Clínica MédicaGastroenterologia

Doenças inflamatórias intestinais

Distinguir Crohn de retocolite, graduar atividade e extensão, induzir remissão e saber quando associar imunomodulador, biológico, resgate ou cirurgia.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 28 anos apresenta há 4 meses diarreia com sangue e muco, urgência evacuatória e tenesmo, com cerca de 6 evacuações por dia. Colonoscopia evidencia inflamação contínua da mucosa, iniciando no reto e estendendo-se de forma uniforme até o cólon descendente, com friabilidade e perda do padrão vascular; o íleo terminal é normal. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da doença luminal das duas doenças inflamatórias intestinais: como cada uma se confirma, como se mede a atividade de cada uma e qual é a escada de medicamentos que o Sistema Único de Saúde autoriza em cada degrau. As duas réguas não são intercambiáveis e nem sequer nasceram no mesmo documento — a doença de Crohn tem protocolo federal de maio de 2026 e a retocolite ulcerativa tem protocolo federal de setembro de 2024. A distância de vinte meses entre eles explica boa parte do que a prova cobra.

As fronteiras merecem ser declaradas, porque três vizinhos já ocupam parte do terreno. A técnica cirúrgica da fístula anorretal — trajetos de Parks, regra de Goodsall, sedenho, fistulotomia, ligadura interesfincteriana — é do capítulo de fissura, abscesso e fístula anal, que ensina a doença perianal e usa a doença de Crohn como etiologia não criptoglandular. Aqui a fístula aparece só pelo que o protocolo federal manda dar por via sistêmica e em que ordem. O rastreamento e a vigilância do câncer colorretal, inclusive na colite de longa data, são do capítulo de câncer colorretal. A investigação da diarreia crônica e a separação entre síndrome do intestino irritável e doença orgânica são do capítulo de síndrome do intestino irritável, que ensina a calprotectina fecal exatamente como o exame que afasta o que este capítulo ensina a tratar.

Fica dentro do capítulo o que nenhum deles cobre: o diagnóstico positivo de cada doença, o Índice de Harvey-Bradshaw e os critérios de Truelove e Witts com seus números, o critério do terceiro dia na colite aguda grave, as doses de aminossalicilato, corticoide, imunomodulador e biológico nos dois protocolos, a conduta na gestante e o rastreio obrigatório antes de imunossuprimir. Nada disso é pergunta de reconhecimento de imagem — é pergunta de número, e é por isso que os vãos entre os números pesam tanto.

03

O que muda decisão

Doença de Crohn e retocolite: padrões, extensão e gravidade

A prova raramente pergunta apenas se o caso é doença de Crohn ou retocolite ulcerativa. Ela pergunta o que fazer — e o que fazer sai de dois documentos federais distintos, com vocabulário distinto: a doença de Crohn é regida pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 51, de 18 de maio de 2026, e a retocolite pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024. Quem estuda as duas como um capítulo só erra por confundir régua, não por confundir doença.

Os números brasileiros que os dois trazem dão a dimensão do problema. O protocolo de 2026 cita estudo populacional nacional com incidência de doença de Crohn de 3,22 casos por 100.000 habitantes em 2019 e prevalência de 33,68 por 100.000, dos quais 59,17% em mulheres. O protocolo de 2024 registra que a incidência de retocolite subiu de 5,7 para 6,9 por 100.000 habitantes por ano na última década. Numa cidade de meio milhão de habitantes são cerca de 16 casos novos de Crohn e 35 de retocolite por ano, com aproximadamente 168 pessoas vivendo com Crohn a qualquer momento — e até 40% delas terão manifestação perianal, algo como 67 pessoas.

O protocolo de 2026 descreve a doença de Crohn como acometimento segmentar, assimétrico e transmural de qualquer porção do tubo digestivo, da boca ao ânus, com três comportamentos: inflamatório em 50% dos pacientes, estenosante em 20% e fistulizante ou penetrante em 30%. Por localização ao diagnóstico: 30% ileal, 20% colônica e 50% ileocolônica, com acometimento isolado do trato digestivo alto em até 5% dos casos. As três localizações já somam 100% e mesmo assim o documento acrescenta os 5% do trato alto — mas ele próprio resolve a aritmética ao escrever que esse acometimento ocorre “em geral, como uma localização adicional”, e não como quarta categoria exclusiva.

A retocolite, no protocolo de 2024, é a doença da camada mucosa do cólon, que começa no reto e sobe de forma contínua. O estadiamento é por extensão, pela classificação de Montreal: proctite ou retite, limitada ao reto; colite esquerda, distal à flexura esplênica; e pancolite, proximal à flexura. O mesmo documento avisa que de 20% a 50% dos pacientes estendem a doença proximalmente ao longo do seguimento — a extensão anotada no diagnóstico não é a extensão de hoje.

O que confirma cada diagnóstico, e o degrau de prova que cada protocolo exige

O protocolo da doença de Crohn é honesto sobre a dificuldade e escreve, com todas as letras, que “não existem critérios universais ou absolutos”. A confirmação depende de demonstrar inflamação crônica no intestino delgado ou grosso por pelo menos um método. O sintoma mais comum ao diagnóstico é diarreia, seguida de dor abdominal em 70%, perda de peso em 60% e sangramento em 40% a 50%. Um limiar de tempo separa a doença da diarreia infecciosa: diarreia por mais de seis semanas.

O exame de escolha é a colonoscopia feita, sempre que possível, como ileocolonoscopia — com intubação do íleo terminal e coleta de material em cinco sítios distintos. O achado característico são lesões ulceradas entremeadas de mucosa normal, com padrão focal, assimétrico e descontínuo. Na histopatologia não há achado patognomônico, e o diagnóstico se apoia em granulomas, anormalidades arquiteturais crípticas focais, infiltrado focal de linfócitos e plasmócitos e preservação de mucina. Existem escores endoscópicos, mas o próprio protocolo registra que não há estudos formais de validação dessas escalas para o contexto brasileiro.

A retocolite tem o caminho inverso: o exame é o que fecha o diagnóstico e define a extensão. O achado típico é acometimento da mucosa desde a margem anal, contínuo e simétrico, com demarcação clara entre mucosa inflamada e normal, começando com perda da trama vascular, eritema e edema e progredindo para mucosa granular, friável e ulcerada. Doença de longa duração dá perda das haustrações, pseudopólipos inflamatórios e encurtamento do cólon. A histologia mostra distorção arquitetural difusa de criptas e plasmocitose basal.

Aqui mora uma diferença que a prova cobra sem avisar. Para entrar no protocolo da doença de Crohn basta um laudo entre endoscópico, cirúrgico, anatomopatológico ou radiológico — inclusive radiografia de trânsito de delgado, tomografia enteral ou ressonância enteral. Para entrar no protocolo da retocolite exige-se diagnóstico comprovado por exame endoscópico e alterações histopatológicas sugestivas, com dois estados possíveis de inclusão: doença ativa, independentemente da extensão, ou remissão clínica em paciente já diagnosticado e em tratamento. Um laudo de entero-ressonância abre a porta de uma das doenças e não abre a da outra.

Doença de Crohn: classificar a atividade sem cair no ponto órfão

A atividade clínica da doença de Crohn é graduada pelo Índice de Harvey-Bradshaw, apresentado no protocolo como ferramenta simplificada com forte correlação com o índice considerado padrão-ouro — coeficiente de Pearson de 0,93. São cinco variáveis somadas: bem-estar geral de 0 a 4; dor abdominal de 0 a 3; um ponto por cada evacuação líquida no dia, sem teto; massa abdominal de 0 a 3; e um ponto por item da lista de complicações, que inclui artralgia, uveíte, eritema nodoso, úlceras aftoides, pioderma gangrenoso, fissura anal, nova fístula e abscesso.

As faixas, como o documento as escreve, são estas. Escore menor ou igual a 4 indica remissão clínica, e uma redução de 3 pontos em relação à avaliação anterior caracteriza resposta clínica relevante. Doença leve a moderada é igual a 5 a 7. Doença moderada a grave é maior que 8. Manifestações graves ou fulminantes têm, usualmente, escore superior a 8.

Coloque as faixas numa reta e conte. Até 4, remissão. De 5 a 7, leve a moderada. Acima de 8, moderada a grave. O valor 8 exato não pertence a nenhuma faixa — a banda leve a moderada fecha em 7 e a banda seguinte só abre depois do 8. Não é um vão teórico: com esse índice o 8 é fácil de alcançar. Um paciente que se declara com bem-estar “bom” (1 ponto), com dor abdominal leve (1 ponto) e seis evacuações líquidas no dia (6 pontos) soma exatamente 8, sem massa palpável e sem nenhuma complicação da lista. Ele não está em remissão, não é leve a moderado pela letra do texto e não é moderado a grave pela letra do texto.

O buraco tem consequência prática porque as duas faixas vizinhas prescrevem coisas diferentes. A faixa de baixo abre com aminossalicilato; a faixa de cima abre com prednisona ou metilprednisolona até a resolução dos sintomas, com azatioprina associada para prevenir recorrência e com anti-TNF a partir de seis semanas sem resposta clínica significativa. Entre dar sulfassalazina e dar corticoide sistêmico há uma distância grande, e o número que decide não tem casa.

Há um segundo corte, e é onde o protocolo colide consigo mesmo. O título da seção de tratamento da doença leve a moderada repete a faixa de 5 a 7. Dentro dela, porém, a frase que indica o primeiro medicamento diz: “recomenda-se iniciar o tratamento da doença leve colônica isolada ou ileocolônica (IHB < 5) com sulfassalazina”. Escore menor que 5 é escore menor ou igual a 4 — exatamente a faixa que o mesmo documento, oito páginas antes, chama de remissão clínica. Lido ao pé da letra, o único fármaco nomeado com qualificador numérico dentro da seção da doença leve a moderada é indicado para quem está em remissão, e a faixa de 5 a 7 do título fica sem indicação numérica própria.

O erro que o aluno marca é previsível. Diante de uma vinheta que dá o escore explícito de 8, a alternativa “doença leve a moderada, iniciar sulfassalazina” parece razoável porque 8 está perto de 7. A leitura correta é reconhecer que o texto não cobre esse valor e usar o resto do enunciado — perda de peso, febre, três ou mais evacuações por dia, dor abdominal acentuada, anemia — que é como o próprio protocolo descreve, em prosa, o paciente moderado a grave, independentemente do número.

Retocolite ulcerativa: extensão, gravidade e colite aguda grave

A gravidade da retocolite, diz o protocolo de 2024, se classifica pelos critérios de Truelove e Witts, “úteis na definição terapêutica”. Vale transcrever a redação exata, porque é dela que sai o problema: leve, “menos de 3 evacuações por dia, com ou sem sangue, sem comprometimento sistêmico e com velocidade de sedimentação globular normal”; moderada, “mais de 4 evacuações por dia com mínimo comprometimento sistêmico”; grave, “mais de 6 evacuações por dia com sangue e com evidência de comprometimentos sistêmicos, tais como febre, taquicardia, anemia e velocidade de sedimentação acima de 30”.

Conte de novo, com as coordenadas na mão. Leve termina em 2, porque “menos de 3” exclui o 3. Moderada começa em 5, porque “mais de 4” exclui o 4. As frequências de 3 e de 4 evacuações por dia não têm categoria — duas faixas órfãs seguidas, num índice cuja única variável fácil de contar é justamente a frequência.

Na outra ponta há o problema oposto. Grave é “mais de 6”, ou seja, 7 ou mais; moderada é “mais de 4”, ou seja, 5 ou mais. Sete evacuações por dia satisfazem as duas definições ao mesmo tempo, e o que desempata não é o número e sim a presença de comprometimento sistêmico — que a categoria moderada descreve como “mínimo” sem dizer o que é mínimo, e que a categoria grave lista como febre, taquicardia, anemia e velocidade de sedimentação acima de 30, com número apenas para o último item. Febre a partir de quanto, taquicardia a partir de quanto e anemia a partir de quanto o texto brasileiro não diz.

A literatura de onde o índice veio é mais fechada. O trabalho indiano que testou os critérios em outra população reproduz a definição de colite aguda grave como “6 or more stools with blood and 1 or more of hemoglobin <105 g/L, ESR >30 mm/h, fever >37.8 ℃, or tachycardia >90/min” — seis ou mais, e cada marcador com o seu corte. A diferença entre “seis ou mais” e “mais de seis” tem exatamente a largura de um paciente, e é sempre o mesmo paciente: aquele com 6 evacuações sanguinolentas por dia e um marcador sistêmico.

A vinheta que explora isso já existe e é fácil de reconhecer. Mulher jovem com retocolite conhecida, seis evacuações com sangue por dia, temperatura de 38,2 °C, frequência cardíaca de 96 batimentos por minuto e hemoglobina de 9,8 g/dL. Pelo critério clássico ela é colite aguda grave e interna para corticoide intravenoso. Pela letra do texto brasileiro ela não alcança “mais de 6” e cairia, no máximo, em moderada, cujo tratamento inicial é corticoide por via oral com aminossalicilato. O erro que o aluno marca é prescrever prednisona ambulatorial e agendar retorno — e a alternativa que o oferece costuma vir escrita com a palavra “moderada” no meio, como se a palavra viesse do enunciado.

Reta numérica de evacuações por dia, de 0 a 9, com quatro barras. A faixa leve cobre de 0 a 2, a moderada começa em 5, a grave começa em 7 e o critério clássico, desenhado abaixo do eixo, começa em 6. As posições 3 e 4 ficam sem barra nenhuma, marcadas como sem categoria, e de 7 em diante moderada e grave se sobrepõem. Um marcador sobre o 6 descreve paciente com 6 evacuações com sangue, temperatura 38,2 graus, frequência cardíaca 96 e hemoglobina 9,8, classificado como colite aguda grave pelo critério clássico e no máximo moderada pela letra do texto brasileiro.
Escrita com “menos de 3” e “mais de 4”, a régua de gravidade da retocolite deixa 3 e 4 evacuações sem categoria, sobrepõe moderada e grave a partir de 7 e perde o paciente de 6 evacuações com sangue.

Colite aguda grave: reavaliar no terceiro dia e decidir resgate ou cirurgia

Na colite aguda grave, o momento de decidir se o corticoide intravenoso funcionou é o terceiro dia. O protocolo brasileiro nomeia a régua pelo lugar de origem e escreve: “Pacientes que no terceiro dia apresentam mais de 8 evacuações ao dia e PCR > 45 mg/dL apresentam 85% de risco de evoluírem para a necessidade de colectomia”.

O artigo original diz outra coisa. Em Gut, 1996, a frase é: “It could be predicted on day 3, that 85% of patients with more than eight stools on that day, or a stool frequency between three and eight together with a CRP > 45 mg/l, would require colectomy”. Três diferenças cabem numa linha só.

A primeira é o conectivo. O original oferece dois caminhos alternativos — ou mais de oito evacuações sozinhas, ou de três a oito evacuações acompanhadas de proteína C reativa alta. A redação brasileira troca o “ou” por “e” e transforma dois caminhos independentes numa exigência conjunta: seria preciso ter as duas coisas.

A segunda é o ramo que desapareceu. A faixa de três a oito evacuações com proteína C reativa acima do corte simplesmente não sobreviveu à tradução — e é o ramo que descreve o paciente mais comum do terceiro dia, aquele que melhorou um pouco na contagem mas mantém inflamação sistêmica alta.

A terceira é a unidade, e é a que morde mais fundo porque age sempre na mesma direção. O original diz 45 mg/L; o texto brasileiro diz 45 mg/dL. Como um decilitro é um décimo de litro, 45 mg/dL equivalem a 450 mg/L — dez vezes o corte original. Convertendo no sentido inverso: o corte verdadeiro de 45 mg/L corresponde a 4,5 mg/dL. Um paciente no terceiro dia com 5 evacuações e proteína C reativa de 90 mg/L está acima do corte de Oxford com folga de duas vezes; lido pela letra do protocolo, ele tem 9 mg/dL, não alcança os 45 mg/dL exigidos, e ainda por cima não tem “mais de 8 evacuações”, de modo que falha nos dois membros da conjunção. A régua nacional, lida literalmente, não enxerga o paciente que a régua original inventou para enxergar.

O mesmo parágrafo traz um segundo número, e esse está correto no que afirma: radiografia de abdome no acompanhamento para identificar dilatação do cólon acima de 5,5 cm, também associada a maior chance de colectomia. É marcador de risco medido no terceiro dia, não a definição de megacólon tóxico, que é diagnóstico clínico-radiológico de dilatação maior com toxicidade sistêmica.

Aminossalicilatos: indicação, via e dose conforme extensão e atividade

Sulfassalazina e mesalazina estão nos dois protocolos, e é aí que a aritmética de dose vira armadilha, porque os números não coincidem.

No protocolo da doença de Crohn a mesalazina tem esquema único: 4 g por dia, por via oral, divididos de 6 em 6, de 8 em 8 ou de 12 em 12 horas. Duas páginas antes, na seção da gestante, o mesmo documento escreve que “a mesalazina é considerada segura durante a gestação em doses de até 3 g/dia, não tendo sido testadas doses maiores”. O único esquema que o protocolo oferece está acima do teto que o próprio protocolo declara testado na gravidez, e não há esquema intermediário escrito em lugar nenhum. A gestante tratada exatamente como o documento manda está, por definição, um grama acima do que ele chama de seguro.

A sulfassalazina do protocolo da doença de Crohn é prescrita como “2 comprimidos a 4 comprimidos, por via oral, de 8 em 8 horas, após as refeições”, e o comprimido listado é de 500 mg. Faça a conta: de 6 a 12 comprimidos por dia, ou seja, 3 g a 6 g por dia. No protocolo da retocolite, a mesma sulfassalazina é prescrita como 2 g a 4 g por dia, divididas de 12 em 12 horas, com início possível em 1 g ao dia e escalonamento. O mesmo fármaco, da mesma prateleira do Sistema Único de Saúde, tem teto de 6 g numa doença e de 4 g na outra.

Dentro do protocolo da retocolite há ainda um terceiro teto, criado pela apresentação. Mesalazina em comprimidos: 2 g a 4,8 g por dia. Mesalazina em sachê: dose individual de até 4 g por dia no tratamento agudo, com dose máxima diária de 4 g e manutenção de 2 g uma vez ao dia. Trocar comprimido por sachê no mesmo paciente, com a mesma doença e a mesma gravidade, rebaixa o teto em 0,8 g por dia — e o documento apresenta as duas apresentações como equivalentes em eficácia, dizendo apenas que o sachê é mais cômodo.

Duas frases dos protocolos costumam ser lidas ao contrário. A primeira é do protocolo da doença de Crohn: as evidências mostram “benefício apenas marginal da mesalazina na doença de Crohn ou mesmo ineficácia frente a placebo”, e a própria sulfassalazina só é eficaz na doença colônica, não sendo melhor que placebo na doença restrita ao delgado. A segunda é do protocolo da retocolite: “em caso de falha de indução com sulfassalazina ou mesalazina, não há benefício da troca entre elas”, e o passo seguinte é corticoide — a alternativa que propõe trocar um aminossalicilato pelo outro depois da falha está explicitamente vedada.

Corticoide: indução, teto de dose e desmame

O protocolo da retocolite prescreve prednisona com dose inicial de “40 a 60 mg (0,75 a 1 mg/kg/dia não excedendo a dose máxima diária de 60 mg)”, por via oral, preferencialmente pela manhã. O protocolo da doença de Crohn prescreve “40 mg a 60 mg por dia por via oral, até a resolução dos sintomas e a cessação da perda de peso ou, em altas doses, 1 mg/kg/dia por via oral após as refeições” — e não escreve teto nenhum.

Some um paciente de 95 kg às duas frases. Pela regra da retocolite, 1 mg/kg daria 95 mg, mas o parêntese trava em 60 mg e a prescrição fica em 60 mg. Pela regra da doença de Crohn, a mesma conta dá 95 mg e nada no texto a impede. É a mesma molécula, na mesma dose por quilo, e a diferença de 35 mg por dia depende apenas de qual das duas doenças inflamatórias intestinais o paciente tem.

O desmame também não coincide, e dá para cronometrar. Na doença de Crohn: reduzir de 5 a 10 mg por semana até 20 mg e, depois, de 2,5 a 5 mg por semana até suspender — partindo de 60 mg no ritmo mais lento, são 8 mais 8 semanas, 16 semanas de desmame. Na retocolite: 5 a 10 mg por semana até 20 mg, depois 5 mg por semana até 5 mg por dia e por fim 2,5 mg por semana até a retirada — no mesmo ritmo lento, 8 mais 3 mais 2 semanas, 13 semanas. Três semanas de diferença no mesmo fármaco e pela mesma via.

O corticoide intravenoso repete o padrão. Na retocolite, hidrocortisona 100 mg de 6 em 6 horas, o que dá 400 mg por dia — embora o quadro de esquemas do mesmo documento escreva “100 mg intravenoso de 6/6h ou de 8/8h”, admitindo também 300 mg. Na doença de Crohn, o esquema listado é succinato sódico de hidrocortisona 100 mg de 8 em 8 horas, isto é, 300 mg por dia. Para o mesmo paciente internado e o mesmo frasco de 100 mg, a dose diária varia entre 300 e 400 mg conforme a doença e conforme o parágrafo que se lê.

Duas condutas em torno do corticoide merecem nota. A retocolite preconiza tratamento empírico de estrongiloidíase antes do início da prednisona — uma linha que o protocolo da doença de Crohn não escreve. E o uso de corticoide por mais de seis semanas impõe, na retocolite, avaliação oftalmológica e densitometria óssea, além das dosagens de sódio, potássio e glicemia de jejum que valem para todos.

Imunomoduladores e biológicos: quando subir o degrau

Na doença de Crohn moderada a grave a sequência é: corticoide para induzir, azatioprina associada para não perder a remissão, e biológico quando não houver resposta clínica significativa após 6 semanas de corticoide com imunomodulador. A azatioprina começa com 50 mg por dia, apenas para testar tolerância, e depois escalona para 2,0 a 2,5 mg/kg/dia. Para 70 kg isso são 140 a 175 mg, e o comprimido disponível é de 50 mg — a dose exata não sai com comprimidos inteiros, e a prescrição real arredonda para 150 mg, que devolve 2,14 mg/kg. O metotrexato entra como alternativa em caso de evento adverso, 25 mg semanais por via intramuscular na indução, com a ressalva de que seu papel na indução “ainda é duvidoso”.

Entre os anti-TNF, o protocolo não tem estudo de comparação direta, mas registra que análises indiretas sugerem o infliximabe como o mais eficaz para induzir remissão, sobretudo em paciente virgem de biológico, e que a associação de infliximabe com azatioprina supera a monoterapia. A dose vem escrita como “5 mg/kg/semana, administrado por um período mínimo de 2 horas, nas semanas 0, 2 e 6 e, após a indução, manutenção a cada 8 semanas”. A unidade e o cronograma não combinam: 5 mg/kg por semana descreveria aplicação semanal, e o que o esquema descreve é uma dose de 5 mg/kg em cada um dos três momentos. A leitura correta é a do cronograma; a barra da semana é ruído de redação e aparece três vezes no mesmo documento.

A segunda linha da doença de Crohn é ustequinumabe ou vedolizumabe, para quem teve não resposta primária, perda de resposta secundária ou intolerância ao anti-TNF. O protocolo quantifica o prognóstico dessa troca: quem não respondeu primariamente a um anti-TNF tem chance de resposta ao segundo biológico reduzida em 24% frente aos intolerantes e em 27% frente aos que tiveram perda secundária. É uma frase que a prova adora, porque separa três tipos de falha que o aluno costuma tratar como um só.

Na fístula perianal, a ordem é clara e não admite inversão: fístula simples assintomática não requer tratamento específico; complicações não supurativas respondem a metronidazol com ou sem ciprofloxacino; fístulas complexas têm complicação supurativa e exigem drenagem cirúrgica antes de qualquer outra coisa; só depois de excluída sepse concomitante entra o anti-TNF, com preferência para o infliximabe. Imunossuprimir sobre coleção não drenada agrava a sepse, e essa é a inversão que mais aparece em vinheta.

É no fim dessa mesma subseção que o documento se desdiz. Uma frase diz que, na fístula perianal complexa, ustequinumabe ou vedolizumabe “são opções eficazes no caso de falha aos anti-TNF, com preferência ao vedolizumabe”. As duas frases seguintes dizem que “não se recomenda o uso de ustequinumabe” nessa população e que o vedolizumabe não foi avaliado e “seu uso não é recomendado”. Três frases, um parágrafo, instruções opostas.

Na retocolite a escada é outra. Doença moderada a grave começa com corticoide oral e aminossalicilato; entra imunossupressor em quem depende de corticoide; e a falha do imunossupressor é definida com número — dependência de corticoide apesar de dose adequada de azatioprina por tempo mínimo de 12 semanas. Só então vêm infliximabe, vedolizumabe ou tofacitinibe. As regras de suspensão por falha primária também têm prazo: infliximabe e vedolizumabe são suspensos em 3 meses sem resposta clínica; o tofacitinibe, na semana 16, depois de indução com 10 mg duas vezes ao dia por pelo menos 8 semanas, prorrogáveis por mais 8, com manutenção de 5 mg duas vezes ao dia.

A gestante, a semana em que se para e a vacina do recém-nascido

A gravidez é onde os dois protocolos federais divergem de frente, e a divergência é numérica. O protocolo da doença de Crohn escreve que, como o infliximabe é detectado no feto até os 6 meses de vida, especialistas sugerem interromper o anti-TNF “a partir da 22ª semana a 24ª semana de gestação em pacientes com baixo risco de recorrência”. O protocolo da retocolite escreve que “especialistas sugerem a suspensão dos anti-TNF na 24ª – 26ª semana de gestação, quando possível, levando em consideração a gravidade da doença”. As duas janelas se tocam apenas na semana 24. Nas semanas 22 e 23 um protocolo já autoriza parar e o outro ainda não; nas semanas 25 e 26 um já passou do prazo e o outro ainda está dentro dele.

O protocolo da doença de Crohn é mais restritivo em quem pode parar, e define o baixo risco com quatro condições somadas: remissão sustentada por mais de 6 meses, escore de Harvey-Bradshaw menor ou igual a 4, calprotectina fecal abaixo de 150 µg/g e ausência de manifestação extraintestinal. Fora disso, a recomendação é manter o anti-TNF durante toda a gestação, porque a interrupção aumenta a chance de reativação com razão de chances de 2,5. Se houver aumento súbito e intenso dos sintomas, retoma-se imediatamente no pós-parto.

Um segundo desacordo é sobre um fármaco inteiro. O protocolo da doença de Crohn classifica infliximabe, adalimumabe, certolizumabe pegol, ustequinumabe e vedolizumabe como categoria B de risco na gravidez pelas agências reguladoras, e trata todos como utilizáveis com cautela. O protocolo da retocolite escreve que “o vedolizumabe e o tofacitinibe não são preconizados durante a gestação e o puerpério, considerando o escasso corpo de evidência e a limitada experiência de uso”. A mesma molécula, dois documentos federais, posturas opostas.

Onde os dois concordam vale memorizar. O metotrexato é teratogênico e formalmente contraindicado, com anticoncepção segura obrigatória. A sulfassalazina é segura nos dois primeiros trimestres e na amamentação, mas no último trimestre aumenta o risco de kernicterus. O corticoide preferido é a prednisona. O metronidazol não deve ser usado no primeiro trimestre nem na amamentação.

Uma recomendação existe em um protocolo e não no outro, e é a que mais surpreende: o protocolo da doença de Crohn recomenda o certolizumabe pegol como biofármaco de primeira escolha para gestantes com indicação de tratamento biológico, por ter menor taxa de transferência placentária. É a única situação em que o certolizumabe aparece à frente do infliximabe e do adalimumabe nesse documento, que fora da gestação os coloca como biológicos de primeira linha.

Depois do parto, a lista de vacinas proibidas ao recém-nascido exposto também não coincide. O protocolo da doença de Crohn é amplo: filhos de mães que usaram anti-TNF na gravidez “não devem receber vacina com agentes vivos (como BCG, rotavírus ou pólio oral) durante os primeiros 6 meses de vida”. O protocolo da retocolite nomeia apenas uma: “a vacinação contra a tuberculose no neonato exposto ao anti-TNF durante a gestação deve ser postergada, devendo ocorrer após os 6 meses”. Duas listas diferentes para a mesma exposição, e a diferença recai justamente sobre vacinas de vírus vivo administradas nos primeiros meses de vida.

Seguimento seguro: infecções, vacinas, câncer e monitorização

Um capítulo que só aponta buraco ensina desconfiança, não medicina. Nos mesmos dois protocolos há blocos que fecham sem vão nenhum, e eles são tão cobráveis quanto os defeituosos.

O melhor deles é o rastreio de tuberculose antes do biológico, no protocolo da retocolite. Antes de infliximabe, vedolizumabe ou tofacitinibe: pesquisar tuberculose ativa e infecção latente; radiografia de tórax para excluir doença ativa; prova tuberculínica ou teste de liberação de interferon-gama; tratar a infecção latente quando prova tuberculínica maior ou igual a 5 mm ou teste de interferon reagente, excluída a doença ativa; tratar também, sem precisar do teste, quando houver alteração radiográfica compatível com tuberculose prévia não tratada ou contato próximo com caso pulmonar nos últimos dois anos; iniciar o biológico 4 semanas após o início do tratamento da infecção latente. Não há valor órfão nem categoria sem conduta.

O bloco de acompanhamento é igualmente fechado: não se repete o teste em quem já foi positivo, em quem já tratou a infecção latente em qualquer momento da vida ou em quem já completou tratamento de tuberculose, salvo nova exposição; quem fez prova tuberculínica continua sendo monitorado por prova tuberculínica e quem fez teste de interferon continua com ele; para os negativos, repete-se anualmente. E a troca entre infliximabe, vedolizumabe e tofacitinibe não exige repetir nada disso.

A regra renal da ciclosporina é outro exemplo de redação que fecha. A dose é 2 mg/kg/dia em infusão contínua por 7 dias e, após resposta clínica, 5 mg/kg/dia por via oral divididos em duas tomadas por 12 semanas, com transição para azatioprina. O monitoramento tem gatilho, janela e saída: reduzir a dose em 25% a 50% se houver elevação sustentada de pelo menos 25% da creatinina — sustentada definida como duas dosagens dentro de 14 dias — e suspender se a creatinina não cair após dois ajustes.

A cadência do hemograma na azatioprina cabe num calendário: semanal no primeiro mês, quinzenal no segundo e no terceiro, mensal depois, com transaminases na mesma periodicidade nos primeiros seis meses e trimestrais em seguida, e novo hemograma sempre que a dose mudar. O documento ainda esclarece um ponto que gera erro conceitual: não há relação entre a neutropenia e o efeito benéfico, e a dose não deve ser aumentada de propósito para baixar leucócitos.

Por fim, a sequência da fístula perianal na doença de Crohn está certa na ordem, mesmo com o parágrafo final que se contradiz sobre o biológico de segunda linha: drenar antes de imunossuprimir é a regra que salva o paciente, e é ela que a vinheta cobra.

04

As réguas do tema, com os vãos marcados

A vinheta de doença inflamatória intestinal quase sempre se resolve em três perguntas encadeadas: qual das duas doenças é, em que faixa de gravidade o paciente cai e qual degrau da escada de medicamentos essa faixa abre. Cada pergunta tem documento dono, e em três delas o número do documento não fecha — por isso o comando do enunciado importa tanto quanto o quadro clínico.

  1. 1Separe a doença: acometimento segmentar, assimétrico e transmural, da boca ao ânus, com áreas de mucosa normal entre as lesões, aponta doença de Crohn; acometimento contínuo desde a margem anal, limitado à mucosa do cólon, aponta retocolite ulcerativa.
  2. 2Confirme com o degrau de prova que cada protocolo exige: um laudo entre endoscópico, cirúrgico, anatomopatológico ou radiológico basta na doença de Crohn; a retocolite pede exame endoscópico com alterações histopatológicas sugestivas.
  3. 3Meça a atividade com a régua certa: Índice de Harvey-Bradshaw na doença de Crohn, critérios de Truelove e Witts na retocolite. Não misture as duas.
  4. 4Na retocolite, some a extensão de Montreal à gravidade: proctite trata por via retal, colite esquerda soma enema à via oral, pancolite começa por via oral.
  5. 5Na colite aguda grave, interne, dê hidrocortisona intravenosa, peça toxina de Clostridium difficile, faça profilaxia de tromboembolismo, chame a cirurgia desde o início e reavalie no terceiro dia.
  6. 6Antes de qualquer biológico, rastreie tuberculose ativa e latente com radiografia de tórax e prova tuberculínica ou teste de interferon, e trate a infecção latente quatro semanas antes de imunossuprimir.
  7. 7Na fístula perianal complexa, drene primeiro, exclua sepse, e só então indique o anti-TNF.

A conta do índice de Crohn

Cada evacuação líquida do dia vale 1 ponto, sem teto. Bem-estar bom (1) mais dor leve (1) mais seis evacuações (6) dá exatamente 8 — o único valor que nenhuma faixa do protocolo cobre.

A largura de um paciente

Colite grave é seis ou mais evacuações sanguinolentas na literatura e mais de seis no texto brasileiro. A diferença é exatamente o paciente com seis evacuações e um marcador sistêmico.

O fator dez do terceiro dia

O corte de Oxford é 45 mg/L, que equivale a 4,5 mg/dL. O texto brasileiro escreve 45 mg/dL, ou seja, 450 mg/L. Antes de responder, confira em que unidade o enunciado deu a proteína C reativa.

Drenar antes de imunossuprimir

Fístula perianal complexa tem complicação supurativa e exige drenagem cirúrgica. Anti-TNF só depois de excluída sepse concomitante. Começar biológico sobre coleção não drenada é o erro que mais aparece.

Falha não é uma coisa só

Não resposta primária, perda de resposta secundária e intolerância têm prognósticos diferentes no segundo biológico: quem falhou primariamente responde 24% menos que o intolerante e 27% menos que quem teve perda secundária.

Trocar aminossalicilato não resolve

Falhou a indução com sulfassalazina ou mesalazina na retocolite, não há benefício em trocar uma pela outra. O próximo degrau é corticoide.

As faixas do Índice de Harvey-Bradshaw como o protocolo de 2026 as escreve

Faixa escrita no documentoValores que ela cobreO que o documento prescreveObservação
Menor ou igual a 40 a 4Remissão clínica; manutenção com o que já vinha em usoÉ também a faixa citada como IHB menor que 5 dentro da seção da doença leve a moderada, para iniciar sulfassalazina
Igual a 5 a 75, 6 e 7Doença leve a moderada: acompanhamento ambulatorial conjunto com a atenção primáriaO título da seção repete esta faixa, mas o único fármaco com qualificador numérico dentro dela é indicado para escore menor que 5
Sem cobertura8 exatoNenhuma conduta escrita para este valorFaixa órfã: a banda de baixo fecha em 7 e a de cima abre depois de 8
Maior que 89 em dianteDoença moderada a grave: prednisona ou metilprednisolona, azatioprina associada, anti-TNF após 6 semanas sem respostaMesmo intervalo numérico usado para as formas graves ou fulminantes, que trocam o corticoide oral pelo intravenoso

Gravidade da retocolite: o texto brasileiro ao lado da definição da literatura

CategoriaRedação do protocolo de 2024Valores realmente cobertosDefinição usada na literatura
LeveMenos de 3 evacuações por dia, com ou sem sangue, sem comprometimento sistêmico, com velocidade de sedimentação normal0 a 2 evacuaçõesDoença de baixa frequência sem marcador sistêmico
Sem coberturaNenhuma categoria escrita3 e 4 evacuações por diaFaixa que a definição original inclui na doença leve a moderada
ModeradaMais de 4 evacuações por dia com mínimo comprometimento sistêmico5 em diante, sem número para o que é mínimoIntermediária entre leve e grave
GraveMais de 6 evacuações por dia com sangue e evidência de comprometimento sistêmico, com velocidade de sedimentação acima de 307 em diante; 7 e 8 também satisfazem a definição de moderadaSeis ou mais evacuações com sangue e ao menos um de: hemoglobina abaixo de 105 g/L, velocidade de sedimentação acima de 30 mm/h, febre acima de 37,8 °C ou frequência cardíaca acima de 90

O mesmo fármaco nos dois protocolos federais

FármacoDoença de Crohn, 2026Retocolite ulcerativa, 2024Onde a diferença morde
Mesalazina oral4 g por dia, dividida de 6, 8 ou 12 horas; declarada segura na gestação em até 3 g por diaComprimidos de 2 g a 4,8 g por dia; sachê com máximo de 4 g por diaA gestante tratada com o único esquema do protocolo da doença de Crohn fica 1 g acima do teto que o mesmo documento chama de testado
Sulfassalazina2 a 4 comprimidos de 500 mg de 8 em 8 horas, ou seja, 3 g a 6 g por dia2 g a 4 g por dia de 12 em 12 horas, com início possível em 1 gTeto de 6 g numa doença e de 4 g na outra, para o mesmo comprimido
Prednisona40 a 60 mg por dia ou, em altas doses, 1 mg/kg/dia, sem teto escrito40 a 60 mg (0,75 a 1 mg/kg/dia, não excedendo 60 mg por dia)Num paciente de 95 kg a conta dá 95 mg num protocolo e 60 mg no outro
Hidrocortisona intravenosa100 mg de 8 em 8 horas, ou seja, 300 mg por dia100 mg de 6 em 6 horas por 7 a 10 dias, ou seja, 400 mg por diaMesmo frasco e mesma via, dose diária diferente conforme a doença
AzatioprinaInício com 50 mg por dia, depois 2,0 a 2,5 mg/kg/dia2,0 a 2,5 mg/kg/dia, com início em 50 mg até reavaliaçãoCoincidem; num paciente de 70 kg a faixa é 140 a 175 mg e o comprimido é de 50 mg
Infliximabe5 mg/kg nas semanas 0, 2 e 6, manutenção a cada 8 semanas, com escalonamento possível a 10 mg/kg5 mg/kg nas semanas 0, 2 e 6, manutenção a cada 8 semanas, ajuste até 10 mg/kgCoincidem; o protocolo da doença de Crohn escreve a dose como 5 mg/kg por semana, o que contraria o próprio cronograma

Quando o enunciado citar nominalmente o protocolo brasileiro, responda pela letra do documento, inclusive quando ela diverge da literatura. Quando não citar documento algum e apenas descrever o paciente, use a definição consagrada — é ela que a maioria das bancas assume por padrão.

Proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação podem estar normais na doença distal da retocolite. Valor normal em paciente com retite não afasta atividade.

Nenhum dos dois protocolos trata de vigilância de displasia na colite de longa data: esse conteúdo pertence ao capítulo de câncer colorretal, e uma alternativa que ofereça periodicidade de colonoscopia de vigilância está mudando de assunto.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Em que semana da gestação se pode interromper o anti-TNF

Entre a 22ª e a 24ª semana, só em baixo risco

Como o infliximabe é detectado no feto até os 6 meses de vida, especialistas sugerem a interrupção de uso dos anti-TNF a partir da 22ª semana a 24ª semana de gestação em pacientes com baixo risco de recorrência da doença, definido como remissão sustentada por mais de 6 meses, escore de Harvey-Bradshaw menor ou igual a 4, calprotectina fecal abaixo de 150 µg/g e ausência de manifestação extraintestinal.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 51, de 18 de maio de 2026, item 6.6.2 do PCDT da Doença de Crohn

Entre a 24ª e a 26ª semana, quando possível

Devido à detecção de infliximabe no feto até os 6 meses de vida, especialistas sugerem a suspensão dos anti-TNF na 24ª a 26ª semana de gestação, quando possível, levando em consideração a gravidade da doença.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024, item 6.5.2 do PCDT de Retocolite Ulcerativa

Na prova

As duas janelas só coincidem na semana 24. Para identificar o recorte, olhe qual doença a vinheta descreve, e não o fármaco: a mesma gestante em uso de infliximabe tem prazo diferente conforme tenha doença de Crohn ou retocolite. Quando o enunciado disser apenas doença inflamatória intestinal sem especificar, a alternativa que cita a semana 24 é a única compatível com os dois documentos — e é assim que a banca costuma resolver o impasse sem tomar partido.

Vedolizumabe na gestação e no puerpério

Utilizável, classificado como categoria B

O risco do uso de infliximabe, adalimumabe, certolizumabe pegol, ustequinumabe e vedolizumabe na gravidez é classificado pelas agências reguladoras brasileira e norte-americana como Categoria B, com a recomendação de método contraceptivo durante o tratamento e por período após ele.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 51, de 18 de maio de 2026, item 6.6.2 do PCDT da Doença de Crohn

Não preconizado

O vedolizumabe e o tofacitinibe não são preconizados durante a gestação e o puerpério, considerando o escasso corpo de evidência e a limitada experiência de uso destes fármacos.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024, item 6.5.2 do PCDT de Retocolite Ulcerativa

Na prova

É divergência de documento, não de farmacologia: os dois protocolos olham para o mesmo corpo de evidência escasso e escolhem posturas opostas. Reconheça o recorte pela doença da vinheta e pelo vocabulário — quando o enunciado descrever gestante com retocolite e oferecer vedolizumabe entre as opções, o distrator está montado sobre o protocolo da outra doença.

O que se usa primeiro na colite aguda grave refratária ao corticoide intravenoso

Ciclosporina como primeira escolha

Na ausência de resposta ao corticoide, em serviço com experiência nesse uso, preconiza-se o uso de ciclosporina intravenosa, como primeira escolha, na dose de 2 mg/kg/dia em infusão contínua durante 7 dias.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024, item 6.1.5 do PCDT de Retocolite Ulcerativa

Ciclosporina e infliximabe com eficácia semelhante

Portanto, a ciclosporina e o infliximabe são considerados opções com eficácia semelhante para o tratamento da colite aguda grave em pacientes refratários a corticoide intravenoso. Pacientes que já vinham em uso de azatioprina, ou com perda de função renal, devem receber infliximabe.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024, item 6.1.5 do PCDT de Retocolite Ulcerativa, parágrafos seguintes

Na prova

As duas posições estão no mesmo documento e na mesma subseção, com dois parágrafos de distância. Para identificar o recorte, procure no enunciado os dois filtros que o próprio texto oferece: uso prévio de azatioprina e função renal. Havendo qualquer um deles, a resposta é infliximabe sem discussão; não havendo nenhum, o enunciado que fala em serviço com experiência está apontando para a ciclosporina, e o que apenas descreve terapia de resgate aceita as duas.

O critério do terceiro dia: conectivo e unidade

Dois caminhos alternativos, com proteína C reativa em mg/L

It could be predicted on day 3, that 85% of patients with more than eight stools on that day, or a stool frequency between three and eight together with a CRP > 45 mg/l, would require colectomy.

Travis SP et al. Predicting outcome in severe ulcerative colitis. Gut. 1996;38(6):905-910

Exigência conjunta, com proteína C reativa em mg/dL

Pacientes que no terceiro dia apresentam mais de 8 evacuações ao dia e PCR maior que 45 mg/dL apresentam 85% de risco de evoluírem para a necessidade de colectomia.

Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024, item 6.1.5 do PCDT de Retocolite Ulcerativa

Na prova

A diferença é de leitura, não de medicina: 45 mg/L equivalem a 4,5 mg/dL, e o texto brasileiro pede um valor dez vezes maior, além de trocar o ou por e e de perder o ramo das três a oito evacuações. Para identificar o recorte, confira a unidade em que o enunciado deu a proteína C reativa. Valor em mg/L com referência do tipo menor que 5 é o mundo do artigo original, e a alternativa que oferece resgate está correta; menção nominal ao protocolo brasileiro com o valor em mg/dL é o outro mundo.

Ustequinumabe e vedolizumabe na fístula perianal complexa da doença de Crohn

Opções eficazes, com preferência ao vedolizumabe

Ainda para doença de Crohn com fístulas perianais complexas, ustequinumabe ou vedolizumabe são opções eficazes no caso de falha aos anti-TNF, com preferência ao vedolizumabe.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 51, de 18 de maio de 2026, item 6.4 do PCDT da Doença de Crohn

Nenhum dos dois é recomendado

Ainda há escassez de dados de eficácia de ustequinumabe nessa subpopulação. Logo, não se recomenda o uso de ustequinumabe por pacientes com doença de Crohn complicada por fístulas perianais. Ressalta-se, ainda, que o vedolizumabe não foi avaliado para o tratamento desta população e, portanto, seu uso não é recomendado.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 51, de 18 de maio de 2026, item 6.4 do PCDT da Doença de Crohn, duas frases adiante

Na prova

As duas posições ocupam o mesmo parágrafo e o aluno não tem como escolher entre elas por argumento clínico. O que resolve a questão é o degrau anterior: em fístula perianal complexa, a decisão que a banca cobra quase sempre é drenar antes de imunossuprimir e usar infliximabe como anti-TNF preferencial. Alternativa que pule a drenagem ou que discuta segunda linha antes de excluir sepse está errada por outro motivo, e o parágrafo contraditório deixa de importar.

06

Caso resolvido

Mulher de 26 anos, com retocolite ulcerativa diagnosticada há quatro anos, extensão de colite esquerda, em uso irregular de mesalazina oral. Procura o pronto-socorro com seis evacuações diárias com sangue e muco há seis dias, cólica abdominal difusa e adinamia. Ao exame: pressão arterial de 108/68 mmHg, frequência cardíaca de 98 batimentos por minuto, temperatura axilar de 38,1 °C, abdome doloroso à palpação difusa, sem descompressão dolorosa e sem distensão importante. Exames: hemoglobina de 9,6 g/dL, leucócitos de 13.200/mm³, proteína C reativa de 78 mg/L com referência abaixo de 5, velocidade de hemossedimentação de 44 mm/h e albumina de 3,0 g/dL. Radiografia de abdome sem dilatação colônica. O serviço tem leito de enfermaria e retaguarda cirúrgica.
o que o quadro já entrega
Retocolite conhecida, seis evacuações sanguinolentas por dia e três marcadores sistêmicos presentes ao mesmo tempo: febre acima de 37,8 °C, hemoglobina abaixo de 10,5 g/dL e velocidade de hemossedimentação acima de 30. A frequência cardíaca de 98 acrescenta um quarto marcador. Pela definição usada na literatura, isso é colite aguda grave — seis ou mais evacuações com sangue mais pelo menos um marcador.
onde a régua brasileira hesita
O protocolo de 2024 escreve a categoria grave como mais de seis evacuações por dia com sangue. Seis exatas não alcançam esse limiar pela letra do texto, e a categoria moderada, que exige mais de quatro, cobre o caso. A hesitação é da redação, não do paciente: a mesma frase que trava em mais de seis nomeia como marcadores de gravidade exatamente febre, taquicardia, anemia e velocidade de sedimentação acima de 30, todos presentes aqui.
a decisão que o quadro pede
Internar. O tratamento da colite aguda grave é hidrocortisona 100 mg por via intravenosa de 6 em 6 horas por 7 a 10 dias, com hidratação venosa, pesquisa fecal de toxina de Clostridium difficile, profilaxia de tromboembolismo venoso e suspensão de narcótico e de anticolinérgico. Retossigmoidoscopia sem preparo pode ser considerada para descartar colite por citomegalovírus pela histopatologia. A avaliação cirúrgica é precoce e acompanha a internação inteira.
o que fazer no terceiro dia
Reavaliar com o critério do terceiro dia. Se ela mantiver mais de oito evacuações no dia, ou de três a oito evacuações com proteína C reativa acima de 45 mg/L, o risco de colectomia é alto e a terapia de resgate está indicada. Note a unidade: 78 mg/L são 7,8 mg/dL, muito acima do corte real de 45 mg/L e muito abaixo dos 45 mg/dL que o protocolo escreve. A radiografia de abdome no seguimento procura dilatação acima de 5,5 cm.
qual resgate, e por quê
Ela nunca usou azatioprina e não tem alteração de função renal descrita, de modo que o protocolo admite ciclosporina intravenosa a 2 mg/kg/dia em infusão contínua por 7 dias, em serviço com experiência, ou infliximabe, considerados de eficácia semelhante. Não se faz terapia sequencial: se falhar o primeiro resgate, a indicação é colectomia, e o procedimento preferido no quadro grave é a colectomia subtotal com ileostomia terminal, deixando a reconstrução para depois da recuperação.
o que não fazer
Não trocar mesalazina por sulfassalazina, porque a troca entre aminossalicilatos após falha não traz benefício. Não iniciar azatioprina como resgate agudo, porque ela leva semanas para agir e a falha do imunossupressor na retocolite é definida por dependência de corticoide apesar de dose adequada por pelo menos 12 semanas. E não iniciar biológico antes de rastrear tuberculose ativa e latente com radiografia de tórax e prova tuberculínica ou teste de interferon.
07

Agora feche você

Homem de 29 anos, 95 kg, com doença de Crohn ileocolônica diagnosticada há três anos. Retorna ao ambulatório referindo piora nas últimas quatro semanas. Diz que seu bem-estar geral está ruim, tem dor abdominal moderada e conta seis evacuações líquidas por dia. Ao exame não há massa abdominal palpável e não há artralgia, uveíte, eritema nodoso, úlcera aftoide, pioderma gangrenoso, fissura, fístula nova ou abscesso. Perdeu 4 kg em dois meses. Está em uso de sulfassalazina desde o diagnóstico, sem corticoide e sem imunomodulador. Nunca fez radiografia de tórax nem prova tuberculínica.
primeiro, some
Aplique o Índice de Harvey-Bradshaw variável por variável neste paciente: bem-estar ruim, dor moderada, seis evacuações líquidas, sem massa e sem complicações. Qual é o total, e em qual faixa escrita do protocolo de 2026 ele cai?
depois, decida sem o número
Se o total não tiver faixa, quais elementos em prosa do enunciado permitem classificá-lo mesmo assim? Liste os que o próprio protocolo usa para descrever a doença moderada a grave e confira quantos deles este paciente tem.
o degrau seguinte
Qual medicamento abre o tratamento na faixa que você escolheu, e qual é a dose em miligramas para os 95 kg dele por cada uma das duas regras que o protocolo oferece? Uma delas devolve um número maior que o teto que o protocolo da outra doença inflamatória intestinal imporia — qual, e de quanto é a diferença?
o que se associa desde já
Que medicamento o protocolo manda associar ao corticoide para prevenir recorrência, com qual dose inicial, qual faixa terapêutica por quilo e por que a dose inicial é menor que a faixa alvo? Quantos comprimidos de 50 mg a faixa alvo exigiria neste peso?
quando chamar o biológico
Depois de quantas semanas sem resposta clínica significativa ao corticoide com imunomodulador o protocolo autoriza o anti-TNF, e qual dos três anti-TNF ele indica como provavelmente mais eficaz para indução em paciente virgem de biológico? Qual é o esquema de indução com a dose por quilo e as semanas?
o que precisa estar pronto antes
Que exames devem ser feitos antes de imunossuprimir, qual é o corte da prova tuberculínica que dispara o tratamento da infecção latente e quantas semanas depois do início desse tratamento o biológico pode começar? Em que situação o tratamento da infecção latente é iniciado sem necessidade de prova tuberculínica ou teste de interferon?
08

Onde a banca derruba

  1. 1Encaixar o escore 8 na faixa leve a moderada por proximidade É o erro mais barato do tema porque parece aritmética. A faixa leve a moderada fecha em 7 e a moderada a grave abre depois de 8, então o valor 8 não tem conduta escrita. Diante de um enunciado que dê o índice exato de 8, ignore a tentativa de encaixar e leia a descrição em prosa que o próprio protocolo oferece: febre, perda de peso, dor abdominal acentuada, anemia ou três ou mais evacuações por dia caracterizam o paciente moderado a grave, e é a essa descrição que o corticoide responde.
  2. 2Chamar de moderada a paciente com exatamente seis evacuações sanguinolentas A redação brasileira exige mais de seis para a categoria grave, enquanto a definição da literatura exige seis ou mais. A diferença tem a largura de um paciente. Quando o enunciado der exatamente seis evacuações com sangue somadas a febre, taquicardia, anemia ou velocidade de sedimentação acima de 30, o desfecho clínico correto é internação com corticoide intravenoso — mandar para casa com prednisona oral é o distrator que a redação do protocolo alimenta.
  3. 3Ler a proteína C reativa do terceiro dia sem conferir a unidade O corte de Oxford é 45 mg/L, que equivale a 4,5 mg/dL, e o texto brasileiro escreve 45 mg/dL. Uma proteína C reativa de 90 mg/L é o dobro do corte verdadeiro e um quinto do corte escrito. Antes de decidir se o paciente falhou ao corticoide, converta: divida o valor em mg/L por 10 para chegar a mg/dL. E lembre que o ramo de três a oito evacuações com proteína C reativa alta existe no artigo original e desapareceu da versão nacional.
  4. 4Confundir o marcador de risco de colectomia com a definição de megacólon tóxico Dilatação colônica acima de 5,5 cm na radiografia do terceiro dia é preditor de colectomia, e vem da mesma linhagem de escores prognósticos do critério do terceiro dia. Megacólon tóxico é diagnóstico clínico-radiológico, com dilatação maior e toxicidade sistêmica, e sua conduta é cirúrgica de urgência. Não são o mesmo corte nem o mesmo desfecho, e a alternativa que apresenta 5,5 cm como definição de megacólon troca um preditor por um diagnóstico.
  5. 5Começar biológico sobre coleção perianal não drenada Fístula perianal complexa apresenta complicação supurativa e requer drenagem cirúrgica, assim como os abscessos perianais e perirretais. Imunossuprimir sobre pus agrava a sepse. A ordem é drenar, excluir sepse concomitante e só então indicar o anti-TNF, com preferência ao infliximabe. Do outro lado da mesma régua, fístula perianal simples e assintomática não requer tratamento específico nenhum, e a alternativa que oferece antibiótico ou biológico para ela também está errada.
  6. 6Trocar sulfassalazina por mesalazina depois da falha de indução Parece prudente porque troca de molécula, e é justamente o que o protocolo da retocolite veda: em caso de falha de indução com uma delas, não há benefício na troca pela outra, e o passo seguinte é corticoide. A troca só é legítima por evento adverso — reação alérgica, discrasia sanguínea, hepatite, pancreatite, dor abdominal de forte intensidade —, não por falta de resposta.
  7. 7Esperar da mesalazina na doença de Crohn o que ela faz na retocolite Na retocolite os aminossalicilatos são a espinha do tratamento leve a moderado, com eficácia igual entre sulfassalazina e mesalazina. Na doença de Crohn o protocolo registra benefício apenas marginal da mesalazina ou mesmo ineficácia frente a placebo, e a sulfassalazina é eficaz na doença colônica mas não supera o placebo na doença restrita ao delgado. Uma vinheta de ileíte terminal que ofereça mesalazina como primeira linha está usando a régua da doença errada.
  8. 8Tratar não resposta primária, perda secundária e intolerância como a mesma falha O protocolo da doença de Crohn separa as três e quantifica a diferença: quem não respondeu primariamente ao anti-TNF tem chance de resposta ao segundo biológico reduzida em 24% frente ao intolerante e em 27% frente a quem teve perda de resposta secundária. A perda secundária associada a anticorpos contra o primeiro anti-TNF é a situação em que trocar por outro fármaco da mesma classe faz mais sentido, antes de passar à segunda linha.
  9. 9Achar que a proteína C reativa normal afasta atividade na retocolite distal O protocolo avisa que proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação auxiliam na avaliação, mas podem não estar alteradas na doença distal. Retite ativa com friabilidade e exsudato à retossigmoidoscopia pode cursar com provas inflamatórias normais. Quando o enunciado oferecer marcador normal como argumento para não tratar, olhe a extensão descrita antes de aceitar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Inflamação contínua, iniciando no reto e ascendente de forma uniforme, restrita à mucosa, com friabilidade e perda do padrão vascular, e íleo poupado, é o padrão típico da retocolite ulcerativa. A doença de Crohn cursa com acometimento salteado, transmural, frequente envolvimento ileal e lesões descontínuas. A colite pseudomembranosa (C. difficile) relaciona-se a uso de antibióticos, com placas pseudomembranosas. A colite isquêmica afeta áreas de divisor de águas em pacientes de risco vascular, de forma aguda. A síndrome do intestino irritável não causa sangramento, friabilidade nem alteração endoscópica inflamatória.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as cinco variáveis do Índice de Harvey-Bradshaw com suas pontuações e some o caso de um paciente com bem-estar bom, dor leve e seis evacuações líquidas; depois diga em que faixa do protocolo esse total cai. Em seguida escreva as três categorias de gravidade da retocolite exatamente como o protocolo brasileiro as redige, e aponte quais frequências de evacuação ficam sem categoria e quais satisfazem duas ao mesmo tempo. Termine escrevendo o critério do terceiro dia nas duas versões — a do artigo original e a do protocolo — e converta 45 mg/L para mg/dL em voz alta.

em 30 dias

Reconstrua a tabela dos fármacos nos dois protocolos com dose e teto de mesalazina, sulfassalazina, prednisona, hidrocortisona, azatioprina e infliximabe, e calcule para um paciente de 95 kg a prednisona permitida por cada documento e, para um de 70 kg, a azatioprina em comprimidos de 50 mg. Depois recite a sequência inteira da fístula perianal, do achado à droga, e a sequência inteira do rastreio de tuberculose antes do biológico, com o corte de 5 mm e o intervalo de quatro semanas. Feche dizendo, sem consultar, as duas janelas gestacionais de interrupção do anti-TNF e a única semana em que elas coincidem.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é o clínico de plantão numa enfermaria de hospital geral, com retaguarda cirúrgica e sem gastroenterologista à noite. Recebe uma mulher de 26 anos com retocolite ulcerativa conhecida, seis dias de diarreia com sangue, febre e adinamia. Conduza: colha o que muda a decisão — número de evacuações por dia, presença de sangue, tempo de evolução, uso real da medicação, viagens, antibióticos recentes e sintomas fora do intestino —, examine o abdome procurando distensão e sinais de irritação peritoneal, decida quais exames pedir e quais não valem a pena agora, classifique a gravidade dizendo em voz alta qual régua está usando e por quê, prescreva o que não pode esperar exame, defina quem mais precisa ser chamado ainda hoje e explique à paciente, sem jargão, por que ela vai ficar internada, o que será avaliado no terceiro dia e o que significa a palavra colectomia caso ela apareça na conversa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doenças inflamatórias intestinais — Preparatório para provas | OsceLabs