Ginecologia e ObstetríciaGinecologia oncológica, mama e rastreamentos

Lesões precursoras do colo (NIC) e câncer invasor

Lesões precursoras cervicais (NIC) e câncer de colo uterino invasor

Este capítulo começa onde o rastreamento termina: com a biópsia na mão. Grau da lesão define o tratamento, tipo de zona de transformação define a profundidade da excisão, e o laudo das margens define o seguimento — três decisões encadeadas que a prova cobra separadas.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 38 anos realiza colpocitologia de rotina, cujo resultado é lesão intraepitelial escamosa de alto grau (HSIL). Está assintomática e sem lesões macroscópicas ao exame especular. Qual é a conduta subsequente mais apropriada diante desse resultado citológico?

02

Como esse tema cai

O rastreamento entrega uma suspeita; quem dá o diagnóstico é a histologia. Citologia alterada e teste de DNA-HPV positivo são bilhetes de encaminhamento — dizem que vale olhar o colo com o colposcópio, não o que a mulher tem. Este capítulo pega o caso na etapa seguinte: colposcopia feita, biópsia (ou peça de excisão) no laudo, e uma decisão a tomar. Quem rastreia quem, de quanto em quanto tempo e o que fazer com cada laudo citológico é o assunto do capítulo de rastreamento do colo do útero.

A régua brasileira aqui tem duas metades de idades diferentes, e isso explica quase toda a confusão de prova. A conduta nas lesões precursoras — NIC I, NIC II, NIC III, adenocarcinoma in situ — continua saindo das Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero do INCA, 2ª edição, de 2016: prazos de seguimento, tipos de excisão, critérios de 'Ver e Tratar' e o que fazer com margem comprometida. A atualização de 2025 do Ministério da Saúde é a Parte I e trata de rastreamento com teste molecular; a parte que trataria do manejo das lesões confirmadas ainda não foi publicada. Já o estadiamento e o tratamento do carcinoma invasor rodam pela classificação FIGO de 2018, posterior ao documento do INCA — e é dessa defasagem de dois anos que nasce a divergência numérica mais cobrada do tema.

O que a prova pede, na prática, são três decisões encadeadas e três armadilhas. Decisões: o grau histológico define se trata ou acompanha; o tipo de zona de transformação define a profundidade da excisão; o laudo das margens define o calendário do seguimento. Armadilhas: NIC I confirmada por biópsia não é doença para tratar, 'Ver e Tratar' tem quatro condições e quem não as preenche fica de fora, e lesão glandular (AIS) não se resolve com excisão rasa. O carcinoma invasor entra no fim, com o estadiamento FIGO 2018 e a linha divisória que organiza o tratamento inteiro: até onde se opera, a partir de onde se irradia.

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O que muda decisão

Três nomenclaturas para o mesmo epitélio — e por que isso importa na conduta

O colo do útero é o único órgão em que o mesmo espectro de doença recebeu três nomes em três épocas, e os três continuam circulando em laudo e em prova. A nomenclatura de Richart criou a neoplasia intraepitelial cervical em três graus, por altura do epitélio acometido: NIC I ocupa o terço inferior, NIC II até dois terços, NIC III a espessura total sem romper a membrana basal. O sistema Bethesda, que é de citologia, comprimiu isso em dois: LSIL corresponde ao que a histologia chama NIC I, e HSIL abriga NIC II e NIC III juntos. A histologia moderna também adotou dois graus (LSIL/HSIL) — mas o laudo brasileiro, e as Diretrizes do INCA de 2016 com ele, seguem escrevendo NIC I, II e III. Ler 'HSIL' num laudo sem saber se é citologia ou histologia é errar o capítulo inteiro.

A distinção não é acadêmica porque a conduta muda de acordo com o tipo de exame que produziu a palavra. Citologia é rastreamento e tem erro conhecido: de cada 100 mulheres com laudo citológico de HSIL, cerca de 70 a 75 terão confirmação histológica de lesão de alto grau — e 1 a 2 terão carcinoma invasor. Ou seja, um quarto das HSIL citológicas não é lesão de alto grau. É exatamente por isso que a excisão, além de tratar, serve de diagnóstico: ela retira a peça inteira e permite dizer se havia invasão que a citologia e a colposcopia não viram.

Do outro lado da escala, o diagnóstico histológico de NIC I é a tradução microscópica de uma infecção por HPV em atividade, não de uma lesão pré-cancerosa estabelecida. Os números explicam a conduta conservadora: no estudo ALTS, mulheres com NIC I confirmada por biópsia tiveram incidência cumulativa de NIC III de 10,3% em dois anos (IC 95%: 7,9%–13,0%); outra coorte encontrou 12% de NIC II ou pior em três anos. São riscos reais, mas baixos o bastante para que a resposta seja vigiar — e altos o bastante para que a vigilância não possa ser abandonada.

O ponto instável da escala é a NIC II. É o grau com maior discordância entre patologistas e o de história natural mais ambígua: em mulheres jovens, a NIC II se comporta mais como NIC I do que como NIC III, com regressão em torno de 60% em 12 meses de seguimento e chegando a 75% em três anos. Toda a lógica de conduta expectante em jovens nasce daí, e não de uma preferência estética por menos cirurgia: o dano de uma excisão sobre um colo que ainda vai gestar é permanente, e a lesão que se estava tratando tinha boa chance de sumir sozinha.

NIC I: a lesão que se acompanha

NIC I confirmada por biópsia não é indicação de tratamento. A mulher volta ao seguimento citológico e é conduzida pelos resultados seguintes; se a citologia normalizar em dois exames consecutivos, retorna ao rastreamento de rotina. O documento brasileiro é explícito sobre o custo de fazer diferente: um ensaio clínico randomizado no Reino Unido mostrou que tratar de saída com exérese da zona de transformação, nessa população, produziu 60% de peças com NIC I ou sem NIC nenhuma — sobretratamento puro, com efeitos adversos e sem ganho.

O tratamento entra em cena por persistência, não por diagnóstico. Persistindo a NIC I por 24 meses, manter o seguimento ou tratar são as duas condutas aceitáveis, com decisão individualizada por idade, paridade e preferência da mulher. Se a opção for tratar e a junção escamocolunar (JEC) estiver visível e até o primeiro centímetro do canal — zona de transformação (ZT) tipo 1 ou 2 —, cabem métodos destrutivos (eletrocauterização, criocauterização, laser) ou excisão tipo 1 ou 2. Quando a ZT é tipo 2 com JEC além do primeiro centímetro, ou tipo 3, a indicação de um procedimento excisional mais profundo deve ser pesada contra o risco obstétrico que ele cria.

Abaixo dos 25 anos a régua é ainda mais conservadora e vale a pena decorá-la pela negativa: diante de NIC I histológica, o tratamento deve ser evitado e o seguimento citológico é trienal até que a mulher complete 25 anos; métodos excisionais não estão indicados antes dessa idade. Vale lembrar que essa faixa etária sequer é população-alvo do rastreamento organizado — as recomendações existem para orientar o que fazer com o exame que não deveria ter sido colhido.

NIC II/III: a excisão é o tratamento e também o diagnóstico

Confirmada a lesão de alto grau, o método de escolha é excisional, e a razão é dupla: além de tratar, o procedimento retira um espécime que permite diagnosticar a invasão que a citologia e a colposcopia não detectaram. Métodos destrutivos existem e têm eficácia semelhante desde que atinjam a base das glândulas, mas não fornecem peça — e por isso ficam reservados a situações estreitas: lesão completamente visível, restrita à ectocérvice, sem suspeita de invasão ou de doença glandular.

A profundidade da excisão não é escolha do cirurgião: ela é ditada pelo tipo de zona de transformação. A nomenclatura colposcópica internacional adotada nas Diretrizes de 2016 substituiu a sopa de siglas (CAF, LLETZ, LEEP, conização) por três tipos de excisão, um para cada tipo de ZT. A excisão tipo 1 é a exérese da zona de transformação clássica — doença ectocervical ou que não avança mais de 1 cm no canal. A tipo 2 alcança de 1,5 a 2,0 cm de canal, o suficiente para ultrapassar uma JEC que se retraiu. A tipo 3 retira de 2 a 2,5 cm, e é a resposta para ZT tipo 3, com JEC não visível. O racional anatômico é firme: praticamente toda NIC III, inclusive as glandulares, se situa até o segundo centímetro do canal, e em 99% dos casos no primeiro.

A prática mais eficiente para a lesão de alto grau é o 'Ver e Tratar': colposcopia e excisão no mesmo atendimento, sem biópsia prévia. Ela reduz o intervalo entre o diagnóstico e o tratamento e evita a perda de seguimento, que é o verdadeiro inimigo do programa. O preço possível é tratar quem não tinha doença, e por isso a indicação é cercada por quatro condições simultâneas: citologia de HSIL, achados colposcópicos anormais maiores, JEC visível (ZT tipo 1 ou 2), lesão restrita ao colo e ausência de suspeita de invasão ou de doença glandular. Respeitados esses critérios, um estudo brasileiro obteve apenas 2% de histologias negativas e menos de 10% de NIC I; ignorados, os percentuais de sobretratamento sobem para a faixa dos 20%. Nos casos em que o método está indicado, a biópsia de colo não é recomendada — ela só atrasa. E há duas exclusões que a prova adora: 'Ver e Tratar' é inaceitável quando a citologia é de LSIL e é inaceitável em mulheres até 24 anos.

Quando a colposcopia mostra JEC não visível ou parcialmente visível (ZT tipo 3) com achados anormais maiores, a conduta é excisão tipo 3 direta. Com achados anormais menores e JEC visível, faz-se biópsia: se vier NIC II/III, excisão tipo 1 ou 2 conforme a ZT; se vier negativa ou NIC I, repetem-se citologia e colposcopia em seis meses a contar da biópsia. Com JEC não visível e achados menores, a biópsia é opcional e o que manda é a investigação do canal endocervical — de preferência por escovado endocervical, que produz menos material inadequado e menos dor que a curetagem. Mantida a suspeita de lesão pré-invasiva ou invasiva no canal, excisão tipo 3.

Um último cenário confunde muita gente: citologia de HSIL com colposcopia sem nenhum achado anormal. Aqui a primeira providência é garantir que não há lesão vaginal e, se possível, pedir revisão da lâmina — e o resultado da revisão substitui o anterior. Mantido o HSIL sem achados, com JEC visível, repete-se a citologia em seis meses; se o segundo exame também vier HSIL, faz-se o procedimento excisional conforme o tipo de ZT. Se a citologia de seis meses vier normal, mantém-se controle citológico semestral na unidade secundária e, após dois exames negativos, a mulher volta ao rastreamento de rotina.

Três cortes do colo do útero lado a lado mostrando a junção escamocolunar progressivamente mais alta no canal e, em cada um, o contorno da excisão correspondente, cada vez mais profunda.
O tipo de excisão não se escolhe: ele decorre do tipo de zona de transformação. JEC visível na ectocérvice pede excisão tipo 1; JEC no primeiro centímetro do canal, tipo 2; JEC não visível, tipo 3.

Margens e seguimento: o laudo da peça é que monta o calendário

Terminada a excisão, a pergunta seguinte é uma só: como estão as margens. Margem comprometida por NIC II/III é o principal fator de risco para doença residual ou recorrente — mas, e aqui está o ponto que a prova testa, ela não é indicação automática de novo procedimento. A maioria das mulheres com margem comprometida não terá lesão residual, e a conduta pode ser conservadora. Nova excisão fica reservada ao caso em que há margem comprometida por NIC II/III e, além disso, o seguimento não é possível — por limitação técnica do serviço ou da própria mulher.

O calendário se bifurca conforme o laudo. Margens livres ou comprometidas apenas por NIC I: citologia aos 6 e aos 12 meses, com colposcopia a critério do serviço; depois do primeiro ano, citologia anual até completar cinco anos do tratamento, já na atenção básica. Qualquer margem comprometida por NIC II/III: citologia e colposcopia semestrais nos dois primeiros anos, depois citologia anual até completar cinco anos. Nos dois cenários, cumpridos os cinco anos, a mulher retorna ao rastreamento de rotina — e a história de doença intraepitelial tratada precisa constar do pedido de exame, porque muda a leitura do citologista.

Por que cinco anos e não alta imediata? Porque o risco não zera. Uma revisão sistemática com meta-análise encontrou taxa de doença residual ou recorrente de 4% a 18% em até dois anos após tratamento de lesão de alto grau, com média de 8% — e o risco é maior acima dos 50 anos, coerente com o fato de a persistência viral aumentar com a idade. Pior: estudos de seguimento longo mostram que mulheres tratadas por NIC II/III permanecem sob risco de câncer cervical maior que o da população geral por pelo menos 10 anos, e possivelmente por 20. Detectada lesão residual ou recorrente, a mulher é conduzida como se fosse a lesão inicial — volta ao começo do algoritmo, não a um protocolo de resgate.

Desde 2026 há uma intervenção a mais nesse mesmo intervalo, e ela costuma passar batida porque mora no calendário vacinal, não na diretriz de rastreamento: mulher tratada por NIC 2, NIC 3 ou adenocarcinoma in situ com procedimento excisional do colo passou a ser grupo prioritário da vacina HPV4 no SUS, independentemente da idade. São três doses no esquema 0, 2 e 6 meses, com prescrição médica e registro pelo CID do diagnóstico, aplicadas no mesmo ano do procedimento — do perioperatório até 12 meses após o tratamento. Quem já tinha uma ou duas doses apenas completa o esquema, sem reiniciar. O racional conversa com os cinco anos de seguimento: a peça retirada trata a lesão, não elimina o risco de doença residual ou recorrente.

Duas populações têm calendário próprio. Mulheres imunossuprimidas, especialmente as que vivem com HIV, recidivam mais — e por isso o seguimento citopatológico após tratamento de NIC II/III é anual por toda a vida, sem alta; quando é preciso tratar, prefere-se o método excisional ao destrutivo. Mulheres histerectomizadas com história de NIC II/III tratada e margens livres fazem citologia aos 6 e 12 meses e, se ambas negativas, seguem em rastreamento trienal independentemente da idade; com margens comprometidas ou sem essa informação, valem os mesmos dois anos de citologia e colposcopia semestrais. O risco que justifica esse acompanhamento é a neoplasia intraepitelial vaginal, que ocorre em 1% a 4% dos casos, e o câncer de vagina, em 0,6%.

Adenocarcinoma in situ: a exceção glandular

O AIS quebra quase todas as regras confortáveis do capítulo, e por um motivo biológico: a lesão glandular não é contígua. De 5% a 15% dos casos são multifocais e as lesões podem estar separadas por epitélio normal — o que significa que margem livre no cone não garante que a doença foi retirada por inteiro. Os números da meta-análise são incômodos justamente por isso: com margens comprometidas, o risco de doença glandular residual foi de 19,4% e o de recorrência, 52,8%; mesmo com margens livres, esses valores foram 2,6% e 20,3%. Somando, o AIS coexiste com lesão escamosa pré-invasiva ou com carcinoma invasivo em cerca de metade dos casos.

A consequência prática é que a excisão indicada é a tipo 3, e não a exérese rasa. A técnica precisa devolver um espécime único e com margens interpretáveis — a conização a frio produz proporção mais alta de margens livres, mas a eletrocirurgia é aceitável desde que garanta peça íntegra e sem artefato térmico que impeça a leitura das margens. É inaceitável produzir mais de um fragmento.

Confirmado AIS no espécime, a conduta se divide pela prole: com prole completa, a indicação é histerectomia simples; com prole incompleta e margens livres, a conização pode ser considerada tratamento suficiente, e o seguimento passa a ser citologia aos 6 e 12 meses, depois anual até cinco anos. Margens comprometidas em mulher com prole completa pedem nova excisão sempre que possível — não para 'limpar', mas para excluir doença invasiva antes da decisão definitiva. Diagnóstico de câncer na peça manda a mulher para a alta complexidade.

Há ainda um passo que só existe no mundo glandular: a avaliação endometrial. Diante de citologia de AIS ou de adenocarcinoma, é recomendável avaliar o endométrio em mulheres com 35 anos ou mais; abaixo dessa idade, apenas se houver sangramento uterino anormal ou condições sugestivas de anovulação crônica. A justificativa é simples — célula glandular atípica pode não ter vindo do colo. Em gestantes, a investigação é a mesma exceto pelo estudo endometrial, que não é factível, e o procedimento excisional, se indicado, é adiado para 90 dias após o parto.

Carcinoma microinvasor: quando a peça de conização vira estadiamento

O carcinoma microinvasor corresponde ao estádio ia da FIGO e é uma entidade definida ao microscópio: não há como diagnosticá-la por biópsia dirigida, porque o diagnóstico exige medir a profundidade de invasão numa peça que contenha a lesão inteira, com margens livres. Daí a regra de técnica: nos casos com suspeita de microinvasão, preferem-se técnicas de conização a frio, e é inaceitável qualquer excisão que produza mais de um segmento — fragmentação e artefato térmico impedem medir a profundidade e avaliar o espaço linfovascular.

A invasão do espaço linfovascular merece um parágrafo próprio porque é o fator que muda a conduta sem mudar o estádio. Ela deve ser sempre relatada. No IA1 sem invasão do espaço linfovascular e com margens livres, a mulher com prole incompleta pode ser considerada tratada pela própria conização, desde que assegurado seguimento rigoroso. Presente a invasão linfovascular, ou tratando-se de estádio IA2 ou mais avançado, ou havendo prole completa, ou sendo impossível garantir o seguimento — em qualquer dessas situações a mulher vai para a unidade terciária. Margens comprometidas por NIC II/III numa peça com IA1 pedem novo procedimento excisional conforme o tipo de ZT.

O seguimento após tratamento conservador do microinvasor não tem estudo próprio, e a régua brasileira resolve isso por analogia com o cenário de maior risco: citologia e colposcopia semestrais nos dois primeiros anos, depois citologia anual até completar cinco anos, e então retorno ao rastreamento de rotina — sempre informando, no pedido, a história de doença microinvasora tratada conservadoramente.

Câncer invasor: FIGO 2018 e a linha que divide operar de irradiar

A revisão FIGO de 2018 mudou três coisas de uma vez, e todas caem em prova. Primeira: o estadiamento deixou de ser exclusivamente clínico e passou a admitir achados de imagem e de patologia, com as notações r (imagem) e p (patologia) — um linfonodo pélvico metastático visto em imagem estadia IIIC1r; confirmado por patologia, IIIC1p. Segunda: a dimensão horizontal saiu da definição do estádio ia. Vale apenas a profundidade de invasão: IA1 é invasão estromal menor que 3 mm; IA2 é invasão de 3 mm ou mais e menor que 5 mm; a partir de 5 mm de profundidade, Ib. Terceira: o estádio Ib foi subdividido por tamanho — IB1 abaixo de 2 cm, IB2 de 2 cm a menos de 4 cm, IB3 de 4 cm em diante — e o comprometimento linfonodal ganhou estádio próprio, o IIIC, independentemente do tamanho do tumor, com IIIC1 para linfonodo pélvico e IIIC2 para para-aórtico. Detalhe fino que a prova gosta: se as margens do cone forem positivas para carcinoma invasor, o caso é alocado como IB1.

Os estádios II a IV mantiveram a lógica anterior: II é a doença que ultrapassa o útero sem atingir a parede pélvica nem o terço inferior da vagina (IIa sem paramétrio, com IIA1 abaixo de 4 cm e IIA2 a partir de 4 cm; IIb com invasão parametrial); III envolve o terço inferior da vagina (IIIA), atinge a parede pélvica ou causa hidronefrose ou rim não funcionante (IIIB), ou compromete linfonodos (IIIC); IV é a extensão a órgãos pélvicos adjacentes com invasão comprovada por biópsia da mucosa vesical ou retal (IVA) ou a metástase a distância (IVB). Edema bolhoso da bexiga, por si só, não estadia como IV.

O estadiamento se apoia em exame físico completo — inclusive toque retal, para avaliar paramétrio — e em imagem: ressonância de pelve para tamanho e relação com estruturas vizinhas, ressonância ou tomografia de abdome a partir do estádio Ib para ureteres e linfonodos retroperitoneais, radiografia ou tomografia de tórax. O PET/CT, quando disponível, é indicado a partir de IB1 e é o exame de escolha para detectar metástase linfonodal. Cistoscopia e retossigmoidoscopia entram apenas na suspeita de invasão de bexiga ou reto. Sorologia para HIV faz parte da avaliação inicial.

O tratamento se organiza por uma pergunta: a doença ainda cabe dentro de uma peça cirúrgica? No IA1, cabe — conização com margens negativas resolve quem deseja preservar fertilidade, e histerectomia simples é a escolha na prole constituída, na ausência de invasão vascular e com margens negativas no cone. No IA2, traquelectomia com linfadenectomia pélvica para quem quer engravidar; havendo invasão vascular, histerectomia radical modificada com linfadenectomia pélvica bilateral. No IB1, histerectomia radical com linfadenectomia pélvica bilateral é o padrão, com pesquisa de linfonodo sentinela a considerar; radioterapia pélvica com braquiterapia fica como alternativa para quem não é candidata à cirurgia. Nos estádios IB2 a IIa, cirurgia radical ou quimiorradiação são caminhos aceitos.

A partir de IIb — isto é, quando o paramétrio está invadido — a doença deixa de ser cirúrgica. O tratamento primário dos estádios IIb a IVA é radioterapia com cisplatina 40 mg/m² por via endovenosa semanalmente durante a irradiação, seguida de braquiterapia. A braquiterapia não é um detalhe: numa série com mais de 7 mil mulheres em estádio IB2 a IVA, sua realização se associou a sobrevida específica de 64% contra 52% e sobrevida global de 58% contra 46% em quatro anos. Campo de radioterapia estendido quando há comprometimento para-aórtico comprovado.

Operada a doença inicial, a adjuvância se decide pela patologia, não pelo estádio clínico. Fatores de alto risco — linfonodo pélvico positivo, margem cirúrgica comprometida ou invasão de paramétrio — indicam quimiorradiação com cisplatina: no GOG 109, a adição da quimioterapia à radioterapia elevou a sobrevida livre de progressão de 63% para 80% e a global de 71% para 81% em quatro anos. Risco intermediário se define pelos critérios de Sedlis, que combinam invasão linfovascular, profundidade de invasão estromal e tamanho tumoral, e indicam radioterapia adjuvante.

Situações especiais: gestante, jovem, imunossuprimida

Na gestação, a regra que resume tudo é: investiga-se, não se trata. A colposcopia pode ser feita em qualquer época da gravidez e a biópsia é segura, com maior probabilidade apenas de sangramento — mas ela só se justifica quando a colposcopia mostra achados sugestivos de invasão. Diante de HSIL citológico, a gestante vai à colposcopia; confirmando-se NIC II/III, a reavaliação fica para 90 dias após o parto. Se a biópsia revelar invasão, aí sim a mulher segue para tratamento na unidade terciária. Procedimentos excisionais durante a gestação aumentam risco de abortamento e de parto prematuro e sangram mais — e não há contraindicação ao parto vaginal por causa de lesão de alto grau. No caso de citologia de LSIL, o documento brasileiro é ainda mais direto: qualquer abordagem diagnóstica fica para três meses após o parto, e a curetagem endocervical deve ser evitada na gestação.

Até 24 anos, a régua muda de eixo. 'Ver e Tratar' é inaceitável. Achado colposcópico menor com citologia de HSIL leva a seguimento citológico anual por dois anos. Achado maior leva à biópsia — e o que ela mostra decide: NIC II tem preferência por conduta expectante por 24 meses, com citologia e colposcopia semestrais, tratando-se apenas se a lesão persistir depois desse período (ou de saída, se o seguimento não puder ser assegurado). NIC III em mulheres até 20 anos ainda admite seguimento semestral por dois anos; entre 21 e 24 anos, recomenda-se tratamento excisional ou destrutivo, embora o seguimento semestral por dois anos ou até completar 25 anos também seja aceitável. O tratamento destrutivo, quando escolhido, exige lesão restrita à ectocérvice com JEC visível (ZT tipo 1).

Na pós-menopausa a conduta é a mesma das demais mulheres; o cuidado é técnico. A atrofia reduz a celularidade da amostra e piora o desempenho da citologia, e a JEC migra para dentro do canal com a idade, aumentando a proporção de colposcopias em que ela não é vista. Estrogênio tópico prévio melhora tanto a coleta quanto o exame colposcópico. Já em imunossuprimidas, a investigação inicial é idêntica à das imunocompetentes — o que muda é o depois: seguimento anual vitalício após tratamento de NIC II/III e preferência pelo método excisional quando for preciso tratar.

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Do laudo histológico à conduta

Não misture as cinco etapas. Rastreamento encontra risco; colposcopia localiza a lesão; biópsia define histologia; o tipo de zona de transformação orienta a excisão; invasão confirmada muda o caso para estadiamento oncológico. O fluxo abaixo mantém cada decisão no seu andar e evita aplicar uma regra de rastreamento a uma lesão já diagnosticada.

  1. 11. RASTREAMENTO — aplicar o programa vigente e o resultado do teste primário. Um teste positivo não é diagnóstico de NIC nem de câncer; ele define a necessidade de triagem complementar ou colposcopia.
  2. 22. COLPOSCOPIA — descrever achados, localizar a junção escamocolunar e classificar a zona de transformação. Suspeita de invasão ou doença glandular retira o caso de qualquer atalho.
  3. 33. AMOSTRAGEM — fora dos critérios estritos de “Ver e Tratar”, realizar biópsia dirigida quando a lesão é visível e investigar o canal endocervical quando a junção não é totalmente visível.
  4. 44. HISTOLOGIA — NIC I em regra acompanha; NIC II exige decisão conforme idade, possibilidade de seguimento e contexto reprodutivo; NIC III trata. Gestação modifica tempo e método: excisão só diante de suspeita de invasão.
  5. 55. EXCISÃO — o tipo de zona de transformação define a profundidade: tipo 1, excisão tipo 1; tipo 2, excisão tipo 2; tipo 3 ou suspeita glandular/microinvasiva, peça única com canal e margens avaliáveis.
  6. 66. PEÇA E MARGENS — confirmar grau, excluir invasão e organizar seguimento. Margem comprometida por lesão de alto grau aumenta vigilância, mas não determina automaticamente nova excisão.
  7. 77. INVASÃO — carcinoma confirmado deixa o algoritmo de NIC: encaminhar à alta complexidade para estadiamento FIGO, imagem quando indicada e tratamento por estádio.

NIC I — terço inferior do epitélio

Manifestação histológica da infecção por HPV. Não se trata: mantém-se seguimento citológico. Tratar só se persistir por 24 meses, e mesmo aí a decisão é individualizada. Abaixo de 25 anos, nunca se trata.

NIC II — até dois terços

O grau instável: maior discordância entre patologistas e regressão em torno de 60% em 12 meses nas jovens. Em mulher a partir de 25 anos, trata-se por excisão; até 24 anos, prefere-se conduta expectante por 24 meses.

NIC III — espessura total, basal íntegra

Lesão de alto grau estabelecida, sem invasão. Tratamento excisional conforme o tipo de ZT, e a peça serve também para excluir a invasão que a colposcopia não viu.

Microinvasor — basal rompida (FIGO IA)

Diagnóstico só na peça de excisão com a lesão inteira e margens livres. Profundidade menor que 3 mm é IA1; de 3 a menos de 5 mm, IA2. A invasão do espaço linfovascular não muda o estádio, mas muda a conduta.

Diagnóstico histológicoCondutaPonto que decide
NIC I confirmada por biópsiaSeguimento citológico; não tratarTratamento só cogitado após 24 meses de persistência, e individualizado
NIC I em mulher até 24 anosSeguimento citológico trienal até completar 25 anosMétodo excisional não está indicado antes dos 25 anos
NIC II/III, ZT tipo 1 ou 2Excisão tipo 1 ou 2 conforme a ZTPeça serve de tratamento e de diagnóstico de invasão oculta
NIC II/III, ZT tipo 3 (JEC não visível)Excisão tipo 3Profundidade suficiente para ultrapassar a JEC no canal
NIC II em mulher até 24 anosConduta expectante por 24 meses, com citologia e colposcopia semestraisTratar de saída se o seguimento não puder ser assegurado
NIC III em mulher até 20 anosSeguimento citológico e colposcópico semestral por dois anosEntre 21 e 24 anos, recomenda-se tratamento (excisional ou destrutivo)
Adenocarcinoma in situ (AIS)Excisão tipo 3, em espécime único com margens avaliáveisProle completa → histerectomia simples; prole incompleta com margens livres → conização basta
Suspeita de microinvasãoCone com margens avaliáveis (preferência por bisturi frio)Inaceitável excisão que produza mais de um segmento
Carcinoma invasor confirmadoEncaminhamento à alta complexidade para estadiamento e tratamentoEstadiamento FIGO 2018, com imagem e patologia
NIC II/III em gestanteReavaliar 90 dias após o parto; sem excisão na gestaçãoBiópsia apenas se houver achado sugestivo de invasão

Tipo de zona de transformação e profundidade da excisão

Tipo de ZTOnde está a JECExcisão indicadaProfundidade de canal retirada
Tipo 1Totalmente visível, na ectocérviceExcisão tipo 1 (a EZT clássica)Doença ectocervical ou até 1 cm de canal
Tipo 2Visível, no primeiro centímetro do canalExcisão tipo 2De 1,5 a 2,0 cm
Tipo 3Não visível ou parcialmente visívelExcisão tipo 3 (conização)De 2 a 2,5 cm

Seguimento após tratamento de NIC II/III, pelo laudo das margens

Margens da peçaPrimeiros 2 anosDo 2º ao 5º anoDepois de 5 anos
Livres ou comprometidas por NIC ICitologia aos 6 e 12 meses (colposcopia a critério do serviço)Citologia anual na atenção básicaRetorno ao rastreamento de rotina
Comprometidas por NIC II/IIICitologia e colposcopia semestraisCitologia anual na atenção básicaRetorno ao rastreamento de rotina
Qualquer margem, mulher imunossuprimidaSeguimento citopatológico anualSeguimento citopatológico anualSegue anual por toda a vida — não há alta
Margens NIC II/III com seguimento inviávelNovo procedimento excisional

FIGO 2018 do carcinoma de colo: estádio e tratamento de referência

EstádioDefiniçãoTratamento de referência
IA1Invasão estromal < 3 mm de profundidadeConização com margens livres (fertilidade) ou histerectomia simples
IA2Invasão ≥ 3 mm e < 5 mm de profundidadeTraquelectomia + linfadenectomia pélvica; radical modificada se invasão vascular
IB1Invasão ≥ 5 mm e tumor < 2 cmHisterectomia radical + linfadenectomia pélvica bilateral
IB2Tumor ≥ 2 cm e < 4 cmCirurgia radical ou quimiorradiação com braquiterapia
IB3Tumor ≥ 4 cmQuimiorradiação com braquiterapia (cirurgia em casos selecionados)
IIA1 / IIA2Dois terços superiores da vagina, sem paramétrio (< 4 cm / ≥ 4 cm)Cirurgia radical ou quimiorradiação
IIBInvasão parametrial sem atingir a parede pélvicaQuimiorradiação: cisplatina 40 mg/m² semanal + braquiterapia
IIIA / IIIBTerço inferior da vagina / parede pélvica ou hidronefroseQuimiorradiação + braquiterapia
IIIC1 / IIIC2Linfonodo pélvico / para-aórtico, em tumor de qualquer tamanhoQuimiorradiação; campo estendido se para-aórtico comprovado
IVA / IVBMucosa de bexiga ou reto comprovada por biópsia / metástase a distânciaQuimiorradiação (IVA); tratamento sistêmico (IVB)

Margem comprometida por NIC II/III não é, sozinha, indicação de nova excisão — a maioria dessas mulheres não terá lesão residual. Ela indica seguimento mais apertado. Nova excisão entra quando, além da margem, o seguimento não é possível.

'Ver e Tratar' é inaceitável em duas situações que a prova gosta de misturar: citologia de LSIL (sobretratamento) e mulher até 24 anos.

Se as margens do cone forem positivas para carcinoma invasor, o caso é alocado em IB1 na FIGO 2018 — deixa de ser microinvasor por definição.

A invasão do espaço linfovascular deve sempre ser relatada: ela não altera o estádio FIGO, mas altera a decisão terapêutica no IA1 e no IA2.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O que separa o estádio IA do IB: a extensão horizontal ainda conta?

Profundidade e extensão horizontal (FIGO 2009, reproduzida no documento brasileiro de 2016)

IA1 é invasão de até 3 mm de profundidade E extensão de até 7 mm; IA2, invasão acima de 3 e até 5 mm com extensão de até 7 mm. Profundidade acima de 5 mm OU extensão acima de 7 mm caracteriza estádios a partir de IB. Por essa régua, uma lesão de 4 mm de profundidade e 9 mm de extensão é IB.

INCA, Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, 2ª ed., 2016 — capítulo de lesão de alto grau não podendo excluir microinvasão.

Só a profundidade (FIGO 2018, adotada pela SBOC em 2025)

A dimensão horizontal deixou de ser considerada na fronteira entre IA e IB: IA1 é invasão estromal menor que 3 mm; IA2, de 3 mm a menos de 5 mm; IB, a partir de 5 mm. A mesma lesão de 4 mm de profundidade e 9 mm de extensão é IA2. O IB passou a se subdividir por tamanho (IB1 < 2 cm, IB2 de 2 a < 4 cm, IB3 ≥ 4 cm) e o linfonodo comprometido criou o estádio IIIC.

BAGP information document — 2018 FIGO staging system for cervix cancer, v1.2 (2019); tabela FIGO/TNM das Diretrizes de tratamentos oncológicos da SBOC, 2025.

Na prova

A causa da diferença é de data, não de mérito: o documento brasileiro de manejo é de 2016 e antecede a revisão FIGO de 2018 — não há discordância clínica entre eles. O enunciado costuma denunciar o recorte: se ele nomeia 'FIGO 2018', usa IB1/IB2/IB3 ou fala em estádio IIIC por linfonodo, está no sistema novo; se oferece alternativas com os 7 mm de extensão horizontal ou trata IB1 como 'até 4 cm', está reproduzindo o sistema de 2009. Questão que cita profundidade e extensão juntas, sem nomear o ano, costuma estar testando exatamente essa troca.

Como se decide tratar uma lesão de alto grau: pelo diagnóstico ou pelo risco estimado

Por diagnóstico e faixa etária (Diretrizes do INCA, 2016)

A conduta é indexada ao laudo e à idade. Citologia de HSIL com achados maiores, JEC visível e lesão restrita ao colo autoriza excisão na primeira consulta ('Ver e Tratar'); até 24 anos esse método é inaceitável, e a NIC II histológica é acompanhada por 24 meses com citologia e colposcopia semestrais antes de se cogitar tratar.

INCA, Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, 2ª ed., 2016 — capítulo de lesão intraepitelial escamosa de alto grau e situações especiais.

Por risco imediato calculado de NIC 3+ (ASCCP, 2019, com atualização em 2023)

O gatilho não é o diagnóstico isolado, e sim o risco imediato estimado de NIC 3+, calculado a partir da combinação de citologia, genotipagem do HPV e história prévia: tratamento imediato é preferencial quando esse risco é de 60% ou mais e aceitável entre 25% e 60%, sempre a partir dos 25 anos. Abaixo dessa idade, a observação da NIC 2 é considerada opção razoável, pelas altas taxas de regressão.

2019 ASCCP Risk-Based Management Consensus Guidelines (J Low Genit Tract Dis, 2020; atualização de 2023) — recomendações divulgadas em resumo pela ASCCP.

Na prova

As duas réguas chegam a condutas parecidas nos extremos e divergem na arquitetura: uma indexa por laudo, a outra por probabilidade. A régua por risco depende de genotipagem do HPV e de histórico informatizado de rastreamento, que o programa brasileiro passou a ter só com a incorporação do teste molecular em 2025 — a diferença é de infraestrutura disponível, não de discordância sobre a biologia. Identifica-se o recorte pelo vocabulário: enunciado que fala em 'risco imediato de NIC 3+', percentuais de risco ou 'tratamento expedito' está no corpo americano; enunciado com 'Ver e Tratar', 'excisão tipo 1/2/3' ou 'unidade secundária' está no corpo brasileiro. Prova oficial do MEC tende à conduta do SUS; em outras bancas, as alternativas revelam o mundo em que a questão foi escrita.

Com que exame se acompanha a mulher tratada por NIC II/III

Citologia, com colposcopia conforme a margem (Diretrizes do INCA, 2016)

Margens livres ou com NIC I: citologia aos 6 e 12 meses, colposcopia a critério do serviço. Margens com NIC II/III: citologia e colposcopia semestrais nos dois primeiros anos. Depois, citologia anual até cinco anos. O próprio documento registra que o teste de DNA-HPV é mais sensível que a citologia para detectar lesão residual ou recorrente, mas mantém a citologia como base da recomendação.

INCA, Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, 2ª ed., 2016 — seção de seguimento pós-tratamento de NIC II/III.

Teste molecular de DNA-HPV como teste de cura

A base é o desempenho: a revisão sistemática citada pelo próprio documento brasileiro aponta doença residual ou recorrente de 4% a 18% em até dois anos após tratamento de lesão de alto grau, com média de 8%, e o teste molecular identifica esses casos com sensibilidade maior que a da citologia — um estudo brasileiro encontrou teste negativo em 74,75% das tratadas seis meses após o procedimento.

Evidência revisada dentro das próprias Diretrizes do INCA de 2016 (meta-análise de Arbyn e coorte brasileira citadas na seção de seguimento).

Na prova

A causa aqui é de disponibilidade e de calendário: em 2016 o teste molecular não estava incorporado ao SUS, e sua incorporação em 2025 veio na Parte I das novas diretrizes, que trata de rastreamento — a parte destinada ao manejo das lesões confirmadas ainda não foi publicada. Enquanto isso, o seguimento pós-tratamento oficial continua sendo o de 2016. O recorte aparece no cenário: enunciado ambientado em unidade básica ou secundária do SUS, com prazos em meses e menção a colposcopia, está na régua de 2016; enunciado que oferece 'teste de DNA-HPV seis meses após a excisão' entre as alternativas está testando o conhecimento do desempenho do método.

Conização basta no carcinoma microinvasor IA1?

Basta em situação delimitada, e o resto vai para a alta complexidade (INCA, 2016)

No IA1 detectado em peça de excisão com margens livres e sem comprometimento do espaço linfovascular, a mulher com prole incompleta pode ser considerada tratada. Vai para a unidade terciária quem tiver prole completa, impossibilidade de seguimento, invasão do espaço linfovascular na peça, ou estadiamento IA2 ou mais avançado. O seguimento conservador é o mesmo do NIC II/III de maior risco.

INCA, Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, 2ª ed., 2016 — capítulo de lesão de alto grau não podendo excluir microinvasão.

Histerectomia simples é a escolha na prole constituída (SBOC, 2025)

No IA1 com prole constituída, a histerectomia simples é o procedimento de escolha na ausência de invasão vascular e com margens negativas no cone; a conização com margens negativas fica para quem deseja preservar fertilidade. O próprio documento registra que, em 1.409 pacientes com menos de 40 anos e estádio IA1, não houve diferença de sobrevida global em 5 anos entre conização e histerectomia.

SBOC, Diretrizes de tratamentos oncológicos 2025 — capítulo 'Colo do útero', tratamento do estádio IA1.

Na prova

As duas posições descrevem etapas diferentes da linha de cuidado: o documento do INCA responde 'o que a unidade secundária resolve e o que ela encaminha', enquanto o da SBOC responde 'o que se faz no centro oncológico'. Elas não se contradizem sobre a sobrevida — a própria SBOC registra equivalência entre conização e histerectomia no IA1 de baixo risco. O cenário do enunciado é que separa: ambulatório de patologia cervical, peça de EZT ou conização recém-laudada e pergunta sobre encaminhamento indicam a régua do INCA; consulta em oncologia, discussão de preservação de fertilidade e menção a linfonodo sentinela indicam a régua oncológica.

06

Caso resolvido

Mulher de 36 anos, dois partos anteriores, procura a unidade de referência com laudo citológico de lesão intraepitelial escamosa de alto grau (HSIL) colhido há três semanas. À colposcopia, epitélio acetobranco denso com bordas nítidas e mosaico grosseiro em lábio anterior, junção escamocolunar inteiramente visível e a menos de um centímetro do canal, lesão restrita ao colo, sem vasos atípicos e sem ulceração. Vagina sem lesões.
achado
Citologia de HSIL com colposcopia mostrando achados anormais maiores (acetobranco denso, mosaico grosseiro), JEC visível — portanto zona de transformação tipo 1 ou 2 —, lesão restrita ao colo e nenhum sinal sugestivo de invasão ou de doença glandular.
leitura
As quatro condições do 'Ver e Tratar' estão presentes simultaneamente. Nessa situação, a biópsia prévia não é recomendada: ela adia o tratamento e não muda a conduta, porque a própria peça de excisão dará o diagnóstico. Lembrando que cerca de 1% a 2% das HSIL citológicas escondem carcinoma invasor — outra razão para retirar a peça inteira em vez de fragmentá-la.
conduta
Excisão da zona de transformação no mesmo atendimento, sob visão colposcópica e anestesia local, do tipo correspondente à ZT: tipo 1 se a doença é ectocervical ou não ultrapassa o primeiro centímetro do canal; tipo 2 se é preciso retirar de 1,5 a 2,0 cm para ultrapassar a JEC.
laudo da peça
Volta NIC III com margem endocervical comprometida por NIC III. Isso não indica, por si só, nova conização: a maioria das mulheres nessa situação não terá lesão residual. Nova excisão só entraria se o seguimento não pudesse ser garantido.
seguimento
Citologia e colposcopia semestrais nos dois primeiros anos; depois, citologia anual até completar cinco anos do tratamento, na unidade básica. Cumpridos os cinco anos sem lesão residual, retorno ao rastreamento de rotina, sempre informando no pedido a história de doença intraepitelial tratada.
armadilha evitada
Se a citologia dessa mulher fosse de LSIL, e não de HSIL, o 'Ver e Tratar' seria inaceitável — o caminho seria biópsia dirigida e, se viesse NIC I, seguimento citológico.
07

Agora feche você

Gestante de 22 anos, primigesta, 24 semanas, traz citologia colhida na primeira consulta de pré-natal com resultado de lesão intraepitelial escamosa de alto grau (HSIL). Encaminhada ao serviço de colposcopia, o exame mostra epitélio acetobranco denso com mosaico em lábio posterior, junção escamocolunar visível, sem vasos atípicos, sem ulceração e sem lesão exofítica. Ausência de lesão vaginal.
achado
HSIL citológico em gestante de 24 semanas, com colposcopia mostrando achados anormais maiores e nenhum sinal sugestivo de invasão.
o que não fazer
Procedimento excisional na gestação aumenta risco de abortamento e de parto prematuro e cursa com sangramento excessivo. Também não se repete citologia como conduta inicial diante de HSIL.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar NIC I porque 'já tem lesão' O nome carrega a palavra neoplasia e induz à ação, mas NIC I é a tradução histológica de uma infecção por HPV em atividade, com regressão frequente. Tratar de saída produziu 60% de peças com NIC I ou sem NIC alguma num ensaio randomizado — sobretratamento com dano obstétrico e sem benefício. A conduta é seguimento; o tratamento só entra na persistência por 24 meses, e ainda assim individualizado.
  2. 2Aplicar 'Ver e Tratar' em citologia de LSIL ou em mulher de 22 anos O método é eficiente justamente porque é seletivo. Com citologia de LSIL a probabilidade de doença de alto grau é baixa demais e a excisão vira sobretratamento — o documento classifica a prática como inaceitável. Até 24 anos, também inaceitável: a regressão é a regra nessa faixa e a excisão custa colo. As quatro condições precisam estar presentes ao mesmo tempo, não bastando 'achados maiores'.
  3. 3Reconizar automaticamente por margem comprometida Margem com NIC II/III é o principal fator de risco para doença residual, e isso engana: a maioria dessas mulheres não terá lesão residual, e a conduta é seguimento semestral com citologia e colposcopia por dois anos. Novo procedimento excisional entra quando à margem comprometida se soma a impossibilidade de seguir a mulher — a decisão é sobre o seguimento, não sobre a margem isolada.
  4. 4Tratar AIS como se fosse lesão escamosa Excisão rasa não serve para doença glandular. O AIS é multifocal em 5% a 15% dos casos e pode ter lesões descontínuas, de modo que margem livre não garante retirada completa: mesmo com margens negativas, a recorrência chega a 20,3%. A indicação é excisão tipo 3, em peça única com margens interpretáveis, e a definição do tratamento passa pela prole — histerectomia simples na prole completa.
  5. 5Usar os 7 mm de extensão horizontal para separar IA de IB Esse critério vem da FIGO 2009 e continua estampado em material antigo, inclusive no documento brasileiro de 2016. Na FIGO 2018 a dimensão horizontal saiu: o que define IA é só a profundidade — menor que 3 mm é IA1, de 3 a menos de 5 mm é IA2. Uma lesão de 4 mm de profundidade com 9 mm de extensão migra de IB (régua antiga) para IA2 (régua atual).
  6. 6Achar que linfonodo comprometido não muda o estádio Mudou em 2018. Comprometimento linfonodal, de qualquer tumor e de qualquer tamanho, leva o caso a IIIC — IIIC1 para pélvico, IIIC2 para para-aórtico —, com as notações r quando o achado é de imagem e p quando é de patologia. Um tumor de 1,5 cm com linfonodo pélvico positivo não é IB1: é IIIC1.
  7. 7Indicar cesariana por causa de lesão de alto grau Não há contraindicação ao parto vaginal em gestante com NIC II/III. A conduta na gravidez é investigar sem tratar: colposcopia em qualquer idade gestacional, biópsia apenas se houver achado sugestivo de invasão e reavaliação 90 dias após o parto. Procedimento excisional na gestação aumenta abortamento, prematuridade e sangramento.
  8. 8Dar alta à mulher imunossuprimida depois de cinco anos O calendário de cinco anos com retorno ao rastreamento de rotina vale para a mulher imunocompetente. Quem vive com HIV ou é imunossuprimida por outra causa recidiva mais e mantém seguimento citopatológico anual por toda a vida após tratamento de NIC II/III — e, quando é preciso tratar, prefere-se o método excisional ao destrutivo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Diante de HSIL na citologia, a conduta é encaminhar à colposcopia com biópsia dirigida para confirmação histológica e definição de tratamento (correta). Repetir a citologia é conduta de lesões de baixo grau/ASC-US em certos cenários, não de HSIL. Histerectomia é desproporcional sem diagnóstico histológico e sem invasão. Seguimento só com HPV subestima uma lesão de alto grau. Imunomodulador tópico não tem papel no manejo da HSIL cervical.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua as três decisões em cadeia sem consultar: (1) grau histológico — NIC I acompanha, NIC II/III trata por excisão, AIS pede excisão tipo 3 em peça única; (2) tipo de ZT — 1, 2 ou 3 define a profundidade (até 1 cm, 1,5 a 2,0 cm, 2 a 2,5 cm de canal); (3) margens — livres ou NIC I dão citologia aos 6 e 12 meses, NIC II/III dão citologia e colposcopia semestrais por dois anos. Depois recite as quatro condições do 'Ver e Tratar' e as duas situações em que ele é inaceitável.

em 30 dias

Escreva de memória a régua FIGO 2018 do estádio I: IA1 abaixo de 3 mm de profundidade, IA2 de 3 a menos de 5 mm, IB a partir de 5 mm, com IB1 abaixo de 2 cm, IB2 de 2 a menos de 4 cm e IB3 de 4 cm em diante — e explique por que a extensão horizontal de 7 mm sumiu e por que linfonodo positivo virou IIIC. Em seguida, marque a fronteira terapêutica: até IIA ainda se opera; de IIB em diante o padrão é quimiorradiação com cisplatina 40 mg/m² semanal seguida de braquiterapia. Feche revendo a gestante (investiga, não trata; reavaliação 90 dias após o parto) e a imunossuprimida (seguimento anual vitalício).

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 38 anos comparece ao ambulatório de patologia cervical trazendo o laudo da peça de exérese da zona de transformação realizada há três semanas: neoplasia intraepitelial cervical grau III, com margem endocervical comprometida por NIC III e margem ectocervical livre. Está assustada porque leu 'margem comprometida' e quer saber se o câncer ficou dentro. Mora perto da unidade, tem transporte e comparece às consultas. Conduza a orientação e defina o plano de seguimento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Lesões precursoras cervicais – Lesões precursoras do colo (NIC) e câncer invasor — Preparatório para provas | OsceLabs