Clínica MédicaHematologia e Hemoterapia

Terapia transfusional e reações transfusionais

A prova cobra quatro decisões: qual hemocomponente, em que gatilho, o que fazer quando o paciente reage e o que a norma exige. O diferencial entre TRALI e sobrecarga circulatória, e a regra das quatro horas, são os pontos que mais derrubam.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 34 anos, com anemia sintomática por sangramento uterino disfuncional (Hb 6,2 g/dL; VR 12–16), recebe transfusão de concentrado de hemácias. Aproximadamente 10 minutos após o início, ainda no primeiro fim de bolsa, apresenta calafrios, febre (T 38,8 °C, elevação de 1,4 °C em relação ao basal), dor lombar, hipotensão (PA 80/50 mmHg) e urina escurecida (hemoglobinúria). A equipe interrompe imediatamente a transfusão. A hipótese diagnóstica mais provável é:

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Como esse tema cai

Transfusão é um dos poucos temas em que a prova cobra norma jurídica junto com fisiologia. O examinador pode perguntar o gatilho de hemoglobina, mas pode igualmente perguntar em quantas horas a bolsa tem de acabar, quem fica ao lado do paciente nos primeiros minutos e por quantas horas vale a amostra pré-transfusional. Essas respostas estão escritas em portaria, não em consenso — e por isso são as mais estáveis e as mais cobradas.

O segundo eixo é o diagnóstico diferencial das reações imediatas. Quase toda questão do assunto entrega um paciente que ficou febril ou dispneico durante ou logo depois da transfusão, e pede a classificação. Duas duplas concentram o erro: febre com hemólise contra febre sem hemólise, e TRALI contra sobrecarga circulatória. As duas se resolvem com poucos dados objetivos — cor da urina e pressão arterial na primeira, jugular, resposta ao diurético e BNP na segunda.

O terceiro eixo é o que a prova chama de uso racional: reconhecer as situações em que a plaqueta baixa não se transfunde. Púrpura trombocitopênica imune, púrpura trombocitopênica trombótica, plaquetopenia induzida por heparina, dengue e leptospirose entram no enunciado com contagens assustadoras justamente para testar se o candidato transfunde por número.

Há uma mudança regulatória em curso que muda parte da resposta. A Portaria GM/MS nº 11.685, de 2 de julho de 2026, revogou o Anexo IV da Portaria de Consolidação nº 5/2017 e o substituiu pelo Anexo IV-B, que entra em vigor noventa dias depois da publicação — em 30 de setembro de 2026. Boa parte das regras operacionais foi mantida palavra por palavra, mas a regra do sangue O RhD negativo na emergência mudou, e é exatamente o tipo de detalhe que uma banca atualizada aproveita.

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O que muda decisão

Quatro produtos, quatro perguntas diferentes

Sangue total praticamente não se transfunde mais: a bolsa é fracionada e cada componente responde a uma pergunta clínica distinta. Concentrado de hemácias repõe capacidade de transporte de oxigênio. Concentrado de plaquetas repõe plaqueta. Plasma fresco congelado repõe múltiplos fatores da coagulação ao mesmo tempo. Crioprecipitado repõe fibrinogênio, fator XIII e fator de von Willebrand — e mais nada.

Essa separação já resolve uma família inteira de questões. Plasma não corrige anemia, não expande volume como primeira escolha e não repõe albumina. Crioprecipitado não trata deficiência de fator IX nem de fator VII. Concentrado de hemácias não corrige coagulopatia. Quando o enunciado descreve um paciente com dois problemas — anemia e sangramento por coagulopatia, por exemplo — a resposta costuma ser dois componentes, não um componente com dois papéis.

A dose de cada um é padronizada e a prova cobra os números. Uma unidade de concentrado de hemácias eleva o hematócrito em cerca de 3% e a hemoglobina em cerca de 1 g/dL num adulto de estatura média; em criança, o equivalente é 10 a 15 mL/kg. A dose usual de plaquetas é 1 unidade de concentrado para cada 7 a 10 kg de peso. Plasma fresco congelado é dosado em 10 a 20 mL/kg, o que eleva os fatores em 20% a 30%. Cada bolsa de crioprecipitado eleva o fibrinogênio em 5 a 10 mg/dL num adulto médio.

Uma bolsa de sangue total separando-se em quatro bolsas menores: hemácias, plaquetas, plasma e crioprecipitado.
O fracionamento é o que permite tratar quatro problemas diferentes com uma doação: transporte de oxigênio, hemostasia primária, fatores da coagulação e fibrinogênio.

Concentrado de hemácias: o número e o paciente

Para anemia normovolêmica, o guia brasileiro trabalha com três faixas. Acima de 10 g/dL de hemoglobina — hematócrito acima de 30% — a anemia é bem tolerada e a transfusão é excepcional. Abaixo de 7 g/dL há risco elevado de hipóxia tecidual e o paciente se beneficia da transfusão. Entre 7 e 10 g/dL a indicação depende do estado clínico, e é nessa faixa que a prova constrói a dúvida.

Dentro dessa faixa intermediária o documento brasileiro nomeia exceções: doença pulmonar obstrutiva crônica deve ser mantida com hemoglobina acima de 10 g/dL; cardiopatia isquêmica aguda parece se beneficiar de níveis acima de 9 a 10 g/dL; acima de 65 anos, sintomático, é aceitável transfundir com hemoglobina abaixo de 9 g/dL; e no pós-operatório estável, sem sinais de hipóxia tecidual, 8 g/dL é aceitável.

Hemorragia aguda muda a lógica: o hematócrito não serve para decidir, porque só começa a cair uma a duas horas depois do início do sangramento. Nesse cenário a decisão é clínica — frequência cardíaca acima de 100 a 120 bpm, hipotensão, queda do débito urinário, taquipneia, enchimento capilar acima de 2 segundos, alteração do nível de consciência. A transfusão de concentrado de hemácias está recomendada depois de perda superior a 25% a 30% da volemia.

A infusão de cada unidade leva de 60 a 120 minutos no adulto, e a resposta se avalia com nova dosagem de hemoglobina ou hematócrito 1 a 2 horas depois — em paciente ambulatorial, 30 minutos após o término já dá resultado comparável. Transfundir de unidade em unidade, reavaliando, é o que evita as duas metades do erro: subtransfundir quem está sintomático e transfundir três bolsas em quem precisava de uma.

Há indicações que o guia lista explicitamente como não indicações, e elas viram distrator com frequência: transfundir para melhorar a sensação de bem-estar, para acelerar cicatrização de ferida, profilaticamente, ou para expandir volume quando o transporte de oxigênio está adequado.

Plaquetas: três patamares e uma lista de exceções

Nas plaquetopenias por falência medular de duração determinada — quimioterapia, radioterapia, transplante de células progenitoras — o limiar profilático é 10.000/µL na ausência de fatores de risco. Sobe para 20.000/µL quando há febre acima de 38 °C, manifestações hemorrágicas menores como petéquias, equimoses e gengivorragia, doença do enxerto contra hospedeiro, esplenomegalia, drogas que encurtam a sobrevida plaquetária, hiperleucocitose acima de 30.000/mm³, outras alterações da hemostasia ou queda rápida da contagem.

Quando a falência medular é crônica — anemia aplástica grave, síndrome mielodisplásica — o paciente é observado sem transfusão, e a profilaxia só entra abaixo de 5.000/µL, ou abaixo de 10.000/µL se houver manifestação hemorrágica. Em adultos com tumor sólido sob quimioterapia ou radioterapia, o limiar é 20.000/µL. Em criança estável, 5.000/µL.

Para procedimento invasivo o consenso é que 50.000/µL bastam na maioria dos casos, com exceção de neurocirurgia e cirurgia oftalmológica, que exigem acima de 100.000/µL. Punção lombar pede acima de 20.000/µL na criança e acima de 30.000/µL no adulto; biópsia e aspirado de medula, acima de 20.000/µL; endoscopia ou broncoscopia sem biópsia, 20.000 a 40.000/µL, e com biópsia, acima de 50.000/µL; biópsia hepática e cirurgias de médio e grande porte, acima de 50.000/µL.

Na transfusão maciça — troca de aproximadamente duas volemias — recomenda-se transfundir plaquetas abaixo de 50.000/µL, ou abaixo de 100.000/µL se houver alteração grave da hemostasia, trauma múltiplo ou lesão do sistema nervoso central. Em circulação extracorpórea prolongada, acima de 90 a 120 minutos, a disfunção plaquetária justifica transfusão mesmo com contagem acima de 50.000/µL, porque o problema é qualitativo.

A lista de exceções é o que a prova mais explora. Na púrpura trombocitopênica imune a transfusão fica restrita a sangramento grave com risco de vida, e sempre associada a corticoide em dose alta e imunoglobulina. Na púrpura trombocitopênica trombótica e na plaquetopenia induzida por heparina a transfusão profilática deve ser evitada mesmo antes de procedimento invasivo, pelo risco de piora clínica e de fenômenos tromboembólicos. Na dengue a plaquetopenia se comporta como a da púrpura imune, e não há indicação de transfusão profilática qualquer que seja a contagem — o mesmo vale para leptospirose e riquetsioses.

A dose profilática usual em adulto acima de 55 kg é de 4,0 x 10¹¹ plaquetas — 6 a 8 unidades de concentrado unitário ou 1 unidade de aférese — para atingir contagem acima de 25.000/µL. A dose terapêutica, para contagem desejada acima de 40.000/µL, é de 6,0 x 10¹¹, ou 8 a 10 unidades unitárias. O tempo de infusão é de cerca de 30 minutos, e a resposta se checa com nova contagem 1 hora depois.

Plasma e crioprecipitado: o que cada um não faz

Plasma fresco congelado está indicado quando há sangramento ou risco de sangramento por deficiência de múltiplos fatores da coagulação e não existe concentrado específico disponível — hepatopatia, coagulação intravascular disseminada com sangramento, transfusão maciça, reversão urgente de anticoagulante oral. Os parâmetros laboratoriais usados como referência para repor são tempo de protrombina acima de 1,5 vez o ponto médio da variação normal, ou tempo de tromboplastina parcial ativado acima de 1,5 vez o limite superior do normal, sempre lidos junto com a situação clínica.

A dose é de 10 a 20 mL/kg, o que eleva os fatores em 20% a 30% e alcança nível hemostático. O intervalo entre doses depende da meia-vida do fator que se quer repor: fator VII tem meia-vida de cerca de 6 horas e fator VIII de cerca de 12 horas, enquanto fibrinogênio dura de 100 a 150 horas. Repetir plasma de 12 em 12 horas para corrigir uma deficiência de fator com meia-vida longa é desperdício e risco.

Crioprecipitado está indicado na hipofibrinogenemia congênita ou adquirida abaixo de 100 mg/dL, na disfibrinogenemia e na deficiência de fator XIII. A hipofibrinogenemia adquirida aparece depois de trombólise, transfusão maciça e coagulação intravascular disseminada. O nível hemostático de fibrinogênio é de 70 a 100 mg/dL, e um cálculo prático é 1,0 a 1,5 bolsa para cada 10 kg de peso, reavaliando a cada 3 a 4 dias.

Duas contraindicações formais aparecem em prova. Crioprecipitado está contraindicado no tratamento da hemofilia A e da doença de von Willebrand quando existem fator VIII recombinante e concentrados com inativação viral — só entra como reposição de von Willebrand em quem não responde ou não tem indicação de desmopressina e não dispõe de concentrado específico. E crioprecipitado não repõe fatores que não sejam fibrinogênio, fator XIII e von Willebrand, por mais alargado que esteja o tempo de protrombina.

Na coagulação intravascular disseminada a reposição profilática é desencorajada, mas na presença de sangramento, ainda que sem gravidade no momento, repõem-se fatores com plasma e plaquetas com alvo acima de 20.000/µL — e crioprecipitado quando o fibrinogênio caiu.

O ato transfusional é normatizado — e a norma cai na prova

A amostra colhida para os testes pré-transfusionais tem validade de até 72 horas. Se nos três meses que antecedem a transfusão o paciente recebeu componentes contendo hemácias — concentrado de hemácias, de plaquetas ou de granulócitos — ou tem história de gestação, a amostra tem obrigatoriamente de ser colhida dentro das 72 horas anteriores ao ato transfusional. Na falta de informação confiável sobre esses antecedentes, aplica-se a mesma regra restritiva.

Os primeiros dez minutos da transfusão são acompanhados à beira do leito por profissional qualificado, que permanece ao lado do paciente durante esse intervalo — é nesses minutos que a reação hemolítica aguda por incompatibilidade ABO costuma se manifestar, quando o volume infundido ainda é pequeno. Os sinais vitais são verificados e registrados antes do início e após o término, e o paciente é monitorado periodicamente durante todo o ato.

O componente sanguíneo é infundido em no máximo quatro horas. Atingido esse prazo, a transfusão é interrompida e a bolsa descartada — não se retoma, não se refrigera para continuar depois. Quando o paciente não tolera o volume nesse tempo, a solução correta é fracionar a bolsa em alíquotas no serviço de hemoterapia, e não esticar a infusão. Nada de medicamento ou solução não isotônica é adicionado ao hemocomponente nem infundido pelo mesmo acesso; a única solução compatível é o cloreto de sódio a 0,9%.

Em emergência, o componente pode ser liberado antes do término dos testes pré-transfusionais desde que o retardo coloque a vida em risco, exista procedimento escrito no serviço, haja termo de responsabilidade assinado pelo médico responsável pelo paciente e as provas pré-transfusionais sejam concluídas mesmo depois de a transfusão terminar. Se não houver tempo para tipagem, a recomendação é hemácias O RhD negativo.

É nesse ponto que o Anexo IV-B, em vigor a partir de 30 de setembro de 2026, aperta a regra. O sangue O RhD negativo passa a ser recomendado especificamente para mulheres com menos de 50 anos; para homens e para mulheres acima de 50 anos, o componente de escolha na emergência passa a ser o O RhD positivo. A lógica é preservar estoque de O negativo para quem tem risco reprodutivo de aloimunização anti-D. O mesmo artigo passa a recomendar plasma A com baixos títulos de anti-B — ou plasma AB — como plasma de emergência, exceto em crianças.

Reações imediatas: primeiro a febre, depois a dispneia

Reação transfusional é qualquer intercorrência que ocorra como consequência da transfusão, durante ou depois dela. A classificação temporal separa imediatas — até 24 horas — de tardias, e cruza com o mecanismo, imune ou não imune. Diante de qualquer reação, a sequência é sempre a mesma antes do diagnóstico: interromper a transfusão, manter o acesso com solução salina a 0,9%, checar sinais vitais e estado cardiorrespiratório, conferir à beira do leito se o componente foi para o paciente certo, e enviar bolsa e equipo íntegros ao serviço de hemoterapia.

A reação febril não hemolítica exige temperatura maior ou igual a 38 °C com aumento de pelo menos 1 °C em relação ao valor pré-transfusional, ou tremores e calafrios mesmo sem febre, e ocorre durante ou até 4 horas depois do término. É um diagnóstico de exclusão: só se fecha depois de afastar reação hemolítica aguda e contaminação bacteriana. O tratamento é antitérmico, com meperidina nos calafrios intensos, e a prevenção em casos recorrentes é o produto desleucocitado.

A reação hemolítica aguda imunológica é a destruição rápida de hemácias durante ou até 24 horas depois da transfusão, tipicamente por incompatibilidade ABO. Febre, tremores, hipotensão, taquicardia, dor torácica, lombar, abdominal ou no local da infusão e hemoglobinúria compõem o quadro, que pode evoluir para insuficiência renal e coagulação intravascular disseminada. A conduta é hidratação vigorosa com alvo de diurese de 100 mL/h e cuidados de terapia intensiva. Em paciente anestesiado, a mudança de cor da urina pode ser o primeiro e único sinal.

Contaminação bacteriana entra no diferencial da febre por causa da intensidade: tremores fortes, febre alta acima de 40 °C e choque. Exige antibiótico de amplo espectro e cuidados intensivos, além de cultura do componente e do receptor. Reação alérgica leve a moderada é a mais frequente do grupo, com prurido, urticária e eritema em 1% a 3% das transfusões; a maioria cessa sozinha, trata-se com anti-histamínico e, se for leve, o componente pode ser reinstalado. A forma anafilática cursa com broncoespasmo, hipotensão e choque, muitas vezes sem febre, tem incidência de 1:20.000 a 1:50.000, sugere deficiência de IgA com anticorpo anti-IgA e se trata como anafilaxia — adrenalina, anti-histamínico e corticoide, com prevenção por componentes lavados ou deficientes em IgA.

A dispneia divide-se em duas. A lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão exige desconforto respiratório agudo durante ou até seis horas após o término, sem lesão pulmonar prévia, com hipoxemia — relação PaO₂/FiO₂ abaixo de 300 mmHg ou saturação abaixo de 90% em ar ambiente —, infiltrados bilaterais na radiografia de tórax e ausência de evidência de hipertensão atrial esquerda. É síndrome clínica: nenhuma pesquisa de anticorpo no doador é necessária para o diagnóstico, e o tratamento é suporte respiratório.

A sobrecarga circulatória associada à transfusão tem janela mais longa — durante ou até 12 horas após — e é diagnóstico de vigilância que exige três ou mais critérios entre comprometimento respiratório agudo, evidência de edema pulmonar ao exame ou à imagem, alterações cardiovasculares não explicadas pela doença de base como taquicardia, hipertensão, aumento da pressão de pulso, turgência jugular e edema periférico, evidência de sobrecarga de volume incluindo resposta ao diurético, e elevação de peptídeo natriurético acima de 1,5 vez o valor pré-transfusional. Nível normal de BNP pós-transfusão fala contra o diagnóstico. Tratamento é oxigênio e diurético; prevenção é aliquotar a bolsa e usar diurético prévio nos pacientes de risco.

Hemovigilância: gravidade, correlação e o que se notifica

Toda reação transfusional é comunicada internamente à agência transfusional que forneceu o componente, e o sistema nacional classifica cada evento em dois eixos independentes. Gravidade vai do grau 1 ao grau 4: leve, quando a falta de intervenção médica não deixaria dano permanente; moderado, quando houve internação ou prolongamento de internação atribuível ao evento, deficiência persistente, ou necessidade de intervenção para impedir dano permanente; grave, quando houve risco iminente de vida com necessidade de vasopressor, intubação ou terapia intensiva; e óbito, apenas quando a morte é possível, provável ou definitivamente relacionada à transfusão. Paciente que morreu de outra causa tem a reação classificada como 1, 2 ou 3.

O segundo eixo é a correlação com a transfusão, chamada imputabilidade em outros países: confirmada, provável, possível, improvável, inconclusiva e descartada. Quando a investigação conclui pela correlação descartada, a notificação ao sistema nacional de vigilância sanitária não é feita — e se o quadro correspondia a outro tipo de reação, notifica-se ou retifica-se com o tipo adequado.

Três reações são sentinelas e disparam investigação obrigatória do serviço produtor: reação hemolítica aguda imunológica, contaminação bacteriana e lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão. No caso de óbito, a comunicação à autoridade sanitária é feita em até 24 horas da ocorrência; a notificação formal ao sistema nacional segue prazo estendido, até o 15º dia útil, justamente para que a investigação de causa raiz seja concluída antes.

Nem todo evento adverso é reação. Administrar o hemocomponente em tempo superior a quatro horas é um incidente, e incidentes graves e quase-erros também entram no escopo da hemovigilância. O comitê transfusional da instituição é o órgão que revisa indicação, consumo e erro — e a prova costuma cobrar sua existência como requisito, não como recomendação.

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Da beira do leito à notificação

Toda reação transfusional começa com a mesma sequência de sete passos, independentemente do diagnóstico. Só depois de estabilizar e coletar é que se separa qual reação foi — e a separação se faz com três dados: houve febre, houve hemólise, houve dispneia.

  1. 1Interromper imediatamente a transfusão e comunicar o médico responsável.
  2. 2Manter o acesso venoso com solução salina a 0,9% — nunca com o próprio hemocomponente nem com solução hipotônica.
  3. 3Verificar sinais vitais e avaliar o estado cardiorrespiratório.
  4. 4Conferir à beira do leito registros, formulários e identificação: o componente foi para o paciente certo?
  5. 5Classificar a reação para adequar a conduta específica, com atenção às quatro que exigem urgência — hemolítica aguda, TRALI, anafilaxia e sepse relacionada à transfusão.
  6. 6Manter equipo e bolsa íntegros e encaminhá-los ao serviço de hemoterapia, com amostra pós-transfusional colhida de outro acesso — dispensável na urticária isolada e na sobrecarga circulatória.
  7. 7Registrar tudo em prontuário e acionar a hemovigilância, classificando gravidade e correlação.

Grau 1 — leve

Pode requerer intervenção médica, mas a ausência dela não deixaria dano permanente nem comprometimento de órgão ou função. É onde cai a maior parte das reações alérgicas cutâneas e das febris não hemolíticas.

Grau 2 — moderado

Houve internação ou prolongamento de internação diretamente atribuível ao evento, deficiência persistente ou significativa, ou necessidade de intervenção médica ou cirúrgica para impedir dano permanente.

Grau 3 — grave

Risco iminente de vida, com necessidade de intervenção importante depois da transfusão — vasopressor, intubação ou transferência para terapia intensiva — para prevenir a morte.

Grau 4 — óbito

Óbito atribuído à transfusão. Só se usa quando a morte é possível, provável ou definitivamente relacionada ao ato transfusional; morte por outra causa mantém a reação classificada em 1, 2 ou 3.

Reação imediataSinal que abre o casoO que confirma ou afastaConduta específica
Hemolítica aguda imunológica (RHAI)Febre, tremores, hipotensão, dor lombar ou no local da infusão, hemoglobinúria — até 24 hRepetir testes imuno-hematológicos, checar identificação, inspecionar plasma e urina; teste de antiglobulina direto positivoHidratação para manter diurese de 100 mL/h e cuidados de terapia intensiva. Reação sentinela
Febril não hemolítica (RFNH)Temperatura ≥ 38 °C com aumento ≥ 1 °C, ou tremores e calafrios sem febre — até 4 hDiagnóstico de exclusão: afastar hemólise aguda e contaminação bacterianaAntitérmico; meperidina nos calafrios intensos. Prevenção com produto desleucocitado se recorrer
Contaminação bacteriana (CB)Tremores intensos, febre acima de 40 °C, choque de instalação rápidaCultura do componente e do receptor; afastar hemólise aguda imuneAntibiótico de amplo espectro e terapia intensiva. Reação sentinela
Alérgica leve a moderada (ALG)Prurido, urticária, eritema, pápulas — 1% a 3% das transfusõesClínico; não exige amostra pós-transfusional na urticária isoladaAnti-histamínico; se leve, o componente pode ser reinstalado
Alérgica grave / anafiláticaBroncoespasmo, rouquidão, hipotensão e choque, muitas vezes sem febre — 1:20.000 a 1:50.000Dosar IgA e pesquisar anticorpo anti-IgAAdrenalina, anti-histamínico e corticoide. Prevenção com componentes lavados ou deficientes em IgA
TRALIDesconforto respiratório agudo até 6 h, com PaO₂/FiO₂ < 300 ou SpO₂ < 90% em ar ambiente e infiltrado bilateralAusência de hipertensão atrial esquerda; afastar sobrecarga circulatória, RHAI e contaminação. É síndrome clínica — anticorpo não é necessárioSuporte respiratório. Reação sentinela, com investigação do doador pelo serviço produtor
Sobrecarga circulatória (SC/TACO)Dispneia, cianose, taquicardia, hipertensão e edema pulmonar — até 12 hTrês ou mais critérios, incluindo turgência jugular, resposta ao diurético e BNP acima de 1,5 vez o valor pré-transfusionalOxigênio e diurético. Prevenção: aliquotar a bolsa e diurético prévio
Hipotensão relacionada à transfusãoHipotensão e rubor, sem febre, calafrios ou tremoresDiagnóstico de exclusão; associação com uso de inibidor da ECASuporte. Prevenção com componente filtrado pré-armazenamento
Distúrbio metabólicoParestesia, tetania, arritmia — típico de transfusão maciçaCálcio e magnésio iônicos; QT alargado no ECGInfusão lenta de cálcio e magnésio com monitorização seriada

Gatilhos e doses por hemocomponente (Guia do Ministério da Saúde, 2015)

ComponenteGatilhoDoseTempo de infusão
Concentrado de hemáciasHb < 7 g/dL transfunde; 7 a 10 g/dL depende da clínica; > 10 g/dL é excepcional1 unidade eleva Hb em ~1 g/dL e Ht em ~3%; criança 10 a 15 mL/kg60 a 120 min por unidade
Concentrado de plaquetas10.000/µL sem fator de risco; 20.000/µL com febre ou sangramento menor; 50.000/µL para procedimento; 100.000/µL para neurocirurgia e oftalmologia1 U para cada 7 a 10 kg; profilático 4,0 x 10¹¹, terapêutico 6,0 x 10¹¹~30 min a dose
Plasma fresco congeladoSangramento por deficiência de múltiplos fatores; TP > 1,5x o ponto médio normal ou TTPa > 1,5x o limite superior10 a 20 mL/kg, elevando os fatores em 20% a 30%Dentro do limite de 4 h do ato transfusional
CrioprecipitadoFibrinogênio < 100 mg/dL com sangramento, disfibrinogenemia, deficiência de fator XIII1,0 a 1,5 bolsa por 10 kg; cada bolsa eleva o fibrinogênio em 5 a 10 mg/dLDescongelar entre 30 °C e 37 °C em até 15 min e transfundir imediatamente

Regras do ato transfusional — o que muda com o Anexo IV-B em 30/09/2026

RegraAnexo IV (redação da Portaria 158/2016)Anexo IV-B (Portaria 11.685/2026)
Tempo máximo de infusãoQuatro horas; atingido o prazo, interromper e descartar a bolsa (art. 196)Idêntico (art. 201)
Validade da amostra pré-transfusionalAté 72 horas (art. 174)Até 72 horas, com regra nova: sem hora no rótulo, o dia da coleta é D1 e a amostra vale até 23h59 de D3 (art. 178)
Paciente sem transfusão nem gestação nos últimos 3 mesesSem prazo distinto na norma anteriorAmostra pode ser colhida dentro dos sete dias anteriores, salvo pesquisa de anticorpos irregulares positiva (art. 182, § 3º)
Primeiros dez minutosAcompanhados pelo médico ou profissional de saúde qualificado, ao lado do paciente (art. 191, § 2º)Acompanhados pelo enfermeiro ou profissional de saúde qualificado (art. 196, § 2º)
Sinais vitais antes da transfusãoVerificados imediatamente antes do início e após o término (art. 191, § 1º)Verificados e registrados em até sessenta minutos antes do início (art. 196, § 1º)
Hemácias na emergência sem tipagemRecomendável O RhD negativo; O RhD positivo se faltar estoque, sobretudo em homens (art. 171, §§ 4º e 5º)O RhD negativo recomendado em mulheres com menos de 50 anos; O RhD positivo é o componente de escolha em homens e mulheres acima de 50 anos (art. 174, §§ 4º e 5º)
Plasma na emergência sem tipagemSem previsão específicaPlasma A com baixos títulos de anti-B, exceto em crianças, ou plasma AB (art. 174, § 6º)

A amostra pós-transfusional é colhida preferencialmente de um acesso diferente daquele usado para a transfusão, e é dispensável na reação urticariforme isolada e na sobrecarga circulatória.

O tempo que separa reação imediata de tardia é 24 horas. As janelas mais curtas — 4 horas para febril não hemolítica e alérgica, 6 horas para TRALI, 12 horas para sobrecarga circulatória — são critérios de definição de caso da hemovigilância, e servem para classificar, não para descartar reação clinicamente evidente.

Nas emergências concomitantes, a norma preconiza o uso de hemácias O justamente para reduzir o risco de incompatibilidade ABO por troca de identificação entre pacientes.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Limiar de hemoglobina no cardiopata e no pneumopata

Guia brasileiro de 2015: alvos mais altos em subgrupos nomeados

Doença pulmonar obstrutiva crônica mantida com hemoglobina acima de 10 g/dL; cardiopatia isquêmica aguda se beneficiando de níveis acima de 9 a 10 g/dL; acima de 65 anos e sintomático, aceitável transfundir abaixo de 9 g/dL. O documento é de 2015 e antecede os ensaios que testaram estratégias restritivas nesses subgrupos.

Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes, 2. ed., 2015, capítulo 3.

AABB 2023: estratégia restritiva com poucos ajustes

Adulto hospitalizado hemodinamicamente estável transfunde abaixo de 7 g/dL, recomendação forte. O clínico pode escolher 7,5 g/dL em cirurgia cardíaca e 8 g/dL em cirurgia ortopédica ou em quem tem doença cardiovascular prévia. Pacientes hematológicos e oncológicos internados também em 7 g/dL, recomendação condicional. A base são 45 ensaios randomizados com 20.599 adultos.

AABB, Red Blood Cell Transfusion: 2023 International Guidelines (JAMA, 2023), reproduzidas no boletim AABB Patient Blood Management de abril de 2024.

Ensaio MINT (2023): o subgrupo em que a resposta continua aberta

No infarto agudo do miocárdio com anemia, o MINT comparou estratégia restritiva (7 a 8 g/dL) com liberal (manter acima de 10 g/dL) em 144 centros de seis países, incluindo o Brasil. É o único cenário em que a leitura restritiva não ficou consolidada, e por isso convivem, em documentos diferentes, um alvo de 8 g/dL e um alvo de 10 g/dL.

Resumo do ensaio MINT no boletim AABB Patient Blood Management, abril de 2024.

Na prova

A causa da diferença é a data: o documento brasileiro é de 2015 e o corpo internacional incorporou ensaios publicados depois. O cenário do enunciado denuncia o recorte — banco de sangue do SUS, protocolo institucional ou menção ao guia do Ministério puxam os alvos mais altos dos subgrupos; menção a estratégia restritiva, a ensaio randomizado ou à AABB puxa 7 g/dL com os ajustes de 7,5 e 8. As alternativas ajudam: se aparecerem os números 7,5 e 8 g/dL, o enunciado está no mundo da AABB, porque esses valores não constam do documento brasileiro.

Hemácias O RhD negativo na emergência: para quem

Anexo IV, redação de 2016 — vigente até 29/09/2026

Sem tempo para tipagem, o uso de hemácias O RhD negativo é recomendável para o paciente, sem recorte por sexo ou idade. Se o estoque não for suficiente, pode-se usar O RhD positivo, sobretudo em pacientes do sexo masculino.

Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017, Anexo IV, art. 171, §§ 4º e 5º.

Anexo IV-B, Portaria 11.685/2026 — vigente a partir de 30/09/2026

O RhD negativo passa a ser recomendado em mulheres com menos de 50 anos. O RhD positivo passa a ser o componente de escolha em homens e em mulheres acima de 50 anos. O plasma de emergência passa a ser o A com baixos títulos de anti-B, exceto em crianças, ou o AB.

Portaria GM/MS nº 11.685, de 2 de julho de 2026, Anexo IV-B, art. 174, §§ 4º, 5º e 6º.

Na prova

As duas redações coincidem numa mulher jovem em choque hemorrágico — O RhD negativo nas duas —, e é por isso que a maioria das vinhetas continua com gabarito estável. A diferença aparece quando o paciente é homem ou mulher acima de 50 anos: aí o texto novo autoriza O RhD positivo como escolha, e não como recurso de estoque. Vinheta que informa idade e sexo sem necessidade clínica aparente costuma estar cobrando exatamente esse recorte.

Janela temporal da sobrecarga circulatória

Guia do Ministério da Saúde, 2015

Descreve a sobrecarga volêmica pelo quadro — dispneia, cianose, taquicardia, hipertensão e edema pulmonar, com incidência abaixo de 1% —, sem fixar janela temporal nem número mínimo de critérios. O diagnóstico fica clínico, apoiado em radiografia de tórax.

Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes, 2. ed., 2015, Quadro 26.

Manual de Hemovigilância da Anvisa, 2022

Adota definição de caso operacional: comprometimento respiratório ou edema pulmonar durante ou até 12 horas após a transfusão, com três ou mais critérios entre achados respiratórios, edema pulmonar ao exame ou à imagem, alterações cardiovasculares, evidência de sobrecarga de volume e elevação de BNP acima de 1,5 vez o valor pré-transfusional.

Anvisa. Manual para o Sistema Nacional de Hemovigilância no Brasil, 2022, item 4.1.11.

Na prova

Documento brasileiro contra documento brasileiro, com sete anos de distância: o manual de 2022 é de vigilância e existe para padronizar notificação, enquanto o guia de 2015 é de uso clínico. Enunciado que cita notificação, hemovigilância, Notivisa ou classificação de gravidade está no mundo do manual de 2022, e aí valem as 12 horas e os três critérios. Enunciado de beira de leito, que só pede o diagnóstico e a conduta, funciona com o quadro clínico do guia.

Transfusão profilática de plaquetas em plaquetopenia de consumo periférico

Guia do Ministério da Saúde: contagem não indica transfusão nesses quadros

Na púrpura trombocitopênica imune a transfusão é restrita a sangramento grave com risco de vida. Na púrpura trombocitopênica trombótica e na plaquetopenia induzida por heparina deve ser evitada mesmo antes de procedimento invasivo, por risco de piora clínica e de fenômenos tromboembólicos. Na dengue, na leptospirose e nas riquetsioses a transfusão profilática não está indicada, qualquer que seja a contagem.

Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes, 2. ed., 2015, item 3.2.1.

Limiares numéricos de falência medular

Os patamares de 10.000, 20.000, 50.000 e 100.000/µL foram construídos para plaquetopenia por falência medular — quimioterapia, radioterapia, transplante — e para procedimentos em plaquetopênicos. Fora desse contexto, aplicá-los transforma um marcador de gravidade em indicação de transfusão.

Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes, 2. ed., 2015, Quadro 4.

Na prova

Não é divergência entre instituições: é uma fronteira de aplicação dentro do mesmo documento, e a prova a explora oferecendo uma contagem baixa num paciente cujo mecanismo é periférico. O sinal está no diagnóstico do enunciado, não no número: dengue, púrpura imune, púrpura trombótica e plaquetopenia por heparina puxam a lista de exceções; leucemia em quimioterapia, aplasia e transplante puxam os patamares.

06

Caso resolvido

Mulher de 58 anos, internada em enfermaria por pneumonia, recebe transfusão de concentrado de hemácias por hemoglobina de 6,6 g/dL. Trinta minutos após o início da segunda unidade, apresenta calafrios intensos e temperatura de 38,6 °C — antes da transfusão estava com 36,9 °C. Pressão arterial 118/74 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm, saturação 95% em ar ambiente. A urina coletada na sonda tem cor normal. Não há prurido, urticária, dispneia nem dor.
achado
Temperatura de 38,6 °C com aumento de 1,7 °C em relação ao valor pré-transfusional, acompanhada de calafrios, dentro do intervalo transfusional — preenche o critério de temperatura da definição de caso de reação febril não hemolítica.
o que falta antes de rotular
Reação febril não hemolítica é diagnóstico de exclusão. As duas que precisam ser afastadas são a hemolítica aguda imunológica e a contaminação bacteriana — a primeira porque é sentinela e pode matar por insuficiência renal e coagulação intravascular disseminada, a segunda porque exige antibiótico de amplo espectro.
o que os dados já dizem
Pressão preservada, sem hipotensão, sem dor lombar, torácica ou no local da infusão, e urina de cor normal falam contra hemólise aguda. Febre de 38,6 °C sem tremor incoercível, sem febre acima de 40 °C e sem choque falam contra contaminação bacteriana. Nenhum dos dois está descartado por esses dados apenas — a investigação laboratorial continua.
conduta imediata
Interromper a transfusão, manter o acesso com solução salina a 0,9%, checar sinais vitais e estado cardiorrespiratório, conferir à beira do leito se o componente era mesmo desta paciente, e enviar bolsa e equipo íntegros ao serviço de hemoterapia com amostra pós-transfusional colhida de outro acesso.
conduta específica
Antitérmico. Se os calafrios forem intensos, meperidina. Repetição dos testes imuno-hematológicos e cultura do componente e da receptora para fechar a exclusão.
prevenção da próxima
Em reações febris não hemolíticas recorrentes, a prevenção é pré-medicação com antitérmico e uso de produtos desleucocitados. O concentrado de hemácias com camada leucoplaquetária removida também reduz a gravidade dessas reações.
hemovigilância
Reação sem risco de vida e sem prolongamento de internação atribuível ao evento: gravidade grau 1. A correlação com a transfusão será classificada depois da investigação — confirmada, se a evolução for favorável e hemólise e contaminação forem descartadas laboratorialmente.
07

Agora feche você

Homem de 71 anos, com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida e doença renal crônica em tratamento conservador, interna com hemoglobina de 6,1 g/dL por anemia de doença crônica. Recebe uma unidade de concentrado de hemácias infundida em 55 minutos. Três horas após o término, evolui com dispneia, ortopneia e tosse. Pressão arterial 172/98 mmHg — estava 138/80 mmHg antes da transfusão —, frequência cardíaca 112 bpm, saturação 88% em ar ambiente. Ao exame há turgência jugular e estertores crepitantes bilaterais. A radiografia de tórax mostra congestão hilar bilateral, linhas B de Kerley e área cardíaca aumentada. O BNP subiu de 320 para 940 pg/mL.
achado
Desconforto respiratório agudo dentro da janela transfusional, com hipoxemia e infiltrado bilateral — o que abre o diferencial entre lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão e sobrecarga circulatória.
o que separa as duas
Hipertensão em vez de hipotensão, turgência jugular, área cardíaca aumentada, linhas B de Kerley e BNP que triplicou — 940 sobre 320 é bem acima do corte de 1,5 vez o valor pré-transfusional — apontam para hipertensão atrial esquerda, que é justamente o critério que a definição de TRALI exige estar ausente.
diagnóstico
conduta
prevenção na próxima transfusão
08

Onde a banca derruba

  1. 1Transfundir plaqueta na dengue porque a contagem é baixa A plaquetopenia da dengue é de destruição periférica, por anticorpos antivirais com reação cruzada contra antígenos plaquetários, e se comporta como a da púrpura imune. Não há indicação de transfusão profilática, qualquer que seja a contagem. O número atrai porque os limiares de 10.000 e 20.000/µL foram decorados sem o contexto em que valem — falência medular. O mesmo vale para leptospirose e riquetsioses.
  2. 2Chamar de TRALI toda dispneia pós-transfusional A definição de TRALI exige ausência de evidência de hipertensão atrial esquerda. Turgência jugular, hipertensão arterial, área cardíaca aumentada, BNP acima de 1,5 vez o valor pré-transfusional e melhora com diurético empurram o caso para sobrecarga circulatória. O erro sobrevive porque TRALI é a resposta 'sofisticada' e a sobrecarga soa banal — mas a sobrecarga é a mais frequente das duas em cardiopata, nefropata e idoso.
  3. 3Fechar reação febril não hemolítica sem excluir as duas graves Febre durante transfusão é o sintoma inicial da hemolítica aguda imunológica e da contaminação bacteriana, que são reações sentinela. A febril não hemolítica é diagnóstico de exclusão, e a exclusão passa por repetir os testes imuno-hematológicos e culturar componente e receptor. Rotular cedo demais é o caminho para reinstalar a transfusão em cima de uma incompatibilidade ABO.
  4. 4Esticar a infusão além de quatro horas para o paciente 'tolerar' Atingido o limite de quatro horas, a transfusão é interrompida e a bolsa descartada. Infundir hemocomponente em tempo superior a quatro horas é registrado como incidente pela hemovigilância. Quem não tolera o volume nesse tempo precisa da bolsa fracionada em alíquotas pelo serviço de hemoterapia — reduzir a velocidade da mesma bolsa cria risco de proliferação bacteriana sem resolver o problema hemodinâmico.
  5. 5Trocar receptor universal por doador universal Para hemácias, O é o doador universal e AB é o receptor universal. Para plasma é o inverso: AB é o doador universal. O distrator 'hemácias AB para quem não foi tipado' explora exatamente essa inversão. A partir de 30 de setembro de 2026 a norma acrescenta uma camada: O RhD negativo fica recomendado para mulheres com menos de 50 anos, e O RhD positivo passa a ser o componente de escolha em homens e mulheres acima de 50 anos.
  6. 6Usar plasma como expansor, repositor de albumina ou fonte de fibrinogênio isolado Plasma fresco congelado repõe múltiplos fatores da coagulação, e só entra quando não há concentrado específico disponível. Não é expansor volêmico de escolha, não corrige hipoalbuminemia e não é o caminho para repor fibrinogênio isolado — para hipofibrinogenemia abaixo de 100 mg/dL com sangramento, o componente é o crioprecipitado.
  7. 7Diluir ou infundir o hemocomponente junto com medicação Não se adiciona medicamento nem solução não isotônica ao hemocomponente, e não se compartilha o acesso. Glicose a 5% causa hemólise osmótica e soluções com cálcio podem coagular o produto anticoagulado. A única solução compatível é o cloreto de sódio a 0,9%, que também é a que mantém o acesso aberto quando a transfusão é interrompida por reação.
  8. 8Confiar no hematócrito na hemorragia aguda O hematócrito só começa a cair uma a duas horas depois do início do sangramento, porque a perda inicial é de sangue total. Um hematócrito 'normal' no politraumatizado recém-chegado não exclui perda importante. A decisão nesse cenário é clínica — taquicardia, hipotensão, queda do débito urinário, taquipneia, enchimento capilar lentificado e alteração do nível de consciência.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a tríade febre/calafrios com dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria surgindo minutos após o início, com sinais de hemólise intravascular, é o quadro clássico da reação hemolítica aguda, quase sempre por incompatibilidade ABO (erro de identificação). Conduta: parar a transfusão, suporte e reavaliar a compatibilidade. Erra: a reação febril não hemolítica cursa apenas com febre/calafrios, sem hemoglobinúria, dor lombar ou choque. Erra: reação alérgica leve manifesta-se com urticária/prurido, sem febre ou hemólise. Erra TACO cursa com dispneia, hipertensão e congestão pulmonar, não com hemoglobinúria e hipotensão. Erra: contaminação bacteriana causa febre alta e choque séptico, mas sem hemoglobinúria por hemólise intravascular imunomediada e tipicamente com bolsas de plaquetas/estocagem prolongada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite os três patamares de plaquetas na falência medular (10.000, 20.000 e 50.000/µL, com 100.000/µL para neurocirurgia e oftalmologia) e a lista dos quadros em que a contagem não indica transfusão: púrpura trombocitopênica imune, púrpura trombocitopênica trombótica, plaquetopenia induzida por heparina, dengue, leptospirose e riquetsioses. Depois escreva de memória as três faixas de hemoglobina do concentrado de hemácias e o quanto uma unidade eleva Hb e Ht.

em 30 dias

Monte a tabela das reações imediatas de cabeça, em duas colunas: as que cursam com febre (hemolítica aguda, febril não hemolítica, contaminação bacteriana) e as que cursam com dispneia (TRALI e sobrecarga circulatória), com a janela temporal e o critério que separa cada par. Em seguida, liste as regras operacionais que a norma fixa — 72 horas da amostra, dez minutos ao lado do paciente, quatro horas de infusão, termo de responsabilidade na emergência — e diga, para cada uma, se o Anexo IV-B de 2026 manteve ou mudou.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é o plantonista da enfermaria de clínica médica. Um homem de 64 anos, internado há três dias por hemorragia digestiva alta, começou a receber a segunda unidade de concentrado de hemácias há vinte minutos. A enfermeira chama: o paciente está com calafrios, refere dor lombar e a pressão caiu de 130/80 para 92/58 mmHg. A urina na bolsa coletora está escurecida. Conduza a partir da beira do leito. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.