Clínica MédicaHematologia e Hemoterapia

Doença falciforme e hemoglobinopatias no adulto

Anemia falciforme e hemoglobinopatias

Uma troca de aminoácido, duas vias de dano — e um punhado de números que a prova cobra fechados: a hora da primeira analgesia, as duas horas do déficit neurológico, o alvo de HbS e os cortes do rastreio que só começam na vida adulta.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 24 anos com doença falciforme HbSC chega à emergência às 14h20 com disartria e força grau 3 em membro superior direito, iniciadas por volta das 13h30. Não é hipertensa nem diabética, não fuma e não usa contraceptivo combinado. Pressão 128 por 78 mmHg, glicemia capilar 104 mg/dL, saturação 97% em ar ambiente. Hemoglobina 10,2 g/dL e hematócrito 31%. A tomografia de crânio sem contraste, realizada às 14h55, não evidencia hemorragia. O hemocentro informa que a máquina de aférese só estará disponível em cerca de quatro horas. A conduta mais adequada é:

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Como esse tema cai

Este é o capítulo do adulto. A criança com doença falciforme já foi entregue ao sistema pelo teste do pezinho, já atravessou os cinco anos de penicilina e já fez oito Dopplers transcranianos — e tudo isso está nos capítulos de hematologia pediátrica, que trazem as letras da triagem, o esquema de profilaxia por peso e a régua de febre em menor de 3 anos. A aritmética de cabeceira da crise álgica, dose a dose e mililitro a mililitro, está no capítulo do Internato sobre a crise, a febre e as síndromes que matam. Repetir qualquer uma dessas três coisas aqui seria desperdiçar a página.

O que sobra é justamente o que a prova de residência cobra do sexto-anista e do formado: o adulto que chega ao pronto-socorro com 9 de 10 e um relógio correndo; o adulto que perde força no braço e tem duas horas, não quatro e meia; o adulto que já acumulou aloanticorpos e volta transfundido com a hemoglobina abaixo do valor pré-transfusional; o adulto cuja função renal cai e que agora tem uma indicação nova no SUS; e o adulto que aparece com microcitose e uma eletroforese que precisa separar traço falciforme, talassemia beta menor e falta de ferro. Três medidas de rigor separam este capítulo dos anteriores: número com intervalo de confiança quando existe, força e certeza da recomendação quando ela vem de diretriz, e a régua nomeada quando dois documentos discordam.

Há um ganho de fundo em ler o tema por aqui. A doença falciforme é a única condição deste volume em que o protocolo nacional delega a analgesia a outro protocolo, publica duas fórmulas de volume transfusional das quais uma quebra em hematócritos comuns, e imprime uma tabela de toxicidade cujas faixas deixam quatro intervalos de valores sem categoria. Ler o documento com a calculadora ao lado não é preciosismo acadêmico: é o que separa quem sabe o número de quem sabe de onde ele veio — e quem sabe de onde ele veio acerta a alternativa quando a banca troca a unidade.

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O que muda decisão

As formas, e o que a eletroforese entrega quando o paciente chega adulto

A mutação é uma só e está descrita em uma linha do protocolo: substituição do ácido glutâmico pela valina na sexta posição da cadeia beta da globina, Glu6Val, dando origem à hemoglobina S. Em baixa oxigenação e baixo pH a HbS polimeriza, torna-se insolúvel e transforma o disco bicôncavo em foice. Doença falciforme é o nome do grupo; anemia falciforme designa apenas o homozigoto HbSS, que é a forma mais comum e a mais grave.

O adulto que nunca passou por triagem neonatal chega pelo hemograma e pela eletroforese, e é aqui que a leitura muda de natureza: no recém-nascido a triagem entrega letras em ordem de quantidade; no adulto o que decide é a proporção. O Quadro 2 do protocolo organiza os genótipos pelo perfil de hemoglobinas presentes. HbSS e HbSbeta0 mostram o mesmo trio — S, F e A2, sem HbA nenhuma — e é por isso que a eletroforese sozinha não separa as duas: o protocolo pede quantificação de HbA2 e de HbF, análise familiar de pai, mãe e irmãos e, quando as técnicas tradicionais não fecham, o teste molecular. A HbSbeta+ é a que se denuncia: além de S, F e A2 aparece HbA entre 1% e 30%, e a gravidade acompanha essa fração, indo de leve a grave, em geral menos grave que a HbSS. A HbSC responde por 25% a 30% dos casos de doença falciforme em população de origem africana. A HbSD Punjab, também chamada Los Angeles, é a variante D clinicamente mais grave. A HbS associada à persistência hereditária de hemoglobina fetal é geralmente assintomática. E o traço, HbAS, tem HbA acima de 60% — o protocolo o descreve como geralmente assintomático e registra, com todas as letras, que não caracteriza anemia.

O método recomendado para confirmação é a eletroforese por focalização isoelétrica (IEF) ou a cromatografia líquida de alta resolução (HPLC); feito o diagnóstico por uma delas, não é preciso repetir. A eletroforese convencional em gel de agarose ou acetato de celulose permanece aceita para adultos, e resultados inconclusivos numa técnica podem ser reavaliados na outra. Dois códigos organizam o pedido na tabela do SUS: 02.02.02.035-5 para a eletroforese de hemoglobina, que engloba isofocalização, agarose, acetato de celulose e HPLC, e 02.02.11.002-8 para a detecção molecular de mutação em hemoglobinopatias, que não é obrigatória e entra apenas quando as metodologias tradicionais não fecham o genótipo. O protocolo acrescenta ainda a identificação da variante de alfa-talassemia e dos haplótipos associados ao gene da HbS, porque ambos modulam gravidade.

Dois números de população fecham a seção e valem ponto. No Brasil, estima-se que 4% tenham o traço falciforme, proporção que sobe para 6% a 10% no Norte e no Nordeste; o Programa Nacional de Triagem Neonatal diagnosticou 5.428 recém-nascidos com doença falciforme entre 2014 e 2018. O protocolo é explícito sobre por que o tema ficou invisível: a doença chegou ao país por pessoas escravizadas trazidas da África, manifesta-se sobretudo na população negra e foi negligenciada por racismo estrutural e institucional. Isso não é enfeite de introdução — é a razão pela qual a recomendação de reconhecer determinantes sociais está dentro da seção de diagnóstico, e não num anexo.

Uma frase de fisiopatologia, e duas vias que explicam o resto do capítulo

O protocolo descreve o mecanismo num parágrafo só, e vale lê-lo devagar porque ele contém as duas metades da doença. Hemácias falcizadas são rígidas, sofrem alterações de membrana e podem se romper, levando à hemólise intravascular e à anemia hemolítica crônica. Além disso, os eritrócitos falciformes expressam maior quantidade de moléculas de adesão, promovendo interação entre células endoteliais, leucócitos e plaquetas; somadas a alterações endoteliais, vasculopatia proliferativa e hipercoagulabilidade, essas interações respondem pelos episódios de vaso-oclusão, pelas dores agudas e pelo dano a diversos órgãos.

Ler as complicações separadas por essas duas vias resolve boa parte das questões de associação. Do lado da vaso-oclusão ficam os eventos que dependem de obstrução: dor óssea, síndrome torácica aguda, sequestro, necrose avascular, retinopatia. Do lado da hemólise ficam os que dependem de vasculopatia e de consumo de óxido nítrico: hipertensão pulmonar, priapismo, úlcera de perna, nefropatia. Um detalhe do próprio protocolo confirma o desenho: a retinopatia proliferativa é mais comum na HbSC do que nos outros genótipos, ao contrário do padrão de gravidade de todas as demais complicações — porque a HbSC mantém hematócrito e viscosidade mais altos, e viscosidade é moeda da via esquerda, não da direita.

O rim merece parágrafo próprio porque fecha um ciclo e porque é o que mata o adulto. As alterações renais começam na primeira década. Os capilares da medula renal têm pH e pressão de oxigênio reduzidos, condições ideais para falcização e oclusão microvascular; o resultado é hiperfiltração glomerular e hipostenúria, a incapacidade de concentrar a urina. O paciente urina muito mesmo sem beber, desidrata com facilidade, e a desidratação desencadeia a crise seguinte. Acrescente-se proteinúria e alteração da síntese de eritropoietina, renina e prostaglandina renais. O protocolo registra o desfecho sem rodeios: a falência renal pode levar à hemodiálise e ao transplante, e é causa frequente de óbito em pacientes com idade acima de 40 anos.

Um número de calibragem para a crise: os episódios vaso-oclusivos duram tipicamente 4 a 6 dias, mas podem persistir por semanas. Quem espera resolução em 24 horas conclui que a dose está errada quando ela apenas ainda não terminou o trabalho. E os desencadeantes que o protocolo lista são todos evitáveis ou anunciáveis: exposição ao frio ou ao ar-condicionado, mudança brusca de temperatura, infecção e febre, desidratação, período menstrual, gravidez e fatores psicológicos. A dor vaso-oclusiva que começa junto com a menstruação tem tratamento próprio no texto do protocolo — terapia hormonal ou anti-inflamatório —, e é um recorte que a banca gosta porque parece ginecologia e é hematologia.

Esquema em duas colunas partindo da mesma hemácia falcizada: à esquerda a via da vaso-oclusão, com adesão ao endotélio, leucócitos e plaquetas, levando a dor óssea, síndrome torácica, sequestro e necrose avascular; à direita a via da hemólise, com hemoglobina livre consumindo óxido nítrico, levando a hipertensão pulmonar, priapismo, úlcera de perna e doença renal.
A mesma polimerização produz dois modos de adoecer. Genótipos que mantêm hematócrito mais alto, como a HbSC, pesam para o lado esquerdo — daí a retinopatia proliferativa ser mais comum neles. Genótipos com hemólise intensa pesam para o lado direito.

Crise vaso-oclusiva no adulto: o relógio de uma hora, o degrau e o que não entra na prescrição

A régua brasileira da analgesia tem um endereço e uma lacuna. O PCDT da Doença Falciforme diz que pacientes podem receber opioides fortes quando não responderem a analgésicos, anti-inflamatórios e opioides fracos, que o uso de analgésico com dose fixa em intervalos específicos é fundamental no controle da dor da crise, que a escolha se baseia na intensidade medida por escala — e remete o resto ao PCDT da Dor Crônica vigente. Aquele protocolo é construído sobre dor de três meses ou mais; a crise vaso-oclusiva aguda fica fora do seu critério de inclusão. A régua que de fato descreve a primeira hora do adulto na emergência é a diretriz de dor da Sociedade Americana de Hematologia, e é dela que saem os números abaixo.

O número central é a Recomendação 1a, e é preciso reparar na sua força: para adultos e crianças com dor aguda da doença falciforme em serviço de urgência, o painel recomenda — recomendação forte, ainda que sobre certeza baixa — avaliação e administração de analgesia em até 1 hora da chegada ao pronto-socorro, com reavaliações a cada 30 a 60 minutos. Recomendação forte sobre certeza baixa é uma combinação rara e diz exatamente o que se pretende: o painel não tem ensaio grande, mas considera o benefício líquido inequívoco. A observação que acompanha é operacional e resolve o argumento do acesso venoso difícil: vias não intravenosas, como a subcutânea e a intranasal, aceleram a primeira dose. Quem segura a analgesia esperando punção não está sendo cuidadoso.

A dose não sai de tabela. A Recomendação 1b sugere dose de opioide individualizada pelo uso basal do paciente e pelo que já funcionou nele — para adultos, recomendação condicional sobre certeza moderada, a mais alta certeza de qualquer recomendação de dor desse documento. O paciente que chega dizendo o nome e a dose do opioide que funciona está entregando o dado de maior certeza disponível. O plano de cuidado individualizado, construído com o centro de referência e registrado no prontuário eletrônico, é o instrumento que a diretriz nomeia para isso.

Três adjuvantes e duas proibições organizam o resto da prescrição. O anti-inflamatório entra somado ao opioide por curso curto de 5 a 7 dias (condicional, certeza muito baixa), com avaliação individual de risco renal, vascular e gastrointestinal — e o risco renal não é teórico num paciente cuja medula renal já está isquêmica. A cetamina em infusão subanestésica é sugerida como adjuvante para dor refratária no paciente internado, começando em 0,1 a 0,3 mg/kg por hora, com máximo de 1 mg/kg por hora. A anestesia regional, peridural ou cateter de nervo periférico, é sugerida para dor localizada refratária. Do lado das proibições: o painel sugere contra o uso de corticoide para dor aguda (condicional, certeza baixa), e a razão é a que mais custa caro — a exposição sistêmica, e particularmente a retirada do corticoide, associa-se a dor de rebote; se o corticoide for necessário por outra indicação, como asma, a decisão deve ser tomada com quem cuida da doença falciforme. A diretriz de transfusão do mesmo ano repete o alerta por outro caminho, ao lembrar que o desmame do corticoide usado na hiper-hemólise deve ser cuidadoso para não precipitar um episódio vaso-oclusivo.

E o mito. Correr soro para 'diluir o sangue' é a conduta mais transmitida e a menos sustentada. O painel americano tomou a decisão de não emitir recomendação a favor nem contra fluidos intravenosos somados ao tratamento farmacológico da dor aguda — e a não-recomendação cobre explicitamente tanto a infusão em bolus quanto a infusão de manutenção, e tanto salina isotônica quanto meio-isotônica. Duas ressalvas completam o quadro: o risco de dano com fluidos pode ser maior no adulto que na criança, por déficits de função cardiopulmonar e comorbidades; e nada disso impede repor volume em quem está desidratado de forma clinicamente significativa. O protocolo brasileiro chega ao mesmo lugar por outro caminho ao determinar, na síndrome torácica aguda, que a volemia seja mantida normal, evitando hidratação excessiva e bolus de rotina pelo risco de induzir edema pulmonar.

Duas medidas baratas fecham a prescrição do adulto internado. A espirometria de incentivo com 10 respirações máximas a cada duas horas enquanto acordado, em paciente hospitalizado por dor vaso-oclusiva, associou-se a taxa de síndrome torácica aguda de 5% contra 42% sem espirometria — uma redução absoluta de 37 pontos percentuais, o que corresponde a tratar cerca de 3 pacientes para evitar um episódio. É o melhor número de custo-benefício do capítulo inteiro e é item de prescrição, não de fisioterapia opcional. A segunda medida é de organização: a diretriz americana sugere hospitais-dia e centros de infusão específicos para doença falciforme em vez do pronto-socorro comum (condicional, certeza baixa), assumindo que esses serviços tenham cobertura de time de parada disponível.

As síndromes que matam, relidas no corpo adulto

Síndrome torácica aguda. A definição é radiológica com companhia clínica: infiltrado pulmonar recente e não atelectásico ao raio X, acompanhado de um ou mais entre dor torácica intensa, tosse, febre, sintomas respiratórios e hipoxemia. Exige internação de urgência, e saturação abaixo de 93% sinaliza encaminhamento à terapia intensiva. O oxigênio suplementar mira saturação igual ou acima de 93%, ou dentro de 3% da saturação basal do paciente. Transfusão simples entra quando a queda da hemoglobina em relação à basal é igual ou maior que 1,5 g/dL, e pode não ser necessária com hemoglobina igual ou acima de 9 g/dL; em progressão rápida com piora respiratória, considera-se troca ou simples de urgência. Depois da recuperação, programa de transfusão de troca por no mínimo 6 meses. A diretriz americana refina a escolha da modalidade e é isso que o nível de residência cobra: na síndrome torácica grave, sugere-se troca — automatizada ou manual — em vez de transfusão simples; na moderada, qualquer das três serve, e a troca deve ser considerada quando o quadro é rapidamente progressivo, quando não há resposta à transfusão simples, ou quando a hemoglobina pré-transfusional já é alta demais para permitir transfusão simples.

Sequestro esplênico e hepático. O sequestro é o represamento maciço e súbito de sangue falcizado, com palidez intensa, prostração, aumento rápido do baço, dor abdominal, hipovolemia e choque. Ocorre em até 30% das crianças pequenas e é a manifestação de apresentação em até 20% dos pacientes em geral; recorre em até 50% de quem teve o primeiro episódio, e a esplenectomia é frequentemente usada após o primeiro evento agudo, realizada depois dos 5 anos. No adulto o raciocínio anatômico se inverte em relação ao que se aprendeu na pediatria: o adulto HbSS já fez autoesplenectomia e não sequestra no baço; quem sequestra é o adulto que conservou o baço, isto é, HbSC e HbSbeta-talassemia. O protocolo registra explicitamente que alguns genótipos cursam com o baço aumentado e lista, entre as indicações de transfusão simples, o sequestro hepático ou esplênico agudo — a variante hepática é a que aparece com mais frequência no adulto e é a que se perde por não ser procurada.

Acidente vascular cerebral e ataque isquêmico transitório. Aqui está a recomendação de maior certeza de todo o conjunto, e ela vale para adultos: diante de déficit neurológico agudo, incluindo ataque isquêmico transitório, a transfusão deve ser dada imediatamente ao reconhecimento dos sintomas, sem atraso além de 2 horas da apresentação — recomendação forte sobre certeza alta. O tipo de transfusão depende do paciente e do recurso local. A preferência é pela troca; quando a troca não estiver disponível dentro dessas 2 horas e a hemoglobina for igual ou menor que 8,5 g/dL, a transfusão simples pode ser feita para não atrasar o tratamento, enquanto se planeja a troca manual ou a aférese. O protocolo brasileiro converge, listando AVC e infarto cerebral agudo e AIT entre as indicações de troca, e o AVC agudo entre as de transfusão simples quando a troca não estiver disponível.

O trombolítico é o ponto em que o adulto se separa da criança de vez. Para adultos com sintomas de AVC isquêmico agudo sendo avaliados para alteplase — 18 anos ou mais, sem hemorragia na tomografia, dentro de 4,5 horas e sem contraindicações —, a diretriz sugere decisão compartilhada seguindo princípios explícitos: a administração do trombolítico não deve atrasar a transfusão simples ou de troca; o paciente pode ser considerado para alteplase pelos critérios habituais dos algoritmos de AVC; fatores que sugerem benefício provável são idade mais avançada, fibrilação atrial, diabetes, hipertensão e dislipidemia, ou seja, o perfil de quem teve um AVC aterotrombótico comum que por acaso tem doença falciforme; e no paciente jovem sem esses fatores o manejo deve enfatizar a transfusão precoce. O documento fecha registrando que não se recomenda alteplase intravenosa para crianças com doença falciforme, abaixo de 18 anos.

Priapismo. Ereção involuntária, prolongada e dolorosa por vaso-oclusão nos corpos cavernosos, sem relação com atividade sexual; o protocolo registra que é frequentemente subdiagnosticado e que episódios prolongados levam a necrose tecidual, fibrose e disfunção erétil. Nas primeiras 2 horas a conduta é hidratação, banhos e compressas mornas, caminhada, esvaziamento da bexiga e analgesia. Acima de 2 a 4 horas é emergência médica: encaminhamento, hospitalização, esvaziamento vesical com cateter, hidratação, analgesia intravenosa, avaliação do urologista e contato com o centro de referência. Se o procedimento urológico não produzir detumescência, entra a transfusão de troca. E o protocolo é categórico num ponto que a prova gosta: a analgesia adequada não deve ser suspensa enquanto se aguarda a consulta urológica ou o resultado de exames.

Crise aplástica. O protocolo nomeia a crise aplástica entre as manifestações agudas e lista a crise de aplasia de medula com pancitopenia entre as indicações de transfusão simples; o agente e a faixa etária típica estão no Manual de eventos agudos do Ministério e aparecem detalhados no capítulo do Internato. O que decide à beira do leito é um número do hemograma e não a história: as duas causas de queda abrupta de hemoglobina são sequestro e aplasia, e o que as separa é o reticulócito — alto no sequestro, porque a medula continua produzindo, e baixo na aplasia. O tamanho do baço confirma. Trocar as duas troca expansão volêmica urgente por observação e transfusão programada, ou o contrário.

Asplenia funcional: por que o adulto continua sob risco depois que a penicilina acaba

A asplenia funcional é consequência das crises vaso-oclusivas repetidas que comprometem o baço, e é ela que explica o perfil de mortalidade infecciosa: o Streptococcus pneumoniae responde por 70% das infecções nessa população, o risco de meningite pneumocócica é estimado em 600 vezes o da população geral, a frequência de bacteremia em 300 vezes o esperado para a idade, e 90% dos casos ocorrem nos três primeiros anos de vida. Infecções são mais frequentes e graves abaixo dos 5 anos e podem levar à morte em menos de 24 horas.

A profilaxia antimicrobiana com penicilina V vai do diagnóstico até os 5 anos de idade, e o esquema por peso está no capítulo pediátrico. O ponto que o adulto herda é outro e costuma passar batido: o protocolo lista os grupos que devem ter a profilaxia priorizada por maior risco de infecção grave, e nessa lista, ao lado das crianças com asplenia ou hiposplenismo até os 16 anos, estão os adultos acima de 50 anos, os pacientes imunocomprometidos e aqueles com histórico de sepse por bactéria encapsulada. Para quem passa por esplenectomia acima dos 5 anos e não tem características de alto risco, a maioria dos especialistas considera um a dois anos de profilaxia diária suficientes, com decisão individualizada. Penicilina e amoxicilina são os agentes preferidos; cefalosporinas, fluoroquinolonas e macrolídeos são as alternativas.

A vacinação segue o calendário nacional acrescido, pelo Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais, da pneumocócica conjugada 13-valente e da polissacarídica 23-valente após os 2 anos, com reforço em 3 a 5 anos, pela indicação de asplenia anatômica ou funcional e outras condições associadas a disfunção esplênica, incluindo as hemoglobinopatias. Influenza é anual, em todas as idades, e a vacina contra covid-19 está indicada sem restrições. Duas notas fecham o assunto: a asplenia por si só não contraindica vacina alguma, inclusive as de vírus vivo, e não há evidência de vaccínia em paciente em uso de hidroxiureia; e o calendário do CRIE por faixa etária, onde ele diverge do texto do PCDT, está discutido no capítulo do Internato.

Na febre do adulto o esquema básico do protocolo é penicilina G cristalina de 1.000.000 a 5.000.000 UI/dia por via intravenosa de 6 em 6 horas, com dose máxima declarada de 24.000.000 UI/dia, e o esquema alternativo é ceftriaxona de 1 a 2 g por dose, intravenosa, de 12 em 12 horas, com máximo de 4 g/dia. A faixa da penicilina cristalina não fecha com o próprio teto — 24 milhões é 4,8 vezes o topo dos 5 milhões declarados — e a incoerência aritmética dessa tabela está detalhada no capítulo do Internato; a linha operacionalmente segura no adulto é a da ceftriaxona, que cabe em duas tomadas e cobre pneumococo com sensibilidade reduzida à penicilina. Diante de sinal respiratório ou infiltrado, associa-se macrolídeo; em meningite, ceftriaxona em dose de sistema nervoso central por no mínimo 10 dias; em osteomielite, antibiótico intravenoso por 4 a 6 semanas cobrindo Staphylococcus aureus e Salmonella, associação que é peculiar da doença falciforme.

Hidroxiureia e alfaepoetina: o que o SUS entrega ao adulto, e com que freio

A hidroxiureia inibe a ribonucleotídeo redutase e produz quatro efeitos que o protocolo enumera: aumento da hemoglobina fetal, aumento da hidratação do glóbulo vermelho, aumento da taxa hemoglobínica e da produção de óxido nítrico, e redução da hemólise e da expressão de moléculas de adesão. Os números de desfecho são os que a banca cobra: redução de 40% no risco de óbito e redução de cerca de 50% nas necessidades transfusionais e no número de episódios de síndrome torácica aguda. Uma observação de 9 anos levou Steinberg e colaboradores a concluir que o medicamento pode ser usado indefinidamente por quem dele necessita.

Os critérios de entrada mudaram e são hoje de genótipo e idade, não de contagem de crises: HbSS, HbSbeta0, HbSbeta+ grave e HbSD Punjab a partir dos 9 meses; HbSC, HbSD e HbSbeta-talassemia a partir dos 2 anos. A dose inicial é 15 mg/kg/dia por via oral em tomada única, com aumento de 5 mg/kg/dia a cada 4 semanas até o teto de 35 mg/kg/dia ou até toxicidade. As exclusões de quem é virgem de tratamento e a tabela de toxicidade estão detalhadas no capítulo pediátrico; o que o adulto acrescenta é o ajuste renal — 50% da dose com depuração de creatinina entre 10 e 50 mL/min, 20% abaixo de 10 mL/min, administração após o procedimento em hemodiálise — e uma janela de decisão que só existe na vida adulta: cerca de 25% dos pacientes não apresentam resposta satisfatória, e essa é a condição que pode determinar, a critério médico, a suspensão do tratamento após 2 anos de uso.

A apresentação importa mais no adulto do que parece. A Rename traz hidroxiureia em comprimido de 100 mg e cápsula de 500 mg, ambas no Componente Especializado. Um adulto de 70 kg no teto de 35 mg/kg/dia deveria receber 2.450 mg/dia: cinco cápsulas de 500 mg dão 2.500 mg, o que corresponde a 35,7 mg/kg/dia e ultrapassa o teto; quatro cápsulas de 500 mg somadas a quatro comprimidos de 100 mg dão 2.400 mg, ou 34,3 mg/kg/dia, e cabem dentro dele. O comprimido de 100 mg foi incorporado pensando na criança, mas é ele que permite ao adulto pesado chegar à dose máxima tolerada sem passar do teto.

O monitoramento tem calendário próprio. Hemograma com plaquetas, reticulócitos e VCM a cada 2 semanas até a dose de manutenção e a cada 12 semanas depois; hemoglobina fetal a cada 8 a 12 semanas até a manutenção e a cada 6 meses depois; creatinina e transaminases a cada 4 semanas até a manutenção e a cada 12 semanas depois. Três precauções da vida adulta: a hidroxiureia deve ser descontinuada cerca de 3 meses antes da concepção, e mulheres em idade fértil precisam de contracepção — o método recomendado disponível no SUS é o acetato de medroxiprogesterona 150 mg intramuscular trimestral, preferindo-se progestágeno isolado ao combinado pelo menor risco de trombose, com densitometria óssea antes e a cada dois anos; o HIV não contraindica o uso, e sorologia positiva para hepatite B ou C permite o uso desde que a função hepática seja monitorada mensalmente; e a macrocitose induzida pelo medicamento pode mascarar o desenvolvimento de deficiência de ácido fólico. Uma armadilha laboratorial fecha: quem usa hidroxiureia pode apresentar elevação de creatinina, ureia, ácido úrico e glicemia séricas, e o protocolo orienta repetir o teste por método diferente antes de aceitar o resultado como verdadeiro.

A novidade de 2024, e a única terapia deste protocolo com restrição etária de adulto, é a alfaepoetina. A doença renal crônica, que se manifesta inicialmente por proteinúria, é frequente na HbSS e na HbSbeta0 e causa anemia por déficit relativo de eritropoietina endógena — níveis abaixo do esperado para o nível de hemoglobina. Entram no tratamento pacientes com 18 anos ou mais, com HbSS ou HbSbeta0, em uso de hidroxiureia, e que necessitem de mais de três concentrados de hemácias por ano para manter a hemoglobina igual ou acima de 8,5 g/dL, ou que apresentem redução igual ou maior que 1,5 g/dL da hemoglobina basal; entra também quem tem síndrome de hiper-hemólise. A dose é 12.000 UI por semana, divididas em três aplicações de 4.000 UI, subcutâneas ou intravenosas — e a Rename lista justamente a apresentação de 4.000 UI, de modo que cada aplicação cabe em um frasco. O hemograma é monitorado 1 a 2 vezes por mês até estabilizar, depois mensalmente por seis meses e trimestralmente. O critério de parada é temporal e objetivo: suspende-se se, após 6 meses, não houver diminuição da necessidade transfusional para atingir hemoglobina igual ou acima de 8,5 g/dL ou aumento igual ou maior que 1,5 g/dL sobre a basal.

Fora do SUS, e por isso mesmo cobrável como pegadinha, está o crizanlizumabe, anticorpo anti-P-selectina avaliado no mesmo processo que gerou este protocolo. No estudo sustain, na dose de 5 mg/kg contra placebo, a mediana da taxa anual de crises vaso-oclusivas foi de 1,63 contra 2,98 (redução de 45,3%, p = 0,01), a das crises não complicadas 1,08 contra 2,91 (redução de 62,9%, p = 0,02) e o tempo até a primeira crise 4,07 contra 1,38 meses (HR 0,50; IC 95% 0,33 a 0,74; p = 0,001). Os dois desfechos que não se sustentaram são os que decidem: dias de internação por ano, 4,00 contra 6,87, sem diferença estatística (p = 0,45), e eventos adversos graves com RR 0,94 (IC 95% 0,53 a 1,67), evidência de certeza baixa por imprecisão muito grave. O medicamento não integra a lista deste protocolo.

Transfusão: as duas contas, os alvos e as três armadilhas

O protocolo publica duas fórmulas. Para a transfusão simples, volume em mL igual a (hematócrito desejado menos hematócrito inicial) vezes a volemia sanguínea, dividido pelo hematócrito do concentrado de hemácias — com volemia igual ao peso em quilos vezes 60 e hematócrito do concentrado de 70%. Vale rodar a conta uma vez para calibrar o reflexo: num adulto de 60 kg, subir o hematócrito de 18% para 24% pede (24 − 18) × 3.600 ÷ 70, isto é, 309 mL — praticamente uma bolsa. Note o que isso implica: com as constantes do próprio protocolo, uma bolsa de 300 mL eleva o hematócrito de um adulto de 60 kg em cerca de 5,8 pontos, o equivalente a quase 2 g/dL de hemoglobina, e não a 1 g/dL da regra de cabeceira — porque a regra clássica assume volemia de 70 mL/kg e bolsa menos concentrada. Num paciente cuja principal armadilha transfusional é subir demais, essa diferença de fator dois é a diferença entre ajudar e produzir hiperviscosidade.

Para a transfusão de troca — eritrocitaférese automatizada ou exsanguineotransfusão parcial manual — o protocolo publica uma fórmula cujo denominador é o hematócrito do concentrado menos a soma do hematócrito inicial com o desejado. A conta funciona nos hematócritos baixos: num adulto de 70 kg, saindo de 24% para 30%, o denominador é 70 − 54 = 16, e o volume é (30 − 24) × 4.200 ÷ 16 = 1.575 mL, cerca de cinco a seis bolsas. Mas a soma de inicial e desejado cresce depressa em quem tem hematócrito alto — e quem tem hematócrito alto é exatamente o paciente HbSC que precisa de troca por priapismo ou por síndrome torácica. Com hematócrito inicial de 34% e alvo de 36%, a soma chega a 70 e o denominador zera; acima disso ele fica negativo e a fórmula devolve volume negativo. A régua adotada aqui é a da diretriz americana, que não publica fórmula fechada e determina que o número de unidades trocadas seja guiado pelas frações de hemoglobina e pelos hematócritos pré e pós-procedimento, com o ganho líquido de hemácias calculado como volemia total do paciente vezes a diferença entre hematócrito pós e pré-procedimento; e que, na ausência de quelação, o balanço de ferro neutro ou negativo se obtém mirando hematócrito final igual ou menor que o inicial.

Os alvos numéricos são poucos e valem decorados. Na prevenção secundária de AVC, o objetivo é manter a hemoglobina acima de 9 g/dL o tempo todo e a HbS abaixo de 30% do total até a transfusão seguinte — recomendação forte. Na prevenção primária de quem tem Doppler alterado, transfusão regular tipicamente a cada 3 a 4 semanas, com o mesmo par de alvos, por pelo menos um ano. Na gestação, quando se opta por transfundir regularmente, o alvo é hemoglobina acima de 7,0 g/dL e pico de HbS (ou S mais C) abaixo de 50%, com o próprio painel registrando que não há evidência sustentando um alvo específico. No pré-operatório de cirurgia sob anestesia geral com mais de 1 hora de duração, sugere-se transfundir, mirando hemoglobina total acima de 9 g/dL, e usar troca em quem já tem hemoglobina alta demais — acima de 9 a 10 g/dL — para permitir transfusão simples.

A primeira armadilha é a aloimunização. Sem fenotipagem para Rh e K, ela ocorre em aproximadamente 30% dos pacientes transfundidos ao menos intermitentemente. Todo paciente deve ser fenotipado para ABO, Rh e Kell ao diagnóstico, e as hemácias transfundidas devem ser compatíveis para Rh e K; se surgirem anticorpos, a fenotipagem é estendida. A diretriz americana vai além e é aqui que está a única recomendação forte de todo o documento de transfusão: compatibilização profilática para Rh (C, E ou C/c, E/e) e K em vez de apenas ABO e RhD, com certeza moderada. O perfil antigênico estendido — no mínimo C/c, E/e, K, Jka/Jkb, Fya/Fyb, M/N e S/s — deve ser obtido na primeira oportunidade, idealmente antes da primeira transfusão, preferindo genotipagem à sorologia; e há uma armadilha de tempo dentro da armadilha: a fenotipagem sorológica é imprecisa se o paciente foi transfundido nos últimos 3 meses.

A segunda armadilha é a reação hemolítica tardia, cuja prevalência na doença falciforme fica entre 5% e 10%, com cerca de metade não diagnosticada. A definição operacional é queda significativa da hemoglobina em até 21 dias após a transfusão, associada a pelo menos um entre: novo aloanticorpo, hemoglobinúria, subida acelerada do percentual de HbS com queda concomitante da HbA, reticulocitopenia relativa ou reticulocitose em relação ao basal, elevação significativa de LDH, e exclusão de causa alternativa. A forma mais grave é a hiper-hemólise, definida como queda rápida da hemoglobina abaixo do nível pré-transfusional com queda rápida da HbA pós-transfusional — o paciente fica pior do que estava antes de receber sangue. Autoanticorpos foram relatados em 7% a 47% dos pacientes com doença falciforme que receberam transfusões. O tratamento inclui hidratação e imunossupressão imediata com prednisona de 1 a 4 mg/kg/dia (ou metilprednisolona equivalente) e imunoglobulina intravenosa de 0,4 a 1 g/kg/dia por três a cinco dias, ou ambos; a diretriz americana ordena as linhas — imunoglobulina e corticoide em dose alta em primeira linha, eculizumabe em segunda, e rituximabe sobretudo para prevenir novos aloanticorpos em quem ainda vai precisar transfundir. E acrescenta o passo que quase se perde: evitar novas transfusões, salvo anemia com risco de vida, e incluir eritropoietina, com ou sem ferro intravenoso, no suporte.

A terceira armadilha é a sobrecarga de ferro, que se acumula com transfusão episódica e não apenas em programa crônico, e cujo tratamento segue o PCDT de Sobrecarga de Ferro. O rastreio muda de instrumento quando o programa é crônico: sugere-se ressonância magnética hepática (R2, T2* ou R2*) a cada 1 a 2 anos em vez de ferritina isolada; e sugere-se contra o rastreio cardíaco de rotina por T2*, reservando-o para quem tem ferro hepático acima de 15 mg/g de peso seco por dois anos ou mais, dano de órgão-alvo ou disfunção cardíaca. Se a ferritina está abaixo de 1.000 ng/mL e o paciente faz troca crônica com balanço de ferro neutro ou negativo, a ressonância hepática provavelmente é dispensável. Duas notas de qualidade do hemocomponente fecham: o sangue deve ser desleucocitado, o concentrado não deve ter células falciformes nem traço falciforme — hemácias as só em situação excepcional de fenótipo raro ou múltiplos anticorpos —, e hemocomponentes irradiados são recomendados para quem é potencialmente elegível a transplante.

O calendário do adulto: cérebro, rim, retina, pulmão e osso

O Doppler transcraniano é exame de criança: anual dos 2 aos 16 anos, e a diretriz americana o recomenda com força para HbSS e HbSbeta0 nessa faixa. O que sobra para o adulto é o cérebro que já foi lesado sem aviso. Na coorte cooperativa com 3.647 pacientes seguidos prospectivamente de 1978 a 1988, aos 40 anos de idade cerca de 20% dos adultos HbSS e cerca de 10% dos HbSC já haviam tido um AVC. Mais frequente que o AVC manifesto é o infarto cerebral silencioso, definido como lesão visível em pelo menos dois planos de ressonância ponderada em T2 e com pelo menos 3 mm na maior dimensão linear, sem achado no exame neurológico: ele ocorre em cerca de 39% das crianças até os 18 anos e em mais de 50% dos adultos até os 30 anos, e é a causa mais comum de lesão neurológica permanente na doença. Daí a conduta que o adulto herda: ressonância de crânio pelo menos uma vez na vida adulta em HbSS e HbSbeta0 para detectar infarto silencioso, e vigilância de comprometimento cognitivo por perguntas simplificadas de rastreio, com encaminhamento formal a psicólogo ou médico capaz de aprofundar a avaliação quando o rastreio vier alterado — as duas recomendações fortes.

O rim tem a periodicidade mais esquecida do protocolo, e é numérica. A triagem com creatinina sérica e exame de urina para proteinúria e albuminúria começa por volta dos 3 a 5 anos de idade; na idade adulta, monitorar 4 a 6 vezes ao ano. Hemodiálise e transplante renal são as opções de quem chega à insuficiência, e o protocolo registra que os inibidores da ECA devem ser utilizados precocemente, podendo reverter, junto com a hidroxiureia, a evolução da doença renal. Na gravidez, os inibidores da ECA saem, junto com a hidroxiureia e os quelantes.

A retina inverte a lógica de gravidade: a retinopatia proliferativa é mais comum na HbSC do que nos demais genótipos. O acompanhamento oftalmológico anual começa aos 10 anos e segue até a idade adulta, e a faixa etária mais acometida é entre 20 e 39 anos — ou seja, o rastreio começa na pediatria mas rende no consultório do clínico.

O pulmão entra por dois exames. A hipertensão arterial pulmonar é frequente e tem sintomas inespecíficos: dispneia crônica, dor torácica, pré-síncope, redução da tolerância ao exercício ou apenas redução das atividades diárias. Em quem não tem sintomas respiratórios, a triagem começa medindo a velocidade de regurgitação do jato tricúspide ao ecocardiograma transtorácico com Doppler, no fim da adolescência ou na idade adulta. O protocolo considera possível hipertensão pulmonar quando a pressão arterial pulmonar sistólica é maior que 30 mmHg, e o diagnóstico definitivo é dado por cateterismo direito; o teste de esforço complementa a triagem. Vale reparar que as duas grandezas são a mesma coisa vista por lados diferentes: pela equação de Bernoulli simplificada, uma velocidade de regurgitação de 2,5 m/s corresponde a um gradiente de 4 × 2,5², isto é, 25 mmHg, que somado a uma pressão atrial direita de cerca de 5 mmHg dá justamente os 30 mmHg do corte. Quem decorou o corte em velocidade e quem decorou o corte em pressão decoraram o mesmo número. Cardiomiopatia — sobretudo disfunção diastólica esquerda e cardiomiopatia restritiva com aumento de átrio esquerdo — pode aparecer a partir dos 11 anos, e o ecodoppler cardíaco somado ao teste de caminhada de 6 minutos é o par de monitoramento.

O osso e a pele fecham o calendário. Dosagem de vitamina D anual ou semestral, densitometria óssea aos 12 anos repetida a cada 3 anos, avaliação periódica pela equipe de saúde bucal. As úlceras de membros inferiores ocorrem em geral após os 10 anos, espontaneamente ou após trauma, tipicamente nos maléolos medial e lateral, com envolvimento bilateral comum e estigmas de doença venosa ao exame — hemossiderose cutânea, dermatoesclerose e proeminência de veias superficiais. Feridas crônicas são as que ficam com a cicatrização estagnada por seis semanas ou mais apesar do tratamento adequado. A limpeza usa cloreto de sódio a 4% aquecido entre 36 e 37 °C, com técnica que varia conforme a ferida; na pele íntegra ao redor, dexametasona creme e óleo mineral; e a vacinação antitetânica deve ser atualizada, porque a superinfecção por Staphylococcus aureus, Pseudomonas, estreptococos ou bacteroides é a regra e o tétano, ainda que raro, é descrito.

O transplante de células-tronco hematopoéticas é o único tratamento curativo, e o protocolo não fixa idade limite — mas registra que o benefício é maior abaixo dos 16 anos e que pacientes com até 12 anos e irmão HLA idêntico têm maior sobrevida livre de eventos em três anos, recomendando estudo de HLA dos irmãos a partir dos 5 anos em HbSS e HbSbeta0. Os critérios de inclusão são de adulto tanto quanto de criança e vale conhecê-los porque desenham o retrato de quem a doença já venceu: eletroforese compatível com HbSS ou HbS-beta-talassemia, paciente em uso de hidroxiureia, e pelo menos uma entre — alteração neurológica por AVE persistindo mais de 24 horas ou com alteração de imagem; doença cerebrovascular associada; mais de duas crises vaso-oclusivas graves no último ano, incluindo síndrome torácica; mais de um episódio de priapismo; mais de dois anticorpos em paciente sob hipertransfusão ou um anticorpo de alta frequência; ou osteonecrose em mais de uma articulação. Todos os receptores devem estar inscritos no REREME/INCA. A hidroxiureia é suspensa quatro semanas antes do condicionamento e só é reintroduzida se não houver pega alguma — quimerismo do receptor em 100% das células testadas; quimerismo misto é resultado válido e não devolve o medicamento.

Talassemias: o diferencial que a mesma eletroforese resolve

A talassemia entra neste capítulo por duas portas. Pela primeira, ela é parte da própria doença falciforme: a combinação da HbS com a beta-talassemia gera a HbSbeta0 e a HbSbeta+, e a coerança de alfa-talassemia modula a gravidade da HbSS — o protocolo pede identificação dessa variante no diagnóstico. Pela segunda, ela é o diagnóstico diferencial obrigatório do adulto microcítico, ao lado da anemia ferropriva, que tem capítulo próprio neste volume.

A talassemia alfa se lê por contagem de genes, e são quatro. Um gene inativado é a forma heterozigótica alfa-mais, silenciosa. Dois genes — alfa-mais em homozigose ou alfa-zero em heterozigose — dão o traço, com microcitose e hipocromia sem anemia relevante. Três genes inativados produzem a doença de HbH, tetrâmeros de beta-globina. Quatro genes produzem hidropsia fetal com Hb Bart's, tetrâmeros de gama-globina. À medida que aumenta o número de genes alfa afetados, menor fica a HbA2 e maior fica a concentração das hemoglobinas instáveis. A consequência prática, e ela é brasileira: na maioria dos casos de talassemia alfa no país o perfil de hemoglobinas não revela HbH nem Hb Bart's, por ausência ou baixa concentração — de modo que uma eletroforese normal não afasta talassemia alfa, e quem quiser o diagnóstico precisa de análise molecular.

A talassemia beta se lê pela HbA2. A talassemia beta menor apresenta em geral HbA2 acima de 4%, raramente chegando a 9% — número mais exigente que o corte de 3,5% que circula nos resumos, e a divergência está registrada no bloco próprio. HbA2 baixa aponta talassemia alfa, talassemia delta ou deficiência de ferro, conforme os índices e os marcadores de ferro. HbA2 normal com VCM e HCM reduzidos aponta deficiência de ferro, talassemia alfa ou deleções no gene HBB. HbF acima de 5% aponta heterozigose de delta-beta ou gama-delta-beta talassemia, ou persistência hereditária de hemoglobina fetal; na talassemia beta sintomática a HbF pode atingir 70% a 90%. Duas interferências analíticas valem ouro em prova de laboratório: a subfração glicada da HbS eleva falsamente a HbA2, e a HbD-Punjab a reduz — de modo que a HbA2 medida num portador de variante beta precisa ser lida com desconfiança.

O diferencial com a anemia ferropriva se resolve com três parâmetros que estão no mesmo hemograma. Primeiro, o tamanho: VCM abaixo de 80 fL e HCM abaixo de 27 pg podem indicar talassemia menor no adulto. Segundo, a dispersão: o RDW é geralmente aumentado na deficiência de ferro e normal nas talassemias heterozigotas — parâmetro útil, mas não exclusivo, e é essa ressalva que a banca explora quando apresenta um RDW alto num talassêmico com ferropenia concomitante. Terceiro, e é o mais esquecido, a contagem de hemácias, com corte de 5 × 10¹²/L: a talassemia heterozigótica produz muitas hemácias pequenas, a falta de ferro produz poucas. Os índices matemáticos discriminantes — Mentzer, Green & King, England & Fraser — operacionalizam essa mesma intuição. E há uma cilada de coexistência: a HbA2 pode vir normal na deficiência de ferro conforme o grau de anemia, de modo que uma talassemia beta menor pode ser mascarada por uma ferropenia associada; repor o ferro e repetir a eletroforese é o que desfaz o nó.

Um cuidado de nomenclatura fecha o capítulo, porque erra-se muito nele. Portadores de mutações de talassemia beta silenciosa têm VCM e HCM normais ou apenas discretamente reduzidos; e quem herda as duas talassemias, beta e alfa, pode ter VCM e HCM normais, restando apenas a HbA2 aumentada como marca. Nesses dois cenários o hemograma não denuncia nada e só a fração de hemoglobinas fecha o diagnóstico.

04

Os quatro números do adulto e os alvos que a transfusão persegue

Quatro números decidem quase tudo o que se faz por um adulto com doença falciforme, e três deles são relógios. Uma hora até a primeira analgesia. Duas horas até a transfusão diante de déficit neurológico. Seis meses de programa de troca depois de uma síndrome torácica, e seis meses até decidir se a alfaepoetina serviu. O quarto número não é tempo, é alvo: hemoglobina acima de 9 g/dL com HbS abaixo de 30% na prevenção do AVC. O fluxo abaixo é a sequência da crise álgica do adulto na emergência; os cartões são os números; a tabela principal resolve a pergunta que a banca mais faz — simples, troca ou nenhuma; e as notas ao final registram seis defeitos aritméticos e de redação encontrados nos documentos oficiais, com a régua adotada em cada um.

  1. 11 · Meça a dor com escala e anote o número e a hora da chegada. O relógio que a diretriz cobra começa na porta, não na avaliação médica.
  2. 22 · Meça temperatura axilar, frequência respiratória e saturação EM AR AMBIENTE antes de qualquer oxigênio — é a medida de entrada que permitirá comparar amanhã.
  3. 33 · Administre a primeira analgesia em ATÉ 1 HORA da chegada, com a dose individualizada pelo uso basal do paciente e pelo que já funcionou nele. Acesso venoso difícil não adia: via subcutânea e via intranasal existem justamente para isso.
  4. 44 · Reavalie a cada 30 a 60 minutos com a mesma escala, e registre a hora de cada reavaliação.
  5. 55 · Some ao opioide um anti-inflamatório por 5 a 7 dias, checando antes função renal, risco gastrointestinal e anticoagulação. NÃO prescreva corticoide para a dor: a retirada produz rebote.
  6. 66 · Volume é de manutenção, não de expansão. Bolus e soro corrido existem para desidratação documentada e para choque, não para dor — e o risco de excesso é maior no adulto que na criança.
  7. 77 · Febre, dor torácica, queda de saturação ou tosse nova: colha hemograma com reticulócitos, hemocultura e raio X de tórax e cubra germe encapsulado com macrolídeo associado. Repita o raio X a cada 24 h enquanto houver dor torácica, ainda que o primeiro tenha vindo normal.
  8. 88 · Dor refratária no paciente internado: cetamina subanestésica de 0,1 a 0,3 mg/kg/h, teto de 1 mg/kg/h, ou anestesia regional para dor localizada.
  9. 99 · Prescreva espirometria de incentivo com 10 respirações máximas a cada 2 horas enquanto acordado — é a medida que mais previne síndrome torácica por real gasto.
  10. 1010 · Antes da alta, pergunte diretamente sobre priapismo, confira a hidroxiureia e a data do último exame de fundo de olho, e cheque se a função renal está sendo monitorada 4 a 6 vezes ao ano.

1 hora — a analgesia

Para adultos e crianças com dor aguda da doença falciforme em serviço de urgência, a avaliação e a administração de analgesia devem ocorrer em até 1 hora da chegada ao pronto-socorro, com reavaliações a cada 30 a 60 minutos. É recomendação FORTE sobre certeza baixa — o painel não tem ensaio grande e ainda assim considera o benefício líquido inequívoco. Vias não intravenosas, como a subcutânea e a intranasal, existem para que o acesso difícil não vire justificativa.

2 horas — o déficit neurológico

Diante de déficit neurológico agudo, incluindo ataque isquêmico transitório, a transfusão deve ser dada imediatamente ao reconhecimento dos sintomas, sem atraso além de 2 horas. É recomendação FORTE apoiada em certeza ALTA — o grau máximo que o método GRADE atribui — e vale para adultos e crianças, não só para a criança. Prefere-se a troca; se ela não estiver disponível dentro dessas 2 horas e a hemoglobina for menor ou igual a 8,5 g/dL, faz-se a simples para não atrasar, enquanto a troca é planejada.

TAMMV não é pico sistólico

O corte do Doppler transcraniano é lido na velocidade média máxima tempo-média (TAMMV), não na velocidade de pico sistólico — e o próprio painel registra que as duas são confundidas, com pacientes transfundidos por engano. O limiar de tratamento é TAMMV maior ou igual a 200 cm/s em duas medidas, ou uma única medida acima de 220 cm/s, na carótida interna distal ou na cerebral média proximal. Exige-se repetir entre 200 e 220 cm/s porque o coeficiente de variação do operador chega a 12% na mesma criança medida com 3 horas de intervalo.

Hb acima de 9, HbS abaixo de 30%

Na prevenção secundária de AVC, o alvo é manter a hemoglobina acima de 9 g/dL o tempo todo e a HbS abaixo de 30% do total até a transfusão seguinte — recomendação forte. Na prevenção primária de quem tem Doppler alterado, o mesmo par de alvos, com transfusão tipicamente a cada 3 a 4 semanas por pelo menos um ano. Na gestação transfundida regularmente os alvos afrouxam: hemoglobina acima de 7,0 g/dL e pico de HbS, ou S mais C, abaixo de 50%.

SituaçãoSimples, troca ou nenhumaAlvo, prazo e observação
Déficit neurológico agudo ou ataque isquêmico transitórioTROCA (preferida). Simples se a troca não estiver disponível em 2 h E a Hb for ≤ 8,5 g/dLTransfundir em até 2 HORAS do início dos sintomas — recomendação forte sobre certeza alta. O trombolítico, quando cogitado no adulto, não atrasa a transfusão
Prevenção secundária, após AVC isquêmicoTROCA em programa crônicoHb acima de 9 g/dL o tempo todo e HbS abaixo de 30% do total até a transfusão seguinte
Doppler transcraniano alterado (prevenção primária, 2 a 16 anos)Programa crônico de transfusão com hemácias fenotipadasTipicamente a cada 3 a 4 semanas, por pelo menos 1 ano, com HbS abaixo de 30% e Hb acima de 9,0 g/dL. Onde o programa não é factível, hidroxiureia com pelo menos 20 mg/kg/dia
Síndrome torácica aguda GRAVETROCA (automatizada preferida à manual)Sugerida em vez da simples. Depois da recuperação, programa de troca por no mínimo 6 meses
Síndrome torácica aguda MODERADAQualquer das três modalidadesSimples quando a queda da Hb for ≥ 1,5 g/dL da basal; pode ser dispensável com Hb ≥ 9 g/dL. Troca se progressão rápida, se não houver resposta à simples, ou se a Hb pré já for alta demais para permitir a simples
Sequestro esplênico ou hepático agudoSIMPLES10 mL/kg de concentrado, mirando Hb entre 6 e 7 g/dL — alvo baixo de propósito, porque o baço devolve o sangue represado quando o quadro cede
Crise aplástica com pancitopeniaSIMPLESSuporte até a subida dos reticulócitos, que marca a recuperação medular
Priapismo que não cede a procedimento urológicoTROCAA analgesia não espera parecer urológico nem exame. Acima de 2 a 4 horas o quadro é emergência
Pré-operatório de cirurgia sob anestesia geral com mais de 1 horaSIMPLES, ou TROCA se a Hb já estiver acima de 9 a 10 g/dLAlvo de hemoglobina total acima de 9 g/dL. O ensaio que comparou HbS abaixo de 30% com hemoglobina de 10 g/dL não mostrou diferença de síndrome torácica (OR 0,99; IC 95% 0,58 a 1,69)
Transfusão crônica por qualquer indicaçãoTROCA automatizada, preferida à simples e à manualReduz sobrecarga de ferro. Balanço de ferro neutro ou negativo se obtém mirando hematócrito final igual ou menor que o inicial
Anemia estável, dentro da basal do pacienteNENHUMATransfusão desnecessária custa aloimunização e ferro. A pergunta é sempre 'mudou em relação à basal DELE?', nunca 'está abaixo do valor de referência?'

As síndromes agudas relidas no adulto: o que muda em relação à pediatria

SíndromeO que levanta a hipótese no adultoA decisão que muda o desfechoO erro de nível
Síndrome torácica agudaDor torácica, tosse, febre, taquipneia ou queda de saturação com infiltrado recente e não atelectásico. Nasce tipicamente dentro de uma internação por dor, um a três dias depois da admissãoSaturação abaixo de 93% aciona terapia intensiva; oxigênio com alvo de 93% ou dentro de 3% da basal; macrolídeo associado; e escolha da modalidade transfusional pela gravidade — troca na graveTratar como pneumonia comum e manter o soro correndo. A volemia é mantida normal justamente para não produzir edema pulmonar
Déficit neurológico agudoDéficit focal, afasia, convulsão, rebaixamento ou ataque isquêmico transitório. No adulto, o infarto silencioso prévio já está presente em mais da metade dos pacientes aos 30 anosTransfundir em até 2 horas, sem esperar a imagem confirmar. Troca preferida; simples se a troca não vier em 2 h e a Hb for ≤ 8,5 g/dLGastar a primeira hora discutindo janela de trombólise. No adulto o trombolítico pode ser considerado pelos critérios habituais, mas nunca atrasando a transfusão — e ele não é recomendado abaixo de 18 anos
Sequestro esplênico ou hepáticoPalidez que piora em horas, prostração, dor abdominal, órgão que cresce rápido, queda intensa da Hb com reticulócitos ALTOS. No adulto sequestra quem conservou o baço: HbSC e HbSbeta-talassemia — o adulto HbSS já se autoesplenectomizouAcesso, expansão e transfusão de 10 mL/kg mirando Hb de 6 a 7 g/dL, não mais que issoProcurar sequestro esplênico num adulto HbSS e não procurar o hepático, que é o que aparece nessa faixa
PriapismoEreção involuntária, prolongada e dolorosa, sem relação com atividade sexual. É frequentemente subdiagnosticado — a pergunta direta é o exameAté 2 horas: hidratação, banho e compressa mornos, caminhada, esvaziar a bexiga, analgesia. Acima de 2 a 4 horas é emergência, com cateter vesical, analgesia intravenosa e urologia; troca se o procedimento não produzir detumescênciaDeixar o paciente sem analgesia esperando o parecer urológico ou o resultado do exame — o protocolo proíbe explicitamente
Crise aplásticaPalidez e fraqueza progressivas com queda da Hb e reticulócitos BAIXOS, baço inalteradoSuporte transfusional até os reticulócitos subirem, o que marca a recuperação da medulaConfundir com sequestro pela queda de hemoglobina. O reticulócito separa os dois e muda a conduta de expansão urgente para transfusão programada
Reação hemolítica tardia com hiper-hemóliseQueda significativa de Hb em até 21 dias de uma transfusão, com HbS subindo e HbA caindo, LDH em alta, hemoglobinúria — e, na hiper-hemólise, Hb ABAIXO do valor pré-transfusional. Síndrome de adulto multitransfundidoImunoglobulina intravenosa e corticoide em dose alta em primeira linha, eculizumabe em segunda; suspender novas transfusões salvo risco de vida; suporte com eritropoietinaTransfundir de novo diante da queda. Aqui o sangue é o combustível da hemólise, e cerca de metade dessas reações passa sem diagnóstico

Microcitose no adulto: o que separa traço, talassemias e falta de ferro

CondiçãoFração de hemoglobinasHemograma e o que decide
Traço falciforme (HbAS)HbA acima de 60%, com S, F e A2Geralmente assintomático e NÃO caracteriza anemia. Anemia em quem tem traço tem outra causa, e a investigação segue
Anemia falciforme (HbSS)S, F e A2 — sem HbA nenhumaHb basal tipicamente de 6 a 9 g/dL, reticulócitos de 4% a 10%, drepanócitos, codócitos, policromasia e corpos de Howell-Jolly
HbSbeta0-talassemiaS, F e A2 — sem HbA, igual à HbSS na eletroforeseCurso clínico semelhante à HbSS. O que separa da HbSS é a quantificação de HbA2 somada à análise familiar de pai, mãe e irmãos, e o teste molecular quando elas não fecham
HbSbeta+-talassemiaS, F, A2 e HbA entre 1% e 30%É a presença de HbA em pequena proporção que a denuncia. Gravidade acompanha a fração de HbA, em geral menor que a da HbSS
Talassemia beta menorHbA2 acima de 4%, raramente chegando a 9%VCM abaixo de 80 fL e HCM abaixo de 27 pg, com RDW normal e hemácias acima de 5 × 10¹²/L. Ferropenia concomitante pode baixar a HbA2 e mascarar o diagnóstico
Talassemia alfa (traço, dois genes)HbA2 normal ou baixa; HbH e Hb Bart's em geral ausentes no perfil brasileiroMicrocitose e hipocromia com eletroforese sem alteração — o diagnóstico exige análise molecular. Quanto mais genes alfa afetados, menor a HbA2
Anemia ferroprivaHbA2 normal, podendo estar reduzida conforme o grau de anemiaRDW aumentado e contagem de hemácias abaixo de 5 × 10¹²/L. É o oposto da talassemia heterozigótica, que faz muitas hemácias pequenas e uniformes

Unidade conferida, primeiro defeito. A seção 3.1 do PCDT escreve que 'a hemoglobina basal varia de 6 a 9 mg/dL' nas formas HbSS e HbSbeta0. A grandeza é concentração de hemoglobina e a unidade correta é g/dL; 6 a 9 mg/dL seria mil vezes menor e incompatível com a vida. O resto do documento usa g/dL corretamente — inclusive nos critérios de exclusão da hidroxiureia e no Quadro 6 —, o que confirma o erro de digitação e não de conceito. A régua adotada aqui é g/dL.

Faixa sem categoria, segundo defeito. O Quadro 6 do PCDT define níveis aceitáveis e níveis tóxicos para o ajuste da hidroxiureia com operadores estritos que deixam quatro intervalos órfãos: neutrófilos aceitáveis 'maior que 2.000' e tóxicos 'menor que 1.500' — nada define 1.500 a 2.000; plaquetas 'maior que 85.000' e 'menor que 80.000' — nada define 80.000 a 85.000; hemoglobina 'maior que 5,3' e 'menor que 4,5' — nada define 4,5 a 5,3 g/dL; reticulócitos 'maior que 95.000' e 'menor que 80.000' — nada define 80.000 a 95.000/mm³. Os próprios valores de fronteira ficam de fora dos dois lados. A régua adotada aqui é tratar a faixa intermediária como zona de vigilância, sem elevar a dose e com hemograma antecipado.

Aritmética conferida, terceiro defeito. A fórmula de volume da transfusão de TROCA publicada pelo PCDT traz, no denominador, o hematócrito do concentrado menos a SOMA do hematócrito inicial com o desejado. Como o hematócrito do concentrado é fixado em 70%, o denominador zera quando inicial e desejado somam 70 e fica negativo acima disso — em um paciente com hematócrito de 34% e alvo de 36%, a fórmula é indefinida, e acima disso devolve volume negativo. A faixa em que ela quebra é justamente a do paciente HbSC, que mantém hematócrito alto e é quem mais precisa de troca por priapismo e por síndrome torácica. A régua adotada aqui é a da diretriz americana: guiar o número de unidades pelas frações de hemoglobina e pelos hematócritos pré e pós-procedimento, calculando o ganho líquido de hemácias como volemia total vezes a diferença entre hematócrito pós e pré.

Contradição entre seções do mesmo documento, quarto defeito. A seção 7.2.1 do PCDT lista como indicação de transfusão simples 'pacientes com STA e necessidade crescente de oxigênio para manter saturação acima de 95%', enquanto a seção 7.4.4, que descreve a própria síndrome torácica aguda, fixa o alvo de oxigenação em 'igual ou acima de 93% ou dentro de 3% da saturação basal' e usa 93% como o corte que sinaliza terapia intensiva. São dois números para a mesma decisão em duas páginas do mesmo protocolo. A régua adotada aqui é a de 93%, que é a que aparece na seção específica da síndrome e a que se repete no restante do texto.

Sentença logicamente impossível, quinto defeito. Na seção de recomendações do apêndice, o PCDT registra: 'Adotou-se a deliberação da Conitec, em recomendar a incorporação de hidroxiuréia 100 mg e de não incorporar hidroxiuréia 100 mg no SUS, conforme Relatório de Recomendação nº 872/2024'. A mesma apresentação é incorporada e recusada na mesma frase. O cabeçalho da questão, a estrutura PICO e o nome do arquivo do relatório citam 'hidroxiureia 100 e 1000 mg', e a Rename 2024 lista apenas comprimido de 100 mg e cápsula de 500 mg no Componente Especializado — de onde se resolve que o incorporado é o de 100 mg e o recusado é o de 1000 mg. A régua adotada aqui é a da Rename.

Tabela com dado migrado, sexto defeito. No apêndice de avaliação do crizanlizumabe, o texto informa que a mediana do tempo até a primeira crise de dor no grupo placebo foi de 1,38 meses com intervalo interquartil de 0,39 a 4,90; a Tabela D, que apresenta esse mesmo desfecho, imprime para a mesma célula o intervalo 0,0 a 28,30 — que é exatamente o intervalo interquartil que a Tabela C atribui ao placebo no desfecho de dias de internação. Os percentuais de redução do apêndice, por outro lado, fecham com as medianas declaradas: 45,3% para a taxa anual de crises, 62,9% para as crises não complicadas e 41,8% para os dias de internação. A régua adotada aqui é a do texto corrido, com o intervalo interquartil de 0,39 a 4,90.

Conversão que a fonte não dá pronta. O PCDT nomeia a velocidade de regurgitação do jato tricúspide como a medida de triagem da hipertensão pulmonar e, em seguida, publica o corte em pressão — 'possível HAP quando a PAP sistólica for maior que 30 mmHg'. As duas grandezas são a mesma leitura: pela equação de Bernoulli simplificada, uma velocidade de 2,5 m/s corresponde a um gradiente de 4 × 2,5², ou 25 mmHg, que somados a uma pressão atrial direita estimada de cerca de 5 mmHg dão os 30 mmHg do corte. Quem decorou o limiar em m/s e quem decorou em mmHg decoraram o mesmo limiar.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é o corte de HbA2 que fecha talassemia beta menor

Acima de 3,5% já caracteriza

É o corte tradicional dos laboratórios e dos materiais de estudo, e o que aparece na maioria das tabelas de referência de eletroforese de hemoglobina. Sustenta-se na distribuição populacional da HbA2, que separa portadores de não portadores em torno desse valor.

Corte clássico de referência laboratorial, reproduzido no material técnico de hemoglobinopatias do Ministério da Saúde, que registra 3,5% como valor de corte e ressalva que 4% é considerado mais seguro.

Acima de 4%, com 3,5% a 4% como zona cinzenta

A talassemia beta menor apresenta em geral HbA2 acima de 4%, raramente chegando a 9%. Valores entre 3,5% e 4% podem decorrer de desvio-padrão do método ou de artefato técnico, e a pessoa pode não ser portadora. Some-se que a HbA2 pode vir normal na deficiência de ferro conforme o grau de anemia, e que a subfração glicada da HbS a eleva falsamente enquanto a HbD-Punjab a reduz.

Consenso da ABHH sobre Talassemia, 1ª edição, 26 de outubro de 2024, capítulo de diagnóstico laboratorial das talassemias alfa e beta.

Na prova

O enunciado quase sempre entrega o recorte pelo valor que coloca na vinheta. Um HbA2 de 3,8% num adulto microcítico é o valor deliberadamente ambíguo: se as alternativas oferecem 'talassemia beta menor confirmada', a banca está operando no corte clássico de 3,5%; se oferecem 'repetir após correção do ferro' ou 'prosseguir a investigação', está operando na régua da sociedade brasileira. Acima de 4% as duas réguas concordam e a divergência some. Quando o enunciado cita nominalmente o consenso brasileiro ou traz coexistência de ferropenia, o recorte é o mais exigente.

Hidratação intravenosa na crise vaso-oclusiva do adulto

Volume de manutenção faz parte do tratamento, com teto

A orientação de ingestão de líquidos para diminuir a viscosidade e evitar a desidratação integra as estratégias não medicamentosas de controle da dor, e a desidratação figura entre os desencadeantes das crises. Na síndrome torácica aguda o protocolo impõe o teto explicitamente: a volemia deve ser mantida normal, evitando hidratação excessiva e bolus intravenoso de rotina pelo risco de induzir edema pulmonar.

PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º/11/2024, seções 7.2.3 e 7.4.4.

Sem recomendação a favor nem contra, e maior risco no adulto

O painel escolheu explicitamente não emitir recomendação a favor nem contra fluidos intravenosos somados ao tratamento farmacológico da dor aguda. A não-recomendação cobre tanto bolus quanto infusão de manutenção e tanto salina isotônica quanto meio-isotônica, e vem com duas ressalvas: o risco de dano pode ser maior no adulto que na criança, por déficits cardiopulmonares e comorbidades; e nada disso impede repor volume em quem está clinicamente desidratado.

American Society of Hematology 2020 guidelines for sickle cell disease: management of acute and chronic pain. Blood Advances 2020;4(12):2656-2701, seção de terapias farmacológicas não opioides para dor aguda.

Na prova

O vocabulário da alternativa denuncia a régua. 'Hidratação venosa de manutenção, evitando bolus e hiper-hidratação' é a redação do corpo brasileiro e é a que aparece em enunciado ambientado no SUS ou que cite o protocolo do Ministério. 'Reposição volêmica apenas se houver desidratação clinicamente significativa' é a redação do corpo americano. As duas convergem no que proíbem — soro corrido para desfazer a crise —, e o que as separa é se o volume de manutenção é conduta ou apenas não é erro. Alternativa que ofereça bolus ou expansão para tratar a dor está errada pelas duas réguas.

O que se persegue no preparo transfusional pré-operatório: HbS abaixo de 30% ou hemoglobina total

Reduzir a proporção de HbS é o objetivo do preparo

A transfusão de troca tem como objetivo remover hemácias falciformes e substituí-las por normais, e está indicada no preparo de cirurgia de grande porte ou em órgãos vitais; o regime crônico de transfusões fenotipadas é descrito como voltado a reduzir a proporção de HbS no sangue. É a leitura que sustenta o alvo percentual.

PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º/11/2024, seção 7.2.1.

A hemoglobina total pesa mais que o percentual de HbS

Um ensaio randomizado comparou transfusão pré-operatória agressiva, mirando HbS abaixo de 30%, com política conservadora desenhada para elevar a hemoglobina a 10 g/dL, e não encontrou diferença de síndrome torácica aguda (OR 0,99; IC 95% 0,58 a 1,69). O painel conclui que a hemoglobina total parece mais importante que o percentual pré-operatório de HbS e orienta mirar 9 a 11 g/dL, reservando o alvo de HbS abaixo de 30% ou de 50% para fenótipos muito graves.

American Society of Hematology 2020 guidelines for sickle cell disease: transfusion support. Blood Advances 2020;4(2):327-355, Recomendação 9 e discussão.

Na prova

A pista está em qual número aparece na alternativa. Se ela fala em percentual de HbS, o enunciado está na régua antiga; se fala em hemoglobina em g/dL, está na régua da diretriz de transfusão. E há um marcador clínico que decide: se a vinheta descreve fenótipo muito grave — AVC prévio, síndrome torácica recorrente, complicação pós-operatória grave anterior —, o alvo de HbS baixo volta a fazer sentido pelas duas réguas. Cirurgia de pequeno porte ou com menos de 1 hora de anestesia geral não tem indicação de transfusão preparatória em nenhuma delas.

Trombolítico no AVC isquêmico agudo do paciente com doença falciforme

A conduta é a redução da HbS, e a régua do AVC comum não se aplica

O documento nacional lista AVC ou infarto cerebral agudo e ataque isquêmico transitório entre as indicações de transfusão de troca, e o AVC agudo entre as de transfusão simples quando a troca não estiver disponível, sem mencionar trombólise em nenhuma passagem. A conduta descrita é transfusional.

PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º/11/2024, seção 7.2.1.

No adulto o trombolítico pode ser considerado, desde que não atrase a transfusão

Para adultos com 18 anos ou mais, sem hemorragia à tomografia, dentro de 4,5 horas e sem contraindicações, o painel sugere decisão compartilhada seguindo princípios: a alteplase não deve atrasar a transfusão simples ou de troca; o paciente pode ser considerado pelos critérios habituais dos algoritmos de AVC; idade mais avançada, fibrilação atrial, diabetes, hipertensão e dislipidemia sugerem benefício provável; e no jovem sem esses fatores o manejo deve enfatizar a transfusão precoce. A alteplase não é recomendada abaixo de 18 anos.

American Society of Hematology 2020 guidelines for sickle cell disease: prevention, diagnosis, and treatment of cerebrovascular disease in children and adults. Blood Advances 2020;4(8):1554-1588, Recomendação 7.

Na prova

A idade do paciente na vinheta é o divisor. Abaixo de 18 anos, qualquer alternativa que ofereça alteplase está errada. Acima de 18, a alternativa correta quase nunca é 'trombolisar' nem 'não trombolisar': é a que mantém a transfusão como prioridade temporal e trata o trombolítico como decisão paralela. Repare também no perfil de risco descrito — idade mais avançada, fibrilação atrial, diabetes, hipertensão e dislipidemia empurram para considerar o trombolítico; um jovem sem esses fatores empurra para a transfusão precoce como eixo do tratamento.

06

Caso resolvido

Homem de 29 anos, HbSS, acompanhado em centro de referência, em uso de hidroxiureia 1.500 mg/dia. Internou há 12 dias por crise vaso-oclusiva em coluna e coxas, recebeu duas unidades de concentrado de hemácias no segundo dia de internação por hemoglobina de 5,4 g/dL (basal dele: 7,8 g/dL) e recebeu alta no quinto dia com 8,9 g/dL. Retorna agora à emergência com dor lombar difusa, urina escura desde ontem e icterícia acentuada. Hemoglobina 4,6 g/dL. Reticulócitos 1,9% (estavam em 9% na internação). LDH 1.870 U/L, bilirrubina indireta elevada. A fração de hemoglobinas mostra HbS de 88%, contra 61% na alta. Pesquisa de anticorpos irregulares, negativa na internação, agora detecta um anticorpo cuja especificidade ainda está em identificação. Tem cinco transfusões ao longo da vida. Está taquicárdico a 118, com pressão de 104 por 62, saturando 96% em ar ambiente, sem foco infeccioso e sem infiltrado ao raio X de tórax.
o que fecha o quadro, e por que não é 'a anemia dele piorando'
Queda significativa de hemoglobina dentro de 21 dias de uma transfusão, com novo aloanticorpo, hemoglobinúria, elevação de LDH e — o achado que amarra tudo — subida acelerada do percentual de HbS de 61% para 88% com queda concomitante da HbA. Isso preenche a definição de reação hemolítica transfusional TARDIA. E há o agravante que muda o nome e a conduta: a hemoglobina de 4,6 g/dL está abaixo do nível pré-transfusional dele, que era 5,4 g/dL. Chama-se hiper-hemólise, e significa que as hemácias do próprio paciente estão sendo destruídas junto com as do doador. A reticulocitopenia relativa — 1,9% num paciente que vive em 9% — é outro dos marcadores da definição, e não indica crise aplástica: aqui ela acompanha a hemólise, não a substitui.
o que NÃO se faz primeiro
Não transfundo. É o reflexo correto em quase toda anemia grave e é o erro central aqui: nesta síndrome o sangue transfundido alimenta a hemólise e o paciente sai da transfusão pior do que entrou. A orientação é evitar novas transfusões, salvo anemia com risco de vida e hemólise em curso. Se a transfusão se tornar inevitável, ela é feita com hemácias de compatibilidade estendida — C/c, E/e, K, Jka/Jkb, Fya/Fyb e S/s —, não com a bolsa que estiver na geladeira.
o que entra agora, e em que ordem
Hidratação e imunossupressão imediata. Em primeira linha, imunoglobulina intravenosa e corticoide em dose alta: o protocolo nacional escreve prednisona de 1 a 4 mg/kg/dia, ou dose equivalente de metilprednisolona, e imunoglobulina de 0,4 a 1 g/kg/dia por três a cinco dias, isolados ou associados, com a escolha individualizada. Em segunda linha, eculizumabe. O rituximabe entra sobretudo com a finalidade de prevenir a formação de novos aloanticorpos em quem ainda vai precisar transfundir. E o suporte inclui eritropoietina, com ou sem ferro intravenoso — o que, neste paciente, conversa diretamente com o próximo passo.
o passo administrativo que não é burocracia
Notificação obrigatória ao serviço que dispensou o hemocomponente e, na sequência, aos responsáveis pela hemovigilância. Junto: identificação da especificidade do anticorpo e extensão da fenotipagem, com o resultado registrado de forma acessível entre os serviços — o perfil antigênico precisa estar disponível em qualquer hospital onde este paciente der entrada. Sem isso, o próximo plantão repete a transfusão incompatível. Vale registrar que a fenotipagem sorológica feita agora é imprecisa, porque ele foi transfundido há 12 dias; a genotipagem é o caminho.
a porta que este episódio abre no SUS
A síndrome de hiper-hemólise é, por si só, critério de inclusão para alfaepoetina neste protocolo, em paciente com 18 anos ou mais, HbSS ou HbSbeta0 e em uso de hidroxiureia — e ele preenche os três. A dose é 12.000 UI por semana divididas em três aplicações de 4.000 UI, subcutâneas ou intravenosas. O hemograma é monitorado uma a duas vezes por mês até estabilizar, depois mensalmente por seis meses e trimestralmente. O critério de parada é objetivo: suspende-se se, após 6 meses, não houver diminuição da necessidade transfusional para atingir hemoglobina igual ou acima de 8,5 g/dL ou aumento igual ou maior que 1,5 g/dL sobre a basal.
o que fica combinado antes da alta
Três coisas. Primeira: revisão da dose de hidroxiureia — ele pesa o suficiente para que 1.500 mg/dia esteja abaixo da dose máxima tolerada, e a escalada é de 5 mg/kg/dia a cada 4 semanas até 35 mg/kg/dia ou toxicidade, lembrando que cerca de 25% dos pacientes não respondem e que essa é a condição que pode justificar suspensão após 2 anos. Segunda: acúmulo transfusional agora tem história — cinco transfusões, mais as desta internação —, e a ferritina passa a ser monitorada. Terceira: o episódio conta como critério de transplante. Mais de dois anticorpos sob hipertransfusão, ou um anticorpo de alta frequência, é uma das condições que qualificam para o TCTH em paciente HbSS em uso de hidroxiureia, com inscrição no REREME/INCA.
07

Agora feche você

Mulher de 24 anos, HbSC, chega à emergência às 14h20 trazida pelo companheiro. Há cerca de 50 minutos começou a arrastar a fala e a não conseguir segurar objetos com a mão direita. Ao exame: consciente, orientada, disartria evidente, força grau 3 em membro superior direito, sem rigidez de nuca, sem febre. Pressão 128 por 78, frequência cardíaca 96, saturação 97% em ar ambiente, glicemia capilar 104 mg/dL. Não é hipertensa, não é diabética, não fuma, não usa contraceptivo combinado. Hemoglobina 10,2 g/dL, hematócrito 31%, plaquetas 244.000/mm³. Pesa 58 kg. A tomografia de crânio sem contraste, feita às 14h55, não mostra hemorragia nem sinais precoces de isquemia extensa. O hemocentro fica no mesmo complexo hospitalar e informa que a aférese pode ser montada, mas que a máquina só estará disponível em cerca de quatro horas.
achado
Déficit neurológico focal agudo — disartria e hemiparesia braquial direita — em paciente com doença falciforme, com tomografia sem hemorragia. Não importa, para a decisão das próximas duas horas, se isso vai se confirmar como AVC constituído ou como ataque isquêmico transitório: a régua é a mesma para os dois, e tomografia normal com déficit presente não exclui nada.
o relógio que já está correndo
Os sintomas começaram por volta das 13h30. A recomendação é transfundir imediatamente ao reconhecimento, sem atraso além de 2 horas da apresentação — e é recomendação forte apoiada em certeza alta, o grau máximo do método GRADE. A janela operacional, portanto, se fecha por volta das 15h30, e às 14h55 já se gastaram 35 minutos com a tomografia.
a decisão transfusional — complete
08

Onde a banca derruba

  1. 1Somar 'traço falciforme' como explicação de uma anemia O protocolo descreve o traço em uma linha: geralmente assintomático, não caracteriza anemia — e a HbA fica acima de 60% do total. A armadilha é atraente porque o resultado da eletroforese vem alterado e parece pedir alguma conduta. Não pede: quem tem traço não recebe hidroxiureia, não entra em programa transfusional, não tem indicação de Doppler transcraniano e não precisa de seguimento hematológico. Diante de um portador de traço anêmico, a anemia tem outra causa, e no adulto brasileiro a mais provável continua sendo a falta de ferro. Atribuir ao traço é o que faz a investigação parar.
  2. 2Ler o corte do Doppler na velocidade de pico sistólico O limiar de 200 cm/s é lido na velocidade média máxima tempo-média, e o próprio painel americano registra que a velocidade de pico sistólico é às vezes confundida com ela, levando pacientes a serem transfundidos por engano. O pico sistólico é sempre maior que a média tempo-média, de modo que a troca de variável empurra sistematicamente para o excesso de tratamento. É por isso também que se exigem duas medidas na faixa entre 200 e 220 cm/s: o coeficiente de variação do operador chega a 12% na mesma criança medida com três horas de intervalo, e o desvio-padrão intrassujeito da medida é de 14,9 cm/s.
  3. 3Prescrever corticoide para a dor da crise Parece razoável porque a vaso-oclusão é um evento inflamatório, e a droga costuma até funcionar nas primeiras horas. A diretriz americana sugere explicitamente CONTRA o corticoide na dor aguda da doença falciforme, e o motivo está na saída, não na entrada: a exposição sistêmica e sobretudo a retirada associam-se a dor de rebote e a outras complicações. Quando o corticoide for necessário por outra indicação — asma, por exemplo —, a decisão deve ser tomada junto com quem cuida da doença falciforme, e o desmame precisa ser cuidadoso: a diretriz de transfusão do mesmo ano repete o alerta ao tratar do corticoide usado na hiper-hemólise.
  4. 4Transfundir de novo quando a hemoglobina cai depois de uma transfusão É o reflexo mais natural e o mais perigoso do capítulo. Queda significativa de hemoglobina em até 21 dias de uma transfusão, com HbS subindo e HbA caindo, LDH em alta, hemoglobinúria e reticulócitos fora do padrão basal, define reação hemolítica tardia; quando a hemoglobina desce ABAIXO do valor pré-transfusional, o nome é hiper-hemólise, e as hemácias do próprio paciente são destruídas junto com as transfundidas. A conduta é imunoglobulina e corticoide em dose alta, eculizumabe em segunda linha, suporte com eritropoietina — e EVITAR novas transfusões, salvo anemia com risco de vida. A prevalência dessas reações fica entre 5% e 10%, e cerca de metade passa sem diagnóstico.
  5. 5Aceitar a fenotipagem sorológica de um paciente recém-transfundido A compatibilização profilática para Rh (C, E ou C/c, E/e) e K é a única recomendação FORTE de toda a diretriz de transfusão, e existe porque, sem ela, cerca de 30% dos pacientes transfundidos ao menos intermitentemente se aloimunizam. Mas o exame que a sustenta tem prazo de validade ao contrário: a fenotipagem sorológica é imprecisa se o paciente foi transfundido nos últimos 3 meses, porque as hemácias do doador ainda circulam. Daí a orientação de obter o perfil antigênico estendido na primeira oportunidade, idealmente antes da primeira transfusão, e de preferir a genotipagem à sorologia.
  6. 6Prescrever ferro diante de uma hemoglobina de 7 g/dL A anemia da doença falciforme é hemolítica, e o protocolo afirma que ela não decorre de deficiência de ferro, que aliás é relativamente incomum nessa população. Há exceções nomeadas e elas têm número: a deficiência é mais comum na doença da HbSC, com evidência de carência contínua em até 20% dos bebês não transfundidos desse genótipo, e até 10% das mulheres adultas jovens com doença falciforme em regiões de recursos limitados podem ter falta de ferro. Fora daí, a suplementação só entra guiada por ferritina, ferro sérico e saturação de transferrina, e pelo tempo necessário para corrigir. Em quem transfunde, o problema costuma ser o oposto.
  7. 7Suspender a hidroxiureia porque os reticulócitos caíram A contagem de reticulócitos abaixo de 80.000/mm³ é critério de EXCLUSÃO para quem é virgem de tratamento, quando a hemoglobina está abaixo de 8 g/dL. Em quem já usa o medicamento, a redução de reticulócitos é resposta ESPERADA e se maneja por ajuste de dose, não por suspensão. A confusão inverte a lógica do tratamento. Duas outras leituras laboratoriais enganam pelo mesmo caminho: a macrocitose induzida pela hidroxiureia pode mascarar deficiência de ácido fólico em instalação, e a elevação de creatinina, ureia, ácido úrico e glicemia em quem usa o medicamento deve ser reconferida por método diferente antes de ser aceita.
  8. 8Tratar o adulto HbSS como candidato a sequestro esplênico A vaso-oclusão repetida infarta o baço até apagá-lo, e o adulto HbSS está funcionalmente asplênico há anos — não tem baço para sequestrar. Quem sequestra é quem conservou o órgão: HbSC e HbSbeta-talassemia, os mesmos genótipos que o protocolo descreve como cursando com baço aumentado. E há a variante que se perde por não ser procurada: o protocolo lista o sequestro HEPÁTICO ao lado do esplênico entre as indicações de transfusão simples, e é o hepático que aparece no adulto. Palidez que piora em horas com queda de hemoglobina, reticulócitos altos e fígado que cresce é sequestro até prova em contrário.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Diante de déficit neurológico agudo em doença falciforme — incluindo ataque isquêmico transitório — a transfusão deve ser dada imediatamente ao reconhecimento dos sintomas, sem atraso além de 2 HORAS da apresentação. É recomendação FORTE apoiada em certeza ALTA, o grau máximo do método GRADE, e vale igualmente para adultos e crianças. Com sintomas iniciados às 13h30, a janela se fecha por volta das 15h30, e a aférese em quatro horas não chega. A segunda alternativa erra porque esperar é justamente o que a recomendação proíbe, e porque a transfusão simples não é contraindicada — ela é a alternativa prevista quando a troca não vem a tempo. Mas a primeira alternativa também erra, e é aí que está o ponto fino: a permissão de usar transfusão simples para não atrasar o tratamento é descrita para hemoglobina IGUAL OU MENOR QUE 8,5 g/dL, e esta paciente está com 10,2 g/dL e hematócrito de 31% — transfundir simples aqui empurraria a hemoglobina para faixa de hiperviscosidade e agravaria a própria obstrução. Sobra a troca manual, que é retirada de volume por flebotomia com reposição de concentrado, não depende da máquina e pode começar à beira do leito; os alvos são HbS abaixo de 30% com hemoglobina mantida em torno de 9 a 10 g/dL. A quarta alternativa inverte a prioridade temporal: a diretriz admite considerar alteplase em adultos, mas com o princípio explícito de que ela NÃO deve atrasar a transfusão simples ou de troca — e acrescenta que os fatores que sugerem benefício provável do trombolítico são idade mais avançada, fibrilação atrial, diabetes, hipertensão e dislipidemia, nenhum deles presente numa paciente de 24 anos, cujo manejo deve enfatizar a transfusão precoce. A quinta confunde terapia de manutenção com terapia de evento agudo: a hidroxiureia modifica a história natural ao longo de meses e não tem papel na hora do déficit.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar, escreva de memória e depois confira: (1) os dois relógios — quantos minutos até a primeira analgesia na emergência e quantas horas até a transfusão diante de déficit neurológico, dizendo a força e a certeza de cada recomendação; (2) o par de alvos da prevenção de AVC, em g/dL e em percentual; (3) os quatro critérios que colocam um adulto na alfaepoetina, incluindo o número de concentrados por ano e as duas hemoglobinas que aparecem no critério; (4) o que separa reação hemolítica tardia de hiper-hemólise, em uma frase, e qual é a primeira linha de tratamento; (5) três parâmetros do hemograma que separam talassemia beta menor de anemia ferropriva, com os cortes; (6) por que um adulto HbSS não sequestra no baço e qual sequestro procurar nele. O que errar, escreva à mão três vezes: são números fechados, não deduções.

em 30 dias

Refaça as oito questões e, a cada erro, volte à seção que o gerou e não ao comentário. Em seguida monte uma folha única com três colunas — 'transfusão simples', 'transfusão de troca' e 'não transfundir' — e distribua nelas, de memória, as onze situações da tabela principal, escrevendo ao lado de cada uma o alvo numérico correspondente. Depois escreva, em três linhas, os seis defeitos documentais registrados nas notas, porque cada um deles é uma alternativa plausível que a banca pode montar com o texto oficial na mão: a hemoglobina em mg/dL, as faixas sem categoria do Quadro 6, o denominador da fórmula de troca, os 93% contra os 95% de saturação, a frase que incorpora e recusa a mesma apresentação de hidroxiureia, e o intervalo interquartil migrado de uma tabela para outra. Feche com a frase que resolve metade das questões de hemoglobinopatia: traço não é doença, não causa anemia e não recebe profilaxia nem rastreio.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 31 anos, HbSS, chega ao pronto-socorro às 22h10 com dor em coluna lombar e coxas iniciada no fim da tarde, que ele classifica em 9 de 10. Tomou dipirona em casa às 19h sem alívio. Diz, antes que se pergunte, qual opioide e qual dose funcionam nele. Está afebril, saturando 97% em ar ambiente, e refere que 'faz uns dias' que acorda com o pênis ereto e dolorido, mas nunca contou isso a ninguém. Conduza o atendimento: decida o que prescrever na primeira hora e em que ordem, o que examinar, o que NÃO entra na prescrição, e o que precisa ser conferido e combinado antes de ele ir embora. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.