Clínica MédicaGastroenterologia

Doença hepática gordurosa não alcoólica

De doença por exclusão a doença por critério: DHGNA, MASLD e a régua de fibrose que a tabela do SUS ainda não cobre

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 50 anos, assintomática, realiza exames de rotina e apresenta elevação de aminotransferases: AST 85 U/L e ALT 120 U/L (VR até 40). Nega uso de álcool ou medicamentos. Ultrassonografia mostra fígado com aumento difuso da ecogenicidade ('fígado brilhante'). IMC 34 kg/m², circunferência abdominal aumentada, glicemia de jejum 118 mg/dL e triglicerídeos elevados. Sorologias virais negativas. Qual é a causa mais provável da alteração hepática?

02

Como esse tema cai

Esta é a doença de fígado mais comum do país e a que menos aparece com nome próprio nos capítulos que a usam. A hepatite B a cita como causa concorrente de transaminase alta e como fator que antecipa o rastreio de carcinoma. O diabetes tipo 2 a cita como condição associada que obriga a repetir o rastreio anual. A cirurgia bariátrica a cita como indicação, exigindo fibrose comprovada por elastografia ou biópsia. A estratificação de risco cardiovascular a cita como fator agravante. Em todos esses lugares ela entra como critério de elegibilidade de outra decisão, e em nenhum deles alguém diz o que ela é, quando começa a valer e como se mede o seu único desfecho que importa.

Este capítulo cobre exatamente esse vão. Ele não reensina o mecanismo celular do acúmulo de triglicerídeo no hepatócito, que pertence à patologia geral, nem trata da esteatose hepática aguda da gravidez, que é outra doença com nome parecido e mora na obstetrícia. Ele trata da doença metabólica do fígado do adulto: como o nome dela mudou de lógica em 2023, quais são os cinco critérios que a definem hoje, por que a fibrose é o único eixo prognóstico que a banca cobra, onde ficam os cortes da régua não invasiva e por que dois documentos brasileiros atuais partem a mesma medida em pontos diferentes.

Há um terceiro plano, e ele costuma decidir a questão de política de saúde: o exame que a diretriz brasileira coloca em classe I para esta doença está incorporado na tabela do sistema público para hepatites virais, teve ampliação recomendada para esquistossomose em 2025 e esteve em consulta pública para colangite biliar primária em 2026. A doença metabólica não figura nessa lista, embora coortes dela tenham fornecido parte da evidência de acurácia usada nas decisões de incorporação. Recomendação de diretriz e incorporação em tabela são coisas diferentes, e a prova gosta de perguntar exatamente na fronteira entre as duas.

03

O que muda decisão

O nome mudou de lógica, e não de gente

Até 2023 a definição era negativa. Doença hepática gordurosa não alcoólica era esteatose em mais de 5% dos hepatócitos na ausência de consumo excessivo de álcool e na ausência de outra hepatopatia crônica. Quem diagnosticava precisava primeiro apagar concorrentes: sorologias, autoanticorpos, ferro, cobre, alfa-1-antitripsina, medicamentos. O rótulo era o que sobrava depois de excluir tudo.

A classificação de 2023, adotada pelas sociedades brasileiras, inverteu o sinal. Passou a existir um guarda-chuva chamado doença hepática esteatótica, que abriga qualquer gordura no fígado, e dentro dele a doença hepática esteatótica metabólica — em inglês MASLD, em português DHEM — definida como esteatose acompanhada de pelo menos um de cinco critérios cardiometabólicos. A definição virou positiva: em vez de exigir a ausência de tudo, exige a presença de um.

A consequência prática é grande e a prova a explora. Na lógica antiga, o paciente com esteatose e hepatite C tinha hepatite C, e ponto. Na lógica nova ele pode ter as duas etiologias somadas, e a coexistência é a regra esperada, não a exceção que invalida o diagnóstico. Do mesmo modo, o paciente que bebe deixou de ser expulso do diagnóstico e passou a ocupar uma faixa própria, a DHEM associada a doença hepática alcoólica, com limites numéricos definidos. Quem não tem nenhum critério cardiometabólico e nenhuma outra etiologia identificável recebe o rótulo de doença hepática esteatótica criptogênica.

Vale desfazer desde já a leitura simétrica. A diretriz brasileira de 2023 justifica adotar o nome novo dizendo que quase todo paciente com a doença antiga preenche os critérios da nova. A frase é verdadeira e a recíproca não é: nem todo paciente com a doença nova preenche a definição antiga, porque a nova admite hepatopatia concomitante e não exige abstinência. A implicação corre num sentido só, e trocar o nome não autoriza trocar as duas definições uma pela outra.

Quanto isso mudou de gente, no Brasil, é mensurável. No ELSA-Brasil, com 10.651 participantes, a prevalência foi de 34,7% pelo critério antigo (3.697 pessoas), 34,9% pelo critério intermediário de 2020 (3.718) e 33,4% pelo critério de 2023 (3.569). Refaça a divisão do último par: 3.569 sobre 10.651 dá 33,5%, e o intervalo de confiança publicado para essa linha, de 32,6 a 34,4, tem centro exatamente em 33,5. Duas rotas independentes, o numerador e o próprio intervalo, apontam 33,5% onde o texto imprimiu 33,4%. É um décimo, e não muda conduta nenhuma — mas mostra que a mudança de nomenclatura moveu cerca de um ponto percentual da população. A lógica mudou; o conjunto de doentes, praticamente não.

Os cinco critérios, e por que basta um

Os critérios cardiometabólicos são cinco, e a exigência é de pelo menos um. O primeiro é antropométrico: índice de massa corporal igual ou maior que 25 kg/m², ou circunferência de cintura acima de 90 cm em homens e acima de 80 cm em mulheres, ou o equivalente ajustado por etnia. O segundo é glicêmico: pré-diabetes ou diabetes tipo 2. O terceiro é pressórico: pressão arterial igual ou maior que 130 por 85 mmHg, ou tratamento anti-hipertensivo específico em curso. O quarto é lipídico: triglicerídeos iguais ou maiores que 150 mg/dL, ou tratamento hipolipemiante. O quinto também é lipídico, pelo outro lado: HDL igual ou menor que 40 mg/dL em homens e igual ou menor que 50 mg/dL em mulheres, ou tratamento hipolipemiante.

Três detalhes decidem questão. O primeiro é que dentro de cada critério há uma disjunção, e não uma soma: basta o índice de massa corporal ou a cintura, basta o triglicerídeo ou o hipolipemiante em uso. Quem exige as duas metades transforma um critério fácil de preencher em um critério difícil, e passa a perder diagnóstico. O segundo é que os cortes são mais frouxos que os da síndrome metabólica clássica que o aluno decorou: 130 por 85 mmHg é limiar de critério, não de hipertensão; 25 kg/m² é sobrepeso, não obesidade. O terceiro é que o tratamento em curso conta como critério preenchido. O paciente com triglicerídeo de 110 mg/dL em uso de fibrato preenche o quarto critério, e a leitura ingênua do exame normal o desqualificaria.

Repare no que essa arquitetura faz com o rastreamento. Se basta um critério, e um deles é sobrepeso, então quase todo adulto com esteatose visível na ultrassonografia de rotina já tem o diagnóstico fechado no momento em que o laudo sai. Isso é deliberado: o objetivo da definição positiva é tirar a doença da fila de exclusão e colocá-la na fila de estratificação. O diagnóstico deixou de ser o problema; o problema virou saber quem tem fibrose.

Onde o álcool entra, e a aritmética da semana

A faixa que separa a doença metabólica pura da forma combinada é numérica e vem em duas unidades no mesmo lugar. O consumo semanal de 140 a 350 gramas em mulheres e de 210 a 420 gramas em homens caracteriza a categoria combinada, e o texto informa a média diária correspondente: 20 a 50 gramas em mulheres e 30 a 60 gramas em homens. Divida e confira: 140 e 350 divididos por sete dão exatamente 20 e 50; 210 e 420 divididos por sete dão exatamente 30 e 60. As duas conversões fecham, e é raro o suficiente para valer a checagem.

Abaixo dessa faixa o quadro é doença metabólica pura; acima dela é doença alcoólica. O detalhe que a banca cobra é que a categoria intermediária não é um diagnóstico de dúvida, e sim uma etiologia declaradamente dupla, num contínuo em que a contribuição de cada componente varia. Não existe, nessa arquitetura, o passo antigo de excluir o bebedor para poder diagnosticar.

Duas cautelas de leitura. A primeira é de unidade: gramas de etanol não são mililitros de bebida, e a conversão pela graduação alcoólica precede qualquer julgamento — quem compara 40 gramas por dia com um número anual sem converter erra por três ordens de grandeza, já que 40 gramas diários somam cerca de 14,6 quilogramas ao ano. A segunda é de conduta: a diretriz brasileira de 2023 registra, na recomendação sobre álcool, que não há quantidade segura estabelecida para quem tem esteato-hepatite com ou sem fibrose. Os limiares acima servem para classificar a doença, não para autorizar consumo.

Barra horizontal em quatro faixas contíguas sob uma silhueta de fígado, com uma régua graduada embaixo e setas ligando a faixa estreita central às faixas vizinhas.
O espectro da doença hepática esteatótica é contínuo: à esquerda a forma metabólica pura, à direita a alcoólica pura, e no meio a faixa combinada, definida por consumo semanal de 140 a 350 gramas em mulheres e 210 a 420 gramas em homens. A faixa estreita não é zona de dúvida diagnóstica: é etiologia dupla declarada.

A régua de fibrose: escore primeiro, elastografia depois

O prognóstico desta doença mora na fibrose, e não na quantidade de gordura. Menos de 10% dos pacientes desenvolvem complicações de cirrose, e o risco de morte cresce com o estágio de fibrose, tornando-se estatisticamente maior a partir da fibrose significativa. Por isso a diretriz brasileira coloca em classe I, nível A, o rastreio de fibrose com o escore FIB-4 ou com a elastografia transitória, para afastar fibrose avançada.

O FIB-4 usa quatro variáveis que qualquer unidade básica tem: idade, aminotransferases e contagem de plaquetas. Abaixo de 1,3 o risco de fibrose avançada é considerado afastado; de 1,3 para cima, a recomendação é seguir para um segundo método, tipicamente a elastografia transitória. A escolha do escore não é acaso: como ele depende só de idade e de dois exames de rotina, cabe na atenção primária, e é isso que a diretriz explicita ao recomendá-lo para esse cenário.

Duas observações sobre a redação da própria diretriz ajudam a não errar o limiar. A primeira é que o cabeçalho das recomendações escreve o corte como maior ou igual a 1,3, enquanto o corpo do texto, três linhas adiante, escreve que abaixo de 1,3 se afasta e acima de 1,3 se prossegue. Lida ao pé da letra, a prosa deixa o valor exatamente igual a 1,3 sem destino, e o cabeçalho é quem resolve: 1,3 exato manda seguir investigando. A segunda é que o algoritmo publicado repete o descuido no outro degrau, partindo a rigidez hepática em menor que 8 kPa e maior que 8 kPa, sem dizer o que fazer com 8 kPa exatos. Onde a régua tem janela cega, adote a leitura que investiga mais, que é a do cabeçalho da recomendação.

Os números de desempenho vale conhecer de cor porque explicam a lógica do sequenciamento. Numa metanálise de 37 estudos com 5.735 pacientes com índice de massa corporal igual ou maior que 30, a área sob a curva foi de 0,85 para a elastografia transitória, 0,76 para o FIB-4 e 0,73 para o escore de fibrose da doença gordurosa. A elastografia é o método físico mais validado, e a diretriz registra que ela tem valor preditivo negativo alto, acima de 90%, mas valor preditivo positivo modesto nesta doença quando comparada às hepatites virais, gerando mais falsos-positivos. Guardando isso: o mesmo aparelho que confirma na hepatite viral serve sobretudo para descartar na doença metabólica.

Por que 91% não é uma propriedade do teste

A diretriz brasileira afirma que, com FIB-4 abaixo de 1,3, o risco de fibrose avançada é afastado com valor preditivo negativo de aproximadamente 91%. A diretriz de diabetes, para o mesmo escore, publica sensibilidade de 84,4% e especificidade de 68,5% na detecção de fibrose avançada. Junte as duas informações e um número inesperado aparece.

Monte a tabela para mil pacientes. Com prevalência de fibrose avançada de 30%, há 300 doentes e 700 sadios. A sensibilidade de 84,4% acha 253 dos doentes e perde 47. A especificidade de 68,5% classifica corretamente 480 dos sadios e erra 220. Entre os 527 resultados negativos, 480 são verdadeiros: o valor preditivo negativo é de 91,1%. É exatamente o número que a diretriz publica — o que revela que ele foi calculado numa população em que quase um terço já tem fibrose avançada, isto é, uma casuística de centro terciário ou de cirurgia bariátrica.

Agora refaça com a prevalência do cenário para o qual a própria diretriz recomenda o escore. Na atenção primária, a prevalência de fibrose avançada entre portadores da doença metabólica é de outra ordem. Com 10%, há 100 doentes e 900 sadios: 84 verdadeiros-positivos, 16 falsos-negativos, 617 verdadeiros-negativos e 283 falsos-positivos. O valor preditivo negativo sobe para 97,5% e o positivo desce para 22,9%. Com 5%, o preditivo negativo chega a 98,8%.

Duas conclusões saem daí, e ambas caem em prova. A primeira é que o valor preditivo não é atributo do exame, e sim da população: transportar o 91% para a unidade básica subestima o poder de exclusão do escore, que ali é maior, não menor. A segunda é que, mesmo na melhor das hipóteses, um FIB-4 positivo acerta cerca de um em cada quatro na atenção primária — motivo pelo qual ele nunca fecha diagnóstico e sempre manda para um segundo método. O escore foi construído para excluir, e é lido errado toda vez que alguém o usa para confirmar.

O que o peso resolve, e o que ele não demonstrou resolver

A perda de peso é a intervenção com a recomendação mais forte do documento: classe I, nível A, com relação dose-resposta explícita entre magnitude da perda e melhora da esteatose. Uma metanálise de 43 ensaios com 2.809 participantes, reunindo mudança de estilo de vida, farmacoterapia e cirurgia, mostrou melhora de 5% na esteatose com perda inicial mínima de 5 kg, e redução de 0,77% de esteatose por quilograma perdido.

Confira a conta que o próprio texto faz em seguida, porque ela ensina mais que o resultado. A diretriz conclui que, a cada 6 kg perdidos, a esteatose cai 5 pontos adicionais. Multiplique: 6 vezes 0,77 dá 4,62, não 5. Para chegar a 5 pontos com uma inclinação de 0,77 por quilograma seriam necessários 6,49 kg. O arredondamento de 6,49 para 6 propaga um erro de oito por cento no resultado, e no mesmo parágrafo convivem três inclinações diferentes: um ponto por quilograma na primeira frase, 0,77 na segunda e 0,83 na terceira. Quando um texto oferece a conta, refaça a conta.

Acima de 7% de redução do peso corporal a recomendação passa a ser de melhora da esteato-hepatite sem piora da fibrose. E o dado que fixa a régua na cabeça do aluno vem do lado negativo: entre os pacientes que pioraram a fibrose num estudo longitudinal, 43 de 46, ou 93%, tinham perdido menos de 5% do peso. Exercício aeróbico e resistido de intensidade moderada a alta, pelo menos três vezes por semana, entra em classe I. Dieta mediterrânea, substituição de carboidrato por proteína e de gordura saturada por insaturada, fibras e um a três cafés por dia entram como considerações; substituir gordura por carboidrato e consumir frutose livre, bebida açucarada e ultraprocessado são explicitamente desaconselhados.

E então vem o contraponto que o documento tem a honestidade de escrever: mudanças de estilo de vida não demonstraram melhorar desfechos clínicos de longo prazo, isto é, morte e complicações de cirrose. Classe III, nível A. A mesma intervenção que tem a recomendação mais forte do capítulo tem também a recomendação negativa mais forte — porque o desfecho mudou, não a intervenção.

Antes de concluir que não funciona, olhe como o nível A foi obtido. A metanálise Cochrane que o sustenta reuniu 28 estudos e 1.942 participantes, com seguimento de 2 a 24 meses. O próprio parágrafo informa que as complicações hepáticas desta doença se desenvolvem ao longo de 8 a 28 anos e que diferenças de desfecho dificilmente apareceriam em ensaios com seguimento menor que 5 a 10 anos. O seguimento máximo disponível foi de dois anos contra um mínimo necessário de cinco: a base de evidência tinha entre um quinto e dois quintos do tempo exigido. O nível A mede a duração dos ensaios, não a biologia da intervenção — e essa é a diferença entre ausência de benefício e ausência de demonstração.

Fármaco e cirurgia: o que tem classe I e o que não tem

A lista negativa é curta e cai em prova com frequência maior que a positiva. Metformina não é recomendada para reduzir esteatose, esteato-hepatite ou fibrose, ainda que melhore as aminotransferases: melhorar enzima não é melhorar histologia. Orlistate também não é recomendado com essa finalidade. Ambas em classe III.

No lado positivo, dois grupos alcançam classe I com nível A, e ambos exigem esteato-hepatite comprovada. Liraglutida e semaglutida são recomendadas para melhora da esteato-hepatite sem piora da fibrose. Pioglitazona é recomendada para melhora de esteatose, esteato-hepatite e fibrose — o único item da lista que reivindica o eixo prognóstico. Análogos e agonistas de GLP-1 em geral entram para redução de esteatose; inibidores de SGLT2 entram em classe IIa para redução de esteatose em quem tem diabetes tipo 2. Vitamina E fica em classe IIb e apenas para quem não tem diabetes, restrição que o candidato costuma esquecer.

Sobre esse bloco cabe uma cautela de leitura das fontes, que é conteúdo e não bastidor: a declaração de relações do documento mostra que a maioria dos autores tem vínculo com o fabricante dos dois fármacos que recebem a recomendação de classe I, e o documento não traz declaração de financiamento nem registro de recusa por recomendação. Isso não invalida a recomendação, que se apoia em metanálises citadas; obriga apenas a ler a hierarquia de classes sabendo de onde ela vem.

A cirurgia bariátrica entra em classe IIa para redução de esteatose, esteato-hepatite e fibrose em obesidade de classe 2 ou 3, com as técnicas de derivação gástrica em Y de Roux e de gastrectomia vertical em classe IIb para melhora histológica em quem não tem cirrose. Mas o item que a apostila de cirurgia não tem e este capítulo lhe devolve é o inverso: é recomendado que todo candidato a cirurgia bariátrica seja rastreado antes do procedimento, com atenção especial a cirrose com hipertensão portal, porque o cirrótico tem risco aumentado de complicações. E, no pós-operatório, monitorização hepática laboratorial e de imagem, porque em parte dos casos a doença piora depois da cirurgia. O capítulo de bariátrica lista fibrose comprovada como indicação de entrada; a obrigação de rastrear na saída, e de vigiar depois, é a metade que faltava.

O exame que a diretriz exige e a tabela ainda não cobre

A elastografia hepática ultrassônica tem código próprio na tabela de procedimentos do sistema público, o 02.05.02.022-4, com valor de reembolso de R$ 24,20 na consulta de dezembro de 2024. Ela foi incorporada para avaliação de fibrose em hepatites crônicas B e C, conforme o relatório nº 170 de setembro de 2015 e a portaria do órgão federal de ciência e tecnologia em saúde nº 47, de 29 de setembro de 2015. Em agosto de 2025 o comitê recomendou ampliar o uso para pacientes com esquistossomose; em março de 2026 um relatório preliminar sobre colangite biliar primária foi para consulta pública. A doença metabólica não integra essa sequência, enquanto a diretriz brasileira a coloca em classe I para exatamente esse fim e a agência inglesa recomenda o exame para fibrose avançada nessa mesma doença. Régua de sociedade e tabela de procedimento são instrumentos diferentes, e a distância entre elas é matéria de prova de saúde coletiva.

O detalhe que fecha o argumento está dentro do relatório de 2025. As estimativas de sensibilidade e especificidade usadas para justificar a ampliação vieram de uma revisão sistemática feita em pacientes com hepatite B, hepatite C e doença hepática gordurosa não alcoólica, e a extrapolação foi justificada pela ausência de estudos na doença-alvo somada à plausibilidade fisiopatológica, apoiada em opinião de especialista. Ou seja: coortes da doença metabólica ajudaram a sustentar a acurácia que abriu o exame para outra doença, sem que a doença metabólica tenha entrado na lista de indicações cobertas.

O mesmo relatório traz duas premissas de modelagem que servem de aula de leitura crítica. A biópsia foi tratada como padrão de referência com sensibilidade e especificidade iguais a 100%, e a própria seção de limitações reconhece que isso pode não ser verdade se outro exame de referência existisse. Quando o padrão-ouro é assumido perfeito, toda discordância vira erro do exame novo, e a acurácia medida passa a ser um teto imposto pela referência. A segunda premissa é que a probabilidade de complicação da elastografia é zero, por ser indolor e não invasiva.

A razão de custo-efetividade calculada foi de R$ 1.746,58 por cada resultado correto a menos. Leia com cuidado, porque a direção é invertida: a tecnologia avaliada é ao mesmo tempo mais barata e ligeiramente menos acurada, e a razão expressa quanto se economiza por diagnóstico correto abandonado. Nesse quadrante, razão maior é melhor, ao contrário da leitura habitual em que razão menor favorece a incorporação.

O impacto orçamentário permite uma checagem que qualquer candidato pode refazer. A população elegível projetada para 2026 a 2030 é de 2.206, 2.224, 2.241, 2.259 e 2.276 pessoas, e a soma dá 11.206 — exatamente a demanda aferida que o resumo declara. A biópsia custa R$ 197,59 e a elastografia R$ 24,20, diferença de R$ 173,39 por exame. No cenário de difusão inicial de 30%, as economias anuais publicadas são R$ 114.744,73, R$ 154.247,82, R$ 194.312,61, R$ 234.982,82 e R$ 276.267,14; somadas, dão R$ 974.555,12 contra os R$ 974.555,10 do total publicado, dois centavos de diferença por arredondamento. O modelo é aditivo, não progressivo. Quem tomasse a razão do primeiro para o segundo ano, de 1,34, como taxa de crescimento composta, projetaria cerca de R$ 1,13 milhão em cinco anos e erraria por dezesseis por cento — e a razão entre anos consecutivos cai de 1,34 para 1,18 justamente porque a difusão cresce em degraus fixos de dez pontos percentuais, o que é crescimento aritmético e não geométrico.

O que esta doença devolve aos vizinhos

Ao capítulo de risco cardiovascular, que a lista como fator agravante sem número: a associação com doença cardiovascular é a principal causa de morbimortalidade nesta população, e a metanálise de 16 estudos observacionais com 34.043 indivíduos encontrou razão de chances de 1,64, com intervalo de 1,26 a 2,13, para eventos cardiovasculares fatais e não fatais, subindo a 2,58, com intervalo de 1,78 a 3,75, conforme a gravidade da doença hepática. Um alerta de leitura acompanha o dado: razão de chances de 1,64 corresponde a um aumento de 64%, e a diretriz que publica esse par escreve 36% na prosa que antecede o parêntese. O intervalo de confiança acompanha o 1,64, e é ele que manda. A estratificação de risco cardiovascular é recomendada no momento do diagnóstico.

Ao capítulo de hepatite B, que usa esteatose como causa concorrente de transaminase alta, como critério auxiliar de indicação de tratamento e como fator que antecipa o rastreio de carcinoma hepatocelular: a esteatose que ele invoca tem definição, tem cinco critérios e tem uma régua de fibrose própria. E há um ponto de contato de conduta: na doença metabólica, o rastreio semestral de carcinoma com ultrassonografia é recomendado para quem tem cirrose, e o seguimento é anual na fibrose significativa e semestral na cirrose.

Ao capítulo de diabetes tipo 2, que cita esteatose apenas como condição associada que obriga a repetir o rastreio de disglicemia: a diretriz de diabetes fecha o circuito no sentido inverso e recomenda o cálculo do FIB-4 em todos os adultos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2. Quem tem a doença metabólica do fígado deve ser investigado para disglicemia, e quem tem disglicemia deve ter a fibrose hepática estimada.

À obstetrícia, uma fronteira de nome e não de doença: esteatose hepática aguda da gravidez é entidade distinta, de instalação rápida no terceiro trimestre, com hipoglicemia refratária, icterícia e coagulopatia, e entra no diferencial de síndrome HELLP e de púrpura trombocitopênica trombótica. Compartilha a palavra e não compartilha nem mecanismo, nem cronologia, nem conduta.

À patologia geral, a devolução no outro sentido: o mecanismo do vacúolo de triglicerídeo, a diferença entre esteatose macro e microvesicular e a noção de lipotoxicidade pertencem ao capítulo de agressão celular, e este capítulo os pressupõe sem repetir. E à prevenção quaternária, que usa a esteatose leve como exemplo de rótulo que não deveria virar doença crônica, cabe a resposta precisa: ela tem razão enquanto o achado for isolado. O que converte o achado em doença é o critério cardiometabólico; o que converte a doença em prognóstico é o degrau de fibrose. Sem nenhum dos dois, é laudo; com os dois, é a hepatopatia crônica mais prevalente do país.

04

A régua do capítulo

Quase toda vinheta desta doença se resolve em três perguntas, na ordem. Existe esteatose? Existe pelo menos um critério cardiometabólico? Em que degrau da régua de fibrose o paciente está? A alternativa que pula direto da primeira para a terceira, ou que exige a ausência de álcool e de outra hepatopatia antes de diagnosticar, está lendo pela definição aposentada.

  1. 1Confirme a esteatose. Ultrassonografia abdominal é o método inicial recomendado. Ressonância com fração de gordura por densidade de prótons é opcional no rastreio e recomendada para quantificar. Aminotransferases isoladas não servem para rastrear: são explicitamente desaconselhadas com essa finalidade.
  2. 2Procure um dos cinco critérios cardiometabólicos. Basta um. Dentro de cada critério, basta uma das metades, e tratamento em curso conta como critério preenchido.
  3. 3Posicione o álcool. Abaixo de 20 g/dia em mulheres e 30 g/dia em homens, doença metabólica pura. Nas faixas de 20 a 50 e de 30 a 60 g/dia, etiologia combinada. Acima, doença alcoólica.
  4. 4Exclua o que muda a conduta, e não o que muda o nome. Havendo esteatose ou enzimas alteradas, a investigação de outras hepatopatias é recomendada — mas a coexistência não anula o diagnóstico metabólico, e sim o soma.
  5. 5Estime a fibrose com o FIB-4. Abaixo de 1,3, risco de fibrose avançada afastado; reavalie em 2 a 3 anos. De 1,3 para cima, siga para elastografia transitória.
  6. 6Leia a elastografia sabendo o papel dela nesta doença: valor preditivo negativo alto, positivo modesto. Rigidez baixa afasta com segurança; rigidez alta pede confirmação, e a biópsia fica para quando os métodos não invasivos não conseguirem indicar baixa probabilidade de fibrose significativa, ou para diferenciar outra hepatopatia.
  7. 7Defina a periodicidade pelo degrau: sem fibrose avançada, reavaliação a cada 2 a 3 anos; fibrose 2 ou 3, a cada 12 meses; cirrose, a cada 6 meses, com rastreio de carcinoma hepatocelular por ultrassonografia no mesmo intervalo.
  8. 8Trate o peso primeiro e estratifique o risco cardiovascular no momento do diagnóstico. Reserve o fármaco de classe I para quem tem esteato-hepatite comprovada.

Quatro nomes, uma doença: o que cada rótulo exige

RótuloOnde apareceLógicaO que exige
DHGNA / NAFLDConsenso da hepatologia brasileira de 2015 e literatura anterior a 2023ExclusãoEsteatose acima de 5% dos hepatócitos, ausência de consumo excessivo de álcool e ausência de outra hepatopatia crônica
MAFLDProposta de painel de especialistas de 2020, etapa intermediáriaInclusãoEsteatose associada a disfunção metabólica, sem exigir ausência de outras causas
MASLD / DHEMClassificação multissocietária de 2023, adotada pelas sociedades brasileirasInclusãoEsteatose mais pelo menos um de cinco critérios cardiometabólicos; admite hepatopatia concomitante
DHEM associada a doença alcoólicaSubcategoria da classificação de 2023Inclusão, etiologia duplaCritérios de DHEM mais consumo de 140 a 350 g/semana em mulheres ou 210 a 420 g/semana em homens
Doença esteatótica criptogênicaClassificação de 2023Diagnóstico de exclusão residualEsteatose sem nenhum critério cardiometabólico e sem etiologia identificada

Os cinco critérios cardiometabólicos (basta um)

EixoCorteAlternativa que já preenche
AntropométricoÍndice de massa corporal igual ou maior que 25 kg/m²Cintura acima de 90 cm em homens ou de 80 cm em mulheres, ou equivalente ajustado por etnia
GlicêmicoPré-diabetesDiabetes tipo 2
PressóricoPressão arterial igual ou maior que 130 por 85 mmHgUso de anti-hipertensivo específico
TriglicerídeosIguais ou maiores que 150 mg/dLUso de hipolipemiante
HDLIgual ou menor que 40 mg/dL em homensIgual ou menor que 50 mg/dL em mulheres, ou uso de hipolipemiante

Onde cada documento brasileiro corta a régua de fibrose

MedidaDiretriz conjunta de 2023Diretriz de diabetesEfeito prático
FIB-4Um corte: abaixo de 1,3 afasta; de 1,3 para cima, segundo métodoDois cortes: abaixo de 1,3 e igual ou acima de 2,67A régua de um corte maximiza exclusão e cabe na atenção primária; a de dois cortes assume zona indeterminada e serve ao estadiamento
ElastografiaAlgoritmo parte em menor e maior que 8 kPa; o texto cita 8 kPa como corte mais validado para afastar e 12 a 15 kPa para confirmarDois cortes: abaixo de 8,0 kPa e igual ou acima de 10,0 kPaEntre 8 e 10 kPa há paciente que um documento já encaminha e o outro ainda considera indeterminado
Valor exatamente no corteCabeçalho das recomendações resolve por 'igual ou maior'; o algoritmo deixa 8 kPa exatos sem destinoCortes escritos como 'menor que' e 'igual ou maior que', sem lacunaNa dúvida do valor exato, siga a leitura que investiga mais
Quem entra na réguaTodo adulto com índice de massa corporal acima de 25 kg/m², mesmo sem diabetes ou componente de síndrome metabólicaTodo adulto com pré-diabetes ou diabetes tipo 2As duas portas são diferentes e não se substituem: uma parte do peso, a outra da glicemia

O escore de fibrose específico da doença gordurosa inclui o índice de massa corporal entre suas variáveis. Aplicado justamente à população obesa, ele superestima fibrose, e uma casuística de 368 pacientes com obesidade de classe 3 e biópsia registrou esse viés. Quando a covariável do escore é também o critério de seleção da população, o escore deixa de ser independente do rótulo que ele deveria testar.

A sonda XL da elastografia foi desenvolvida para índice de massa corporal igual ou maior que 30 e distância pele-cápsula acima de 25 mm, reduzindo a falha do exame para menos de 5% dos casos. Acurácia publicada de aparelho costuma ser calculada nas medidas que deram certo; a taxa de falha é parte do desempenho e precisa ser lida junto.

Discordância entre elastografia transitória e elastografia por ressonância cresce com o peso, e é maior a partir de índice de massa corporal igual ou maior que 35. É por isso que a ressonância aparece como alternativa nessa faixa.

Risco aumentado não gera automaticamente rastreio. Apesar de a incidência de neoplasias extra-hepáticas ser maior nesta população, não há indicação de rastrear além do que já vale para a população geral.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde cortar a rigidez hepática, e se existe zona indeterminada

Um corte único de 8 kPa. O algoritmo publicado parte a rigidez em menor e maior que 8 kPa, e o texto trata 8 kPa como o valor mais validado para afastar fibrose avançada, reservando 12 a 15 kPa para afirmar a presença. Não há faixa intermediária desenhada no fluxo.

Diretriz conjunta SBEM, SBH e Abeso, Arch Endocrinol Metab 2023;67(6):e230123, recomendações 7 a 9 e figura do algoritmo

Dois cortes, com zona indeterminada explícita: abaixo de 8,0 kPa afasta, igual ou acima de 10,0 kPa indica fibrose avançada, e a faixa entre os dois é assumida como indeterminada, do mesmo modo que o FIB-4 recebe dois cortes, 1,3 e 2,67.

Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, capítulo de manejo da doença hepática esteatótica metabólica no diabetes tipo 2 e pré-diabetes, revisão de 16/01/2024

Na prova

A divergência não é de valor, é de finalidade, e a vinheta diz qual das duas está sendo cobrada. Enunciado ambientado em unidade básica, com o escore calculado a partir de exames de rotina e a pergunta sendo 'pode ficar aqui ou precisa de especialista', pede a régua de um corte: o objetivo é excluir com segurança. Enunciado ambientado em serviço especializado, com estadiamento e decisão terapêutica, pede a régua de dois cortes e a faixa indeterminada. Repare ainda que as duas fontes compartilham dois autores e a mesma instituição, então não devem ser lidas como conferência independente uma da outra.

Quem entra no rastreio de fibrose

Todo adulto com índice de massa corporal acima de 25 kg/m² deve ser considerado para rastreio da doença, inclusive quem não tem diabetes nem qualquer componente de síndrome metabólica; a porta de entrada é o peso.

Diretriz conjunta SBEM, SBH e Abeso, Arch Endocrinol Metab 2023;67(6):e230123, recomendação 1

O cálculo do FIB-4 é recomendado em todos os adultos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2; a porta de entrada é a disglicemia, e o rastreio de fibrose acompanha o cuidado do diabetes.

Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, capítulo de manejo da doença hepática esteatótica metabólica no diabetes tipo 2 e pré-diabetes, revisão de 16/01/2024

Na prova

As duas portas não competem, se cruzam — e o avaliador escolhe uma pelo escopo declarado de cada documento. Um cobre adultos com sobrepeso ou obesidade; o outro cobre disglicemia. O paciente eutrófico com diabetes cai só na segunda porta; o paciente com sobrepeso e glicemia normal cai só na primeira. Quando a vinheta traz os dois atributos, qualquer das duas justifica rastrear, e a pegadinha passa a ser a alternativa que dispensa o rastreio por ausência de sintoma ou por enzima hepática normal.

A elastografia é recomendada para esta doença, mas é coberta para ela?

A elastografia transitória é recomendada em classe I, nível A, junto ao FIB-4, para rastreio de fibrose nesta doença, e a agência inglesa recomenda o exame para diagnosticar fibrose avançada em pacientes com doença hepática gordurosa não alcoólica.

Diretriz conjunta SBEM, SBH e Abeso, recomendação 7; e recomendação do National Institute for Health and Care Excellence conforme sumarizada no Relatório de Recomendação nº 1029 da Conitec, agosto de 2025

Na tabela de procedimentos do sistema público, a elastografia hepática ultrassônica está incorporada para avaliação de fibrose em hepatites crônicas B e C desde a portaria nº 47, de 29 de setembro de 2015; a ampliação recomendada em agosto de 2025 foi para esquistossomose, e a avaliação levada à consulta pública em 2026 foi para colangite biliar primária.

Relatório de Recomendação nº 1029 da Conitec, agosto de 2025, e Relatório preliminar de recomendação sobre colangite biliar primária, março de 2026, Consulta Pública nº 25

Na prova

Questão de saúde coletiva costuma montar a armadilha nesta fronteira. Recomendação de diretriz de sociedade, registro sanitário do equipamento e incorporação em tabela de procedimento são três coisas distintas, e apenas a última define o que o serviço público está obrigado a ofertar por aquela indicação. A alternativa que afirma direito à cobertura invocando a diretriz confunde os planos; a que afirma que o exame não existe no sistema também erra, porque ele existe, com código e valor, por outras indicações.

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Caso resolvido

Mulher de 54 anos, sem queixas hepáticas, comparece à unidade básica com resultado de ultrassonografia abdominal solicitada para investigar dor lombar: fígado de dimensões aumentadas com aumento difuso da ecogenicidade, compatível com esteatose. Índice de massa corporal de 27,4 kg/m², cintura de 92 cm, pressão arterial de 128 por 78 mmHg em uso de losartana, glicemia de jejum de 104 mg/dL, triglicerídeos de 138 mg/dL, HDL de 46 mg/dL, aspartato aminotransferase de 31 U/L, alanina aminotransferase de 38 U/L, plaquetas de 187.000/mm³. Nega uso de álcool. Sorologias para hepatites B e C não reagentes.
Passo 1 — Feche o diagnóstico pela porta positiva, não pela negativa
Há esteatose por imagem. Agora procure um critério cardiometabólico, e pare no primeiro. O índice de massa corporal de 27,4 já preenche o critério antropométrico sozinho, e a cintura de 92 cm o preencheria de novo pela outra metade. O uso de anti-hipertensivo preenche o critério pressórico independentemente da pressão estar controlada em 128 por 78. A glicemia de 104 mg/dL caracteriza pré-diabetes e preenche o terceiro. São três critérios onde bastaria um. O diagnóstico de doença hepática esteatótica metabólica está fechado sem que a ausência de álcool tenha sido necessária para fechá-lo.
Passo 2 — Não confunda exclusão de conduta com exclusão de nome
As sorologias negativas não são o que autoriza o diagnóstico: são investigação recomendada porque hepatite viral concomitante mudaria a conduta. Se uma delas viesse reagente, o diagnóstico metabólico permaneceria e passaria a haver etiologia dupla. Este é o ponto exato em que a definição de 2023 se separa da anterior.
Passo 3 — Estime a fibrose antes de qualquer outra decisão
O prognóstico está na fibrose, e o instrumento de primeira linha na atenção primária é o FIB-4, que só precisa de idade, das duas aminotransferases e das plaquetas — todos já disponíveis nesta paciente. A ausência de sintomas e as enzimas quase normais não dispensam o cálculo: transaminase normal convive com fibrose, e medir enzima isoladamente é desaconselhado como rastreio.
Passo 4 — Leia o resultado pelo que ele foi construído para fazer
Suponha FIB-4 abaixo de 1,3. Nessa faixa o risco de fibrose avançada está afastado, e com a prevalência baixa esperada na atenção primária o valor preditivo negativo é ainda maior que os 91% publicados em casuística especializada, chegando perto de 97%. A paciente segue em cuidado primário, com reavaliação em 2 a 3 anos. Se o escore viesse de 1,3 para cima, incluindo 1,3 exatos, o passo seguinte seria elastografia transitória — e um resultado alterado ali abriria investigação, sem fechar diagnóstico de cirrose.
Passo 5 — Trate o que muda desfecho e estratifique o que mata
A intervenção com recomendação mais forte é a perda de peso, com relação dose-resposta e alvo acima de 7% para melhora da esteato-hepatite; abaixo de 5% de perda concentra-se a piora de fibrose. Exercício aeróbico e resistido de intensidade moderada a alta pelo menos três vezes por semana entra junto. Nenhum fármaco está indicado aqui, porque não há esteato-hepatite comprovada, e metformina não tem essa indicação. E, no momento do diagnóstico, estratifique risco cardiovascular: a principal causa de morte desta paciente não é o fígado.
07

Agora feche você

Dois homens de 48 anos são avaliados na mesma manhã, ambos com esteatose difusa à ultrassonografia. O primeiro tem índice de massa corporal de 31 kg/m², diabetes tipo 2 em uso de metformina e refere consumo de duas doses de destilado por dia, o que corresponde a cerca de 40 gramas de etanol diárias; aminotransferases discretamente elevadas, plaquetas de 205.000/mm³, FIB-4 calculado em 1,3. O segundo tem índice de massa corporal de 23 kg/m², pressão de 118 por 74 mmHg, glicemia de 88 mg/dL, triglicerídeos de 96 mg/dL, HDL de 58 mg/dL, não usa medicamento algum, nega álcool, e a investigação de hepatopatias não encontrou causa; FIB-4 de 0,9.
Passo 1
Classifique cada um pelo espectro da doença esteatótica antes de qualquer conduta, dizendo em que faixa o consumo do primeiro o coloca e por que o segundo não recebe o mesmo rótulo do primeiro.
Passo 2
Diga qual é o destino imediato do FIB-4 de 1,3 do primeiro paciente, e justifique a escolha a partir da forma como a régua está escrita.
Passo 3
Aponte que conduta farmacológica a metformina em uso oferece, e que conduta ela não oferece, para o fígado deste paciente.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Exigir a ausência de álcool e de outra hepatopatia para poder diagnosticar É a definição aposentada. Desde 2023 o diagnóstico é positivo: esteatose mais um critério cardiometabólico. Hepatite C concomitante não anula o diagnóstico metabólico, cria etiologia combinada; consumo de álcool na faixa intermediária também não anula, define a subcategoria mista. A exclusão de outras causas continua recomendada porque muda conduta, não porque muda o nome.
  2. 2Somar as metades de um critério cardiometabólico Dentro de cada critério a conjunção é alternativa, não aditiva. Basta índice de massa corporal igual ou maior que 25 ou cintura aumentada; basta triglicerídeo alto ou hipolipemiante em uso. Quem exige as duas metades perde diagnóstico, e o erro fica invisível porque a alternativa parece mais rigorosa. Pelo mesmo motivo, exame normal sob tratamento conta como critério preenchido.
  3. 3Tratar valor preditivo como propriedade do exame Os 91% de valor preditivo negativo publicados para FIB-4 abaixo de 1,3 correspondem a uma população com cerca de 30% de fibrose avançada. Com prevalência de 10%, o mesmo escore, com a mesma sensibilidade de 84,4% e a mesma especificidade de 68,5%, alcança 97,5% de valor preditivo negativo e apenas 22,9% de positivo. Sensibilidade e especificidade viajam entre populações; valores preditivos, não.
  4. 4Usar o escore para confirmar em vez de excluir A utilidade principal do FIB-4 nesta doença está em excluir fibrose avançada, não em identificá-la, e o mesmo vale para a elastografia, cujo valor preditivo positivo é modesto aqui e gera mais falsos-positivos do que nas hepatites virais. Resultado alterado abre investigação; nunca fecha diagnóstico nem autoriza rotular o paciente como cirrótico.
  5. 5Aceitar escore que carrega a própria população como variável O escore de fibrose específico da doença gordurosa inclui o índice de massa corporal entre suas variáveis e superestima fibrose exatamente na população obesa em que seria aplicado. Sempre que uma covariável do modelo coincide com o critério de seleção da amostra, desconfie do desempenho publicado antes de transportá-lo para o seu paciente.
  6. 6Ler ausência de demonstração como demonstração de ausência A recomendação de classe III, nível A, sobre desfechos duros de mudança de estilo de vida vem de uma síntese com seguimento de 2 a 24 meses, aplicada a uma doença cujas complicações levam de 8 a 28 anos e que exigiria de 5 a 10 anos de acompanhamento. O nível A qualifica a consistência dos estudos disponíveis, não a duração adequada deles. A mesma intervenção mantém classe I para melhora da esteatose.
  7. 7Confundir a homônima obstétrica Esteatose hepática aguda da gravidez é outra doença: instala-se em dias no terceiro trimestre, cursa com hipoglicemia refratária, icterícia e coagulopatia, e disputa espaço com síndrome HELLP e microangiopatias trombóticas. Não é a forma metabólica crônica acelerada pela gestação, e a conduta é interrupção e suporte, não perda de peso.
  8. 8Achar que enzima normal descarta a doença Medir aminotransferases isoladamente é explicitamente desaconselhado como rastreio, e transaminase normal convive com esteatose e até com fibrose. No sentido inverso, em quem já tem hepatite B tratada e carga viral indetectável, transaminase persistentemente alta sugere justamente outra causa de lesão convivendo com a hepatite, e esta doença é a primeira da lista.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Obesidade, resistência insulínica (glicemia alterada), dislipidemia e esteatose ao US com transaminases elevadas em não etilista definem doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (DHGM/esteato-hepatite não alcoólica), a causa mais comum de hipertransaminasemia crônica. Hepatite autoimune ocorreria com autoanticorpos e hipergamaglobulinemia, mais comum em padrão de maior elevação. Hemocromatose cursa com ferritina/saturação de transferrina elevadas. Colangite biliar primária eleva predominantemente fosfatase alcalina/GGT com anti-mitocôndria positivo. A hepatite alcoólica é afastada pela negação de etilismo e pelo padrão AST/ALT (relação < 1 aqui).

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Diga em voz alta, sem consultar, os cinco critérios cardiometabólicos e a alternativa que já preenche cada um; depois percorra a régua de fibrose do início ao fim, dizendo o que fazer com FIB-4 de 1,2, de 1,3 exatos e de 2,0, e o que fazer com rigidez hepática de 7, de 8 e de 11 kPa. Termine reconstruindo, sem olhar, as faixas de álcool em gramas por semana e por dia para cada sexo.

em 30 dias

Refaça as três contas que sustentam este capítulo. Monte a tabela dois por dois do FIB-4 para mil pacientes com prevalência de 30% e depois com 10%, usando sensibilidade de 84,4% e especificidade de 68,5%, e confirme que os valores preditivos negativos dão 91% e 97,5%. Multiplique 6 por 0,77 e verifique que não dá 5. Some as cinco economias anuais do modelo de impacto orçamentário e confirme que o total publicado é a soma simples, não uma progressão composta.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 59 anos comparece ao ambulatório trazendo ultrassonografia com esteatose hepática difusa, pedida por outro serviço, e diz que veio saber se tem cirrose. Está assustado porque leu que gordura no fígado vira cirrose. Usa enalapril e sinvastatina, tem cintura de 104 cm, glicemia de jejum de 112 mg/dL e enzimas hepáticas normais. Colha o que falta para fechar o diagnóstico, decida qual instrumento estima a fibrose neste cenário e explique a ele, sem jargão, a diferença entre ter o achado, ter a doença e ter fibrose. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença hepática gordurosa não alcoólica — Preparatório para provas | OsceLabs