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Hepatite A e hepatites agudas

A hepatite A brasileira deixou de ser doença de creche e virou doença de homem adulto. A prova acompanhou: cobra o anti-HAV IgM, a dose única aos 15 meses, os 14 dias da pós-exposição e a hora de chamar o transplante.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 26 anos, previamente hígida, procura pronto-atendimento com icterícia, colúria, náuseas e astenia há 5 dias, precedidos por uma semana de febre baixa e mal-estar. Relata almoço em restaurante de frutos do mar cerca de um mês antes. Ao exame: ictérica (++/4+), fígado levemente doloroso à palpação, sem sinais de encefalopatia. Exames: AST 1.850 U/L (VR ate 40), ALT 2.100 U/L (VR ate 41), bilirrubina total 8,2 mg/dL (VR ate 1,2) com predomínio direto, INR 1,1 (VR ate 1,2). Anti-HAV IgM positivo; HBsAg negativo; anti-HCV negativo. Qual o diagnóstico?

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Como esse tema cai

Este capítulo tem duas camadas. A de baixo é a síndrome: diante de um adulto ictérico com transaminase na casa dos milhares, saber que aquilo é lesão de hepatócito, separar as causas e reconhecer a hora em que a hepatite aguda deixou de ser autolimitada. A de cima é a hepatite A, que no Brasil concentra a régua normativa — vacina no calendário, definição de caso, notificação e medidas de bloqueio — e por isso concentra as questões.

O que mudou e a prova ainda não terminou de absorver: a hepatite A brasileira migrou de faixa etária. Entre 2014 e 2024, a incidência em menores de 10 anos praticamente desapareceu, enquanto o pico se instalou entre 25 e 39 anos, com três casos masculinos para cada feminino em 2024 e taxas de capital muitas vezes maiores que as do próprio estado. A vinheta clássica da criança de creche não sumiu do enunciado, mas a vinheta nova é o homem adulto com icterícia e história sexual — e ela muda a conduta de prevenção, não o diagnóstico.

Fica de fora, de propósito. Hepatite B e hepatite D têm capítulo próprio na apostila de Infectologia e aqui entram apenas como sorologia a excluir. Hepatite C aparece só como diferencial de hepatite aguda, porque o peso dela está no rastreamento e no tratamento da forma crônica. Cirrose, hipertensão portal e carcinoma hepatocelular pertencem ao capítulo de cirrose. O manejo da intoxicação por paracetamol — dose, nomograma e N-acetilcisteína — é do capítulo de intoxicações exógenas: aqui o paracetamol aparece porque muda o critério de transplante. Icterícia obstrutiva também tem endereço na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo, e aqui só entra no tamanho em que compete com a hepatite aguda pelo padrão enzimático.

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O que muda decisão

A hepatite A brasileira trocou de idade e de sexo

Entre 2000 e 2024 o Brasil confirmou 826.292 casos de hepatites virais, dos quais 174.977 de hepatite A. O acumulado ainda é de doença do Norte e do Nordeste — as duas regiões somam mais da metade dos casos do período (29,2% no Nordeste e 24,5% no Norte). Mas o acumulado de vinte e cinco anos descreve um país que não existe mais.

A taxa de incidência caiu 47% entre 2014 e 2024, e a queda se concentrou nas crianças. Em menores de 5 anos, a taxa foi de 5,9 para 0,1 caso por 100 mil habitantes; na faixa de 5 a 9 anos, de 13,3 para 0,2. Em números absolutos, a faixa de 5 a 9 anos saiu de 1.996 casos em 2014 para 23 em 2024. A vacina entrou no calendário em 2014, e a coorte vacinada é exatamente essa.

O que sobrou mudou de cara. Em 2024 foram 3.538 casos, com taxa de 1,7 por 100 mil — um aumento de 54,5% em relação a 2023, que tinha 1,1. O pico etário está entre 25 e 29 anos (707 casos, 4,3 por 100 mil), seguido de 30 a 34 anos (625 casos, 3,9) e de 20 a 24 anos (481 casos, 3,0). E a razão entre os sexos, que ficou perto de 1,2 durante toda a década de 2000, foi de 3,0 em 2024: 2.653 casos em homens contra 885 em mulheres.

A geografia acompanhou. Em 2024, nove capitais tiveram taxa acima da nacional, e a distância entre capital e estado é o dado que denuncia o mecanismo: Curitiba registrou 31,3 casos por 100 mil contra 5,7 do Paraná, Florianópolis 13,5 contra 2,0 de Santa Catarina, Porto Alegre 8,6 contra 1,8 do Rio Grande do Sul. Doença de saneamento não se concentra na capital de estados de bom saneamento nem escolhe homens adultos. Doença de transmissão fecal-oral por contato sexual, sim.

A mortalidade continua baixa e estável: 29 óbitos por hepatite A como causa básica em 2014 e 27 em 2024. É pouco em termos absolutos, mas o denominador também é pequeno, e a letalidade se concentra justamente em quem a nova epidemiologia atinge — adulto, e adulto com hepatopatia prévia.

Silhuetas de três crianças, desenhadas em traço apagado, contrapostas a três silhuetas de adultos em traço forte.
O deslocamento etário da hepatite A no Brasil: o que sumiu foi o caso de creche, não a doença.

Como o vírus circula, e por quanto tempo o paciente transmite

A transmissão da hepatite A é fecal-oral. Ela acontece pela ingestão de água ou de alimentos contaminados, de pessoa a pessoa, e por relação sexual desprotegida com contato boca-ânus. A transmissão pelo sangue é rara — o vírus não causa infecção crônica, então a viremia é curta e não há reservatório humano permanente — e a transmissão vertical também é rara. Isso encerra, de saída, três distratores frequentes: não há portador crônico de hepatite A, não há transmissão por compartilhamento de seringa como via principal, e não há indicação de cesárea ou de suspensão da amamentação.

O período de incubação é de 15 a 45 dias, com média de 30. O período de transmissibilidade começa duas semanas antes do início dos sintomas e vai até o fim da segunda semana de doença. Essa assimetria é o que faz a vigilância existir: quando o caso-índice fica ictérico, ele já passou pela fase de maior excreção viral, e quem contaminou já está incubando. Por isso o bloqueio não se dirige ao doente, e sim aos contatos.

A hepatite E é a irmã fecal-oral da A e serve de contraponto útil. Também se transmite pela via fecal-oral, tem incubação de 14 a 60 dias (média de 42) e, ao contrário da A, tem reservatório animal — suínos, roedores e aves —, o que faz de alguns genótipos uma zoonose. A infecção não confere imunidade e não há vacina disponível no Brasil. O peso epidemiológico é pequeno: 1.914 casos confirmados em todo o período de 2000 a 2024. O que a mantém no radar é a gravidade na gestação: segundo a Organização Mundial da Saúde, que é a referência com número aberto sobre isso, até 20% a 25% das gestantes que adquirem hepatite E no terceiro trimestre podem morrer.

As três fases, e a regra da idade

A hepatite aguda tem três fases, e a descrição vale para qualquer um dos cinco vírus. A fase prodrômica ou pré-ictérica vem depois da incubação e é inteiramente inespecífica: anorexia, náuseas, vômitos, diarreia, febre baixa, cefaleia, mal-estar, astenia e fadiga, aversão ao paladar ou ao olfato, mialgia, fotofobia, desconforto no hipocôndrio direito, urticária, artralgia ou artrite, exantema papular ou maculopapular. É a fase em que o paciente é tratado como virose e em que a doença é mais transmissível.

A fase ictérica começa quando aparece a icterícia — e, em geral, os sintomas prodrômicos diminuem justamente aí. Observa-se hepatomegalia dolorosa e, ocasionalmente, esplenomegalia. Esse detalhe é cobrado ao contrário: o candidato espera que o paciente piore quando amarela, e o padrão é o oposto. A fase de convalescença segue o desaparecimento da icterícia; a recuperação completa vem depois de algumas semanas, mas fraqueza e cansaço podem persistir por vários meses.

A regra da idade governa a gravidade. Na criança, a hepatite A é habitualmente benigna: gera quadros sintomáticos em cerca de 30%, com duração menor que dois meses. Nas populações de melhor situação sanitária a incidência desloca-se para adolescentes, adultos e idosos, faixas em que a infecção é mais frequentemente sintomática e eventualmente grave — mais de 75% dos adultos com hepatite A são sintomáticos. A forma fulminante é rara, porém mais comum em pacientes com doença hepática. Somando as duas pontas: a mesma infecção que passa despercebida numa creche pode matar um cirrótico.

Não existe hepatite A crônica. Se, seis meses depois, ainda há marcador de replicação viral, a etiologia não é A — é B, C, D ou, com muito mais raridade, E. Enunciado que descreve 'hepatite A crônica' está descrevendo outra coisa.

O laboratório: primeiro o tamanho, depois o nome

AST e ALT são marcadores de agressão hepatocelular, e nas formas agudas chegam a 25 a 100 vezes o valor normal. Elas começam a subir cerca de uma semana antes da icterícia e se normalizam em aproximadamente três a seis semanas de curso clínico. Nas formas crônicas, na maioria dos casos, não ultrapassam 15 vezes o normal. O primeiro raciocínio diante da enzima, portanto, não é etiológico e sim de ordem de grandeza: milhares apontam para lesão aguda de hepatócito; centenas, para doença crônica ou para outra coisa.

As bilirrubinas se elevam depois das aminotransferases e, nas formas agudas, podem alcançar 20 a 25 vezes o valor normal. Há aumento das duas frações, mas a conjugada predomina. Na urina, a bilirrubina pode ser detectada precocemente, antes mesmo do surgimento da icterícia — é por isso que 'urina escura há três dias, olhos amarelos desde ontem' é uma sequência coerente, e não uma contradição do enunciado.

O corte de 500 UI/L organiza o diagnóstico diferencial do período prodrômico. Mononucleose infecciosa pelo vírus Epstein-Barr, toxoplasmose, citomegalovirose e outras viroses geralmente não levam as aminotransferases acima de 500 UI/L. Já no período ictérico, os concorrentes são leptospirose, febre amarela, malária e dengue grave — todos com epidemiologia própria e nenhum deles com transaminase na casa dos milhares como regra.

Fora do território viral, os diferenciais que a prova mistura são a hepatite alcoólica, a medicamentosa, a autoimune e a transinfecciosa, que acompanha infecções generalizadas como a sepse. Somam-se as ictericias hemolíticas, como na anemia falciforme, e a colestase extra-hepática por obstrução mecânica das vias biliares, seja por tumor, cálculo ou adenomegalia abdominal. Na obstrução, o padrão enzimático se inverte: fosfatase alcalina e gama-GT desproporcionalmente altas, transaminases modestas.

Um limite honesto: não é possível determinar a etiologia de uma hepatite aguda apenas com base em dados clínicos e epidemiológicos — exceto em casos de surtos de hepatite A. Essa exceção não é um detalhe simpático; ela é a base legal do critério clínico-epidemiológico de confirmação, que existe para a hepatite A e não existe para as outras.

Anti-HAV IgM fecha; anti-HAV total sozinho não diz nada de útil

A presença do anti-HAV IgM define o diagnóstico de hepatite aguda A. Ele é detectado a partir do segundo dia do início dos sintomas, começa a declinar depois da segunda semana e desaparece após três meses. Ou seja: no paciente ictérico, ele já está lá; e no paciente que teve icterícia há cinco meses, ele já não está.

O anti-HAV IgG aparece na fase de convalescença e persiste indefinidamente, conferindo imunidade específica. Ele também está presente no indivíduo vacinado. Consequência direta e muito cobrada: anti-HAV IgG reagente isolado não distingue infecção prévia de vacinação — e, portanto, não serve para dizer se o paciente já teve a doença. Serve para dizer que ele está protegido, o que é outra pergunta.

O anti-HAV total é a soma de IgM e IgG. Combinando os dois campos: total reagente com IgM reagente é infecção aguda ou recente; total reagente com IgM não reagente é infecção passada ou imunidade por vacina; os dois não reagentes indicam suscetível. Não há um quarto padrão a decorar, porque não há infecção crônica pelo vírus A.

Na prática do pronto-socorro, o pedido inicial diante de uma hepatite aguda não é só o anti-HAV IgM. Pede-se o painel que separa as etiologias que mudam conduta: anti-HAV IgM, HBsAg com anti-HBc IgM e anti-HCV, além de coagulograma com INR, bilirrubinas, albumina e função renal. O INR não está ali por hábito — ele é o marcador que decide se aquele paciente vai para casa ou para a fila de transplante.

Definição de caso e notificação: as quatro portas, e o vínculo que só a A tem

Um caso é confirmado de hepatite A em quatro situações. Primeira: indivíduo que apresente anti-HAV IgM reagente. Segunda: indivíduo com suspeita clínica que apresente vínculo epidemiológico com caso confirmado laboratorialmente de hepatite A. Terceira: indivíduo que evoluiu ao óbito com menção de hepatite A na Declaração de Óbito. Quarta: indivíduo que evoluiu ao óbito com menção de hepatite sem etiologia especificada na Declaração de Óbito, mas com confirmação para hepatite A após investigação.

A segunda porta é a que separa a hepatite A das demais. Para B, C, D e E, os casos são identificados por evidência laboratorial — incluindo testes moleculares — ou por óbito com menção da doença. Só na hepatite A o vínculo epidemiológico confirma. É a tradução, em norma de vigilância, daquele limite do parágrafo anterior: em surto de hepatite A, a clínica mais o vínculo bastam.

As hepatites virais são de notificação compulsória regular, em até sete dias, e todos os casos confirmados e surtos devem ser registrados no Sinan pela Ficha de Notificação/Investigação das Hepatites Virais. Não é notificação imediata em 24 horas — confundir os dois prazos é erro de saúde coletiva que aparece em questão de hepatite.

A investigação epidemiológica de um caso de transmissão fecal-oral tem alvo definido: investigar se os pacientes se expuseram a possíveis fontes de contaminação, particularmente água de uso comum e refeições coletivas, e levantar comunicantes e outros casos suspeitos para identificar assintomáticos e evitar surtos.

Tratamento da hepatite A: o valor está no que não se faz

Não existe tratamento específico para as formas agudas de hepatite viral, com duas exceções que não são a A: a hepatite C aguda e a hepatite B aguda grave. Para as demais, faz-se apenas tratamento sintomático de náuseas, vômitos e prurido.

Como norma geral, recomenda-se repouso relativo até a normalização das aminotransferases. Repouso relativo, não repouso absoluto no leito — e o critério de alta da restrição é laboratorial, não a cor da esclera.

A única restrição dietética está relacionada à ingestão de álcool. Não há dieta hipogordurosa, não há dieta hipoproteica, não há restrição de atividade além do repouso relativo. Alternativa que prescreve 'dieta pobre em gorduras' para hepatite aguda está errada por acréscimo — o documento nacional é explícito ao dizer que a restrição é uma só.

O que sobra de conduta ativa é vigilância e prevenção: notificar, investigar contatos, orientar higiene, afastar da atividade de rotina quando necessário e evitar hepatotóxicos, inclusive medicamentos de venda livre. Em instituições que abrigam crianças sem controle esfincteriano, o afastamento deve ser reavaliado e prolongado em surtos, porque ali a exposição e o risco de transmissão são maiores.

Quando a hepatite aguda vira insuficiência hepática aguda

Hepatite fulminante é o termo que designa a insuficiência hepática aguda, caracterizada pelo surgimento de icterícia, coagulopatia e encefalopatia hepática em um intervalo de até oito semanas. É condição rara e potencialmente fatal, com letalidade de 40% a 80%, e todos os cinco tipos de hepatite viral podem causá-la. A fisiopatologia é a degeneração e a necrose maciça de hepatócitos, e o quadro neurológico progride para o coma em poucos dias.

O elemento que define a virada não é a bilirrubina nem o tamanho da transaminase — é a soma de coagulopatia com encefalopatia em quem não tinha doença hepática. Transaminase que despenca em paciente que piora não é melhora: é massa de hepatócito que acabou. O par que importa vigiar é INR subindo e nível de consciência caindo.

A conduta, no Brasil, tem endereço normativo. O Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes considera a insuficiência hepática aguda grave critério de urgência máxima para priorização de candidatos a transplante de fígado de doador falecido, definida como desenvolvimento de encefalopatia até doze semanas após o início da icterícia, em pacientes sem doença hepática pré-existente, que preencham os critérios de King's College ou de Clichy/Beaujon e estejam internados em UTI. A priorização permanece por quinze dias, renováveis por igual período mediante justificativa; perdida a condição de urgência, o paciente passa a MELD ou PELD ajustado em quarenta.

Repare no desencontro de janelas entre duas normas federais: a vigilância define hepatite fulminante em até oito semanas; o regulamento de transplantes usa doze semanas para a priorização. Não é contradição de mérito — são finalidades diferentes, uma de notificação e outra de alocação de órgão —, mas é exatamente o tipo de número que o enunciado escolhe. Leia o cenário: se a pergunta é sobre notificar e classificar, a régua é a da vigilância; se é sobre acionar a central de transplantes, é a do regulamento.

Os critérios de King's College, na redação adotada pelo regulamento brasileiro, separam quem ingeriu acetaminofeno de quem não ingeriu. Em quem ingeriu: pH arterial menor que 7,3, independentemente do grau de encefalopatia, e tempo de protrombina maior que 100 segundos ou INR acima de 6,5 com creatinina sérica acima de 3,4 mg/dL em pacientes com encefalopatia III ou IV. Em quem não ingeriu: tempo de protrombina maior que 100 segundos ou INR acima de 6,5, independentemente do grau de encefalopatia; ou três das cinco variáveis — idade menor que 10 ou maior que 40 anos; causa por halotano, etiologia diferente das relacionadas aos vírus A ou B, ou reação farmacológica idiossincrásica; duração da icterícia maior que sete dias antes do início da encefalopatia; tempo de protrombina maior que 50 segundos ou INR acima de 3,5; e bilirrubina sérica acima de 17,5 mg/dL. O critério de Clichy é mais curto: encefalopatia grau III ou IV com fator V abaixo de 30% em maiores de 30 anos, ou abaixo de 20% em menores de 30.

Vale notar o que a segunda variável do bloco não-acetaminofeno diz: etiologia diferente das relacionadas aos vírus A ou B conta como fator de mau prognóstico. A hepatite A fulminante é grave, mas dentro do escore ela pesa a favor, não contra.

Vacina: dose única no calendário, duas doses nos Crie

No Calendário Nacional de Vacinação, a vacina adsorvida hepatite A inativada é dose única aos 15 meses de idade, e permanece disponível nas salas de vacina da rede pública até 4 anos, 11 meses e 29 dias. Quem perdeu a oportunidade aos 15 meses recebe uma dose o mais breve possível, dentro dessa idade-teto. Passados os 5 anos, a criança não vacinada simplesmente não recebe a vacina na rotina pública.

A vacina é contraindicada em menores de 12 meses e em quem teve reação de hipersensibilidade a dose anterior ou a componente da formulação. A via é intramuscular, com subcutânea reservada a indicação clínica como as discrasias sanguíneas; a dose pediátrica é de 0,5 mL. Pode ser administrada simultaneamente com qualquer outra vacina do calendário vigente, sem necessidade de intervalo — o que derruba a alternativa que manda 'aguardar 30 dias' depois da tríplice viral.

Nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais o esquema é outro: duas doses, com intervalo de seis meses, para suscetíveis com hepatopatia crônica de qualquer etiologia — inclusive portadores do vírus C —, portadores crônicos do vírus B, coagulopatias, pessoas vivendo com HIV/aids, imunodepressão terapêutica ou por doença imunodepressora, doenças de depósito, fibrose cística, trissomias, candidatos a transplante de órgão sólido, transplantados e transplante de células-tronco hematopoiéticas. A lógica é direta: são os grupos em quem a hepatite A deixa de ser doença benigna.

A imunogenicidade sustenta os dois desenhos. As taxas de soroconversão vão de 94% a 100%; anticorpos protetores são detectados em 95% a 97% dos vacinados um mês após a primeira dose e em mais de 99% após a segunda. Não se recomenda controle sorológico após a vacinação nem revacinação. A experiência pioneira da Argentina em 2005, com uma dose única no primeiro ano de vida, controlou a incidência de hepatite A naquele país e é o argumento por trás da escolha brasileira.

Em imunodeprimidos a resposta é menos garantida. Em pessoas vivendo com HIV, as taxas de soroconversão após duas doses variam de 52% a 94%, correlacionadas ao nível de linfócitos T CD4+ — nulas abaixo de 200 e mais intensas acima de 500 por mm³. Na doença hepática crônica, a soroconversão varia de 0% a 97,7%, sendo menor em transplantados de fígado, razão pela qual a vacina deve ser administrada o mais precocemente possível no curso da hepatopatia, e não depois.

Frasco de vacina e seringa ao lado de um cartão de calendário com uma única célula destacada.
No calendário público, a hepatite A é uma célula só: dose única aos 15 meses.

Pós-exposição e bloqueio de surto: 14 dias, e nenhuma imunoglobulina

A vacina hepatite A tem sido utilizada na pós-exposição ao vírus, com eficácia de 79% em prevenir a infecção quando administrada até 14 dias após a exposição. É esse o número e essa a janela que a régua brasileira registra. Depois dos 14 dias, a eficácia não está estabelecida.

Não há imunoglobulina anti-hepatite A no elenco brasileiro. As imunoglobulinas humanas específicas administradas por via intramuscular nos Crie são quatro: antitetânica, anti-hepatite B, antirrábica e antivaricela-zóster. Quem responde 'imunoglobulina específica' numa questão de contato domiciliar de hepatite A está usando um produto que o SUS não dispensa para essa finalidade.

O bloqueio de surto é ambiental e comportamental antes de ser imunológico. Depois da identificação dos primeiros casos, estabelecem-se medidas de cuidado com a água de consumo, a manipulação de alimentos e as condições de higiene e saneamento junto à comunidade e aos familiares. Instituições coletivas — creches, pré-escolas, escolas, asilos — são orientadas quanto à higiene e à desinfecção de objetos, bancadas e chão com hipoclorito de sódio a 2,5% ou água sanitária, e os alimentos consumidos crus devem ser lavados e desinfetados com hipoclorito.

Para a via que hoje sustenta a curva brasileira, a orientação é explícita e específica: higienização das mãos, genitália, períneo e região anal antes e após as relações sexuais, higienização de vibradores e plugs anais e vaginais, uso de barreiras de látex durante o sexo oral-anal e luvas de látex para dedilhado ou fisting. Preservativo peniano isolado não bloqueia contato boca-ânus — e é aí que a alternativa 'orientar uso de preservativo' costuma ser insuficiente, não errada.

Um contato que já completou esquema vacinal em qualquer momento da vida não precisa de profilaxia pós-exposição; e o paciente com anti-HAV IgG reagente já é imune, seja por doença prévia, seja por vacina.

As outras hepatites agudas que o enunciado embaralha

Hepatite medicamentosa é a concorrente mais frequente da viral no adulto ictérico. O paracetamol é o protagonista, e a razão de ele aparecer aqui não é o manejo — que pertence ao capítulo de intoxicações exógenas — e sim o fato de a ingestão de acetaminofeno abrir um ramo próprio dentro dos critérios de King's College, com pH arterial e creatinina no lugar dos cinco itens de prognóstico. Reação idiossincrásica a fármaco, por sua vez, é uma das cinco variáveis do ramo não-acetaminofeno.

Hepatite alcoólica aguda grave tem, no Brasil, régua própria dentro do regulamento de transplantes: exige que a hepatite alcoólica seja a primeira manifestação da doença hepática, diagnóstico pelo critério do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism, gravidade definida por MELD 3.0 maior ou igual a 21 ou Maddrey maior ou igual a 32, ausência de resposta ao corticosteroide pelo modelo de Lille maior ou igual a 0,45, suporte familiar documentado, ausência de doença psiquiátrica descompensada e concordância documentada com abstinência e seguimento multidisciplinar. Os escores de Maddrey e de Lille aparecem aqui e não no capítulo de cirrose porque a apresentação é aguda.

Hepatite autoimune também consta entre as condições aceitas para inscrição em lista de transplante de fígado, e pode abrir com quadro agudo. No adulto jovem com hepatite aguda sem marcador viral e sem exposição a fármaco, ela é o diferencial que sobra.

Fecham a lista a hepatite transinfecciosa, que acompanha infecções generalizadas como a sepse, e as causas que só imitam hepatite: icterícia hemolítica, em que a bilirrubina indireta predomina e as transaminases não sobem, e colestase extra-hepática, em que fosfatase alcalina e gama-GT dominam o padrão. Reconhecer a inversão do padrão enzimático poupa uma sorologia inteira.

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Da icterícia à decisão

O caminho tem quatro passos e um ponto de bifurcação. Primeiro, confirmar que a lesão é de hepatócito e aguda, pela ordem de grandeza da transaminase. Segundo, nomear a etiologia com o painel mínimo. Terceiro — e é aqui que a questão separa quem estudou —, checar INR e nível de consciência para decidir se aquilo é doença autolimitada ou insuficiência hepática aguda. Quarto, cumprir o que é obrigação de saúde pública: notificar em até sete dias e bloquear os contatos dentro dos 14 dias.

  1. 1Adulto com icterícia e transaminases em milhares: lesão aguda de hepatócito. Centenas apontam para doença crônica, obstrução ou virose sistêmica
  2. 2Pedir o painel mínimo: anti-HAV IgM, HBsAg com anti-HBc IgM, anti-HCV, bilirrubinas, INR, albumina e função renal
  3. 3Anti-HAV IgM reagente fecha hepatite A — assim como fecha suspeita clínica com vínculo epidemiológico a caso confirmado (critério que só a hepatite A tem)
  4. 4Checar o par que define gravidade: INR subindo e nível de consciência caindo, em quem não tinha doença hepática prévia
  5. 5Sem coagulopatia e sem encefalopatia: tratamento sintomático, repouso relativo até normalizar as aminotransferases e a única restrição dietética, que é o álcool
  6. 6Com coagulopatia e encefalopatia: UTI e contato com a central de transplantes, aplicando os critérios de King's College ou Clichy/Beaujon
  7. 7Notificar no Sinan em até sete dias e investigar a fonte — água de uso comum, refeições coletivas, contatos domiciliares e sexuais
  8. 8Vacinar os contatos suscetíveis até 14 dias da exposição e orientar higiene, hipoclorito nas instituições e barreiras no sexo oral-anal

Hepatite aguda não complicada

Icterícia, transaminases em milhares, INR normal e sem alteração de consciência. Conduta: sintomáticos, repouso relativo até a normalização das aminotransferases, restrição apenas ao álcool, evitar hepatotóxicos, notificar em até sete dias.

Sinais de alarme

Vômitos incoercíveis, sonolência, INR em elevação, hepatopatia prévia, idade acima de 40 anos ou imunodepressão. Conduta: internação e reavaliação seriada de INR e nível de consciência — a transaminase que cai enquanto o paciente piora não é melhora.

Insuficiência hepática aguda

Icterícia com coagulopatia e encefalopatia, sem doença hepática prévia. Conduta: UTI e acionamento da central de transplantes por urgência máxima, aplicando King's College ou Clichy/Beaujon. A priorização vale quinze dias, renováveis por igual período.

MedidaComo é no BrasilDetalhe que a questão cobra
Vacina hepatite A na rotinaDose única aos 15 meses, disponível até 4 anos, 11 meses e 29 dias; 0,5 mL, IMContraindicada abaixo de 12 meses; pode ser simultânea a qualquer vacina do calendário, sem intervalo
Vacina hepatite A nos CrieDuas doses, com intervalo de seis mesesHepatopatia crônica de qualquer etiologia, portador crônico do vírus B, coagulopatia, HIV/aids, imunodepressão, doença de depósito, fibrose cística, trissomia, candidato a transplante e transplantado
Profilaxia pós-exposiçãoVacina até 14 dias após a exposição, com eficácia de 79%Não existe imunoglobulina anti-hepatite A no elenco brasileiro; quem já completou esquema vacinal não precisa de profilaxia
Bloqueio ambientalHipoclorito de sódio a 2,5% ou água sanitária em creches, escolas e asilos; lavagem e desinfecção de alimentos consumidos crusAfastamento reavaliado e prolongado em surtos em instituições com crianças sem controle esfincteriano
Bloqueio da via sexualHigiene de mãos, genitália, períneo e região anal antes e após a relação; barreira de látex no sexo oral-anal e luva para dedilhado ou fistingPreservativo peniano isolado não impede o contato boca-ânus
NotificaçãoCompulsória regular, em até sete dias, no Sinan, pela Ficha de Notificação/Investigação das Hepatites ViraisNão é notificação imediata em 24 horas

Ler o anti-HAV

Anti-HAV totalAnti-HAV IgMInterpretação
ReagenteReagenteInfecção aguda ou recente pelo vírus A — fecha o diagnóstico
ReagenteNão reagenteInfecção passada ou imunidade por vacina — não distingue uma da outra
Não reagenteNão reagenteSuscetível — é quem recebe vacina, inclusive na pós-exposição

Quatro portas do caso confirmado de hepatite A

PortaO que bastaVale para as outras hepatites?
LaboratorialAnti-HAV IgM reagenteCada hepatite tem seu marcador; o princípio é o mesmo
Clínico-epidemiológicaSuspeita clínica com vínculo epidemiológico a caso confirmado laboratorialmenteNão — só a hepatite A confirma por vínculo
Óbito com mençãoDeclaração de Óbito com menção de hepatite ASim, com o agente correspondente
Óbito investigadoDeclaração de Óbito com hepatite sem etiologia especificada, confirmada como A após investigaçãoSim, com o agente correspondente

Insuficiência hepática aguda: duas janelas, duas normas federais

NormaJanelaPara que serve
Guia de Vigilância em Saúde (2024)Icterícia, coagulopatia e encefalopatia em até oito semanasDefinir e notificar a hepatite fulminante; letalidade de 40% a 80%
Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes (2025)Encefalopatia até doze semanas após o início da icterícia, sem doença hepática prévia, em UTIConceder urgência máxima na fila de fígado, por King's College ou Clichy/Beaujon

Onde a transaminase costuma parar

SituaçãoOrdem de grandezaPista que acompanha
Hepatite viral aguda25 a 100 vezes o valor normalSobe uma semana antes da icterícia e normaliza em três a seis semanas
Hepatite crônicaEm geral até 15 vezes o valor normalMuitas vezes é o único exame alterado no assintomático
Mononucleose, toxoplasmose, citomegaloviroseGeralmente não passa de 500 UI/LQuadro sistêmico com linfadenomegalia e febre prolongada
Obstrução biliarElevação modestaFosfatase alcalina e gama-GT desproporcionalmente altas
Icterícia hemolíticaSem elevaçãoPredomínio de bilirrubina indireta, sem colúria

Bilirrubinúria aparece antes da icterícia — colúria há dias com esclera amarela há horas é sequência coerente, não contradição do enunciado.

Não existe hepatite A crônica: marcador de replicação viral seis meses depois aponta para B, C, D ou, raramente, E.

Nos critérios de King's College adotados pela norma brasileira, etiologia diferente das relacionadas aos vírus A ou B conta como variável de mau prognóstico no ramo sem acetaminofeno.

A hepatite E não tem vacina disponível no Brasil e a infecção não confere imunidade; foram 1.914 casos confirmados no país entre 2000 e 2024.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Profilaxia pós-exposição da hepatite A: vacina isolada ou vacina com imunoglobulina

Só vacina, até 14 dias — Manual dos Crie, 6ª edição (2023)

A vacina hepatite A tem sido utilizada na pós-exposição ao vírus, com eficácia de 79% em prevenir a infecção quando administrada até 14 dias após a exposição. Entre as imunoglobulinas humanas específicas administradas por via intramuscular nos Crie constam apenas a antitetânica, a anti-hepatite B, a antirrábica e a antivaricela-zóster.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6. ed., 2023, capítulo 10 e tabela de imunoglobulinas humanas específicas

Vacina, imunoglobulina ou ambas, conforme idade e risco — ACIP (2020)

Dentro de duas semanas da exposição: lactente abaixo de 12 meses saudável recebe apenas imunoglobulina 0,1 mL/kg; pessoa saudável de 12 meses a 40 anos recebe apenas uma dose de vacina; acima de 40 anos, vacina e imunoglobulina conforme avaliação de risco do profissional; a partir de 12 meses com imunocomprometimento ou doença hepática crônica, vacina e imunoglobulina simultâneas em sítios diferentes; e quem tem contraindicação à vacina recebe só imunoglobulina.

Nelson NP, Weng MK, Hofmeister MG, et al. Prevention of Hepatitis A Virus Infection in the United States: Recommendations of the ACIP, 2020. MMWR Recomm Rep. 2020;69(5):1-38, Tabela 4

Na prova

Cenário de UBS, de contato domiciliar, de creche ou que cite o SUS pede a régua nacional: vacina até 14 dias, e nada além disso. Alternativa que ofereça imunoglobulina humana anti-hepatite A está descrevendo um produto que o elenco brasileiro não tem. Quando o enunciado traz idade acima de 40 anos, lactente abaixo de 12 meses, imunossupressão ou hepatopatia crônica junto com a palavra 'imunoglobulina', ele está construído sobre a tabela americana — e aí o recorte é internacional. A causa da diferença é de disponibilidade de insumo e de desenho de programa, não de discordância sobre a evidência: os dois lados concordam que a janela é de duas semanas e que a vacina induz imunidade ativa e mais duradoura.

Número de doses da vacina hepatite A na criança

Dose única aos 15 meses — Calendário Nacional de Vacinação (2026)

Esquema básico de uma dose aos 15 meses de idade, para crianças até 4 anos, 11 meses e 29 dias. Quem perdeu a oportunidade recebe uma dose o mais breve possível, dentro dessa idade-limite.

Brasil. Ministério da Saúde. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 2026, item 18

Duas doses a partir dos 12 meses — Sociedade Brasileira de Pediatria (2026/2027)

A vacina deve ser administrada em duas doses, a partir dos 12 meses de idade, registrando-se que o PNI oferece a vacina em dose única aos 15 meses. Adolescentes podem receber duas doses com intervalo de seis meses, ou a vacina combinada hepatites A e B em duas doses até 15 anos e em três doses a partir dos 16.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Calendário de Vacinação da SBP — Atualização 2026/2027. Documento Científico nº 56, 28 de julho de 2026, item 13

Na prova

Questão que pergunta 'segundo o Calendário Nacional de Vacinação' ou ambienta a cena numa sala de vacina da rede pública tem uma resposta só: dose única aos 15 meses. Questão que diz 'segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria', que discute vacinação em clínica privada ou que descreve adolescente não vacinado admite duas doses. A causa da diferença é de política pública: o esquema de dose única foi adotado a partir da experiência argentina de 2005, que controlou a incidência no país vizinho com uma dose no primeiro ano de vida, enquanto a proteção de longa duração descrita para o produto se apoia em duas doses.

Quantas semanas definem a insuficiência hepática aguda

Até oito semanas — Guia de Vigilância em Saúde (2024)

Hepatite fulminante é o termo utilizado para designar a insuficiência hepática aguda, caracterizada pelo surgimento de icterícia, coagulopatia e encefalopatia hepática em um intervalo de até oito semanas. É condição rara e potencialmente fatal, com letalidade de 40% a 80%, e todos os cinco tipos de hepatite viral podem causá-la.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, volume 2, capítulo Hepatites virais

Até doze semanas — Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes (2025)

É critério de urgência máxima a insuficiência hepática aguda grave, definida como desenvolvimento de encefalopatia até doze semanas após o início de icterícia em pacientes sem doença hepática pré-existente, que preencham critérios de indicação de transplante de fígado do King's College ou Clichy/Beaujon, internados em UTI.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025 (republicada em 21 de janeiro de 2026), art. 146

Na prova

As duas posições são brasileiras e nenhuma revoga a outra — o que muda é a finalidade. Enunciado sobre notificar, classificar ou descrever a evolução usa oito semanas. Enunciado sobre acionar central de transplantes, priorização, UTI ou King's College usa doze semanas. O sinal está no verbo da pergunta: 'como se define e notifica' aponta para a vigilância; 'qual a conduta para inscrição em urgência máxima' aponta para o regulamento de transplantes.

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Caso resolvido

Homem de 31 anos procura o pronto-socorro com náuseas, mal-estar e febre baixa há oito dias, e urina escura há quatro. Ontem a namorada notou os olhos amarelos. Não bebe, não usa medicação contínua, não viajou. Relata parcerias sexuais masculinas e femininas nos últimos meses, sem uso consistente de barreira. Ao exame: ictérico, afebril, lúcido e orientado, fígado palpável a 2 cm do rebordo costal direito e doloroso. Exames: ALT 3.180 U/L, AST 2.240 U/L, bilirrubina total 9,8 mg/dL com predomínio da direta, fosfatase alcalina discretamente elevada, INR 1,1, albumina 4,0 g/dL, creatinina 0,9 mg/dL.
achado
Transaminase acima de 3.000 U/L com bilirrubina direta predominante e fosfatase alcalina apenas discreta: o padrão é de lesão aguda de hepatócito, não de obstrução. A ordem de grandeza também afasta mononucleose, toxoplasmose e citomegalovirose, em que as aminotransferases geralmente não passam de 500 UI/L.
cronologia
Pródromo inespecífico de cerca de uma semana, colúria antes da icterícia e melhora dos sintomas gerais quando a icterícia apareceu. É a sequência clássica das três fases — e a bilirrubinúria precede a icterícia porque a bilirrubina conjugada é detectada na urina precocemente.
risco
Homem adulto, de área urbana, com prática sexual que inclui contato boca-ânus. É exatamente o perfil que hoje sustenta a curva brasileira: em 2024, a razão entre os sexos foi de 3,0 e o pico etário ficou entre 25 e 39 anos.
exames
Painel mínimo da hepatite aguda: anti-HAV IgM, HBsAg com anti-HBc IgM, anti-HCV, além de INR, albumina, bilirrubinas e função renal, que já vieram. Testagem para HIV e sífilis se justifica pela via de transmissão compartilhada.
resultado
Anti-HAV IgM reagente; HBsAg, anti-HBc IgM e anti-HCV não reagentes.
diagnóstico
Hepatite A aguda, confirmada por critério laboratorial. INR de 1,1 e paciente lúcido: não há coagulopatia nem encefalopatia, portanto não é insuficiência hepática aguda.
conduta
Tratamento sintomático para náuseas e prurido, repouso relativo até a normalização das aminotransferases, abstinência de álcool como única restrição dietética e suspensão de hepatotóxicos, inclusive de venda livre. Notificar no Sinan em até sete dias. Investigar contatos domiciliares e parcerias sexuais e vacinar os suscetíveis dentro de 14 dias da exposição. Orientar higiene de mãos, genitália, períneo e região anal antes e após as relações, barreira de látex no sexo oral-anal e luva para dedilhado. Retorno com INR e transaminases.
pegadinha
Nada aqui pede antiviral, corticoide ou dieta hipogordurosa, e a hepatite A não cronifica — não há indicação de repetir sorologia em seis meses para checar cronificação. E não se oferece imunoglobulina aos contatos: o Brasil não dispensa imunoglobulina anti-hepatite A.
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Agora feche você

Mulher de 44 anos, portadora de hepatite C crônica em acompanhamento, chega ao pronto-socorro com icterícia progressiva há seis dias e vômitos. Há duas semanas participou de uma confraternização em que outros três convidados adoeceram com quadro semelhante; um deles teve anti-HAV IgM reagente. Nega álcool e medicações. Ao exame está sonolenta, com flapping presente. Exames: ALT 4.100 U/L, AST 3.650 U/L, bilirrubina total 18,4 mg/dL, INR 4,2, creatinina 1,1 mg/dL, plaquetas 96.000/mm³. A filha de 9 meses, que estava na festa, não tem sintomas.
achado
Icterícia com INR de 4,2 e encefalopatia — flapping e sonolência — configuram a virada que separa hepatite aguda de insuficiência hepática aguda. A hepatopatia crônica prévia é o fator que torna a forma fulminante mais provável nesta paciente.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Ler anti-HAV IgG reagente como prova de que a pessoa já teve hepatite A O anti-HAV IgG aparece na convalescença, persiste indefinidamente e também está presente no indivíduo vacinado. Ele responde 'está protegido', não 'já teve a doença'. Para dizer que a infecção é atual, o marcador é o IgM — detectável a partir do segundo dia de sintomas e ausente depois de três meses.
  2. 2Prescrever dieta pobre em gorduras na hepatite aguda A única restrição dietética é a ingestão de álcool. Repouso é relativo, e o critério para liberá-lo é a normalização das aminotransferases. A alternativa com dieta hipogordurosa erra por acréscimo, e é atraente justamente porque soa inofensiva.
  3. 3Oferecer imunoglobulina específica ao contato domiciliar de hepatite A O elenco brasileiro de imunoglobulinas humanas específicas por via intramuscular tem quatro produtos: antitetânica, anti-hepatite B, antirrábica e antivaricela-zóster. Para hepatite A, a profilaxia pós-exposição disponível é a vacina, até 14 dias, com eficácia de 79%. Fora do Brasil a resposta muda — e é por isso que a pegadinha funciona.
  4. 4Tratar a hepatite A como doença exclusiva de criança e de mau saneamento Em 2024 o pico brasileiro estava entre 25 e 39 anos, com três casos masculinos para cada feminino e taxas de capital várias vezes maiores que as do estado. A leitura antiga faz o candidato escolher 'orientar saneamento e água tratada' quando o enunciado descreve um homem adulto de capital, em que a orientação que falta é a de higiene e barreira no sexo oral-anal.
  5. 5Confundir notificação compulsória regular com notificação imediata As hepatites virais são de notificação compulsória regular, em até sete dias, no Sinan. Não entram no rol das 24 horas. É erro de saúde coletiva embutido numa questão de gastroenterologia, e vale a mesma questão inteira.
  6. 6Achar que a transaminase caindo significa que o paciente melhorou Na insuficiência hepática aguda, a queda das aminotransferases acompanha a necrose maciça: acabou o hepatócito a lisar. O que define gravidade é a dupla INR em elevação e nível de consciência em queda, em quem não tinha doença hepática prévia. Bilirrubina alta isolada não é critério de gravidade.
  7. 7Vacinar contra hepatite A o lactente de 8 meses contactante de um caso A vacina é contraindicada abaixo de 12 meses, e não há imunoglobulina anti-hepatite A no Brasil. Nesse contato a conduta é de higiene, vigilância e afastamento institucional quando indicado — e a orientação diverge do que se faria nos Estados Unidos, onde o lactente receberia imunoglobulina.
  8. 8Usar a janela de oito semanas para decidir a fila de transplante As oito semanas são a definição de hepatite fulminante da vigilância. Para urgência máxima na fila de fígado, a norma vigente fala em encefalopatia até doze semanas após o início da icterícia, sem doença hepática prévia, em paciente internado em UTI e que preencha King's College ou Clichy/Beaujon.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: quadro de hepatite aguda ictérica autolimitada, com pródromo, transaminases muito elevadas e anti-HAV IgM POSITIVO fecham hepatite A aguda; a exposição a frutos do mar (transmissão fecal-oral) reforça. Errada: HBsAg negativo afasta hepatite B aguda. Errada: anti-HCV negativo e apresentação ictérica sintomática tornam hepatite C aguda improvável (esta costuma ser oligossintomática). Errada: colangite cursa com febre alta, dor em hipocôndrio direito e padrão colestático (FA/GGT), não com transaminases na casa dos milhares e sorologia viral positiva. Errada: hepatite autoimune tem curso mais insidioso e exigiria autoanticorpos/hipergamaglobulinemia, não anti-HAV IgM positivo.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Anti-HAV IgM fecha hepatite A; anti-HAV IgG isolado não distingue doença prévia de vacina. Incubação de 15 a 45 dias (média 30); transmite de duas semanas antes dos sintomas ao fim da segunda semana de doença. Não cronifica. Aminotransferases de 25 a 100 vezes o normal nas formas agudas; até 500 UI/L nas viroses tipo mononucleose. Tratamento sintomático, repouso relativo até normalizar as enzimas e única restrição dietética é o álcool. Notificação compulsória regular em até sete dias no Sinan.

em 30 dias

Vacina no calendário: dose única aos 15 meses, até 4 anos, 11 meses e 29 dias, contraindicada abaixo de 12 meses, simultânea a qualquer outra sem intervalo. Crie: duas doses com intervalo de seis meses em hepatopatia crônica, portador do vírus B, coagulopatia, HIV/aids, imunodepressão, doença de depósito, fibrose cística, trissomia, candidato a transplante e transplantado. Pós-exposição: vacina até 14 dias, eficácia de 79% — não há imunoglobulina anti-hepatite A no Brasil. Insuficiência hepática aguda: icterícia, coagulopatia e encefalopatia em até oito semanas pela vigilância; urgência máxima na fila de fígado com encefalopatia até doze semanas do início da icterícia, sem hepatopatia prévia, em UTI, por King's College ou Clichy/Beaujon, priorização por quinze dias renováveis. Em 2024 o Brasil teve 3.538 casos, taxa de 1,7 por 100 mil e razão masculino:feminino de 3,0.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 28 anos chega à UBS com icterícia há três dias, náuseas e urina escura há uma semana. Trabalha em restaurante. Conduza a consulta: caracterize a hepatite aguda, defina o painel de exames, decida se há sinal de gravidade e resolva o que a saúde pública exige — notificação, investigação de fonte e bloqueio dos contatos. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hepatite A e hepatites agudas — Preparatório para provas | OsceLabs