Ginecologia e ObstetríciaGinecologia oncológica, mama e rastreamentos

Descarga papilar e doenças benignas da mama

Doenças benignas da mama e descarga papilar

Diante de secreção pela papila, a prova cobra três adjetivos antes de qualquer exame: espontânea, uniductal, unilateral. Este capítulo monta o fluxograma brasileiro da descarga papilar, separa a mama da hipófise, e resolve a mastalgia — o sintoma mamário que mais assusta e menos investiga.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 42 anos comparece ao ambulatório de mastologia relatando, há três meses, saída espontânea de secreção pela mama direita, que mancha o sutiã e a roupa de dormir. Nega uso de medicamentos, alterações menstruais, trauma local ou perda ponderal. Ao exame, mamas simétricas, sem nódulos palpáveis, retrações ou linfonodomegalia axilar; à expressão, observa-se saída de secreção sero-sanguinolenta por um único orifício ductal do mamilo direito. A mamografia foi classificada como BI-RADS 2 e a ultrassonografia mostra ducto retroareolar dilatado contendo imagem nodular intraductal vascularizada de 6 mm. Assinale o diagnóstico mais provável.

02

Como esse tema cai

Este capítulo cuida da mama que incomoda sem virar nódulo: a que escorre e a que dói. São as duas queixas mamárias que chegam à unidade básica sem massa palpável, e as duas em que a prova testa se você sabe quando parar — porque a conduta certa, na maioria das vezes, é caracterizar bem e não investigar.

A descarga papilar se resolve com três adjetivos colhidos no exame — espontânea, uniductal, unilateral — mais a cor. Nenhum deles pede exame para ser obtido: todos saem da entrevista e da expressão suave da aréola. A partir deles, o caso segue por um de três caminhos: investigação de câncer, investigação de prolactina, ou acompanhamento sem exame nenhum.

A mastalgia tem eixo próprio e um número que a prova adora inverter. Ela quase nunca é câncer, quase nunca precisa de imagem, e o erro clássico não é deixar de pedir mamografia — é pedir.

Fica fora daqui, porque já está escrito: o nódulo palpável, a escolha do exame por idade, a tabela BI-RADS, a punção de cisto, o fibroadenoma e o tumor filoide estão em 'Nódulo mamário e BI-RADS'; o rastreamento da assintomática e as idades do alto risco estão em 'Rastreamento do câncer de mama'; a mastite lactacional e o abscesso da lactante estão em 'Infecção puerperal e mastite'; os cortes de prolactina no contexto de amenorreia estão em 'Fisiologia do ciclo menstrual e o eixo hipotálamo-hipófise-ovário'. Aqui entra apenas o que a descarga e a dor exigem — inclusive quando a resposta é devolver a paciente para um desses capítulos.

03

O que muda decisão

Espontânea, uniductal, unilateral: os três adjetivos que decidem

O fluxograma brasileiro da descarga papilar começa por uma pergunta que não custa nada: a secreção sai sozinha? O Ministério da Saúde manda determinar, no exame, se a descarga é espontânea ou provocada, se é uniductal ou multiductal, e se é uni ou bilateral — e coloca a espontaneidade como primeiro nó de decisão. Descarga que só aparece quando a mulher aperta não é investigada: a conduta escrita é 'provavelmente benigna, orientar não estimular a descarga, reavaliar em 2 a 3 meses' e encaminhar à mastologia apenas se o incômodo for grande.

'Orientar a não estimular' é prescrição, não conselho. A expressão repetida mantém o ducto drenando e perpetua a queixa; parada a manipulação, a maioria das secreções provocadas cessa sozinha. É por isso que o intervalo de reavaliação é de dois a três meses — tempo suficiente para o ducto secar sem estímulo.

Os outros dois adjetivos separam o duto único do sistema inteiro. Secreção que sai por vários orifícios, nas duas mamas, é fenômeno de árvore ductal — sistêmico ou involutivo — e aponta para ectasia ductal ou para hormônio. Secreção que sai por um orifício só, de uma mama só, é fenômeno de lesão dentro de um ducto: papiloma ou carcinoma até prova em contrário.

O protocolo de encaminhamento do SUS transforma esses adjetivos em critério direto. No quadro de sinais altamente sugestivos de câncer de mama, é descarga suspeita a que for 'sanguínea, serossanguínea ou cristalina água de rocha', ou qualquer descarga uniductal ou unilateral espontânea, ou qualquer descarga em mulher com mais de 50 anos. Repare no 'ou': por essa régua, o padrão ductal sozinho basta, sem precisar da cor.

Há um terceiro documento, mais recente e mais enxuto, e ele muda o que se pode chamar de régua vigente. A Nota Técnica nº 626/2025 do Ministério da Saúde lista os sinais e sintomas suspeitos de câncer de mama que indicam referência urgente para confirmação diagnóstica, e o único item de secreção é 'descarga papilar sanguinolenta unilateral' — sem água de rocha, sem o critério uniductal e sem corte de idade. A mesma nota determina que sejam tornadas sem efeito as recomendações anteriores que contenham orientações distintas. O que ela governa, porém, é a fila da referência urgente, não a propedêutica da queixa: descarga espontânea, uniductal e unilateral sem sangue continua exigindo investigação — ela apenas deixou de figurar na lista federal de prioridade máxima. Os três documentos e o que cada banca cobra estão no bloco de divergências.

As cores, uma a uma — e o que cada uma nomeia

Confirmada a espontaneidade, o fluxograma do Ministério da Saúde ramifica pela aparência da secreção, e são três destinos.

Serosa (água de rocha), sanguinolenta ou serossanguinolenta — e o documento acrescenta, no mesmo bloco, mulher com mais de 60 anos — mandam investigar câncer de mama pelo protocolo de detecção precoce, com encaminhamento à mastologia se a investigação não puder ser feita ali. Água de rocha engana porque é transparente e parece inocente: é justamente o descritor clássico de lesão intraductal. Quando houver dúvida se há sangue, o próprio documento indica o teste do Guaiaco, a pesquisa de sangue oculto aplicada à secreção.

Leite ou colostro desvia o caso da mama para o eixo hormonal, e o primeiro passo é grosseiro de propósito: puérpera ou gestante? Havendo dúvida, teste rápido de gravidez. Confirmada a gestação ou a lactação, o rótulo é fisiológico e a conduta é tranquilizar.

Amarelada, esverdeada, amarronzada ou acinzentada volta para o mesmo destino da descarga não espontânea: provavelmente benigna, sem estimular, reavaliar em dois a três meses. Este é o ramo mais mal compreendido do fluxograma, porque contraria a intuição de que secreção escura é sangue velho — e é o ramo que tem nome próprio, tratado adiante: ectasia ductal.

Duas ressalvas fecham o exame físico. A primeira é que o exame clínico das mamas alterado por qualquer outro achado — nódulo, retração, linfonodo — tira o caso do fluxograma da descarga e o manda para avaliação médica direta. A segunda é a lesão da própria aréola: eritema, crostas, pele seca, escoriações e aparência eczematosa configuram suspeita de doença de Paget e vão para a mastologia sem passar por nenhuma outra caixa.

As causas vêm em duas listas — e elas não somam

O quadro de causas do protocolo do Ministério da Saúde é o conteúdo mais cobrável da página, e também o mais fácil de ler errado. Ele traz duas listas, e a diferença entre elas é o denominador.

A primeira lista é a das causas fisiológicas ou patológicas não mamárias — a descarga leitosa ou aquosa bilateral: idiopática em 40% a 50%, galactorreia em 20% a 30%, medicação em 10% a 45%, síndromes anovulatórias em 1% a 2% e lesões de sela túrcica em 1% a 2%.

A segunda lista é a das causas patológicas da mama: papiloma intraductal em 44% dos casos, ectasia ductal em 15% a 20% e câncer de mama em 10% a 15%.

Agora faça a conta que a prova espera que você não faça. Somando apenas os pisos de todas as oito entradas — 40 + 20 + 10 + 1 + 1 + 44 + 15 + 10 — chega-se a 141%. Um único denominador não comporta 141%, e isso prova, sem precisar de nenhuma informação externa, que as duas listas contam populações diferentes: a primeira reparte as descargas leitosas e aquosas bilaterais; a segunda reparte as descargas de origem mamária. Uma alternativa que misture 'papiloma em 44%' com 'idiopática em 40% a 50%' como se fossem fatias do mesmo bolo está errada por aritmética, antes de ser errada por clínica.

Dentro de cada lista as contas também merecem atenção. Na primeira, os pisos somam 72% e os tetos somam 129% — os valores máximos não podem coexistir, o que confirma que são faixas obtidas em séries distintas e não uma partição. Na segunda, os pisos somam 69% e os tetos 79%: sobram de 21 a 31 pontos percentuais para o que o quadro não nomeia. Guarde a hierarquia, que é o que cai: entre as causas mamárias, papiloma na frente, ectasia no meio, câncer por último — e câncer, quando presente, 'normalmente associado a massa e unilateral'.

Papiloma intraductal: a causa mais comum da descarga que assusta

O papiloma intraductal responde por 44% das descargas de origem mamária no quadro do Ministério da Saúde, e vem com três descritores que a prova transforma em vinheta: idade de 45 a 50 anos, 95% uniductal e unilateral, e derrame serossanguinolento em 20% a 50% dos casos.

O segundo número é o que sustenta a regra do capítulo: se 95% dos papilomas se apresentam por um ducto e de um lado só, o padrão ductal é quase específico da lesão intraductal — e é por isso que o protocolo de encaminhamento aceita 'uniductal ou unilateral espontânea' como critério isolado de suspeição.

O terceiro número é o que impede o erro na direção oposta. Se apenas 20% a 50% dos papilomas sangram, então de metade a quatro quintos deles não dão descarga sanguinolenta. Descarga espontânea, uniductal e unilateral sem sangue não afasta papiloma — e, pela régua da regulação, continua sendo descarga suspeita. Quem exige sangue para investigar deixa passar a maioria.

O quadro do Ministério da Saúde acrescenta uma frase de consequência: o papiloma 'pode ser multifocal e conter hiperplasia e células atípicas, aumentando risco de CA de mama nesses casos'. É a ponte com o capítulo de rastreamento — atipia encontrada em lesão benigna muda a categoria de risco da mulher, não apenas o diagnóstico daquela lesão.

Ectasia ductal: a mais comum, a mais colorida e a que não opera

O ramo 'amarelada, esverdeada, amarronzada ou acinzentada' do fluxograma tem nome, e a FEBRASGO o dá: ectasia ductal, a dilatação dos ductos mamários, com dúvida na literatura se é doença ou apenas parte do processo fisiológico de involução da mama. A prevalência explica o tamanho da dúvida — até 75% das peças de necropsia em algumas séries, e cerca de 50% das mulheres na perimenopausa em diferentes graus, com ou sem sintomas.

O quadro clínico é o retrato invertido do papiloma: fluxo espontâneo, bilateral, multiductal e de várias cores — esbranquiçado, amarelado, acastanhado, esverdeado, enegrecido. Repare que 'espontâneo' aparece dos dois lados: espontaneidade sozinha não é sinal de alarme, é o padrão da condição mais banal da mama madura. O que separa uma coisa da outra é o resto da tríade. Dor acompanha com frequência e, em cerca de metade dos casos, há alteração do complexo aréolo-papilar — desvio do eixo e retração da papila.

O quadro do Ministério da Saúde põe a ectasia em 15% a 20% das causas mamárias e a descreve com dois marcadores: mais de 50 anos e secreção opalescente. A idade importa porque é exatamente onde as duas réguas brasileiras se cruzam — a paciente típica de ectasia é a mesma que o protocolo de encaminhamento classificaria como suspeita só pela idade.

O diagnóstico é clínico. Havendo dúvida, o exame que ajuda é a ultrassonografia, que mostra toda a árvore ductal retroareolar; considera-se ectasia quando o diâmetro do ducto é igual ou maior que 5 mm. A mamografia é inespecífica — pode mostrar assimetrias e calcificações retroareolares — e a ressonância tem grande limitação aqui, por gerar muitos falso-positivos por conta do próprio processo inflamatório da doença de base.

O tratamento é clínico, e a cirurgia fica reservada a quatro situações nomeadas: fístulas, abscessos recorrentes, fluxos muito volumosos com desconforto social e a necessidade eventual de diferenciar de câncer. É aqui que entra o critério de regulação correspondente: o protocolo de encaminhamento do SUS lista abscesso subareolar crônico recidivante entre as condições que indicam encaminhamento à mastologia. Note o adjetivo triplo — subareolar, crônico e recidivante: o abscesso agudo da lactante é outra doença e tem capítulo próprio.

Descarga leitosa: quando o problema sai da mama e entra na hipófise

Descarga bilateral de leite ou colostro fora do ciclo gravídico-puerperal é galactorreia, e o fluxograma trata o caso em três degraus, nesta ordem: gestação, medicamento, prolactina.

Gestação primeiro, e com teste rápido se houver dúvida — porque é a causa mais comum, é a mais fácil de confirmar e muda tudo o que vem depois.

Medicamento em seguida, e o protocolo traz a lista fechada dos que mais elevam prolactina: antipsicóticos típicos (haloperidol, clorpromazina, tioridazina, tiotixeno) e atípicos (risperidona, amissulprida, molindona, zotepina); antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, desipramina, clomipramina, amoxapina); inibidores seletivos da recaptação de serotonina (sertralina, fluoxetina, paroxetina) e inibidores da monoaminoxidase (pargilina, clorgilina); buspirona e alprazolam; antieméticos (metoclopramida e domperidona); anti-hipertensivos (metildopa, reserpina, verapamil); opiáceos (morfina); antagonistas H2 (cimetidina e ranitidina); e ainda fenfluramina, fisostigmina e quimioterápicos. A observação que fecha a lista é a que mais rende alternativa: anticoncepcional oral não causa aumento significativo de prolactina, mas o estrogênio aumenta a sensibilidade da mama ao estímulo físico de sucção. Quem responde 'suspender o anticoncepcional' diante de galactorreia está usando o mecanismo errado.

Prolactina por último, e com dois valores. Acima de 100 ng/mL — ou na presença de sintomas visuais, cefaleia persistente ou redução de campos visuais — o fluxograma manda solicitar ressonância de sela túrcica, TSH e creatinina. Entre 20 e 100 ng/mL, o valor pode ser fisiológico, e o passo é suspeitar de hipotireoidismo e de medicamentos e pedir TSH. Elevação sustentada sem causa aparente vai para a endocrinologia.

Duas armadilhas laboratoriais aparecem no protocolo clínico federal da hiperprolactinemia e derrubam quem só decora o corte. A macroprolactinemia é uma ligação anômala da prolactina a imunoglobulinas: o valor sérico sobe, a atividade biológica não, e a paciente é assintomática — deve ser suspeitada justamente quando a dosagem foi um achado casual, sem sintoma. O efeito gancho é o oposto: macroadenomas de 3 cm ou mais podem devolver prolactina falsamente pouco elevada, e se exclui repetindo a dosagem em soro diluído.

O destino administrativo depende do laboratório e está no protocolo de encaminhamento: descarga bilateral leitosa sem hiperprolactinemia, afastadas causas secundárias, vai para a mastologia se a paciente desejar tratamento; com hiperprolactinemia não induzida por medicação, vai para a endocrinologia. O encaminhamento precisa levar os medicamentos em uso e os resultados de prolactina e TSH com data.

A citologia do fluxo decide pouco — e o número nacional mostra por quê

Duas perguntas de prova sobram depois do fluxograma: que exame de imagem pedir, e o que fazer com a citologia da secreção.

A imagem segue a régua da idade que já vale para o nódulo — e está no capítulo 'Nódulo mamário e BI-RADS'. O que muda aqui é a ordem de raciocínio: a imagem entra depois de a descarga ter sido classificada como suspeita, não antes; imagem normal não encerra o caso de uma descarga espontânea, uniductal e unilateral.

A citologia do fluxo é o exame que mais promete e menos entrega, e o INCA publicou o número que mostra isso. Na base nacional do Siscan, entre os exames citopatológicos provenientes de descarga papilar, 2,3% tiveram resultado positivo, suspeito ou indeterminado para malignidade — ou seja, quase 98 de cada 100 citologias de fluxo voltam sem informação que mude conduta. O denominador aqui é o exame, não a paciente: é a fração de citologias colhidas de descarga que apontam para algo.

O mesmo documento dá o outro denominador, o populacional: a descarga papilar é o sinal principal em 2,5% das mulheres sintomáticas encaminhadas à investigação diagnóstica de mama no SUS — uma queixa incomum diante do nódulo, e é por isso que o parâmetro de citopatológico da rede foi dimensionado nesse tamanho.

A consequência prática é a que a prova cobra: citologia negativa não libera a paciente. A conduta do documento do INCA para descarga papilar sem alteração radiológica mas com suspeita clínica — líquido sanguíneo, citologia positiva ou suspeita — é a investigação histopatológica; e, para as que não têm alteração nenhuma nos exames, acompanhamento clínico e radiológico por até dois anos. Quem some do seguimento por causa de uma citologia negativa some com o papiloma junto.

Mastalgia: cíclica, acíclica e a dor que nem vem da mama

O fluxograma da mastalgia tem a mesma arquitetura, e o primeiro nó também é físico: exame clínico das mamas normal? Alterado, sai do fluxograma e vai para avaliação médica. Normal, a próxima pergunta é se a dor é bilateral.

Dor bilateral e cíclica, relacionada à menstruação, é o padrão funcional, e a conduta escrita é um bloco de tranquilização com cinco itens: informar que a maioria dos casos remite espontaneamente; que exames de imagem são desnecessários; analgesia simples ou anti-inflamatório tópico se necessário; sutiã adequado; e reavaliação em um mês. Repare no 'tópico' — o documento não prescreve anti-inflamatório sistêmico como primeiro passo.

Dor bilateral não cíclica ganha uma etapa antes: buscar causa hormonal — tumores ovarianos, gestação — e revisar medicação, com duas condutas distintas escritas lado a lado. Se a mulher usa terapia hormonal, avaliar suspensão; se usa anticoncepcional oral, reduzir a dose de estrogênio ou avaliar outro método. Só depois disso o caso entra no mesmo bloco de tranquilização.

Dor unilateral, de localização específica e pontual, sai por outro ramo. Sem história de trauma, investiga-se com ultrassonografia abaixo de 30 anos e mamografia mais ultrassonografia, se necessário, acima de 30. Com história de trauma, a conduta é observação, suporte adequado, calor local e analgesia, reavaliando em uma semana — e, se não melhorar, seguindo a mesma investigação por imagem.

O número que fecha a seção é o mais cobrado e o mais invertido: o documento escreve que apenas 2% dos casos de câncer de mama se apresentaram como mastalgia. Leia o denominador: são casos de câncer, não casos de dor. A frase diz que a dor é uma forma rara de o câncer se apresentar; ela não diz que 2% das mulheres com dor mamária têm câncer. A probabilidade que interessa à paciente da unidade básica — a de câncer em quem tem dor isolada, sem nódulo e com exame normal — é outro número, tratado no capítulo 'Nódulo mamário e BI-RADS', e é ainda menor. Trocar um pelo outro é a armadilha padrão do tema.

Persistindo a dor, o fluxograma prescreve anticoncepcional oral de baixa dosagem e encaminha à mastologia para eventual prescrição de tamoxifeno, danazol ou bromocriptina. Vale notar a tensão interna do próprio documento: no ramo da dor não cíclica ele manda reduzir o estrogênio de quem usa anticoncepcional, e no fim da linha prescreve anticoncepcional de baixa dosagem a quem não usava — são condutas coerentes apenas se lidas como 'ajustar a dose hormonal', em qualquer direção, e não como 'estrogênio faz bem' ou 'estrogênio faz mal'. O documento também escreve que o encaminhamento à mastologia cabe a '10% dos casos', sem dizer de que total.

O que a farmácia do SUS entrega — e o que ela não entrega

Os três fármacos que o fluxograma nomeia para a mastalgia refratária existem no Brasil, mas nenhum deles é o comprimido da farmácia básica, e a Rename mostra onde cada um mora.

Tamoxifeno não consta da Rename 2024. Busca no documento inteiro não retorna o fármaco — nem ele, nem anastrozol, letrozol, paclitaxel, doxorrubicina ou trastuzumabe. Não é esquecimento: os antineoplásicos no SUS são financiados por procedimento oncológico, dispensados pelos serviços habilitados em oncologia, e por isso ficam fora da relação de medicamentos essenciais. Some-se a isso o escopo do registro: a bula profissional do citrato de tamoxifeno declara indicação para tratamento do câncer de mama, e a gravidez é contraindicação formal. O uso em mastalgia é fora de bula, em mulheres em idade reprodutiva.

Danazol consta, no Componente Especializado, em cápsulas de 100 mg e 200 mg, grupo de financiamento 1B, com quatro documentos norteadores: os protocolos clínicos de angioedema associado à deficiência de C1 esterase, de endometriose, de lúpus eritematoso sistêmico e de púrpura trombocitopênica idiopática. Mastalgia não está entre eles.

Mesilato de bromocriptina consta, também no Componente Especializado, em comprimidos de 2,5 mg, grupo 1B, com um único documento norteador: o protocolo clínico da hiperprolactinemia. Ou seja: no desenho do SUS, a bromocriptina é medicamento da galactorreia com prolactina alta, não da dor mamária.

A leitura útil não é decorar a tabela — é entender a arquitetura. Quando o enunciado descrever uma paciente da atenção básica e oferecer 'iniciar tamoxifeno' ou 'iniciar danazol' entre as alternativas, a resposta esperada é o degrau anterior: caracterizar, tranquilizar, ajustar o hormônio que ela já usa, e encaminhar. O fluxograma federal atribui a prescrição desses fármacos ao especialista, não à equipe da unidade — está escrito 'encaminhar à mastologia' antes de qualquer um dos três nomes.

Cabergolina e bromocriptina: a única prescrição que a rede tem pronta

Se o caminho da descarga leitosa terminar em hiperprolactinemia confirmada, aí sim existe tratamento padronizado — e ele é do protocolo clínico federal, não do fluxograma da atenção básica.

Cabergolina é a primeira escolha para a maioria dos pacientes, por melhor tolerância e maior efetividade: normaliza a prolactina em 76,5% a 93% dos casos e reduz o tumor em 67% a 92%. A bromocriptina, usada há mais de 25 anos, normaliza em 48% a 72% e reduz cerca de 70% dos macroprolactinomas, com efeitos adversos em 20% a 78% dos usuários. A suspensão do tratamento por efeito adverso é de cerca de 12% com bromocriptina contra 4% com cabergolina.

A exceção é a única que costuma cair: bromocriptina fica reservada para mulheres com hiperprolactinemia e desejo de engravidar, pela maior experiência acumulada em gestantes — o protocolo registra cerca de 6.000 gestações relatadas com bromocriptina contra 1.200 com cabergolina. Numa vinheta de mulher com galactorreia, prolactina alta e desejo de gestar, a resposta troca de fármaco.

As posologias merecem a conta feita, porque a prova gosta de esquema. A cabergolina existe em comprimido de 0,5 mg e é semanal: o início pode ser 0,25 mg duas vezes por semana ou 0,5 mg uma vez por semana — os dois esquemas entregam exatamente 0,5 mg por semana, meio comprimido partido em duas tomadas ou um comprimido inteiro numa. Os incrementos são de 0,25 mg a 1 mg duas vezes por semana, respeitando intervalo mínimo de quatro semanas; a dose usual fica entre 1 e 2 mg por semana, e o teto é 4,5 mg por semana. Da dose inicial ao teto, no ritmo mais rápido permitido, são pelo menos duas subidas e, portanto, pelo menos oito semanas.

A bromocriptina existe em comprimido de 2,5 mg: inicia-se com 1,25 mg — meio comprimido — após o jantar ou ao deitar, por uma semana; depois 1,25 mg duas vezes ao dia, o que fecha um comprimido diário. Os incrementos são de 2,5 mg a cada três a sete dias, até o limite de 20 mg ao dia. São sete incrementos entre 2,5 e 20 mg: chegar ao teto leva de 21 a 49 dias.

Uma advertência de escopo, porque esses percentuais viajam mal: eles descrevem pacientes com hiperprolactinemia e prolactinoma em tratamento, não mulheres com descarga leitosa na unidade básica. E os critérios de exclusão do protocolo confirmam a direção do capítulo — ficam fora dele o hipotireoidismo primário, a hiperprolactinemia secundária a medicamento, a gestação e a amamentação. Todos os desvios que o fluxograma da descarga papilar manda afastar antes de chegar até aqui.

Esquema comparando descarga por um único ducto de uma mama, com lesão intraductal, e descarga por vários ductos das duas mamas, com secreção de várias cores.
O padrão ductal separa as duas histórias antes de qualquer exame: um orifício e um lado apontam para lesão dentro do ducto; vários orifícios e os dois lados apontam para a árvore ductal inteira.
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Descarga papilar: dos três adjetivos à conduta

A sequência que resolve a maioria das questões: caracterizar antes de investigar. Todos os dados que decidem o caso saem da entrevista e do exame — espontaneidade, número de ductos, lateralidade, cor — e nenhum deles depende de exame complementar. A imagem entra depois da classificação, nunca antes dela.

  1. 1Acolhimento e exame completo das mamas, incluindo axilas e a expressão suave da aréola; no exame geral, avaliar campos visuais. Procurar lesão de aréola ou papila que possa ser a causa — eritema, crostas, escoriações e aparência eczematosa levantam doença de Paget e vão direto à mastologia.
  2. 2Exame clínico das mamas normal, exceto pela descarga? Se houver qualquer outro achado — nódulo, retração, linfonodo, alteração de pele —, o caso sai deste fluxo e vai para avaliação médica e investigação de câncer.
  3. 3A descarga é espontânea? Se só aparece à expressão, é provavelmente benigna: orientar a NÃO estimular a descarga e reavaliar em 2 a 3 meses; encaminhar à mastologia apenas se o incômodo for grande.
  4. 4Sendo espontânea, classificar pela aparência. Serosa (água de rocha), sanguinolenta ou serossanguinolenta — em dúvida, teste do Guaiaco — ou mulher acima de 60 anos: investigar câncer de mama; encaminhar à mastologia se a investigação não puder ser feita no serviço.
  5. 5Leite ou colostro: primeiro gestação (teste rápido em caso de dúvida); depois medicamento (Lista 1); depois prolactina e TSH. Amarelada, esverdeada, amarronzada ou acinzentada: provavelmente benigna, mesmo espontânea — reavaliar em 2 a 3 meses.
  6. 6Antes de encaminhar, conferir as duas outras réguas. A da regulação é mais larga: pelo protocolo de encaminhamento para Mastologia, é suspeita qualquer descarga uniductal ou unilateral espontânea, de qualquer cor, e qualquer descarga em mulher com mais de 50 anos. A federal vigente é mais estreita: a Nota Técnica nº 626/2025 arrola, entre os sinais de referência urgente, apenas a descarga papilar sanguinolenta unilateral — e acrescenta à lista a mastite ou inflamação que não melhora após curso adequado de antibiótico.

Espontânea + uniductal + unilateral

A tríade que tira o caso do acompanhamento e o põe na investigação. Papiloma intraductal é a causa mais frequente (44% das descargas mamárias) e é uniductal e unilateral em 95% dos casos. Não exija sangue: só 20% a 50% dos papilomas dão derrame serossanguinolento, e o protocolo de encaminhamento aceita o padrão ductal como critério isolado de suspeição.

Espontânea + multiductal + bilateral + colorida

O retrato da ectasia ductal — presente em até 75% das peças de necropsia e em cerca de metade das mulheres na perimenopausa. Secreção esbranquiçada, amarelada, acastanhada, esverdeada ou enegrecida; dor e retração da papila em cerca de metade dos casos. Ultrassom com ducto de 5 mm ou mais confirma. Conduta clínica: cirurgia só para fístula, abscesso recorrente, fluxo muito incômodo ou dúvida com câncer.

Leitosa + bilateral + multiductal

Sai da mama e entra no eixo hormonal, nesta ordem: gestação (teste rápido), medicamento (Lista 1) e prolactina com TSH. Acima de 100 ng/mL, ou com sintoma visual, cefaleia persistente ou perda de campo, pede-se ressonância de sela, TSH e creatinina. Entre 20 e 100 ng/mL o valor pode ser fisiológico. Anticoncepcional oral não eleva prolactina de forma significativa.

Aparência da secreção: o que cada cor nomeia e o que ela dispara

AparênciaPadrão típicoHipótese principalConduta pelo fluxograma do MS
Serosa (água de rocha)Espontânea, uniductal, unilateralLesão intraductal — papiloma ou carcinomaInvestigar câncer de mama; mastologia se não puder investigar
Sanguinolenta ou serossanguinolentaEspontânea, uniductal, unilateralPapiloma intraductal (20% a 50% dos papilomas sangram)Investigar câncer de mama; teste do Guaiaco em caso de dúvida
Leite ou colostroEspontânea, multiductal, bilateralGestação, lactação, medicamento, hiperprolactinemiaTeste de gravidez; revisar fármacos (Lista 1); prolactina e TSH
Amarelada, esverdeada, amarronzada, acinzentadaEspontânea, multiductal, bilateral, várias coresEctasia ductal (>50 anos, secreção opalescente)Provavelmente benigna; não estimular; reavaliar em 2 a 3 meses
Qualquer cor, só à expressãoProvocadaEstímulo mecânico repetidoProvavelmente benigna; orientar a não estimular; reavaliar em 2 a 3 meses
Qualquer cor, com lesão eczematosa da aréolaUnilateral, com alteração da peleDoença de PagetEncaminhar à mastologia

Causas de descarga papilar: duas listas, dois denominadores (MS, 2016)

ListaCausaFrequência
Não mamárias (descarga leitosa ou aquosa bilateral)Idiopática40% a 50%
Não mamárias (descarga leitosa ou aquosa bilateral)Galactorreia20% a 30%
Não mamárias (descarga leitosa ou aquosa bilateral)Medicação10% a 45%
Não mamárias (descarga leitosa ou aquosa bilateral)Síndromes anovulatórias1% a 2%
Não mamárias (descarga leitosa ou aquosa bilateral)Lesões de sela túrcica1% a 2%
Patológicas da mamaPapiloma intraductal (45 a 50 anos; 95% uniductal e unilateral)44%
Patológicas da mamaEctasia ductal (>50 anos; secreção opalescente)15% a 20%
Patológicas da mamaCâncer de mama (em geral com massa, unilateral)10% a 15%

Onde cada fármaco citado mora no SUS (Rename 2024)

FármacoApresentação e componenteDocumento norteador
TamoxifenoNão consta da Rename 2024Antineoplásico financiado por procedimento oncológico; bula indica tratamento do câncer de mama
Danazol100 mg e 200 mg cápsula — Especializado, grupo 1BPCDT de angioedema por deficiência de C1 esterase, endometriose, lúpus e púrpura trombocitopênica idiopática
Mesilato de bromocriptina2,5 mg comprimido — Especializado, grupo 1BPCDT da Hiperprolactinemia
Cabergolina0,5 mg comprimido — Especializado, grupo 1APCDT da Acromegalia e PCDT da Hiperprolactinemia

As duas listas de causas do quadro do Ministério da Saúde não compartilham denominador: somando apenas os pisos das oito entradas chega-se a 141%. A primeira lista reparte as descargas leitosas e aquosas bilaterais; a segunda, as de origem mamária.

No PDF do protocolo, o traçado do Fluxograma 9 não acompanha o conteúdo: a seta que parte da caixa de secreção suspeita chega ao losango 'puérpera ou gestante?', o balão 'Investigação para CA de Mama' fica sem seta de entrada e a caixa 'leite ou colostro' fica sem seta de saída. O que a prova cobra é o conteúdo das caixas, e ele é inequívoco — sangue e água de rocha vão para investigação de câncer; leite vai para o teste de gravidez.

São três listas de sinais de alerta com larguras diferentes, e a mais recente é a mais estreita: o fluxograma de 2016 decide pela cor e usa 60 anos; o protocolo de encaminhamento para Mastologia acrescenta 'uniductal ou unilateral espontânea' e baixa a idade para 50 anos; a Nota Técnica nº 626/2025 reduz o critério de secreção a 'sanguinolenta unilateral' e determina que as orientações anteriores distintas sejam tornadas sem efeito. Diante de um caso real, referência urgente segue a nota de 2025 e a investigação segue a clínica; diante de uma questão, veja o bloco de divergências.

Nada aqui se aplica à lactante. Mastite, abscesso da amamentação e as intercorrências do aleitamento têm régua e capítulo próprios.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O que torna uma descarga papilar suspeita: a cor, o ducto, a idade — e qual lista vale hoje?

Decide pela cor; idade de corte 60 anos — Ministério da Saúde (2016)

No Fluxograma 9, confirmada a espontaneidade, a decisão é tomada pela aparência da secreção. Serosa (água de rocha), sanguinolenta ou serossanguinolenta — ou mulher com mais de 60 anos — levam à investigação de câncer de mama. Secreção amarelada, esverdeada, amarronzada ou acinzentada leva ao mesmo destino da descarga não espontânea: provavelmente benigna, orientar a não estimular, reavaliar em 2 a 3 meses, e mastologia apenas se houver muito incômodo. O padrão uniductal e a lateralidade são colhidos no exame, mas não constituem nó de decisão do fluxograma.

BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, item 4.2, Fluxograma 9 (p. 45).

Decide pelo ducto; idade de corte 50 anos — TelessaúdeRS-UFRGS (2020), adaptado do MS e do INCA

O Quadro 1 define descarga papilar suspeita por três critérios alternativos: ser sanguínea, serossanguínea ou cristalina 'água de rocha'; ou ser qualquer descarga papilar uniductal ou unilateral espontânea; ou ser qualquer descarga papilar em mulher com idade superior a 50 anos. Achado do quadro indica encaminhamento a serviço de Oncologia, com preferência de agenda. A cor deixa de ser condição necessária: o padrão ductal e a idade bastam isoladamente.

TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento para Mastologia, revisado em 5 fev. 2020, Quadro 1 — Sinais e sintomas mamários altamente sugestivos de câncer de mama, adaptado de Ministério da Saúde (2013) e INCA (2015).

Só a sanguinolenta unilateral, sem corte de idade — Nota Técnica nº 626/2025 do Ministério da Saúde

A nota lista os sinais e sintomas suspeitos de câncer de mama que indicam referência urgente para confirmação diagnóstica, e o único item relativo a secreção é 'descarga papilar sanguinolenta unilateral' (item 2.9) — sem menção a secreção cristalina, ao padrão uniductal ou a qualquer corte de idade. A lista inclui ainda nódulo endurecido e fixo ou que aumenta, em mulheres adultas de qualquer idade; lesão eczematosa que não responde a tratamento tópico, pele em casca de laranja ou retração; linfadenopatia axilar endurecida; aumento progressivo da mama com edema ou vermelhidão; mudança no formato do mamilo; homens com tumoração palpável unilateral; e mastite ou inflamação que não melhora após curso adequado de antibiótico. O item 3.1 determina que a nota seja usada como documento orientativo até a publicação de novas diretrizes nacionais, devendo ser tornadas sem efeito todas as recomendações anteriores com orientações distintas. Seu objeto declarado é o acesso à mamografia e a priorização da referência urgente.

BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS — Acesso ao exame de mamografia no âmbito do SUS, itens 2.6 a 2.16 e 3.1.

Na prova

Este é item de calendário com três documentos, e o enunciado sempre entrega qual deles está sendo cobrado. Vinheta de consulta na unidade básica que reproduz a sequência espontânea → cor está no Protocolo da Atenção Básica de 2016: secreção esverdeada ou acastanhada é provavelmente benigna e o corte de idade é 60 anos. Vinheta de regulação, fila ou 'sinais altamente sugestivos de câncer de mama' está no protocolo de encaminhamento: basta ser uniductal ou unilateral espontânea, de qualquer cor, ou a mulher ter mais de 50 anos. Enunciado que fale em acesso à mamografia no SUS, priorização de marcação ou referência urgente, ou que cite documento de 2025, está na Nota Técnica nº 626 — e aí o único critério de secreção é a descarga sanguinolenta unilateral. Como a nota de 2025 manda tornar sem efeito as orientações anteriores distintas, é ela a régua federal vigente para a fila da referência urgente; mas o material didático das bancas ainda reproduz largamente as duas listas antigas, e nenhuma delas está clinicamente errada. Regra prática: se a alternativa correta depende de 'água de rocha' ou de um corte de idade, a questão está ancorada em 2016 ou 2020, e é isso que o enunciado precisa deixar claro.

Quando pedir imagem de sela túrcica na mulher com descarga leitosa e prolactina alta

Só acima de 100 ng/mL (ou com sintoma neuro-oftalmológico) — Ministério da Saúde (2016)

O fluxograma estratifica a conduta pelo valor: prolactina acima de 100 ng/mL, ou sintomas visuais, cefaleia persistente e redução de campos visuais, indicam ressonância nuclear magnética de sela túrcica, TSH e creatinina. Valores entre 20 e 100 ng/mL podem ser fisiológicos, devendo-se suspeitar de hipotireoidismo e de medicamentos e solicitar TSH. Elevação sustentada de prolactina, sem causa aparente, encaminha-se à endocrinologia — sem que o documento peça imagem nessa faixa.

BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, item 4.2, Fluxograma 9 (p. 45), caixa de dosagem sérica de prolactina.

Em toda hiperprolactinemia confirmada, após afastar causas secundárias — PCDT do Ministério da Saúde (2020)

O protocolo determina que, uma vez confirmada a hiperprolactinemia e afastadas causas medicamentosas, fisiológicas, hipotireoidismo primário e insuficiências renal e hepática, o paciente deve ser submetido a ressonância magnética de hipófise para avaliar a presença de prolactinoma, sem estabelecer valor mínimo de prolactina. A tomografia é alternativa quando a ressonância for impossível ou contraindicada, e imagem normal não exclui microprolactinoma. Os próprios critérios de inclusão do protocolo pressupõem o exame de imagem realizado.

BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperprolactinemia, Portaria Conjunta SCTIE/SAES/MS nº 19, de 23 nov. 2020, item 3.4 (diagnóstico etiológico).

Na prova

Repare no nível de atenção que o enunciado descreve. Vinheta de unidade básica, com valor de prolactina no enunciado e alternativas do tipo 'solicitar ressonância' contra 'solicitar TSH e revisar medicações', está cobrando o fluxograma de 2016 e o corte de 100 ng/mL. Vinheta ambulatorial que já afastou gravidez, fármacos, hipotireoidismo e insuficiências renal e hepática, ou que cita o protocolo clínico da hiperprolactinemia, está cobrando a régua de 2020, em que a imagem é etapa obrigatória do diagnóstico etiológico e não depende de valor. O ponto em que as duas coincidem, e que nunca é distrator: sintoma visual, cefaleia persistente ou perda de campo visual mandam imagem em qualquer régua.

06

Caso resolvido

Mulher de 47 anos procura a unidade básica porque, há dois meses, mancha o sutiã do lado direito. Refere que a secreção sai sozinha, sempre pelo mesmo ponto do mamilo, e que é transparente, 'como água'. Nega dor, nódulo, trauma, cirurgia mamária, gestação atual e uso de medicamentos contínuos. Ciclos menstruais regulares. Ao exame, mamas simétricas, sem nódulos palpáveis, sem alterações de pele ou da aréola, axilas livres; à expressão suave da aréola direita, sai secreção clara por um único orifício. Campos visuais normais à avaliação de confrontação.
achado
A descrição fecha os três adjetivos que decidem: espontânea (mancha a roupa sem manipulação), uniductal (sempre pelo mesmo orifício) e unilateral. O exame clínico das mamas é normal exceto pela descarga, o que mantém o caso dentro do fluxograma da descarga papilar em vez de mandá-lo direto à avaliação de nódulo.
cor
Secreção clara e transparente é a 'água de rocha' do documento — descritor de lesão intraductal, não de secreção inocente. Havendo qualquer dúvida sobre a presença de sangue, o próprio protocolo indica o teste do Guaiaco. Não é leite nem colostro, então o caso não desvia para o eixo da prolactina: dosar prolactina aqui é o exame errado.
conduta
Investigação para câncer de mama, com imagem pela régua da idade (47 anos: mamografia, com ultrassonografia complementar), e encaminhamento à mastologia caso a investigação não possa ser realizada no serviço. Pelo protocolo de encaminhamento para Mastologia, esta descarga é 'suspeita' por dois critérios independentes — água de rocha e padrão uniductal/unilateral espontâneo. Já pela lista federal vigente de referência urgente, a Nota Técnica nº 626/2025, ela não entra: o único item de secreção ali é a sanguinolenta unilateral. Investigar segue sendo obrigatório; o que a nota de 2025 decide é a prioridade de marcação, não a indicação.
seguimento
Imagem sem alteração NÃO encerra o caso. A hipótese principal é papiloma intraductal — 44% das descargas de origem mamária, com pico entre 45 e 50 anos —, e ele pode não aparecer na mamografia. Citologia do fluxo negativa também não libera: na base nacional, apenas 2,3% dos citopatológicos colhidos de descarga papilar vêm positivos, suspeitos ou indeterminados. Persistindo descarga espontânea uniductal com imagem normal, mantém-se a investigação e o acompanhamento, e a avaliação especializada decide sobre o diagnóstico tecidual.
07

Agora feche você

Mulher de 33 anos, com dois filhos, queixa-se de saída de secreção esbranquiçada pelas duas mamas há cerca de quatro meses. A secreção sai sozinha, por vários pontos de cada mamilo. Amamentou o último filho até dois anos atrás. Refere que a menstruação ficou irregular no último semestre e que perdeu interesse sexual. Nega cefaleia e alterações visuais. Está em uso de risperidona há oito meses, prescrita pelo serviço de saúde mental. Ao exame, mamas sem nódulos, sem alterações de pele ou de aréola; à expressão, sai secreção leitosa bilateral e multiductal. Teste de gravidez negativo.
achado
Descarga espontânea, bilateral, multiductal e leitosa: padrão de árvore ductal inteira, não de lesão intraductal. Somam-se sinais de hipogonadismo — irregularidade menstrual e queda de libido —, que o fluxograma usa como gatilho para dosar prolactina.
primeiro passo
Gestação já foi afastada com teste negativo. O degrau seguinte do fluxograma é o medicamento: risperidona está nominalmente na Lista 1 dos fármacos de alto risco para elevar prolactina, e o protocolo clínico federal registra que risperidona e metoclopramida podem levar a níveis acima de 200 ng/mL — ou seja, um valor alto neste caso não prova tumor.
armadilha
O anticoncepcional que ela porventura use não explica o quadro: o próprio documento anota que anticoncepcionais orais não causam aumento significativo de prolactina, apenas aumentam a sensibilidade da mama ao estímulo de sucção. Trocar o método contraceptivo é conduta errada aqui.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler os 2% da mastalgia de trás para frente O documento escreve que apenas 2% dos casos de câncer de mama se apresentaram como mastalgia — denominador: casos de câncer. Não é 'a chance de câncer em quem tem dor'. Uma alternativa que ofereça 'cerca de 2% das mulheres com mastalgia terão câncer de mama' inverte o denominador. A probabilidade de câncer em dor isolada, com exame normal, é ainda menor e está no capítulo 'Nódulo mamário e BI-RADS'.
  2. 2Somar as duas listas de causas de descarga Papiloma 44%, ectasia 15% a 20% e câncer 10% a 15% pertencem à lista das causas mamárias; idiopática 40% a 50%, galactorreia 20% a 30% e medicação 10% a 45% pertencem à lista das causas não mamárias. Somar as oito entradas pelos pisos dá 141% — impossível num denominador só. Alternativa que mistura as duas listas está errada por aritmética.
  3. 3Exigir sangue para investigar Só 20% a 50% dos papilomas intraductais dão derrame serossanguinolento, e a secreção 'água de rocha' é transparente. Descarga espontânea, uniductal e unilateral segue exigindo investigação mesmo sem sangue: o fluxograma de 2016 e o protocolo de encaminhamento a classificam como suspeita, e o fato de a Nota Técnica nº 626/2025 restringir a lista de REFERÊNCIA URGENTE à secreção sanguinolenta unilateral não a transforma em achado banal — muda a fila, não a propedêutica. Distrator clássico: liberar a paciente porque 'a secreção era clara'.
  4. 4Tratar espontaneidade como sinal de alarme isolado Ectasia ductal — presente em até metade das mulheres na perimenopausa — cursa exatamente com fluxo espontâneo, bilateral, multiductal e colorido. Espontaneidade sozinha não decide nada: ela apenas tira o caso do ramo 'não estimular e reavaliar'. Quem investiga toda descarga espontânea investiga metade da perimenopausa.
  5. 5Pedir imagem na mastalgia cíclica bilateral com exame normal O fluxograma é explícito: exames de imagem são desnecessários nesse cenário. A imagem entra quando a dor é de localização específica e pontual — ultrassonografia abaixo de 30 anos, mamografia com ultrassonografia se necessário acima de 30 — ou quando o exame clínico está alterado. Alternativa que manda mamografar a mulher de 28 anos com dor cíclica bilateral e exame normal é o distrator preferido do tema.
  6. 6Culpar o anticoncepcional pela galactorreia O protocolo anota, na própria Lista 1, que anticoncepcionais orais não causam aumento significativo da prolactina — o estrogênio apenas aumenta a sensibilidade da mama ao estímulo de sucção. Diante de galactorreia com irregularidade menstrual, o que se revisa são antipsicóticos, tricíclicos, antieméticos, anti-hipertensivos como metildopa e antagonistas H2, não a pílula.
  7. 7Prescrever tamoxifeno ou danazol na unidade básica O próprio fluxograma condiciona esses fármacos ao encaminhamento à mastologia. E a rede confirma a divisão: tamoxifeno não consta da Rename 2024 e tem indicação de bula restrita ao tratamento do câncer de mama; danazol e bromocriptina existem apenas no Componente Especializado, vinculados a protocolos clínicos que não incluem mastalgia.
  8. 8Confundir a mama que dói com a mama que infecta Mastalgia é dor sem inflamação. Mastite e abscesso da lactante são outra doença, com outro capítulo e outro antibiótico. O que pertence a este tema é o abscesso subareolar crônico recidivante — complicação da ectasia ductal, critério de encaminhamento à mastologia, e situação em que a cirurgia deixa de ser opcional.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade descarga espontânea + unilateral + uniductal + sero-sanguinolenta, com nódulo intraductal vascularizado em ducto retroareolar dilatado à ultrassonografia, é a apresentação clássica do papiloma intraductal, causa mais frequente de descarga papilar sanguinolenta em mulher na quinta década. Ectasia ductal cursa com descarga espessa, esverdeada/acastanhada, tipicamente multiductal e bilateral, sem nódulo intraductal. A mastopatia fibrocística causa mastalgia cíclica e nodularidade difusa, não descarga sanguinolenta uniductal. A hiperprolactinemia produz galactorreia láctea, bilateral e multiductal, não secreção sanguinolenta unilateral.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória a árvore da descarga papilar em quatro perguntas: exame clínico normal exceto pela descarga? espontânea? qual a cor? qual o padrão ductal? Depois escreva os números: papiloma 44%, ectasia 15% a 20%, câncer 10% a 15% na lista mamária; idiopática 40% a 50%, galactorreia 20% a 30%, medicação 10% a 45% na lista não mamária — e a soma dos pisos, 141%, que prova que são dois denominadores. Fixe os cortes de idade e a ordem em que apareceram — 60 anos no fluxograma de 2016, 50 anos no protocolo de encaminhamento, nenhum na Nota Técnica nº 626/2025, que reduz o critério de secreção à sanguinolenta unilateral —, os dois de prolactina (20 a 100 e acima de 100 ng/mL), o 5 mm do ducto na ultrassonografia e os 2% da mastalgia com o denominador certo.

em 30 dias

Monte quatro vinhetas mentais e resolva cada uma em três frases: (1) 47 anos, água de rocha, um ducto, um lado — investigação de câncer, e imagem normal não encerra; (2) 58 anos, secreção esverdeada, vários ductos, duas mamas — ectasia, acompanhar, e reconhecer que a régua da regulação a chamaria de suspeita pela idade; (3) 33 anos, leitosa bilateral em uso de risperidona — gravidez, fármaco, prolactina e TSH, sem imagem; (4) 28 anos, dor bilateral cíclica com exame normal — tranquilizar, sutiã, analgesia simples, reavaliar em um mês, sem imagem nenhuma. Depois releia o capítulo 'Nódulo mamário e BI-RADS' para não misturar as duas portas de entrada.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 46 anos chega à unidade básica dizendo que mancha o sutiã de um lado só. Conduza a consulta: caracterize a secreção em espontaneidade, número de ductos, lateralidade e cor antes de pedir qualquer exame, examine as duas mamas e as axilas, procure lesão de aréola, e decida entre investigar câncer, investigar prolactina ou reavaliar em dois a três meses — dizendo à paciente, com as suas palavras, por que a conduta escolhida não é 'não fazer nada'. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doenças benignas da mama e descarga papilar – Descarga papilar e doenças benignas da mama — Preparatório para provas | OsceLabs