Clínica Médica › Gastroenterologia
Hepatite C crônica
Do anticorpo reagente à confirmação por RNA: estadiar fibrose, escolher o antiviral de ação direta e confirmar cura sem abandonar a vigilância de quem tem cirrose.
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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem de 45 anos, assintomático, comparece à UBS para check-up. Nega uso de álcool e medicamentos. Exames de rotina revelam elevação persistente de ALT e AST (cerca de 2x o normal). Sorologias: HBsAg negativo, anti-HCV positivo. Ao exame: IMC 24 kg/m², sem estigmas de hepatopatia. Qual a conduta mais adequada na APS?
Como esse tema cai
Este capítulo tem duas camadas. A de baixo é o algoritmo diagnóstico, e ele cabe em uma frase: o anticorpo diz que houve contato, só o material genético diz que há vírus. A de cima é a decisão terapêutica, e é aqui que a hepatite C se separa de todas as outras hepatites da apostila — porque ela é a única curável com comprimido, em doze semanas, e porque o Sistema Único de Saúde resolve a escolha do esquema com um único escore de três variáveis de laboratório, sem genótipo e sem biópsia. Quem estuda só a camada de baixo acerta a questão de conduta imediata e erra todas as de tratamento.
O que mudou e a prova ainda não terminou de absorver: o protocolo clínico em vigor é o anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39, de 20 de julho de 2026, que revogou expressamente a Portaria SCTIE/MS nº 84, de 2018. A edição de 2019, que sustentava a portaria revogada, continua sendo o arquivo servido pela página de publicações do portal do ministério. Material de estudo que descreva genotipagem obrigatória, biópsia para indicar tratamento ou esquema com interferona está descrevendo uma régua que saiu de circulação — e, em alguns pontos, o próprio texto de 2019 já não vale para responder.
Fica de fora, de propósito. A hepatite A e a síndrome da hepatite aguda pertencem ao capítulo vizinho desta mesma apostila, e a hepatite C aparece lá apenas como diferencial de icterícia aguda. Hepatite B e hepatite D têm capítulo próprio na apostila de Infectologia, e aqui a coinfecção entra somente onde ela muda a conduta do tratamento da hepatite C, que é no risco de reativação. Cirrose, ascite, peritonite bacteriana espontânea, encefalopatia, varizes e carcinoma hepatocelular pertencem ao capítulo de cirrose desta apostila; aqui o Child-Pugh entra apenas no tamanho em que decide a duração do antiviral. O painel do pré-natal é do capítulo de exames do pré-natal, a liberação da mama é do capítulo de aleitamento materno e a via de parto é do capítulo de cesariana — os três já resolvem a parte deles, e este capítulo remete a eles em vez de repetir.
O que fica: quem testar e com que frequência; o que pedir depois de um anticorpo reagente; como o escore substituiu o genótipo; a aritmética que faz esse escore errar; os três esquemas iniciais com dose, via e duração; o retratamento; o que checar antes de a primeira dose ser tomada; e o que continua depois da cura em quem já tinha fígado doente.
O que muda decisão
O anticorpo diz que houve; só o material genético diz que há
O anti-HCV é o anticorpo produzido em resposta à infecção. Ele aparece, em média, entre um e três meses depois da exposição e persiste por toda a vida, independentemente da cura. Essa única propriedade explica quase todo o comportamento do algoritmo: o anticorpo serve para rastrear, nunca para confirmar doença ativa, e nunca para confirmar cura. Diante de um anti-HCV reagente, o passo obrigatório é a pesquisa direta do vírus — quantificação do HCV-RNA ou, alternativamente, imunoensaio que detecte o antígeno do core do vírus.
Anticorpo reagente com material genético não detectável significa contato prévio: infecção passada, resolvida espontaneamente ou curada por tratamento anterior. Anticorpo não reagente, quando a suspeita clínica persiste, pede nova amostra em trinta dias, porque o intervalo entre a exposição e a soroconversão pode não ter fechado.
Duas simplificações do protocolo valem como resposta pronta. Teste rápido e imunoensaio laboratorial que detectam anti-HCV são equivalentes, e um teste rápido reagente não precisa de confirmação sorológica adicional — o que ele precisa é do teste molecular. A alternativa que manda repetir o anticorpo, no laboratório ou em seis meses, é sempre a errada, e é o distrator mais usado do tema. E o material genético é detectável no soro já entre a primeira e a segunda semana após a exposição, muito antes do anticorpo: por isso a suspeita de infecção aguda se investiga por teste molecular, não por sorologia.
Duas definições fecham a seção. Hepatite C crônica exige a associação de duas condições: anti-HCV reagente por mais de seis meses e HCV-RNA detectável por mais de seis meses. Hepatite C aguda tem dois critérios alternativos: o imunológico, que exige anti-HCV prévio comprovadamente negativo há menos de seis meses somado a anticorpo reagente no início das manifestações, no momento da exposição ou em segundo teste com noventa dias de intervalo; e o virológico, que é material genético detectável com anticorpo prévio documentado como não reagente.
Um detalhe do manual diagnóstico que reaparece em questão de pediatria: o teste rápido de anti-HCV detecta anticorpos totais e não se usa em menor de 18 meses, porque o anticorpo materno atravessa a placenta. Em imunossuprimido, o resultado não reagente também precisa ser lido com reserva.
Quem testar, e com que frequência
A régua brasileira virou universal. O protocolo em vigor recomenda que todas as pessoas a partir de 18 anos sejam testadas pelo menos uma vez na vida, com intensificação de busca ativa na faixa de 40 anos ou mais, pelo risco acumulado de exposição. O raciocínio declarado é de custo-efetividade: a prevalência estimada no Brasil é de 0,3%, acima do piso de 0,1% abaixo do qual a referência norte-americana de 2020 dispensa a triagem universal. Quem tem qualquer fator de risco, ou simplesmente deseja testar-se, testa — independentemente da idade.
Sobre a rotina periódica, três frequências diferentes convivem. Gestante: em cada gestação. Pessoa que mantém vulnerabilidade e tem anticorpo não reagente: anual. Usuário de profilaxia pré-exposição ao vírus da imunodeficiência humana: quadrimestral, seguindo o protocolo próprio da profilaxia.
E aqui está a regra que a prova mais gosta de esconder na segunda metade do enunciado: em quem já eliminou a infecção — espontaneamente ou por tratamento — o exame de acompanhamento não é o anticorpo, é o HCV-RNA. Repetir o anti-HCV em quem já curou devolve, previsivelmente, um resultado reagente que não informa nada. A infecção pelo vírus da hepatite C não confere imunidade, e reinfecção é um evento real.
A lista de condições de vulnerabilidade aumentada vale ser lida pelo que tem de contraintuitivo. Além do esperado — drogas injetáveis, inaladas ou pipadas, hemodiálise, pessoas privadas de liberdade, transfusão antes de 1992, procedimentos estéticos com penetração de pele —, ela inclui pessoas com diabete melito, pessoas com qualquer outra hepatopatia crônica e, sobretudo, pessoas com manifestações extra-hepáticas: úlcera de Mooren, tireoidopatia, fibrose pulmonar, síndrome de Sjögren, doença renal crônica, vasculite sistêmica, poliartrite inflamatória, trombocitopenia autoimune e disfunção neurocognitiva. Essa lista é o gancho de enunciado favorito da banca: o paciente chega por crioglobulinemia, por porfiria cutânea tardia ou por líquen plano, e a pergunta é qual sorologia pedir.
O perfil epidemiológico mudou e o protocolo diz isso com número. De 2000 a 2024 foram registrados 342.328 casos confirmados no sistema de notificação, e a taxa de detecção em 2024 foi de 9,1 casos por 100 mil habitantes. Em 2024, as infecções por via sexual foram o dobro das relacionadas ao uso de drogas e o quádruplo das transfusionais. A vinheta clássica do transfundido antes de 1993 não sumiu; a vinheta nova é sexual, e por isso pessoas vivendo com o vírus da imunodeficiência humana, pessoas trans, trabalhadoras do sexo e pessoas em situação de rua entraram na testagem no mínimo anual.
O escore que aposentou o genótipo
Todos os antivirais de ação direta hoje disponíveis são pangenotípicos — eficazes em todos os seis genótipos. A consequência normativa é categórica: não é necessário solicitar genotipagem do vírus para o tratamento inicial nem para o retratamento. Enunciado que informa o genótipo entrega um dado decorativo, e alternativa que exige genotipagem antes de tratar está errada em qualquer posição do algoritmo — não é 'depois do material genético', é nunca.
Mas o genótipo deixou uma dívida, e é ela que explica o desenho brasileiro. A nota técnica que organiza os esquemas na rede registra o motivo: o esquema de sofosbuvir com daclatasvir rende menos que o coformulado com velpatasvir no paciente cirrótico infectado pelo genótipo 3. Como o genótipo não vai mais ser pedido, alguém precisa identificar quem tem cirrose — e é esse alguém que o escore passou a ser. O corte laboratorial não é um refinamento acadêmico de estadiamento: é o substituto operacional do genótipo, e serve para não colocar o esquema mais fraco no paciente em que ele é mais fraco.
O escore escolhido é o APRI, a razão entre a aminotransferase de aspartato e a contagem de plaquetas, modelado especificamente para hepatite C. A fórmula publicada é: o valor da aminotransferase de aspartato dividido pelo limite superior de normalidade daquele mesmo exame, esse quociente dividido pela contagem de plaquetas expressa em 10⁹ por litro, e o resultado multiplicado por 100.
A justificativa numérica do corte está no texto e vale decorar porque ela aparece invertida em distrator. Para predizer cirrose, um APRI igual ou maior que 1 tem sensibilidade de 89% e especificidade de 75%. Considerando a prevalência de 23% de cirrose entre as pessoas com hepatite C crônica no Brasil, um APRI menor que 1 exclui cirrose corretamente em 91% das vezes. Ou seja: o corte foi escolhido pelo valor preditivo negativo, para excluir doença hepática avançada — não para diagnosticá-la. Quem lê o número de trás para frente e conclui que APRI maior ou igual a 1 confirma cirrose está usando uma especificidade de 75% como se fosse confirmatória.
O segundo escore não invasivo é o FIB-4, que multiplica a idade pela aminotransferase de aspartato e divide o produto pela contagem de plaquetas multiplicada pela raiz quadrada da aminotransferase de alanina. A elastografia entra depois, quando o escore inicial já sinalizou; a biópsia ficou reservada ao diagnóstico diferencial com outras hepatopatias, por indicação de especialista. Alternativa que exige biópsia para autorizar antiviral erra por duas razões somadas: o método foi substituído, e o tratamento independe do estágio de fibrose.
A aritmética do APRI: a conversão, o limite do laboratório e o que o FIB-4 não pede
Três variáveis, três armadilhas — e as três derrubam a mesma decisão, que é escolher entre dois esquemas.
A primeira é de unidade, e é a que morde num item só. A fórmula pede a contagem de plaquetas em 10⁹ por litro; o hemograma brasileiro entrega a contagem por milímetro cúbico. As duas notas técnicas do ministério trazem a instrução em parágrafo destacado: divide-se o resultado por mil, de modo que 150.000 plaquetas por milímetro cúbico equivalem a 150 na fórmula. Esse parágrafo não foi reproduzido no protocolo em vigor, que apenas escreve 'contagem de plaquetas (10⁹)' na fórmula. Quem aprender o escore só pelo protocolo tem boa chance de digitar 150.000 — e o efeito é aritmeticamente exato: o resultado sai mil vezes menor. Com aminotransferase de aspartato de 80, limite superior de 40 e 150 mil plaquetas, o valor certo é 1,33; sem converter, sai 0,0013. O erro tem direção única: sempre abaixo de 1, sempre para o esquema de quem não tem cirrose, e nunca avisa, porque o número que sai continua parecendo um escore plausível.
A segunda é que o denominador do numerador é do laboratório, não do paciente: o escore usa o limite superior de normalidade da aminotransferase de aspartato daquele serviço, e esse limite varia. Tome um paciente com aminotransferase de aspartato de 80 e 120 mil plaquetas. Com limite superior de 40, o escore é 1,67; com 50, cai para 1,33; com 26, sobe para 2,56. São três valores do mesmo sangue, e caem em três lugares diferentes do quadro de interpretação — inclusive num lugar que o quadro não tem. A leitura prática é cobrável: o escore só significa alguma coisa junto com o limite de referência que o gerou, e vinheta que informa a enzima sem informar o valor de referência não permite calcular.
A terceira é a diferença estrutural entre os dois escores, que passa despercebida porque eles aparecem lado a lado na mesma tabela. O FIB-4 não usa limite superior de normalidade — usa os valores brutos das duas aminotransferases, e por isso não sofre com a variação entre laboratórios. Em compensação, usa a idade como multiplicador direto, e o APRI não. Com exames idênticos — aminotransferase de aspartato 80, de alanina 60, 120 mil plaquetas —, o paciente de 35 anos tem FIB-4 de 3,01 e o de 60 anos, de 5,16: o primeiro fica na zona indeterminada, o segundo cruza o corte de alta probabilidade de fibrose avançada.
O quadro de interpretação e a faixa que não tem linha
O quadro que correlaciona os escores com a escala Metavir publica, para o APRI, três colunas: menor que 1,0, de 1,0 a 1,49 e igual ou maior que 2,0. Lidas em sequência, elas deixam um vão: de 1,50 a 1,99 não existe coluna. Um paciente com escore de 1,67 — exatamente o do exemplo da seção anterior, com limite superior de 40 — não é 'baixa probabilidade de cirrose', não está na zona cinzenta declarada e não é 'alta probabilidade de cirrose'. Ele simplesmente não tem linha.
O contraste dentro da mesma tabela é o que torna o achado útil: as faixas do FIB-4, logo abaixo, são menor que 1,45, de 1,45 a 3,24 e igual ou maior que 3,25 — contíguas, sem vão. O mesmo quadro, elaborado ao mesmo tempo, constrói um escore sem buraco e outro com buraco.

A edição de 2019 explica de onde veio o vão. Lá, o mesmo quadro trazia três blocos, não dois: um APRI para avaliação de fibrose avançada, com faixas de menor que 0,5, de 0,5 a 1,49 e igual ou maior que 1,5; um APRI para avaliação de cirrose, com as mesmas três colunas de hoje; e o FIB-4. O primeiro bloco cobria a região de 1,50 a 1,99 — quem tivesse 1,67 lia 'alta probabilidade de fibrose F3 ou F4' na tabela de fibrose avançada. A edição atual manteve apenas o bloco de cirrose. O buraco não é novo; o que é novo é que agora não há nada por baixo dele.
O que salva na prática — e o que a prova cobra — é que a decisão terapêutica não usa o quadro de três colunas, e sim um corte binário em 1,0. O texto diz duas coisas de forma inequívoca: o ponto de corte para excluir doença hepática avançada é APRI menor que 1, e todo paciente com APRI igual ou maior que 1 precisa de avaliação não invasiva adicional — ultrassonografia de abdome e elastografia. O paciente de 1,67, portanto, tem conduta clara mesmo sem linha na tabela. A coluna de 'igual ou maior que 2,0' não decide esquema nenhum; é descritiva.
Vale guardar também os cortes que definem fibrose avançada por imagem, porque eles aparecem em vinheta com valor numérico: 10 kPa ou mais na elastografia transitória, 9 kPa ou mais na elastografia por ultrassom e 4 kPa ou mais na elastografia por ressonância magnética. Números diferentes de 12,5 kPa ou 12 kPa circulam na literatura e em material de cursinho, mas não são os do protocolo brasileiro.
Os três esquemas iniciais — e quem trata na atenção primária
A indicação é universal: toda pessoa com infecção aguda ou crônica tem indicação de tratamento, sem piso de fibrose, sem piso de carga viral e sem esperar a cronificação — a infecção aguda é tratada assim que confirmada. As duas exceções operacionais são gestação, em que o tratamento é contraindicado, e expectativa de vida menor que doze meses, em que a decisão migra para centro de referência.
A escolha do esquema depende de um escore e um evento: o APRI e a presença ou não de descompensação hepática. São três linhas. Primeira: APRI menor que 1 e sem cirrose — sofosbuvir 400 mg (um comprimido) mais daclatasvir 60 mg (um comprimido), tomados juntos, uma vez ao dia, por 12 semanas. Não existe apresentação coformulada dos dois; são dois comprimidos, e o paciente precisa ser orientado a tomá-los no mesmo horário. Segunda: APRI igual ou maior que 1, ou cirrose compensada (Child A) — sofosbuvir 400 mg com velpatasvir 100 mg em comprimido coformulado, um comprimido uma vez ao dia, por 12 semanas. Terceira: cirrose descompensada (Child B ou C) — o mesmo coformulado, um comprimido ao dia, por 24 semanas.
Repare que a primeira linha é uma conjunção (escore baixo e sem cirrose) e a segunda, uma disjunção (escore alto ou cirrose compensada). O par está construído corretamente: quem não cumpre as duas condições da primeira linha cai necessariamente na segunda ou na terceira, e não sobra paciente entre elas.
Um medicamento na lista não tem linha em nenhuma das tabelas de esquema. O quadro de medicamentos disponíveis inclui glecaprevir 100 mg com pibrentasvir 40 mg, três comprimidos uma vez ao dia — e ele não aparece como esquema recomendado no tratamento inicial nem no retratamento, surgindo apenas na descrição de quem já falhou a múltiplos esquemas. A explicação é econômica e está escrita: a oferta é organizada por custo-minimização, porque a eficácia dos esquemas é comparável, e o ministério informa por nota técnica específica quais tecnologias estão na rede.
Sobre onde tratar: quem tem APRI menor que 1 e nenhuma das condições de encaminhamento pode ser tratado e acompanhado por médico da atenção primária. A lista que obriga a subir para a atenção especializada tem onze itens e vale memorizar em blocos: coinfecção com o vírus da imunodeficiência humana; coinfecção com o vírus da hepatite B; gestação; idade menor que 18 anos; insuficiência renal crônica com depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min/1,73 m²; uso de quimioterapia; transplante; hepatocarcinoma ou outra neoplasia; uso de anticonvulsivante de primeira geração — carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína, fenobarbital — ou de amiodarona; manifestação extra-hepática grave, como vasculite sistêmica e glomerulopatia; e falha a tratamento prévio com antiviral de ação direta.
Na pediatria, o corte é de peso e idade, não de escore. A partir de 12 anos ou 30 kg, valem os comprimidos e os esquemas do adulto. Entre 3 e 11 anos, com peso de 17 a 29,99 kg, o esquema é sofosbuvir 200 mg com velpatasvir 50 mg em granulado, um sachê ao dia por 12 semanas, engolido inteiro e sem mastigar. Abaixo de 3 anos não se trata: acompanha-se em serviço de referência.
Retratamento: três linhas, dois desfechos
Retratamento é o que se faz em quem não obteve resposta virológica sustentada ao esquema anterior com antiviral de ação direta. Também é pangenotípico, também dispensa genotipagem, e a regra geral é combinar três classes distintas de antiviral em vez de duas.
O quadro publica três linhas. Escore menor que 1 ou sem cirrose: sofosbuvir com velpatasvir e voxilaprevir, um comprimido ao dia, 12 semanas. Escore igual ou maior que 1 ou cirrose compensada Child A: o mesmo esquema, a mesma duração. Cirrose descompensada Child B ou C: sofosbuvir com velpatasvir, um comprimido ao dia, 24 semanas.
Duas observações fecham o item. A primeira é de lógica: ao contrário do quadro de tratamento inicial, aqui a primeira linha também é uma disjunção — 'escore menor que 1 ou sem cirrose' — e por isso ela se sobrepõe à segunda. Um paciente com escore 3 e sem cirrose satisfaz as duas. Isso não gera conflito porque as duas linhas prescrevem exatamente a mesma coisa: das três linhas saem só dois desfechos, e a estratificação pelo escore, no retratamento, não muda conduta nenhuma. A pergunta que decide é uma só — há descompensação?
A segunda é o motivo clínico dessa única bifurcação: na cirrose descompensada evitam-se os inibidores de protease, que são o glecaprevir e o voxilaprevir. Por isso o Child B ou C sai do esquema triplo e volta ao duplo, com o dobro do tempo. Paciente com histórico de múltiplas falhas pode ter o tratamento estendido para 24 semanas.
E há uma distinção que a banca adora: reinfecção não é falha. Material genético detectável depois de uma resposta virológica sustentada documentada caracteriza reinfecção, e essa pessoa é tratada de novo com o esquema inicial, como se nunca tivesse sido tratada — não com o esquema de retratamento.
Child-Pugh: cinco parâmetros e duas definições de descompensação
O escore soma cinco fatores e varia de 5 a 15. De 5 a 6 é Child A; de 7 a 9, Child B; acima de 9, Child C. O protocolo estabelece que descompensação hepática é indicada por escore igual ou maior que 7, ou seja, Child B ou C — e é esse limiar que separa 12 de 24 semanas de antiviral.
As faixas publicadas são: bilirrubina sérica menor que 2,0, de 2,0 a 3,0 e maior que 3,0 mg/dL; albumina maior que 3,5, de 2,8 a 3,5 e menor que 2,8 g/dL; ascite ausente, leve e moderada; encefalopatia ausente, leve e moderada; e, na linha da coagulação, tempo de protrombina em segundos acima do controle de 0 a 4, de 4 a 6 e maior que 6, ou razão normatizada internacional menor que 1,7, de 1,7 a 2,3 e maior que 2,3.
Duas observações sobre a última linha. A primeira é aritmética: as faixas em segundos '0 a 4' e '4 a 6' compartilham o valor 4, de modo que um tempo de protrombina exatamente 4 segundos acima do controle pontua 1 ou 2 conforme quem lê — e um ponto, entre 6 e 7, é justamente o que decide a duração. A alternativa da mesma linha, a razão normatizada internacional, é contígua. A segunda é histórica: a linha em segundos não constava da versão do escore publicada na nota técnica de esquemas terapêuticos, que trazia só a razão normatizada internacional. A ambiguidade entrou junto com a linha nova.
Vale registrar também que as colunas de ascite e de encefalopatia param em 'moderada': ascite tensa ou refratária e encefalopatia de grau avançado não têm rótulo próprio na tabela publicada, embora pontuem 3.
Mas o problema que muda conduta é outro, e ele está a uma página de distância dentro do mesmo protocolo. Numa passagem, os eventos que definem descompensação em quem tinha cirrose compensada são ascite, encefalopatia de grau West Haven igual ou maior que II e sangramento por varizes gastroesofágicas. Na passagem seguinte, descompensação é escore igual ou maior que 7. Considere o paciente que sangrou por varizes há um ano, hoje sem ascite, sem encefalopatia, com bilirrubina 1,5 mg/dL, albumina 3,8 g/dL e razão normatizada internacional 1,2: cada um dos cinco itens pontua 1, o escore é 5, e ele é Child A. Pelo critério do evento, é um cirrótico descompensado; pelo critério do escore, não é.
Quem decide, na hora de prescrever, é a tabela de esquemas — e ela é escrita em Child, não em evento: a linha das 24 semanas diz 'cirrose descompensada (Child B ou C)'. Esse paciente recebe 12 semanas do coformulado, pela linha do Child A. Reconhecer que existem duas definições e saber qual delas a tabela usa é o que separa a resposta certa da armadilha nesse tipo de vinheta.
Antes de começar: hepatite B, vacinas e as interações que impedem
Toda pessoa com infecção confirmada pelo vírus da hepatite C deve ser testada para o vírus da imunodeficiência humana, hepatite A, hepatite B e sífilis. O motivo de a hepatite B ter tratamento à parte neste capítulo é o risco de reativação do vírus da hepatite B durante o tratamento da hepatite C — o vírus C suprimia o B, e ao ser eliminado deixa espaço.
A conduta se bifurca pelo antígeno de superfície, e a diferença entre os dois braços é o que costuma ser cobrado. Se o antígeno de superfície é reagente e a pessoa não preenche critério de tratamento da hepatite B pelo protocolo próprio, faz-se tratamento profilático contra a reativação durante todo o tratamento antiviral, mantido até 12 semanas após o término — ou seja, até a coleta da carga viral que vai avaliar a cura. Se o antígeno de superfície é não reagente com anticorpo contra o core reagente, não se faz profilaxia: monitora-se a aminotransferase de alanina mensalmente durante o uso dos antivirais, e a hepatite B é tratada prontamente se a reativação ocorrer. Alternativa que oferece apenas monitorização ao paciente com antígeno de superfície reagente descreve o braço errado.
Vacinação entra aqui como conduta ativa. Quem tem infecção crônica pelo vírus da hepatite C e sorologia negativa para o anticorpo contra o vírus da hepatite A recebe duas doses, com intervalo de seis meses — e não a dose única do calendário infantil. Quem é suscetível à hepatite B recebe três doses, aos 0, 1 e 6 meses, com dose dobrada a considerar no imunossuprimido e no hepatopata avançado. A coinfecção pelo vírus da hepatite A em quem tem hepatite C associa-se a maior risco de descompensação e de forma fulminante, e é isso que justifica vacinar antes de a fibrose avançar. Exposição recente em suscetível pede vacina em até 14 dias.
As interações medicamentosas dividem-se em três grupos. Impeditivas para todos os antivirais: rifampicina, rifabutina, rifapentina, carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína e fenobarbital. Impeditivas para os inibidores de protease, que são glecaprevir e voxilaprevir: estatinas e medicamentos contendo etinilestradiol, incluindo contraceptivos hormonais combinados — mas os fibratos podem ser usados com todos. De risco grave e a substituir sempre que possível: a amiodarona, pelo risco de arritmia.
Na coinfecção com o vírus da imunodeficiência humana há duas armadilhas específicas. Primeira: nenhum dos esquemas pode ser usado com inibidores da transcriptase reversa não análogos de nucleosídeo — efavirenz, nevirapina, etravirina —, que reduzem muito a concentração dos antivirais; a terapia antirretroviral precisa ser revista, preferencialmente para um esquema com dolutegravir. Segunda: velpatasvir com fumarato de tenofovir desoproxila potencializa a nefrotoxicidade do tenofovir, e a combinação deve ser evitada com filtração glomerular abaixo de 60 mL/min. Já a doença renal crônica em si, incluindo hemodiálise, não exige ajuste de dose nem mudança de esquema.
Depois: a cura, a vigilância que não acaba, a gestante e a criança exposta
O desfecho é a resposta virológica sustentada: carga viral não detectável a partir de 12 semanas após o término do tratamento. Quem a atinge está curado daquela infecção, e a taxa é superior a 95%. Duas consequências práticas: não se pede carga viral durante o tratamento, porque ela não muda conduta; e, confirmada a cura, não se repetem testes diagnósticos, exceto sob suspeita de reinfecção.
Interrupção de tratamento tem fluxograma próprio, construído por janelas contíguas — vale como contraponto ao quadro de escore da seção anterior. Até 7 dias, em qualquer momento: retomar e completar o tempo previsto. Mais de 7 dias antes de completar o primeiro mês: retomar e colher carga viral imediatamente; detectável — ou exame impossível — manda completar o tempo restante acrescido de mais 4 semanas. De 8 a 20 dias depois de completado ao menos um mês: retomar e colher carga viral no reinício; detectável vira falha terapêutica e vai para retratamento. 21 dias ou mais, com ao menos um mês completado: não se retoma — colhe-se carga viral a partir de 12 semanas da suspensão para avaliar cura.
A cura não encerra o acompanhamento de quem já tinha fígado doente. Pessoas com fibrose F3 ou F4 não recebem alta e mantêm vigilância de carcinoma hepatocelular a cada seis meses, com ultrassonografia de abdome superior complementada por alfafetoproteína, por tempo indefinido. A cura reduz, mas não elimina, o risco — sobretudo em quem tem diabete, síndrome metabólica ou consumo abusivo de álcool.
Para as varizes, a endoscopia se repete se elas já haviam sido diagnosticadas antes do tratamento, ou se houver queda das plaquetas abaixo de 150 mil somada a elastografia acima de 20 kPa; e quem, sem cofatores, chega a elastografia abaixo de 12 kPa com plaquetas acima de 150 mil pode ser considerado sem hipertensão portal. Fica sem regra a faixa intermediária — rigidez entre 12 e 20 kPa com plaquetas normais —, e vale notar que, nesses dois parágrafos, a contagem de plaquetas aparece grafada por mililitro, quando a unidade do hemograma é por milímetro cúbico.
Quem pode receber alta é o paciente sem fibrose avançada, sem fator de risco de reinfecção e sem cofator de agravamento hepático. E aqui o protocolo se contradiz num único número: um parágrafo define fibrose não significativa como F0 a F2, ou o equivalente de APRI menor que 1 e FIB-4 menor que 1,45; o parágrafo seguinte, na mesma seção, define fibrose leve como Metavir menor que 2, APRI menor que 1 ou FIB-4 menor que 1,3. Um paciente de 46 anos com aminotransferase de aspartato 30, de alanina 25 e 200 mil plaquetas tem FIB-4 de exatamente 1,38: abaixo de 1,45 e acima de 1,3. Pelo primeiro parágrafo recebe alta; pelo segundo, não se enquadra em fibrose leve. O corte de 1,3 não aparece em nenhum quadro do documento.
Gestação e puerpério fecham a régua. O tratamento é contraindicado na gestação, por ausência de estudos de segurança em larga escala, e por isso a orientação é tratar a mulher em idade fértil antes de engravidar. A gestante diagnosticada é notificada e encaminhada ao pré-natal de risco. O risco de transmissão vertical é de 3% a 5%, subindo para cerca de 19% na coinfecção com o vírus da imunodeficiência humana; a cesariana não reduz esse risco. O aleitamento não está contraindicado — a decisão fina sobre fissura mamária pertence ao capítulo de aleitamento —, mas os antivirais não são recomendados durante a amamentação, de modo que a regra é aguardar o desmame.
A criança nascida de mãe com hepatite C é acompanhada como exposta. Faz-se teste molecular entre 3 e 6 meses de vida e a investigação se repete aos 18 meses com sorologia. Anticorpo não reagente aos 18 meses descarta a infecção; anticorpo reagente pede nova carga viral, e carga viral detectável obriga a repetir o exame após seis meses para caracterizar cronicidade. A ordem importa: molecular primeiro, sorologia depois — o inverso do adulto, e pela mesma razão que impede o teste rápido antes dos 18 meses.
Um escore, um evento e três esquemas
Três perguntas resolvem quase todo enunciado de tratamento: o vírus está ativo, qual é o escore laboratorial e há descompensação. O restante — genótipo, carga viral, biópsia, transaminase — é cenário.
- 11. Anti-HCV reagente por teste rápido ou imunoensaio. Não repetir o anticorpo, não confirmar com outra sorologia: pedir HCV-RNA (ou antígeno do core).
- 22. Carga viral não detectável significa contato prévio ou infecção curada. Carga viral detectável significa infecção ativa, e toda infecção ativa tem indicação de tratamento — aguda ou crônica, com ou sem fibrose.
- 33. Calcular o APRI. Aminotransferase de aspartato dividida pelo limite superior daquele laboratório, dividida pela contagem de plaquetas em 10⁹ por litro, vezes 100. Converter a contagem dividindo por mil.
- 44. Escore menor que 1 e sem cirrose: sofosbuvir 400 mg mais daclatasvir 60 mg, um comprimido de cada, juntos, uma vez ao dia, por 12 semanas — e pode ser conduzido na atenção primária, se nenhuma das onze condições de encaminhamento estiver presente.
- 55. Escore igual ou maior que 1: avaliação não invasiva adicional (ultrassonografia e elastografia) e Child-Pugh. Sem descompensação, ou seja, Child A: sofosbuvir com velpatasvir coformulado, um comprimido ao dia, por 12 semanas.
- 66. Child B ou C: mesmo coformulado, um comprimido ao dia, por 24 semanas. Evitar inibidor de protease.
- 77. Antes da primeira dose: testar para o vírus da imunodeficiência humana, hepatite A, hepatite B e sífilis; decidir profilaxia ou monitorização mensal de aminotransferase de alanina conforme o antígeno de superfície; vacinar suscetíveis; revisar interações.
- 88. Carga viral a partir de 12 semanas do fim. Não detectável é cura. Fibrose F3 ou F4 mantém ultrassonografia semestral por tempo indefinido; falha vai para o esquema triplo; reinfecção volta ao esquema inicial.
Comece pelo material genético, não pelo anticorpo
Anti-HCV reagente é ponto de partida, não diagnóstico. Ele permanece reagente após a cura, espontânea ou por tratamento. Enquanto não houver carga viral detectável, não há infecção ativa e não há o que tratar. E, em quem já curou, o exame de seguimento é a carga viral — repetir o anticorpo devolve um reagente previsível e inútil.
O escore é o substituto do genótipo, não um refinamento
A genotipagem foi aposentada porque todos os esquemas são pangenotípicos. Mas o esquema de dois comprimidos rende menos no cirrótico com genótipo 3, e por isso alguém precisa identificar quem tem cirrose. O corte em 1,0 faz exatamente esse trabalho: separa quem pode receber o esquema mais simples de quem precisa do coformulado.
Converta a contagem de plaquetas antes de dividir
A fórmula pede a contagem em 10⁹ por litro; o hemograma entrega por milímetro cúbico. Divide-se por mil: 150.000 por milímetro cúbico viram 150 na conta. Sem a conversão o resultado sai mil vezes menor e sempre abaixo de 1, empurrando todo mundo para o esquema de quem não tem cirrose.
A decisão é binária em 1,0; o quadro de três colunas é descritivo
O quadro de interpretação tem um vão entre 1,50 e 1,99, herdado da edição anterior, que tinha um bloco a mais. Não importa para a conduta: o texto manda tratar como doença avançada todo escore igual ou maior que 1 e submetê-lo a avaliação não invasiva adicional. Escore 1,67 não tem linha na tabela e tem conduta.
Descompensação, para escolher a duração, é Child B ou C
O protocolo carrega duas definições: uma por evento (ascite, encefalopatia de grau II ou mais, sangramento por varizes) e uma por escore (7 ou mais). A tabela de esquemas é escrita em Child, então é o escore que decide entre 12 e 24 semanas. O cirrótico que sangrou e hoje soma 5 pontos recebe 12.
Tratamento inicial ou reinfecção, a partir de 12 anos ou 30 kg
| Estadiamento | Esquema | Posologia | Duração |
|---|---|---|---|
| APRI menor que 1 E sem cirrose | Sofosbuvir + daclatasvir | Sofosbuvir 400 mg (1 comprimido) + daclatasvir 60 mg (1 comprimido), juntos, 1x/dia | 12 semanas |
| APRI igual ou maior que 1 OU cirrose compensada (Child A) | Sofosbuvir/velpatasvir | Sofosbuvir 400 mg/velpatasvir 100 mg coformulado, 1 comprimido 1x/dia | 12 semanas |
| Cirrose descompensada (Child B ou C) | Sofosbuvir/velpatasvir | 1 comprimido 1x/dia | 24 semanas |
| Criança de 3 a 11 anos, 17 a 29,99 kg | Sofosbuvir/velpatasvir granulado | Sofosbuvir 200 mg/velpatasvir 50 mg, 1 sachê 1x/dia | 12 semanas |
Retratamento após falha a antiviral de ação direta
| Estadiamento | Esquema | Duração | Observação |
|---|---|---|---|
| APRI menor que 1 OU sem cirrose | Sofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir | 12 semanas | Só em maiores de 18 anos |
| APRI igual ou maior que 1 OU cirrose compensada (Child A) | Sofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir | 12 semanas | Mesma conduta da linha acima — a estratificação pelo escore não muda o esquema |
| Cirrose descompensada (Child B ou C) | Sofosbuvir/velpatasvir | 24 semanas | Inibidor de protease evitado |
| Múltiplas falhas prévias | Esquema triplo | Pode ser estendido a 24 semanas | Reinfecção não é falha: volta ao esquema inicial |
Como o quadro de interpretação publica os dois escores
| Escore | Faixa baixa | Zona indeterminada | Faixa alta | Cobertura |
|---|---|---|---|---|
| APRI (cirrose), edição atual | Menor que 1,0 | De 1,0 a 1,49 | Igual ou maior que 2,0 | Sem coluna para 1,50 a 1,99 |
| APRI (fibrose avançada), só na edição de 2019 | Menor que 0,5 | De 0,5 a 1,49 | Igual ou maior que 1,5 | Contígua — era este bloco que cobria o vão |
| FIB-4 | Menor que 1,45 | De 1,45 a 3,24 | Igual ou maior que 3,25 | Contígua |
O mesmo sangue em três laboratórios (aminotransferase de aspartato 80, plaquetas 120 mil)
| Limite superior de referência do laboratório | APRI calculado | Onde cai no quadro | Esquema inicial |
|---|---|---|---|
| 50 U/L | 1,33 | Zona indeterminada | Sofosbuvir/velpatasvir, 12 semanas |
| 40 U/L | 1,67 | Sem coluna publicada | Sofosbuvir/velpatasvir, 12 semanas |
| 26 U/L | 2,56 | Alta probabilidade de cirrose | Sofosbuvir/velpatasvir, 12 semanas |
Child-Pugh como o protocolo publica
| Parâmetro | 1 ponto | 2 pontos | 3 pontos |
|---|---|---|---|
| Bilirrubina sérica (mg/dL) | Menor que 2,0 | De 2,0 a 3,0 | Maior que 3,0 |
| Albumina sérica (g/dL) | Maior que 3,5 | De 2,8 a 3,5 | Menor que 2,8 |
| Ascite | Ausente | Leve | Moderada |
| Encefalopatia | Ausente | Leve | Moderada |
| Tempo de protrombina (segundos acima do controle) | 0 a 4 | 4 a 6 | Maior que 6 |
| Razão normatizada internacional | Menor que 1,7 | De 1,7 a 2,3 | Maior que 2,3 |
O escore mínimo do Child-Pugh é 5 e o máximo, 15, porque são cinco itens que valem de 1 a 3 e nenhum deles pode valer zero. Child A é 5 ou 6; Child B, de 7 a 9; Child C, acima de 9. Vinheta que descreve um cirrótico e some com um dos cinco itens não permite fechar a classe — e a classe é o que decide entre 12 e 24 semanas.
As duas faixas em segundos da linha da coagulação compartilham o valor 4, então um tempo de protrombina exatamente 4 segundos acima do controle pontua 1 ou 2 conforme quem lê. A alternativa da mesma linha, a razão normatizada internacional, não tem essa sobreposição — e é a que a nota técnica de esquemas terapêuticos publicava sozinha.
O corte de fibrose avançada por imagem é 10 kPa na elastografia transitória, 9 kPa na elastografia por ultrassom e 4 kPa na elastografia por ressonância magnética. Os valores de 12 kPa e 20 kPa aparecem em outro contexto: a decisão de repetir endoscopia depois da cura, e não o estadiamento inicial.
Aminotransferase normal não afasta hepatite C crônica ativa — é achado comum no assintomático. Enunciado que oferece transaminase normal como argumento para dispensar a carga viral está construindo o distrator.
Doença renal crônica, inclusive em hemodiálise, não muda esquema nem dose. O que muda é a rota: depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min/1,73 m² manda para a atenção especializada, e velpatasvir com fumarato de tenofovir desoproxila deve ser evitado se a filtração estiver abaixo de 60 mL/min.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Dois comprimidos, 12 semanas, escolha por custo-minimização
Escore APRI menor que 1 e sem cirrose: sofosbuvir mais daclatasvir, 1 comprimido de cada, uma vez ao dia, por 12 semanas.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39, de 20 de julho de 2026, Quadro 13.
Três opções, entre elas um esquema de 8 semanas
Para adultos sem cirrose, podem ser usados: sofosbuvir/velpatasvir por 12 semanas, sofosbuvir/daclatasvir por 12 semanas e glecaprevir/pibrentasvir por 8 semanas.
World Health Organization. Guidelines for the Care and Treatment of Persons Diagnosed with Chronic Hepatitis C Virus Infection. Geneva, 2018.
Na prova
Prova brasileira segue o protocolo nacional: sem cirrose e escore baixo, a resposta é o par de comprimidos por 12 semanas. O esquema de 8 semanas costuma entrar como distrator sofisticado, e ele existe de verdade — só não é o do Sistema Único de Saúde. Se o enunciado invocar explicitamente a referência internacional ou falar em contexto fora do Brasil, a leitura muda; se citar o ministério ou o Sistema Único de Saúde, não muda. A pista mais confiável é a menção ao escore laboratorial: ela só existe na régua brasileira.
Duas condições: escore baixo e ausência das comorbidades listadas
Caso a pessoa apresente baixo risco de cirrose (escore APRI menor que 1) e não possua as comorbidades graves relatadas, poderá ser tratada e acompanhada pelos médicos da atenção primária.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 10.4.
Quatro condições: acrescenta piso de plaquetas e ultrassonografia
O tratamento inicial com sofosbuvir e daclatasvir aplica-se a quem tem escore APRI menor que 1, sem histórico de tratamento prévio com antivirais de ação direta, plaquetas acima de 150.000 e ausência de nódulos hepáticos ou sinais de esplenomegalia à ultrassonografia.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 5/2025-CGHV/.DATHI/SVSA/MS, item 2.2.1.
Na prova
O protocolo é o documento de hierarquia superior e é o que a banca cita; a nota técnica é o que a rede aplica. Enunciado que dá escore baixo e plaquetas baixas está montado sobre essa diferença. Regra prática: se a vinheta trouxer plaquetopenia, esplenomegalia ou nódulo hepático, trate o caso como candidato a serviço especializado mesmo com escore menor que 1 — porque os três achados sugerem doença avançada que o escore não capturou.
Alta possível para o paciente de baixo risco
Pacientes sem fibrose avançada, sem fatores de risco relevantes para reinfecção e sem fatores de risco concomitantes para agravamento da hepatopatia podem receber alta do acompanhamento após a cura.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 15.
Imagem para todos, inclusive escore baixo
Todas as pessoas tratadas, mesmo aquelas com APRI menor que 1 antes do tratamento, têm indicação de realizar exames de imagem, como elastografia ou ultrassonografia, para avaliar o grau de fibrose hepática após o início do tratamento.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 5/2025-CGHV/.DATHI/SVSA/MS, item 2.8.
Na prova
Os dois documentos são do mesmo ministério e nenhum revogou o outro nesse ponto. A resposta segura para o cirrótico é sempre a mesma nos dois — vigilância semestral por tempo indefinido. A divergência só se manifesta no extremo oposto: o paciente sem fibrose e sem cofator. Aí o enunciado precisa dizer qual documento adota; se não disser, prefira a alternativa que mantém alguma avaliação de imagem, porque ela não contraria nenhum dos dois.
FIB-4 menor que 1,45, e com conjunção
A alta após a resposta virológica sustentada pode ser programada para pacientes sem fibrose significativa (F0 a F2, ou seu equivalente em APRI menor que 1 e FIB-4 menor que 1,45).
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 15, primeiro parágrafo.
FIB-4 menor que 1,3, e com disjunção
Pacientes com resposta virológica sustentada sem fibrose ou com fibrose hepática leve (Metavir menor que 2, APRI menor que 1 ou FIB-4 menor que 1,3) devem manter o controle clínico caso apresentem fatores de risco de evolução da hepatopatia.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 15, penúltimo parágrafo.
Na prova
As duas frases estão na mesma seção do mesmo protocolo, separadas por menos de uma página, e a diferença aparece numa faixa estreitíssima: entre 1,30 e 1,45. Nenhuma banca vai construir a questão inteira sobre isso, mas vale reconhecer o número quando ele aparecer: o valor com respaldo de tabela é 1,45, que é o corte publicado no quadro de interpretação dos escores. O 1,3 não tem tabela por trás.
Definição por evento clínico
Os eventos que definem descompensação em um paciente com cirrose compensada são a presença de ascite, encefalopatia hepática de grau West Haven igual ou maior que II e sangramento por varizes gastroesofágicas.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 10.3.2, parágrafo sobre cirrose compensada.
Definição por escore
A descompensação hepática é indicada por um escore de Child-Pugh maior ou igual a 7 (Child B ou C).
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 10.3.2, parágrafo sobre Child-Pugh.
Na prova
Quando as duas definições apontarem para lados diferentes — o caso típico é o cirrótico com sangramento varicoso prévio e laboratório preservado —, decida pela tabela de esquemas, que é escrita em Child. Ela manda 24 semanas apenas para Child B ou C. O evento clínico importa para o prognóstico e para a linha de cuidado, não para a duração do antiviral.
Caso resolvido
- passo 1
- Situar o exame que falta. O teste rápido reagente é rastreio: ele indica contato e não distingue infecção ativa de infecção resolvida. Não se repete o anticorpo nem se confirma com imunoensaio laboratorial — teste rápido e imunoensaio são equivalentes. O que falta é a quantificação do material genético do vírus, e é ela que autoriza qualquer decisão terapêutica. Suponha que ela volte detectável, o que fecha infecção ativa.
- passo 2
- Calcular o escore com a conversão certa. A aminotransferase de aspartato de 78 dividida pelo limite superior de 40 dá 1,95. As 128.000 plaquetas por milímetro cúbico viram 128 na fórmula. Dividindo 1,95 por 128 e multiplicando por 100, o escore é 1,52. Se a conversão fosse esquecida, o resultado seria 0,0015 — mil vezes menor, abaixo de 1, e apontaria para o esquema errado.
- passo 3
- Ler o quadro e não encontrar linha. Um escore de 1,52 não é menor que 1,0, não está na faixa publicada de 1,0 a 1,49 e não alcança 2,0. Ele cai exatamente na região que a tabela de interpretação não cobre. Isso não paralisa a conduta: o texto do protocolo é binário e manda tratar como doença potencialmente avançada todo escore igual ou maior que 1, com avaliação não invasiva adicional — ultrassonografia, já feita, e medida de rigidez hepática por elastografia.
- passo 4
- Classificar o fígado. Sem ascite, sem encefalopatia, bilirrubina abaixo de 2,0, albumina acima de 3,5 e razão normatizada internacional abaixo de 1,7: cada item vale 1 ponto, o Child-Pugh soma 5 e o paciente é Child A. Não há descompensação por escore nem evento de descompensação na história. A duração, portanto, é de 12 semanas, e não de 24.
- passo 5
- Escolher o esquema e o lugar. Escore igual ou maior que 1 leva à segunda linha da tabela: sofosbuvir 400 mg com velpatasvir 100 mg em comprimido coformulado, um comprimido uma vez ao dia, por 12 semanas. E o mesmo escore tira o caso da atenção primária: a rota de tratamento na unidade básica vale para escore menor que 1. Este paciente vai para o serviço especializado.
- passo 6
- Resolver a hepatite B antes de começar. O padrão sorológico é antígeno de superfície não reagente com anticorpo contra o core reagente — o braço que não recebe profilaxia e sim monitorização mensal da aminotransferase de alanina durante o uso do antiviral, com tratamento imediato da hepatite B se houver reativação. Como o anticorpo contra o antígeno de superfície não foi informado, ele precisa ser dosado; e a suscetibilidade ao vírus da hepatite A deve ser verificada para indicar as duas doses de vacina. Ao final, carga viral a partir de 12 semanas do término: não detectável é cura.
Agora feche você
- passo 1
- Para a primeira paciente, diga o que o anticorpo reagente significa nessa altura da história e qual exame — e apenas ele — responde à pergunta que ela veio fazer.
- passo 2
- Calcule o FIB-4 dela com os três valores fornecidos e a idade, e diga em qual faixa do quadro de interpretação ele cai.
- passo 3
- Explique por que o valor calculado no passo anterior recebe duas leituras diferentes dentro do próprio protocolo quando a pergunta é 'esta paciente pode receber alta do acompanhamento', e diga qual dos dois cortes tem tabela por trás.
- passo 4
- Para o segundo paciente, some o Child-Pugh item por item e nomeie a classe.
- passo 5
- Diga se o sangramento por varizes de dez meses atrás muda a classe do escore, se muda a duração do tratamento, e por qual das duas definições de descompensação você respondeu cada uma dessas duas perguntas.
- passo 6
- Escreva o esquema completo do segundo paciente — nome dos antivirais, número de comprimidos por dia e duração — e justifique por que a escolha aqui não é a mesma do primeiro tratamento dele.
- passo 7
- Diga, para os dois, qual é o plano de vigilância depois do desfecho, e o que difere entre eles.
Onde a banca derruba
- 1Repetir o anticorpo em vez de pedir a carga viral É o distrator mais frequente do tema e o mais bem construído, porque a repetição de exame parece prudente. O anticorpo persiste por toda a vida depois da cura, então repeti-lo em seis meses devolve o mesmo reagente e atrasa a decisão. Vale para as duas pontas: no anti-HCV reagente inicial, o exame seguinte é o material genético; em quem já curou e mantém exposição de risco, o exame de seguimento também é o material genético, nunca o anticorpo.
- 2Exigir genotipagem antes de tratar A alternativa quase sempre vem com a formulação branda de que a genotipagem 'vem depois da carga viral'. O protocolo é mais duro que isso: não é necessária para tratamento inicial nem para retratamento, em nenhuma faixa etária. Quando o enunciado informa o genótipo, é para testar se o candidato sabe que aquele dado não muda mais nada.
- 3Digitar a contagem de plaquetas sem converter A fórmula pede a contagem em 10⁹ por litro e o hemograma vem por milímetro cúbico. Sem dividir por mil, o escore sai mil vezes menor e cai sempre abaixo de 1 — o que empurra qualquer paciente, inclusive o cirrótico, para o esquema de dois comprimidos. O erro não avisa, porque o valor que sai parece um escore. O protocolo em vigor não repete a instrução de conversão; ela está nas notas técnicas.
- 4Calcular o escore sem o limite de referência do laboratório O numerador não é a aminotransferase de aspartato: é ela dividida pelo limite superior de normalidade daquele serviço. Com aminotransferase de 80 e 120 mil plaquetas, o escore vai de 1,33 a 2,56 conforme o limite publicado seja 50 ou 26. Vinheta que informa a enzima sem informar o valor de referência não permite calcular — e, quando isso acontece, a resposta está na conduta descrita, não na conta.
- 5Tratar 'igual ou maior que 2,0' como o corte que muda o esquema A coluna de alta probabilidade de cirrose começa em 2,0, e é tentador usá-la como limiar terapêutico. Não é: a tabela de esquemas se divide em 1,0. Escore 1,4, escore 1,67 e escore 3 recebem exatamente o mesmo tratamento inicial. Confundir o corte do quadro descritivo com o corte da tabela de conduta é o erro que a faixa sem linha, de 1,50 a 1,99, torna mais provável.
- 6Pedir carga viral no meio do tratamento Não há recomendação de carga viral durante o curso do antiviral: o exame não muda conduta e não antecipa falha. A quantificação tem hora marcada, que é a partir de 12 semanas do término. A exceção é o cenário de interrupção, em que a carga viral entra exatamente para decidir se completa, se estende em 4 semanas ou se vai para retratamento.
- 7Suspender a vigilância de carcinoma depois da cura A resposta virológica sustentada reduz, mas não elimina, o risco de carcinoma hepatocelular em quem já tinha fibrose avançada. Fibrose F3 ou F4 não recebe alta e mantém ultrassonografia semestral, complementada por alfafetoproteína, por tempo indefinido. A alternativa que oferece cura como fim do acompanhamento é a errada, e ela é atraente justamente porque a cura é real.
- 8Oferecer apenas monitorização ao coinfectado com antígeno de superfície reagente Os dois braços da coinfecção com o vírus da hepatite B são diferentes e a alternativa troca um pelo outro. Antígeno de superfície reagente sem critério de tratamento recebe profilaxia contra reativação, mantida até 12 semanas após o fim do antiviral. Quem recebe apenas monitorização mensal da aminotransferase de alanina é o paciente com antígeno de superfície não reagente e anticorpo contra o core reagente.
- 9Tratar a gestante ou adiar o tratamento da mulher que planeja engravidar O antiviral é contraindicado na gestação e a gestante diagnosticada é notificada e encaminhada ao pré-natal de risco. A consequência do mesmo raciocínio é o oposto do que a intuição sugere: em mulher em idade fértil que planeja engravidar, o tratamento é prioridade e deve ser feito antes da gestação, não depois. E, no que diz respeito à via de parto, a cesariana não reduz a transmissão vertical.
- 10Inverter a ordem dos exames na criança exposta No adulto, sorologia primeiro e molecular depois. Na criança nascida de mãe infectada, a ordem se inverte: teste molecular entre 3 e 6 meses, sorologia apenas aos 18 meses. O motivo é o mesmo que impede o teste rápido antes dessa idade — o anticorpo materno atravessa a placenta e torna a sorologia precoce ilegível. Alternativa que pede sorologia no lactente de 4 meses está usando o algoritmo do adulto.
Anti-HCV positivo indica contato com o vírus, mas a infecção ativa é confirmada pela detecção do HCV-RNA (carga viral); confirmada, o paciente deve ser encaminhado para tratamento com antivirais de ação direta, disponíveis no SUS, com altas taxas de cura. Repetir apenas o anti-HCV em 6 meses protela a confirmação e o tratamento de uma infecção potencialmente curável. Errado: não há dados de hepatite autoimune, e corticoide em hepatite C viral é inapropriado. Incorreto porque anti-HCV positivo não distingue cura de infecção ativa; somente o HCV-RNA faz essa distinção, sendo errado tranquilizar sem confirmar.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Homem, 48 anos, etilista, diagnosticado com hepatite C cronica (genotipo 1a) em investigacao ambulatorial. Assintomatico. HCV-RNA 1.200.000 UI/mL. Elastografia hepatica (FibroScan) 8,5 kPa, compativel com fibrose significativa (F2-F3), sem sinais de cirrose. Funcao renal e hepatica preservadas (Child-Pugh A). Nunca foi tratado. Sorologias para HIV e HBV (HBsAg) negativas. Qual a conduta correta em relacao ao tratamento antiviral?
Correta: na hepatite C cronica o tratamento e indicado para TODOS os pacientes com doenca (independente do grau de fibrose), e o padrao atual sao os antivirais de acao direta (DAA) pangenotipicos, como sofosbuvir/velpatasvir por 12 semanas em paciente sem cirrose descompensada. Erradas: a indicacao NAO se restringe a cirrose/F4 — trata-se mesmo em fibrose leve/moderada, e postergar aumenta risco de progressao e hepatocarcinoma. Errada: interferon+ribavirina foi abandonado por baixa eficacia e alta toxicidade, substituido pelos DAA. Errada: entecavir/tenofovir sao antivirais para hepatite B cronica, sem papel no tratamento da hepatite C.
Homem, 45 anos, usuário de drogas injetáveis no passado, é investigado por elevação de transaminases. Sorologias e exames complementares mostram: HBsAg reagente, anti-HBc total reagente, anti-HBc IgM não reagente, HBeAg não reagente, anti-HBe reagente, anti-HCV reagente. Solicita-se HBV-DNA, que retorna 320 UI/mL, e HCV-RNA, que retorna 1.200.000 UI/mL. AST 96 U/L, ALT 110 U/L. Elastografia hepática compatível com fibrose F1. Diante da coinfecção B e C, qual a conduta inicial mais adequada?
Correta: Na coinfecção HBV/HCV geralmente há predomínio replicativo de um vírus; aqui o HCV-RNA é altíssimo (1,2 milhão UI/mL) e o HBV-DNA é baixo (320 UI/mL) com perfil HBeAg negativo/anti-HBe reagente. A prioridade é tratar a hepatite C com antivirais de ação direta (DAA), independentemente do estágio de fibrose (indicação universal). O ponto crítico: durante/após o clareamento do HCV pode ocorrer REATIVAÇÃO do HBV (o HCV suprimia o HBV), obrigando monitorização do HBV-DNA e/ou profilaxia com análogo de nucleos(t)ídeo. Tratar só a B ignora a hepatite C ativa de alta carga, a mais relevante aqui. Não há soroconversão espontânea esperada que justifique postergar; HCV crônico ativo tem indicação de tratamento. Interferon em monoterapia está obsoleto para HCV — o padrão são os DAA orais. A indicação de tratar HCV independe do grau de fibrose (é universal), logo F1 não contraindica.
Homem, 48 anos, candidato a doador de sangue, é comunicado de que a triagem sorológica revelou anti-HCV reagente. Está assintomático, sem estigmas de hepatopatia ao exame físico. Nega icterícia, uso atual de medicamentos e etilismo. ALT 30 U/L (VR < 40) e AST 28 U/L (VR < 40). A conduta mais adequada para confirmar se há infecção ATIVA pelo HCV é:
Correta: o anti-HCV reagente indica contato prévio com o vírus, mas NÃO distingue infecção ativa de infecção passada/curada (o anticorpo persiste após clareamento espontâneo ou tratamento). A confirmação de replicação ativa exige detecção do HCV-RNA por PCR — inclusive porque a ALT normal não exclui infecção crônica ativa. Repetir o anti-HCV em 6 meses não confirma atividade viral e apenas atrasa o diagnóstico. Iniciar antiviral sem confirmar HCV-RNA detectável é inadequado, pois o paciente pode ter infecção já resolvida. A biópsia hepática avalia grau de fibrose/atividade, não confirma a presença do vírus. A genotipagem orienta/estratifica o tratamento e só faz sentido APÓS a confirmação de HCV-RNA detectável, não como primeiro passo confirmatório.
Homem, 50 anos, assintomático, encaminhado após triagem laboratorial mostrar anti-HCV reagente. Refere ter usado drogas injetáveis na juventude e possui tatuagens feitas em condições não sanitárias. Exame físico sem estigmas de hepatopatia crônica. Exames: ALT 78 U/L (VR < 40), AST 65 U/L (VR < 40), plaquetas 210.000/mm³, HBsAg não reagente. Diante do anti-HCV reagente, o próximo passo mais adequado é:
Correta: o anti-HCV reagente indica apenas contato com o vírus e não distingue infecção ativa de infecção prévia curada (espontânea ou tratada). A confirmação de doença ativa exige a detecção do HCV-RNA (carga viral) — é o próximo passo obrigatório antes de indicar terapia. Erra: iniciar antiviral de ação direta sem confirmar RNA e sem genotipagem/avaliação de fibrose é inadequado e pode tratar quem já eliminou o vírus. Erra: repetir o anti-HCV não confirma atividade viral; o exame confirmatório é o RNA, não a repetição do anticorpo. Erra: a biópsia avalia grau de fibrose em casos selecionados, mas não é o método diagnóstico de infecção ativa, hoje feito por RNA. Erra: embora falso-positivos existam, não se descarta a infecção — a conduta correta é confirmar com HCV-RNA, ainda mais neste paciente com fator de risco e transaminases elevadas.
Mulher, 45 anos, assintomática, comparece para doar sangue e é comunicada de que a triagem sorológica detectou anti-HCV reagente. Nega icterícia, dor abdominal ou uso de álcool; refere ter recebido transfusão em 1990. Ao exame físico não há hepatomegalia, esplenomegalia ou estigmas de hepatopatia crônica. Exames: ALT 28 U/L (VR até 40), AST 25 U/L, bilirrubinas e plaquetas normais. Qual é o próximo passo mais apropriado?
O anti-HCV é um teste de triagem: indica contato com o vírus, mas não distingue infecção ativa de infecção passada/curada (o anticorpo persiste após a cura). O passo obrigatório após um anti-HCV reagente é a pesquisa do HCV-RNA por PCR, que confirma (ou afasta) a replicação viral atual. É cORRETA. Errada: não se trata sem antes confirmar infecção ativa pelo HCV-RNA; ela pode ter hepatite C curada/resolvida. Errada: repetir o anticorpo não acrescenta informação, pois ele permanece reagente independentemente de haver ou não vírus circulante. Errada: a biópsia não é o passo inicial e nem é rotina para estadiamento (usam-se métodos não invasivos como elastografia/APRI/FIB-4), e só faz sentido após confirmar infecção ativa. Errada: a genotipagem só é considerada depois de confirmada a infecção ativa (HCV-RNA positivo) e, com os esquemas pangenotípicos atuais, muitas vezes é dispensável.
Uma mulher de 52 anos, ex-usuária de drogas injetáveis na juventude e com história de transfusão sanguínea em 1990, procura a UBS após rastreamento que evidenciou anti-HCV reagente. Está assintomática, com exame físico sem alterações e transaminases discretamente elevadas. Foi informada de que possui hepatite C. Na atenção primária, qual é o exame indicado para confirmar a infecção ATIVA (viremia) e definir a necessidade de tratamento, e não apenas o contato prévio com o vírus?
O anti-HCV reagente apenas indica exposição ao vírus (pode persistir mesmo após cura espontânea ou tratamento). A confirmação de infecção ativa exige a pesquisa do HCV-RNA (carga viral por PCR): se detectável, há viremia e indicação de tratamento com antivirais de ação direta, ofertados pelo SUS. Repetir o anti-HCV não distingue infecção ativa de contato passado. Anti-HBc total investiga hepatite B, não confirma viremia por HCV. A alfafetoproteína é usada no rastreio de carcinoma hepatocelular em cirróticos, não para confirmar infecção ativa pelo HCV.
Um homem de 45 anos, assintomático, comparece à Unidade Básica de Saúde após ter doado sangue e ser informado de uma alteração sorológica. Relata ter usado drogas injetáveis na juventude e ter feito uma transfusão em 1990. Ao exame físico não há alterações. O resultado laboratorial mostra anti-HCV reagente. Segundo as diretrizes do Ministério da Saúde, qual é o próximo passo para confirmar o diagnóstico de infecção ativa pelo vírus da hepatite C?
O anti-HCV reagente indica contato com o vírus, mas não distingue infecção ativa de infecção passada/curada. A confirmação de infecção ativa exige a detecção do HCV-RNA (carga viral) por técnica molecular, conforme o Ministério da Saúde. Atrasaria o diagnóstico desnecessariamente. Avalia hepatite B, não confirma o C. Errada: o tratamento só se inicia após confirmação de viremia e avaliação complementar (genótipo/estadiamento conforme protocolo).
Um homem de 52 anos, motorista, comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta de rotina. É assintomático, nega uso de álcool ou drogas injetáveis, mas recebeu transfusão de sangue após acidente de trânsito em 1990. Ao exame físico: IMC 26 kg/m², abdome sem visceromegalias, ausência de estigmas de hepatopatia crônica. No rastreamento oferecido pela unidade, o teste rápido para hepatite C resultou reagente; anti-HIV, HBsAg e teste treponêmico não reagentes. Exames laboratoriais: ALT 32 U/L e AST 28 U/L (valores de referência até 40), bilirrubinas, albumina, INR e plaquetas normais; ultrassonografia de abdome sem alterações. Qual é a conduta imediata mais adequada?
O anti-HCV (incluindo o teste rápido) é exame de triagem: indica contato prévio com o vírus, mas não distingue infecção ativa de infecção curada (espontaneamente ou pós-tratamento). O protocolo do Ministério da Saúde exige confirmação com pesquisa do HCV-RNA; se detectável, confirma-se hepatite C crônica e segue-se para estadiamento de fibrose (APRI/FIB-4 ou elastografia) e tratamento com antivirais de ação direta, hoje indicado a todos os infectados. Alternativa 1: transaminases normais são frequentes na hepatite C crônica e não afastam infecção ativa; repetir sorologia não esclarece nada. Alternativa 2: tratar sem HCV-RNA pode expor a antivirais alguém já curado. Alternativa 4: a biópsia hepática deixou de ser exigida para indicar tratamento e nunca precederia a confirmação virológica.
Um homem de 52 anos, assistente administrativo, comparece à Unidade Básica de Saúde para mostrar o resultado de um teste rápido realizado em campanha de saúde, com anti-HCV reagente. É assintomático, nega icterícia, uso de álcool relevante ou drogas injetáveis, mas refere ter recebido transfusão sanguínea após acidente automobilístico em 1988. Ao exame: bom estado geral, anictérico, IMC de 26 kg/m², abdome sem visceromegalias, sem estigmas de hepatopatia crônica. Exames complementares recentes: ALT 32 U/L e AST 28 U/L (ambos dentro da normalidade), bilirrubinas normais, plaquetas de 210.000/mm³, albumina de 4,2 g/dL e INR de 1,0. HBsAg e anti-HIV não reagentes. Qual é a conduta mais adequada neste momento?
Correta: o anti-HCV é marcador de contato com o vírus e permanece reagente mesmo após clareamento espontâneo ou tratamento; a confirmação de infecção ativa exige detecção do HCV-RNA, conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite C do Ministério da Saúde. Incorretas: Tratar sem confirmação virológica expõe a antivirais um paciente que pode ter infecção resolvida; Aminotransferases normais são frequentes na hepatite C crônica e não excluem viremia — repetir a sorologia não acrescenta informação; A biópsia não é o passo inicial e o estadiamento atual é feito preferencialmente por métodos não invasivos (elastografia, APRI/FIB-4), sempre após a confirmação do HCV-RNA.
Um homem de 52 anos, motorista, procura a Unidade de Saúde da Família para "checar os exames", trazendo o resultado de um teste rápido para hepatite C realizado em campanha na empresa: anti-HCV reagente. Está assintomático. Relata etilismo social, nega uso de drogas injetáveis, mas recebeu transfusão de sangue após acidente de trânsito em 1990. Ao exame físico: bom estado geral, IMC 27 kg/m², anictérico, sem estigmas de hepatopatia crônica, fígado e baço não palpáveis. Exames laboratoriais: ALT 68 U/L, AST 54 U/L, bilirrubina total 0,9 mg/dL, albumina 4,2 g/dL, INR 1,0, plaquetas 210.000/mm³, HBsAg e anti-HIV não reagentes. Qual é a conduta correta neste momento?
O anti-HCV é um teste de triagem: indica exposição ao vírus e permanece reagente mesmo após clareamento espontâneo (cerca de 20-25% dos infectados) ou cura pós-tratamento. Pelo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, todo anti-HCV reagente exige confirmação de infecção ativa com HCV-RNA (biologia molecular), que é o próximo passo obrigatório antes de qualquer decisão terapêutica. Repetir o anti-HCV em seis meses posterga desnecessariamente o diagnóstico — repetir a sorologia não acrescenta informação, pois o anticorpo não diferencia infecção ativa de pregressa. Iniciar imediatamente os antivirais de ação direta erra porque aminotransferases elevadas são inespecíficas (aqui há também etilismo e sobrepeso, com possível esteatose) e não substituem o HCV-RNA; tratar sem confirmar viremia é inadequado. E solicitar biópsia hepática para estadiamento está errado em duas frentes: o SUS trata TODOS os pacientes com hepatite C crônica com antivirais de ação direta, independentemente do grau de fibrose, e o estadiamento é feito preferencialmente por métodos não invasivos (APRI, FIB-4, elastografia), reservando a biópsia para casos selecionados.
Homem de 52 anos, ex-usuário de drogas injetáveis, procura a Unidade Básica de Saúde após teste rápido reagente para hepatite C em campanha de rastreamento do município. Está assintomático e nega etilismo. Exame físico sem estigmas de hepatopatia crônica; abdome sem visceromegalias. Exames laboratoriais: anti-HCV reagente (sorologia laboratorial), ALT 68 U/L, AST 54 U/L, plaquetas 210.000/mm³, albumina e INR normais. Qual é a conduta imediata?
Correta: o anti-HCV é marcador de contato com o vírus e permanece reagente mesmo após clareamento espontâneo ou cura; a confirmação de infecção ativa exige HCV-RNA, passo obrigatório antes de qualquer decisão terapêutica. Tratar sem HCV-RNA expõe a antivirais quem pode ter infecção já resolvida — cerca de 15 a 25% dos infectados clareiam espontaneamente. Repetir a sorologia não acrescenta informação, pois o anti-HCV não se negativa, e adiar a confirmação retarda o tratamento de um paciente potencialmente virêmico. A biópsia hepática não é necessária para indicar tratamento na hepatite C — o estadiamento de fibrose é feito por métodos não invasivos (APRI/FIB-4, elastografia) e o tratamento está indicado para todos os virêmicos.
Homem de 52 anos, ex-usuário de drogas injetáveis na juventude, é encaminhado do ambulatório de infectologia por anti-HCV reagente detectado em rastreamento. Assintomático, IMC 25 kg/m², nega etilismo atual. Exames: HCV-RNA quantitativo detectável (1,2 x 10^6 UI/mL), genótipo 1a; AST 78 U/L, ALT 96 U/L, bilirrubina total 0,9 mg/dL, albumina 4,1 g/dL, INR 1,0, plaquetas 118.000/mm³. HBsAg e anti-HIV não reagentes. Elastografia hepática transitória: 14,8 kPa. Ultrassonografia de abdome: fígado de contornos irregulares, sem nódulos; baço com 13,5 cm. Assinale a conduta correta.
HCV-RNA detectável define infecção crônica ativa, e a elastografia de 14,8 kPa (≥ 12,5 kPa) somada a contornos hepáticos irregulares, esplenomegalia e plaquetopenia caracteriza cirrose (F4) — no Brasil, o tratamento com antivirais de ação direta pangenotípicos está indicado para TODOS os portadores de HCV crônico, independentemente do estágio de fibrose. Esse é o ponto-chave: uma vez estabelecida a cirrose, o risco de carcinoma hepatocelular persiste após a resposta virológica sustentada, e o rastreamento semestral com ultrassonografia é mantido por tempo indeterminado — suspender a vigilância após a cura virológica é o erro. Postergar o tratamento ignora que a fibrose avançada já instalada o torna prioritário. A biópsia foi substituída por métodos não invasivos (elastografia, APRI/FIB-4) e não é exigida.
Homem de 57 anos com cirrose compensada por hepatite C foi tratado com sofosbuvir e daclatasvir por 12 semanas. A carga viral colhida 12 semanas após o término veio detectável. Hoje: Child-Pugh 6, sem ascite e sem encefalopatia. Qual é o esquema de retratamento?
Falha ao esquema inicial com antiviral de ação direta configura retratamento, e a regra é combinar três classes distintas de antiviral. A tabela nacional prevê o esquema triplo de sofosbuvir com velpatasvir e voxilaprevir, um comprimido uma vez ao dia, por 12 semanas, tanto para escore laboratorial baixo quanto para escore alto ou cirrose compensada — as duas primeiras linhas do quadro dão a mesma resposta. A única bifurcação real é a cirrose descompensada, Child B ou C, em que os inibidores de protease são evitados e o retratamento volta ao esquema duplo por 24 semanas. Este paciente é Child A e recebe o triplo. Repetir o esquema que falhou não é opção prevista. A ribavirina não está indicada em nenhum caso de retratamento. O retratamento também é pangenotípico, então a genotipagem continua desnecessária.
Lactente de 4 meses, nascido a termo, filho de mãe com hepatite C crônica diagnosticada no pré-natal. Está assintomático, com bom ganho de peso e exame físico normal. Qual é a investigação laboratorial adequada neste momento?
Na criança exposta a ordem dos exames se inverte em relação ao adulto. O protocolo determina teste molecular entre 3 e 6 meses de vida, com dupla finalidade: vincular o lactente ao serviço e identificar quem tem maior risco de infecção. A sorologia só entra aos 18 meses, porque antes dessa idade o anticorpo materno transferido pela placenta ainda circula e torna o resultado ilegível — o manual técnico do ministério é explícito ao vedar o teste rápido de anticorpos totais em menores de 18 meses. Carga viral detectável agora obriga a notificar e a manter o acompanhamento, com nova avaliação aos 18 meses. Carga viral não detectável não encerra o seguimento: a criança continua sendo acompanhada como exposta até a sorologia dos 18 meses. Aminotransferase não é ferramenta diagnóstica aqui, e a elastografia não tem papel nessa idade.
Mulher de 33 anos, com hepatite C crônica e escore APRI de 0,5, está na 14ª semana de gestação. Assintomática, sem estigmas de hepatopatia. Pergunta se pode começar o tratamento e se poderá amamentar. Qual é a orientação correta segundo o protocolo em vigor?
O tratamento é contraindicado na gestação por ausência de estudos de segurança em larga escala com os antivirais de ação direta, e a gestante diagnosticada deve ser notificada e encaminhada ao pré-natal de risco, em acompanhamento conjunto com a atenção primária. A consequência do mesmo raciocínio, cobrada com frequência, é que a mulher em idade fértil que planeja engravidar deve ser tratada antes da gestação. A via de parto não muda o risco: a cesariana não reduz a transmissão vertical, estimada em 3% a 5% e maior na coinfecção com o vírus da imunodeficiência humana. O aleitamento não está contraindicado pela hepatite C; o que não se recomenda é usar os antivirais durante a amamentação, de modo que a regra é aguardar o desmame — e, se o tratamento for iniciado, a amamentação fica contraindicada enquanto ele durar. A criança exposta é investigada por teste molecular entre 3 e 6 meses, e não aos dois anos.
Mulher de 49 anos com hepatite C crônica confirmada, sem tratamento prévio, sem ascite ou encefalopatia. Exames: aminotransferase de aspartato 60 U/L, com limite superior de normalidade de 40 U/L no laboratório, e plaquetas 150.000/mm³. Aplicando o escore APRI conforme o protocolo do Ministério da Saúde, qual é o valor e qual o esquema inicial indicado?
O cálculo tem três etapas e uma conversão. A aminotransferase de aspartato de 60 dividida pelo limite superior de 40 dá 1,5. A contagem de plaquetas precisa ser expressa em 10⁹ por litro, o que se obtém dividindo o valor do hemograma por mil: 150.000 por milímetro cúbico equivalem a 150. Dividindo 1,5 por 150 e multiplicando por 100, chega-se a 1,0. Como o escore é igual a 1, a paciente não cumpre a condição de escore menor que 1 da primeira linha da tabela e entra na segunda: o coformulado de sofosbuvir com velpatasvir, um comprimido uma vez ao dia, por 12 semanas, com avaliação não invasiva adicional por ultrassonografia e elastografia. O resultado de 0,001 é o que sai quando a contagem de plaquetas entra na fórmula sem a divisão por mil, e o erro tem direção única: joga qualquer paciente para abaixo de 1. O valor 40 é o que sai quando se esquece de dividir a enzima pelo limite superior de normalidade: 60 dividido por 150, vezes 100. A biópsia não tem lugar nessa decisão.
Homem de 54 anos, assintomático, procura a unidade básica de saúde com resultado de teste rápido para hepatite C reagente, colhido em campanha de testagem. Nega etilismo e uso de drogas injetáveis; recebeu transfusão em 1990. Exame físico sem estigmas de hepatopatia. Traz exames recentes: aminotransferase de alanina 34 U/L (referência até 41), aminotransferase de aspartato 29 U/L (referência até 40), plaquetas 224.000/mm³, albumina e razão normatizada internacional normais. Qual é a conduta imediata?
O anticorpo é marcador de contato com o vírus e permanece reagente por toda a vida, inclusive depois da cura espontânea ou pós-tratamento; ele não distingue infecção ativa de infecção passada. O passo obrigatório é a pesquisa direta do vírus, por quantificação do material genético ou por antígeno do core. Teste rápido e imunoensaio laboratorial que detectam o anticorpo são equivalentes pelo protocolo, de modo que repetir a sorologia não acrescenta informação. A genotipagem foi aposentada: os esquemas são pangenotípicos e o protocolo diz que ela não é necessária nem no tratamento inicial nem no retratamento. Aminotransferase normal é achado comum na infecção crônica ativa e não permite concluir por resolução. A biópsia deixou de ser exigida para indicar tratamento, substituída por métodos não invasivos.
Homem de 66 anos com cirrose por hepatite C atingiu resposta virológica sustentada há um ano, após sofosbuvir com velpatasvir. Mantém-se Child A, assintomático, com plaquetas de 118.000/mm³. Pergunta se pode ter alta do ambulatório. Qual é a conduta de vigilância adequada?
A cura reduz, mas não elimina, o risco de carcinoma hepatocelular em quem já tinha fibrose avançada — sobretudo na presença de diabete, síndrome metabólica ou consumo abusivo de álcool. O protocolo determina que pessoas com fibrose F3 ou F4 não recebem alta após a resposta virológica sustentada e mantêm vigilância semestral, por ultrassonografia de abdome superior complementada com alfafetoproteína, por tempo indefinido. A dosagem isolada do marcador não substitui o exame de imagem. Repetir a carga viral não se justifica: confirmada a cura, não há evidência de reativação viral futura, e novos testes só entram sob suspeita de reinfecção. A ressonância magnética esclarece lesões suspeitas e não é o método de rastreamento populacional nessa situação.
Segundo o PCDT brasileiro de Hepatite C de 2026, homem de 63 anos com cirrose por hepatite C e HCV-RNA detectável, nunca tratado, não tem história atual ou prévia de ascite, encefalopatia ou hemorragia por varizes. Hoje: sem ascite ao exame e à ultrassonografia, sem encefalopatia, bilirrubina total 1,6 mg/dL, albumina 3,6 g/dL e INR 1,4. Qual é a duração do tratamento inicial e por quê?
Cada um dos cinco componentes de Child-Pugh vale 1 ponto neste caso, totalizando 5, classe A. A ausência de eventos atuais ou prévios de descompensação sustenta também a classificação clínica de cirrose compensada. No Quadro 13 do PCDT brasileiro de 2026, o tratamento inicial nessa situação é sofosbuvir/velpatasvir por 12 semanas. Um antecedente de hemorragia varicosa, ascite ou encefalopatia mudaria a avaliação: o próprio protocolo define compensação pela ausência desses eventos, e não apenas pelo escore atual. Nessa situação, deve-se reavaliar a classificação e o esquema com o especialista, sem apagar o antecedente porque o Child melhorou.
Sobre o rastreamento da hepatite C na população brasileira, segundo o protocolo clínico do Ministério da Saúde em vigor, assinale a afirmativa correta.
O protocolo em vigor recomenda testar toda pessoa a partir de 18 anos pelo menos uma vez na vida, com intensificação de busca ativa a partir dos 40 anos pelo maior risco acumulado de exposição, e mantém a oferta a quem tem qualquer fator de risco ou simplesmente deseja testar-se, em qualquer idade. A justificativa é de custo-efetividade: a prevalência estimada no Brasil é de 0,3%, acima do limiar de 0,1% abaixo do qual a referência norte-americana dispensa a triagem universal — ou seja, o país está acima do corte, e não abaixo. A gestante é testada em cada gestação. Quem usa profilaxia pré-exposição realiza o anticorpo em frequência quadrimestral, mais estreita que a anual recomendada para quem apenas mantém vulnerabilidade.
Homem de 45 anos com hepatite C crônica e escore APRI de 0,6, sem cirrose, iniciará tratamento. Exames adicionais: antígeno de superfície do vírus da hepatite B reagente, anticorpo contra o core total reagente, carga viral do vírus da hepatite B de 900 UI/mL, aminotransferase de alanina normal — perfil que, pelo protocolo da hepatite B, não preenche critério de tratamento. Qual é a conduta em relação ao vírus da hepatite B durante o tratamento da hepatite C?
A coinfecção tem dois braços, e a diferença entre eles é o antígeno de superfície. Quando ele é reagente e a pessoa não preenche critério de tratamento da hepatite B pelo protocolo próprio, faz-se tratamento profilático contra a reativação durante todo o antiviral de ação direta, mantido até 12 semanas após o término, ou seja, até a coleta que avalia a cura. A monitorização mensal da aminotransferase de alanina, sem medicação, é a conduta do outro braço: antígeno de superfície não reagente com anticorpo contra o core reagente. Adiar o tratamento da hepatite C contraria a indicação universal, que independe de fibrose e de coinfecção. Análogos de nucleosídeo não têm atividade sobre o vírus da hepatite C, e os antivirais de ação direta não têm atividade sobre o vírus da hepatite B — daí existir o risco de reativação. A combinação de glecaprevir com pibrentasvir não figura como esquema recomendado nas tabelas nacionais e não substitui a profilaxia.
Mulher de 38 anos foi tratada para hepatite C crônica há quatro anos e teve carga viral não detectável documentada 12 semanas após o término do esquema. Mantém uso ocasional de drogas inaladas compartilhando canudo. Comparece para consulta de rotina, assintomática. Qual exame é o adequado para investigar nova infecção?
O anticorpo persiste reagente por toda a vida depois da cura e, por isso, não serve para investigar reinfecção — ele já é reagente antes mesmo da nova exposição. O protocolo é explícito: em quem eliminou espontaneamente a infecção ou foi curado e mantém vulnerabilidade, o seguimento é feito com a pesquisa do material genético do vírus, semestral ou anual conforme o risco. A infecção não confere imunidade, de modo que reinfecção é evento real; e, se confirmada, a pessoa é tratada com o esquema inicial, e não com o de retratamento, que se reserva a quem falhou. A genotipagem não é necessária em nenhum momento do algoritmo. Aminotransferase normal é frequente na infecção ativa e não exclui viremia. A elastografia estadia fibrose e não detecta replicação viral.
Homem de 52 anos com hepatite C crônica, sem cirrose e com escore APRI de 0,4, iniciou sofosbuvir com daclatasvir por 12 semanas. Completou seis semanas de tratamento e então ficou 25 dias sem tomar os comprimidos, por perda do vínculo com a farmácia. Retorna hoje, assintomático. Segundo o protocolo do Ministério da Saúde em vigor, qual é a conduta?
O fluxograma de interrupção é construído por janelas contíguas. Até 7 dias de parada, em qualquer momento, retoma-se e completa-se o tempo previsto. Mais de 7 dias antes de completar o primeiro mês: retoma-se, colhe-se carga viral imediatamente e, se detectável, completa-se o tempo restante acrescido de mais 4 semanas. De 8 a 20 dias depois de completado ao menos um mês: retoma-se e colhe-se carga viral no reinício, e o resultado detectável vira falha terapêutica. Com 21 dias ou mais e ao menos um mês completado — 25 dias após seis semanas, como aqui —, não se retoma: colhe-se a carga viral a partir de 12 semanas da suspensão para avaliar se houve cura. Reiniciar do zero não está previsto em nenhuma janela. E o esquema triplo de retratamento só entra depois de resposta virológica sustentada não alcançada e documentada, o que ainda não foi medido neste paciente.
Paciente de 62 anos com hepatite C e cirrose compensada obtém resposta virológica sustentada após tratamento. Qual a conduta de seguimento?
A cura virológica reduz, mas não elimina, o risco de carcinoma hepatocelular em quem já tem cirrose estabelecida, e a vigilância semestral por imagem se mantém indefinidamente. Encerrar o seguimento engana quem interpreta a resposta sustentada como reversão completa do risco, e é uma das falhas de acompanhamento mais custosas na hepatologia atual, porque esses pacientes deixam de ser rastreados justamente quando se sentem curados.
Homem de 48 anos com hepatite C crônica, genótipo 1, sem cirrose, inicia tratamento com antivirais de ação direta. Qual é o desfecho que define sucesso terapêutico?
O critério de cura é a resposta virológica sustentada, definida pela ausência de RNA detectável doze semanas após concluir o esquema, e ela se associa a redução de progressão de fibrose, de descompensação e de mortalidade. Esperar a negativação do anticorpo engana quem imagina que a cura apaga a sorologia, mas o anticorpo costuma permanecer positivo por anos ou definitivamente. A normalização enzimática ao final do tratamento não substitui a confirmação virológica.
Sobre o rastreamento e o diagnóstico da hepatite C, qual afirmação está correta?
O anticorpo indica exposição e persiste após a cura espontânea ou tratada, de modo que a infecção ativa só se confirma com a detecção do material genético viral. Tratar com base apenas na sorologia engana quem esquece que parte dos expostos elimina o vírus espontaneamente. Em imunossuprimidos o anticorpo pode ser falsamente negativo, o que justifica pesquisar o RNA quando a suspeita é alta. A biópsia foi substituída por métodos não invasivos de avaliação de fibrose.
Doze semanas após concluir tratamento com antiviral de ação direta, o paciente apresenta carga viral do vírus C indetectável. Como se interpreta esse resultado?
Carga viral indetectável na semana 12 após o término do tratamento define resposta virológica sustentada, aceita como cura da infecção, com taxa de recidiva tardia inferior a 1%. Esperar a negativação do anticorpo é o erro conceitual mais frequente: o anticorpo é cicatriz sorológica e permanece reagente por anos ou para sempre, de modo que usá-lo para julgar cura leva a repetições inúteis e a ansiedade do paciente. Cura da infecção, porém, não significa alta definitiva: quem já tinha fibrose avançada ou cirrose mantém rastreio de hepatocarcinoma.
Paciente com hepatite C crônica genótipo 1, sem cirrose, virgem de tratamento. Qual a conduta terapêutica atual?
A hepatite C crônica hoje se trata com antivirais de ação direta em esquemas orais curtos, com taxas de resposta virológica sustentada acima de 95% e excelente tolerabilidade, e a indicação é para todo portador com infecção ativa, independentemente do grau de fibrose. O esquema com interferon é o distrator histórico e ainda aparece em provas antigas, mas foi abandonado por baixa eficácia e toxicidade importante. Esperar fibrose avançada para tratar é conduta ultrapassada e perde a chance de prevenir cirrose e carcinoma. Ribavirina isolada nunca teve eficácia como monoterapia.
Mulher de 62 anos curada da hepatite C, com fibrose F4 documentada antes do tratamento. Qual conduta de seguimento é obrigatória?
Erradicar o vírus reduz, mas não elimina, o risco de carcinoma hepatocelular em quem já atingiu fibrose avançada ou cirrose, e por isso o rastreio semestral com ultrassonografia se mantém indefinidamente, associado ao rastreio e à profilaxia de varizes conforme o caso. Dar alta é o erro que a literatura mais alerta desde a era dos antivirais diretos, porque a sensação de cura desmobiliza a vigilância. A repetição anual da carga viral não é necessária na ausência de reexposição, e a biópsia seriada não tem papel no seguimento pós-cura.
Paciente com hepatite C crônica apresenta púrpura palpável em membros inferiores, artralgia, neuropatia periférica, complemento C4 consumido e crioglobulinas séricas positivas. Qual a conduta principal?
A crioglobulinemia mista é a manifestação extra-hepática mais característica da hepatite C, e como o antígeno que dirige a produção de imunocomplexos é o próprio vírus, a erradicação viral é o tratamento que resolve a doença de base. Corticoide e imunossupressores, incluindo rituximabe, ficam reservados às formas graves com vasculite ameaçadora de órgão, como glomerulonefrite rapidamente progressiva, e mesmo assim como ponte — usá-los isoladamente e por tempo indeterminado é o distrator que trata o sintoma e deixa a causa intacta.
Sobre a avaliação de fibrose na hepatite C crônica antes do tratamento, qual afirmação é correta?
Elastografia transitória e escores baseados em exames de rotina, como o índice de Fibrose-4 e o APRI, permitem estadiar a fibrose sem biópsia na grande maioria dos pacientes, e a biópsia só é chamada quando há discordância entre métodos ou suspeita de outra doença hepática associada. Dizer que o grau de fibrose não importa depois da cura é o erro mais grave da lista, porque é exatamente ele que define a manutenção do rastreio de carcinoma e do manejo da hipertensão portal. A carga viral basal não define duração de tratamento nos esquemas atuais.
Qual das situações abaixo representa a principal via de transmissão do vírus da hepatite C no Brasil?
O vírus C é de transmissão predominantemente parenteral: uso de drogas injetáveis, material perfurocortante compartilhado e hemotransfusão antes da triagem sorológica de rotina explicam a maior parte dos casos, o que orienta a estratégia de rastreio por faixa etária e por exposição. A transmissão vertical existe, mas ocorre em cerca de 5% dos casos e é o distrator numericamente exagerado da lista. Via fecal-oral pertence aos vírus A e E, e o contato domiciliar casual não transmite. A transmissão sexual é possível, porém pouco eficiente fora de contextos específicos.
Homem de 60 anos com hepatite C crônica apresenta glicemia de jejum de 128 mg/dL em duas dosagens e esteatose ao ultrassom. Qual associação está corretamente descrita?
A hepatite C tem manifestações metabólicas reconhecidas: promove resistência à insulina, aumenta a incidência de diabetes tipo 2 e cursa com esteatose, especialmente em alguns genótipos, e a cura pode melhorar o controle glicêmico sem necessariamente reverter o diabetes já instalado. Afirmar reversão garantida é o exagero que engana quem aprendeu apenas a associação positiva. A esteatose não exclui nada, e o diabetes não contraindica os antivirais, embora exija atenção às interações medicamentosas, que são um cuidado central desses esquemas.
Qual é a principal vantagem dos antivirais de ação direta sobre o esquema com interferon peguilado no tratamento da hepatite C?
Os antivirais de ação direta transformaram a doença: alcançam resposta virológica sustentada acima de 95%, em esquemas de 8 a 12 semanas por via oral, com perfil de efeitos adversos incomparavelmente melhor que o do interferon, que exigia meses de injeções com citopenias e sintomas depressivos. Dizer que não têm interações é o erro que mais gera problema na prática, porque interações com anticonvulsivantes, rifampicina, amiodarona e antirretrovirais são exatamente o cuidado central da prescrição. O seguimento após a cura permanece necessário em quem já tinha fibrose avançada.
Homem de 55 anos, doador de sangue, é convocado por anti-HCV reagente. Assintomático, ALT 68 U/L. Qual o próximo exame?
O anticorpo contra o vírus C apenas indica contato e permanece reagente mesmo após cura espontânea ou tratamento, de modo que a confirmação de infecção ativa exige detecção do material genético viral. A genotipagem é o distrator sofisticado: já foi obrigatória, mas com os esquemas pangenotípicos atuais deixou de ser exigida na maioria dos protocolos, e de qualquer forma só faz sentido depois de confirmada a viremia. Repetir a sorologia não acrescenta informação. A biópsia foi substituída por métodos não invasivos de estadiamento e não é o passo seguinte a uma triagem positiva.
Homem de 48 anos com hepatite C crônica e HBsAg reagente será tratado com antiviral de ação direta. Qual cuidado é obrigatório?
A supressão rápida do vírus C pode permitir a reativação do vírus B em coinfectados, com casos descritos de hepatite grave e até fulminante, e por isso todo candidato deve ser rastreado para os marcadores do vírus B e receber antiviral profilático quando o antígeno de superfície é reagente, ou monitorização estreita quando há apenas anticorpo contra o core. Adiar o tratamento do vírus C é o distrator conservador, mas não resolve nada e mantém a progressão da doença. Corticoide profilático aumentaria o risco de replicação viral.
Homem de 38 anos com hepatite C crônica e insuficiência renal crônica dialítica. Qual afirmação sobre o tratamento é correta?
A doença renal crônica avançada deixou de ser barreira: há esquemas pangenotípicos com metabolização predominantemente hepática que podem ser usados em dialíticos com eficácia comparável à da população geral, e tratar antes do transplante renal costuma ser vantajoso. Considerar o tratamento contraindicado é a informação desatualizada mais frequente sobre o tema. A ribavirina, ao contrário, tem eliminação renal e provoca anemia grave nesse grupo, devendo ser evitada ou usada com muita cautela.
Paciente cirrótico Child-Pugh C com hepatite C crônica. Qual cuidado especial se aplica ao esquema antiviral?
Os inibidores de protease têm metabolização hepática e acumulam-se na doença descompensada, com risco de piora da função, por isso são contraindicados em Child-Pugh classe C, restando esquemas baseados em outros alvos, frequentemente com ribavirina, e sempre com decisão compartilhada com o centro de transplante, pois tratar antes ou depois do transplante muda a estratégia. Interferon é formalmente contraindicado em cirrose descompensada e é o distrator mais perigoso. Aumentar dose não corrige o problema farmacocinético.
Em paciente com líquen plano, especialmente na forma oral erosiva, qual investigação laboratorial tem indicação estabelecida por associação epidemiológica reconhecida?
A associação entre líquen plano, sobretudo o oral e o erosivo, e infecção crônica pelo vírus da hepatite C é reconhecida e justifica a triagem sorológica desses pacientes — achado que muda a conduta, já que o tratamento antiviral pode alterar o curso da dermatose. O antimitocôndria engana porque também é um teste hepatológico, mas pertence à colangite biliar primária, cuja manifestação cutânea típica é prurido sem pápula violácea. Doença celíaca associa-se à dermatite herpetiforme, e alfa-1-antitripsina, ao enfisema precoce e à paniculite, não ao líquen plano.
Paciente com hepatite C crônica e líquen plano oral erosivo em atividade tem indicação de tratamento antiviral com antivirais de ação direta. Qual afirmativa está correta?
Manifestações extra-hepáticas, como líquen plano, crioglobulinemia e glomerulonefrite, reforçam a indicação de tratar a hepatite C, e não a adiam; os antivirais de ação direta são seguros, com altas taxas de resposta virológica sustentada, e o líquen segue tratado em paralelo com terapia tópica. Adiar o antiviral engana quem coloca a dermatose como obstáculo, quando ela é justamente argumento a favor de tratar. A interferona, além de superada, era classicamente associada a piora de dermatoses liquenoides, o que torna essa opção duplamente equivocada.
Paciente com hepatite C e cirrose descompensada, com ascite e episódio prévio de encefalopatia, será tratado. Qual classe de antiviral deve ser evitada?
Os inibidores de protease são metabolizados pelo fígado e alcançam concentrações elevadas na disfunção hepática avançada, com relatos de descompensação e insuficiência hepática — por isso são contraindicados em Child-Pugh B e C. O esquema seguro nesse cenário combina sofosbuvir com um inibidor de NS5A, com ou sem ribavirina, e o tratamento é indicado, muitas vezes com melhora funcional. Concluir que nenhuma classe pode ser usada é o distrator que priva o paciente de um tratamento capaz de mudar sua trajetória.
Qual das seguintes manifestações extra-hepáticas está classicamente associada à infecção crônica pelo vírus da hepatite C?
A hepatite C é a principal causa de crioglobulinemia mista, síndrome que se expressa por púrpura palpável, artralgia, fraqueza, neuropatia periférica e comprometimento renal por glomerulonefrite membranoproliferativa — e o tratamento antiviral costuma controlar a vasculite. Outras associações reconhecidas incluem porfiria cutânea tardia, líquen plano, linfoma não Hodgkin de células B e resistência à insulina. As demais doenças listadas não têm vínculo estabelecido com o vírus.
Sobre a triagem da hepatite C na população geral, qual estratégia é a recomendada atualmente no Brasil?
No Brasil, a ampliação do diagnóstico da hepatite C recomenda testagem ao menos uma vez para todas as pessoas com idade igual ou superior a 40 anos e também para pessoas de qualquer idade pertencentes a grupos prioritários ou com condições e exposições definidas, como transfusão antes de 1993, uso de drogas, exposição parenteral, parceria ou coabitação com pessoa infectada e criança exposta. Transaminases normais não excluem infecção. A versão anterior dizia, de forma mais ampla que a recomendação brasileira citada, que todos os adultos deveriam ser testados ao menos uma vez. Fonte: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/atencao-basica/cadernos-de-atencao-basica-18.pdf
Sobre a avaliação pré-tratamento da hepatite C, qual conduta é necessária além da confirmação da infecção ativa?
Antes de iniciar antivirais de ação direta é indispensável rastrear hepatite B, pelo risco de reativação durante o tratamento, e HIV, além de revisar interações — amiodarona com sofosbuvir, anticonvulsivantes indutores, estatinas e inibidores de bomba de prótons são exemplos que mudam conduta. A biópsia foi substituída por métodos não invasivos de avaliação de fibrose, e os esquemas pangenotípicos dispensam a genotipagem na maioria dos cenários.
Qual conduta é recomendada para pessoas que vivem com hepatite C crônica quanto a outras hepatites virais?
Quem tem doença hepática crônica corre risco maior de descompensação ao adquirir outra hepatite viral, e por isso a vacinação contra hepatite A e B em suscetíveis é recomendação padrão, verificada por sorologia prévia. Postergar a vacinação até o fim do tratamento antiviral é o erro que deixa o paciente desprotegido justamente no período de acompanhamento. Não há vacina contra hepatite E disponível na rede pública brasileira.
Homem de 61 anos, ex-usuário de drogas injetáveis, com anti-HCV reagente e HCV-RNA de 1,8 milhão UI/mL, genótipo 1a. Elastografia com 18 kPa, plaquetas 96.000/mm³, albumina 3,8 g/dL, bilirrubina 1,0 mg/dL, INR 1,1, sem ascite ou encefalopatia. Qual a classificação e a conduta?
Rigidez hepática elevada com plaquetopenia caracteriza cirrose, e a ausência de ascite, encefalopatia, hipoalbuminemia e coagulopatia a classifica como compensada — o tratamento com antivirais de ação direta é indicado e alcança taxas de cura acima de 95%. O ponto que mais gera erro é imaginar que a cura viral encerra o seguimento: o cirrótico mantém risco de carcinoma hepatocelular após a resposta virológica sustentada e segue em rastreamento semestral por tempo indeterminado.
Como se define a cura da infecção pelo vírus da hepatite C após o tratamento com antivirais de ação direta?
A cura é definida pela indetectabilidade do HCV-RNA doze semanas após o término da terapia, momento em que a recaída se torna improvável. Esperar a negativação do anti-HCV é o erro mais comum: o anticorpo permanece reagente por anos ou pela vida toda e apenas registra o contato com o vírus, sem informar sobre infecção ativa. A negativação precoce durante o tratamento é bom sinal, mas não substitui a avaliação no ponto de doze semanas.
Homem de 60 anos realiza testagem na Unidade Básica de Saúde e apresenta anti-HCV reagente. Ele é assintomático, não usa álcool e nega comorbidades. O RNA do vírus C é detectável, com transaminases discretamente elevadas e elastografia sugerindo fibrose significativa. Qual é a conduta adequada?
A infecção crônica pelo vírus C confirmada por RNA detectável tem indicação de tratamento com antivirais de ação direta, disponíveis no SUS, com altas taxas de resposta virológica sustentada e avaliação do grau de fibrose para definir seguimento. Repetir apenas o anti-HCV não altera conduta, pois o RNA já confirmou a infecção ativa. O esquema com interferon foi substituído pelos antivirais orais, com eficácia superior e menor toxicidade. O transplante é reservado à doença hepática terminal ou ao carcinoma dentro de critérios, e não à fibrose significativa isolada.
Homem de 56 anos, com antecedente de transfusão sanguínea em 1990 e uso pregresso de drogas injetáveis, realiza teste rápido para hepatite C na Unidade Básica de Saúde, com resultado reagente. Está assintomático, sem estigmas de hepatopatia. Transaminases discretamente elevadas. Nega uso atual de substâncias e de álcool. Qual é o próximo passo correto?
O teste reagente indica contato com o vírus, e a infecção ativa só se confirma pela detecção do material genético viral, exame disponível na rede e obrigatório antes do tratamento, que hoje é acessível no Sistema Único de Saúde com antivirais de ação direta. Iniciar tratamento apenas com a triagem pode tratar quem já eliminou o vírus. Repetir a triagem em seis meses retarda o diagnóstico. Nível de transaminases não define atividade nem cura da infecção.
Gestante de 28 anos, com 19 semanas, comparece à Unidade Básica de Saúde para receber o resultado do exame de rastreamento de hepatite C, solicitado por antecedente de uso de drogas injetáveis na adolescência. O anti-HCV é reagente e o HCV-RNA quantitativo confirma carga viral detectável. As transaminases estão discretamente elevadas e ela é assintomática, com pressão arterial de 110x68 mmHg. Ela pergunta se pode amamentar e se o tratamento deve ser iniciado agora. A orientação correta é
O tratamento da hepatite C com antivirais de ação direta não é recomendado durante a gestação por falta de dados de segurança, sendo postergado para o puerpério; o aleitamento é permitido, com a ressalva de suspender temporariamente em caso de fissuras sangrantes. Iniciar antivirais na gestação contraria a recomendação vigente. A contraindicação absoluta ao aleitamento aplica-se ao HIV e ao HTLV, não à hepatite C. A cesariana não demonstrou reduzir a transmissão vertical do vírus C, de modo que a via de parto segue indicação obstétrica.
Mulher de 56 anos é diagnosticada com hepatite C crônica em rastreio realizado na Unidade Básica de Saúde, com carga viral detectável e genótipo definido. Está assintomática, sem sinais de descompensação hepática, com elastografia mostrando fibrose moderada e função hepática preservada. Ela recebeu transfusão sanguínea na década de 1980 e pergunta se existe tratamento disponível no SUS e se a doença tem cura. Ao exame: sem icterícia, sem ascite, sem circulação colateral e sem encefalopatia. Qual é a orientação correta?
O tratamento da hepatite C com antivirais de ação direta está disponível no SUS, é oral, de curta duração e alcança taxas muito elevadas de resposta virológica sustentada, que corresponde à cura da infecção, reduzindo progressão para cirrose e carcinoma hepatocelular. Afirmar inexistência de tratamento curativo está desatualizado. A indicação não se restringe a pacientes com cirrose descompensada, e o tratamento precoce é justamente o que evita a progressão. Esquemas baseados em interferon foram substituídos pelos antivirais de ação direta.
Homem de 58 anos, com antecedente de transfusão sanguínea na década de 1980, comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta de rotina. Está assintomático, sem icterícia, sem ascite e sem estigmas de hepatopatia crônica ao exame. Os exames mostram transaminases discretamente elevadas, e o teste rápido para hepatite C é reagente, com carga viral detectável confirmando infecção ativa. A avaliação não invasiva sugere fibrose significativa. Ele pergunta se existe tratamento disponível. A orientação correta é:
A hepatite C crônica tem tratamento com antivirais de ação direta, de curta duração, boa tolerabilidade e altas taxas de resposta virológica sustentada, disponível no sistema público, com indicação para praticamente todos os pacientes com infecção ativa, especialmente com fibrose significativa. Afirmar ausência de tratamento é incorreto e priva o paciente de cura. Transplante é reservado à doença hepática terminal. O interferon foi substituído pelos antivirais de ação direta, com eficácia muito superior e menos efeitos adversos.
Homem de 45 anos com hepatite C crônica e coinfecção pelo HIV é acompanhado no serviço de referência. Está em uso de terapia antirretroviral, com carga viral do HIV indetectável, e apresenta carga viral do vírus da hepatite C detectável com fibrose hepática significativa à elastografia. Ao exame: sem estigmas de hepatopatia avançada, sem ascite e sem encefalopatia. Ele pergunta se pode tratar a hepatite C mesmo tendo HIV e se precisa interromper os antirretrovirais. Qual é a orientação correta?
A coinfecção não contraindica o tratamento da hepatite C, que deve ser realizado com antivirais de ação direta, mantendo-se a terapia antirretroviral e ajustando os esquemas conforme as interações medicamentosas, já que a progressão da fibrose é mais rápida nesses pacientes. Adiar o tratamento pela presença do HIV é conduta ultrapassada. Suspender antirretrovirais provoca rebote viral e imunossupressão. Esperar cirrose descompensada elimina o principal benefício do tratamento, que é evitar a progressão.
Uma equipe de saúde discute a organização do cuidado a pessoas com hepatites virais no território, onde há alta prevalência de hepatite C entre pessoas com histórico de uso de drogas injetáveis e transfusões antes da década de 1990. Muitos usuários desconhecem seu diagnóstico e não têm sintomas. A equipe quer ampliar o diagnóstico precoce e vincular as pessoas ao tratamento, aproveitando os testes rápidos disponíveis na unidade. Qual é a estratégia mais adequada?
A hepatite C é assintomática por décadas e o diagnóstico tardio ocorre com doença hepática avançada, de modo que a estratégia correta é ampliar a testagem para grupos de risco e faixas etárias prioritárias, com testes rápidos, confirmação e vinculação imediata ao tratamento com antivirais de ação direta, que alcança altas taxas de cura. Restringir a testagem a alterações laboratoriais perde muitos casos, pois as transaminases podem ser normais. Testar apenas sintomáticos diagnostica tardiamente. Afirmar ausência de tratamento é incorreto.
Uma equipe de saúde da família organiza ação de testagem para hepatites virais no território, com grande número de pessoas nascidas entre as décadas de 1950 e 1980, muitas com antecedente de transfusão antes da década de 1990, uso de drogas injetáveis no passado e tatuagens sem condições adequadas de biossegurança. A equipe discute quais estratégias de rastreamento devem ser priorizadas nesse grupo populacional, considerando a possibilidade de tratamento com altas taxas de cura disponível na rede. A conduta correta é:
A hepatite C é frequentemente assintomática por décadas e tem tratamento com antivirais de ação direta disponível no Sistema Único de Saúde, com altas taxas de cura, o que justifica ampliar a testagem em populações com fatores de risco e faixas etárias específicas. Afirmar que não há tratamento é incorreto. Não existe vacina contra hepatite C, apenas contra as hepatites A e B. Restringir a testagem a quem tem transaminases elevadas perde a maioria dos casos, pois muitos cursam com enzimas normais.
Mulher de 45 anos comparece à Unidade Básica de Saúde para coleta de citologia oncótica de rotina. Nunca realizou testagem para hepatites virais, recebeu transfusão sanguínea em 1990 após um acidente e refere uma tatuagem feita em estabelecimento sem registro sanitário na juventude. Está assintomática, sem icterícia, hepatomegalia ou estigmas de hepatopatia, e as enzimas hepáticas de exame recente estavam normais. Ela não usa drogas injetáveis, nunca foi vacinada contra hepatite B e refere parceria sexual fixa há vinte anos, sem uso de preservativo. Qual é a conduta adequada nessa consulta?
A consulta ginecológica é oportunidade para a testagem, e a paciente reúne indicações claras, como transfusão antes da triagem ampliada e procedimento com material possivelmente não estéril; a infecção crônica é frequentemente assintomática e com enzimas normais. Considerar exames hepáticos normais suficientes para afastar hepatite crônica é erro comum. A ultrassonografia não diagnostica a infecção viral. Encaminhar ao especialista sem testar transfere uma etapa plenamente resolutiva na atenção primária.
Mulher, 31 anos, G1P0, com 20 semanas, apresenta anti-HCV reagente com RNA do vírus da hepatite C detectável e carga viral moderada. Transaminases discretamente elevadas, sem cirrose ao ultrassom, sem coinfecção por HIV. PA 116/74 mmHg, assintomática. Pergunta se pode transmitir o vírus ao bebê, se precisará de cesariana, se poderá amamentar e se pode iniciar o tratamento antiviral durante a gestação. Qual a orientação correta?
A orientação correta é que o risco de transmissão vertical da hepatite C é baixo, em torno de 5%, aumentando na coinfecção com HIV e com carga viral elevada, que a cesariana não está indicada apenas por esse motivo, que a amamentação é permitida salvo na presença de fissuras mamilares sangrantes e que o tratamento com antivirais de ação direta é postergado para depois da gestação e da lactação por falta de dados de segurança. Indicar cesariana por hepatite C não encontra respaldo. Contraindicar a amamentação de forma absoluta é incorreto. Iniciar antivirais de ação direta na gestação não é recomendado. O rastreio da criança com anti-HCV ao nascimento é inconclusivo pela passagem de anticorpos maternos, devendo ser feito por RNA viral após 2 meses ou sorologia após 18 meses.
Homem, 51 anos, com anti-HCV reagente detectado em doação de sangue, assintomático. Nega álcool. PA 126x80 mmHg, FC 72 bpm, IMC 26 kg/m². ALT 78 U/L (VR até 40); plaquetas 210.000/mm³ (VR 150.000–400.000); albumina 4,1 g/dL (VR 3,5–5,0); INR 1,0. Carga viral de HCV 1,2 milhão UI/mL; elastografia hepática com 6,8 kPa, compatível com fibrose leve. Qual a conduta terapêutica indicada?
Toda infecção crônica pelo vírus C tem indicação de tratamento com antivirais de ação direta, independentemente do estágio de fibrose, com esquemas de 8 a 12 semanas e resposta virológica sustentada acima de 95%. Adiar até fibrose avançada é conduta superada, que expõe o paciente a progressão e a risco de carcinoma. O interferon peguilado com ribavirina foi abandonado por baixa eficácia e toxicidade elevada. O ácido ursodesoxicólico não tem ação antiviral e não modifica a história natural. Medidas comportamentais e vacinação são complementares e importantes, mas não substituem o tratamento antiviral curativo disponível.
Unidade básica de saúde organiza campanha de testagem rápida para hepatite C em sua população adscrita, com foco em grupos de maior prevalência. Os usuários têm entre 25 e 70 anos, com pressões arteriais médias de 128x80 mmHg e sem sintomas hepáticos. A equipe revisa quais situações justificam a oferta prioritária do teste rápido durante a campanha. Assinale a alternativa que NÃO é situação prioritária para testagem.
O contato domiciliar sem compartilhamento de objetos perfurocortantes não é situação prioritária, pois a transmissão do vírus C é predominantemente parenteral e o convívio comum não representa risco relevante. A transfusão antes de 1993 antecede a triagem sorológica sistemática nos bancos de sangue brasileiros. O uso de drogas injetáveis ou inaláveis com compartilhamento de utensílios é a principal via atual de transmissão. Pacientes em hemodiálise ou com enzimas elevadas sem causa definida têm prevalência aumentada. Pessoas vivendo com o vírus da imunodeficiência humana compartilham vias de transmissão.
Homem, 58 anos, com cirrose compensada por hepatite C, completou tratamento com antivirais de ação direta e apresenta carga viral indetectável doze semanas após o término. PA 126x78 mmHg, FC 74 bpm; sem ascite ou encefalopatia. Albumina 3,9 g/dL (VR 3,5–5,0); INR 1,1; plaquetas 98.000/mm³; elastografia com 16 kPa, compatível com cirrose estabelecida. Qual a conduta de seguimento indicada?
A resposta virológica sustentada indica cura da infecção pelo vírus C, mas o paciente cirrótico mantém risco de carcinoma hepatocelular e de complicações da hipertensão portal, exigindo vigilância semestral por imagem e seguimento das varizes conforme critérios. Dar alta definitiva ignora esse risco residual. Repetir o tratamento não faz sentido com carga viral indetectável. A biópsia anual é invasiva e desnecessária diante de métodos não invasivos. O betabloqueador é indicado conforme a presença de varizes ou de hipertensão portal clinicamente significativa, não para todos indiscriminadamente.
Homem, 55 anos, com anti-HCV reagente detectado em triagem e carga viral de 1,2 milhão de UI/mL, genótipo 1a. Assintomático, sem etilismo atual. PA 128x80 mmHg, FC 78 bpm. TGP 88 U/L (VR até 40); plaquetas 168.000/mm³; elastografia hepática com 8,2 kPa, compatível com fibrose significativa sem cirrose. Função renal normal. Sobre o tratamento, assinale a alternativa correta.
Os antivirais de ação direta estão indicados para praticamente todos os pacientes com hepatite C crônica, com respostas virológicas sustentadas superiores a 95%, incluindo este paciente com fibrose significativa e função renal preservada. Restringir o tratamento à cirrose descompensada contraria as recomendações atuais, que buscam evitar a progressão. O interferon peguilado com ribavirina foi abandonado como esquema de escolha, por menor eficácia e mais efeitos adversos. A resposta virológica sustentada representa cura da infecção, mas não confere imunidade protetora, sendo possível a reinfecção. A elastografia é método validado e substitui a biópsia na maioria dos casos.
Paciente com exposição sanguínea prévia apresenta anti-HCV reagente e RNA viral detectável em teste confirmatório. Qual diagnóstico melhor integra os resultados?
O RNA detectável demonstra que existe infecção atual pelo HCV. Anti-HCV demonstra contato; RNA do HCV detectável documenta infecção ativa e orienta avaliação para tratamento. Referência: https://www.niddk.nih.gov/health-information/liver-disease/viral-hepatitis/hepatitis-c
Anti-HCV de uma pessoa é positivo e a pesquisa de RNA do HCV permanece detectável. As aminotransferases estão discretamente alteradas. Qual diagnóstico melhor integra os resultados?
Enzimas pouco alteradas não afastam infecção ativa documentada por RNA. Anti-HCV demonstra contato; RNA do HCV detectável documenta infecção ativa e orienta avaliação para tratamento. Referência: https://www.niddk.nih.gov/health-information/liver-disease/viral-hepatitis/hepatitis-c
Adulto com crioglobulinemia apresenta anti-HCV positivo e RNA viral detectável. A investigação integra manifestação extra-hepática e infecção atual. Qual diagnóstico melhor integra os resultados?
O HCV ativo pode associar-se a manifestações imunológicas extra-hepáticas. Anti-HCV demonstra contato; RNA do HCV detectável documenta infecção ativa e orienta avaliação para tratamento. Referência: https://www.niddk.nih.gov/health-information/liver-disease/viral-hepatitis/hepatitis-c
Pessoa tratada por exposição de risco tem teste de anticorpo reagente e teste molecular positivo para HCV, sem tratamento prévio. Qual diagnóstico melhor integra os resultados?
A confirmação molecular identifica infecção ativa, não apenas memória sorológica. Anti-HCV demonstra contato; RNA do HCV detectável documenta infecção ativa e orienta avaliação para tratamento. Referência: https://www.niddk.nih.gov/health-information/liver-disease/viral-hepatitis/hepatitis-c
Um laboratório adota pesquisa automática de HCV-RNA quando o anti-HCV é reagente, utilizando amostra apropriada já coletada. Qual é a principal vantagem assistencial desse fluxo de testagem reflexa?
O fluxo evita depender de novo retorno apenas para solicitar o teste virológico. Sua finalidade é ampliar a conclusão diagnóstica e o vínculo ao cuidado, sem transformar o anticorpo em prova de infecção ativa. Referência: CDC. Clinical Screening and Diagnosis for Hepatitis C (2025). https://www.cdc.gov/hepatitis-c/hcp/diagnosis-testing/index.html
Antes de iniciar antivirais de ação direta contra HCV, a avaliação inclui marcadores de hepatite B. Qual risco específico justifica essa investigação e o planejamento do acompanhamento dos resultados relevantes?
A reativação do HBV foi descrita no contexto de tratamento com antivirais de ação direta para HCV. Os marcadores de hepatite B orientam avaliação e acompanhamento; a estratégia preventiva ou terapêutica depende do perfil e do risco. Referência: CDC. Clinical Care of Hepatitis C (2025). https://www.cdc.gov/hepatitis-c/hcp/clinical-care/index.html
Na avaliação de exposição recente ao vírus da hepatite C, um anti-HCV não reagente pode coexistir com infecção em atividade. Qual fundamento orienta a escolha de um teste virológico nessa situação?
A resposta sorológica pode demorar semanas. Diante de exposição recente ou suspeita relevante, a pesquisa de HCV-RNA pode identificar infecção antes da soroconversão; anti-HCV inicial negativo não a exclui. Referência: CDC. Clinical Screening and Diagnosis for Hepatitis C (2025). https://www.cdc.gov/hepatitis-c/hcp/diagnosis-testing/index.html
Na investigação de hepatite C, como interpretar anti-HCV reagente associado a HCV-RNA não detectável, em pessoa sem exposição recente suspeita e sem indício de problema com a amostra?
O anti-HCV pode persistir após eliminação viral ou ser biologicamente falso positivo. A ausência de RNA não sustenta infecção ativa naquele contexto; exposição recente, suspeita clínica ou questões pré-analíticas podem modificar a necessidade de repetir a avaliação. Referência: CDC. Clinical Screening and Diagnosis for Hepatitis C (2025). https://www.cdc.gov/hepatitis-c/hcp/diagnosis-testing/index.html
Uma pessoa previamente curada de hepatite C permanece exposta a risco de nova infecção. Qual estratégia laboratorial é adequada quando se investiga reinfecção, considerando que o anti-HCV pode permanecer reagente?
A cura não assegura imunidade contra reinfecção. Como o anti-HCV pode persistir, a avaliação de nova infecção deve incluir teste virológico, interpretado conforme o momento da exposição. Referência: CDC. Clinical Screening and Diagnosis for Hepatitis C (2025). https://www.cdc.gov/hepatitis-c/hcp/diagnosis-testing/index.html
No cuidado da pessoa com hepatite C, recomenda-se avaliar suscetibilidade e indicação de vacinas contra hepatites A e B. Qual é o objetivo dessa medida?
As vacinas têm alvos próprios e podem reduzir risco de hepatites adicionais. Elas não erradicam o HCV nem conferem proteção específica contra sua reinfecção; o tratamento antiviral e a prevenção de novas exposições continuam necessários. Referência: CDC. Clinical Care of Hepatitis C (2025). https://www.cdc.gov/hepatitis-c/hcp/clinical-care/index.html
Qual interpretação integra tratamento prévio e nova exposição?

Sorologia não distingue infecção curada de ativa; tempo e repetição de RNA podem ser relevantes.
Por que aconselhar prevenção de novas exposições após cura?

Cura não confere proteção completa contra nova infecção; prevenção permanece relevante.
Anti-HCV reagente após cura é possível?

Anticorpos podem persistir após eliminação viral.
Qual exame demonstra diretamente viremia?

Detecção de RNA identifica replicação viral circulante.
Se houve cirrose antes da cura, por que o seguimento hepático pode continuar?

Cura reduz risco, mas não elimina vigilância indicada pela doença avançada prévia.
Pessoa com diabetes em uso de insulina inicia tratamento para HCV. Sem mudar a dieta, apresenta glicemias progressivamente menores e episódio sintomático de hipoglicemia. Qual conduta é apropriada?
Pacientes em uso de antidiabéticos devem ser orientados sobre hipoglicemia e acompanhados durante a terapia para HCV. Referências: AASLD/IDSA. Monitoring HCV treatment — https://www.hcvguidelines.org/guidance/monitoring-patients-who-are-starting-hcv-treatment-are-on-treatment-or-have-completed-therapy/
Homem com hepatite C e cirrose Child-Pugh B, com ascite, será tratado com antivirais de ação direta. Qual classe exige ser evitada nos esquemas para essa condição?
A gravidade hepática e descompensação prévia interferem na segurança do esquema. Esses pacientes precisam de planejamento especializado. Referências: AASLD/IDSA. Persons with decompensated cirrhosis — https://www.hcvguidelines.org/guidance/patients-with-decompensated-cirrhosis/
Paciente prestes a iniciar antivirais para HCV informa que usa medicamentos prescritos e um produto natural para o humor, mas não trouxe o nome deste. Qual conduta é mais adequada?
A conciliação medicamentosa inclui prescritos, medicamentos sem receita e suplementos. Interações podem exigir troca do produto ou do esquema. Referências: AASLD/IDSA. Monitoring HCV treatment — https://www.hcvguidelines.org/guidance/monitoring-patients-who-are-starting-hcv-treatment-are-on-treatment-or-have-completed-therapy/
Homem usa varfarina com INR previamente estável e iniciará antivirais contra HCV. Qual plano de acompanhamento é adequado?
O monitoramento detecta alterações do efeito da varfarina, incluindo anticoagulação insuficiente. A dose deve ser guiada pela indicação clínica e pelo INR. Referências: AASLD/IDSA. Monitoring HCV treatment — https://www.hcvguidelines.org/guidance/monitoring-patients-who-are-starting-hcv-treatment-are-on-treatment-or-have-completed-therapy/
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Escreva de memória as três linhas da tabela de tratamento inicial, com o esquema, a posologia e a duração de cada uma, e diga qual delas é conjunção e qual é disjunção. Ao lado, escreva a fórmula do escore e, em seguida, calcule-o três vezes para o mesmo paciente — aminotransferase de aspartato 80, plaquetas 120 mil — usando limites de referência de 26, 40 e 50. Confira se algum dos três valores cai numa faixa que a tabela de interpretação não publica.
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Refaça a decisão de duração em dois cenários que se parecem e divergem. Primeiro: cirrótico que sangrou por varizes há um ano, hoje com bilirrubina 1,5 mg/dL, albumina 3,8 g/dL, razão normatizada internacional 1,2, sem ascite e sem encefalopatia — some o Child-Pugh, decida entre 12 e 24 semanas e escreva qual das duas definições de descompensação você usou e por quê. Segundo: o mesmo paciente, agora com ascite moderada e albumina 2,6 g/dL — refaça a soma e veja quantos pontos separam as duas condutas. Depois, liste as onze condições que obrigam a encaminhar o paciente com escore menor que 1 para a atenção especializada.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Um homem de 55 anos chega à consulta com um papel na mão: teste rápido para hepatite C reagente, feito numa campanha no sindicato. Está assintomático e diz que veio porque leu que hepatite C 'dá cirrose e não tem cura'. Traz um hemograma e um hepatograma de dois meses atrás. Conduza a consulta: explique o que aquele resultado significa e o que ele ainda não significa, decida o que pedir, e diga a ele, com o que já está na mesa, o que muda e o que não muda na vida dele até o próximo retorno. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
