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Terapia transfusional e reações transfusionais
A prova cobra quatro decisões: qual hemocomponente, em que gatilho, o que fazer quando o paciente reage e o que a norma exige. O diferencial entre TRALI e sobrecarga circulatória, e a regra das quatro horas, são os pontos que mais derrubam.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Mulher, 34 anos, com anemia sintomática por sangramento uterino disfuncional (Hb 6,2 g/dL; VR 12–16), recebe transfusão de concentrado de hemácias. Aproximadamente 10 minutos após o início, ainda no primeiro fim de bolsa, apresenta calafrios, febre (T 38,8 °C, elevação de 1,4 °C em relação ao basal), dor lombar, hipotensão (PA 80/50 mmHg) e urina escurecida (hemoglobinúria). A equipe interrompe imediatamente a transfusão. A hipótese diagnóstica mais provável é:
Como esse tema cai
Transfusão é um dos poucos temas em que a prova cobra norma jurídica junto com fisiologia. O examinador pode perguntar o gatilho de hemoglobina, mas pode igualmente perguntar em quantas horas a bolsa tem de acabar, quem fica ao lado do paciente nos primeiros minutos e por quantas horas vale a amostra pré-transfusional. Essas respostas estão escritas em portaria, não em consenso — e por isso são as mais estáveis e as mais cobradas.
O segundo eixo é o diagnóstico diferencial das reações imediatas. Quase toda questão do assunto entrega um paciente que ficou febril ou dispneico durante ou logo depois da transfusão, e pede a classificação. Duas duplas concentram o erro: febre com hemólise contra febre sem hemólise, e TRALI contra sobrecarga circulatória. As duas se resolvem com poucos dados objetivos — cor da urina e pressão arterial na primeira, jugular, resposta ao diurético e BNP na segunda.
O terceiro eixo é o que a prova chama de uso racional: reconhecer as situações em que a plaqueta baixa não se transfunde. Púrpura trombocitopênica imune, púrpura trombocitopênica trombótica, plaquetopenia induzida por heparina, dengue e leptospirose entram no enunciado com contagens assustadoras justamente para testar se o candidato transfunde por número.
Há uma mudança regulatória em curso que muda parte da resposta. A Portaria GM/MS nº 11.685, de 2 de julho de 2026, revogou o Anexo IV da Portaria de Consolidação nº 5/2017 e o substituiu pelo Anexo IV-B, que entra em vigor noventa dias depois da publicação — em 30 de setembro de 2026. Boa parte das regras operacionais foi mantida palavra por palavra, mas a regra do sangue O RhD negativo na emergência mudou, e é exatamente o tipo de detalhe que uma banca atualizada aproveita.
O que muda decisão
Quatro produtos, quatro perguntas diferentes
Sangue total praticamente não se transfunde mais: a bolsa é fracionada e cada componente responde a uma pergunta clínica distinta. Concentrado de hemácias repõe capacidade de transporte de oxigênio. Concentrado de plaquetas repõe plaqueta. Plasma fresco congelado repõe múltiplos fatores da coagulação ao mesmo tempo. Crioprecipitado repõe fibrinogênio, fator XIII e fator de von Willebrand — e mais nada.
Essa separação já resolve uma família inteira de questões. Plasma não corrige anemia, não expande volume como primeira escolha e não repõe albumina. Crioprecipitado não trata deficiência de fator IX nem de fator VII. Concentrado de hemácias não corrige coagulopatia. Quando o enunciado descreve um paciente com dois problemas — anemia e sangramento por coagulopatia, por exemplo — a resposta costuma ser dois componentes, não um componente com dois papéis.
A dose de cada um é padronizada e a prova cobra os números. Uma unidade de concentrado de hemácias eleva o hematócrito em cerca de 3% e a hemoglobina em cerca de 1 g/dL num adulto de estatura média; em criança, o equivalente é 10 a 15 mL/kg. A dose usual de plaquetas é 1 unidade de concentrado para cada 7 a 10 kg de peso. Plasma fresco congelado é dosado em 10 a 20 mL/kg, o que eleva os fatores em 20% a 30%. Cada bolsa de crioprecipitado eleva o fibrinogênio em 5 a 10 mg/dL num adulto médio.

Concentrado de hemácias: o número e o paciente
Para anemia normovolêmica, o guia brasileiro trabalha com três faixas. Acima de 10 g/dL de hemoglobina — hematócrito acima de 30% — a anemia é bem tolerada e a transfusão é excepcional. Abaixo de 7 g/dL há risco elevado de hipóxia tecidual e o paciente se beneficia da transfusão. Entre 7 e 10 g/dL a indicação depende do estado clínico, e é nessa faixa que a prova constrói a dúvida.
Dentro dessa faixa intermediária o documento brasileiro nomeia exceções: doença pulmonar obstrutiva crônica deve ser mantida com hemoglobina acima de 10 g/dL; cardiopatia isquêmica aguda parece se beneficiar de níveis acima de 9 a 10 g/dL; acima de 65 anos, sintomático, é aceitável transfundir com hemoglobina abaixo de 9 g/dL; e no pós-operatório estável, sem sinais de hipóxia tecidual, 8 g/dL é aceitável.
Hemorragia aguda muda a lógica: o hematócrito não serve para decidir, porque só começa a cair uma a duas horas depois do início do sangramento. Nesse cenário a decisão é clínica — frequência cardíaca acima de 100 a 120 bpm, hipotensão, queda do débito urinário, taquipneia, enchimento capilar acima de 2 segundos, alteração do nível de consciência. A transfusão de concentrado de hemácias está recomendada depois de perda superior a 25% a 30% da volemia.
A infusão de cada unidade leva de 60 a 120 minutos no adulto, e a resposta se avalia com nova dosagem de hemoglobina ou hematócrito 1 a 2 horas depois — em paciente ambulatorial, 30 minutos após o término já dá resultado comparável. Transfundir de unidade em unidade, reavaliando, é o que evita as duas metades do erro: subtransfundir quem está sintomático e transfundir três bolsas em quem precisava de uma.
Há indicações que o guia lista explicitamente como não indicações, e elas viram distrator com frequência: transfundir para melhorar a sensação de bem-estar, para acelerar cicatrização de ferida, profilaticamente, ou para expandir volume quando o transporte de oxigênio está adequado.
Plaquetas: três patamares e uma lista de exceções
Nas plaquetopenias por falência medular de duração determinada — quimioterapia, radioterapia, transplante de células progenitoras — o limiar profilático é 10.000/µL na ausência de fatores de risco. Sobe para 20.000/µL quando há febre acima de 38 °C, manifestações hemorrágicas menores como petéquias, equimoses e gengivorragia, doença do enxerto contra hospedeiro, esplenomegalia, drogas que encurtam a sobrevida plaquetária, hiperleucocitose acima de 30.000/mm³, outras alterações da hemostasia ou queda rápida da contagem.
Quando a falência medular é crônica — anemia aplástica grave, síndrome mielodisplásica — o paciente é observado sem transfusão, e a profilaxia só entra abaixo de 5.000/µL, ou abaixo de 10.000/µL se houver manifestação hemorrágica. Em adultos com tumor sólido sob quimioterapia ou radioterapia, o limiar é 20.000/µL. Em criança estável, 5.000/µL.
Para procedimento invasivo o consenso é que 50.000/µL bastam na maioria dos casos, com exceção de neurocirurgia e cirurgia oftalmológica, que exigem acima de 100.000/µL. Punção lombar pede acima de 20.000/µL na criança e acima de 30.000/µL no adulto; biópsia e aspirado de medula, acima de 20.000/µL; endoscopia ou broncoscopia sem biópsia, 20.000 a 40.000/µL, e com biópsia, acima de 50.000/µL; biópsia hepática e cirurgias de médio e grande porte, acima de 50.000/µL.
Na transfusão maciça — troca de aproximadamente duas volemias — recomenda-se transfundir plaquetas abaixo de 50.000/µL, ou abaixo de 100.000/µL se houver alteração grave da hemostasia, trauma múltiplo ou lesão do sistema nervoso central. Em circulação extracorpórea prolongada, acima de 90 a 120 minutos, a disfunção plaquetária justifica transfusão mesmo com contagem acima de 50.000/µL, porque o problema é qualitativo.
A lista de exceções é o que a prova mais explora. Na púrpura trombocitopênica imune a transfusão fica restrita a sangramento grave com risco de vida, e sempre associada a corticoide em dose alta e imunoglobulina. Na púrpura trombocitopênica trombótica e na plaquetopenia induzida por heparina a transfusão profilática deve ser evitada mesmo antes de procedimento invasivo, pelo risco de piora clínica e de fenômenos tromboembólicos. Na dengue a plaquetopenia se comporta como a da púrpura imune, e não há indicação de transfusão profilática qualquer que seja a contagem — o mesmo vale para leptospirose e riquetsioses.
A dose profilática usual em adulto acima de 55 kg é de 4,0 x 10¹¹ plaquetas — 6 a 8 unidades de concentrado unitário ou 1 unidade de aférese — para atingir contagem acima de 25.000/µL. A dose terapêutica, para contagem desejada acima de 40.000/µL, é de 6,0 x 10¹¹, ou 8 a 10 unidades unitárias. O tempo de infusão é de cerca de 30 minutos, e a resposta se checa com nova contagem 1 hora depois.
Plasma e crioprecipitado: o que cada um não faz
Plasma fresco congelado está indicado quando há sangramento ou risco de sangramento por deficiência de múltiplos fatores da coagulação e não existe concentrado específico disponível — hepatopatia, coagulação intravascular disseminada com sangramento, transfusão maciça, reversão urgente de anticoagulante oral. Os parâmetros laboratoriais usados como referência para repor são tempo de protrombina acima de 1,5 vez o ponto médio da variação normal, ou tempo de tromboplastina parcial ativado acima de 1,5 vez o limite superior do normal, sempre lidos junto com a situação clínica.
A dose é de 10 a 20 mL/kg, o que eleva os fatores em 20% a 30% e alcança nível hemostático. O intervalo entre doses depende da meia-vida do fator que se quer repor: fator VII tem meia-vida de cerca de 6 horas e fator VIII de cerca de 12 horas, enquanto fibrinogênio dura de 100 a 150 horas. Repetir plasma de 12 em 12 horas para corrigir uma deficiência de fator com meia-vida longa é desperdício e risco.
Crioprecipitado está indicado na hipofibrinogenemia congênita ou adquirida abaixo de 100 mg/dL, na disfibrinogenemia e na deficiência de fator XIII. A hipofibrinogenemia adquirida aparece depois de trombólise, transfusão maciça e coagulação intravascular disseminada. O nível hemostático de fibrinogênio é de 70 a 100 mg/dL, e um cálculo prático é 1,0 a 1,5 bolsa para cada 10 kg de peso, reavaliando a cada 3 a 4 dias.
Duas contraindicações formais aparecem em prova. Crioprecipitado está contraindicado no tratamento da hemofilia A e da doença de von Willebrand quando existem fator VIII recombinante e concentrados com inativação viral — só entra como reposição de von Willebrand em quem não responde ou não tem indicação de desmopressina e não dispõe de concentrado específico. E crioprecipitado não repõe fatores que não sejam fibrinogênio, fator XIII e von Willebrand, por mais alargado que esteja o tempo de protrombina.
Na coagulação intravascular disseminada a reposição profilática é desencorajada, mas na presença de sangramento, ainda que sem gravidade no momento, repõem-se fatores com plasma e plaquetas com alvo acima de 20.000/µL — e crioprecipitado quando o fibrinogênio caiu.
O ato transfusional é normatizado — e a norma cai na prova
A amostra colhida para os testes pré-transfusionais tem validade de até 72 horas. Se nos três meses que antecedem a transfusão o paciente recebeu componentes contendo hemácias — concentrado de hemácias, de plaquetas ou de granulócitos — ou tem história de gestação, a amostra tem obrigatoriamente de ser colhida dentro das 72 horas anteriores ao ato transfusional. Na falta de informação confiável sobre esses antecedentes, aplica-se a mesma regra restritiva.
Os primeiros dez minutos da transfusão são acompanhados à beira do leito por profissional qualificado, que permanece ao lado do paciente durante esse intervalo — é nesses minutos que a reação hemolítica aguda por incompatibilidade ABO costuma se manifestar, quando o volume infundido ainda é pequeno. Os sinais vitais são verificados e registrados antes do início e após o término, e o paciente é monitorado periodicamente durante todo o ato.
O componente sanguíneo é infundido em no máximo quatro horas. Atingido esse prazo, a transfusão é interrompida e a bolsa descartada — não se retoma, não se refrigera para continuar depois. Quando o paciente não tolera o volume nesse tempo, a solução correta é fracionar a bolsa em alíquotas no serviço de hemoterapia, e não esticar a infusão. Nada de medicamento ou solução não isotônica é adicionado ao hemocomponente nem infundido pelo mesmo acesso; a única solução compatível é o cloreto de sódio a 0,9%.
Em emergência, o componente pode ser liberado antes do término dos testes pré-transfusionais desde que o retardo coloque a vida em risco, exista procedimento escrito no serviço, haja termo de responsabilidade assinado pelo médico responsável pelo paciente e as provas pré-transfusionais sejam concluídas mesmo depois de a transfusão terminar. Se não houver tempo para tipagem, a recomendação é hemácias O RhD negativo.
É nesse ponto que o Anexo IV-B, em vigor a partir de 30 de setembro de 2026, aperta a regra. O sangue O RhD negativo passa a ser recomendado especificamente para mulheres com menos de 50 anos; para homens e para mulheres acima de 50 anos, o componente de escolha na emergência passa a ser o O RhD positivo. A lógica é preservar estoque de O negativo para quem tem risco reprodutivo de aloimunização anti-D. O mesmo artigo passa a recomendar plasma A com baixos títulos de anti-B — ou plasma AB — como plasma de emergência, exceto em crianças.
Reações imediatas: primeiro a febre, depois a dispneia
Reação transfusional é qualquer intercorrência que ocorra como consequência da transfusão, durante ou depois dela. A classificação temporal separa imediatas — até 24 horas — de tardias, e cruza com o mecanismo, imune ou não imune. Diante de qualquer reação, a sequência é sempre a mesma antes do diagnóstico: interromper a transfusão, manter o acesso com solução salina a 0,9%, checar sinais vitais e estado cardiorrespiratório, conferir à beira do leito se o componente foi para o paciente certo, e enviar bolsa e equipo íntegros ao serviço de hemoterapia.
A reação febril não hemolítica exige temperatura maior ou igual a 38 °C com aumento de pelo menos 1 °C em relação ao valor pré-transfusional, ou tremores e calafrios mesmo sem febre, e ocorre durante ou até 4 horas depois do término. É um diagnóstico de exclusão: só se fecha depois de afastar reação hemolítica aguda e contaminação bacteriana. O tratamento é antitérmico, com meperidina nos calafrios intensos, e a prevenção em casos recorrentes é o produto desleucocitado.
A reação hemolítica aguda imunológica é a destruição rápida de hemácias durante ou até 24 horas depois da transfusão, tipicamente por incompatibilidade ABO. Febre, tremores, hipotensão, taquicardia, dor torácica, lombar, abdominal ou no local da infusão e hemoglobinúria compõem o quadro, que pode evoluir para insuficiência renal e coagulação intravascular disseminada. A conduta é hidratação vigorosa com alvo de diurese de 100 mL/h e cuidados de terapia intensiva. Em paciente anestesiado, a mudança de cor da urina pode ser o primeiro e único sinal.
Contaminação bacteriana entra no diferencial da febre por causa da intensidade: tremores fortes, febre alta acima de 40 °C e choque. Exige antibiótico de amplo espectro e cuidados intensivos, além de cultura do componente e do receptor. Reação alérgica leve a moderada é a mais frequente do grupo, com prurido, urticária e eritema em 1% a 3% das transfusões; a maioria cessa sozinha, trata-se com anti-histamínico e, se for leve, o componente pode ser reinstalado. A forma anafilática cursa com broncoespasmo, hipotensão e choque, muitas vezes sem febre, tem incidência de 1:20.000 a 1:50.000, sugere deficiência de IgA com anticorpo anti-IgA e se trata como anafilaxia — adrenalina, anti-histamínico e corticoide, com prevenção por componentes lavados ou deficientes em IgA.
A dispneia divide-se em duas. A lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão exige desconforto respiratório agudo durante ou até seis horas após o término, sem lesão pulmonar prévia, com hipoxemia — relação PaO₂/FiO₂ abaixo de 300 mmHg ou saturação abaixo de 90% em ar ambiente —, infiltrados bilaterais na radiografia de tórax e ausência de evidência de hipertensão atrial esquerda. É síndrome clínica: nenhuma pesquisa de anticorpo no doador é necessária para o diagnóstico, e o tratamento é suporte respiratório.
A sobrecarga circulatória associada à transfusão tem janela mais longa — durante ou até 12 horas após — e é diagnóstico de vigilância que exige três ou mais critérios entre comprometimento respiratório agudo, evidência de edema pulmonar ao exame ou à imagem, alterações cardiovasculares não explicadas pela doença de base como taquicardia, hipertensão, aumento da pressão de pulso, turgência jugular e edema periférico, evidência de sobrecarga de volume incluindo resposta ao diurético, e elevação de peptídeo natriurético acima de 1,5 vez o valor pré-transfusional. Nível normal de BNP pós-transfusão fala contra o diagnóstico. Tratamento é oxigênio e diurético; prevenção é aliquotar a bolsa e usar diurético prévio nos pacientes de risco.
Hemovigilância: gravidade, correlação e o que se notifica
Toda reação transfusional é comunicada internamente à agência transfusional que forneceu o componente, e o sistema nacional classifica cada evento em dois eixos independentes. Gravidade vai do grau 1 ao grau 4: leve, quando a falta de intervenção médica não deixaria dano permanente; moderado, quando houve internação ou prolongamento de internação atribuível ao evento, deficiência persistente, ou necessidade de intervenção para impedir dano permanente; grave, quando houve risco iminente de vida com necessidade de vasopressor, intubação ou terapia intensiva; e óbito, apenas quando a morte é possível, provável ou definitivamente relacionada à transfusão. Paciente que morreu de outra causa tem a reação classificada como 1, 2 ou 3.
O segundo eixo é a correlação com a transfusão, chamada imputabilidade em outros países: confirmada, provável, possível, improvável, inconclusiva e descartada. Quando a investigação conclui pela correlação descartada, a notificação ao sistema nacional de vigilância sanitária não é feita — e se o quadro correspondia a outro tipo de reação, notifica-se ou retifica-se com o tipo adequado.
Três reações são sentinelas e disparam investigação obrigatória do serviço produtor: reação hemolítica aguda imunológica, contaminação bacteriana e lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão. No caso de óbito, a comunicação à autoridade sanitária é feita em até 24 horas da ocorrência; a notificação formal ao sistema nacional segue prazo estendido, até o 15º dia útil, justamente para que a investigação de causa raiz seja concluída antes.
Nem todo evento adverso é reação. Administrar o hemocomponente em tempo superior a quatro horas é um incidente, e incidentes graves e quase-erros também entram no escopo da hemovigilância. O comitê transfusional da instituição é o órgão que revisa indicação, consumo e erro — e a prova costuma cobrar sua existência como requisito, não como recomendação.
Da beira do leito à notificação
Toda reação transfusional começa com a mesma sequência de sete passos, independentemente do diagnóstico. Só depois de estabilizar e coletar é que se separa qual reação foi — e a separação se faz com três dados: houve febre, houve hemólise, houve dispneia.
- 1Interromper imediatamente a transfusão e comunicar o médico responsável.
- 2Manter o acesso venoso com solução salina a 0,9% — nunca com o próprio hemocomponente nem com solução hipotônica.
- 3Verificar sinais vitais e avaliar o estado cardiorrespiratório.
- 4Conferir à beira do leito registros, formulários e identificação: o componente foi para o paciente certo?
- 5Classificar a reação para adequar a conduta específica, com atenção às quatro que exigem urgência — hemolítica aguda, TRALI, anafilaxia e sepse relacionada à transfusão.
- 6Manter equipo e bolsa íntegros e encaminhá-los ao serviço de hemoterapia, com amostra pós-transfusional colhida de outro acesso — dispensável na urticária isolada e na sobrecarga circulatória.
- 7Registrar tudo em prontuário e acionar a hemovigilância, classificando gravidade e correlação.
Grau 1 — leve
Pode requerer intervenção médica, mas a ausência dela não deixaria dano permanente nem comprometimento de órgão ou função. É onde cai a maior parte das reações alérgicas cutâneas e das febris não hemolíticas.
Grau 2 — moderado
Houve internação ou prolongamento de internação diretamente atribuível ao evento, deficiência persistente ou significativa, ou necessidade de intervenção médica ou cirúrgica para impedir dano permanente.
Grau 3 — grave
Risco iminente de vida, com necessidade de intervenção importante depois da transfusão — vasopressor, intubação ou transferência para terapia intensiva — para prevenir a morte.
Grau 4 — óbito
Óbito atribuído à transfusão. Só se usa quando a morte é possível, provável ou definitivamente relacionada ao ato transfusional; morte por outra causa mantém a reação classificada em 1, 2 ou 3.
| Reação imediata | Sinal que abre o caso | O que confirma ou afasta | Conduta específica |
|---|---|---|---|
| Hemolítica aguda imunológica (RHAI) | Febre, tremores, hipotensão, dor lombar ou no local da infusão, hemoglobinúria — até 24 h | Repetir testes imuno-hematológicos, checar identificação, inspecionar plasma e urina; teste de antiglobulina direto positivo | Hidratação para manter diurese de 100 mL/h e cuidados de terapia intensiva. Reação sentinela |
| Febril não hemolítica (RFNH) | Temperatura ≥ 38 °C com aumento ≥ 1 °C, ou tremores e calafrios sem febre — até 4 h | Diagnóstico de exclusão: afastar hemólise aguda e contaminação bacteriana | Antitérmico; meperidina nos calafrios intensos. Prevenção com produto desleucocitado se recorrer |
| Contaminação bacteriana (CB) | Tremores intensos, febre acima de 40 °C, choque de instalação rápida | Cultura do componente e do receptor; afastar hemólise aguda imune | Antibiótico de amplo espectro e terapia intensiva. Reação sentinela |
| Alérgica leve a moderada (ALG) | Prurido, urticária, eritema, pápulas — 1% a 3% das transfusões | Clínico; não exige amostra pós-transfusional na urticária isolada | Anti-histamínico; se leve, o componente pode ser reinstalado |
| Alérgica grave / anafilática | Broncoespasmo, rouquidão, hipotensão e choque, muitas vezes sem febre — 1:20.000 a 1:50.000 | Dosar IgA e pesquisar anticorpo anti-IgA | Adrenalina, anti-histamínico e corticoide. Prevenção com componentes lavados ou deficientes em IgA |
| TRALI | Desconforto respiratório agudo até 6 h, com PaO₂/FiO₂ < 300 ou SpO₂ < 90% em ar ambiente e infiltrado bilateral | Ausência de hipertensão atrial esquerda; afastar sobrecarga circulatória, RHAI e contaminação. É síndrome clínica — anticorpo não é necessário | Suporte respiratório. Reação sentinela, com investigação do doador pelo serviço produtor |
| Sobrecarga circulatória (SC/TACO) | Dispneia, cianose, taquicardia, hipertensão e edema pulmonar — até 12 h | Três ou mais critérios, incluindo turgência jugular, resposta ao diurético e BNP acima de 1,5 vez o valor pré-transfusional | Oxigênio e diurético. Prevenção: aliquotar a bolsa e diurético prévio |
| Hipotensão relacionada à transfusão | Hipotensão e rubor, sem febre, calafrios ou tremores | Diagnóstico de exclusão; associação com uso de inibidor da ECA | Suporte. Prevenção com componente filtrado pré-armazenamento |
| Distúrbio metabólico | Parestesia, tetania, arritmia — típico de transfusão maciça | Cálcio e magnésio iônicos; QT alargado no ECG | Infusão lenta de cálcio e magnésio com monitorização seriada |
Gatilhos e doses por hemocomponente (Guia do Ministério da Saúde, 2015)
| Componente | Gatilho | Dose | Tempo de infusão |
|---|---|---|---|
| Concentrado de hemácias | Hb < 7 g/dL transfunde; 7 a 10 g/dL depende da clínica; > 10 g/dL é excepcional | 1 unidade eleva Hb em ~1 g/dL e Ht em ~3%; criança 10 a 15 mL/kg | 60 a 120 min por unidade |
| Concentrado de plaquetas | 10.000/µL sem fator de risco; 20.000/µL com febre ou sangramento menor; 50.000/µL para procedimento; 100.000/µL para neurocirurgia e oftalmologia | 1 U para cada 7 a 10 kg; profilático 4,0 x 10¹¹, terapêutico 6,0 x 10¹¹ | ~30 min a dose |
| Plasma fresco congelado | Sangramento por deficiência de múltiplos fatores; TP > 1,5x o ponto médio normal ou TTPa > 1,5x o limite superior | 10 a 20 mL/kg, elevando os fatores em 20% a 30% | Dentro do limite de 4 h do ato transfusional |
| Crioprecipitado | Fibrinogênio < 100 mg/dL com sangramento, disfibrinogenemia, deficiência de fator XIII | 1,0 a 1,5 bolsa por 10 kg; cada bolsa eleva o fibrinogênio em 5 a 10 mg/dL | Descongelar entre 30 °C e 37 °C em até 15 min e transfundir imediatamente |
Regras do ato transfusional — o que muda com o Anexo IV-B em 30/09/2026
| Regra | Anexo IV (redação da Portaria 158/2016) | Anexo IV-B (Portaria 11.685/2026) |
|---|---|---|
| Tempo máximo de infusão | Quatro horas; atingido o prazo, interromper e descartar a bolsa (art. 196) | Idêntico (art. 201) |
| Validade da amostra pré-transfusional | Até 72 horas (art. 174) | Até 72 horas, com regra nova: sem hora no rótulo, o dia da coleta é D1 e a amostra vale até 23h59 de D3 (art. 178) |
| Paciente sem transfusão nem gestação nos últimos 3 meses | Sem prazo distinto na norma anterior | Amostra pode ser colhida dentro dos sete dias anteriores, salvo pesquisa de anticorpos irregulares positiva (art. 182, § 3º) |
| Primeiros dez minutos | Acompanhados pelo médico ou profissional de saúde qualificado, ao lado do paciente (art. 191, § 2º) | Acompanhados pelo enfermeiro ou profissional de saúde qualificado (art. 196, § 2º) |
| Sinais vitais antes da transfusão | Verificados imediatamente antes do início e após o término (art. 191, § 1º) | Verificados e registrados em até sessenta minutos antes do início (art. 196, § 1º) |
| Hemácias na emergência sem tipagem | Recomendável O RhD negativo; O RhD positivo se faltar estoque, sobretudo em homens (art. 171, §§ 4º e 5º) | O RhD negativo recomendado em mulheres com menos de 50 anos; O RhD positivo é o componente de escolha em homens e mulheres acima de 50 anos (art. 174, §§ 4º e 5º) |
| Plasma na emergência sem tipagem | Sem previsão específica | Plasma A com baixos títulos de anti-B, exceto em crianças, ou plasma AB (art. 174, § 6º) |
A amostra pós-transfusional é colhida preferencialmente de um acesso diferente daquele usado para a transfusão, e é dispensável na reação urticariforme isolada e na sobrecarga circulatória.
O tempo que separa reação imediata de tardia é 24 horas. As janelas mais curtas — 4 horas para febril não hemolítica e alérgica, 6 horas para TRALI, 12 horas para sobrecarga circulatória — são critérios de definição de caso da hemovigilância, e servem para classificar, não para descartar reação clinicamente evidente.
Nas emergências concomitantes, a norma preconiza o uso de hemácias O justamente para reduzir o risco de incompatibilidade ABO por troca de identificação entre pacientes.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Guia brasileiro de 2015: alvos mais altos em subgrupos nomeados
Doença pulmonar obstrutiva crônica mantida com hemoglobina acima de 10 g/dL; cardiopatia isquêmica aguda se beneficiando de níveis acima de 9 a 10 g/dL; acima de 65 anos e sintomático, aceitável transfundir abaixo de 9 g/dL. O documento é de 2015 e antecede os ensaios que testaram estratégias restritivas nesses subgrupos.
Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes, 2. ed., 2015, capítulo 3.
AABB 2023: estratégia restritiva com poucos ajustes
Adulto hospitalizado hemodinamicamente estável transfunde abaixo de 7 g/dL, recomendação forte. O clínico pode escolher 7,5 g/dL em cirurgia cardíaca e 8 g/dL em cirurgia ortopédica ou em quem tem doença cardiovascular prévia. Pacientes hematológicos e oncológicos internados também em 7 g/dL, recomendação condicional. A base são 45 ensaios randomizados com 20.599 adultos.
AABB, Red Blood Cell Transfusion: 2023 International Guidelines (JAMA, 2023), reproduzidas no boletim AABB Patient Blood Management de abril de 2024.
Ensaio MINT (2023): o subgrupo em que a resposta continua aberta
No infarto agudo do miocárdio com anemia, o MINT comparou estratégia restritiva (7 a 8 g/dL) com liberal (manter acima de 10 g/dL) em 144 centros de seis países, incluindo o Brasil. É o único cenário em que a leitura restritiva não ficou consolidada, e por isso convivem, em documentos diferentes, um alvo de 8 g/dL e um alvo de 10 g/dL.
Resumo do ensaio MINT no boletim AABB Patient Blood Management, abril de 2024.
Na prova
A causa da diferença é a data: o documento brasileiro é de 2015 e o corpo internacional incorporou ensaios publicados depois. O cenário do enunciado denuncia o recorte — banco de sangue do SUS, protocolo institucional ou menção ao guia do Ministério puxam os alvos mais altos dos subgrupos; menção a estratégia restritiva, a ensaio randomizado ou à AABB puxa 7 g/dL com os ajustes de 7,5 e 8. As alternativas ajudam: se aparecerem os números 7,5 e 8 g/dL, o enunciado está no mundo da AABB, porque esses valores não constam do documento brasileiro.
Anexo IV, redação de 2016 — vigente até 29/09/2026
Sem tempo para tipagem, o uso de hemácias O RhD negativo é recomendável para o paciente, sem recorte por sexo ou idade. Se o estoque não for suficiente, pode-se usar O RhD positivo, sobretudo em pacientes do sexo masculino.
Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017, Anexo IV, art. 171, §§ 4º e 5º.
Anexo IV-B, Portaria 11.685/2026 — vigente a partir de 30/09/2026
O RhD negativo passa a ser recomendado em mulheres com menos de 50 anos. O RhD positivo passa a ser o componente de escolha em homens e em mulheres acima de 50 anos. O plasma de emergência passa a ser o A com baixos títulos de anti-B, exceto em crianças, ou o AB.
Portaria GM/MS nº 11.685, de 2 de julho de 2026, Anexo IV-B, art. 174, §§ 4º, 5º e 6º.
Na prova
As duas redações coincidem numa mulher jovem em choque hemorrágico — O RhD negativo nas duas —, e é por isso que a maioria das vinhetas continua com gabarito estável. A diferença aparece quando o paciente é homem ou mulher acima de 50 anos: aí o texto novo autoriza O RhD positivo como escolha, e não como recurso de estoque. Vinheta que informa idade e sexo sem necessidade clínica aparente costuma estar cobrando exatamente esse recorte.
Guia do Ministério da Saúde, 2015
Descreve a sobrecarga volêmica pelo quadro — dispneia, cianose, taquicardia, hipertensão e edema pulmonar, com incidência abaixo de 1% —, sem fixar janela temporal nem número mínimo de critérios. O diagnóstico fica clínico, apoiado em radiografia de tórax.
Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes, 2. ed., 2015, Quadro 26.
Manual de Hemovigilância da Anvisa, 2022
Adota definição de caso operacional: comprometimento respiratório ou edema pulmonar durante ou até 12 horas após a transfusão, com três ou mais critérios entre achados respiratórios, edema pulmonar ao exame ou à imagem, alterações cardiovasculares, evidência de sobrecarga de volume e elevação de BNP acima de 1,5 vez o valor pré-transfusional.
Anvisa. Manual para o Sistema Nacional de Hemovigilância no Brasil, 2022, item 4.1.11.
Na prova
Documento brasileiro contra documento brasileiro, com sete anos de distância: o manual de 2022 é de vigilância e existe para padronizar notificação, enquanto o guia de 2015 é de uso clínico. Enunciado que cita notificação, hemovigilância, Notivisa ou classificação de gravidade está no mundo do manual de 2022, e aí valem as 12 horas e os três critérios. Enunciado de beira de leito, que só pede o diagnóstico e a conduta, funciona com o quadro clínico do guia.
Guia do Ministério da Saúde: contagem não indica transfusão nesses quadros
Na púrpura trombocitopênica imune a transfusão é restrita a sangramento grave com risco de vida. Na púrpura trombocitopênica trombótica e na plaquetopenia induzida por heparina deve ser evitada mesmo antes de procedimento invasivo, por risco de piora clínica e de fenômenos tromboembólicos. Na dengue, na leptospirose e nas riquetsioses a transfusão profilática não está indicada, qualquer que seja a contagem.
Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes, 2. ed., 2015, item 3.2.1.
Limiares numéricos de falência medular
Os patamares de 10.000, 20.000, 50.000 e 100.000/µL foram construídos para plaquetopenia por falência medular — quimioterapia, radioterapia, transplante — e para procedimentos em plaquetopênicos. Fora desse contexto, aplicá-los transforma um marcador de gravidade em indicação de transfusão.
Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes, 2. ed., 2015, Quadro 4.
Na prova
Não é divergência entre instituições: é uma fronteira de aplicação dentro do mesmo documento, e a prova a explora oferecendo uma contagem baixa num paciente cujo mecanismo é periférico. O sinal está no diagnóstico do enunciado, não no número: dengue, púrpura imune, púrpura trombótica e plaquetopenia por heparina puxam a lista de exceções; leucemia em quimioterapia, aplasia e transplante puxam os patamares.
Caso resolvido
- achado
- Temperatura de 38,6 °C com aumento de 1,7 °C em relação ao valor pré-transfusional, acompanhada de calafrios, dentro do intervalo transfusional — preenche o critério de temperatura da definição de caso de reação febril não hemolítica.
- o que falta antes de rotular
- Reação febril não hemolítica é diagnóstico de exclusão. As duas que precisam ser afastadas são a hemolítica aguda imunológica e a contaminação bacteriana — a primeira porque é sentinela e pode matar por insuficiência renal e coagulação intravascular disseminada, a segunda porque exige antibiótico de amplo espectro.
- o que os dados já dizem
- Pressão preservada, sem hipotensão, sem dor lombar, torácica ou no local da infusão, e urina de cor normal falam contra hemólise aguda. Febre de 38,6 °C sem tremor incoercível, sem febre acima de 40 °C e sem choque falam contra contaminação bacteriana. Nenhum dos dois está descartado por esses dados apenas — a investigação laboratorial continua.
- conduta imediata
- Interromper a transfusão, manter o acesso com solução salina a 0,9%, checar sinais vitais e estado cardiorrespiratório, conferir à beira do leito se o componente era mesmo desta paciente, e enviar bolsa e equipo íntegros ao serviço de hemoterapia com amostra pós-transfusional colhida de outro acesso.
- conduta específica
- Antitérmico. Se os calafrios forem intensos, meperidina. Repetição dos testes imuno-hematológicos e cultura do componente e da receptora para fechar a exclusão.
- prevenção da próxima
- Em reações febris não hemolíticas recorrentes, a prevenção é pré-medicação com antitérmico e uso de produtos desleucocitados. O concentrado de hemácias com camada leucoplaquetária removida também reduz a gravidade dessas reações.
- hemovigilância
- Reação sem risco de vida e sem prolongamento de internação atribuível ao evento: gravidade grau 1. A correlação com a transfusão será classificada depois da investigação — confirmada, se a evolução for favorável e hemólise e contaminação forem descartadas laboratorialmente.
Agora feche você
- achado
- Desconforto respiratório agudo dentro da janela transfusional, com hipoxemia e infiltrado bilateral — o que abre o diferencial entre lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão e sobrecarga circulatória.
- o que separa as duas
- Hipertensão em vez de hipotensão, turgência jugular, área cardíaca aumentada, linhas B de Kerley e BNP que triplicou — 940 sobre 320 é bem acima do corte de 1,5 vez o valor pré-transfusional — apontam para hipertensão atrial esquerda, que é justamente o critério que a definição de TRALI exige estar ausente.
- diagnóstico
- …
- conduta
- …
- prevenção na próxima transfusão
- …
Onde a banca derruba
- 1Transfundir plaqueta na dengue porque a contagem é baixa A plaquetopenia da dengue é de destruição periférica, por anticorpos antivirais com reação cruzada contra antígenos plaquetários, e se comporta como a da púrpura imune. Não há indicação de transfusão profilática, qualquer que seja a contagem. O número atrai porque os limiares de 10.000 e 20.000/µL foram decorados sem o contexto em que valem — falência medular. O mesmo vale para leptospirose e riquetsioses.
- 2Chamar de TRALI toda dispneia pós-transfusional A definição de TRALI exige ausência de evidência de hipertensão atrial esquerda. Turgência jugular, hipertensão arterial, área cardíaca aumentada, BNP acima de 1,5 vez o valor pré-transfusional e melhora com diurético empurram o caso para sobrecarga circulatória. O erro sobrevive porque TRALI é a resposta 'sofisticada' e a sobrecarga soa banal — mas a sobrecarga é a mais frequente das duas em cardiopata, nefropata e idoso.
- 3Fechar reação febril não hemolítica sem excluir as duas graves Febre durante transfusão é o sintoma inicial da hemolítica aguda imunológica e da contaminação bacteriana, que são reações sentinela. A febril não hemolítica é diagnóstico de exclusão, e a exclusão passa por repetir os testes imuno-hematológicos e culturar componente e receptor. Rotular cedo demais é o caminho para reinstalar a transfusão em cima de uma incompatibilidade ABO.
- 4Esticar a infusão além de quatro horas para o paciente 'tolerar' Atingido o limite de quatro horas, a transfusão é interrompida e a bolsa descartada. Infundir hemocomponente em tempo superior a quatro horas é registrado como incidente pela hemovigilância. Quem não tolera o volume nesse tempo precisa da bolsa fracionada em alíquotas pelo serviço de hemoterapia — reduzir a velocidade da mesma bolsa cria risco de proliferação bacteriana sem resolver o problema hemodinâmico.
- 5Trocar receptor universal por doador universal Para hemácias, O é o doador universal e AB é o receptor universal. Para plasma é o inverso: AB é o doador universal. O distrator 'hemácias AB para quem não foi tipado' explora exatamente essa inversão. A partir de 30 de setembro de 2026 a norma acrescenta uma camada: O RhD negativo fica recomendado para mulheres com menos de 50 anos, e O RhD positivo passa a ser o componente de escolha em homens e mulheres acima de 50 anos.
- 6Usar plasma como expansor, repositor de albumina ou fonte de fibrinogênio isolado Plasma fresco congelado repõe múltiplos fatores da coagulação, e só entra quando não há concentrado específico disponível. Não é expansor volêmico de escolha, não corrige hipoalbuminemia e não é o caminho para repor fibrinogênio isolado — para hipofibrinogenemia abaixo de 100 mg/dL com sangramento, o componente é o crioprecipitado.
- 7Diluir ou infundir o hemocomponente junto com medicação Não se adiciona medicamento nem solução não isotônica ao hemocomponente, e não se compartilha o acesso. Glicose a 5% causa hemólise osmótica e soluções com cálcio podem coagular o produto anticoagulado. A única solução compatível é o cloreto de sódio a 0,9%, que também é a que mantém o acesso aberto quando a transfusão é interrompida por reação.
- 8Confiar no hematócrito na hemorragia aguda O hematócrito só começa a cair uma a duas horas depois do início do sangramento, porque a perda inicial é de sangue total. Um hematócrito 'normal' no politraumatizado recém-chegado não exclui perda importante. A decisão nesse cenário é clínica — taquicardia, hipotensão, queda do débito urinário, taquipneia, enchimento capilar lentificado e alteração do nível de consciência.
Correta: a tríade febre/calafrios com dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria surgindo minutos após o início, com sinais de hemólise intravascular, é o quadro clássico da reação hemolítica aguda, quase sempre por incompatibilidade ABO (erro de identificação). Conduta: parar a transfusão, suporte e reavaliar a compatibilidade. Erra: a reação febril não hemolítica cursa apenas com febre/calafrios, sem hemoglobinúria, dor lombar ou choque. Erra: reação alérgica leve manifesta-se com urticária/prurido, sem febre ou hemólise. Erra TACO cursa com dispneia, hipertensão e congestão pulmonar, não com hemoglobinúria e hipotensão. Erra: contaminação bacteriana causa febre alta e choque séptico, mas sem hemoglobinúria por hemólise intravascular imunomediada e tipicamente com bolsas de plaquetas/estocagem prolongada.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Homem, 58 anos, em quimioterapia por linfoma, recebe transfusão de concentrado de hemácias por anemia. Cerca de 40 minutos após o início, apresenta febre (T 38,5 °C, aumento de 1,2 °C) e calafrios, sem dispneia, sem hipotensão, sem dor lombar. Ausculta pulmonar limpa, PA 128/78 mmHg, SatO2 97%. A urina permanece clara e o teste de antiglobulina direta (Coombs direto) pós-transfusional é negativo, sem sinais laboratoriais de hemólise. Considerando o quadro e visando prevenir novos episódios, a medida mais adequada é:
Correta: febre e calafrios sem hemólise (Coombs direto negativo, urina clara), sem dispneia/hipotensão, caracterizam reação febril não hemolítica, causada por citocinas e anticorpos contra leucócitos do doador. A prevenção de recorrência é a leucorredução dos hemocomponentes. Erra: irradiação previne a doença do enxerto contra hospedeiro transfusional (proliferação de linfócitos do doador), não a reação febril; embora este paciente imunossuprimido possa ter indicação de irradiação por outro motivo, ela não previne o quadro febril. Erra: lavagem das hemácias remove proteínas plasmáticas e é indicada para reações alérgicas graves/recorrentes ou deficiência de IgA, não para reação febril. Erra: pré-medicação com antipirético é aceitável, mas corticoide sistêmico rotineiro não é a medida preventiva de escolha. Erra: suspender transfusão é desproporcional para uma reação benigna e autolimitada.
Mulher, 62 anos, com insuficiência renal crônica dialítica e anemia (Hb 6,5 g/dL; VR 12–16), inicia transfusão de concentrado de hemácias. Cerca de 2 horas após o início da segunda bolsa, ainda dentro do tempo de infusão, evolui com dispneia progressiva, ortopneia, tosse com secreção rósea, PA 178/104 mmHg, FC 112 bpm, SatO2 86% em ar ambiente e estertores crepitantes bibasais. Raio-X de tórax mostra infiltrado bilateral com redistribuição vascular. O peptídeo natriurético cerebral (BNP) está elevado. Não há febre nem hipotensão. Além de interromper a transfusão, a conduta mais apropriada para o quadro é:
Correta: o quadro de edema pulmonar com hipertensão, taquicardia, BNP elevado e congestão radiológica, em paciente com sobrecarga de volume (renal crônico), sem febre nem hipotensão, define a sobrecarga circulatória associada à transfusão (TACO). O manejo é o do edema agudo hipervolêmico: interromper a transfusão, oxigênio, posição sentada e diurético de alça. Erra: corticoide/anti-histamínico tratam reação alérgica/anafilaxia, que cursa com urticária/broncoespasmo/hipotensão, não com hipertensão e BNP elevado. Erra: antibiótico é para contaminação bacteriana, que traz febre e choque séptico. Erra: adrenalina IM é para anafilaxia (hipotensão, angioedema, broncoespasmo), o oposto do padrão hipertensivo aqui. O principal diferencial do TACO é a TRALI (lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão), que cursaria com PA normal/baixa, febre e BNP normal — distinção-chave para a prova. Erra: não há evidência de coagulopatia, e plasma agravaria a sobrecarga volêmica.
Mulher, 34 anos, submetida a histerectomia de urgência por hemorragia puerperal, recebe transfusão de plasma fresco congelado no pós-operatório. Cerca de 2 horas após o início da transfusão, evolui subitamente com dispneia intensa, tosse seca e queda de saturação. Ao exame: PA 82/50 mmHg, FC 118 bpm, FR 34 ipm, SatO2 84% em ar ambiente, temperatura axilar 38,5 °C. Ausculta pulmonar com estertores crepitantes bilaterais difusos; ausência de turgência jugular e de terceira bulha. Radiografia de tórax com infiltrado alveolar bilateral difuso. BNP dentro da normalidade e balanço hídrico equilibrado. Assinale o diagnóstico mais provável.
Correta: TRALI é edema pulmonar não cardiogênico que surge em até 6 h da transfusão (aqui 2 h, após plasma — rico em anticorpos anti-HLA/anti-HNA), cursando com insuficiência respiratória hipoxêmica, infiltrado bilateral, frequentemente febre e HIPOTENSÃO; o BNP normal, a ausência de turgência jugular/B3 e o balanço hídrico equilibrado afastam causa cardiogênica/volêmica. TACO cursa tipicamente com HIPERtensão, turgência jugular, B3 e BNP elevado por sobrecarga volêmica — o oposto do quadro. A hemólise aguda daria hemoglobinúria/dor lombar e sinais de hemólise, não edema pulmonar isolado. Anafilaxia traz urticária/broncoespasmo/angioedema de início em minutos, sem infiltrado alveolar difuso. Reação febril não hemolítica é benigna, sem hipoxemia grave nem infiltrado radiológico.
Homem, 58 anos, com doença falciforme, recebeu concentrado de hemácias há 8 dias, durante internação por crise vaso-oclusiva. Retorna ao ambulatório referindo icterícia e urina escura, sem febre. Exames atuais: Hb 6,8 g/dL (estava 9,5 g/dL logo após a transfusão), bilirrubina indireta 3,2 mg/dL (VR até 0,8), LDH 780 U/L (VR 120–246), haptoglobina indetectável, teste de antiglobulina direto (Coombs direto) positivo e pesquisa de anticorpo irregular anti-Jk^a (sistema Kidd) positiva — que havia sido NEGATIVA na triagem pré-transfusional. Qual o diagnóstico mais provável?
Correta: queda tardia da Hb (dias após transfusão), com hemólise laboratorial (BI e LDH altos, haptoglobina baixa), Coombs direto positivo e aloanticorpo anti-Jk^a que era indetectável antes — clássico da resposta anamnéstica do sistema Kidd, caracterizando reação hemolítica TARDIA. Aguda ocorre em minutos a horas da transfusão, geralmente por incompatibilidade ABO, com hemoglobinúria imediata — incompatível com o intervalo de 8 dias. A hemólise autoimune a quente teria Coombs positivo por autoanticorpo, não por aloanticorpo eritrocitário recém-formado ligado a antígeno transfundido. O sequestro esplênico cursa com esplenomegalia dolorosa aguda e reticulocitose sem o padrão sorológico descrito. Hiperesplenismo dá citopenias crônicas, não hemólise aguda com aloanticorpo novo.
Mulher, 45 anos, em transfusão de concentrado de hemácias por anemia ferropriva sintomática. Cerca de 10 minutos após o início da transfusão, queixa-se de calafrios, dor lombar, mal-estar e ansiedade. PA 90/60 mmHg, FC 120 bpm, temperatura axilar 39 °C; observa-se hemoglobinúria. Qual a PRIMEIRA conduta?
Correta: diante de qualquer suspeita de reação transfusional grave — aqui febre, dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria sugerindo hemólise aguda por incompatibilidade ABO — a primeira medida obrigatória é INTERROMPER imediatamente a transfusão, mantendo o acesso venoso pérvio com solução salina e iniciando suporte/investigação (checagem de identidade, envio da bolsa e amostras ao banco de sangue). Apenas reduzir a velocidade mantém a exposição ao hemocomponente e não é aceitável em reação hemolítica. Manter a transfusão perpetua a hemólise, mesmo com anti-histamínico. Reiniciar com outra bolsa antes de esclarecer a reação repõe o risco e pode agravar a hemólise. Corticoide não substitui a suspensão imediata, que é a prioridade absoluta.
Mulher, 34 anos, internada por hemorragia digestiva alta, recebe concentrado de hemácias. Cerca de 5 minutos após o início da infusão, apresenta febre (T 39,2 °C), calafrios intensos, dor lombar em cólica, dor e ardência no trajeto venoso e hipotensão (PA 80/50 mmHg, FC 118 bpm). A diurese emitida em seguida tem coloração avermelhada. A transfusão é imediatamente interrompida. Qual é o diagnóstico mais provável?
Correta: a tríade febre/calafrios + dor lombar + hemoglobinúria (urina avermelhada) com início nos primeiros minutos e instabilidade hemodinâmica é o quadro clássico da reação hemolítica aguda intravascular, quase sempre por incompatibilidade ABO (erro de identificação de amostra/bolsa). Conduta imediata: parar a transfusão, hidratar e manter diurese. Reação febril não hemolítica cursa com febre e calafrios, mas SEM hemólise, dor lombar ou hemoglobinúria e sem instabilidade. Reação alérgica dá urticária/prurido (ou anafilaxia), não hemólise nem dor lombar. TACO cursa com dispneia, hipertensão e congestão pulmonar horas após, não com hemoglobinúria. Sepse por contaminação também dá febre e hipotensão, mas tipicamente sem dor lombar e sem hemoglobinúria/hemólise imediata — a hemoglobinúria aponta para hemólise ABO.
Homem, 68 anos, com doença renal crônica e insuficiência cardíaca (FE 35%), recebe 2 concentrados de hemácias por anemia (Hb 6,8 g/dL). Cerca de 3 horas após o término, evolui com dispneia progressiva, ortopneia e tosse. Ao exame: PA 190/105 mmHg, FC 104 bpm, FR 30 ipm, SatO2 84% em ar ambiente, turgência jugular a 45°, crepitações bibasais e B3. Radiografia de tórax mostra congestão hilar e derrame bilateral; BNP muito elevado. Afebril. Qual é o diagnóstico mais provável?
Correta: edema pulmonar cardiogênico que surge em paciente com fatores de risco (idoso, cardiopata, nefropata, múltiplas bolsas), com HIPERTENSÃO, turgência jugular, B3 e BNP elevado, é o padrão da sobrecarga circulatória (TACO) — a distinção-chave frente à TRALI. Conduta: oxigênio, posição sentada e diurético. TRALI é a principal alternativa, mas cursa tipicamente com PA normal ou baixa, febre e BNP normal/baixo, sem sinais de hipervolemia (edema de permeabilidade, não hidrostático). Reação hemolítica dá febre, dor lombar e hemoglobinúria, não edema pulmonar. Anafilaxia cursa com urticária, broncoespasmo e hipotensão nos primeiros minutos, não hipertensão com congestão. TEP não explica a congestão pulmonar bilateral com turgência jugular e BNP elevado no contexto temporal da transfusão.
Homem, 28 anos, portador de deficiência seletiva de IgA, apresentou na última transfusão, poucos minutos após o início, quadro de anafilaxia (urticária generalizada, broncoespasmo, estridor e hipotensão), revertido com adrenalina. Encontra-se agora com Hb 6,5 g/dL e sangramento ativo, necessitando de nova transfusão de concentrado de hemácias. Qual é a conduta mais adequada para prevenir nova reação grave?
Correta: a anafilaxia transfusional em paciente com deficiência de IgA decorre de anticorpos anti-IgA que reagem contra a IgA plasmática do doador. A prevenção correta é remover/evitar o plasma: hemácias LAVADAS (retiram o plasma residual) ou hemocomponentes de doadores IgA-deficientes. Pré-medicação não previne anafilaxia mediada por anti-IgA — a exposição ao antígeno persiste. Leucodepleção previne reações febris não hemolíticas, aloimunização HLA e transmissão de CMV, mas não remove o plasma/IgA. Irradiação previne a doença do enxerto contra o hospedeiro (TA-GVHD), sem relação com IgA. Diminuir a velocidade e usar antitérmico é medida para reações febris/leves, ineficaz e perigoso diante de risco de anafilaxia.
Mulher, 24 anos, em idade fértil, é admitida na sala de emergência após atropelamento, com PA 78/40 mmHg, FC 140 bpm e rebaixamento do nível de consciência, com sinais de sangramento maciço por fratura pélvica instável. Há necessidade de transfusão imediata, antes que a tipagem sanguínea e a prova cruzada fiquem prontas. Qual é o hemocomponente indicado neste momento?
Correta: Na emergência, antes da tipagem/prova cruzada, transfunde-se concentrado de hemácias O (doador universal de hemácias). Em mulher em idade fértil, prefere-se O negativo (RhD negativo) para evitar aloimunização anti-D, que poderia causar doença hemolítica em gestação futura. O positivo é aceitável em homens e mulheres fora da idade fértil quando não há O negativo disponível, mas não é a escolha ideal aqui pelo risco de sensibilização Rh. AB é o doador universal de PLASMA, não de hemácias; hemácia AB positivo carrega antígenos A, B e D e é a pior opção. O paciente precisa de capacidade de transporte de oxigênio (hemácias); plasma isolado não corrige a anemia aguda. Aguardar a tipagem em choque hemorrágico grave com instabilidade é inaceitável e retarda a ressuscitação.
Homem de 68 anos, internado na enfermaria clínica de um hospital do SUS por hemorragia digestiva alta já controlada, está recebendo concentrado de hemácias por anemia (Hb 6,2 g/dL). Tem antecedente de insuficiência cardíaca e hipertensão. Cerca de duas horas após o início da segunda unidade, evolui com dispneia de instalação rápida, tosse e desconforto respiratório. Ao exame: PA 172/100 mmHg, FC 108 bpm, SpO2 85% em ar ambiente, turgência jugular a 45°, estertores crepitantes em ambas as bases e presença de terceira bulha (B3). Radiografia de tórax evidencia congestão/edema pulmonar bilateral, e o balanço hídrico está francamente positivo. Qual é, respectivamente, o diagnóstico mais provável e a conduta imediata?
O quadro de dispneia com HIPERTENSÃO, turgência jugular, B3, estertores, edema pulmonar e balanço hídrico positivo em cardiopata idoso caracteriza sobrecarga circulatória (TACO): a conduta é interromper a transfusão, sentar o paciente, ofertar O2 e diurético. TRALI cursa com edema pulmonar NÃO cardiogênico, tipicamente hipotensão e jugulares planas, sem sobrecarga de volume. Anafilaxia exige hipotensão/broncoespasmo/urticária, ausentes aqui. Reação hemolítica aguda cursa com febre, dor lombar, hemoglobinúria e hipotensão, não com padrão de congestão.
Mulher de 34 anos é admitida no pronto-socorro de um hospital do SUS e recebe indicação de transfusão de concentrado de hemácias por anemia sintomática. Poucos minutos após o início da infusão, ainda com menos de 50 mL transfundidos, apresenta febre de 39,2°C, calafrios intensos, dor lombar de forte intensidade, ansiedade e sensação de queimação no local do acesso venoso. Ao exame: PA 82/50 mmHg, FC 124 bpm, palidez e sudorese; a urina coletada mostra-se avermelhada/escura, compatível com hemoglobinúria. Considerando o cenário, qual é, respectivamente, o diagnóstico mais provável e a conduta imediata mais adequada?
Febre, calafrios, dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria logo no início da infusão são o quadro clássico de reação hemolítica aguda por incompatibilidade ABO — emergência: interromper a transfusão de imediato, manter acesso com SF, hidratar para proteger a função renal, coletar amostras e acionar a hemoterapia. A reação febril não hemolítica cursa só com febre/calafrios, SEM hipotensão, dor lombar ou hemoglobinúria, e nunca se mantém a transfusão. A alérgica manifesta-se com urticária/prurido. A sobrecarga cursa com congestão e hipertensão, não com hemólise.
Homem de 40 anos, sem comorbidades, recebe transfusão de concentrado de hemácias em unidade do SUS. Cerca de dez minutos após o início da infusão, queixa-se de prurido intenso e surgem placas urticariformes (pápulas eritematosas pruriginosas) disseminadas pelo tronco e membros. Não apresenta febre, dispneia, estridor, dor lombar nem alteração da coloração da urina. Sinais vitais mantêm-se estáveis: PA 124/78 mmHg, FC 84 bpm, FR 16 irpm, SpO2 98% em ar ambiente, temperatura axilar de 36,7°C. Qual é, respectivamente, o diagnóstico mais provável e a conduta adequada?
Prurido e urticária isolados, sem febre, hipotensão ou comprometimento respiratório, e com sinais vitais estáveis caracterizam reação alérgica LEVE: pausa temporária, anti-histamínico e, com a melhora, é possível retomar a transfusão lentamente — é a única reação em que se pode reiniciar. A hemolítica aguda exige febre, dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria. A anafilaxia requer hipotensão, broncoespasmo ou edema de vias aéreas, ausentes aqui. A sobrecarga cursa com dispneia e congestão.
Homem de 78 anos, com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida e doença renal crônica, está internado na enfermaria de um hospital do SUS por hemorragia digestiva alta já estabilizada endoscopicamente. Apresenta hemoglobina de 6,4 g/dL e recebe prescrição de duas unidades de concentrado de hemácias, infundidas em 45 minutos cada. Ao término da segunda bolsa, evolui com dispneia intensa, ortopneia e tosse. Ao exame: PA 178/104 mmHg, FC 118 bpm, FR 32 irpm, SpO2 85% em ar ambiente, temperatura axilar 36,8 °C, turgência jugular a 45°, terceira bulha e estertores crepitantes bilaterais até terços médios. Radiografia de tórax mostra infiltrado bilateral difuso com aumento da área cardíaca e redistribuição vascular.
O quadro é típico de TACO (sobrecarga circulatória associada à transfusão): paciente idoso, cardiopata e nefropata, infusão rápida de dois concentrados, com hipertensão, turgência jugular, B3, estertores e congestão radiológica com cardiomegalia — edema pulmonar hidrostático. A conduta preconizada é interromper a transfusão, posicionar o paciente sentado, ofertar oxigênio e usar diurético de alça endovenoso, notificando a agência transfusional. Reação hemolítica aguda cursa com febre, dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria, não com congestão hipertensiva. TRALI é edema pulmonar não cardiogênico, cursando tipicamente com hipotensão, febre, pressão jugular normal e sem cardiomegalia, e corticoide não é tratamento estabelecido. Anafilaxia cursa com urticária, broncoespasmo, angioedema e hipotensão, ausentes aqui.
Mulher de 34 anos é levada ao pronto-socorro de uma UPA após acidente automobilístico, com fratura exposta de fêmur e anemia aguda. Recebe prescrição de concentrado de hemácias. Cerca de 10 minutos após o início da infusão da primeira bolsa, refere dor lombar intensa, dor no trajeto venoso, calafrios e sensação de morte iminente. Ao exame: PA 82/50 mmHg, FC 130 bpm, FR 26 irpm, temperatura axilar 39,1 °C, sem urticária ou broncoespasmo, com sangramento em pontos de punção. A sondagem vesical revela urina avermelhada. Revisão do processo mostra que a bolsa foi instalada em paciente diferente da identificada na etiqueta do hemocomponente.
A tríade de febre, dor lombar e hipotensão de início precoce, somada a hemoglobinúria, coagulopatia incipiente e erro comprovado de identificação do receptor, define reação hemolítica aguda por incompatibilidade ABO — a mais grave e a mais evitável, quase sempre por erro de identificação à beira do leito. A conduta é interromper a transfusão de imediato, manter acesso com salina, hidratação vigorosa para proteger a função renal, suporte hemodinâmico e notificação à agência transfusional com devolução da bolsa e envio de novas amostras. Reação febril não hemolítica é diagnóstico de exclusão e não cursa com hipotensão, hemoglobinúria ou sangramento. Contaminação bacteriana exigiria igualmente a interrupção imediata — jamais manter a infusão. Reação alérgica cursa com urticária/broncoespasmo, e nenhuma bolsa suspeita pode ser reiniciada.
Homem de 61 anos, em quimioterapia para leucemia mieloide aguda, é acompanhado no serviço de hematologia de um hospital do SUS e recebe transfusões frequentes de concentrado de hemácias e plaquetas. Nas últimas três transfusões, apresentou, cerca de 60 minutos após o início da infusão, elevação da temperatura axilar de 1,5 °C em relação à basal, acompanhada de calafrios e mal-estar, sem hipotensão, dispneia, urticária, dor lombar ou hemoglobinúria. Os testes de compatibilidade foram repetidos e mostraram-se corretos; a pesquisa de hemólise foi negativa e as culturas das bolsas, negativas. O paciente não é candidato a interromper o suporte transfusional e questiona como evitar novos episódios.
O quadro repetido de febre e calafrios sem hemólise, sem hipotensão e com culturas negativas caracteriza reação febril não hemolítica, mediada por anticorpos antileucocitários do receptor e por citocinas acumuladas dos leucócitos do doador. A medida preventiva de escolha, conforme as diretrizes brasileiras de hemoterapia, é a leucorredução (desleucocitação por filtro) dos hemocomponentes. A irradiação previne doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão, não a reação febril. Hemocomponentes lavados destinam-se a reações alérgicas graves de repetição e à deficiência de IgA. Suspender o suporte transfusional em paciente com leucemia aguda em quimioterapia é inaceitável e não trata a causa da reação.
Uma mulher de 34 anos, com hemorragia digestiva alta, está internada na sala de urgência de um hospital geral do SUS e recebe transfusão de concentrado de hemácias. Tem antecedente de duas gestações e de transfusão prévia há cinco anos. Cerca de 40 minutos após o início da segunda bolsa, apresenta calafrios e elevação da temperatura axilar de 36,8 °C para 38,7 °C. Ao exame: pressão arterial 118/72 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm, frequência respiratória 18 irpm, saturação de O2 de 97% em ar ambiente, sem dor lombar, sem dor no local da punção, sem sangramento anormal e sem icterícia. A urina do cateter vesical apresenta coloração amarelo-clara. A infusão é imediatamente interrompida.
Correta: elevação térmica ≥1 °C durante ou até 4 horas após a transfusão, com calafrios, sem hipotensão, sem dor lombar, sem hemoglobinúria e sem icterícia, em multípara com transfusão prévia (sensibilização a leucócitos/HLA), caracteriza reação febril não hemolítica — a mais comum das reações agudas. A conduta preconizada pelo Ministério da Saúde/ANVISA é interromper definitivamente a transfusão daquela bolsa, tratar sintomaticamente (antitérmico; evitar AAS pelo efeito antiplaquetário) e notificar o serviço de hemoterapia, enviando a bolsa e novas amostras para excluir hemólise e contaminação — pois febre é sinal inicial comum a todas essas reações. Distratores: hemolítica aguda cursaria com dor lombar/no trajeto venoso, hipotensão, hemoglobinúria e sangramento — ausentes aqui, e o quadro descrito não justifica plasma; reação alérgica manifesta-se com urticária/prurido, não com febre e calafrios, e nenhuma bolsa interrompida por reação pode ser reinstalada; contaminação bacteriana cursa com febre alta, hipotensão e toxemia, e jamais se mantém a infusão de hemocomponente suspeito.
Um homem de 68 anos, com hipertensão arterial, insuficiência renal crônica não dialítica e insuficiência cardíaca, está internado em enfermaria de hospital do SUS por anemia sintomática (hemoglobina 6,4 g/dL). Recebe duas unidades de concentrado de hemácias em sequência, cada uma infundida em cerca de 60 minutos. Ao final da segunda bolsa, evolui com dispneia intensa, ortopneia e tosse com secreção rósea. Ao exame: pressão arterial 186/104 mmHg, frequência cardíaca 112 bpm, frequência respiratória 30 irpm, saturação de O2 de 86% em ar ambiente, turgência jugular a 45°, terceira bulha e estertores crepitantes bilaterais até os terços médios. Radiografia de tórax: infiltrado bilateral peri-hilar, cardiomegalia e linhas B de Kerley. Está afebril.
Correta: idoso cardiopata e nefropata que recebe duas unidades em rápida sequência e evolui, ao término da transfusão, com edema agudo de pulmão hipertensivo — hipertensão, turgência jugular, B3, crepitações e radiografia com cardiomegalia e linhas B de Kerley — configura TACO, a sobrecarga circulatória associada à transfusão. A conduta é interromper a infusão, posicionar sentado, ofertar oxigênio e administrar diurético de alça endovenoso; a prevenção é transfundir uma unidade por vez, lentamente, reavaliando entre as bolsas. Distratores: na TRALI há hipoxemia com infiltrado bilateral, porém tipicamente com pressão normal ou baixa, sem turgência jugular, sem B3 e sem cardiomegalia (edema não cardiogênico), e o diurético é justamente contraindicado — é o principal diferencial, afastado pelos sinais de hipervolemia; anafilaxia cursa com urticária, angioedema, broncoespasmo e hipotensão, não com congestão e hipertensão; hemólise aguda cursa com febre, dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria, ausentes no caso.
Mulher de 24 anos chega ao pronto-socorro vítima de acidente automobilístico, com choque hemorrágico, pressão arterial 76/40 mmHg e rebaixamento do nível de consciência. Não há tempo para concluir a tipagem sanguínea nem as provas de compatibilidade antes de iniciar a transfusão. Qual conduta atende ao regulamento técnico de procedimentos hemoterápicos?
A liberação antes do término dos testes pré-transfusionais é permitida quando o retardo coloca a vida em risco, desde que haja procedimento escrito no serviço, termo de responsabilidade assinado pelo médico responsável pelo paciente e conclusão das provas pré-transfusionais mesmo após a transfusão. Sem tempo para tipagem, a recomendação é hemácias O RhD negativo — e a redação que entra em vigor em 30/09/2026 mantém essa escolha justamente para mulheres com menos de 50 anos. A alternativa 1 inverte doador e receptor universal: AB é o receptor universal de hemácias, e O é o doador. A 2 inverte para plasma, cujo doador universal é o AB. A 0 e a 4 contrariam a norma.
Mulher de 62 anos, com anemia por perda sanguínea digestiva crônica em investigação, está hemodinamicamente estável, sem dor torácica, sem dispneia e sem doença cardiovascular ou pulmonar conhecida. A hemoglobina é de 6,4 g/dL e o hematócrito de 19%. A frequência cardíaca é de 88 bpm e a pressão arterial de 124/76 mmHg. Segundo o Guia para o uso de hemocomponentes do Ministério da Saúde, qual é a conduta transfusional adequada?
Abaixo de 7 g/dL há risco elevado de hipóxia tecidual e a transfusão está indicada. Uma unidade eleva a hemoglobina em cerca de 1 g/dL e o hematócrito em cerca de 3% no adulto de estatura média, e a resposta se avalia com nova dosagem 1 a 2 horas depois — daí transfundir de unidade em unidade. A alternativa 0 erra porque tolerância à anemia crônica não é ilimitada e 6,4 g/dL está abaixo do gatilho. A 1 aplica um alvo liberal que o guia reserva a subgrupos nomeados (DPOC, cardiopatia isquêmica aguda), ausentes aqui. A 3 usa plasma sem deficiência de múltiplos fatores documentada, e plasma não corrige anemia. A 4 inventa um patamar que não consta do documento.
Mulher de 47 anos recebe concentrado de hemácias por anemia pós-operatória. Vinte e cinco minutos após o início, a temperatura sobe de 36,8 °C para 38,4 °C e ela apresenta calafrios. A pressão arterial está em 122/78 mmHg, o débito urinário preservado e a urina de cor normal. Não há prurido, urticária, dispneia nem dor lombar. Qual é a conduta imediata?
Diante de qualquer suspeita de reação, a sequência é interromper a transfusão, manter o acesso com solução salina a 0,9%, verificar sinais vitais, conferir a identificação à beira do leito e enviar bolsa e equipo íntegros ao serviço de hemoterapia com amostra pós-transfusional. O critério de febre está preenchido — temperatura maior ou igual a 38 °C com aumento de pelo menos 1 °C —, mas a reação febril não hemolítica é diagnóstico de exclusão e só se fecha depois de afastar a hemolítica aguda imunológica e a contaminação bacteriana, ambas reações sentinela. As alternativas 0, 1 e 2 mantêm ou reiniciam a transfusão antes da investigação. A 4 trata como anafilaxia um quadro sem broncoespasmo, hipotensão ou manifestação cutânea.
Uma unidade de concentrado de hemácias foi instalada às 8h em paciente idoso com insuficiência cardíaca, em velocidade lenta para evitar sobrecarga. Às 12h ainda restam aproximadamente 70 mL na bolsa. O paciente está estável, sem sinais de reação transfusional. De acordo com o regulamento técnico de procedimentos hemoterápicos, qual é a conduta?
A norma fixa que os componentes sanguíneos são infundidos em no máximo quatro horas e que, atingido esse período, a transfusão é interrompida e as bolsas descartadas. O prazo existe porque o hemocomponente fora da temperatura de conservação é meio de cultura, e infundir além de quatro horas é registrado como incidente pela hemovigilância. As alternativas 0, 2 e 3 estendem o prazo, e a 1 reintroduz um produto já fora da cadeia de frio por quatro horas. Para o paciente que não tolera o volume nesse tempo, a solução correta é o fracionamento da bolsa em alíquotas no serviço de hemoterapia, cada uma com seu próprio prazo.
Mulher de 26 anos, quinto dia de dengue, chega ao pronto-socorro com plaquetas de 18.000/µL. Está afebril há 12 horas, sem sangramento espontâneo, sem sinais de alarme, com pressão arterial 112/70 mmHg e prova do laço negativa. A equipe discute transfusão profilática de plaquetas. Qual é a conduta correta?
A plaquetopenia da dengue decorre de anticorpos dirigidos contra proteínas virais que fazem reação cruzada com antígenos plaquetários — destruição periférica, e não falência medular. Na prática se comporta como a da púrpura trombocitopênica imune, e o guia é explícito: não há indicação de transfusão profilática de plaquetas, independentemente da contagem. O mesmo vale para leptospirose e riquetsioses. As alternativas 0 e 2 aplicam limiares construídos para falência medular. A 3 e a 4 indicam componentes sem o distúrbio que justificaria cada um — deficiência documentada de múltiplos fatores e hipofibrinogenemia abaixo de 100 mg/dL, respectivamente.
Homem de 34 anos, com leucemia mieloide aguda em quimioterapia de indução, apresenta plaquetas de 8.000/µL no hemograma de rotina. Está afebril, sem petéquias, sem sangramento ativo e sem esplenomegalia, e não usa medicações que encurtem a sobrevida plaquetária. Nenhum procedimento invasivo está programado. Qual é a conduta?
Em plaquetopenia por falência medular de duração determinada — quimioterapia, radioterapia, transplante de células progenitoras — a transfusão profilática está indicada abaixo de 10.000/µL na ausência de fatores de risco. A alternativa 1 confunde com o limiar de 5.000/µL, que vale para falência medular crônica (aplasia grave, mielodisplasia) e para crianças estáveis. A 3 usa o patamar de 20.000/µL, que exige um fator de risco associado — febre acima de 38 °C, sangramento menor, doença do enxerto contra hospedeiro, esplenomegalia, hiperleucocitose acima de 30.000/mm³ — ou tumor sólido em quimioterapia. A 2 e a 4 estão erradas: profilaxia existe em falência medular e plasma não repõe plaquetas.
Homem de 68 anos, portador de insuficiência cardíaca e doença renal crônica, recebeu duas unidades de concentrado de hemácias por anemia sintomática. Três horas após o término da segunda unidade, evolui com dispneia e ortopneia. A pressão arterial subiu de 134/82 para 176/96 mmHg, a frequência cardíaca está em 114 bpm e a saturação em 87% em ar ambiente. Há turgência jugular e estertores bilaterais. A radiografia mostra congestão bilateral com área cardíaca aumentada, e o BNP passou de 280 para 860 pg/mL. Houve melhora clínica após furosemida endovenosa. Qual é o diagnóstico?
O quadro preenche a definição de caso de sobrecarga circulatória: comprometimento respiratório com edema pulmonar dentro de 12 horas da transfusão e mais de três critérios — achados de edema pulmonar ao exame e à imagem, alterações cardiovasculares não explicadas pela doença de base (taquicardia, hipertensão, turgência jugular, silhueta cardíaca aumentada), resposta ao diurético e BNP acima de 1,5 vez o valor pré-transfusional. Isso afasta TRALI, cuja definição exige justamente a ausência de evidência de hipertensão atrial esquerda. A hemolítica aguda cursaria com hipotensão, dor e hemoglobinúria; a anafilática, com broncoespasmo, hipotensão e choque, em geral sem febre; a contaminação bacteriana, com tremores intensos, febre acima de 40 °C e choque.
Homem de 52 anos, em choque séptico por pneumonia, apresenta sangramento em sítios de punção e nas gengivas. Os exames mostram plaquetas de 62.000/µL, tempo de protrombina alargado, D-dímero muito elevado e fibrinogênio de 78 mg/dL. O diagnóstico é coagulação intravascular disseminada com sangramento. Além do tratamento da sepse, qual hemocomponente responde especificamente ao fibrinogênio baixo?
Crioprecipitado está indicado no tratamento da hipofibrinogenemia congênita ou adquirida abaixo de 100 mg/dL, e a forma adquirida aparece justamente após trombólise, transfusão maciça e coagulação intravascular disseminada. Cada bolsa eleva o fibrinogênio em 5 a 10 mg/dL, com nível hemostático de 70 a 100 mg/dL. A alternativa 2 erra ao dizer 'único': o plasma contém fibrinogênio, mas em concentração que exigiria volume elevado, e o componente específico é o crioprecipitado. A 0 ignora que na coagulação intravascular disseminada com sangramento o alvo plaquetário é acima de 20.000/µL, já atingido. A 4 inverte a regra: a reposição profilática é desencorajada, mas na presença de sangramento ela é indicada.
Poucos minutos após o início de uma transfusão de plasma, o paciente evolui com broncoespasmo, hipotensão e choque, sem febre e sem dor lombar. Qual a hipótese e a prevenção para as próximas transfusões?
Broncoespasmo, hipotensão e choque logo no início da infusão, sem febre, desenham a forma anafilática da reação alérgica, que sugere receptor deficiente em IgA com anticorpo anti-IgA; o tratamento é adrenalina com anti-histamínico e corticoide, e a prevenção passa por componentes lavados ou provenientes de doador deficiente em IgA. A reação febril não hemolítica exige temperatura de 38 graus ou mais com elevação de pelo menos 1 grau, e a desleucocitação previne exatamente essa forma. Hemólise aguda cursa com febre, dor lombar e hemoglobinúria, e contaminação bacteriana com tremores intensos e febre acima de 40 graus — sinais ausentes no quadro. Sobrecarga circulatória se manifesta com hipertensão, turgência jugular e congestão pulmonar, o oposto da queda de pressão descrita.
Homem com cirrose descompensada apresenta sangramento difuso de mucosas. Tempo de protrombina 2,1 vezes o ponto médio do normal, fibrinogênio 180 mg/dL, plaquetas 140.000/µL e hemoglobina 9,8 g/dL. Qual hemocomponente e qual dose respondem à coagulopatia?
Hepatopatia com sangramento e tempo de protrombina acima de 1,5 vez o normal é a indicação clássica de reposição de múltiplos fatores, e a dose que alcança nível hemostático é de 10 a 20 mL/kg, elevando os fatores em 20% a 30%. O crioprecipitado repõe apenas fibrinogênio, fator XIII e von Willebrand, e o fibrinogênio de 180 mg/dL está acima do limiar de 100 mg/dL que o indicaria. Hemácia corrige transporte de oxigênio e não toca a coagulação, e a hemoglobina descrita sequer chega à faixa em que se discutiria transfundir. A contagem de plaquetas está normal e não pede reposição. Albumina não contém fator de coagulação e não responde a sangramento por deficiência de fatores.
Paciente com plaquetas de 62.000/µL será submetido a craniotomia eletiva para ressecção de meningioma. Qual o alvo de contagem plaquetária antes do procedimento?
Neurocirurgia e cirurgia oftalmológica são as duas exceções que exigem contagem acima de 100.000/µL, porque sangramento em espaço fechado — crânio ou globo ocular — produz dano por compressão mesmo em pequeno volume. O patamar de 50.000/µL cobre a maioria dos procedimentos invasivos, inclusive biópsia hepática e cirurgias de médio e grande porte, mas não alcança esses dois. Os alvos de 30.000/µL para punção lombar no adulto e de 20.000/µL para aspirado e biópsia de medula pertencem a procedimentos de risco hemorrágico bem menor. E dispensar a transfusão deixaria o paciente abaixo do limiar exigido justamente na cirurgia em que o sangramento é menos tolerado.
Durante transfusão de concentrado de hemácias, paciente apresenta febre, calafrios, dor lombar intensa, hipotensão e urina escura, com início 15 minutos após o começo da infusão. Qual é a conduta imediata?
Febre com calafrios, dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria logo no início da infusão caracterizam reação hemolítica aguda, geralmente por incompatibilidade ABO, situação de emergência: a transfusão para na hora, mantém-se acesso com salina, hidrata-se vigorosamente para proteger o rim, monitora-se diurese e função renal e coagulação, e o serviço de hemoterapia é acionado para reconferência e testes. Manter a transfusão sob qualquer artifício — reduzir velocidade, medicar e seguir, trocar equipo — é o erro que transforma uma reação em insuficiência renal e coagulação intravascular disseminada. Antitérmico com manutenção da infusão só se cogitaria em reação febril não hemolítica, sem os sinais descritos.
Duas horas após receber transfusão de plasma, paciente desenvolve dispneia intensa, hipoxemia e infiltrado pulmonar bilateral novo, sem sinais de sobrecarga volêmica, com pressão venosa central normal e ausência de terceira bulha. Qual é o diagnóstico mais provável?
Insuficiência respiratória aguda com infiltrado bilateral em até 6 horas de uma transfusão, sem evidência de sobrecarga de volume, define a lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão, mediada por anticorpos do doador contra antígenos leucocitários do receptor; o tratamento é suporte ventilatório, e diuréticos não ajudam. A sobrecarga circulatória é o diferencial que mais confunde e se distingue pelos sinais de hipervolemia — pressão venosa elevada, turgência jugular, terceira bulha e resposta a diurético. Reação hemolítica aguda cursa com febre, dor lombar, hemoglobinúria e queda da haptoglobina. Anafilaxia dá broncoespasmo, urticária e hipotensão precoce, sem infiltrado bilateral.
Paciente recebe concentrado de hemácias no intraoperatório e, 30 minutos após o início, apresenta febre de 38,5 °C, calafrios, hipotensão, hemoglobinúria e sangramento difuso no campo cirúrgico. Qual é a conduta imediata?
Febre com calafrios, hipotensão, hemoglobinúria e sangramento difuso caracterizam reação hemolítica aguda, quase sempre por incompatibilidade ABO decorrente de erro de identificação, e a conduta é interromper imediatamente a transfusão, sustentar a perfusão renal e devolver bolsa e amostras para investigação. A confusão perigosa é com a reação febril não hemolítica, que cursa apenas com febre e calafrios, sem hipotensão nem hemólise, e nessa sim se pode considerar antitérmico. Manter a infusão em qualquer suspeita de hemólise agrava a insuficiência renal e a coagulação intravascular disseminada.
Sobre a transfusão de hemácias no paciente queimado internado, é correto afirmar que:
A anemia do queimado é multifatorial e a transfusão liberal se associa a mais infecção e piores desfechos, de modo que o gatilho é restritivo, com exceções ligadas a sangramento ativo e instabilidade. As excisões de escara sangram muito e são o momento em que a transfusão costuma ser realmente necessária. Manter alvo elevado de rotina engana e expõe a riscos sem benefício.
Paciente com aplasia medular grave, dependente de transfusões, iniciará imunossupressão com globulina antitimocítica (ATG) e está em avaliação para transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas. Qual cuidado transfusional é indicado nesse contexto?
Na aplasia medular grave tratada com ATG e em planejamento de transplante, componentes celulares devem ser irradiados para reduzir o risco de doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão. A leucorredução ajuda a reduzir aloimunização, especialmente relevante para quem poderá receber transplante, e doações dirigidas de familiares devem ser evitadas. A irradiação não decorre simplesmente do diagnóstico de aplasia medular: o dado que a torna indicada aqui é o tratamento com ATG e o contexto de transplante. Plaquetas podem ter indicação profilática conforme contagem e risco; sangue total e reposição rotineira de ferro não são condutas adequadas. Fontes: British Society for Haematology, Guidelines on the use of irradiated blood components (2020); BSH Guideline for adult aplastic anaemia (2024).
Paciente de 45 anos recebe concentrado de hemácias e, 20 minutos após o início, apresenta febre 39 °C, calafrios, dor lombar, hipotensão e urina escurecida. Qual a primeira medida a ser tomada?
Dor lombar, febre com calafrios, hipotensão e hemoglobinúria minutos após o início da transfusão configuram reação hemolítica aguda, quase sempre por incompatibilidade ABO. A primeira medida, antes de qualquer droga, é parar a infusão e manter o acesso com cristaloide para sustentar a diurese e a pressão; só depois vêm a checagem de identificação, a coleta de amostras e a notificação. Reduzir a velocidade e medicar engana quem confunde com reação febril não hemolítica, que é benigna e cursa com febre sem hipotensão nem hemoglobinúria — mas manter o sangue correndo em uma hemólise aguda aumenta o volume incompatível infundido e a mortalidade.
Paciente de 58 anos com sepse por foco urinário evolui com sangramento em sítios de punção, petéquias e oligúria. Exames: plaquetas 38.000/mm3, TP com INR 2,1, TTPa 52 s, fibrinogênio 90 mg/dL, D-dímero muito elevado, esquizócitos no esfregaço. Além do tratamento da sepse, qual a conduta hemoterápica indicada neste momento?
A coagulação intravascular disseminada com sangramento ativo, fibrinogênio abaixo de 100-150 mg/dL e consumo global se trata com reposição dirigida — crioprecipitado é a fonte concentrada de fibrinogênio, complementado por plasma e plaquetas se o sangramento persistir — enquanto se controla o gatilho, que é a sepse. O antifibrinolítico engana porque parece lógico frear a fibrinólise, mas na coagulação intravascular disseminada com trombose microvascular ele pode agravar a isquemia de órgãos e é contraindicado na forma clássica. A plasmaférese pertence à púrpura trombocitopênica trombótica, que cursa com coagulograma normal.
Mulher de 45 anos em quimioterapia recebe transfusão de plaquetas e, 15 minutos após o início, apresenta urticária generalizada e prurido intenso, sem dispneia, sem hipotensão e sem febre. Qual a conduta?
Reação alérgica leve, restrita a urticária e prurido sem comprometimento respiratório ou hemodinâmico, é a única reação transfusional em que se admite reiniciar a mesma bolsa após a resolução dos sintomas com anti-histamínico. Manter a infusão correndo enquanto se medica engana porque a reação pode progredir e a pausa é obrigatória para reavaliação. Adrenalina está indicada na anafilaxia, que exige broncoespasmo, hipotensão ou edema de vias aéreas — nada disso está descrito.
Paciente com doenca falciforme transfundido ha dez dias apresenta icterica, queda de hemoglobina abaixo do valor pre-transfusional, desidrogenase latica elevada e Coombs direto positivo. Qual o diagnostico?
Queda de hemoglobina para valores inferiores aos previos a transfusao, com icterica, elevacao de desidrogenase latica e Coombs direto positivo dias apos o procedimento, define reacao hemolitica tardia por resposta anamnestica a antigeno eritrocitario, situacao em que a sindrome de hiperhemolise pode destruir tambem as hemacias do proprio paciente. O ponto critico e que novas transfusoes podem agravar o quadro, e o manejo envolve suporte, imunoglobulina e corticoide em casos selecionados. Reacao febril nao hemolitica cursa apenas com febre e calafrios durante ou logo apos a transfusao. Sobrecarga circulatoria produz dispneia e hipertensao. A lesao pulmonar relacionada a transfusao surge em ate seis horas com infiltrado bilateral. Contaminacao bacteriana provoca febre alta e choque em minutos a horas.
Sobre a transfusao em pacientes com doenca falciforme, qual cuidado especifico e recomendado para reduzir complicacoes de longo prazo?
A aloimunizacao e complicacao frequente e limitante nesses pacientes, e a compatibilizacao estendida contemplando os antigenos do sistema Rh e o Kell reduz a formacao de anticorpos e o risco de reacao hemolitica tardia, alem de facilitar transfusoes futuras. Preferir doadores familiares nao e recomendado e traz riscos, incluindo doenca do enxerto contra hospedeiro transfusional. Manter hemoglobina acima de 12 g/dL aumenta a viscosidade e pode precipitar complicacoes vaso-oclusivas, sendo um dos erros conceituais mais importantes na doenca. Hemocomponentes desleucocitados sao preferidos. Transfusao profilatica mensal universal nao tem indicacao e se reserva a situacoes especificas, como prevencao de acidente vascular cerebral.
Homem de 70 anos, cardiopata com fração de ejeção de 30%, recebe 2 concentrados de hemácias em 90 minutos por anemia crônica assintomática. Ao final, apresenta dispneia, hipertensão arterial, estase jugular e crepitações bibasais, com melhora após furosemida. Além do tratamento, qual medida preveniria esse evento em transfusões futuras?
A sobrecarga circulatória associada à transfusão é uma das principais causas de morbidade transfusional e é prevenível: em idosos, cardiopatas e nefropatas, transfunde-se uma unidade de cada vez, lentamente, reavaliando entre as bolsas e usando diurético quando indicado. Irradiar engana quem confunde as indicações de modificação de hemocomponentes — irradiação previne doença do enxerto contra o hospedeiro, e nenhuma modificação da bolsa altera o volume infundido, que é a causa do problema aqui.
Paciente de 60 anos, receptor de transplante de medula óssea, necessita de transfusão de concentrado de hemácias. Qual modificação do hemocomponente é obrigatória para prevenir a complicação mais temida nesse contexto?
A irradiação inativa os linfócitos T viáveis do doador e é a única medida que previne a doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão, complicação quase invariavelmente fatal em imunossuprimidos graves, receptores de transplante de medula e transfusões entre parentes de primeiro grau. A leucorredução engana porque também remove leucócitos, mas não elimina linfócitos em número suficiente para abolir o risco — ela previne reação febril não hemolítica, aloimunização HLA e transmissão de citomegalovírus. A lavagem serve à prevenção de reações alérgicas graves em deficientes de IgA.
Mulher de 30 anos, sem cardiopatia, recebe a segunda bolsa de plasma no pós-operatório e, 3 horas depois, evolui com dispneia intensa, hipoxemia e infiltrado bilateral difuso no raio X de tórax. Pressão venosa central normal, sem estase jugular, sem terceira bulha, e não houve resposta a diurético. Qual o diagnóstico mais provável?
Edema pulmonar não cardiogênico até 6 horas após a transfusão, com pressões de enchimento normais e sem resposta a diurético, é lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão, mediada por anticorpos anti-HLA ou antineutrófilos do doador. A sobrecarga circulatória é o distrator forte porque também dá dispneia e infiltrado, mas ela cursa com hipertensão, estase jugular, pressões de enchimento elevadas e melhora franca com diurético — o oposto do que se descreve. O tratamento da lesão pulmonar é suporte ventilatório, e diurético nela só piora a perfusão.
Paciente jovem com aplasia medular grave sera submetido a transplante alogenico. Qual conduta previa reduz o risco de rejeicao do enxerto?
Cada transfusao expõe o paciente a antigenos que aumentam a aloimunizacao e o risco de rejeicao do enxerto, e por isso o suporte deve ser criterioso, com hemocomponentes irradiados para evitar doenca do enxerto contra hospedeiro transfusional e desleucocitados para reduzir sensibilizacao, evitando doadores relacionados ao candidato a doacao. Manter hemoglobina em nivel alto multiplica exposicoes sem beneficio. Usar sangue de familiar para induzir tolerancia inverte o conceito e piora o desfecho do transplante. Corticoide prolongado nao previne rejeicao e aumenta infeccao. Esplenectomia nao integra o preparo para transplante nessa doenca.
Qual é a estratégia transfusional recomendada para a maioria dos pacientes críticos estáveis, sem sangramento ativo nem isquemia miocárdica?
A estratégia restritiva com limiar em torno de 7 g/dL é tão segura quanto a liberal na maioria dos pacientes críticos, com menos exposição a reações e a imunomodulação. Adotar o limiar de 10 g/dL engana quem raciocina por oferta de oxigênio, mas mais concentrado de hemácias não se traduz em melhor perfusão tecidual e ainda acrescenta risco transfusional.
Qual hemocomponente é indicado quando o fibrinogênio está muito reduzido em paciente com coagulação intravascular disseminada e sangramento ativo?
O crioprecipitado é rico em fibrinogênio, fator VIII e fator de von Willebrand, sendo o componente indicado para repor fibrinogênio criticamente baixo em paciente sangrando. Transfundir apenas plaquetas engana quem enxerga a plaquetopenia como o problema principal, mas sem fibrinogênio não há formação de coágulo estável, e o sangramento persiste apesar da contagem corrigida.
Qual complicação transfusional deve ser suspeitada em paciente que, durante a transfusão, apresenta dispneia, hipoxemia e infiltrado pulmonar bilateral, sem sinais de sobrecarga volêmica?
Insuficiência respiratória com infiltrado bilateral durante ou logo após a transfusão, sem sinais de sobrecarga, caracteriza a lesão pulmonar relacionada à transfusão, tratada com suporte e suspensão do componente. A sobrecarga circulatória engana por produzir quadro respiratório semelhante, mas nela há hipertensão, turgência jugular e resposta ao diurético, enquanto na lesão pulmonar o diurético não ajuda.
Paciente recebendo transfusão apresenta subitamente febre, dor lombar, hipotensão e urina escura. Qual a conduta imediata?
Febre com dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria durante a transfusão sugere reação hemolítica aguda por incompatibilidade, e a conduta é parar imediatamente, manter volume e comunicar a hemoterapia para investigação. Reduzir a velocidade e continuar engana quem trata como reação febril simples, mas cada mililitro adicional de sangue incompatível agrava a hemólise e o risco de lesão renal e de coagulação intravascular.
Paciente com insuficiência cardíaca de alto débito por anemia apresenta hemoglobina de 5,8 g/dL, dispneia em repouso e congestão. Qual cuidado é essencial na transfusão?
Pacientes com anemia crônica grave têm volemia expandida e podem desenvolver sobrecarga circulatória associada à transfusão, de modo que a infusão deve ser lenta, fracionada e frequentemente acompanhada de diurético. Transfundir depressa em paciente já congesto precipita edema agudo. Cristaloide adicional agrava a sobrecarga, e negar a transfusão a quem tem dispneia em repouso com hemoglobina muito baixa não é conduta aceitável.
Paciente recebe concentrado de hemácias e, 10 minutos após o início, apresenta febre, dor lombar, hipotensão, urina escurecida e sangramento no sítio de punção. Qual a conduta imediata?
Febre com dor lombar, hipotensão, hemoglobinúria e sangramento durante os primeiros minutos configura reação hemolítica aguda, quase sempre por incompatibilidade ABO decorrente de erro de identificação. É emergência: interromper de imediato, manter o acesso com salina, suportar hemodinâmica e diurese, e devolver bolsa e amostras para investigação com recheca da identificação. Reduzir a velocidade e medicar engana quem trata o quadro como reação febril não hemolítica, que é benigna mas não cursa com dor lombar, hemoglobinúria nem coagulopatia. Reiniciar qualquer bolsa antes da investigação repete a exposição ao anticorpo responsável.
Mulher de 60 anos, com insuficiência cardíaca, recebe 2 unidades de concentrado de hemácias em 2 horas. Ao final, apresenta dispneia, hipertensão, turgência jugular, estertores bilaterais e BNP elevado. Radiografia com congestão e cardiomegalia. Qual o diagnóstico e a conduta?
Dispneia após transfusão em cardiopata, com hipertensão, turgência jugular, BNP elevado e cardiomegalia, é sobrecarga circulatória: o problema é volume, e a resposta é interromper, oxigenar e diureticar, com boa resposta ao diurético. A lesão pulmonar relacionada à transfusão engana porque também dá edema pulmonar nas primeiras horas, mas cursa com hipotensão, febre, BNP normal, sem sinais de congestão sistêmica, e piora com diurético — a distinção muda inteiramente o tratamento. Anafilaxia traria urticária, broncoespasmo e hipotensão sem congestão. Contaminação bacteriana produziria febre alta e choque de rápida instalação.
Homem de 40 anos, chega ao pronto-socorro com hemorragia digestiva alta volumosa, PA 85x50 mmHg, FC 120 bpm, hemoglobina inicial de 9,2 g/dL, sem doença coronariana. Qual o gatilho transfusional mais adequado após estabilização inicial?
Na hemorragia digestiva alta, a estratégia restritiva reduziu mortalidade e ressangramento em comparação à liberal, sobretudo no cirrótico, porque a transfusão excessiva eleva a pressão portal e favorece novo sangramento. O limiar é 7 g/dL, com alvo entre 7 e 9, individualizado para cerca de 8 g/dL em coronariopata. Perseguir 10 g/dL engana quem associa mais hemoglobina a mais segurança. Esperar hemoglobina de 5 g/dL ignora que a instabilidade hemodinâmica com sangramento ativo pode indicar transfusão antes que o valor caia, já que a hemoglobina inicial subestima a perda aguda. Plasma isolado não corrige anemia.
Paciente com leucemia aguda em indução, plaquetas de 8.000/mm3, sem sangramento. Qual a conduta transfusional?
Em paciente com aplasia induzida por quimioterapia, a transfusão profilática de plaquetas com limiar próximo de 10.000 por milímetro cúbico reduz sangramento grave, subindo o alvo diante de febre, sangramento ou procedimento invasivo. Esperar sangramento engana quem aplica a lógica da plaquetopenia imune, na qual a plaqueta transfundida é rapidamente destruída e a conduta é diferente, mas aqui o problema é produção ausente. Plasma fresco corrige fatores de coagulação, não plaquetas. Transfundir hemácias melhora o transporte de oxigênio e tem efeito reológico modesto, sem substituir a plaqueta. Esplenectomia não tem papel na aplasia medular por quimioterapia.
Paciente com leucemia aguda recém-diagnosticada precisa de transfusão de hemocomponentes e é candidato a transplante alogênico. Qual cuidado transfusional é obrigatório?
A irradiação previne a doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão e a desleucocitação reduz aloimunização e transmissão de citomegalovírus, enquanto doadores familiares são evitados justamente por aumentarem o risco de aloimunização contra antígenos do futuro doador. Preferir doador familiar engana quem pensa em compatibilidade e proximidade, mas é exatamente o oposto do recomendado no candidato a transplante. Hemácias lavadas destinam-se a pacientes com reações alérgicas graves. Evitar toda transfusão é inviável em paciente com aplasia. Plasma como expansor de rotina não tem indicação.
Em qual situação está indicada a irradiação de hemocomponentes celulares?
A irradiação inativa linfócitos T viáveis do doador e previne a doença do enxerto contra hospedeiro associada à transfusão, indicada em imunossuprimidos graves, receptores de transplante de medula, portadores de imunodeficiência celular e quando o doador é parente do receptor. Deficiência de IgA pede componentes lavados, e reações febris pedem leucorredução — trocar a indicação de cada modificação é o erro mais comum.
Qual conduta é obrigatória diante de qualquer suspeita de reação transfusional grave?
A investigação exige checar identificação — o erro de identificação é a causa mais frequente de reação hemolítica fatal —, colher amostras pós-transfusionais e devolver a bolsa com o equipo ao serviço de hemoterapia para reavaliação e cultura. Descartar a bolsa elimina a principal evidência da investigação e é o erro prático que inviabiliza o esclarecimento do evento.
Qual é o mecanismo da reação transfusional febril não hemolítica?
A febre resulta de citocinas liberadas por leucócitos durante o armazenamento do componente e da reação entre anticorpos do receptor e leucócitos do doador. O último item descreve o mecanismo da lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão, na qual o anticorpo vem do doador — a inversão do sentido do anticorpo é o detalhe que a questão testa e que diferencia duas reações de gravidade muito distinta.
Homem de 55 anos, 2 horas após transfusão, apresenta febre alta, calafrios intensos, hipotensão e taquicardia, com bolsa de concentrado de plaquetas armazenada em temperatura ambiente. Qual a hipótese principal?
Febre alta com calafrios e choque durante ou logo após transfusão de plaquetas — componente armazenado em temperatura ambiente, o que favorece proliferação bacteriana — sugere contaminação, e a conduta é interromper, colher hemoculturas do paciente e da bolsa e iniciar antibiótico de amplo espectro. Rotular como reação febril não hemolítica é o erro perigoso, porque essa cursa sem hipotensão e não exige antimicrobiano.
Paciente recebe grande volume de hemocomponentes e apresenta parestesias periorais, tremores, prolongamento do intervalo QT e hipotensão. Qual a causa mais provável?
O citrato usado como anticoagulante quela cálcio ionizado; em transfusões rápidas e volumosas, especialmente com disfunção hepática que reduz seu metabolismo, produz hipocalcemia com parestesias, tremor, prolongamento do QT e hipotensão, exigindo reposição de cálcio. A hipercalemia também ocorre em sangue estocado e é o distrator legítimo, mas não explica o QT longo nem as parestesias, e sim onda T apiculada com QRS alargado.
Qual das reações abaixo é do tipo TARDIO, ocorrendo dias após a transfusão?
A reação hemolítica tardia ocorre tipicamente entre o terceiro e o décimo quarto dia, por resposta anamnéstica em paciente previamente sensibilizado, manifestando-se com queda inexplicada da hemoglobina, icterícia leve e Coombs direto positivo. As demais reações listadas são agudas, ocorrendo durante ou nas primeiras horas — a organização temporal é justamente o que a questão cobra.
Homem de 35 anos apresenta, 90 minutos após início de transfusão, hipoxemia grave, infiltrado pulmonar bilateral, hipotensão e febre, sem sinais de sobrecarga volêmica. Qual o diagnóstico e a conduta?
A lesão pulmonar relacionada à transfusão surge em até 6 horas, com edema pulmonar não cardiogênico, hipotensão e ausência de congestão volêmica; o tratamento é de suporte, e o diurético — tratamento correto da sobrecarga circulatória — pode agravar a hipotensão. Confundir as duas entidades é o erro central desse tema, e a distinção passa pela pressão arterial, pela estase jugular e pelo peptídeo natriurético.
Puérpera com hemorragia pós-parto maciça recebe 6 concentrados de hemácias em 2 horas. Apresenta parestesia perioral, tremores e prolongamento do intervalo QT ao eletrocardiograma. Qual a causa mais provável?
O citrato usado como anticoagulante nas bolsas quela cálcio ionizado, e na transfusão maciça a carga de citrato supera a capacidade de metabolização hepática, produzindo hipocalcemia com parestesias, tremores, prolongamento do QT e, se grave, hipotensão e piora da coagulopatia. Por isso a monitorização e a reposição de cálcio fazem parte dos protocolos de transfusão maciça. A hipercalemia também ocorre com sangue estocado e é o distrator mais lembrado, mas cursa com achados eletrocardiográficos distintos, como onda T apiculada e alargamento do QRS, e não explica as parestesias perioral e os tremores descritos.
Mulher de 26 anos, com deficiência de IgA e anticorpo anti-IgA, apresenta hipotensão grave, broncoespasmo e edema de glote logo após início de transfusão de plasma. Qual a conduta e a prevenção futura?
Trata-se de anafilaxia, cujo tratamento é adrenalina intramuscular precoce com suporte de via aérea e volume; a prevenção específica é remover o plasma do componente por lavagem ou usar doador também deficiente de IgA. Prescrever leucorredução ou irradiação é o erro de trocar a modificação: a primeira previne reação febril e a segunda, doença do enxerto contra hospedeiro, e nenhuma delas remove a IgA plasmática.
Durante transfusão de concentrado de hemácias em puérpera anêmica, após 15 minutos de infusão, a paciente apresenta febre de 39°C, calafrios, dor lombar, hipotensão e urina avermelhada. Qual o diagnóstico e a conduta imediata?
Febre com calafrios, dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria durante a transfusão caracteriza reação hemolítica aguda, quase sempre por incompatibilidade ABO decorrente de erro de identificação — a conduta é parar a infusão imediatamente, manter acesso e hidratação para proteger a função renal, coletar amostras e notificar a hemoterapia. A reação febril não hemolítica é o distrator mais frequente porque também cursa com febre e calafrios, mas não tem dor lombar, hipotensão nem hemoglobinúria, e é diagnóstico de exclusão. Manter a transfusão em qualquer dessas hipóteses graves é a decisão que transforma reação em óbito.
Qual exame confirma laboratorialmente a hemólise imune após reação transfusional?
O Coombs direto positivo demonstra hemácias recobertas por anticorpo ou complemento e, junto ao plasma hemoglobinêmico, à queda de haptoglobina, à elevação de LDH e de bilirrubina indireta e à repetição da tipagem, compõe a investigação. Reticulócitos e ferritina descrevem outros eixos do metabolismo eritrocitário e não confirmam mecanismo imune, sendo os distratores de quem responde por 'exames de anemia'.
Qual é a causa mais frequente de reação transfusional hemolítica aguda fatal?
A grande maioria dos eventos fatais decorre de erro humano de identificação — beira de leito ou rotulagem da amostra —, e não de falha laboratorial, razão pela qual a dupla checagem à beira do leito é barreira de segurança obrigatória. Atribuir o desfecho a anticorpo irregular raro é o distrator que desloca a culpa para o laboratório e desvia a atenção da barreira que efetivamente previne mortes.
Homem de 45 anos recebe concentrado de hemácias e, 10 minutos após o início, apresenta dor lombar intensa, dor no trajeto da infusão, febre, hipotensão de 80/50 mmHg e urina avermelhada. Qual a hipótese e a primeira medida?
Dor lombar, dor no trajeto venoso, febre, choque e hemoglobinúria minutos após o início da transfusão caracterizam hemólise intravascular aguda, quase sempre por erro de identificação com incompatibilidade ABO. A conduta imediata é parar a infusão e sustentar a perfusão renal com cristaloide. Tratar como reação febril e manter a infusão é o erro que transforma uma reação potencialmente reversível em insuficiência renal e coagulação intravascular disseminada.
Mulher de 30 anos, grupo O, recebe por engano concentrado de hemácias do grupo A. Além das medidas de suporte, qual a prioridade para preservar a função renal?
A hemoglobina livre e o estroma eritrocitário lesam o túbulo renal, e o que protege o rim é fluxo urinário mantido por hidratação abundante, com monitorização de débito. Diurético isolado, sem correção da volemia, agrava a hipoperfusão e é o distrator que confunde 'aumentar diurese' com 'garantir perfusão'. As terapias adjuvantes de alcalinização não substituem o volume.
Homem de 40 anos apresenta urticária difusa e prurido durante transfusão de plasma, sem febre, hipotensão ou dispneia. Qual a conduta?
A reação alérgica leve, limitada a urticária, é a única em que se admite retomar a transfusão após tratamento com anti-histamínico e resolução dos sintomas. Aplicar adrenalina nesse quadro é desproporcional — ela está reservada à anafilaxia, com hipotensão, broncoespasmo ou edema de via aérea. Contraindicar transfusões futuras é excesso que pode privar o paciente de terapia necessária.
Homem de 68 anos com hemorragia digestiva alta apresenta hemoglobina de 6,8 g/dL, estável hemodinamicamente após reposição volêmica, sem doença coronariana. Qual o limiar transfusional adequado?
A estratégia restritiva, com gatilho em torno de 7 g/dL, mostrou-se superior à liberal na hemorragia digestiva alta, com menor mortalidade e menos ressangramento — o excesso de transfusão eleva a pressão portal e favorece novo sangramento. O alvo liberal permanece como distrator porque foi a prática por décadas; nos coronariopatas, o limiar é discretamente mais alto, em torno de 8 g/dL.
Mulher de 70 anos com insuficiência cardíaca recebe duas unidades de concentrado de hemácias em 2 horas e evolui com dispneia, hipertensão, estase jugular e crepitações bibasais. BNP elevado. Qual o diagnóstico?
Hipertensão, estase jugular, congestão e peptídeo natriurético elevado caracterizam sobrecarga volêmica, mais comum em idosos, cardiopatas e nefropatas, e o tratamento é diurético com suporte de oxigênio. A lesão pulmonar relacionada à transfusão é o principal diferencial e cursa com hipotensão, ausência de sinais de congestão volêmica e peptídeo natriurético normal — a diferença entre as duas define condutas opostas quanto a diurético.
Mulher de 62 anos, em transfusão de concentrado de hemácias por anemia, apresenta, após 45 minutos, elevação térmica de 1,4 °C, calafrios e mal-estar, sem hipotensão, dispneia, dor lombar ou hemoglobinúria. Qual a conduta imediata?
Toda reação transfusional exige interrupção imediata da infusão com manutenção do acesso venoso, reavaliação do paciente, conferência de identificação da bolsa e notificação — porque a apresentação febril inicial da reação hemolítica aguda e da contaminação bacteriana é indistinguível da reação febril não hemolítica. Manter a transfusão com antitérmico é o erro que impede reconhecer a tempo as reações graves.
Paciente com reação hemolítica aguda evolui com anúria, sangramento em sítios de punção, plaquetas de 40.000/mm³, fibrinogênio de 80 mg/dL e RNI de 2,3. Qual a complicação instalada?
A hemólise intravascular maciça libera fator tecidual e estroma eritrocitário, deflagrando ativação sistêmica da coagulação com consumo de fatores e plaquetas — daí o fibrinogênio baixo, o tempo alargado e o sangramento difuso. A púrpura trombocitopênica trombótica é o distrator microangiopático, mas cursa com coagulograma normal, o que a separa objetivamente do consumo observado aqui.
Paciente politransfundido com múltiplas reações febris apesar de leucorredução apresenta, na última transfusão, resposta transfusional inadequada, com incremento mínimo de hemoglobina. Qual hipótese deve ser considerada?
O politransfundido se aloimuniza contra antígenos eritrocitários menores e passa a destruir as hemácias transfundidas de forma extravascular e tardia, com incremento insuficiente de hemoglobina, febre, queda tardia do hematócrito e elevação de bilirrubina indireta e LDH. Atribuir tudo à ferropenia é o distrator confortável, mas não explica a resposta transfusional inadequada nem a hemólise.
Qual medida reduz a incidência de reações febris não hemolíticas em pacientes com episódios repetidos?
A leucorredução remove os leucócitos responsáveis pela liberação de citocinas e pela sensibilização, sendo a medida eficaz para prevenir recorrência. A irradiação previne a doença do enxerto contra hospedeiro associada à transfusão, e a lavagem previne reações alérgicas graves, sobretudo no deficiente de IgA — cada modificação do componente atende a um problema distinto, e trocá-las é o erro mais frequente nesse tema.
Qual reação transfusional se apresenta com dispneia, hipoxemia e infiltrado pulmonar bilateral nas primeiras 6 horas após a transfusão, sem sinais de sobrecarga volêmica?
Edema pulmonar não cardiogênico surgindo em até seis horas da transfusão, com hipoxemia e infiltrados bilaterais e sem elevação de pressões de enchimento, caracteriza a lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão. A sobrecarga circulatória é o diferencial imediato, mas cursa com hipertensão, turgência jugular e resposta a diurético. Distinguir as duas muda inteiramente a conduta, já que uma exige suporte e a outra, diurese.
Sobre o alvo de plaquetas para procedimentos invasivos, assinale a alternativa correta.
Os alvos são graduados pelo risco do procedimento e pelas consequências do sangramento: neurocirurgia e cirurgia oftalmológica exigem contagens bem mais altas que punção venosa, endoscopia diagnóstica ou punção lombar. Exigir contagem normal para tudo engana quem quer uma regra única e leva a transfusões desnecessárias, com risco de aloimunização e refratariedade.
Sobre a transfusão de plaquetas em paciente com síndrome mielodisplásica e plaquetopenia crônica estável, sem sangramento, qual a conduta?
Transfusões repetidas e desnecessárias promovem aloimunização e refratariedade plaquetária, comprometendo justamente os momentos em que a transfusão será realmente necessária. A conduta é restritiva, guiada por gatilhos e pelo contexto clínico de sangramento ou procedimento invasivo. Recusar qualquer transfusão é o extremo oposto e inaceitável diante de sangramento com risco de vida.
Homem de 70 anos em choque séptico com hemoglobina de 6,5 g/dL, sem sangramento ativo e sem doença coronariana. Qual a conduta transfusional?
A estratégia restritiva com gatilho em torno de 7 g/dL é a recomendada no choque séptico, com resultados equivalentes ou superiores à liberal e menos eventos adversos transfusionais. Manter hemoglobina acima de 10 g/dL é a prática antiga, derivada de protocolos de terapia precoce guiada por metas, e permanece como o distrator mais escolhido.
Paciente com doença falciforme apresenta, 8 dias após transfusão, queda da hemoglobina abaixo do valor pré-transfusional, icterícia, hemoglobinúria e desidrogenase láctica elevada, com teste de antiglobulina direta positivo. Qual a hipótese?
A reação hemolítica tardia, por aloimunização, ocorre dias após a transfusão e no falciforme pode assumir a forma de hiperhemólise, em que também as hemácias do próprio paciente são destruídas e a hemoglobina cai abaixo do valor inicial. O reflexo de transfundir mais é justamente o que agrava, e o manejo envolve suporte, imunoglobulina e corticoide, com fenotipagem eritrocitária ampla para prevenir novos episódios.
Puérpera de 25 anos recebe concentrado de hemácias por hemorragia pós-parto. Após 15 minutos, apresenta febre de 39°C, calafrios, dor lombar, hipotensão e urina escurecida. Qual a hipótese e a primeira medida?
Febre com calafrios, dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria em minutos configura hemólise intravascular aguda por incompatibilidade ABO; a bolsa é interrompida na hora, o acesso é mantido com cristaloide para preservar o fluxo renal e a bolsa retorna ao banco com nova tipagem. A reação febril não hemolítica é o distrator perigoso justamente porque também dá febre e calafrios — mas nela não há dor lombar, hipotensão nem urina escura, e só ela permite manter a transfusão. O TRALI cursa com hipoxemia e infiltrado pulmonar, sem hemoglobinúria.
Puérpera com hemorragia pós-parto estimada em 1.800 mL, mantendo PA 88x54 mmHg e FC 128 bpm após 1.500 mL de cristaloide. O banco de sangue pergunta como liberar os hemocomponentes. Qual estratégia é a recomendada?
Na hemorragia maciça em curso, a reposição balanceada em torno de 1:1:1 previne a coagulopatia dilucional e reduz mortalidade — é o que se ativa antes de qualquer exame voltar. Transfundir só hemácias engana porque corrige o transporte de oxigênio e piora a coagulação, perpetuando o sangramento. Esperar o coagulograma é o erro de tempo: o resultado chega tarde demais para uma paciente que sangra agora. Coloides não têm vantagem e o fibrinogênio, embora caia precocemente na obstetrícia, não é o único fator consumido.
Puérpera com hemorragia maciça recebeu 8 concentrados de hemácias e 6 plasmas. Apresenta-se com temperatura de 34,5°C, pH 7,18, sangramento em pontos de punção e cálcio iônico de 0,78 mmol/L. Qual conduta é prioritária além da hemostasia?
Hipotermia, acidose e hipocalcemia formam a tríade que trava a cascata de coagulação e perpetua o sangramento — o citrato dos hemocomponentes quela o cálcio, e a transfusão de bolsas frias esfria a paciente. Corrigir os três é tão terapêutico quanto costurar o vaso. Transfundir mais hemácias para alvo de 12 g/dL engana porque não há benefício em alvos liberais e a diluição agrava a coagulopatia. Anticoagular quem sangra ativamente é contraindicado, e o ácido tranexâmico deve ser mantido.
Puérpera com coagulopatia de consumo após descolamento prematuro de placenta mantém sangramento difuso e fibrinogênio de 120 mg/dL. Qual hemocomponente é o mais indicado para corrigir especificamente esse déficit?
O crioprecipitado concentra fibrinogênio, fator VIII, fator XIII e von Willebrand em pequeno volume, e é o componente de escolha quando o alvo é elevar o fibrinogênio acima de 200 mg/dL na hemorragia obstétrica; o concentrado de fibrinogênio faz o mesmo com dose previsível. Transfundir mais hemácias é o distrator natural em quem sangra, mas elas não repõem fator algum e diluem ainda mais a coagulação. As plaquetas têm indicação própria, quando a contagem cai abaixo dos limiares de sangramento.
Sobre o limiar de transfusão de concentrado de plaquetas em paciente obstétrica, qual afirmação está correta?
Diante de sangramento ativo ou de procedimento cirúrgico, o alvo prático é manter a contagem acima de 50.000/mm³; sem sangramento, o limiar profilático é bem mais baixo, em torno de 10.000 a 20.000. Transfundir por número isolado abaixo de 100.000 é sobretratamento. E o limiar para bloqueio neuroaxial é distinto e mais alto na maioria dos serviços, justamente pelo risco de hematoma epidural — confundir as duas réguas é o erro que a questão cobra.
Durante transfusão de concentrado de hemácias, puérpera apresenta elevação de 1,5 °C na temperatura, calafrios e desconforto, sem hipotensão, sem dor lombar, sem hemoglobinúria e sem dispneia. Qual a conduta imediata?
Toda reação febril durante transfusão exige interromper a infusão e reavaliar, porque febre e calafrios são a apresentação inicial tanto da reação febril não hemolítica, que é benigna, quanto da reação hemolítica aguda e da contaminação bacteriana, que são graves — só a avaliação separa uma da outra. Manter a transfusão e apenas medicar a febre engana porque, confirmada a natureza febril não hemolítica, retomar cuidadosamente pode ser aceitável, mas essa decisão vem depois da avaliação, não antes. Adrenalina é para anafilaxia e diurético para sobrecarga circulatória, quadros ausentes aqui.
Puérpera de 27 anos recebe concentrado de hemácias e, 10 minutos após o início, apresenta dor lombar intensa, febre de 39 °C, calafrios, hipotensão e urina escurecida. Qual a hipótese diagnóstica e a primeira medida?
Dor lombar, febre com calafrios, hipotensão e hemoglobinúria minutos após o início da infusão compõem o quadro clássico de reação hemolítica aguda por incompatibilidade, e a primeira medida é interromper a transfusão, manter acesso venoso com hidratação vigorosa para proteger a função renal e enviar bolsa e amostras para investigação. Reação febril não hemolítica engana porque também cursa com febre e calafrios, mas não traz hipotensão, dor lombar nem hemoglobinúria, e é o único desses diagnósticos em que se discute retomar a infusão. Nas demais reações listadas, manter a transfusão correndo é erro em todas.
Paciente de 24 anos recebe transfusão de plasma fresco congelado e, 3 horas após, evolui com dispneia intensa, hipoxemia com saturação de 84% em ar ambiente e infiltrado pulmonar bilateral difuso na radiografia. Pressão arterial de 110/70 mmHg, ausência de turgência jugular e ecocardiograma sem disfunção ventricular. Qual o diagnóstico?
Edema pulmonar não cardiogênico surgindo dentro de 6 horas de uma transfusão, com hipoxemia e infiltrado bilateral sem sinais de hipervolemia e com função ventricular preservada, define lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão, mais frequente com componentes ricos em plasma. Sobrecarga circulatória é o diagnóstico que mais engana porque produz o mesmo infiltrado, mas cursa com hipertensão, turgência jugular, terceira bulha e resposta a diurético — o oposto do quadro descrito. Anafilaxia traria broncoespasmo, urticária e hipotensão precoces, e a reação hemolítica tardia manifesta-se dias depois com queda de hemoglobina e icterícia.
Seis horas após transfusão de plasma, paciente evolui com dispneia, hipoxemia grave e infiltrado bilateral novo. Está afebril, com pressão venosa central de 6 mmHg, sem turgência jugular e com peptídeo natriurético normal. Qual é o diagnóstico mais provável?
Infiltrado bilateral com hipoxemia até seis horas após hemocomponente, na ausência de sinais de hipervolemia, define a lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão, mediada por anticorpos do doador contra leucócitos do receptor, e o tratamento é de suporte ventilatório, sem diurético. A sobrecarga circulatória é o principal diferencial e o distrator que mais confunde, mas cursa com pressões de enchimento altas, turgência jugular, hipertensão e peptídeo natriurético elevado, respondendo a diurético. Anafilaxia daria broncoespasmo, urticária e hipotensão nos primeiros minutos. Reação hemolítica tardia manifesta-se com anemia e icterícia dias depois, sem quadro pulmonar.
Cinco minutos após o início da transfusão de concentrado de hemácias, paciente apresenta dor lombar, febre, hipotensão, hemoglobinúria e sangramento pelos sítios de punção. Qual é a primeira conduta?
Dor lombar, hemoglobinúria, hipotensão e coagulação intravascular disseminada logo no início da infusão desenham reação hemolítica aguda por incompatibilidade, e a primeira medida é sempre interromper a transfusão, manter o acesso com salina, comunicar o banco de sangue e enviar a bolsa com nova amostra do paciente. Reduzir a velocidade e medicar é a conduta da reação febril não hemolítica, e é justamente esse o distrator: nela há febre e calafrios, mas não há hemólise, hipotensão grave nem sangramento. Anti-histamínico serve à reação alérgica leve. Diurético isolado sem hidratação vigorosa não protege o rim, e trocar a bolsa perpetua o erro que precisa ser investigado.
Qual medida deve ser adotada na seleção de hemocomponentes para pacientes com doença falciforme, a fim de reduzir complicações transfusionais?
A aloimunização é frequente e grave nessa população, e a compatibilização estendida para os antígenos dos sistemas Rh e Kell reduz de forma importante a formação de novos anticorpos e as reações hemolíticas tardias. Compatibilizar apenas ABO e RhD é o padrão geral de transfusão e justamente o que se mostra insuficiente aqui. A irradiação previne doença do enxerto contra hospedeiro em populações específicas, mas não substitui a fenotipagem. Sangue total fresco não é a prática moderna, e doadores familiares aumentam o risco de doença do enxerto contra hospedeiro e podem dificultar futuro transplante.
Paciente com doença falciforme recebe transfusão e, dez dias depois, apresenta queda da hemoglobina para valores abaixo dos pré-transfusionais, icterícia, dor e hemoglobinúria. O teste de Coombs direto é positivo. Qual é o diagnóstico?
Pacientes com doença falciforme são frequentemente aloimunizados por transfusões repetidas, e a reação hemolítica tardia se manifesta cerca de uma a duas semanas depois, com anemia pior que a inicial, icterícia, dor e hemoglobinúria, podendo evoluir para hiper-hemólise, em que hemácias próprias também são destruídas e novas transfusões pioram o quadro. Atribuir tudo a nova crise vaso-oclusiva é o erro que leva a transfundir mais e agravar. Sobrecarga de ferro é complicação crônica e assintomática nessa fase. Reação febril não cursa com hemólise, e contaminação bacteriana se manifesta em minutos a horas, com sepse fulminante.
Paciente de 68 anos com epistaxe posterior mantida, sem cardiopatia conhecida, apresenta hemoglobina de 6,8 g/dL, taquicardia e sangramento ativo. Qual a conduta transfusional?
O gatilho transfusional restritivo de 7 g/dL vale para o paciente estável, mas aqui há sangramento ativo com repercussão clínica e taquicardia, situação em que a transfusão de hemácias está indicada sem esperar novo limiar. Fixar o corte em 5 g/dL é o erro que a questão cobra, pois ignora o sangramento em curso e o valor já obtido. Plasma fresco não trata anemia, plaquetas só se indicam diante de plaquetopenia ou disfunção plaquetária, e ferro oral tem papel apenas na recuperação tardia.
Sobre o suporte transfusional em criança com anemia aplástica candidata a transplante, é correto afirmar que:
Doadores familiares compartilham haplótipos e aumentam o risco de doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão, além de sensibilizar o receptor contra antígenos do futuro doador — por isso são evitados, ao contrário da intuição. Irradiação e desleucocitação reduzem esses riscos. A transfusão de plaquetas segue gatilhos e sangramento, e metas de hemoglobina próximas do normal expõem a criança a mais transfusões e a sobrecarga de ferro sem benefício.
Homem de 84 anos operado de fratura do fêmur proximal. No segundo dia de pós-operatório, apresenta hemoglobina de 7,4 g/dL, está assintomático, sem dor torácica, sem taquicardia e mantém pressão arterial estável. Antecedente de doença coronariana estável. Qual a conduta transfusional?
A estratégia restritiva é a regra no perioperatório ortopédico, mas o limiar sobe em portadores de doença cardiovascular, situação em que valores em torno de 8 g/dL orientam a transfusão — com 7,4 g/dL e coronariopatia, o paciente entra nessa faixa. Manter conduta expectante até níveis muito baixos é a leitura equivocada da estratégia restritiva, que não significa nunca transfundir. Perseguir hemoglobina acima de 12 g/dL é a estratégia liberal, associada a mais eventos sem benefício. Ferro e eritropoetina agem em dias a semanas e não resolvem a anemia aguda sintomática, e plasma não corrige anemia.
Criança de 6 anos com talassemia beta maior em transfusão crônica apresenta, durante a infusão, febre, calafrios e urticária, sem hipotensão nem hemoglobinúria. A conduta e a prevenção futura são:
Interromper a transfusão e avaliar imediatamente a criança. Febre e calafrios exigem excluir incompatibilidade, hemólise e contaminação bacteriana, mesmo sem hipotensão ou hemoglobinúria; urticária concomitante não autoriza classificar todo o episódio como alergia leve. A desleucocitação reduz reações febris não hemolíticas, mas não é prevenção específica da alergia a proteínas plasmáticas. Para reações alérgicas recorrentes moderadas ou graves, a equipe de hemoterapia pode indicar componentes lavados ou outras medidas. Um episódio manejável não justifica suspender definitivamente um programa transfusional necessário.
Qual reação transfusional deve ser suspeitada em criança falciforme politransfundida que apresenta, 7 dias após transfusão, queda da hemoglobina abaixo do valor pré-transfusional, icterícia e hemoglobinúria?
A reação hemolítica tardia, com o fenômeno de hiperhemólise, é temida no falciforme politransfundido: destrói tanto as hemácias transfundidas quanto as do próprio paciente, levando a hemoglobina abaixo do nível prévio, e transfundir mais pode agravar. Reação febril não hemolítica ocorre durante ou logo após a transfusão, sem hemólise. Sobrecarga circulatória cursa com dispneia e hipertensão em minutos a horas. Reação alérgica dá urticária. Contaminação bacteriana produz febre alta e choque durante ou imediatamente após a infusão.
Qual é o limiar transfusional geralmente adotado para concentrado de hemácias em criança com sepse já estabilizada hemodinamicamente?
A estratégia restritiva, com limiar em torno de 7 g/dL na criança estabilizada, mostrou-se tão segura quanto a liberal e evita os riscos da transfusão — reação, imunomodulação e sobrecarga. Limiares de 10 ou 12 g/dL representam a prática liberal já superada e expõem a criança sem ganho. Transfundir por febre não faz sentido fisiopatológico. Restringir apenas a sangramento ativo é o extremo oposto e ignora a anemia significativa. Na fase de choque não compensado, no entanto, o alvo pode ser individualizado para valores mais altos.
Durante transfusão de concentrado de hemácias, uma criança de 6 anos apresenta, aos 10 minutos, dor lombar intensa, hipotensão, taquicardia, urina cor de coca-cola e sangramento pelos sítios de punção. Qual a conduta prioritária?
O conjunto de dor lombar, hipotensão, hemoglobinúria e coagulopatia é reação hemolítica aguda, quase sempre por incompatibilidade ABO em erro de identificação, e é emergência: parar a infusão na hora, sustentar volume e diurese para proteger o rim, e devolver bolsa e amostras para investigação. Qualquer conduta que mantenha a bolsa correndo, mesmo mais lenta, aumenta a dose de hemácias incompatíveis e a gravidade. Antitérmico responde à reação febril simples, não a esta, e adrenalina é o tratamento da anafilaxia, que se apresenta com broncoespasmo e urticária.
Criança de 3 anos com talassemia maior será submetida a transfusão. Qual característica do hemocomponente reduz o risco de doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão?
Somente a irradiação inativa os linfócitos T do doador e por isso é a única medida que previne doença do enxerto contra o hospedeiro pós-transfusional. A desleucocitação é o distrator mais tentador porque também remove leucócitos, mas seu alvo é outro: reduz reação febril não hemolítica, aloimunização HLA e transmissão de citomegalovírus, sem eliminar linfócitos viáveis em número suficiente. A lavagem previne reações alérgicas em deficientes de IgA, e o aquecimento evita hipotermia em transfusão maciça.
Criança de 7 anos com leucemia recém-diagnosticada tem hemoglobina de 5,2 g/dL, sem sangramento ativo, e está hemodinamicamente estável, com leucometria de 12.000/mm3. Qual a conduta transfusional?
A anemia crônica e profunda exige transfusão lenta e fracionada para evitar sobrecarga volêmica em um paciente adaptado, e o hemocomponente precisa ser irradiado e desleucocitado por causa da imunossupressão. A transfusão rápida em bolus é o erro que precipita insuficiência cardíaca. Não transfundir com esse nível de hemoglobina expõe a criança a hipóxia enquanto a medula ainda está tomada por blastos. Sangue de familiar sem irradiação aumenta o risco de doença do enxerto contra o hospedeiro, e não há indicação de plaquetas sem plaquetopenia ou sangramento.
Paciente de 8 anos com talassemia maior recebe concentrado de hemácias. Após 20 minutos, apresenta febre de 38,6 °C, calafrios, sem hipotensão, sem dor lombar, sem hemoglobinúria e sem alteração da cor da urina. Qual a hipótese mais provável e a conduta imediata?
Febre e calafrios sem hipotensão, sem dor lombar e sem hemoglobinúria em politransfundido caracterizam reação febril não hemolítica, mediada por citocinas e anticorpos antileucocitários; a conduta é interromper, reavaliar, medicar sintomas e prevenir com componentes desleucocitados. A reação hemolítica aguda é o diferencial que a banca cobra e que precisa ser afastado, mas ela traz hipotensão, dor lombar, urina escura e sangramento. Manter a transfusão correndo é erro em qualquer reação: toda reação exige interrupção e reavaliação antes de decidir.
Criança com talassemia maior recebe transfusão de 15 mL/kg em 2 horas. Ao final, apresenta dispneia, estertores crepitantes bilaterais, hipertensão arterial e turgência jugular, sem febre. Qual a hipótese e a conduta?
Congestão com hipertensão, turgência jugular e ausência de febre aponta hipervolemia: é a sobrecarga circulatória, tratada com suspensão, oxigênio, decúbito elevado e diurético, e prevenida com infusão fracionada e mais lenta em quem tem anemia crônica. O diferencial que a banca gosta é a lesão pulmonar relacionada à transfusão, mas nela costuma haver febre e hipotensão, a pressão venosa não sobe e diurético não ajuda. Ausência de urticária e de broncoespasmo afasta anafilaxia.
Sobre o uso de hemoderivados em criança com meningococcemia e coagulação intravascular disseminada, é correto afirmar:
A reposição de hemocomponentes é guiada pelo sangramento e pela necessidade de procedimentos, e não pela simples anormalidade dos exames, evitando transfusões desnecessárias em um paciente que consome fatores continuamente. Usar plasma como expansor volêmico é erro consagrado, já que cristaloide cumpre esse papel com menor risco. Metas plaquetárias elevadas em paciente sem sangramento não têm respaldo, hemoderivados não são contraindicados quando há sangramento, e anticoagulação plena não é conduta padrão nesse cenário.
Homem de 47 anos recebe transfusão de concentrado de hemácias em enfermaria e, após 15 minutos de infusão, apresenta calafrios, febre de 38,8 °C, dor lombar, hipotensão e urina escurecida. A transfusão é interrompida imediatamente. Ele havia sido transfundido pela primeira vez naquele dia, com hemocomponente de outro paciente entregue por engano. Assinale a reação transfusional mais provável e a conduta imediata.
Febre, calafrios, dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria logo após o início da transfusão, em contexto de troca de hemocomponente, caracterizam reação hemolítica aguda por incompatibilidade ABO, emergência que exige interromper a transfusão, manter acesso com cristaloide, garantir diurese, dar suporte hemodinâmico e notificar a hemovigilância. Reação febril não hemolítica não cursa com dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria, e retomar a transfusão seria catastrófico. Sobrecarga circulatória cursa com dispneia e congestão, sem hemólise. Reação alérgica leve manifesta-se com urticária, sem febre alta e instabilidade.
Mulher de 58 anos, internada por insuficiência cardíaca descompensada, recebe transfusão de duas unidades de concentrado de hemácias em duas horas por anemia. Ao final da segunda unidade, apresenta dispneia, ortopneia, hipertensão arterial, turgência jugular e estertores bibasais, com saturação de 89%. Está afebril e sem urticária. A radiografia mostra congestão pulmonar difusa com área cardíaca aumentada. Assinale a complicação transfusional mais provável.
Dispneia com hipertensão arterial, turgência jugular, estertores e cardiomegalia em paciente cardiopata transfundida rapidamente caracteriza sobrecarga circulatória associada à transfusão, prevenível com infusão lenta e uso de diurético. A lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão cursa tipicamente com hipotensão, febre e infiltrado bilateral sem sinais de congestão volêmica. A reação hemolítica tardia manifesta-se dias após, com queda de hemoglobina e icterícia. Contaminação bacteriana provoca febre alta, calafrios e choque logo no início da infusão.
Menina de 7 anos, internada em enfermaria por anemia grave, recebe transfusão de concentrado de hemácias. Cerca de 15 minutos após o início, apresenta calafrios, dor lombar, agitação e urina escura. Ao exame: temperatura axilar 39 °C, frequência cardíaca 152 bpm, pressão arterial 82x46 mmHg, sudorese e palidez. A transfusão está a cerca de 40 mL infundidos. A enfermagem pergunta se deve apenas reduzir a velocidade de infusão e administrar antitérmico. Qual é a conduta imediata?
Febre com calafrios, dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria durante a transfusão sugerem reação hemolítica aguda, situação em que a conduta imediata é interromper a infusão, manter acesso venoso com solução salina, iniciar suporte hemodinâmico e proteção renal e comunicar o serviço de hemoterapia para investigação. Manter a transfusão em qualquer velocidade agrava a hemólise. Trocar o equipo e reinfundir a mesma bolsa repete a exposição ao antígeno incompatível. Anti-histamínico trata reação alérgica leve, que não cursa com hemoglobinúria e choque.
Mulher de 29 anos é atendida no pronto-socorro durante transfusão de concentrado de hemácias por anemia, iniciada há 20 minutos. Ela apresenta calafrios, febre de 38,6 °C, dor lombar, urina escurecida e hipotensão de 82x48 mmHg, com frequência cardíaca de 126 bpm. A transfusão é interrompida imediatamente. Os exames mostram elevação de bilirrubina indireta, desidrogenase láctica elevada e haptoglobina reduzida, com teste de Coombs direto positivo. A hipótese diagnóstica mais provável é
Febre, calafrios, dor lombar, hemoglobinúria, hipotensão e evidências laboratoriais de hemólise com Coombs direto positivo durante a transfusão caracterizam reação hemolítica aguda, geralmente por incompatibilidade ABO, exigindo interrupção imediata, suporte hemodinâmico, hidratação e comunicação ao serviço de hemoterapia. A reação febril não hemolítica cursa com febre e calafrios sem hemólise nem hipotensão grave. A sobrecarga circulatória cursa com dispneia, hipertensão e congestão. A lesão pulmonar relacionada à transfusão cursa com hipoxemia e infiltrado pulmonar bilateral, sem hemólise.
Homem de 62 anos, no segundo dia de pós-operatório de gastrectomia parcial, encontra-se estável, sem sangramento ativo, com pressão arterial de 122 x 74 mmHg, frequência cardíaca de 82 bpm, diurese adequada e sem dor torácica ou dispneia. O hemograma de controle mostra hemoglobina de 7,6 g/dL, sem queda progressiva nas últimas dosagens. Ele não tem doença coronariana conhecida nem sinais de instabilidade hemodinâmica ou de hipoperfusão tecidual. A conduta transfusional mais adequada é:
Em pacientes estáveis, sem sangramento ativo e sem isquemia miocárdica, a estratégia transfusional restritiva, com gatilho em torno de 7 g/dL, apresenta desfechos semelhantes ou melhores que a liberal, com menos exposição a riscos transfusionais. Transfundir para alvo de 10 g/dL é prática superada e associada a mais complicações. Plasma fresco congelado não transporta oxigênio e é indicado para coagulopatia com sangramento. Eritropoetina não tem papel na correção aguda e leva semanas para produzir efeito.
Mulher de 55 anos recebe transfusão de concentrado de hemácias no pós-operatório. Cerca de dez minutos após o início, refere dor lombar intensa, calafrios e sensação de morte iminente. Ao exame, temperatura axilar de 38,9 °C, frequência cardíaca de 130 bpm, pressão arterial de 82 x 48 mmHg, e observa-se urina de coloração avermelhada na sonda vesical. Não há broncoespasmo, urticária nem angioedema. A equipe verifica a etiqueta da bolsa e identifica divergência de identificação do paciente. A conduta imediata é:
Dor lombar, febre, hipotensão, taquicardia e hemoglobinúria logo após o início da transfusão, com erro de identificação, caracterizam reação hemolítica aguda por incompatibilidade, emergência em que a primeira medida é interromper imediatamente a infusão, manter acesso com cristaloide, oferecer suporte hemodinâmico, preservar diurese e comunicar o serviço de hemoterapia para investigação. Reduzir a velocidade ou completar a transfusão perpetua a hemólise. Anti-histamínico trata reação alérgica leve, quadro distinto. Reiniciar transfusão sem investigar o erro repete a exposição de risco.
Menina de 5 anos, com leucemia linfoblástica aguda em tratamento, precisa receber transfusão de concentrado de hemácias por anemia sintomática. A equipe da unidade discute os cuidados especiais necessários para hemocomponentes em pacientes oncológicos pediátricos, considerando o risco de complicações transfusionais específicas nesse grupo. A criança está estável, afebril, com hemoglobina de 6,4 g/dL, sem sangramento ativo, e já recebeu transfusões anteriores sem reações. A conduta correta quanto ao hemocomponente é
Pacientes oncológicos pediátricos imunossuprimidos devem receber hemocomponentes irradiados, para prevenir a doença do enxerto contra hospedeiro associada à transfusão, e desleucocitados, reduzindo reações febris não hemolíticas, aloimunização e transmissão de citomegalovírus. Sangue total sem processamento não oferece essa proteção. Plasma fresco congelado não corrige anemia. Aguardar hemoglobina de 4 g/dL em criança sintomática expõe a descompensação hemodinâmica evitável.
Homem de 55 anos, no pós-operatório de laparotomia por trauma, está estável, sem sangramento ativo, com abdome flácido, ferida em boa evolução e sinais vitais normais, apresentando PA 124x78 mmHg, FC 82 bpm e boa perfusão periférica. A hemoglobina de controle é de 7,4 g/dL, sem queda progressiva nas últimas coletas, e ele nega dispneia, dor torácica, tontura ou palpitações, mantendo diurese adequada e sem doença coronariana conhecida. A conduta transfusional mais adequada é:
A estratégia transfusional restritiva, com limiar em torno de 7 g/dL em pacientes estáveis sem sangramento ativo e sem doença cardiovascular significativa, associa-se a desfechos iguais ou melhores que a estratégia liberal, evitando riscos transfusionais. Manter hemoglobina acima de 10 g/dL em todos expõe a reações, imunomodulação e sobrecarga sem benefício. Transfundir independentemente dos sintomas contraria a evidência atual. Suspender a monitorização impede detectar sangramento tardio.
Menina de 5 anos, com leucemia linfoblástica aguda em tratamento, precisa receber transfusão de concentrado de hemácias por anemia sintomática. A equipe da unidade discute os cuidados especiais necessários para hemocomponentes em pacientes oncológicos pediátricos, considerando o risco de complicações transfusionais específicas nesse grupo. A criança está estável, afebril, com hemoglobina de 6,4 g/dL, sem sangramento ativo, e já recebeu transfusões anteriores sem reações. A família nega febre nas últimas 24 horas, vômitos persistentes, perda de peso recente e alterações do hábito intestinal. O restante do exame físico é normal e os exames de rotina anteriores não mostravam alterações. A conduta correta quanto ao hemocomponente é
Pacientes oncológicos pediátricos imunossuprimidos devem receber hemocomponentes irradiados, para prevenir a doença do enxerto contra hospedeiro associada à transfusão, e desleucocitados, reduzindo reações febris não hemolíticas, aloimunização e transmissão de citomegalovírus. Sangue total sem processamento não oferece essa proteção. Plasma fresco congelado não corrige anemia. Aguardar hemoglobina de 4 g/dL em criança sintomática expõe a descompensação hemodinâmica evitável.
Puérpera de 28 anos, no segundo dia após parto vaginal com hemorragia pós-parto tratada com uterotônicos e ácido tranexâmico, apresenta hemoglobina de 6,8 g/dL. Ela está lúcida, refere cansaço e tontura ao sentar-se, com frequência cardíaca de 112 bpm e pressão arterial de 96x58 mmHg. O útero está contraído, a loquiação é normal e não há sangramento ativo. Ela amamenta com dificuldade por causa da fraqueza e tem dois filhos pequenos em casa. A conduta correta é
Anemia grave com sintomas de instabilidade, como taquicardia e tontura, no puerpério imediato indica transfusão de concentrado de hemácias, seguida de reposição de ferro para recuperação dos estoques, considerando também o impacto sobre a amamentação e o cuidado com os filhos. Alta com ferro oral em paciente sintomática é insegura. Ferro endovenoso isolado não corrige rapidamente a anemia sintomática. Aguardar recuperação espontânea prolonga a morbidade e o risco de descompensação.
Menina de 5 anos, com leucemia linfoblástica aguda em tratamento, precisa receber transfusão de concentrado de hemácias por anemia sintomática. A equipe da unidade discute os cuidados especiais necessários para hemocomponentes em pacientes oncológicos pediátricos, considerando o risco de complicações transfusionais específicas nesse grupo. A criança está estável, afebril, com hemoglobina de 6,4 g/dL, sem sangramento ativo, e já recebeu transfusões anteriores sem reações. Ela está no intervalo entre ciclos, sem febre nas últimas 48 horas, com neutrófilos acima de mil células por microlitro. O acesso venoso central está sem sinais flogísticos e a criança mantém boa aceitação alimentar. A conduta correta quanto ao hemocomponente é
Pacientes oncológicos pediátricos imunossuprimidos devem receber hemocomponentes irradiados, para prevenir a doença do enxerto contra hospedeiro associada à transfusão, e desleucocitados, reduzindo reações febris não hemolíticas, aloimunização e transmissão de citomegalovírus. Sangue total sem processamento não oferece essa proteção. Plasma fresco congelado não corrige anemia. Aguardar hemoglobina de 4 g/dL em criança sintomática expõe a descompensação hemodinâmica evitável.
Homem de 44 anos recebe transfusão de concentrado de hemácias durante internação por sangramento digestivo. Cerca de 90 minutos após o início, apresenta dispneia súbita, febre e hipoxemia. Ao exame: temperatura 38,6 °C, PA 96x58 mmHg, FC 118 bpm, FR 32 ipm, saturação 85% em ar ambiente, estertores difusos bilaterais, sem estase jugular, sem edema periférico, ausculta cardíaca sem terceira bulha. Radiografia mostra infiltrados alveolares bilaterais difusos com área cardíaca normal. Exames: peptídeo natriurético normal, sem sinais de sobrecarga volêmica. A hipótese mais provável é:
Insuficiência respiratória aguda com infiltrados alveolares bilaterais, febre e hipotensão, sem sinais de sobrecarga volêmica e com peptídeo natriurético normal, poucas horas após transfusão, caracteriza lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão, forma de edema pulmonar não cardiogênico. Sobrecarga circulatória cursa com hipertensão, estase jugular e peptídeo natriurético elevado. Reação hemolítica cursa com hemoglobinúria e queda da hemoglobina. Reação febril não hemolítica não causa hipoxemia grave com infiltrados.
Homem de 52 anos é atendido no pronto-socorro durante transfusão de concentrado de hemácias por anemia sintomática. Cerca de dez minutos após o início, apresenta dor lombar intensa, febre, calafrios e urina escura. Ao exame: temperatura 38,8 °C, PA 88x54 mmHg, FC 128 bpm, dor à palpação lombar, urina de coloração avermelhada na sonda vesical, sem sinais de sobrecarga volêmica. Exames: hemoglobina em queda, desidrogenase láctica elevada, bilirrubina indireta elevada, haptoglobina indetectável, teste de antiglobulina direta positivo, hemoglobinúria confirmada. A conduta imediata correta é:
Dor lombar, febre, hipotensão e hemoglobinúria logo após o início da transfusão caracterizam reação hemolítica aguda, geralmente por incompatibilidade ABO, exigindo interrupção imediata, manutenção do acesso com solução salina, comunicação ao serviço de hemoterapia para investigação e suporte com hidratação vigorosa e monitorização renal. Reduzir a velocidade e continuar agrava a hemólise. Liberar sem investigação impede identificar a falha. Reiniciar a mesma bolsa é conduta potencialmente fatal.
Mulher de 66 anos é atendida em ambulatório com fadiga e dispneia aos esforços há dois meses. Ela recebeu transfusão de concentrado de hemácias há três semanas por anemia. Ao exame: palidez, icterícia discreta de escleras, sem esplenomegalia importante, sem petéquias, sem febre. Exames: hemoglobina 7,8 g/dL, previamente 10,4 g/dL após a transfusão, reticulócitos elevados, bilirrubina indireta elevada, desidrogenase láctica elevada, teste de antiglobulina direta positivo, pesquisa de anticorpos irregulares positiva com novo aloanticorpo identificado. A hipótese mais provável é:
Queda da hemoglobina com hemólise, teste de antiglobulina direta positivo e novo aloanticorpo identificado, semanas após transfusão, caracteriza reação hemolítica transfusional tardia por aloimunização, na qual a resposta anamnéstica destrói as hemácias transfundidas. Reação aguda por incompatibilidade ABO ocorre em minutos a horas. Sobrecarga circulatória cursa com congestão, não com hemólise. Reação febril não hemolítica é autolimitada e não causa queda tardia da hemoglobina com hemólise.
Homem de 58 anos está no sexto dia de internação em terapia intensiva por pneumonia, já sem vasopressor, hemodinamicamente estável e em desmame ventilatório. O hemograma de rotina mostra hemoglobina de 7,4 g/dL, estável em relação ao dia anterior, sem sangramento visível, sem melena e com endoscopia recente normal. Não há doença coronariana conhecida, dor torácica, taquicardia sustentada ou sinais de hipoperfusão. O lactato está normal. Qual é a conduta transfusional mais adequada?
A estratégia transfusional restritiva, com limiar em torno de 7 g/dL no paciente crítico estável e sem sangramento ativo ou isquemia miocárdica, tem desfechos iguais ou melhores do que a liberal, com menos complicações relacionadas à transfusão. Buscar hemoglobina acima de 10 g/dL expõe a riscos imunológicos e infecciosos sem benefício. Plasma fresco congelado não corrige anemia e é indicado em coagulopatia com sangramento. Eritropoetina não tem efeito imediato e não é estratégia de manejo agudo da anemia na terapia intensiva.
Homem, 74 anos, internado por infarto sem supradesnivelamento de ST, apresenta hemoglobina de 7,4 g/dL (VR 13–17) após episódio de melena. PA 108/64 mmHg, FC 104 bpm, sem dor torácica no momento. Endoscopia mostra úlcera gástrica com coágulo aderido, tratada endoscopicamente. Está em uso de ácido acetilsalicílico, clopidogrel e enoxaparina, sem instabilidade hemodinâmica atual. Qual a conduta transfusional mais adequada?
Em paciente com síndrome coronariana aguda e sangramento, a estratégia transfusional mais liberal, mantendo hemoglobina em torno de 8 a 10 g/dL, é razoável porque a anemia agrava a isquemia miocárdica ao reduzir a oferta de oxigênio. Aguardar queda abaixo de 6 g/dL aplica um limiar de pacientes estáveis sem isquemia. Transfundir até 14 g/dL expõe a sobrecarga volêmica e a riscos transfusionais sem benefício adicional. Proibir a transfusão em qualquer circunstância ignora a repercussão isquêmica da anemia grave. O plasma fresco congelado repõe fatores de coagulação e não corrige anemia.
Quatro puérperas são avaliadas quanto à indicação de transfusão. A primeira tem Hb 7,4 g/dL, assintomática, sem sangramento ativo. A segunda tem Hb 8,0 g/dL com taquicardia, hipotensão e sangramento em curso. A terceira tem Hb 6,6 g/dL com dispneia aos mínimos esforços. A quarta tem Hb 9,2 g/dL, assintomática, com ferritina baixa e desejo de alta hospitalar precoce. Qual conduta transfusional é a correta?
A conduta correta é transfundir a paciente com sangramento ativo e instabilidade hemodinâmica e a paciente com dispneia aos mínimos esforços por anemia grave, tratando as demais com reposição de ferro, preferencialmente intravenosa quando há necessidade de recuperação rápida ou intolerância à via oral, pois a decisão transfusional deve considerar sintomas, sangramento ativo e velocidade de instalação, e não apenas o valor isolado da hemoglobina. Transfundir todas expõe pacientes estáveis a riscos evitáveis. Decidir apenas pelo número desconsidera o quadro clínico. Afirmar que a anemia puerperal é sempre bem tolerada é falso e perigoso. Transfundir a paciente com 9,2 g/dL assintomática apenas para antecipar a alta é indicação inadequada de hemocomponente.
Mulher, 27 anos, recebe transfusão de concentrado de hemácias por hemorragia pós-parto. Cerca de 15 minutos após o início, apresenta calafrios, dor lombar intensa, ansiedade e urina escurecida. T 38,6 °C, PA 88/50 mmHg, FC 128 bpm, sangramento difuso pelos sítios de punção. Hemoglobina livre no plasma elevada, LDH elevada, haptoglobina reduzida e teste de Coombs direto positivo após o evento. Qual a conduta imediata?
Interromper imediatamente a transfusão, manter acesso venoso com solução salina, comunicar o banco de sangue e enviar amostras para investigação, iniciar hidratação vigorosa e suporte hemodinâmico e monitorar função renal e coagulação é a conduta imediata na reação hemolítica aguda por incompatibilidade, sugerida por febre com calafrios, dor lombar, hemoglobinúria, hipotensão e coagulopatia. Reduzir a velocidade e completar a bolsa agrava a hemólise. Manter a transfusão apenas com antitérmico confunde reação febril não hemolítica com hemólise aguda, que é potencialmente fatal. Corticoide e anti-histamínico com reinício da mesma bolsa é conduta de reação alérgica leve, inadequada aqui. Trocar o equipo e prosseguir mantém a exposição ao hemocomponente incompatível.
Mulher, 39 anos, com pré-eclâmpsia e anemia, recebe 3 unidades de concentrado de hemácias em 3 horas no pós-parto. Ao final, apresenta dispneia progressiva, ortopneia e tosse com expectoração rosada. PA 168/102 mmHg, FC 118 bpm, FR 32 ipm, SatO2 87%, estertores difusos e turgência jugular. Radiografia com infiltrado bilateral e área cardíaca aumentada. Sem febre, sem exantema e com peptídeo natriurético cerebral elevado. Qual o diagnóstico e a conduta?
O diagnóstico é sobrecarga circulatória associada à transfusão, sugerida por dispneia com hipertensão, turgência jugular, cardiomegalia, edema pulmonar e peptídeo natriurético elevado após infusão rápida de vários hemocomponentes em paciente com pré-eclâmpsia, e a conduta é interromper a infusão, ofertar oxigênio, administrar diurético e controlar a pressão arterial. A lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão cursa com hipotensão, febre e peptídeo natriurético normal, e o diurético seria contraproducente nela. A anafilaxia apresentaria urticária, broncoespasmo e hipotensão logo após o início. A embolia por líquido amniótico ocorre no periparto com coagulopatia grave. A reação hemolítica aguda cursaria com hemoglobinúria, dor lombar e queda da hemoglobina, ausentes.
Mulher, 68 anos, com carcinoma de ovário avançado em quimioterapia, apresenta há 5 dias astenia intensa, palidez e dispneia aos mínimos esforços. Hb 6,8 g/dL (VR 12–16); volume corpuscular médio normal; reticulócitos baixos; ferritina 320 ng/mL (VR 15–200); saturação de transferrina 12%. Não há sangramento ativo, e a paciente está hemodinamicamente estável, com PA 112/70 mmHg e FC 104 bpm, sem sinais de sangramento oculto ao exame. Qual a conduta mais adequada?
Anemia sintomática com dispneia aos mínimos esforços e hemoglobina de 6,8 g/dL indica transfusão de concentrado de hemácias, associada à investigação do padrão de ferro, que aqui mostra ferritina elevada com saturação baixa, sugerindo deficiência funcional de ferro, corrigida preferencialmente por via endovenosa. O sulfato ferroso oral tem absorção limitada nesse contexto inflamatório e não corrige a anemia sintomática em tempo hábil. A eritropoetina sem avaliação e reposição de ferro tem resposta insuficiente e riscos trombóticos. Suspender definitivamente a quimioterapia é decisão precipitada. Observar sem intervir mantém a paciente sintomática e limita a continuidade do tratamento oncológico.
Menina, 8 anos, com diagnóstico de deficiência seletiva de IgA identificada em investigação de infecções respiratórias leves de repetição, apresenta agora indicação de transfusão de hemocomponentes por anemia sintomática após sangramento traumático. A família pergunta sobre riscos específicos relacionados à sua condição imunológica, e a equipe revisa as precauções necessárias antes de proceder com a transfusão indicada. Qual o risco específico a ser considerado?
Pacientes com deficiência seletiva de IgA podem desenvolver anticorpos anti-IgA e apresentar reações anafiláticas graves à transfusão de hemocomponentes contendo IgA, exigindo atenção específica e, em casos selecionados, produtos lavados ou de doadores também deficientes. A doença do enxerto contra hospedeiro transfusional está relacionada a imunodeficiências celulares e à ausência de irradiação, não sendo inevitável nessa condição. A hemólise por incompatibilidade ABO decorre de erro transfusional, não da deficiência de IgA. A transmissão de infecção viral não é garantida e é minimizada pela triagem. Não há associação estabelecida entre deficiência de IgA e trombose maciça pós-transfusional.
Homem, 66 anos, internado na UTI por sepse, apresenta hemoglobina de 6,9 g/dL após 5 dias de internação. Está hemodinamicamente estável, com noradrenalina em desmame, sem sangramento ativo, sem doença coronariana conhecida e sem sinais de isquemia miocárdica. Frequência cardíaca 88 bpm, PA 118/70 mmHg, lactato 1,4 mmol/L, saturação venosa central de 72%. Diurese preservada e sem dispneia em repouso. Qual a conduta transfusional correta?
A estratégia transfusional restritiva, com gatilho em torno de 7 g/dL e transfusão de uma unidade por vez seguida de reavaliação, é a recomendada na maioria dos pacientes críticos estáveis, com desfechos iguais ou melhores em comparação à liberal. Manter hemoglobina acima de 10 g/dL expõe a riscos transfusionais sem benefício. Não transfundir em nenhuma circunstância ignora o valor já abaixo do gatilho recomendado. Transfundir quatro unidades de uma vez sem reavaliação aumenta riscos de sobrecarga e de lesão pulmonar relacionada à transfusão. A eritropoetina não é alternativa na fase aguda da doença crítica, pois seu efeito demora dias a semanas e há risco trombótico.
Mulher, 47 anos, internada na UTI, evolui com hipotensão e taquicardia durante transfusão de concentrado de hemácias iniciada há 15 minutos. Exame: T 39,0 °C, PA 78/44 mmHg, FC 130 bpm, dor lombar, urina escura, sangramento pelos sítios de punção. Hemoglobinúria confirmada. Antes da transfusão estava estável, afebril e sem sangramento. A bolsa e a identificação do paciente estão sendo conferidas pela equipe neste momento. Qual a hipótese diagnóstica e a conduta imediata?
Febre, hipotensão, dor lombar, hemoglobinúria e coagulopatia poucos minutos após o início da transfusão caracterizam reação hemolítica aguda, geralmente por incompatibilidade ABO, exigindo interrupção imediata da transfusão, manutenção do acesso com salina, hidratação vigorosa para proteger a função renal, suporte hemodinâmico e comunicação ao banco de sangue. Reação febril não hemolítica cursa com febre e calafrios sem hemólise e sem instabilidade grave. Sobrecarga circulatória cursa com hipertensão e congestão, não com hipotensão e hemoglobinúria. Reação alérgica leve produz urticária sem hemólise. A lesão pulmonar relacionada à transfusão cursa com hipoxemia e infiltrado bilateral, sem hemoglobinúria e dor lombar.
Homem, 60 anos, internado na UTI, recebe transfusão de plasma e, 4 horas após, evolui com dispneia e hipoxemia. Exame: FR 34 ipm, SatO2 84% em máscara, PA 118/72 mmHg, FC 108 bpm, sem turgência jugular, sem edema periférico, ausculta com estertores difusos bilaterais. Radiografia com infiltrado alveolar bilateral difuso. Ecocardiograma com função ventricular preservada. Peptídeo natriurético normal e balanço hídrico equilibrado nas últimas 24 horas. Qual a hipótese diagnóstica e a conduta?
Hipoxemia com infiltrado bilateral surgindo em até 6 horas após transfusão, sem sinais de hipervolemia, com função ventricular preservada e peptídeo natriurético normal, caracteriza lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão, cujo tratamento é de suporte ventilatório, com notificação ao serviço de hemoterapia e evitação de diurético como terapia principal, já que não há sobrecarga. A sobrecarga circulatória cursa com hipertensão, turgência jugular e peptídeo natriurético elevado. Reação hemolítica tardia cursa com queda de hemoglobina e icterícia dias após a transfusão. Embolia pulmonar não produz infiltrado alveolar difuso bilateral. Pneumonia associada à ventilação não explica o início abrupto poucas horas após a transfusão.
Homem, 68 anos, internado na UTI por sepse, apresenta anemia progressiva sem sangramento identificado, com hemoglobina caindo de 11,8 para 8,4 g/dL em 6 dias. Exame: sem melena, sem hematúria, sem hematomas, endoscopia não realizada. Ferritina 480 ng/mL; saturação de transferrina 18%; reticulócitos baixos; PCR muito elevada; creatinina 1,1 mg/dL; vitamina B12 e folato normais. Foram realizadas coletas diárias de múltiplos exames laboratoriais desde a admissão. Qual a principal explicação e a conduta?
A anemia da doença crítica decorre de inflamação com bloqueio do ferro, produção reduzida de eritropoetina e resposta medular diminuída, sendo agravada pelas flebotomias diagnósticas repetidas, e a conduta é reduzir coletas desnecessárias, usar tubos de menor volume e adotar estratégia transfusional restritiva. Ferritina elevada com saturação de transferrina limítrofe em contexto inflamatório não caracteriza ferropenia clássica, e ferro em dose alta na fase aguda tem benefício incerto. Hemólise autoimune exigiria reticulocitose e Coombs positivo. A anemia megaloblástica está afastada pelos níveis normais de vitaminas. Transfusão liberal com alvo acima de 10 g/dL não melhora desfechos e aumenta riscos.
Mulher, 71 anos, internada na UTI, apresenta piora respiratória e hemodinâmica após transfusão de plaquetas. Exame: T 38,8 °C, calafrios, PA 108/66 mmHg, FC 112 bpm, SatO2 94%, sem urticária, sem hipotensão significativa, sem hemoglobinúria e sem dor lombar. A transfusão foi interrompida ao surgimento dos sintomas. Hemoglobina estável, sem sinais de hemólise nos exames coletados imediatamente após o evento e sem alterações radiológicas novas. Qual a hipótese diagnóstica mais provável?
Febre com calafrios durante ou logo após a transfusão, sem hemólise, sem hipotensão significativa, sem hipoxemia com infiltrado e sem manifestações alérgicas, caracteriza reação febril não hemolítica, a mais comum das reações transfusionais, atribuída a citocinas e a anticorpos contra leucócitos do doador. Reação hemolítica aguda cursaria com dor lombar, hemoglobinúria, hipotensão e sinais de hemólise. A lesão pulmonar relacionada à transfusão cursaria com hipoxemia acentuada e infiltrado bilateral. A sobrecarga circulatória cursaria com hipertensão, dispneia e congestão. A anafilaxia por deficiência de IgA cursa com urticária, broncoespasmo e hipotensão grave, manifestações ausentes.
Homem, 56 anos, durante transfusão de concentrado de hemácias, apresenta elevação térmica de 1,5 °C, calafrios e desconforto, sem hipotensão, dor lombar, urina escura ou sangramento no sítio de punção. PA 128/78 mmHg, FC 96 bpm, T 38,2 °C. Teste de Coombs direto negativo, sem hemólise laboratorial e com verificação da compatibilidade confirmando a identificação correta da bolsa e do paciente. Qual o diagnóstico mais provável?
Elevação térmica com calafrios sem hipotensão, hemólise ou disfunção orgânica, com compatibilidade confirmada e Coombs negativo, caracteriza reação febril não hemolítica, causada por citocinas e anticorpos contra leucócitos. A reação hemolítica aguda cursaria com dor lombar, hemoglobinúria, Coombs positivo e instabilidade. A contaminação bacteriana produziria febre alta com choque e hemoculturas positivas. A lesão pulmonar relacionada à transfusão cursaria com hipoxemia e infiltrado bilateral. A sobrecarga circulatória apresentaria congestão pulmonar com hipertensão e turgência jugular.
Mulher, 62 anos, durante transfusão de plasma fresco congelado, apresenta dispneia súbita e hipoxemia. PA 96/58 mmHg, FC 118 bpm, FR 32 ipm, SatO2 84% em ar ambiente. Radiografia mostra infiltrado bilateral difuso, sem cardiomegalia ou turgência jugular. Peptídeo natriurético normal e ecocardiograma com função preservada, com quadro instalado cerca de 2 horas após o início da transfusão. Qual o diagnóstico mais provável?
Hipoxemia com infiltrado bilateral surgindo em até 6 horas da transfusão, sem sinais de sobrecarga volêmica e com função cardíaca preservada, caracteriza lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão. A sobrecarga circulatória cursaria com hipertensão, turgência jugular e peptídeo natriurético elevado. A reação anafilática apresentaria urticária, angioedema e broncoespasmo com hipotensão precoce. A embolia pulmonar cursaria com sobrecarga de câmaras direitas e defeito de enchimento à angiotomografia. A pneumonia bacteriana teria evolução mais lenta com febre e infiltrado focal.
Menino, 8 anos, em transfusão de concentrado de hemácias por anemia sintomática, apresenta, aos 10 minutos de infusão, dor lombar intensa, agitação, calafrios e urina escurecida. Exame: PA 78/44 mmHg, FC 156 bpm, FR 32 ipm, T 38,9 °C, extremidades frias. A bolsa foi checada e havia divergência de identificação entre a etiqueta e a pulseira do paciente. Hemoglobinúria evidente na sonda vesical instalada. Qual a conduta imediata?
Dor lombar, febre, hipotensão e hemoglobinúria no início da transfusão, com erro de identificação documentado, caracterizam reação hemolítica aguda por incompatibilidade ABO, exigindo interrupção imediata, suporte hemodinâmico, hidratação vigorosa para preservar a função renal e reenvio de amostras ao banco de sangue. Reduzir a velocidade e administrar antitérmico é conduta de reação febril não hemolítica, que não cursa com hipotensão e hemoglobinúria. Administrar anti-histamínico e retomar corresponde à reação alérgica leve e perpetuaria a hemólise. Completar a bolsa com furosemida agrava a hemólise e a lesão renal. Manter a infusão sob suspeita de sepse ignora o erro de identificação e a hemólise em curso.
Menina, 10 anos, com leucemia em quimioterapia, recebe concentrado de hemácias e, após 40 minutos de infusão, apresenta calafrios e elevação térmica de 37,0 °C para 38,3 °C. Nega dor lombar, dispneia ou prurido. Exame: PA 108/66 mmHg, FC 110 bpm, FR 22 ipm, SatO2 98%, sem urticária, sem estertores pulmonares, urina de aspecto normal. É a quarta transfusão que recebe nos últimos 3 meses. Qual a hipótese e a conduta?
Elevação térmica de pelo menos 1 °C com calafrios, sem hipotensão, hemoglobinúria ou sintomas respiratórios, em paciente politransfundido, caracteriza reação febril não hemolítica por citocinas e anticorpos antileucocitários, tratada com interrupção da transfusão, antitérmico e uso de hemocomponentes desleucocitados nas próximas transfusões. A reação hemolítica aguda cursaria com dor lombar, hipotensão e hemoglobinúria. A reação anafilática apresentaria urticária, broncoespasmo e hipotensão de instalação rápida. A sobrecarga circulatória produziria dispneia, estertores e hipertensão. A contaminação bacteriana provocaria febre alta com toxemia e choque, quadro muito mais grave que o descrito.
Adolescente de 14 anos recebe plasma fresco congelado e, cinco minutos após o início, apresenta urticária generalizada, edema de lábios, estridor e dispneia. Exame: PA 74/40 mmHg, FC 148 bpm, FR 34 ipm, SatO2 89% em ar ambiente. Já apresentou reações urticariformes leves em duas transfusões anteriores. Dosagens prévias revelavam IgA sérica indetectável, com demais imunoglobulinas normais e sem infecções de repetição. Qual o mecanismo mais provável desta reação?
Deficiência seletiva de IgA permite a formação de anticorpos anti-IgA, que reagem com a IgA presente no plasma do doador e desencadeiam anafilaxia, sendo a conduta preventiva o uso de hemocomponentes lavados ou provenientes de doadores também deficientes em IgA. A incompatibilidade ABO produz hemólise com dor lombar e hemoglobinúria, e não urticária com estridor. Anticorpos do doador contra antígenos leucocitários explicam a lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão, que cursa com hipoxemia e infiltrado bilateral, sem urticária. A sobrecarga de volume produz congestão com hipertensão. As citocinas acumuladas na estocagem estão associadas à reação febril não hemolítica.
Menino, 12 anos, com anemia crônica, recebe concentrado de hemácias e, duas horas após o início, apresenta dispneia intensa. Exame: PA 92/50 mmHg, FC 140 bpm, FR 40 ipm, T 38,5 °C, SatO2 84% em ar ambiente, estertores crepitantes difusos, sem turgência jugular e sem edema de membros. Radiografia com infiltrado alveolar bilateral e área cardíaca normal; ecocardiograma sem disfunção ventricular; balanço hídrico equilibrado. Qual a principal hipótese diagnóstica?
Hipoxemia grave com infiltrado bilateral nas primeiras seis horas de transfusão, sem hipertensão, turgência jugular ou disfunção ventricular, caracteriza lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão, mediada por anticorpos do doador contra antígenos leucocitários, cujo tratamento é de suporte ventilatório. A sobrecarga circulatória cursaria com hipertensão, turgência jugular, aumento da área cardíaca e resposta a diurético. A reação febril não hemolítica não provoca infiltrado pulmonar nem hipoxemia grave. A embolia pulmonar raramente produz infiltrado alveolar bilateral e não guarda relação temporal com a transfusão. A pneumonia bacteriana tem instalação mais arrastada e infiltrado habitualmente focal.
Menina, 5 anos, em condicionamento para transplante de células-tronco hematopoéticas por leucemia, necessitará de suporte transfusional frequente nas próximas semanas. A equipe discute com a família quais modificações dos hemocomponentes serão adotadas e por quê, considerando o estado de imunossupressão profunda e o histórico de duas reações febris em transfusões anteriores realizadas durante a quimioterapia de indução. Assinale a alternativa INCORRETA sobre as modificações dos hemocomponentes.
Afirmar que a irradiação substitui a desleucocitação é incorreto: a irradiação inativa linfócitos viáveis capazes de causar doença do enxerto contra o hospedeiro, enquanto a desleucocitação remove leucócitos e reduz reações febris, aloimunização e transmissão de citomegalovírus, sendo finalidades distintas e frequentemente combinadas. A prevenção da doença do enxerto contra o hospedeiro transfusional em imunossuprimidos é a indicação clássica da irradiação. A redução das reações febris de repetição é benefício reconhecido da desleucocitação. A menor transmissão de citomegalovírus também decorre da retirada dos leucócitos. A lavagem, que remove proteínas plasmáticas, é indicada nas reações alérgicas graves e recorrentes.
Menino, 4 anos, pesando 15 kg, é internado com anemia sintomática. Apresenta palidez importante, taquicardia e fadiga aos mínimos esforços, sem sangramento ativo e sem sinais de insuficiência cardíaca. Exame: PA 96/58 mmHg, FC 142 bpm, FR 26 ipm, SatO2 98%, T 36,6 °C. Hemoglobina 5,4 g/dL (VR 11,0–14,0); hematócrito 16%; plaquetas e leucócitos normais. A equipe indica transfusão de concentrado de hemácias. Qual o volume adequado e o incremento esperado?
A dose habitual de concentrado de hemácias na criança é de 10 a 15 mL/kg, o que corresponde a cerca de 150 mL neste paciente de 15 kg, com elevação esperada de aproximadamente 2 a 3 g/dL de hemoglobina, infundidos em cerca de duas a quatro horas. Um volume de 450 mL equivale a 30 mL/kg e expõe a criança à sobrecarga circulatória. Trinta mililitros correspondem a 2 mL/kg, dose insuficiente para qualquer incremento clinicamente relevante. Seiscentos mililitros representam 40 mL/kg, volume claramente excessivo e perigoso. Quinze mililitros, ou 1 mL/kg, não produziriam elevação de 3 g/dL, valor incompatível com a dose proposta.
Menina, 13 anos, com anemia falciforme e histórico de oito transfusões, recebe nova bolsa de concentrado de hemácias durante internação por síndrome torácica. Sete dias depois apresenta icterícia, urina escura e queda da hemoglobina de 9,2 para 6,0 g/dL, abaixo do valor pré-transfusional. Reticulócitos elevados, LDH aumentada, teste de Coombs direto positivo e pesquisa de novo aloanticorpo eritrocitário positiva. Qual o diagnóstico?
Queda da hemoglobina abaixo do nível pré-transfusional entre cinco e dez dias após a transfusão, com hemólise, Coombs direto positivo e novo aloanticorpo detectado, define a reação hemolítica tardia por aloimunização, complicação frequente em politransfundidos e prevenida por fenotipagem eritrocitária estendida. A reação aguda por incompatibilidade ABO ocorre em minutos, com choque e hemoglobinúria imediata. A crise aplástica pelo parvovírus B19 cursa com reticulocitopenia, e os reticulócitos estão elevados. O sequestro esplênico agudo exige esplenomegalia dolorosa de rápida instalação, ausente na descrição. A anemia hemolítica autoimune primária não se relaciona temporalmente com a transfusão nem revela novo aloanticorpo específico.
Homem, 71 anos, em uso de clopidogrel após angioplastia, sofreu queda com trauma craniano há três horas. Chega com Glasgow 14, PA 146/86 mmHg, FC 78 bpm. Tomografia mostra hematoma intraparenquimatoso frontal de 12 mL sem desvio de linha média. Plaquetas de 210.000/mm3 (VR 150.000–450.000) e INR de 1,0 (VR até 1,2), sem outras alterações de coagulação identificadas. Qual a conduta indicada quanto à transfusão de plaquetas?
Ensaios clínicos mostraram que a transfusão rotineira de plaquetas em hemorragia intracraniana associada a antiagregantes não melhora e pode piorar o desfecho, de modo que a conduta é suspender a droga e reservar a transfusão a situações de neurocirurgia iminente. Transfundir rotineiramente contraria essa evidência. Indicar dez unidades independentemente da contagem é excessivo e sem respaldo. Manter o clopidogrel diante de sangramento intracraniano ativo é conduta indefensável. A vitamina K atua sobre antagonistas da vitamina K e não reverte o bloqueio irreversível do receptor plaquetário.
Homem, 40 anos, recebendo a segunda unidade de concentrado de hemácias por trauma. Após 15 minutos de infusão apresenta dor lombar, febre de 39 °C, calafrios, hipotensão com PA 84/50 mmHg e urina avermelhada. Já apresentava PA 118/74 mmHg antes da transfusão. Foi identificado erro de identificação da bolsa, entregue para outro paciente da mesma unidade de emergência. Qual a conduta imediata?
Dor lombar, febre, calafrios, hipotensão e hemoglobinúria durante a transfusão configuram reação hemolítica aguda por incompatibilidade ABO, e a conduta imediata é interromper a infusão, manter acesso com salina, hidratar vigorosamente para proteger o rim e notificar a hemovigilância. Reduzir a velocidade e completar a unidade mantém a hemólise em curso. Anti-histamínico e corticoide tratam reação alérgica, não hemólise por incompatibilidade. Trocar o equipo mantendo a mesma bolsa perpetua o erro. Aguardar trinta minutos com antipirético retarda a proteção renal e agrava o quadro.
Homem, 45 anos, recebe transfusão de concentrado de hemácias no pós-operatório. Cinco minutos após o início da infusão apresenta calafrios, dor lombar intensa, dispneia e urina de coloração escura. PA 84x50 mmHg, FC 130 bpm, T 39,0 graus Celsius. A transfusão foi interrompida. Desidrogenase láctica elevada, haptoglobina reduzida e bilirrubina indireta aumentada, com teste de Coombs direto positivo. Qual a hipótese e a conduta prioritária?
A reação hemolítica aguda é a hipótese, sustentada por dor lombar, hipotensão, febre, hemoglobinúria e marcadores de hemólise com Coombs direto positivo logo após o início da infusão, sendo prioritárias a interrupção definitiva e a hidratação vigorosa para preservar a função renal. A reação febril não hemolítica cursa apenas com febre e calafrios, sem hemólise, e jamais se retoma a bolsa suspeita. A reação alérgica leve manifesta-se por urticária, sem hipotensão e hemoglobinúria. A sobrecarga circulatória cursa com dispneia e hipertensão, sem hemólise. A contaminação bacteriana exigiria antibiótico e suporte, não apenas antitérmico e observação.
Mulher, 58 anos, recebe plasma fresco congelado no pós-operatório e, 2 horas após o início da infusão, desenvolve dispneia intensa. PA 92x54 mmHg, FC 118 bpm, FR 34 ipm, T 38,2 °C, SatO2 84% em ar ambiente. Estertores difusos bilaterais, sem turgência jugular ou terceira bulha. Radiografia com infiltrado alveolar bilateral e área cardíaca normal. Peptídeo natriurético cerebral normal. Sobre o caso, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que elege o diurético como tratamento de escolha: na lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão o edema é não cardiogênico e o manejo é de suporte, com oxigenoterapia e ventilação, ao contrário da sobrecarga circulatória, em que o diurético é central. É correto identificar a lesão pulmonar transfusional como hipótese principal, pelo início em até seis horas com hipoxemia e infiltrado bilateral. Também é verdadeiro que a hipotensão aponta para essa entidade, enquanto a sobrecarga cursa com hipertensão. O peptídeo natriurético normal reforça a origem não cardiogênica. E o suporte ventilatório é de fato a base do tratamento.
Mulher, 56 anos, inicia transfusão de concentrado de hemácias e, após 10 minutos, refere dor lombar intensa, calafrios e sensação de morte iminente. PA 84x48 mmHg, FC 128 bpm, T 38,8 °C, com urina avermelhada na sonda vesical. Exames colhidos: hemoglobina livre no plasma elevada; bilirrubina indireta em elevação; Coombs direto positivo após a transfusão; desidrogenase láctica elevada. Qual a conduta imediata?
A reação hemolítica transfusional aguda, com dor lombar, febre, hipotensão e hemoglobinúria, exige interrupção imediata da transfusão e hidratação venosa vigorosa para preservar a função renal, além de comunicação ao serviço de hemoterapia e reidentificação da bolsa e do paciente. Reduzir a velocidade e completar a unidade mantém a exposição ao antígeno incompatível. O anti-histamínico trata reação alérgica leve, quadro distinto. O corticoide não permite reiniciar uma transfusão incompatível. O diurético de alça não deve preceder a expansão volêmica, sob risco de agravar a hipoperfusão renal.
Homem, 58 anos, no primeiro dia de pós-operatório de gastrectomia, sem sangramento ativo, apresenta hemoglobina de 7,4 g/dL. Exame: PA 122x74 mmHg, FC 88 bpm, FR 18 ipm, SatO2 96% em ar ambiente, extremidades quentes, diurese adequada, sem dor torácica, sem dispneia e sem alteração do nível de consciência. Antecedente de hipertensão arterial, sem doença coronariana conhecida. Qual a conduta correta quanto à transfusão?
A estratégia restritiva, com gatilho em torno de 7 g/dL em pacientes estáveis e sem doença coronariana aguda, mostrou-se pelo menos tão segura quanto a liberal e reduz exposição a riscos transfusionais, de modo que paciente hemodinamicamente estável, bem perfundido e assintomático com hemoglobina de 7,4 g/dL não tem indicação de transfusão neste momento. Transfundir quatro unidades de imediato é conduta excessiva e potencialmente lesiva. O plasma fresco congelado corrige coagulopatia documentada, não anemia. Adotar gatilho de 10 g/dL reproduz a prática liberal já superada pela evidência. O concentrado de plaquetas é indicado em plaquetopenia ou disfunção plaquetária com sangramento, situações não descritas.
Mulher, 47 anos, recebe concentrado de hemácias no intraoperatório e, após 15 minutos de infusão, apresenta hipotensão, taquicardia, febre, dor lombar e urina escurecida. Exame: PA 78x46 mmHg, FC 132 bpm, T 38,9 °C, sangramento difuso pelos pontos de punção e no campo cirúrgico. Hemoglobinúria confirmada; plaquetas em queda, fibrinogênio reduzido e teste de antiglobulina direta positivo. Qual a principal hipótese diagnóstica e a conduta imediata?
Febre, hipotensão, dor lombar, hemoglobinúria, sangramento difuso por coagulação intravascular disseminada e teste de antiglobulina direta positivo logo após o início da transfusão caracterizam reação hemolítica aguda por incompatibilidade ABO, e a conduta imediata é interromper a transfusão, manter acesso com cristaloide, suporte hemodinâmico, proteção renal com diurese adequada, tratamento da coagulopatia e comunicação ao serviço de hemoterapia. A reação febril não hemolítica cursa apenas com febre e calafrios, sem hemólise. A sobrecarga circulatória produz dispneia, hipertensão e congestão, e não hipotensão com hemoglobinúria. A reação alérgica leve manifesta-se com urticária e prurido. A contaminação bacteriana causa febre alta e choque, mas não hemoglobinúria com antiglobulina direta positiva.
Serviço de oncologia pediátrica revisa protocolos de suporte transfusional para crianças em quimioterapia intensiva e candidatas a transplante de células-tronco, discutindo indicações de hemocomponentes, uso de produtos modificados e prevenção de complicações transfusionais nessa população imunossuprimida. Sobre esse tema, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação de que a irradiação é dispensável em imunossuprimidos é incorreta e responde à questão, pois nesses pacientes os linfócitos do doador podem enxertar e causar doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão, complicação de altíssima mortalidade. O benefício da leucorredução em reduzir reações febris e aloimunização está corretamente descrito. A prevenção da doença do enxerto contra o hospedeiro pela irradiação é justamente a indicação principal do procedimento. A indicação de plaquetas por limiar e risco de sangramento é correta. Considerar a sorologia para citomegalovírus na escolha do componente também é conduta adequada.
Mulher, 46 anos, em quimioterapia por leucemia aguda, encontra-se afebril, sem sangramento e clinicamente estável. PA 118x74 mmHg, FC 84 bpm, T 36,6 °C. Não há procedimento invasivo programado para as próximas 48 horas. Exames: plaquetas 12.000 por milímetro cúbico; hemoglobina 8,4 g/dL; leucócitos 900 com 200 neutrófilos; coagulograma sem alterações; sem uso de anticoagulantes. Sobre o suporte transfusional, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que condiciona a transfusão de plaquetas à existência de sangramento: em paciente com leucemia aguda e plaquetopenia induzida por quimioterapia, existe indicação profilática, com limiar habitual de dez mil por milímetro cúbico. É correto que esse é o limiar profilático usual. Também é verdadeiro que os hemocomponentes devem ser irradiados em pacientes gravemente imunossuprimidos, para prevenir doença do enxerto contra o hospedeiro transfusional. A estratégia restritiva de transfusão de hemácias em paciente estável é a recomendada. E a leucorredução de fato reduz reações febris e aloimunização.
Homem, 58 anos, internado por hemorragia digestiva já controlada endoscopicamente há 12 horas, encontra-se estável e sem sangramento ativo. PA 124x78 mmHg, FC 82 bpm, FR 16 ipm, sem dispneia, dor torácica ou alteração do nível de consciência. Exames: hemoglobina 7,4 g/dL; plaquetas 220.000 por milímetro cúbico; razão normalizada internacional de 1,1; creatinina normal; sem cardiopatia isquêmica conhecida. Qual a conduta transfusional?
A estratégia transfusional restritiva recomenda transfundir uma unidade por vez, com reavaliação clínica e laboratorial subsequente, sendo o limiar de 7 g/dL adequado para paciente estável sem cardiopatia isquêmica. Transfundir quatro unidades para atingir dez gramas é prática liberal, associada a pior desfecho na hemorragia digestiva. O plasma fresco congelado é desnecessário com razão normalizada internacional de 1,1. Estabelecer limiar rígido de seis gramas em qualquer situação ignora a avaliação clínica individualizada. A transfusão profilática de plaquetas não se justifica com contagem de 220.000.
Mulher, 45 anos, com queimadura de 42% da superfície corporal, no décimo dia de internação, após dois desbridamentos cirúrgicos. Encontra-se estável, sem sangramento ativo, sem dispneia ou dor torácica. PA 118x72 mmHg, FC 96 bpm, T 37,2 °C. Exames: hemoglobina 7,6 g/dL; plaquetas 280.000 por milímetro cúbico; ferritina elevada; saturação de transferrina baixa; sem cardiopatia isquêmica conhecida. Sobre a conduta transfusional, assinale a alternativa correta.
A anemia do grande queimado tem origem multifatorial, com perdas cirúrgicas, coletas repetidas e bloqueio inflamatório da eritropoiese, e as evidências apoiam estratégia transfusional restritiva, com limiar próximo de sete gramas por decilitro em paciente estável sem cardiopatia isquêmica. Manter acima de dez gramas expõe a riscos transfusionais sem benefício. A eritropoietina não demonstrou reduzir transfusões de forma consistente nesse cenário. O ferro endovenoso não corrige rapidamente a anemia da inflamação, com ferritina já elevada. Transfundir por rotina antes de cada procedimento é prática liberal injustificada.
Mulher, 47 anos, em sangramento cirúrgico difuso durante laparotomia por trauma hepático, recebeu hemácias e plasma. Exame: PA 96x58 mmHg, FC 118 bpm, sangramento persistente em superfícies cruentas. Exames de controle: plaquetas de 110.000/mm³, RNI de 1,4, tempo de tromboplastina parcial ativada discretamente alargado e fibrinogênio de 80 mg/dL, com sangramento microvascular difuso mantido no campo operatório. Qual a conduta mais adequada?
Fibrinogênio de 80 mg/dL, muito abaixo do alvo de pelo menos 150 a 200 mg/dL em sangramento ativo, é causa importante de sangramento microvascular difuso, e a correção se faz com crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio, que repõe de forma mais eficiente do que o plasma. Transfundir mais plaquetas com contagem de 110.000/mm³ não corrige o déficit predominante. Concentrado de hemácias restaura capacidade de transporte de oxigênio, mas não a hemostasia. A protamina reverte heparina, e não há indicação de anticoagulante em uso nesse contexto. Suspender a reposição e aguardar hemostasia espontânea em sangramento difuso com hipofibrinogenemia grave leva à exsanguinação.
Homem, 59 anos, com leucemia em quimioterapia, apresenta apendicite aguda com indicação cirúrgica. Exame: T 38,2 °C, FC 108 bpm, PA 112x68 mmHg, dor e defesa em fossa ilíaca direita, sem sangramento ativo, sem petéquias. Plaquetas de 22.000/mm³; RNI de 1,1; fibrinogênio normal; hemoglobina de 9,4 g/dL. Neutrófilos de 800/mm³, com previsão de recuperação medular em alguns dias. Qual a conduta mais adequada?
Cirurgia de grande porte ou de cavidade em paciente com plaquetas de 22.000/mm³ exige transfusão profilática para atingir contagem considerada segura, habitualmente acima de 50.000/mm³, e a apendicite aguda não permite adiamento, devendo-se operar após a transfusão e associar antibioticoterapia adequada ao contexto de neutropenia. Operar sem transfusão com essa contagem expõe a sangramento significativo. Adiar até a recuperação medular arrisca perfuração e peritonite em paciente imunossuprimido. O plasma fresco congelado corrige deficiência de fatores, e o RNI está normal. O corticoide em dose alta é tratamento da trombocitopenia imune, mecanismo distinto da aplasia por quimioterapia, e não eleva plaquetas em tempo hábil.
Mulher, 62 anos, multípara, recebeu duas unidades de concentrado de hemácias durante cirurgia de revascularização miocárdica. No sétimo dia de pós-operatório, surgem petéquias generalizadas, equimoses extensas e epistaxe. Exame: PA 128/76 mmHg, FC 88 bpm, sem febre e sem sinais de sepse. Plaquetas 6.000/mm³ (VR 150.000–450.000), com valor de 210.000/mm³ no pré-operatório; hemoglobina 10,2 g/dL (VR 12–16); RNI 1,1; fibrinogênio normal. Qual a hipótese?
Trombocitopenia profunda e sangramento surgindo cerca de uma semana após transfusão em mulher multípara, com coagulação normal e sem sepse, caracteriza púrpura pós-transfusional, mediada por aloanticorpo antiplaquetário, mais frequentemente anti-HPA-1a, em paciente previamente sensibilizada por gestações. A trombocitopenia induzida por heparina raramente produz plaquetas de 6.000/mm³ e cursa com trombose, não com sangramento. A coagulação intravascular disseminada alteraria RNI e fibrinogênio, ambos normais. A pseudotrombocitopenia é artefato laboratorial e não cursa com petéquias e epistaxe reais. A trombocitopenia dilucional ocorreria no intraoperatório ou logo após, e não no sétimo dia com plaquetas previamente normais.
Mulher, 31 anos, apresenta hemorragia pós-parto por atonia uterina com perda estimada de 2.500 mL. Recebeu cristaloides e quatro unidades de concentrado de hemácias. Exame: PA 88/52 mmHg, FC 128 bpm, sangramento em toalha pelos sítios de punção. Fibrinogênio 92 mg/dL (VR 200–400); plaquetas 96.000/mm³ (VR 150.000–450.000); RNI 1,6; tempo de tromboplastina parcial ativada de 44 segundos (VR 25–35). Qual o hemocomponente prioritário neste momento?
Na hemorragia obstétrica maciça com fibrinogênio de 92 mg/dL, a reposição prioritária é o crioprecipitado ou o concentrado de fibrinogênio, pois valores abaixo de 150 a 200 mg/dL se associam de forma independente à progressão do sangramento nesse cenário. O concentrado de plaquetas é indicado em contagens mais baixas ou sangramento refratário, e 96.000/mm³ não é o fator limitante agora. A albumina expande volume, mas não corrige coagulopatia. Mais concentrado de hemácias melhora o transporte de oxigênio, sem repor fibrinogênio, e pode até diluí-lo. O complexo protrombínico contém fatores dependentes de vitamina K e não fibrinogênio, portanto não corrige a hipofibrinogenemia.
Homem, 58 anos, internado em quimioterapia para leucemia mieloide aguda, encontra-se no nadir medular. Está afebril, sem sangramento ativo, sem petéquias e sem procedimentos invasivos programados. Exame: PA 122/74 mmHg, FC 78 bpm, mucosas sem sangramento, sem hematomas. Plaquetas 12.000/mm³ (VR 150.000–450.000); hemoglobina 8,6 g/dL (VR 13,5–17,5); RNI 1,0; fibrinogênio normal. Acerca do suporte transfusional plaquetário, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que estabelece 100.000/mm³ como limiar profilático geral: esse patamar se reserva a situações específicas, como neurocirurgia ou procedimento oftalmológico, e adotá-lo como regra levaria a transfusões excessivas, aloimunização e refratariedade. Indicar transfusão profilática abaixo de 10.000/mm³ em paciente hipoproliferativo é a recomendação padrão. Elevar o limiar diante de febre, sepse ou anticoagulação concomitante está correto, pois esses fatores aumentam o risco hemorrágico. Adotar limiar mais alto antes de procedimentos invasivos também é correto e varia conforme o procedimento. Investigar refratariedade quando o incremento é insuficiente é conduta apropriada e distingue causas imunes de não imunes.
Homem, 44 anos, no vigésimo dia após transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas, necessita de transfusão de concentrado de hemácias por hemoglobina de 7,0 g/dL (VR 13,5–17,5). Está em uso de imunossupressor para profilaxia de doença do enxerto contra o hospedeiro. Exame: palidez, sem sangramento ativo, sem febre, PA 118/72 mmHg, FC 96 bpm. Plaquetas 42.000/mm³ (VR 150.000–450.000). Qual o cuidado obrigatório com o hemocomponente?
A irradiação de hemocomponentes celulares inativa os linfócitos T do doador e é obrigatória em receptores de transplante de células-tronco hematopoéticas, prevenindo a doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão, complicação rara e de altíssima letalidade. A lavagem remove proteínas plasmáticas e é indicada em reações alérgicas graves ou deficiência de IgA, sem inativar linfócitos. O aquecimento previne hipotermia em transfusão maciça e não tem qualquer efeito imunológico. Exigir sangue autólogo é inviável em paciente pancitopênico e não é o padrão de prevenção. Compatibilizar fenótipo com o doador do transplante não substitui a irradiação, que atua sobre os linfócitos viáveis presentes na bolsa.
Mulher, 52 anos, com anemia aplásica em programa transfusional crônico, apresentou três episódios de calafrios e febre de até 38,7 °C durante transfusões de concentrado de hemácias nos últimos 4 meses, sem hemólise em nenhum deles. Está sendo avaliada para transplante alogênico de células-tronco. Exame: sem sinais de infecção, PA 120/74 mmHg. Hemoglobina 7,4 g/dL (VR 12–16); teste de antiglobulina direta negativo; pesquisa de anticorpos irregulares negativa. Qual a medida indicada?
A leucorredução remove leucócitos do doador e reduz reações febris não hemolíticas, aloimunização HLA e transmissão de citomegalovírus, sendo especialmente importante em paciente politransfundida e candidata a transplante alogênico, em que a aloimunização compromete o suporte plaquetário futuro. A irradiação previne a doença do enxerto contra o hospedeiro transfusional, não a reação febril. Interromper o programa transfusional é inviável em anemia aplásica, e a eritropoetina tem eficácia limitada nessa doença. Corticoide pré-transfusional é medida sintomática que não previne aloimunização. Sangue total fresco não é prática transfusional atual e não resolve o mecanismo leucocitário da reação.
Homem, 61 anos, recebe a segunda unidade de concentrado de hemácias por anemia sintomática. Após 40 minutos de infusão, apresenta calafrios e elevação da temperatura de 36,6 para 38,4 °C, sem dor lombar, sem hipotensão e sem alteração da cor da urina. Exame: PA 126/78 mmHg, FC 96 bpm, SatO2 97%, sem urticária, sem broncoespasmo. A transfusão foi interrompida. Teste de antiglobulina direta pós-transfusional negativo; hemoglobina plasmática livre normal. Qual o diagnóstico?
Elevação térmica de pelo menos 1 °C com calafrios durante a transfusão, sem hipotensão, dor lombar, hemoglobinúria ou hemólise laboratorial, caracteriza reação febril não hemolítica, mediada por citocinas acumuladas na bolsa e por anticorpos do receptor contra leucócitos do doador. A reação hemolítica aguda cursaria com dor lombar, hipotensão, hemoglobinúria e teste de antiglobulina direta positivo. A reação alérgica se manifesta com urticária, angioedema ou broncoespasmo, ausentes aqui. A contaminação bacteriana costuma cursar com febre alta, hipotensão e choque de instalação rápida. A sobrecarga circulatória produz dispneia, hipertensão e congestão pulmonar, não febre com calafrios.
Mulher, 28 anos, recebe plasma fresco congelado no intraoperatório. Cerca de 10 minutos após o início da infusão, apresenta urticária generalizada, sibilância, edema de lábios e queda pressórica. Exame: PA 74/40 mmHg, FC 138 bpm, SatO2 89%, broncoespasmo difuso. Nega transfusões prévias, mas relata duas gestações. A transfusão foi suspensa e a paciente recebeu adrenalina, com melhora. Investigação posterior mostra IgA sérica indetectável, com IgG e IgM normais. Qual a conduta em transfusões futuras?
Anafilaxia transfusional em paciente com deficiência seletiva de IgA decorre de anticorpos anti-IgA que reagem à IgA presente no plasma do doador; a prevenção correta é usar hemocomponentes lavados, que removem o plasma residual, ou obtidos de doadores também deficientes em IgA. A irradiação previne doença do enxerto contra o hospedeiro e não interfere nas proteínas plasmáticas. A pré-medicação isolada não previne anafilaxia por esse mecanismo. Restringir-se a concentrado de hemácias não elimina o risco, pois há plasma residual na bolsa, o que justifica a lavagem. Contraindicar toda transfusão de forma permanente é inviável e desnecessário, já que existem estratégias seguras.
Mulher, 82 anos, com insuficiência cardíaca e doença renal crônica, recebe duas unidades de concentrado de hemácias em 2 horas por hemoglobina de 6,8 g/dL (VR 12–16). Ao final da segunda unidade, apresenta dispneia intensa e ortopneia. Exame: PA 178/96 mmHg, FC 112 bpm, FR 32 ipm, SatO2 86% em ar ambiente, estase jugular, estertores crepitantes difusos, terceira bulha audível. Radiografia com congestão pulmonar bilateral e área cardíaca aumentada. T 36,7 °C. Qual o diagnóstico?
Dispneia com hipertensão arterial, estase jugular, terceira bulha e congestão pulmonar ao final de transfusão rápida em idosa cardiopata e nefropata caracteriza sobrecarga circulatória associada à transfusão, cujo tratamento é oxigênio, posicionamento e diurético, além de transfundir lentamente e em unidades isoladas. A lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão cursa com hipotensão, febre e infiltrado sem sinais de congestão cardíaca. A reação hemolítica aguda apresentaria febre, dor lombar e hemoglobinúria. A contaminação bacteriana produziria febre alta e hipotensão, e a paciente está afebril e hipertensa. A reação anafilática cursaria com urticária, angioedema e hipotensão, quadro distinto do apresentado.
Homem, 55 anos, internado por pneumonia comunitária, evolui com anemia sem sangramento aparente. Está hemodinamicamente estável, sem dor torácica, sem dispneia em repouso e sem doença coronariana conhecida. Exame: PA 124/76 mmHg, FC 84 bpm, FR 18 ipm, SatO2 95% em ar ambiente, ausculta cardíaca sem sopros. Hemoglobina 7,6 g/dL (VR 13,5–17,5); ferritina 320 ng/mL (VR 15–300); RNI 1,0; plaquetas normais. Qual a conduta transfusional?
A estratégia restritiva, com limiar em torno de 7 g/dL em pacientes estáveis e sem doença cardiovascular aguda, tem desfechos iguais ou melhores que a liberal, com menos exposição a riscos transfusionais; com hemoglobina de 7,6 g/dL e ausência de sintomas, o correto é não transfundir e investigar a causa. Transfundir duas unidades buscando 10 g/dL corresponde à estratégia liberal, abandonada por ausência de benefício. Transfundir diariamente até 9 g/dL repete o mesmo excesso. A eritropoetina não tem papel no manejo agudo da anemia da inflamação hospitalar. Estabelecer 5 g/dL como limiar único ignora que sintomas e comorbidades também indicam transfusão, mesmo com valores mais altos.
Homem, 64 anos, será submetido a cirurgia eletiva de aneurisma de aorta abdominal, com perda sanguínea estimada elevada. Não tem anemia, com hemoglobina de 14,2 g/dL (VR 13,5–17,5), e não apresenta infecção ativa nem neoplasia conhecida. Exame: PA 138/82 mmHg, FC 72 bpm, sem alterações relevantes. RNI 1,0; plaquetas 232.000/mm³ (VR 150.000–450.000). A equipe discute estratégias de economia de sangue para o procedimento programado. Qual a estratégia mais adequada?
A recuperação intraoperatória, com aspiração, lavagem e reinfusão das hemácias do próprio paciente, é estratégia consagrada de economia de sangue em cirurgias com perda volumosa prevista, como a correção de aneurisma de aorta abdominal, e evita exposição a sangue alogênico. Transfundir profilaticamente antes da incisão em paciente sem anemia expõe a riscos sem benefício. Hemodiluição até hemoglobina de 5 g/dL é conduta perigosa e não corresponde à hemodiluição normovolêmica aceitável. Plasma fresco congelado profilático em paciente com coagulação normal não reduz sangramento e aumenta o risco de sobrecarga e lesão pulmonar. Adiar a cirurgia para usar eritropoetina em paciente sem anemia não faz sentido clínico e retarda o tratamento do aneurisma.
Homem, 74 anos, com mielodisplasia de alto risco em cuidados paliativos exclusivos, encontra-se acamado, com capacidade funcional muito reduzida e expectativa de vida estimada em semanas. Apresenta dispneia aos mínimos esforços e fadiga incapacitante. Hemoglobina 6,4 g/dL (VR 13,5–17,5); plaquetas 18.000/mm³ (VR 150.000–450.000), sem sangramento ativo. A família pergunta se ainda faz sentido transfundir. Qual a orientação mais adequada?
Em cuidados paliativos, a transfusão de hemácias pode ser oferecida quando há benefício sintomático claro, como alívio de dispneia e fadiga, com reavaliação da resposta a cada episódio para evitar intervenções fúteis. Suspender toda transfusão como regra ignora que o objetivo paliativo inclui controle de sintomas. Manter calendário fixo independentemente dos sintomas transforma a transfusão em rotina desvinculada do benefício. Transfundir plaquetas profilaticamente todos os dias sem sangramento não melhora sintomas e impõe deslocamentos e punções desnecessários. Encaminhar para transplante é incompatível com a capacidade funcional e o prognóstico descritos.
Mulher, 62 anos, recebeu concentrado de hemácias há 40 minutos e apresenta febre de 39,2 °C, calafrios intensos, dor lombar e hipotensão. PA 84x50 mmHg, FC 128 bpm. A bolsa transfundida apresenta coloração escurecida na inspeção. Hemoglobina livre no plasma elevada; coagulograma com alargamento e queda de fibrinogênio. Qual a conduta imediata?
Febre alta com calafrios, dor lombar, hipotensão, hemoglobina livre e coagulopatia durante a transfusão indicam reação hemolítica aguda, possivelmente somada a contaminação bacteriana da bolsa, sugerida pela coloração escurecida; a conduta é interromper imediatamente a transfusão, manter acesso com cristaloide, coletar amostras e culturas e notificar a hemovigilância. Reduzir a velocidade e completar a transfusão é conduta perigosa em reação grave. A anafilaxia cursa com broncoespasmo e urticária, sem hemólise e dor lombar. Manter a transfusão em curso com antibiótico não interrompe a exposição ao hemocomponente. A furosemida trataria sobrecarga circulatória, que cursa com congestão e hipertensão, não com hemólise.
Homem, 44 anos, politransfundido por talassemia, necessita de nova transfusão. O serviço de hemoterapia informa pesquisa de anticorpos irregulares positiva, com identificação de dois aloanticorpos dirigidos a antígenos de alta frequência, e dificuldade para encontrar unidades compatíveis. Está estável, com hemoglobina de 7,8 g/dL (VR 13,5–17,5), sem sangramento, sem dispneia em repouso e sem dor precordial. PA 122/76 mmHg, FC 88 bpm. Qual a conduta?
Diante de aloimunização com anticorpos contra antígenos de alta frequência em paciente estável e sem sinais de descompensação, a conduta é acionar a busca de unidades fenotipicamente compatíveis, inclusive em bancos de sangue raro, adiando a transfusão enquanto o quadro permitir. Transfundir qualquer unidade ignora o risco de reação hemolítica aguda ou tardia, que é real e potencialmente grave. A plasmaférese não é estratégia de rotina para permitir transfusão incompatível eletiva. Corticoide em dose alta não elimina aloanticorpos já formados de modo confiável. Suspender o programa transfusional na talassemia dependente de transfusão é inviável, e a eritropoetina não substitui a transfusão nessa doença.
Menino de 8 anos, com anemia falciforme e programa transfusional crônico iniciado há 2 anos por vasculopatia cerebral, apresentou duas reações hemolíticas tardias e desenvolveu dois aloanticorpos eritrocitários. Cada nova transfusão tem exigido mais tempo para localizar unidades compatíveis. Está estável, com hemoglobina pré-transfusional de 8,2 g/dL (VR 11–14). O serviço discute estratégias para reduzir novas aloimunizações no seguimento. Qual a medida mais adequada?
A prevenção da aloimunização em politransfundidos, especialmente na doença falciforme, se faz pelo fornecimento de unidades com fenotipagem eritrocitária estendida compatível, no mínimo para os sistemas Rh e Kell, reduzindo a formação de novos anticorpos e as reações hemolíticas tardias. Reduzir a frequência das transfusões compromete a profilaxia de acidente vascular cerebral, que é a indicação do programa. A irradiação previne doença do enxerto contra o hospedeiro transfusional, não aloimunização eritrocitária. Corticoide pré-transfusional não impede a formação de aloanticorpos. A eritropoetina tem eficácia limitada na doença falciforme e não substitui o programa transfusional com finalidade de profilaxia neurológica.
Qual dado aumenta a plausibilidade de sobrecarga de volume em A?

Indica acúmulo de líquido prévio relevante.
Por que administrar diurético automaticamente aos dois pacientes seria inadequado?

Diurese pode ajudar na sobrecarga de A, mas não é terapia universal de todo edema pulmonar transfusional.
Qual achado de A apoia congestão venosa sistêmica?

É compatível com elevação das pressões venosas.
Qual comparação é mais coerente com os achados hemodinâmicos?

Hipertensão, balanço positivo e enchimento elevado apoiam TACO; B exige considerar TRALI e outros diagnósticos.
Qual medida inicial é comum aos dois cenários de reação respiratória durante transfusão?

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Recite os três patamares de plaquetas na falência medular (10.000, 20.000 e 50.000/µL, com 100.000/µL para neurocirurgia e oftalmologia) e a lista dos quadros em que a contagem não indica transfusão: púrpura trombocitopênica imune, púrpura trombocitopênica trombótica, plaquetopenia induzida por heparina, dengue, leptospirose e riquetsioses. Depois escreva de memória as três faixas de hemoglobina do concentrado de hemácias e o quanto uma unidade eleva Hb e Ht.
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Monte a tabela das reações imediatas de cabeça, em duas colunas: as que cursam com febre (hemolítica aguda, febril não hemolítica, contaminação bacteriana) e as que cursam com dispneia (TRALI e sobrecarga circulatória), com a janela temporal e o critério que separa cada par. Em seguida, liste as regras operacionais que a norma fixa — 72 horas da amostra, dez minutos ao lado do paciente, quatro horas de infusão, termo de responsabilidade na emergência — e diga, para cada uma, se o Anexo IV-B de 2026 manteve ou mudou.
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Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Você é o plantonista da enfermaria de clínica médica. Um homem de 64 anos, internado há três dias por hemorragia digestiva alta, começou a receber a segunda unidade de concentrado de hemácias há vinte minutos. A enfermeira chama: o paciente está com calafrios, refere dor lombar e a pressão caiu de 130/80 para 92/58 mmHg. A urina na bolsa coletora está escurecida. Conduza a partir da beira do leito. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
