador. Os antidepressivos tricíclicos têm recomendação forte, de qualidade moderada, para os sintomas globais da síndrome, e é justamente a classe que o SUS tem: amitriptilina 25 e 75 mg e nortriptilina 10, 25, 50 e 75 mg, ambas no Componente Básico. A dose usada aqui é bem menor que a antidepressiva, e a explicação ao paciente precisa ser feita — quem recebe "antidepressivo" para dor abdominal sem entender por quê costuma abandonar na primeira semana.

Do lado dietético, a orientação é um teste limitado de dieta com baixo teor de FODMAP — recomendação condicional, evidência de qualidade muito baixa — e a palavra limitado é parte da recomendação: a dieta tem fase de restrição, fase de reintrodução e fase de personalização, e restrição indefinida empobrece a dieta sem ganho. Psicoterapia dirigida ao intestino tem recomendação condicional para os sintomas globais.

E há o que a diretriz desaconselha, que cai tanto quanto o que ela recomenda: contra probióticos para sintomas globais (condicional, qualidade muito baixa); contra transplante de microbiota fecal (forte, qualidade muito baixa); contra testar alergias e sensibilidades alimentares em todos os pacientes, salvo sintomas reprodutíveis que sugiram alergia verdadeira; e contra o polietilenoglicol para os sintomas globais do subtipo com constipação — ele melhora frequência e consistência das fezes, mas não o conjunto de sintomas, e a dor não responde. O polietilenoglicol tampouco consta da Rename, embora o protocolo estadual o cite pelo nome no manejo da constipação intestinal.

Para o intestino preso, o que a lista nacional oferece é o arsenal osmótico e lubrificante clássico: lactulose xarope 667 mg/mL, óleo mineral, sulfato de magnésio em pó para solução oral e glicerol em solução ou supositório retal, todos no Componente Básico. São medicamentos que resolvem a evacuação, não a síndrome.

Quando encaminhar, e o que o encaminhamento precisa dizer

O protocolo de regulação define três portas. Encaminha-se à gastroenterologia a diarreia crônica de mais de quatro semanas quando não é possível diagnosticar ou tratar na atenção primária, e a suspeita ou o diagnóstico de doença inflamatória intestinal. Encaminha-se à gastroenterologia ou proctologia a alteração de hábito intestinal em pessoa com suspeita de neoplasia maligna, quando não for possível solicitar colonoscopia na própria atenção primária. Para constipação, a régua é diferente: encaminha-se depois de 12 semanas de tratamento otimizado sem melhora.

O conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento por diarreia tem seis itens, e um encaminhamento sem eles volta: (1) sinais e sintomas, com número de evacuações, presença de muco, pus ou sangue, caráter persistente ou intermitente, sintomas constitucionais, anemia e emagrecimento; (2) tratamentos prévios e atuais; (3) resultado dos exames laboratoriais da avaliação inicial; (4) laudo de exame de imagem, com data, se realizado; (5) história familiar de câncer colorretal, com grau de parentesco e idade do familiar ao diagnóstico; (6) laudo de endoscopia digestiva alta ou colonoscopia, com data, se realizada.

Repare no que o item 5 pede: não basta responder "sim". O protocolo quer o grau de parentesco e a idade do familiar ao diagnóstico, porque é disso que depende a idade de início e o intervalo do rastreamento com colonoscopia. É a única informação do encaminhamento que muda a conduta do especialista antes mesmo da primeira consulta.

Para o tratamento não medicamentoso da constipação, o protocolo detalha o que a atenção primária deve ter esgotado: dieta rica em fibras com ingestão hídrica adequada; explicação do reflexo gastrocólico, que dá vontade de evacuar depois das refeições e não deve ser inibido; suplementação de fibras com aveia, farelo de trigo, linhaça, psyllium ou metilcelulose; laxativos osmóticos; e exclusão de causas secundárias — anticolinérgicos, antidepressivos, anti-histamínicos, anticonvulsivantes, bloqueadores de canal de cálcio, clonidina, diuréticos, ferro, anti-inflamatórios e opioides, além de hipotireoidismo, hipercalcemia, hiperparatireoidismo, diabetes, doença de Parkinson, esclerose múltipla, depressão, ansiedade, distúrbios anorretais e câncer de cólon.

04

Contar antes de classificar: Bristol, subtipo e a lista inicial

A escala de Bristol é o único instrumento ordinal do capítulo, e ela é usada de um jeito específico em Roma IV: só os extremos entram na conta. Os quatro cartões abaixo mostram a progressão de consistência; a tabela transforma essa contagem em subtipo, e as tabelas seguintes trazem a lista de exames que o protocolo brasileiro manda pedir, os parâmetros do teste respiratório e o que a farmácia do SUS tem de fato para oferecer.

  1. 1Confirme o tempo: dor abdominal nos últimos três meses, com início há pelo menos seis. Menos que isso é diarreia crônica em investigação, não síndrome do intestino irritável.
  2. 2Some a frequência: dor recorrente em média pelo menos um dia por semana.
  3. 3Marque quantas das três características estão presentes — relação com a defecação, mudança na frequência das evacuações, mudança na forma das fezes. São necessárias duas.
  4. 4Varra os nove itens de suspeita de neoplasia maligna. Qualquer um presente muda a rota e leva à colonoscopia.
  5. 5Peça a avaliação inicial da diarreia crônica: hemograma, glicemia, TSH, anti-HIV, parasitológico em três amostras, coprocultura, leucócitos fecais e pesquisa de sangue oculto.
  6. 6Acrescente anti-transglutaminase IgA com IgA total, em dieta com glúten — ter a síndrome já é indicação de rastreamento de doença celíaca.
  7. 7Peça o diário de catorze dias e conte o subtipo apenas pelos dias com evacuação anormal, tipos 1 e 2 ou tipos 6 e 7.
  8. 8Escolha o tratamento pelo subtipo e pela farmácia que o paciente tem: fibra solúvel, hortelã, neuromodulador em dose baixa e teste limitado de baixo FODMAP.

Tipos 1 e 2 — caroços duros separados e salsicha grumosa (contam como anormais)

Extremo constipado da escala. Só esses dois, somados, definem a fração de evacuações endurecidas usada na subtipagem. Mais de 25% delas caracteriza o componente de constipação.

Tipos 3 e 4 — salsicha com rachaduras e salsicha lisa (fezes normais)

Faixa normal da escala. Não entra em nenhuma das duas frações da subtipagem: dias com essas fezes são descartados da conta, e é por isso que a média de todos os dias distorce o subtipo.

Tipo 5 — pedaços moles com bordas nítidas, eliminados facilmente

Degrau intermediário. A descrição original o associa a diarreia em algum grau, mas Roma IV não o inclui entre os tipos anormais da subtipagem — quem soma o tipo 5 ao 6 e ao 7 inflaciona o componente diarreico.

Tipos 6 e 7 — pedaços fofos de bordas irregulares e fezes inteiramente líquidas (contam como anormais)

Extremo diarreico. Mais de 25% das evacuações nesses dois tipos caracteriza o componente de diarreia; mais de 25% em cada extremo, ao mesmo tempo, define o subtipo misto.

SubtipoEvacuações tipo 1 ou 2Evacuações tipo 6 ou 7O que muda no tratamento
SII-C (com constipação)mais de 25%menos de 25%Fibra solúvel (plantago), laxativo osmótico para a evacuação; a dor exige neuromodulador, não laxativo
SII-D (com diarreia)menos de 25%mais de 25%Rastreio de doença celíaca obrigatório; hortelã e neuromodulador; rifaximina e alosetrona ficam fora do alcance do SUS
SII-M (mista)mais de 25%mais de 25%Trata-se o sintoma predominante do momento; evitar alternar laxativo e antidiarreico sem diário
SII-N (não subtipada)menos de 25%menos de 25%Revisar o diário antes de rotular — subtipo indefinido costuma ser conta feita sobre todos os dias, e não só sobre os anormais

Avaliação inicial da diarreia crônica: a régua brasileira e a americana lado a lado

ItemTelessaúdeRS-UFRGS, 2025 (APS brasileira)ACG, 2021 (América do Norte)
SangueHemograma, glicemia, TSH, anti-HIV ou teste rápidoProteína C reativa (forte, qualidade moderada)
Fezes — inflamaçãoLeucócitos fecais e pesquisa de sangue ocultoCalprotectina fecal ou lactoferrina fecal (forte; moderada para calprotectina, muito baixa para lactoferrina)
Fezes — patógenosParasitológico em três amostras e coproculturaContra a pesquisa rotineira em todos (condicional, baixa) — razoável onde a giardíase é prevalente
Doença celíacaRastreamento sorológico indicado pelo PCDT de 2025 a todo portador da síndromeSorologia em quem tem sintomas de diarreia (forte, qualidade moderada)
ColonoscopiaQuando há suspeita de neoplasia maligna, por qualquer dos nove itens de alarmeContra a colonoscopia de rotina abaixo de 45 anos sem sinais de alerta (condicional, baixa)
Tratamento empírico antes de encaminharRestrição de lactose por três semanas; albendazol 400 mg/dia por cinco diasNão previsto como etapa formal

Teste respiratório e tratamento do supercrescimento bacteriano (FBG, 2025)

ParâmetroValor padronizado
SubstratoGlicose 75 g em 250 mL de água (absorvida no delgado proximal) ou lactulose 10 g em 250 mL (percorre todo o delgado)
Duração e coletas90 minutos, com amostra a cada 15 minutos
Positividade sobre o basalHidrogênio ≥ 20 ppm, metano ≥ 10 ppm, ou soma dos dois ≥ 15 ppm
PreparoAntibióticos suspensos 4 semanas antes; procinéticos e laxantes 1 semana; jejum de 8 a 12 horas; sem carboidratos fermentáveis nas 24 horas; sem fumo nem exercício intenso
Padrão de referênciaAspirado jejunal ≥ 10⁵ UFC/mL ou aspirado duodenal ≥ 10³ UFC/mL
Tratamento preferencialRifaximina 550 mg três vezes ao dia por 14 dias (resposta global de 47,4%)
Alternativas quando a rifaximina não está disponívelMetronidazol 250 mg três vezes ao dia ou ciprofloxacino 250 a 500 mg duas vezes ao dia, por 10 a 14 dias

O que a Rename 2024 tem para a síndrome do intestino irritável — e o que ela não tem

AlvoNa Rename 2024Componente e código ATCSituação na diretriz americana de 2021
Fibra solúvel formadora de boloPlantago (Plantago ovata), 3 a 30 g/dia, pó, granulado ou pó efervescenteBásico, anexo de fitoterápicos (HA06AC)Fibra solúvel, e não insolúvel — forte, qualidade moderada
Relaxamento de musculatura lisaHortelã (Mentha x piperita) cápsula, 60 a 440 mg de mentol e 28 a 256 mg de mentona por diaBásico, anexo de fitoterápicos (HA03AW)Sugerido para sintomas globais — condicional, baixa qualidade
Antiespasmódico sintéticoNenhum — escopolamina, mebeverina, trimebutina, otilônio e pinavério estão fora da listaContra os antiespasmódicos disponíveis nos Estados Unidos — condicional, baixa qualidade
NeuromoduladorAmitriptilina 25 e 75 mg; nortriptilina 10, 25, 50 e 75 mgBásico (N06AA09 e N06AA10)Tricíclicos para sintomas globais — forte, qualidade moderada
Antibiótico não absorvívelRifaximina não consta da listaRifaximina para sintomas globais do subtipo com diarreia — forte, qualidade moderada
Secretagogo para o subtipo com constipaçãoLubiprostona e linaclotida não constam da listaAtivadores de canal de cloro (forte, moderada) e agonistas da guanilato ciclase (forte, alta)
LaxativoLactulose 667 mg/mL, óleo mineral, sulfato de magnésio pó oral, glicerol retal; polietilenoglicol não constaBásico (A06AD11, A06AA01, A06AD04, A06AG04)Contra o polietilenoglicol para sintomas globais do subtipo com constipação — condicional, baixa
Sequestrante de ácidos biliaresColestiramina não consta da listaNão sugerido para sintomas globais do subtipo com diarreia — condicional, qualidade muito baixa

O relógio muda com a idade e com o documento: o protocolo de regulação do adulto trabalha com diarreia crônica acima de quatro semanas, enquanto a régua pediátrica chama de persistente a que passa de catorze dias e de crônica a que passa de trinta. Confira de qual população o enunciado fala antes de aplicar o corte.

Bristol é nome de duas coisas diferentes dentro da medicina brasileira. A escala de forma das fezes tem sete tipos e serve à subtipagem; o Protocolo Bristol de avaliação do frênulo da língua no recém-nascido tem escore de 0 a 8 e nada tem a ver com intestino. Enunciado que fala em "escore de Bristol" com pontuação numérica está falando do frênulo.

Os 25% da subtipagem incidem sobre as evacuações anormais, e a fração precisa ser calculada, não estimada. Diário de catorze dias resolve; memória do paciente, não.

A biópsia duodenal da suspeita de doença celíaca precisa de ao menos seis fragmentos, sendo dois do bulbo e quatro da segunda porção, em frascos separados. Pedido genérico de "biópsia de duodeno" produz laudo normal em paciente doente, porque a lesão não é uniforme.

O ponto de corte do aspirado de delgado depende do sítio: ≥ 10⁵ UFC/mL no jejuno e ≥ 10³ UFC/mL no duodeno. São dois logaritmos de diferença, e trocar o sítio inverte o laudo.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Que exames abrem a investigação da diarreia crônica

Régua da atenção primária brasileira: hemograma, glicemia, TSH, anti-HIV e quatro exames de fezes

A avaliação inicial pedida é hemograma, glicemia, TSH, anti-HIV ou teste rápido, parasitológico de fezes em três amostras, coprocultura, leucócitos fecais e pesquisa de sangue oculto, acompanhada de teste de restrição de lactose e de albendazol 400 mg/dia por cinco dias como tratamentos empíricos. Calprotectina fecal, proteína C reativa e sorologia de doença celíaca não figuram nessa lista.

TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de regulação ambulatorial: gastroenterologia adulto, 3. ed., 2025, Protocolo 13 e Quadro 13.

Régua norte-americana: calprotectina ou lactoferrina fecal com proteína C reativa, e nada de pesquisa rotineira de patógenos

A recomendação é verificar calprotectina fecal ou lactoferrina fecal junto com proteína C reativa em quem tem suspeita da síndrome com sintomas de diarreia e nenhum sinal de alarme, para afastar doença inflamatória intestinal — força forte, qualidade moderada para proteína C reativa e calprotectina. E há recomendação explícita contra a pesquisa rotineira de patógenos entéricos em todos os pacientes, com força condicional e baixa qualidade.

Lacy et al., ACG Clinical Guideline: Management of Irritable Bowel Syndrome, Am J Gastroenterol 2021;116(1):17-44.

Na prova

A causa está escrita no próprio documento americano: como a giardíase tem prevalência maior em países em desenvolvimento, ele registra ser razoável testar fezes nessas regiões — é divergência de contexto epidemiológico somada à distribuição desigual da calprotectina na rede básica brasileira. Para identificar o recorte, olhe o cenário e o vocabulário. Unidade básica de saúde, atenção primária, regulação, encaminhamento e teste rápido para HIV apontam para o corpo brasileiro. Menção nominal ao American College of Gastroenterology, uso da expressão sinais de alarme com corte etário de 45 anos e alternativas que oferecem calprotectina como primeira linha apontam para o corpo internacional. Prova oficial do Ministério da Educação tende a conduta do SUS; em outras bancas, a alternativa que cita um exame indisponível na rede básica costuma denunciar de qual mundo a questão foi escrita.

Antiespasmódico no tratamento dos sintomas globais

Diretriz norte-americana: contra os antiespasmódicos disponíveis nos Estados Unidos

A recomendação é contra o uso dos antiespasmódicos disponíveis nos Estados Unidos para tratar os sintomas globais da síndrome, com força condicional e evidência de baixa qualidade. O texto justifica a dificuldade de avaliar a classe: ela reúne agentes com mecanismos diferentes. E a seção de escopo delimita o alcance ao declarar que a diretriz foi escrita para a América do Norte e que nem todo medicamento usado na síndrome está disponível lá, citando o pinavério pelo nome.

Lacy et al., Am J Gastroenterol 2021;116(1):17-44 — recomendação sobre antiespasmódicos e seção de escopo e metodologia.

Lista nacional brasileira: nenhum antiespasmódico sintético, e um fitoterápico com código de antiespasmódico no Componente Básico

A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 não traz butilbrometo de escopolamina, mebeverina, trimebutina, brometo de otilônio nem pinavério, em nenhum componente de financiamento. O único item com código de antiespasmódico no Componente Básico é a hortelã (Mentha x piperita) em cápsula, 60 a 440 mg de mentol e 28 a 256 mg de mentona por dia, no anexo de fitoterápicos — e a hortelã tem recomendação favorável, condicional, na diretriz americana.

Brasil, Ministério da Saúde, Rename 2024 — Componente Básico, anexo de fitoterápicos (código HA03AW) e ausência da classe A03A sintética na lista.

Na prova

Não há contradição real entre as duas posições: são conjuntos de moléculas diferentes, e essa é a divergência de produto e de disponibilidade. Para identificar o recorte, leia as alternativas. Uma questão cujos distratores citam diciclomina ou hiosciamina está no mundo norte-americano; uma que cita brometo de otilônio, pinavério ou butilbrometo de escopolamina está no mundo brasileiro ou europeu, onde a diretriz americana não se pronunciou. Se o enunciado situa a cena numa unidade básica e pergunta o que prescrever, a régua que decide é a lista nacional de medicamentos, não a força da recomendação estrangeira.

Rifaximina no subtipo com diarreia e no supercrescimento bacteriano

Sociedades: rifaximina como primeira escolha nos dois cenários

A diretriz americana recomenda a rifaximina para os sintomas globais da síndrome com diarreia, com força forte e evidência de qualidade moderada. O posicionamento oficial da Federação Brasileira de Gastroenterologia sobre supercrescimento bacteriano indica rifaximina 550 mg três vezes ao dia por 14 dias como tratamento preferencial, com taxa de resposta global de 47,4%.

Lacy et al., Am J Gastroenterol 2021;116(1):17-44; e Silva et al., Arq Gastroenterol 2025;62:e24612024-107.

Lista nacional e o próprio posicionamento brasileiro: metronidazol ou ciprofloxacino quando a rifaximina não está disponível

A rifaximina não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, em nenhum componente de financiamento. O posicionamento brasileiro prevê essa situação e oferece as alternativas: metronidazol 250 mg três vezes ao dia ou ciprofloxacino 250 a 500 mg duas vezes ao dia, por 10 a 14 dias — os dois presentes no Componente Básico, o metronidazol na categoria Acesso e o ciprofloxacino na categoria Alerta da classificação de uso racional de antimicrobianos.

Brasil, Ministério da Saúde, Rename 2024 (metronidazol J01XD01; ciprofloxacino J01MA02); e Silva et al., Arq Gastroenterol 2025;62:e24612024-107.

Na prova

A causa é de disponibilidade: o medicamento tem registro no país e não integra a lista de dispensação do SUS, e o documento brasileiro escreveu o plano B em vez de ignorar o problema. Para farejar o recorte, veja quem o enunciado nomeia. Se cita a Federação Brasileira de Gastroenterologia ou situa a cena numa unidade do SUS, o caminho descrito é o das alternativas; se cita a diretriz do American College of Gastroenterology, o esquema é o da rifaximina. Um distrator com dose de 550 mg três vezes ao dia por 14 dias só existe no mundo em que a droga está no balcão.

Biópsia duodenal para confirmar doença celíaca

Protocolo nacional de 2025: confirmação histológica sempre, com duas exceções

O protocolo brasileiro afirma que os marcadores sorológicos não substituem o exame histopatológico e que o diagnóstico deve ser sempre confirmado por biópsia de duodeno obtida em endoscopia digestiva alta. As únicas exceções são distúrbio de coagulação e gestação, situações em que a sedação inviabiliza o exame e o diagnóstico se apoia em história clínica, sorologia e resposta à dieta isenta de glúten.

Brasil, Ministério da Saúde, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 23 de junho de 2025 — PCDT da Doença Celíaca, seção de rastreamento e diagnóstico.

Diretrizes internacionais citadas pelo próprio protocolo: dispensa da biópsia em situação estreita

Segundo diretrizes internacionais que o protocolo brasileiro reproduz, parentes de primeiro grau sintomáticos e geneticamente susceptíveis podem ser dispensados da biópsia duodenal se a anti-transglutaminase IgA estiver dez vezes acima do limite superior da normalidade e o anti-endomísio for positivo, desde que dosado por ensaio imunoenzimático — a conduta não é sustentada quando o método é de quimioluminescência.

Al-Toma et al., ESsCD guideline for coeliac disease and other gluten-related disorders, United European Gastroenterol J 2019;7(5):583-613, reproduzido no PCDT da Doença Celíaca de 2025.

Na prova

A causa dessa distância é de endereço de incorporação, e ela está no mesmo documento: a dispensa internacional exige comprovar susceptibilidade genética, e a genotipagem HLA-DQ2 e DQ8 não foi incorporada ao SUS, por não fornecer diagnóstico conclusivo e ter elevado impacto orçamentário. Sem o teste, a exceção não tem como ser operada na rede pública — é régua definida por exclusão. Para identificar o recorte, procure o nome do exame nas alternativas: enunciado que oferece dispensa de biópsia costuma trazer HLA ou anti-endomísio no mesmo bloco de opções, e é isso que denuncia de qual documento a questão saiu.

Fibra insolúvel para quem tem intestino irritável

Protocolo brasileiro de constipação: aveia, farelo de trigo, linhaça, psyllium e metilcelulose juntos na mesma linha

O quadro de tratamento da constipação intestinal em adultos na atenção primária lista, sob suplementação de fibras, aveia, farelo de trigo e farinha de linhaça em duas a quatro colheres de sopa dissolvidas em água, suco ou iogurte, e agentes formadores de bolo fecal como psyllium e metilcelulose em uma a duas colheres de sopa ao dia. O quadro trata de constipação intestinal em geral, não da síndrome do intestino irritável.

TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de regulação ambulatorial: gastroenterologia adulto, 3. ed., 2025, Protocolo 14 e Quadro 14.

Diretriz norte-americana: fibra solúvel sim, insolúvel não

A recomendação é usar fibra solúvel, e não insolúvel, para tratar os sintomas globais da síndrome do intestino irritável — força forte, evidência de qualidade moderada. O farelo de trigo é fibra insolúvel; o psyllium, derivado do Plantago ovata, é solúvel. A distinção não aparece no quadro brasileiro porque o alvo dele é outro.

Lacy et al., Am J Gastroenterol 2021;116(1):17-44 — recomendação sobre fibra.

Na prova

A divergência é de endereço nosológico: um documento trata de constipação intestinal e o outro de uma síndrome funcional com dor, e a fibra insolúvel pode ajudar o trânsito enquanto piora distensão e dor em quem tem hipersensibilidade visceral. Para identificar o recorte, veja o diagnóstico que o enunciado já deu. Se o caso é constipação funcional sem dor, o quadro brasileiro de suplementação vale inteiro; se o caso preenche Roma IV, a alternativa que separa fibra solúvel de insolúvel está usando a régua da síndrome. A Rename ajuda a fechar: o único formador de bolo fecal da lista nacional é o plantago, que é fibra solúvel.

06

Caso resolvido

Fernanda, 29 anos, auxiliar administrativa, chega à unidade básica queixando-se de dor abdominal em cólica há cerca de dez meses, presente em torno de dois dias por semana, que alivia depois que ela evacua. Trouxe, por conta própria, um caderninho: anotou catorze dias seguidos. Foram 18 evacuações — 7 de fezes pastosas com bordas irregulares, 2 de caroços endurecidos e 9 de fezes lisas e macias. Refere distensão abdominal quase diária. Nega sangue nas fezes, febre, emagrecimento, uso de anti-inflamatórios e história familiar de câncer colorretal. Peso estável há dois anos. Exame físico sem alterações; hemograma normal.
achado
Dor abdominal recorrente há dez meses, em média dois dias por semana — acima do mínimo de um dia por semana nos últimos três meses, com início muito além dos seis meses exigidos.
achado
Das três características de Roma IV, duas estão claramente presentes: a dor se relaciona à defecação e há mudança na forma das fezes. Duas bastam. A distensão abdominal é comum e não é obrigatória.
achado
Nenhum dos nove itens de suspeita de neoplasia maligna está presente: sem sangramento, sem anemia, sem massa, sem tenesmo, sem febre persistente, sem emagrecimento e sem história familiar. A rota funcional está aberta.
raciocínio
Subtipagem pelo diário: 7 evacuações do tipo 6 ou 7 e 2 do tipo 1 ou 2, em 18. A fração diarreica é de 38,9% e a constipada, de 11,1%. Mais de 25% num extremo e menos de 25% no outro define SII-D. Contadas só entre as 9 evacuações anormais, as proporções ficam 77,8% e 22,2% — a conclusão não muda.
conduta
Diagnóstico firmado de forma positiva, sem colonoscopia: ela tem 29 anos e nenhum sinal de alerta. Solicita-se a avaliação inicial da diarreia crônica — hemograma já feito, glicemia, TSH, anti-HIV, parasitológico em três amostras, coprocultura, leucócitos fecais e pesquisa de sangue oculto.
conduta
Acrescenta-se anti-transglutaminase IgA com IgA total: ter a síndrome do intestino irritável é, por si só, indicação de rastreamento sorológico de doença celíaca no protocolo nacional de 2025 — e o rendimento é maior justamente no subtipo com diarreia. Ela mantém o glúten na dieta até coletar.
conduta
Tratamento com o que a farmácia tem: fibra solúvel com plantago, teste limitado de dieta com baixo teor de FODMAP orientado por nutricionista, e hortelã em cápsula para os sintomas globais. Se a dor persistir, entra neuromodulador em dose baixa com amitriptilina, explicando ao paciente que a indicação é a dor, não humor.
conduta
Não se pede colonoscopia, não se prescreve probiótico, não se solicita painel de sensibilidade alimentar e não se manda parar o glúten antes de coletar a sorologia. Encaminhamento à gastroenterologia fica reservado para o caso de a investigação inicial não resolver.
07

Agora feche você

Rodrigo, 37 anos, motorista de aplicativo, carrega há dois anos o rótulo de síndrome do intestino irritável com diarreia, dado numa consulta em que não foi pedido nenhum exame. Há oito semanas cortou o glúten por conta própria, depois de ler sobre o assunto: as fezes firmaram, a distensão diminuiu e ele perdeu 3 kg. Quer agora "fazer o exame para confirmar que é celíaco" e saber se pode voltar a comer pão. Refere que uma tia tem doença celíaca. Nega sangue nas fezes, febre e anemia conhecida. Exame físico normal.
achado
Rótulo funcional de dois anos sem investigação — e ter síndrome do intestino irritável é, no protocolo nacional de 2025, indicação de rastreamento sorológico de doença celíaca. O rastreio devia ter sido feito lá atrás.
achado
Parente de primeiro grau não é o caso: tia é parentesco de segundo grau. Ainda assim, ele reúne outras duas indicações — a síndrome do intestino irritável e sintomas digestivos crônicos.
achado
Oito semanas sem glúten, com melhora clínica. É exatamente a situação que inutiliza o exame: a sorologia é dependente de glúten e a mucosa começa a cicatrizar.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Contar o subtipo sobre todos os dias, e não só sobre os dias com evacuação anormal Atrai porque é a conta mais natural: soma-se tudo e divide-se pelo total. Roma IV mudou justamente isso — o subtipo é definido pelo hábito predominante nos dias com evacuação anormal. Incluir os dias normais dilui os extremos, empurra o paciente para o rótulo de não subtipado e faz escolher tratamento errado.
  2. 2Exigir que a dor melhore ao evacuar É o critério de Roma III, decorado há duas décadas e ainda repetido em aula. Roma IV troca por dor relacionada à defecação, o que inclui quem piora ao evacuar. O distrator costuma vir bem redigido e com a expressão antiga inteira, o que dá sensação de familiaridade.
  3. 3Ler "escore de Bristol" como escala de fezes Bristol nomeia duas coisas na medicina brasileira. A escala de forma das fezes tem sete tipos e não gera pontuação. O Protocolo Bristol de avaliação do frênulo da língua do recém-nascido gera escore de 0 a 8 e é obrigatório em maternidade. Enunciado que fala em escore numérico de Bristol está falando de língua, não de intestino.
  4. 4Pedir sorologia de doença celíaca em quem já retirou o glúten Atrai porque parece eficiente aproveitar a consulta. Só que os anticorpos são dependentes de glúten e a mucosa cicatriza: o resultado negativo não exclui nada. O protocolo nacional exige que rastreamento e diagnóstico sejam feitos em vigência de dieta com glúten, e a conduta certa é reintroduzir antes de coletar.
  5. 5Rotular como síndrome do intestino irritável quem tem cinco semanas de diarreia Cinco semanas já é diarreia crônica pela régua de encaminhamento, e a proximidade dos dois conceitos convida ao atalho. Roma IV exige sintomas nos últimos três meses com início há pelo menos seis. Entre a quarta semana e o sexto mês existe um paciente que se investiga e não se rotula.
  6. 6Prescrever butilbrometo de escopolamina como se saísse na farmácia básica É o antiespasmódico mais prescrito do país e a suposição de que esteja na lista nacional é quase automática. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 não o traz, em nenhum componente — e nenhum outro antiespasmódico sintético também. O único item com esse código no Componente Básico é a hortelã, no anexo de fitoterápicos.
  7. 7Ler a recomendação contra antiespasmódicos como veredito universal A frase isolada soa definitiva. O texto original diz contra os antiespasmódicos disponíveis nos Estados Unidos, e a seção de escopo da mesma diretriz registra que ela foi escrita para a América do Norte e que o pinavério, por exemplo, não está disponível lá. Moléculas que não foram avaliadas não foram condenadas.
  8. 8Tratar leucócitos fecais e calprotectina fecal como o mesmo exame Os dois são exames de fezes que falam de inflamação, o que sugere equivalência. Leucócitos fecais é o que a avaliação inicial brasileira pede; calprotectina fecal é o marcador com força forte e qualidade moderada na diretriz americana para afastar doença inflamatória intestinal, com sensibilidade de 93% e especificidade de 96% em metanálise. Trocar um pelo outro na resposta troca a régua de país.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor abdominal crônica relacionada à evacuação, com alteração do hábito intestinal, sem sinais de alarme e com exames normais preenche os critérios de Roma para síndrome do intestino irritável — correta. Crohn e retocolite cursam com inflamação e alterações à colonoscopia/laboratório. Doença celíaca teria sorologia/biópsia alteradas e sintomas de má absorção. Neoplasia de cólon apresentaria achados à colonoscopia e sinais de alarme.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite o critério de Roma IV inteiro sem consultar: qual a frequência mínima de dor, em que janela de tempo, há quanto tempo os sintomas precisam ter começado e quantas das três características são necessárias. Em seguida diga quais tipos da escala de Bristol contam como anormais e sobre qual base se calculam os 25%.

em 30 dias

Um paciente de 34 anos com síndrome do intestino irritável com diarreia chega à unidade básica. Liste, de memória, os oito exames da avaliação inicial da diarreia crônica no protocolo brasileiro, o exame de rastreamento que o protocolo da doença celíaca acrescenta e por que ele exige dieta com glúten, e escreva a prescrição possível usando apenas medicamentos que constam da Rename 2024 — dizendo, para cada um, em que componente de financiamento ele está.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 33 anos procura a unidade básica com dor abdominal em cólica há sete meses, cerca de dois dias por semana, que muda de intensidade conforme evacua. Relata alternância entre dias de fezes pastosas e dias de fezes ressecadas, além de distensão abdominal quase diária. Nega sangue nas fezes, febre, emagrecimento e história familiar de câncer colorretal. Traz um hemograma normal feito há um mês e conta que já cortou leite, glúten e sementes por conta própria, sem melhora consistente. Quer saber se precisa fazer colonoscopia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica — Preparatório para provas | OsceLabs