Clínica MédicaGastroenterologia

Hepatite C crônica

Do anticorpo reagente à confirmação por RNA: estadiar fibrose, escolher o antiviral de ação direta e confirmar cura sem abandonar a vigilância de quem tem cirrose.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 45 anos, assintomático, comparece à UBS para check-up. Nega uso de álcool e medicamentos. Exames de rotina revelam elevação persistente de ALT e AST (cerca de 2x o normal). Sorologias: HBsAg negativo, anti-HCV positivo. Ao exame: IMC 24 kg/m², sem estigmas de hepatopatia. Qual a conduta mais adequada na APS?

02

Como esse tema cai

Este capítulo tem duas camadas. A de baixo é o algoritmo diagnóstico, e ele cabe em uma frase: o anticorpo diz que houve contato, só o material genético diz que há vírus. A de cima é a decisão terapêutica, e é aqui que a hepatite C se separa de todas as outras hepatites da apostila — porque ela é a única curável com comprimido, em doze semanas, e porque o Sistema Único de Saúde resolve a escolha do esquema com um único escore de três variáveis de laboratório, sem genótipo e sem biópsia. Quem estuda só a camada de baixo acerta a questão de conduta imediata e erra todas as de tratamento.

O que mudou e a prova ainda não terminou de absorver: o protocolo clínico em vigor é o anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39, de 20 de julho de 2026, que revogou expressamente a Portaria SCTIE/MS nº 84, de 2018. A edição de 2019, que sustentava a portaria revogada, continua sendo o arquivo servido pela página de publicações do portal do ministério. Material de estudo que descreva genotipagem obrigatória, biópsia para indicar tratamento ou esquema com interferona está descrevendo uma régua que saiu de circulação — e, em alguns pontos, o próprio texto de 2019 já não vale para responder.

Fica de fora, de propósito. A hepatite A e a síndrome da hepatite aguda pertencem ao capítulo vizinho desta mesma apostila, e a hepatite C aparece lá apenas como diferencial de icterícia aguda. Hepatite B e hepatite D têm capítulo próprio na apostila de Infectologia, e aqui a coinfecção entra somente onde ela muda a conduta do tratamento da hepatite C, que é no risco de reativação. Cirrose, ascite, peritonite bacteriana espontânea, encefalopatia, varizes e carcinoma hepatocelular pertencem ao capítulo de cirrose desta apostila; aqui o Child-Pugh entra apenas no tamanho em que decide a duração do antiviral. O painel do pré-natal é do capítulo de exames do pré-natal, a liberação da mama é do capítulo de aleitamento materno e a via de parto é do capítulo de cesariana — os três já resolvem a parte deles, e este capítulo remete a eles em vez de repetir.

O que fica: quem testar e com que frequência; o que pedir depois de um anticorpo reagente; como o escore substituiu o genótipo; a aritmética que faz esse escore errar; os três esquemas iniciais com dose, via e duração; o retratamento; o que checar antes de a primeira dose ser tomada; e o que continua depois da cura em quem já tinha fígado doente.

03

O que muda decisão

O anticorpo diz que houve; só o material genético diz que há

O anti-HCV é o anticorpo produzido em resposta à infecção. Ele aparece, em média, entre um e três meses depois da exposição e persiste por toda a vida, independentemente da cura. Essa única propriedade explica quase todo o comportamento do algoritmo: o anticorpo serve para rastrear, nunca para confirmar doença ativa, e nunca para confirmar cura. Diante de um anti-HCV reagente, o passo obrigatório é a pesquisa direta do vírus — quantificação do HCV-RNA ou, alternativamente, imunoensaio que detecte o antígeno do core do vírus.

Anticorpo reagente com material genético não detectável significa contato prévio: infecção passada, resolvida espontaneamente ou curada por tratamento anterior. Anticorpo não reagente, quando a suspeita clínica persiste, pede nova amostra em trinta dias, porque o intervalo entre a exposição e a soroconversão pode não ter fechado.

Duas simplificações do protocolo valem como resposta pronta. Teste rápido e imunoensaio laboratorial que detectam anti-HCV são equivalentes, e um teste rápido reagente não precisa de confirmação sorológica adicional — o que ele precisa é do teste molecular. A alternativa que manda repetir o anticorpo, no laboratório ou em seis meses, é sempre a errada, e é o distrator mais usado do tema. E o material genético é detectável no soro já entre a primeira e a segunda semana após a exposição, muito antes do anticorpo: por isso a suspeita de infecção aguda se investiga por teste molecular, não por sorologia.

Duas definições fecham a seção. Hepatite C crônica exige a associação de duas condições: anti-HCV reagente por mais de seis meses e HCV-RNA detectável por mais de seis meses. Hepatite C aguda tem dois critérios alternativos: o imunológico, que exige anti-HCV prévio comprovadamente negativo há menos de seis meses somado a anticorpo reagente no início das manifestações, no momento da exposição ou em segundo teste com noventa dias de intervalo; e o virológico, que é material genético detectável com anticorpo prévio documentado como não reagente.

Um detalhe do manual diagnóstico que reaparece em questão de pediatria: o teste rápido de anti-HCV detecta anticorpos totais e não se usa em menor de 18 meses, porque o anticorpo materno atravessa a placenta. Em imunossuprimido, o resultado não reagente também precisa ser lido com reserva.

Quem testar, e com que frequência

A régua brasileira virou universal. O protocolo em vigor recomenda que todas as pessoas a partir de 18 anos sejam testadas pelo menos uma vez na vida, com intensificação de busca ativa na faixa de 40 anos ou mais, pelo risco acumulado de exposição. O raciocínio declarado é de custo-efetividade: a prevalência estimada no Brasil é de 0,3%, acima do piso de 0,1% abaixo do qual a referência norte-americana de 2020 dispensa a triagem universal. Quem tem qualquer fator de risco, ou simplesmente deseja testar-se, testa — independentemente da idade.

Sobre a rotina periódica, três frequências diferentes convivem. Gestante: em cada gestação. Pessoa que mantém vulnerabilidade e tem anticorpo não reagente: anual. Usuário de profilaxia pré-exposição ao vírus da imunodeficiência humana: quadrimestral, seguindo o protocolo próprio da profilaxia.

E aqui está a regra que a prova mais gosta de esconder na segunda metade do enunciado: em quem já eliminou a infecção — espontaneamente ou por tratamento — o exame de acompanhamento não é o anticorpo, é o HCV-RNA. Repetir o anti-HCV em quem já curou devolve, previsivelmente, um resultado reagente que não informa nada. A infecção pelo vírus da hepatite C não confere imunidade, e reinfecção é um evento real.

A lista de condições de vulnerabilidade aumentada vale ser lida pelo que tem de contraintuitivo. Além do esperado — drogas injetáveis, inaladas ou pipadas, hemodiálise, pessoas privadas de liberdade, transfusão antes de 1992, procedimentos estéticos com penetração de pele —, ela inclui pessoas com diabete melito, pessoas com qualquer outra hepatopatia crônica e, sobretudo, pessoas com manifestações extra-hepáticas: úlcera de Mooren, tireoidopatia, fibrose pulmonar, síndrome de Sjögren, doença renal crônica, vasculite sistêmica, poliartrite inflamatória, trombocitopenia autoimune e disfunção neurocognitiva. Essa lista é o gancho de enunciado favorito da banca: o paciente chega por crioglobulinemia, por porfiria cutânea tardia ou por líquen plano, e a pergunta é qual sorologia pedir.

O perfil epidemiológico mudou e o protocolo diz isso com número. De 2000 a 2024 foram registrados 342.328 casos confirmados no sistema de notificação, e a taxa de detecção em 2024 foi de 9,1 casos por 100 mil habitantes. Em 2024, as infecções por via sexual foram o dobro das relacionadas ao uso de drogas e o quádruplo das transfusionais. A vinheta clássica do transfundido antes de 1993 não sumiu; a vinheta nova é sexual, e por isso pessoas vivendo com o vírus da imunodeficiência humana, pessoas trans, trabalhadoras do sexo e pessoas em situação de rua entraram na testagem no mínimo anual.

O escore que aposentou o genótipo

Todos os antivirais de ação direta hoje disponíveis são pangenotípicos — eficazes em todos os seis genótipos. A consequência normativa é categórica: não é necessário solicitar genotipagem do vírus para o tratamento inicial nem para o retratamento. Enunciado que informa o genótipo entrega um dado decorativo, e alternativa que exige genotipagem antes de tratar está errada em qualquer posição do algoritmo — não é 'depois do material genético', é nunca.

Mas o genótipo deixou uma dívida, e é ela que explica o desenho brasileiro. A nota técnica que organiza os esquemas na rede registra o motivo: o esquema de sofosbuvir com daclatasvir rende menos que o coformulado com velpatasvir no paciente cirrótico infectado pelo genótipo 3. Como o genótipo não vai mais ser pedido, alguém precisa identificar quem tem cirrose — e é esse alguém que o escore passou a ser. O corte laboratorial não é um refinamento acadêmico de estadiamento: é o substituto operacional do genótipo, e serve para não colocar o esquema mais fraco no paciente em que ele é mais fraco.

O escore escolhido é o APRI, a razão entre a aminotransferase de aspartato e a contagem de plaquetas, modelado especificamente para hepatite C. A fórmula publicada é: o valor da aminotransferase de aspartato dividido pelo limite superior de normalidade daquele mesmo exame, esse quociente dividido pela contagem de plaquetas expressa em 10⁹ por litro, e o resultado multiplicado por 100.

A justificativa numérica do corte está no texto e vale decorar porque ela aparece invertida em distrator. Para predizer cirrose, um APRI igual ou maior que 1 tem sensibilidade de 89% e especificidade de 75%. Considerando a prevalência de 23% de cirrose entre as pessoas com hepatite C crônica no Brasil, um APRI menor que 1 exclui cirrose corretamente em 91% das vezes. Ou seja: o corte foi escolhido pelo valor preditivo negativo, para excluir doença hepática avançada — não para diagnosticá-la. Quem lê o número de trás para frente e conclui que APRI maior ou igual a 1 confirma cirrose está usando uma especificidade de 75% como se fosse confirmatória.

O segundo escore não invasivo é o FIB-4, que multiplica a idade pela aminotransferase de aspartato e divide o produto pela contagem de plaquetas multiplicada pela raiz quadrada da aminotransferase de alanina. A elastografia entra depois, quando o escore inicial já sinalizou; a biópsia ficou reservada ao diagnóstico diferencial com outras hepatopatias, por indicação de especialista. Alternativa que exige biópsia para autorizar antiviral erra por duas razões somadas: o método foi substituído, e o tratamento independe do estágio de fibrose.

A aritmética do APRI: a conversão, o limite do laboratório e o que o FIB-4 não pede

Três variáveis, três armadilhas — e as três derrubam a mesma decisão, que é escolher entre dois esquemas.

A primeira é de unidade, e é a que morde num item só. A fórmula pede a contagem de plaquetas em 10⁹ por litro; o hemograma brasileiro entrega a contagem por milímetro cúbico. As duas notas técnicas do ministério trazem a instrução em parágrafo destacado: divide-se o resultado por mil, de modo que 150.000 plaquetas por milímetro cúbico equivalem a 150 na fórmula. Esse parágrafo não foi reproduzido no protocolo em vigor, que apenas escreve 'contagem de plaquetas (10⁹)' na fórmula. Quem aprender o escore só pelo protocolo tem boa chance de digitar 150.000 — e o efeito é aritmeticamente exato: o resultado sai mil vezes menor. Com aminotransferase de aspartato de 80, limite superior de 40 e 150 mil plaquetas, o valor certo é 1,33; sem converter, sai 0,0013. O erro tem direção única: sempre abaixo de 1, sempre para o esquema de quem não tem cirrose, e nunca avisa, porque o número que sai continua parecendo um escore plausível.

A segunda é que o denominador do numerador é do laboratório, não do paciente: o escore usa o limite superior de normalidade da aminotransferase de aspartato daquele serviço, e esse limite varia. Tome um paciente com aminotransferase de aspartato de 80 e 120 mil plaquetas. Com limite superior de 40, o escore é 1,67; com 50, cai para 1,33; com 26, sobe para 2,56. São três valores do mesmo sangue, e caem em três lugares diferentes do quadro de interpretação — inclusive num lugar que o quadro não tem. A leitura prática é cobrável: o escore só significa alguma coisa junto com o limite de referência que o gerou, e vinheta que informa a enzima sem informar o valor de referência não permite calcular.

A terceira é a diferença estrutural entre os dois escores, que passa despercebida porque eles aparecem lado a lado na mesma tabela. O FIB-4 não usa limite superior de normalidade — usa os valores brutos das duas aminotransferases, e por isso não sofre com a variação entre laboratórios. Em compensação, usa a idade como multiplicador direto, e o APRI não. Com exames idênticos — aminotransferase de aspartato 80, de alanina 60, 120 mil plaquetas —, o paciente de 35 anos tem FIB-4 de 3,01 e o de 60 anos, de 5,16: o primeiro fica na zona indeterminada, o segundo cruza o corte de alta probabilidade de fibrose avançada.

O quadro de interpretação e a faixa que não tem linha

O quadro que correlaciona os escores com a escala Metavir publica, para o APRI, três colunas: menor que 1,0, de 1,0 a 1,49 e igual ou maior que 2,0. Lidas em sequência, elas deixam um vão: de 1,50 a 1,99 não existe coluna. Um paciente com escore de 1,67 — exatamente o do exemplo da seção anterior, com limite superior de 40 — não é 'baixa probabilidade de cirrose', não está na zona cinzenta declarada e não é 'alta probabilidade de cirrose'. Ele simplesmente não tem linha.

O contraste dentro da mesma tabela é o que torna o achado útil: as faixas do FIB-4, logo abaixo, são menor que 1,45, de 1,45 a 3,24 e igual ou maior que 3,25 — contíguas, sem vão. O mesmo quadro, elaborado ao mesmo tempo, constrói um escore sem buraco e outro com buraco.

Duas réguas numéricas. Na de cima, APRI com blocos menor que 1,0, de 1,0 a 1,49 e igual ou maior que 2,0, com o trecho de 1,50 a 1,99 vazio e um marcador em 1,67 dentro do vão, além de uma seta no corte de 1,0. Na de baixo, FIB-4 com blocos contíguos menor que 1,45, de 1,45 a 3,24 e igual ou maior que 3,25.
O quadro deixa a faixa de 1,50 a 1,99 sem coluna: um APRI de 1,67 não tem linha na tabela, mas tem conduta — quem decide é o corte binário em 1,0. O FIB-4, no mesmo quadro, não tem vão nenhum.

A edição de 2019 explica de onde veio o vão. Lá, o mesmo quadro trazia três blocos, não dois: um APRI para avaliação de fibrose avançada, com faixas de menor que 0,5, de 0,5 a 1,49 e igual ou maior que 1,5; um APRI para avaliação de cirrose, com as mesmas três colunas de hoje; e o FIB-4. O primeiro bloco cobria a região de 1,50 a 1,99 — quem tivesse 1,67 lia 'alta probabilidade de fibrose F3 ou F4' na tabela de fibrose avançada. A edição atual manteve apenas o bloco de cirrose. O buraco não é novo; o que é novo é que agora não há nada por baixo dele.

O que salva na prática — e o que a prova cobra — é que a decisão terapêutica não usa o quadro de três colunas, e sim um corte binário em 1,0. O texto diz duas coisas de forma inequívoca: o ponto de corte para excluir doença hepática avançada é APRI menor que 1, e todo paciente com APRI igual ou maior que 1 precisa de avaliação não invasiva adicional — ultrassonografia de abdome e elastografia. O paciente de 1,67, portanto, tem conduta clara mesmo sem linha na tabela. A coluna de 'igual ou maior que 2,0' não decide esquema nenhum; é descritiva.

Vale guardar também os cortes que definem fibrose avançada por imagem, porque eles aparecem em vinheta com valor numérico: 10 kPa ou mais na elastografia transitória, 9 kPa ou mais na elastografia por ultrassom e 4 kPa ou mais na elastografia por ressonância magnética. Números diferentes de 12,5 kPa ou 12 kPa circulam na literatura e em material de cursinho, mas não são os do protocolo brasileiro.

Os três esquemas iniciais — e quem trata na atenção primária

A indicação é universal: toda pessoa com infecção aguda ou crônica tem indicação de tratamento, sem piso de fibrose, sem piso de carga viral e sem esperar a cronificação — a infecção aguda é tratada assim que confirmada. As duas exceções operacionais são gestação, em que o tratamento é contraindicado, e expectativa de vida menor que doze meses, em que a decisão migra para centro de referência.

A escolha do esquema depende de um escore e um evento: o APRI e a presença ou não de descompensação hepática. São três linhas. Primeira: APRI menor que 1 e sem cirrose — sofosbuvir 400 mg (um comprimido) mais daclatasvir 60 mg (um comprimido), tomados juntos, uma vez ao dia, por 12 semanas. Não existe apresentação coformulada dos dois; são dois comprimidos, e o paciente precisa ser orientado a tomá-los no mesmo horário. Segunda: APRI igual ou maior que 1, ou cirrose compensada (Child A) — sofosbuvir 400 mg com velpatasvir 100 mg em comprimido coformulado, um comprimido uma vez ao dia, por 12 semanas. Terceira: cirrose descompensada (Child B ou C) — o mesmo coformulado, um comprimido ao dia, por 24 semanas.

Repare que a primeira linha é uma conjunção (escore baixo e sem cirrose) e a segunda, uma disjunção (escore alto ou cirrose compensada). O par está construído corretamente: quem não cumpre as duas condições da primeira linha cai necessariamente na segunda ou na terceira, e não sobra paciente entre elas.

Um medicamento na lista não tem linha em nenhuma das tabelas de esquema. O quadro de medicamentos disponíveis inclui glecaprevir 100 mg com pibrentasvir 40 mg, três comprimidos uma vez ao dia — e ele não aparece como esquema recomendado no tratamento inicial nem no retratamento, surgindo apenas na descrição de quem já falhou a múltiplos esquemas. A explicação é econômica e está escrita: a oferta é organizada por custo-minimização, porque a eficácia dos esquemas é comparável, e o ministério informa por nota técnica específica quais tecnologias estão na rede.

Sobre onde tratar: quem tem APRI menor que 1 e nenhuma das condições de encaminhamento pode ser tratado e acompanhado por médico da atenção primária. A lista que obriga a subir para a atenção especializada tem onze itens e vale memorizar em blocos: coinfecção com o vírus da imunodeficiência humana; coinfecção com o vírus da hepatite B; gestação; idade menor que 18 anos; insuficiência renal crônica com depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min/1,73 m²; uso de quimioterapia; transplante; hepatocarcinoma ou outra neoplasia; uso de anticonvulsivante de primeira geração — carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína, fenobarbital — ou de amiodarona; manifestação extra-hepática grave, como vasculite sistêmica e glomerulopatia; e falha a tratamento prévio com antiviral de ação direta.

Na pediatria, o corte é de peso e idade, não de escore. A partir de 12 anos ou 30 kg, valem os comprimidos e os esquemas do adulto. Entre 3 e 11 anos, com peso de 17 a 29,99 kg, o esquema é sofosbuvir 200 mg com velpatasvir 50 mg em granulado, um sachê ao dia por 12 semanas, engolido inteiro e sem mastigar. Abaixo de 3 anos não se trata: acompanha-se em serviço de referência.

Retratamento: três linhas, dois desfechos

Retratamento é o que se faz em quem não obteve resposta virológica sustentada ao esquema anterior com antiviral de ação direta. Também é pangenotípico, também dispensa genotipagem, e a regra geral é combinar três classes distintas de antiviral em vez de duas.

O quadro publica três linhas. Escore menor que 1 ou sem cirrose: sofosbuvir com velpatasvir e voxilaprevir, um comprimido ao dia, 12 semanas. Escore igual ou maior que 1 ou cirrose compensada Child A: o mesmo esquema, a mesma duração. Cirrose descompensada Child B ou C: sofosbuvir com velpatasvir, um comprimido ao dia, 24 semanas.

Duas observações fecham o item. A primeira é de lógica: ao contrário do quadro de tratamento inicial, aqui a primeira linha também é uma disjunção — 'escore menor que 1 ou sem cirrose' — e por isso ela se sobrepõe à segunda. Um paciente com escore 3 e sem cirrose satisfaz as duas. Isso não gera conflito porque as duas linhas prescrevem exatamente a mesma coisa: das três linhas saem só dois desfechos, e a estratificação pelo escore, no retratamento, não muda conduta nenhuma. A pergunta que decide é uma só — há descompensação?

A segunda é o motivo clínico dessa única bifurcação: na cirrose descompensada evitam-se os inibidores de protease, que são o glecaprevir e o voxilaprevir. Por isso o Child B ou C sai do esquema triplo e volta ao duplo, com o dobro do tempo. Paciente com histórico de múltiplas falhas pode ter o tratamento estendido para 24 semanas.

E há uma distinção que a banca adora: reinfecção não é falha. Material genético detectável depois de uma resposta virológica sustentada documentada caracteriza reinfecção, e essa pessoa é tratada de novo com o esquema inicial, como se nunca tivesse sido tratada — não com o esquema de retratamento.

Child-Pugh: cinco parâmetros e duas definições de descompensação

O escore soma cinco fatores e varia de 5 a 15. De 5 a 6 é Child A; de 7 a 9, Child B; acima de 9, Child C. O protocolo estabelece que descompensação hepática é indicada por escore igual ou maior que 7, ou seja, Child B ou C — e é esse limiar que separa 12 de 24 semanas de antiviral.

As faixas publicadas são: bilirrubina sérica menor que 2,0, de 2,0 a 3,0 e maior que 3,0 mg/dL; albumina maior que 3,5, de 2,8 a 3,5 e menor que 2,8 g/dL; ascite ausente, leve e moderada; encefalopatia ausente, leve e moderada; e, na linha da coagulação, tempo de protrombina em segundos acima do controle de 0 a 4, de 4 a 6 e maior que 6, ou razão normatizada internacional menor que 1,7, de 1,7 a 2,3 e maior que 2,3.

Duas observações sobre a última linha. A primeira é aritmética: as faixas em segundos '0 a 4' e '4 a 6' compartilham o valor 4, de modo que um tempo de protrombina exatamente 4 segundos acima do controle pontua 1 ou 2 conforme quem lê — e um ponto, entre 6 e 7, é justamente o que decide a duração. A alternativa da mesma linha, a razão normatizada internacional, é contígua. A segunda é histórica: a linha em segundos não constava da versão do escore publicada na nota técnica de esquemas terapêuticos, que trazia só a razão normatizada internacional. A ambiguidade entrou junto com a linha nova.

Vale registrar também que as colunas de ascite e de encefalopatia param em 'moderada': ascite tensa ou refratária e encefalopatia de grau avançado não têm rótulo próprio na tabela publicada, embora pontuem 3.

Mas o problema que muda conduta é outro, e ele está a uma página de distância dentro do mesmo protocolo. Numa passagem, os eventos que definem descompensação em quem tinha cirrose compensada são ascite, encefalopatia de grau West Haven igual ou maior que II e sangramento por varizes gastroesofágicas. Na passagem seguinte, descompensação é escore igual ou maior que 7. Considere o paciente que sangrou por varizes há um ano, hoje sem ascite, sem encefalopatia, com bilirrubina 1,5 mg/dL, albumina 3,8 g/dL e razão normatizada internacional 1,2: cada um dos cinco itens pontua 1, o escore é 5, e ele é Child A. Pelo critério do evento, é um cirrótico descompensado; pelo critério do escore, não é.

Quem decide, na hora de prescrever, é a tabela de esquemas — e ela é escrita em Child, não em evento: a linha das 24 semanas diz 'cirrose descompensada (Child B ou C)'. Esse paciente recebe 12 semanas do coformulado, pela linha do Child A. Reconhecer que existem duas definições e saber qual delas a tabela usa é o que separa a resposta certa da armadilha nesse tipo de vinheta.

Antes de começar: hepatite B, vacinas e as interações que impedem

Toda pessoa com infecção confirmada pelo vírus da hepatite C deve ser testada para o vírus da imunodeficiência humana, hepatite A, hepatite B e sífilis. O motivo de a hepatite B ter tratamento à parte neste capítulo é o risco de reativação do vírus da hepatite B durante o tratamento da hepatite C — o vírus C suprimia o B, e ao ser eliminado deixa espaço.

A conduta se bifurca pelo antígeno de superfície, e a diferença entre os dois braços é o que costuma ser cobrado. Se o antígeno de superfície é reagente e a pessoa não preenche critério de tratamento da hepatite B pelo protocolo próprio, faz-se tratamento profilático contra a reativação durante todo o tratamento antiviral, mantido até 12 semanas após o término — ou seja, até a coleta da carga viral que vai avaliar a cura. Se o antígeno de superfície é não reagente com anticorpo contra o core reagente, não se faz profilaxia: monitora-se a aminotransferase de alanina mensalmente durante o uso dos antivirais, e a hepatite B é tratada prontamente se a reativação ocorrer. Alternativa que oferece apenas monitorização ao paciente com antígeno de superfície reagente descreve o braço errado.

Vacinação entra aqui como conduta ativa. Quem tem infecção crônica pelo vírus da hepatite C e sorologia negativa para o anticorpo contra o vírus da hepatite A recebe duas doses, com intervalo de seis meses — e não a dose única do calendário infantil. Quem é suscetível à hepatite B recebe três doses, aos 0, 1 e 6 meses, com dose dobrada a considerar no imunossuprimido e no hepatopata avançado. A coinfecção pelo vírus da hepatite A em quem tem hepatite C associa-se a maior risco de descompensação e de forma fulminante, e é isso que justifica vacinar antes de a fibrose avançar. Exposição recente em suscetível pede vacina em até 14 dias.

As interações medicamentosas dividem-se em três grupos. Impeditivas para todos os antivirais: rifampicina, rifabutina, rifapentina, carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína e fenobarbital. Impeditivas para os inibidores de protease, que são glecaprevir e voxilaprevir: estatinas e medicamentos contendo etinilestradiol, incluindo contraceptivos hormonais combinados — mas os fibratos podem ser usados com todos. De risco grave e a substituir sempre que possível: a amiodarona, pelo risco de arritmia.

Na coinfecção com o vírus da imunodeficiência humana há duas armadilhas específicas. Primeira: nenhum dos esquemas pode ser usado com inibidores da transcriptase reversa não análogos de nucleosídeo — efavirenz, nevirapina, etravirina —, que reduzem muito a concentração dos antivirais; a terapia antirretroviral precisa ser revista, preferencialmente para um esquema com dolutegravir. Segunda: velpatasvir com fumarato de tenofovir desoproxila potencializa a nefrotoxicidade do tenofovir, e a combinação deve ser evitada com filtração glomerular abaixo de 60 mL/min. Já a doença renal crônica em si, incluindo hemodiálise, não exige ajuste de dose nem mudança de esquema.

Depois: a cura, a vigilância que não acaba, a gestante e a criança exposta

O desfecho é a resposta virológica sustentada: carga viral não detectável a partir de 12 semanas após o término do tratamento. Quem a atinge está curado daquela infecção, e a taxa é superior a 95%. Duas consequências práticas: não se pede carga viral durante o tratamento, porque ela não muda conduta; e, confirmada a cura, não se repetem testes diagnósticos, exceto sob suspeita de reinfecção.

Interrupção de tratamento tem fluxograma próprio, construído por janelas contíguas — vale como contraponto ao quadro de escore da seção anterior. Até 7 dias, em qualquer momento: retomar e completar o tempo previsto. Mais de 7 dias antes de completar o primeiro mês: retomar e colher carga viral imediatamente; detectável — ou exame impossível — manda completar o tempo restante acrescido de mais 4 semanas. De 8 a 20 dias depois de completado ao menos um mês: retomar e colher carga viral no reinício; detectável vira falha terapêutica e vai para retratamento. 21 dias ou mais, com ao menos um mês completado: não se retoma — colhe-se carga viral a partir de 12 semanas da suspensão para avaliar cura.

A cura não encerra o acompanhamento de quem já tinha fígado doente. Pessoas com fibrose F3 ou F4 não recebem alta e mantêm vigilância de carcinoma hepatocelular a cada seis meses, com ultrassonografia de abdome superior complementada por alfafetoproteína, por tempo indefinido. A cura reduz, mas não elimina, o risco — sobretudo em quem tem diabete, síndrome metabólica ou consumo abusivo de álcool.

Para as varizes, a endoscopia se repete se elas já haviam sido diagnosticadas antes do tratamento, ou se houver queda das plaquetas abaixo de 150 mil somada a elastografia acima de 20 kPa; e quem, sem cofatores, chega a elastografia abaixo de 12 kPa com plaquetas acima de 150 mil pode ser considerado sem hipertensão portal. Fica sem regra a faixa intermediária — rigidez entre 12 e 20 kPa com plaquetas normais —, e vale notar que, nesses dois parágrafos, a contagem de plaquetas aparece grafada por mililitro, quando a unidade do hemograma é por milímetro cúbico.

Quem pode receber alta é o paciente sem fibrose avançada, sem fator de risco de reinfecção e sem cofator de agravamento hepático. E aqui o protocolo se contradiz num único número: um parágrafo define fibrose não significativa como F0 a F2, ou o equivalente de APRI menor que 1 e FIB-4 menor que 1,45; o parágrafo seguinte, na mesma seção, define fibrose leve como Metavir menor que 2, APRI menor que 1 ou FIB-4 menor que 1,3. Um paciente de 46 anos com aminotransferase de aspartato 30, de alanina 25 e 200 mil plaquetas tem FIB-4 de exatamente 1,38: abaixo de 1,45 e acima de 1,3. Pelo primeiro parágrafo recebe alta; pelo segundo, não se enquadra em fibrose leve. O corte de 1,3 não aparece em nenhum quadro do documento.

Gestação e puerpério fecham a régua. O tratamento é contraindicado na gestação, por ausência de estudos de segurança em larga escala, e por isso a orientação é tratar a mulher em idade fértil antes de engravidar. A gestante diagnosticada é notificada e encaminhada ao pré-natal de risco. O risco de transmissão vertical é de 3% a 5%, subindo para cerca de 19% na coinfecção com o vírus da imunodeficiência humana; a cesariana não reduz esse risco. O aleitamento não está contraindicado — a decisão fina sobre fissura mamária pertence ao capítulo de aleitamento —, mas os antivirais não são recomendados durante a amamentação, de modo que a regra é aguardar o desmame.

A criança nascida de mãe com hepatite C é acompanhada como exposta. Faz-se teste molecular entre 3 e 6 meses de vida e a investigação se repete aos 18 meses com sorologia. Anticorpo não reagente aos 18 meses descarta a infecção; anticorpo reagente pede nova carga viral, e carga viral detectável obriga a repetir o exame após seis meses para caracterizar cronicidade. A ordem importa: molecular primeiro, sorologia depois — o inverso do adulto, e pela mesma razão que impede o teste rápido antes dos 18 meses.

04

Um escore, um evento e três esquemas

Três perguntas resolvem quase todo enunciado de tratamento: o vírus está ativo, qual é o escore laboratorial e há descompensação. O restante — genótipo, carga viral, biópsia, transaminase — é cenário.

  1. 11. Anti-HCV reagente por teste rápido ou imunoensaio. Não repetir o anticorpo, não confirmar com outra sorologia: pedir HCV-RNA (ou antígeno do core).
  2. 22. Carga viral não detectável significa contato prévio ou infecção curada. Carga viral detectável significa infecção ativa, e toda infecção ativa tem indicação de tratamento — aguda ou crônica, com ou sem fibrose.
  3. 33. Calcular o APRI. Aminotransferase de aspartato dividida pelo limite superior daquele laboratório, dividida pela contagem de plaquetas em 10⁹ por litro, vezes 100. Converter a contagem dividindo por mil.
  4. 44. Escore menor que 1 e sem cirrose: sofosbuvir 400 mg mais daclatasvir 60 mg, um comprimido de cada, juntos, uma vez ao dia, por 12 semanas — e pode ser conduzido na atenção primária, se nenhuma das onze condições de encaminhamento estiver presente.
  5. 55. Escore igual ou maior que 1: avaliação não invasiva adicional (ultrassonografia e elastografia) e Child-Pugh. Sem descompensação, ou seja, Child A: sofosbuvir com velpatasvir coformulado, um comprimido ao dia, por 12 semanas.
  6. 66. Child B ou C: mesmo coformulado, um comprimido ao dia, por 24 semanas. Evitar inibidor de protease.
  7. 77. Antes da primeira dose: testar para o vírus da imunodeficiência humana, hepatite A, hepatite B e sífilis; decidir profilaxia ou monitorização mensal de aminotransferase de alanina conforme o antígeno de superfície; vacinar suscetíveis; revisar interações.
  8. 88. Carga viral a partir de 12 semanas do fim. Não detectável é cura. Fibrose F3 ou F4 mantém ultrassonografia semestral por tempo indefinido; falha vai para o esquema triplo; reinfecção volta ao esquema inicial.

Comece pelo material genético, não pelo anticorpo

Anti-HCV reagente é ponto de partida, não diagnóstico. Ele permanece reagente após a cura, espontânea ou por tratamento. Enquanto não houver carga viral detectável, não há infecção ativa e não há o que tratar. E, em quem já curou, o exame de seguimento é a carga viral — repetir o anticorpo devolve um reagente previsível e inútil.

O escore é o substituto do genótipo, não um refinamento

A genotipagem foi aposentada porque todos os esquemas são pangenotípicos. Mas o esquema de dois comprimidos rende menos no cirrótico com genótipo 3, e por isso alguém precisa identificar quem tem cirrose. O corte em 1,0 faz exatamente esse trabalho: separa quem pode receber o esquema mais simples de quem precisa do coformulado.

Converta a contagem de plaquetas antes de dividir

A fórmula pede a contagem em 10⁹ por litro; o hemograma entrega por milímetro cúbico. Divide-se por mil: 150.000 por milímetro cúbico viram 150 na conta. Sem a conversão o resultado sai mil vezes menor e sempre abaixo de 1, empurrando todo mundo para o esquema de quem não tem cirrose.

A decisão é binária em 1,0; o quadro de três colunas é descritivo

O quadro de interpretação tem um vão entre 1,50 e 1,99, herdado da edição anterior, que tinha um bloco a mais. Não importa para a conduta: o texto manda tratar como doença avançada todo escore igual ou maior que 1 e submetê-lo a avaliação não invasiva adicional. Escore 1,67 não tem linha na tabela e tem conduta.

Descompensação, para escolher a duração, é Child B ou C

O protocolo carrega duas definições: uma por evento (ascite, encefalopatia de grau II ou mais, sangramento por varizes) e uma por escore (7 ou mais). A tabela de esquemas é escrita em Child, então é o escore que decide entre 12 e 24 semanas. O cirrótico que sangrou e hoje soma 5 pontos recebe 12.

Tratamento inicial ou reinfecção, a partir de 12 anos ou 30 kg

EstadiamentoEsquemaPosologiaDuração
APRI menor que 1 E sem cirroseSofosbuvir + daclatasvirSofosbuvir 400 mg (1 comprimido) + daclatasvir 60 mg (1 comprimido), juntos, 1x/dia12 semanas
APRI igual ou maior que 1 OU cirrose compensada (Child A)Sofosbuvir/velpatasvirSofosbuvir 400 mg/velpatasvir 100 mg coformulado, 1 comprimido 1x/dia12 semanas
Cirrose descompensada (Child B ou C)Sofosbuvir/velpatasvir1 comprimido 1x/dia24 semanas
Criança de 3 a 11 anos, 17 a 29,99 kgSofosbuvir/velpatasvir granuladoSofosbuvir 200 mg/velpatasvir 50 mg, 1 sachê 1x/dia12 semanas

Retratamento após falha a antiviral de ação direta

EstadiamentoEsquemaDuraçãoObservação
APRI menor que 1 OU sem cirroseSofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir12 semanasSó em maiores de 18 anos
APRI igual ou maior que 1 OU cirrose compensada (Child A)Sofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir12 semanasMesma conduta da linha acima — a estratificação pelo escore não muda o esquema
Cirrose descompensada (Child B ou C)Sofosbuvir/velpatasvir24 semanasInibidor de protease evitado
Múltiplas falhas préviasEsquema triploPode ser estendido a 24 semanasReinfecção não é falha: volta ao esquema inicial

Como o quadro de interpretação publica os dois escores

EscoreFaixa baixaZona indeterminadaFaixa altaCobertura
APRI (cirrose), edição atualMenor que 1,0De 1,0 a 1,49Igual ou maior que 2,0Sem coluna para 1,50 a 1,99
APRI (fibrose avançada), só na edição de 2019Menor que 0,5De 0,5 a 1,49Igual ou maior que 1,5Contígua — era este bloco que cobria o vão
FIB-4Menor que 1,45De 1,45 a 3,24Igual ou maior que 3,25Contígua

O mesmo sangue em três laboratórios (aminotransferase de aspartato 80, plaquetas 120 mil)

Limite superior de referência do laboratórioAPRI calculadoOnde cai no quadroEsquema inicial
50 U/L1,33Zona indeterminadaSofosbuvir/velpatasvir, 12 semanas
40 U/L1,67Sem coluna publicadaSofosbuvir/velpatasvir, 12 semanas
26 U/L2,56Alta probabilidade de cirroseSofosbuvir/velpatasvir, 12 semanas

Child-Pugh como o protocolo publica

Parâmetro1 ponto2 pontos3 pontos
Bilirrubina sérica (mg/dL)Menor que 2,0De 2,0 a 3,0Maior que 3,0
Albumina sérica (g/dL)Maior que 3,5De 2,8 a 3,5Menor que 2,8
AsciteAusenteLeveModerada
EncefalopatiaAusenteLeveModerada
Tempo de protrombina (segundos acima do controle)0 a 44 a 6Maior que 6
Razão normatizada internacionalMenor que 1,7De 1,7 a 2,3Maior que 2,3

O escore mínimo do Child-Pugh é 5 e o máximo, 15, porque são cinco itens que valem de 1 a 3 e nenhum deles pode valer zero. Child A é 5 ou 6; Child B, de 7 a 9; Child C, acima de 9. Vinheta que descreve um cirrótico e some com um dos cinco itens não permite fechar a classe — e a classe é o que decide entre 12 e 24 semanas.

As duas faixas em segundos da linha da coagulação compartilham o valor 4, então um tempo de protrombina exatamente 4 segundos acima do controle pontua 1 ou 2 conforme quem lê. A alternativa da mesma linha, a razão normatizada internacional, não tem essa sobreposição — e é a que a nota técnica de esquemas terapêuticos publicava sozinha.

O corte de fibrose avançada por imagem é 10 kPa na elastografia transitória, 9 kPa na elastografia por ultrassom e 4 kPa na elastografia por ressonância magnética. Os valores de 12 kPa e 20 kPa aparecem em outro contexto: a decisão de repetir endoscopia depois da cura, e não o estadiamento inicial.

Aminotransferase normal não afasta hepatite C crônica ativa — é achado comum no assintomático. Enunciado que oferece transaminase normal como argumento para dispensar a carga viral está construindo o distrator.

Doença renal crônica, inclusive em hemodiálise, não muda esquema nem dose. O que muda é a rota: depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min/1,73 m² manda para a atenção especializada, e velpatasvir com fumarato de tenofovir desoproxila deve ser evitado se a filtração estiver abaixo de 60 mL/min.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Esquema e duração no adulto sem cirrose

Dois comprimidos, 12 semanas, escolha por custo-minimização

Escore APRI menor que 1 e sem cirrose: sofosbuvir mais daclatasvir, 1 comprimido de cada, uma vez ao dia, por 12 semanas.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39, de 20 de julho de 2026, Quadro 13.

Três opções, entre elas um esquema de 8 semanas

Para adultos sem cirrose, podem ser usados: sofosbuvir/velpatasvir por 12 semanas, sofosbuvir/daclatasvir por 12 semanas e glecaprevir/pibrentasvir por 8 semanas.

World Health Organization. Guidelines for the Care and Treatment of Persons Diagnosed with Chronic Hepatitis C Virus Infection. Geneva, 2018.

Na prova

Prova brasileira segue o protocolo nacional: sem cirrose e escore baixo, a resposta é o par de comprimidos por 12 semanas. O esquema de 8 semanas costuma entrar como distrator sofisticado, e ele existe de verdade — só não é o do Sistema Único de Saúde. Se o enunciado invocar explicitamente a referência internacional ou falar em contexto fora do Brasil, a leitura muda; se citar o ministério ou o Sistema Único de Saúde, não muda. A pista mais confiável é a menção ao escore laboratorial: ela só existe na régua brasileira.

Quem pode ser tratado na atenção primária

Duas condições: escore baixo e ausência das comorbidades listadas

Caso a pessoa apresente baixo risco de cirrose (escore APRI menor que 1) e não possua as comorbidades graves relatadas, poderá ser tratada e acompanhada pelos médicos da atenção primária.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 10.4.

Quatro condições: acrescenta piso de plaquetas e ultrassonografia

O tratamento inicial com sofosbuvir e daclatasvir aplica-se a quem tem escore APRI menor que 1, sem histórico de tratamento prévio com antivirais de ação direta, plaquetas acima de 150.000 e ausência de nódulos hepáticos ou sinais de esplenomegalia à ultrassonografia.

Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 5/2025-CGHV/.DATHI/SVSA/MS, item 2.2.1.

Na prova

O protocolo é o documento de hierarquia superior e é o que a banca cita; a nota técnica é o que a rede aplica. Enunciado que dá escore baixo e plaquetas baixas está montado sobre essa diferença. Regra prática: se a vinheta trouxer plaquetopenia, esplenomegalia ou nódulo hepático, trate o caso como candidato a serviço especializado mesmo com escore menor que 1 — porque os três achados sugerem doença avançada que o escore não capturou.

Alta do acompanhamento depois da cura em quem tinha fibrose mínima

Alta possível para o paciente de baixo risco

Pacientes sem fibrose avançada, sem fatores de risco relevantes para reinfecção e sem fatores de risco concomitantes para agravamento da hepatopatia podem receber alta do acompanhamento após a cura.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 15.

Imagem para todos, inclusive escore baixo

Todas as pessoas tratadas, mesmo aquelas com APRI menor que 1 antes do tratamento, têm indicação de realizar exames de imagem, como elastografia ou ultrassonografia, para avaliar o grau de fibrose hepática após o início do tratamento.

Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 5/2025-CGHV/.DATHI/SVSA/MS, item 2.8.

Na prova

Os dois documentos são do mesmo ministério e nenhum revogou o outro nesse ponto. A resposta segura para o cirrótico é sempre a mesma nos dois — vigilância semestral por tempo indefinido. A divergência só se manifesta no extremo oposto: o paciente sem fibrose e sem cofator. Aí o enunciado precisa dizer qual documento adota; se não disser, prefira a alternativa que mantém alguma avaliação de imagem, porque ela não contraria nenhum dos dois.

O corte de FIB-4 que define fibrose leve depois da cura

FIB-4 menor que 1,45, e com conjunção

A alta após a resposta virológica sustentada pode ser programada para pacientes sem fibrose significativa (F0 a F2, ou seu equivalente em APRI menor que 1 e FIB-4 menor que 1,45).

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 15, primeiro parágrafo.

FIB-4 menor que 1,3, e com disjunção

Pacientes com resposta virológica sustentada sem fibrose ou com fibrose hepática leve (Metavir menor que 2, APRI menor que 1 ou FIB-4 menor que 1,3) devem manter o controle clínico caso apresentem fatores de risco de evolução da hepatopatia.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 15, penúltimo parágrafo.

Na prova

As duas frases estão na mesma seção do mesmo protocolo, separadas por menos de uma página, e a diferença aparece numa faixa estreitíssima: entre 1,30 e 1,45. Nenhuma banca vai construir a questão inteira sobre isso, mas vale reconhecer o número quando ele aparecer: o valor com respaldo de tabela é 1,45, que é o corte publicado no quadro de interpretação dos escores. O 1,3 não tem tabela por trás.

O que caracteriza cirrose descompensada

Definição por evento clínico

Os eventos que definem descompensação em um paciente com cirrose compensada são a presença de ascite, encefalopatia hepática de grau West Haven igual ou maior que II e sangramento por varizes gastroesofágicas.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 10.3.2, parágrafo sobre cirrose compensada.

Definição por escore

A descompensação hepática é indicada por um escore de Child-Pugh maior ou igual a 7 (Child B ou C).

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 39/2026, seção 10.3.2, parágrafo sobre Child-Pugh.

Na prova

Quando as duas definições apontarem para lados diferentes — o caso típico é o cirrótico com sangramento varicoso prévio e laboratório preservado —, decida pela tabela de esquemas, que é escrita em Child. Ela manda 24 semanas apenas para Child B ou C. O evento clínico importa para o prognóstico e para a linha de cuidado, não para a duração do antiviral.

06

Caso resolvido

Homem de 58 anos, pedreiro, comparece à unidade básica de saúde com resultado de campanha de testagem: teste rápido para hepatite C reagente. Assintomático. Recebeu transfusão após acidente de trabalho em 1989 e nega uso de drogas injetáveis, etilismo relevante ou tratamento prévio para hepatite. Ao exame: bom estado geral, anictérico, índice de massa corporal 26 kg/m², fígado e baço não palpáveis, sem circulação colateral. Traz exames colhidos na semana anterior: aminotransferase de aspartato 78 U/L (valor de referência até 40), aminotransferase de alanina 92 U/L (até 41), bilirrubina total 0,8 mg/dL, albumina 4,0 g/dL, razão normatizada internacional 1,0, plaquetas 128.000/mm³. Testes rápidos para o vírus da imunodeficiência humana e sífilis não reagentes; antígeno de superfície do vírus da hepatite B não reagente e anticorpo contra o core reagente. Ultrassonografia de abdome sem nódulos, com baço de 12,5 cm.
passo 1
Situar o exame que falta. O teste rápido reagente é rastreio: ele indica contato e não distingue infecção ativa de infecção resolvida. Não se repete o anticorpo nem se confirma com imunoensaio laboratorial — teste rápido e imunoensaio são equivalentes. O que falta é a quantificação do material genético do vírus, e é ela que autoriza qualquer decisão terapêutica. Suponha que ela volte detectável, o que fecha infecção ativa.
passo 2
Calcular o escore com a conversão certa. A aminotransferase de aspartato de 78 dividida pelo limite superior de 40 dá 1,95. As 128.000 plaquetas por milímetro cúbico viram 128 na fórmula. Dividindo 1,95 por 128 e multiplicando por 100, o escore é 1,52. Se a conversão fosse esquecida, o resultado seria 0,0015 — mil vezes menor, abaixo de 1, e apontaria para o esquema errado.
passo 3
Ler o quadro e não encontrar linha. Um escore de 1,52 não é menor que 1,0, não está na faixa publicada de 1,0 a 1,49 e não alcança 2,0. Ele cai exatamente na região que a tabela de interpretação não cobre. Isso não paralisa a conduta: o texto do protocolo é binário e manda tratar como doença potencialmente avançada todo escore igual ou maior que 1, com avaliação não invasiva adicional — ultrassonografia, já feita, e medida de rigidez hepática por elastografia.
passo 4
Classificar o fígado. Sem ascite, sem encefalopatia, bilirrubina abaixo de 2,0, albumina acima de 3,5 e razão normatizada internacional abaixo de 1,7: cada item vale 1 ponto, o Child-Pugh soma 5 e o paciente é Child A. Não há descompensação por escore nem evento de descompensação na história. A duração, portanto, é de 12 semanas, e não de 24.
passo 5
Escolher o esquema e o lugar. Escore igual ou maior que 1 leva à segunda linha da tabela: sofosbuvir 400 mg com velpatasvir 100 mg em comprimido coformulado, um comprimido uma vez ao dia, por 12 semanas. E o mesmo escore tira o caso da atenção primária: a rota de tratamento na unidade básica vale para escore menor que 1. Este paciente vai para o serviço especializado.
passo 6
Resolver a hepatite B antes de começar. O padrão sorológico é antígeno de superfície não reagente com anticorpo contra o core reagente — o braço que não recebe profilaxia e sim monitorização mensal da aminotransferase de alanina durante o uso do antiviral, com tratamento imediato da hepatite B se houver reativação. Como o anticorpo contra o antígeno de superfície não foi informado, ele precisa ser dosado; e a suscetibilidade ao vírus da hepatite A deve ser verificada para indicar as duas doses de vacina. Ao final, carga viral a partir de 12 semanas do término: não detectável é cura.
07

Agora feche você

Dois pacientes são avaliados na mesma tarde no ambulatório de hepatites. O primeiro é uma mulher de 46 anos, tratada há dois anos com antiviral de ação direta e com carga viral não detectável documentada 12 semanas após o término. Voltou porque um exame admissional trouxe de novo o anticorpo reagente e ela quer saber se a doença voltou. Está assintomática, não usa drogas, tem parceria fixa. Exames de hoje: aminotransferase de aspartato 30 U/L (referência até 40), aminotransferase de alanina 25 U/L, plaquetas 200.000/mm³. O segundo é um homem de 61 anos, com cirrose por hepatite C conhecida, tratado há três anos com sofosbuvir e daclatasvir por 12 semanas e sem resposta virológica sustentada — carga viral detectável na coleta de controle e nunca retratado. Teve um episódio de sangramento por varizes esofágicas há dez meses, hoje sem ascite e sem encefalopatia. Exames: bilirrubina total 1,4 mg/dL, albumina 3,7 g/dL, razão normatizada internacional 1,3, plaquetas 96.000/mm³, aminotransferase de aspartato 88 U/L (referência até 40).
passo 1
Para a primeira paciente, diga o que o anticorpo reagente significa nessa altura da história e qual exame — e apenas ele — responde à pergunta que ela veio fazer.
passo 2
Calcule o FIB-4 dela com os três valores fornecidos e a idade, e diga em qual faixa do quadro de interpretação ele cai.
passo 3
Explique por que o valor calculado no passo anterior recebe duas leituras diferentes dentro do próprio protocolo quando a pergunta é 'esta paciente pode receber alta do acompanhamento', e diga qual dos dois cortes tem tabela por trás.
passo 4
Para o segundo paciente, some o Child-Pugh item por item e nomeie a classe.
passo 5
Diga se o sangramento por varizes de dez meses atrás muda a classe do escore, se muda a duração do tratamento, e por qual das duas definições de descompensação você respondeu cada uma dessas duas perguntas.
passo 6
Escreva o esquema completo do segundo paciente — nome dos antivirais, número de comprimidos por dia e duração — e justifique por que a escolha aqui não é a mesma do primeiro tratamento dele.
passo 7
Diga, para os dois, qual é o plano de vigilância depois do desfecho, e o que difere entre eles.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Repetir o anticorpo em vez de pedir a carga viral É o distrator mais frequente do tema e o mais bem construído, porque a repetição de exame parece prudente. O anticorpo persiste por toda a vida depois da cura, então repeti-lo em seis meses devolve o mesmo reagente e atrasa a decisão. Vale para as duas pontas: no anti-HCV reagente inicial, o exame seguinte é o material genético; em quem já curou e mantém exposição de risco, o exame de seguimento também é o material genético, nunca o anticorpo.
  2. 2Exigir genotipagem antes de tratar A alternativa quase sempre vem com a formulação branda de que a genotipagem 'vem depois da carga viral'. O protocolo é mais duro que isso: não é necessária para tratamento inicial nem para retratamento, em nenhuma faixa etária. Quando o enunciado informa o genótipo, é para testar se o candidato sabe que aquele dado não muda mais nada.
  3. 3Digitar a contagem de plaquetas sem converter A fórmula pede a contagem em 10⁹ por litro e o hemograma vem por milímetro cúbico. Sem dividir por mil, o escore sai mil vezes menor e cai sempre abaixo de 1 — o que empurra qualquer paciente, inclusive o cirrótico, para o esquema de dois comprimidos. O erro não avisa, porque o valor que sai parece um escore. O protocolo em vigor não repete a instrução de conversão; ela está nas notas técnicas.
  4. 4Calcular o escore sem o limite de referência do laboratório O numerador não é a aminotransferase de aspartato: é ela dividida pelo limite superior de normalidade daquele serviço. Com aminotransferase de 80 e 120 mil plaquetas, o escore vai de 1,33 a 2,56 conforme o limite publicado seja 50 ou 26. Vinheta que informa a enzima sem informar o valor de referência não permite calcular — e, quando isso acontece, a resposta está na conduta descrita, não na conta.
  5. 5Tratar 'igual ou maior que 2,0' como o corte que muda o esquema A coluna de alta probabilidade de cirrose começa em 2,0, e é tentador usá-la como limiar terapêutico. Não é: a tabela de esquemas se divide em 1,0. Escore 1,4, escore 1,67 e escore 3 recebem exatamente o mesmo tratamento inicial. Confundir o corte do quadro descritivo com o corte da tabela de conduta é o erro que a faixa sem linha, de 1,50 a 1,99, torna mais provável.
  6. 6Pedir carga viral no meio do tratamento Não há recomendação de carga viral durante o curso do antiviral: o exame não muda conduta e não antecipa falha. A quantificação tem hora marcada, que é a partir de 12 semanas do término. A exceção é o cenário de interrupção, em que a carga viral entra exatamente para decidir se completa, se estende em 4 semanas ou se vai para retratamento.
  7. 7Suspender a vigilância de carcinoma depois da cura A resposta virológica sustentada reduz, mas não elimina, o risco de carcinoma hepatocelular em quem já tinha fibrose avançada. Fibrose F3 ou F4 não recebe alta e mantém ultrassonografia semestral, complementada por alfafetoproteína, por tempo indefinido. A alternativa que oferece cura como fim do acompanhamento é a errada, e ela é atraente justamente porque a cura é real.
  8. 8Oferecer apenas monitorização ao coinfectado com antígeno de superfície reagente Os dois braços da coinfecção com o vírus da hepatite B são diferentes e a alternativa troca um pelo outro. Antígeno de superfície reagente sem critério de tratamento recebe profilaxia contra reativação, mantida até 12 semanas após o fim do antiviral. Quem recebe apenas monitorização mensal da aminotransferase de alanina é o paciente com antígeno de superfície não reagente e anticorpo contra o core reagente.
  9. 9Tratar a gestante ou adiar o tratamento da mulher que planeja engravidar O antiviral é contraindicado na gestação e a gestante diagnosticada é notificada e encaminhada ao pré-natal de risco. A consequência do mesmo raciocínio é o oposto do que a intuição sugere: em mulher em idade fértil que planeja engravidar, o tratamento é prioridade e deve ser feito antes da gestação, não depois. E, no que diz respeito à via de parto, a cesariana não reduz a transmissão vertical.
  10. 10Inverter a ordem dos exames na criança exposta No adulto, sorologia primeiro e molecular depois. Na criança nascida de mãe infectada, a ordem se inverte: teste molecular entre 3 e 6 meses, sorologia apenas aos 18 meses. O motivo é o mesmo que impede o teste rápido antes dessa idade — o anticorpo materno atravessa a placenta e torna a sorologia precoce ilegível. Alternativa que pede sorologia no lactente de 4 meses está usando o algoritmo do adulto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Anti-HCV positivo indica contato com o vírus, mas a infecção ativa é confirmada pela detecção do HCV-RNA (carga viral); confirmada, o paciente deve ser encaminhado para tratamento com antivirais de ação direta, disponíveis no SUS, com altas taxas de cura. Repetir apenas o anti-HCV em 6 meses protela a confirmação e o tratamento de uma infecção potencialmente curável. Errado: não há dados de hepatite autoimune, e corticoide em hepatite C viral é inapropriado. Incorreto porque anti-HCV positivo não distingue cura de infecção ativa; somente o HCV-RNA faz essa distinção, sendo errado tranquilizar sem confirmar.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as três linhas da tabela de tratamento inicial, com o esquema, a posologia e a duração de cada uma, e diga qual delas é conjunção e qual é disjunção. Ao lado, escreva a fórmula do escore e, em seguida, calcule-o três vezes para o mesmo paciente — aminotransferase de aspartato 80, plaquetas 120 mil — usando limites de referência de 26, 40 e 50. Confira se algum dos três valores cai numa faixa que a tabela de interpretação não publica.

em 30 dias

Refaça a decisão de duração em dois cenários que se parecem e divergem. Primeiro: cirrótico que sangrou por varizes há um ano, hoje com bilirrubina 1,5 mg/dL, albumina 3,8 g/dL, razão normatizada internacional 1,2, sem ascite e sem encefalopatia — some o Child-Pugh, decida entre 12 e 24 semanas e escreva qual das duas definições de descompensação você usou e por quê. Segundo: o mesmo paciente, agora com ascite moderada e albumina 2,6 g/dL — refaça a soma e veja quantos pontos separam as duas condutas. Depois, liste as onze condições que obrigam a encaminhar o paciente com escore menor que 1 para a atenção especializada.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Um homem de 55 anos chega à consulta com um papel na mão: teste rápido para hepatite C reagente, feito numa campanha no sindicato. Está assintomático e diz que veio porque leu que hepatite C 'dá cirrose e não tem cura'. Traz um hemograma e um hepatograma de dois meses atrás. Conduza a consulta: explique o que aquele resultado significa e o que ele ainda não significa, decida o que pedir, e diga a ele, com o que já está na mesa, o que muda e o que não muda na vida dele até o próximo retorno. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hepatite C crônica — Preparatório para provas | OsceLabs