Clínica MédicaHematologia e Hemoterapia

Leucemias no adulto: reconhecimento e triagem

Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem

A prova não cobra quimioterapia: cobra ler o hemograma que chegou, separar agudo de crônico pelo corte de 20% de blastos, saber a única leucemia em que o remédio começa antes do diagnóstico e conhecer os dois números que transformam encaminhamento em emergência.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 45 anos, assintomático, realiza check-up. Hemograma: Hb 11,8 g/dL, leucócitos 82.000/mm³ com desvio à esquerda e presença de toda a linhagem granulocítica (mielócitos, metamielócitos, bastões), basofilia e eosinofilia. Plaquetas 480.000/mm³. Baço palpável a 6 cm do rebordo costal. Fosfatase alcalina leucocitária diminuída. Qual alteração genética é esperada?

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Como esse tema cai

Este é o capítulo do médico que recebe um hemograma, não o do hematologista que conduz a quimioterapia. A vinheta traz alguém que chegou por outro motivo — cansaço de semanas, uma gengiva que sangra ao escovar, um exame admissional, uma leucometria absurda vinda do laboratório às seis da tarde — e pergunta o que fazer nas próximas horas. Esquema de indução, transplante e doença residual mínima não são cobrados neste nível e ficam de fora.

A prova cobra o tema em quatro formatos. O primeiro entrega um hemograma e pede o rótulo: aguda ou crônica, mieloide ou linfoide. O segundo entrega uma leucemia com coagulopatia e pergunta o que se faz antes do resultado da citogenética — é a única leucemia em que o remédio começa na suspeita, e a alternativa errada quase sempre é uma conduta razoável em qualquer outra. O terceiro entrega um número (leucócitos, plaquetas, hemoglobina) e pergunta se aquilo é consulta, encaminhamento urgente ou emergência de poucas horas. O quarto entrega um idoso assintomático com linfocitose e testa se o candidato pede medula e tomografia — que a recomendação brasileira diz para não pedir.

A régua nacional deste tema é feita de quatro documentos que não cobrem o mesmo terreno. O Ministério da Saúde tem Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da Leucemia Mieloide Aguda do Adulto (Portaria SAS/MS nº 705, de 2014), Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Leucemia Mieloide Crônica do Adulto (Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 4, de 2021) e Diretrizes de imatinibe para a Leucemia Linfoblástica Aguda Philadelphia positiva do adulto (Portaria Conjunta nº 21, de 2021) — esta última cobre só a forma Ph-positiva. Para a leucemia linfocítica crônica não existe protocolo nacional: quem dá a régua é a recomendação de 2025 do Grupo Brasileiro de LLC, da ABHH. E, para a promielocítica, o documento operacional é o consenso brasileiro de 2024 da mesma associação, porque as Diretrizes de 2014 descrevem a sensibilidade da doença ao ATRA sem fixar o momento de iniciá-lo.

Ficam fora deste capítulo, com endereço: a síndrome de lise tumoral e a compressão medular metastática, no capítulo de emergências oncológicas; a neutropenia febril e a síndrome da veia cava superior, que têm capítulo próprio; a leucemia linfoblástica aguda da criança, com sua régua de encaminhamento em 24 horas, na apostila de Pediatria; os gatilhos gerais de transfusão de plaquetas e hemácias, no capítulo de terapia transfusional; e o rastreamento e o diagnóstico precoce do câncer em geral, no capítulo de sinais de alarme da apostila de Oncologia.

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O que muda decisão

Quatro doenças, um exame de porta

As leucemias somam 12.220 casos novos por ano na Estimativa 2026 do INCA, válida para cada ano do triênio 2026-2028 — 6.540 em homens e 5.680 em mulheres —, com risco estimado de 5,71 por 100 mil habitantes; excluídos os tumores de pele não melanoma, ocupam a 13ª posição entre os mais incidentes. É um número que engana quem vem da pediatria: no adulto, leucemia não é o câncer mais comum de lugar nenhum, mas é o que mais frequentemente chega pela porta de um exame de sangue pedido por outro motivo. Protocolos ainda vigentes trazem números de edições anteriores da mesma série — 11.540 casos por ano na estimativa de 2023-2025 e 10.810 na de 2020-2022 —, e isso é diferença de edição, não discordância técnica.

Quatro entidades concentram o que a prova cobra, e cada uma tem uma idade e um hemograma. A leucemia mieloide aguda tem incidência ajustada de 3,6 casos por 100.000 habitantes por ano e idade mediana de 66 anos ao diagnóstico. A leucemia mieloide crônica responde por 15% de todas as leucemias do adulto, com mediana de 67 anos. A leucemia linfocítica crônica é a mais comum do adulto — cerca de 30% de todas as leucemias nessa população —, com mediana de 71 anos e mais de 95% dos casos acima dos 50. E a leucemia linfoblástica aguda, que na criança é a regra, no adulto é minoria e muda de cara: a proporção de casos com cromossomo Philadelphia sobe de 3% abaixo dos 15 anos para cerca de 30% a partir dos 30 anos e para mais de 50% depois dos 65.

O ponto que amarra as quatro é o mesmo em todos os documentos brasileiros, escrito quase com as mesmas palavras nas Diretrizes da LMA, nas da LLA Philadelphia positiva e no Protocolo da LMC: a identificação da doença em estágio inicial e o encaminhamento ágil e adequado para o atendimento especializado dão à Atenção Primária um caráter essencial para o resultado terapêutico. Traduzido para a prova: ninguém espera que a unidade básica faça mielograma. Espera-se que ela leia o hemograma, reconheça o padrão, decida a velocidade e escreva o encaminhamento certo.

Agudo é blasto; crônico é célula madura

A palavra aguda, aqui, não descreve velocidade de instalação: descreve onde a maturação parou. Nas leucemias agudas há transformação maligna da célula hematopoética primitiva com parada de maturação na fase de blasto ou de promielócito, como escrevem as Diretrizes da LMA; a consequência é dupla e explica todo o quadro clínico. De um lado, falência de produção — as três séries normais são substituídas e caem juntas, gerando anemia, sangramento e infecção. Do outro, infiltração — fígado, baço, linfonodos, osso, pele e sistema nervoso recebem células que não deveriam estar ali.

Nas leucemias crônicas a maturação não para. A LMC é uma neoplasia mieloproliferativa caracterizada pela proliferação excessiva de granulócitos maduros e em amadurecimento; a LLC, pelo acúmulo de linfócitos B monoclonais maduros. Como as células chegam ao fim da fila de maturação, a medula continua entregando as outras séries por muito tempo — e é por isso que a leucemia crônica costuma ser um achado de exame, não uma emergência. Cerca de 60% dos pacientes com LLC são assintomáticos ao diagnóstico, descobertos em hemograma de rotina.

Duas consequências práticas saem daí, e as duas são armadilha de prova. A primeira: leucocitose não é obrigatória na leucemia aguda. O leucograma pode estar alto, normal ou baixo, porque o que circula pode não ser leucócito funcional, e o quadro clássico da LMA é justamente leucopenia com blastos. A segunda: pancitopenia com esplenomegalia em adulto não é 'anemia carencial com hiperesplenismo' até que alguém olhe o esfregaço. O achado que muda tudo — o blasto no sangue periférico — depende de o laboratório procurar.

Esquema comparando medula tomada por blastos, na leucemia aguda, com medula que produz células maduras em excesso, na leucemia crônica, e os hemogramas que cada uma gera
Aguda e crônica não diferem por velocidade de sintomas, e sim por onde a maturação parou. Na aguda, a parada é precoce: acumula blasto e faltam as três séries. Na crônica, a maturação segue até o fim: sobram células maduras e as outras séries se preservam por muito tempo — por isso a leucemia crônica é a que aparece em exame de rotina.

O corte de 20% e as exceções que o Brasil reconhece

O número que separa leucemia aguda de tudo o mais é 20%. As Diretrizes brasileiras da LMA do adulto são explícitas: a porcentagem de blastos exigida para o diagnóstico é 20% ou mais de mieloblastos, monoblastos/promonócitos ou megacarioblastos no sangue periférico ou na medula óssea. As Diretrizes da LLA Philadelphia positiva do adulto usam o mesmo corte para a linhagem linfoide, com uma diferença de redação que vale notar: falam em 20% ou mais de linfoblastos na medula óssea, sem mencionar o sangue periférico.

O corte tem quatro exceções nominais no documento brasileiro. Havendo menos de 20% de blastos, o diagnóstico de LMA também pode ser feito quando existe t(8;21)(q22;q22), inv(16)(p13.1q22), t(16;16)(p13.1;q22) ou t(15;17)(q22;q12). São as três alterações de bom prognóstico do core-binding factor e da promielocítica: a genética, nesses casos, vale mais do que a contagem. Duas regras de contagem completam: monoblastos e promonócitos entram na conta de blastos na LMA com diferenciação monocítica, mas monócitos anormais não; eritroblastos não são contados como blastos, exceto na leucemia eritroide pura.

Quem confirma não é a atenção primária. A avaliação diagnóstica exigida pelos documentos nacionais é hospitalar e envolve citomorfologia do sangue periférico e da medula, citoquímica (mieloperoxidase, negro de Sudan e esterase inespecífica), imunofenotipagem das células blásticas, citogenética convencional com no mínimo 20 metáfases analisadas ou FISH, e biologia molecular — mais biópsia de medula quando o aspirado vem 'seco'. Nas leucemias agudas, portanto, medula é obrigatória. Guarde esse contraste: é justamente o que a LLC dispensa.

A leucemia que é emergência antes do diagnóstico: a promielocítica

A leucemia promielocítica aguda é o subtipo de LMA que resulta, em mais de 95% dos casos, da t(15;17), com fusão PML::rara. Duas coisas a tornam única. A primeira é a coagulopatia: ela sangra desproporcionalmente ao número de plaquetas, com prolongamento de TP e TTPa, D-dímero alto e fibrinogênio consumido — e hemorragia intracraniana e pulmonar são as principais causas de morte antes e no início da terapia. A segunda é o antídoto: ela é especialmente sensível ao ácido transretinoico (ATRA), que age induzindo a maturação das células blásticas, levando à remissão completa e à resolução do distúrbio de coagulação.

Daí sai a regra que a prova cobra mais do que qualquer outra neste tema. Segundo o consenso brasileiro de 2024 da ABHH, o ATRA deve ser iniciado imediatamente após a suspeita mínima de LPA, sem esperar o diagnóstico molecular — e a justificativa é elegante: o ATRA não tem efeito deletério no tratamento dos demais subtipos de LMA. Se a confirmação vier, segue-se com ele; se a t(15;17)/PML::rara for excluída, ajusta-se para protocolo de LMA clássica. Nenhuma outra leucemia autoriza tratar antes de confirmar, e nenhuma outra pune tanto a espera: cerca de 5% dos pacientes com LPA acabam inelegíveis ao tratamento por hemorragia fatal ou ameaçadora à vida ocorrida antes de a terapia começar.

O suporte tem alvos próprios, diferentes dos gatilhos gerais de transfusão. O consenso brasileiro adota, para a reposição com crioprecipitado, plasma fresco congelado e plaquetas, os alvos recomendados pelo European LeukemiaNet: manter fibrinogênio acima de 150 mg/dL, plaquetas acima de 50 x 10³/µL e TP e TTPa abaixo de 1,5, com reposição mantida durante toda a indução até a resolução clínica e laboratorial da coagulopatia. Três condutas que parecem certas estão vetadas: heparina profilática, ácido tranexâmico e épsilon-aminocaproico não são recomendados, e a leucaférese não é indicada na LPA, pelo risco de hemorragia — o que faz dela a exceção da regra de citorredução que vale nas demais leucemias hiperleucocitárias.

Dois detalhes de reconhecimento fecham a seção. Na morfologia, a variante hipergranular exibe as células de Faggot, com feixes de bastões de Auer; a variante microgranular ou hipogranular tem poucos grânulos e núcleo bilobado — e é a que costuma cursar com leucocitose, e não com leucopenia. Na imunofenotipagem, os blastos são HLA-DR negativos: toda leucemia aguda sem HLA-DR precisa de exclusão molecular do rearranjo PML::rara, porque a LMA com mutação de NPM1 imita esse perfil. O prognóstico se define pela leucometria inicial: acima de 10 x 10³/µL é alto risco.

Hiperleucocitose e leucostase: o número que muda o destino

Na régua brasileira de encaminhamento de adultos, o número que transforma consulta em emergência é 100.000. O protocolo de encaminhamento da Atenção Primária para a Atenção Especializada em Hematologia manda à urgência/emergência, preferencialmente com suporte de hematologista, quatro situações da leucocitose: leucocitose com manifestações clínicas suspeitas de leucemia aguda; presença de blastos e/ou promielócitos no sangue periférico com essas manifestações; hiperleucocitose, definida como leucócitos acima de 100.000/mm³, exceto em pacientes com leucemia linfocítica crônica; e leucocitose com sintomas sugestivos de leucostase.

A exceção da LLC é a parte que mais derruba candidato, e tem lógica celular: o linfócito da LLC é pequeno, deformável e não adere ao endotélio, de modo que contagens de 200.000 ou 300.000 podem ser inteiramente assintomáticas. Já o blasto mieloide e o promielócito são grandes, rígidos e adesivos: obstruem a microcirculação e produzem leucostase. Os três sintomas que o protocolo lista como suspeitos são respiratórios, neurológicos e priapismo — dispneia e hipoxemia sem infiltrado que explique, confusão, cefaleia e alteração visual, e ereção prolongada e dolorosa.

As manifestações que caracterizam suspeita de leucemia aguda estão escritas e valem decorar, porque são o gatilho de tudo: fadiga generalizada, fraqueza, palidez, sangramentos (petéquias, equimoses, sangramento de mucosas), infecções recorrentes, esplenomegalia e/ou linfadenopatia não explicadas por quadro infeccioso agudo. Nas Diretrizes da LLA Philadelphia positiva, a frequência dessas queixas na apresentação está tabelada: febre em 50%, sangramento em 50%, sintomas inespecíficos em 25% e dor osteoarticular em 15%; ao exame, síndrome anêmica em 80% a 100%, esplenomegalia em 60% e hepatomegalia em 40%, com acometimento do sistema nervoso central em apenas 1% a 3%.

Há ainda os cortes de citopenia que disparam emergência independentemente do leucograma: hemoglobina abaixo de 7 g/dL, neutrófilos abaixo de 500/mm³ ou plaquetas abaixo de 50.000/mm³ acompanhando manifestações suspeitas — e plaquetas abaixo de 20.000/mm³ por si só. Neutropenia febril e suspeita de lise tumoral também vão à emergência pelo mesmo protocolo, mas o manejo de cada uma tem capítulo próprio e não se repete aqui.

A leucemia mieloide crônica: leucocitose escalonada, basofilia e baço

O hemograma da LMC em fase crônica é descrito com precisão no Protocolo nacional: leucocitose entre 12 e 1.000 x 10⁹/L, com mediana de 100 x 10⁹/L; blastos geralmente abaixo de 2% da leucometria global; basofilia absoluta presente e eosinofilia comum; plaquetometria variando de normal a acima de 1.000 x 10⁹/L, com trombocitopenia incomum. O elemento morfológico que dá nome ao padrão é o desvio escalonado — a série granulocítica aparece completa, com mielócitos, metamielócitos e bastonetes em quantidades intermediárias, e não apenas o pulo bastonete-segmentado da reação infecciosa. É a basofilia, no entanto, que fecha o caso contra reação leucemoide: infecção não faz basofilia.

O marcador é o cromossomo Philadelphia, resultado da translocação recíproca t(9;22)(q34;q11.2), que funde o gene BCR ao ABL1 e produz uma tirosinoquinase com papel central na patogênese. O Protocolo descreve três fases — crônica, de transformação (ou acelerada) e blástica —, e os critérios que interessam ao reconhecimento são numéricos: a fase de transformação exige 10% a 19% de blastos no sangue periférico ou na medula, ou 20% ou mais de basófilos no sangue periférico, ou trombocitose acima de 1.000 x 10⁹/L não responsiva à terapia, ou trombocitopenia persistente abaixo de 100 x 10⁹/L não devida à terapia, entre outros; a fase blástica exige 20% ou mais de blastos, ou proliferação blástica extramedular, que pode formar tumor — o cloroma.

Duas frases do Protocolo viram alternativa com frequência. A primeira: a hidroxiureia deve ser utilizada somente para reduzir o número de leucócitos enquanto os resultados dos exames que confirmam o diagnóstico de LMC estão sendo aguardados — ela é ponte, não tratamento. A segunda: confirmado o diagnóstico, o mesilato de imatinibe é a 1ª linha, na dose de 400 mg/dia na fase crônica, e a terapia inicial não é alterada pela classificação de risco do paciente, que serve para predizer a resposta, não para escolher a droga. Os três escores citados — Sokal, Hasford e EUTOS — combinam idade, tamanho do baço, plaquetas, blastos, eosinófilos e basófilos, e o Sokal é o que aparece com mais frequência nas provas.

A leucemia linfocítica crônica: a que aparece no exame de rotina

A LLC é a leucemia mais comum do adulto, cerca de 30% de todas as leucemias nessa população, com mediana de 71 anos ao diagnóstico e mais de 95% dos pacientes acima dos 50. Cerca de 60% chegam assintomáticos, com a doença detectada em exame de rotina; quando há sintoma, ele é vago. O critério diagnóstico da recomendação de 2025 do Grupo Brasileiro de LLC é uma frase: presença de linfócitos B monoclonais com imunofenótipo específico (CD5+/CD23+) no sangue periférico, em contagem acima de 5 x 10⁹/L, por mais de três meses. Abaixo desse limiar, com o mesmo fenótipo, o quadro se chama linfocitose B monoclonal — entidade distinta, de progressão baixíssima, cujo manejo é apenas vigilância periódica.

O que a prova cobra com mais frequência é o que não se faz. A recomendação brasileira diz que biópsia e/ou aspirado de medula óssea não estão indicados na rotina diagnóstica da LLC — podem ser considerados em casos de citopenia, para afastar mielodisplasia, em ensaios clínicos ou em dúvida diagnóstica. E diz que exames de imagem (ultrassom, tomografia, ressonância, PET) geralmente não estão indicados no diagnóstico nem na avaliação inicial. É a única leucemia deste capítulo que se diagnostica pelo sangue periférico, com imunofenotipagem — e essa é a razão pela qual a linfocitose do idoso não é motivo para internar ninguém.

O estadiamento clínico segue Rai e Binet, sistemas dos anos 1970 baseados em linfonodo, baço, fígado e citopenias, e a distribuição dos pacientes por Binet é reveladora: estádio A, com menos de três áreas de linfonodomegalia e sem anemia ou plaquetopenia, reúne 63% dos casos e tem sobrevida mediana de 15 anos; o estádio B, com três ou mais áreas, reúne 30% e tem 5 anos; o estádio C, definido pela presença de anemia ou plaquetopenia, reúne 7% e tem 2 anos. Para doença assintomática — Rai 0/Binet A, ou Rai I-II/Binet B assintomáticos — a recomendação é conduta expectante, com avaliação clínica e hemograma a cada três meses, especialmente no primeiro ano; doença estável pode ser acompanhada em intervalos de seis a doze meses.

Na triagem da atenção primária, os sinais que mandam à Oncologia Hematologia são dois e ambos vêm do esfregaço: linfocitose persistente acima de 4.000/mm³ com inversão da proporção entre neutrófilos segmentados e linfócitos, ou manchas de Gumprecht (as smudge cells, restos de linfócitos rompidos na confecção da lâmina) — ambas sugestivas de linfoproliferação crônica. Uma terceira porta é a monocitose persistente acima de 1.000/mm³ sem causa secundária, que abre a investigação das neoplasias mielodisplásicas/mieloproliferativas.

Para onde vai, em quanto tempo e com o quê

O destino é o mesmo nas três leucemias que têm documento nacional: hospital habilitado em oncologia com serviço de hematologia e porte tecnológico suficiente para diagnosticar, tratar e monitorar — com atendimento ambulatorial diário e atendimento emergencial 24 horas por dia, sete dias por semana. A regulação do acesso, a autorização prévia dos procedimentos e o cadastro atualizado no CNES são parte explícita da diretriz, não burocracia acessória: é assim que a fila oncológica é organizada.

O conteúdo do encaminhamento também está normatizado, e é o que o avaliador cobra quando quer testar prática: sinais e sintomas com exame físico completo, e resultado de dois hemogramas com diferença de duas a quatro semanas — com exceção expressa da hiperleucocitose e de outros sinais de gravidade. Ou seja: repetir o exame é a regra na leucocitose persistente sem gravidade, e é erro na leucocitose com blasto, com citopenia grave ou com sintoma de leucostase. Some-se o registro de medicamentos que causam leucocitose (lítio, carbamazepina, salbutamol, fenoterol, corticosteroides), que é a primeira causa secundária a excluir na atenção básica.

Dois prazos legais emolduram o percurso: a Lei nº 13.896/2019 garante os exames necessários à elucidação em até 30 dias quando a hipótese principal é neoplasia maligna, e a Lei nº 12.732/2012 obriga o início do primeiro tratamento no SUS em até 60 dias do laudo patológico. Nenhum dos dois é teto confortável na leucemia aguda: a emergência de hiperleucocitose ou de coagulopatia corre em horas, não em dias.

Sobre medicamento, há um detalhe que separa quem leu a diretriz de quem não leu. O Ministério da Saúde e as secretarias não padronizam nem fornecem antineoplásicos diretamente aos hospitais: quem é habilitado em oncologia pelo SUS é responsável por padronizar, adquirir e fornecer os medicamentos que usa. As Diretrizes da LMA abrem exatamente duas exceções nominais — o mesilato de imatinibe (para LMC, LLA Philadelphia positiva e tumor do estroma gastrointestinal) e a L-asparaginase —, comprados pelo Ministério e dispensados aos hospitais habilitados pela assistência farmacêutica das secretarias estaduais. É por isso que o imatinibe aparece com nome, dose e linha no protocolo, enquanto a citarabina e a antraciclina aparecem apenas como esquema.

04

Do hemograma ao encaminhamento: a régua da triagem no adulto

O capítulo inteiro cabe em quatro decisões: que tipo de leucemia o hemograma sugere, se aquilo é emergência hoje, o que se faz antes de confirmar e para onde vai. Os cards guardam os quatro números que decidem; o fluxo põe as decisões em ordem; a primeira tabela desarma os imitadores do hemograma e a segunda separa as quatro leucemias do adulto pelo que aparece na porta.

  1. 1Leia o leucograma inteiro, não só o total. Blasto ou promielócito no sangue periférico muda o problema de lugar; leucocitose não é obrigatória, e leucopenia com blastos é a apresentação clássica da leucemia mieloide aguda.
  2. 2Cruze com as manifestações suspeitas de leucemia aguda: fadiga, fraqueza, palidez, sangramentos (petéquias, equimoses, mucosas), infecções recorrentes, esplenomegalia e/ou linfadenopatia não explicadas por infecção aguda. Leucocitose OU blastos junto com esse quadro é urgência/emergência com suporte de hematologista.
  3. 3Cheque os quatro números que disparam emergência por si: leucócitos acima de 100.000/mm³ (exceto na LLC), sintomas de leucostase (respiratórios, neurológicos, priapismo), plaquetas abaixo de 20.000/mm³ e a tríade de citopenia grave — hemoglobina abaixo de 7 g/dL, neutrófilos abaixo de 500/mm³ ou plaquetas abaixo de 50.000/mm³ com manifestações suspeitas.
  4. 4Se há coagulopatia desproporcional ao número de plaquetas — TP e TTPa alargados, D-dímero alto, fibrinogênio consumido — pense em leucemia promielocítica aguda e trate a suspeita como emergência médica: ATRA imediato, sem esperar o resultado molecular, com suporte de hemocomponentes. Leucaférese está contraindicada nessa suspeita.
  5. 5Se o padrão é granulocítico com desvio escalonado, basofilia e esplenomegalia, pense em leucemia mieloide crônica e encaminhe à Oncologia Hematologia. Hidroxiureia serve apenas para citorredução enquanto os exames confirmatórios não voltam; o imatinibe entra depois da confirmação.
  6. 6Se o padrão é linfocitose acima de 4.000/mm³ com inversão da proporção neutrófilo-linfócito, ou há manchas de Gumprecht no esfregaço, pense em linfoproliferação crônica e encaminhe à Oncologia Hematologia — sem medula, sem tomografia. Acima de 5 x 10⁹/L de linfócitos B monoclonais CD5+/CD23+ por mais de três meses, é LLC.
  7. 7Sem gravidade, documente antes de encaminhar: dois hemogramas com duas a quatro semanas de intervalo, exclusão de causas secundárias (infecção, lítio, carbamazepina, salbutamol, fenoterol, corticosteroide) e exame físico completo. Com gravidade, essa espera é erro — o encaminhamento sai com o primeiro exame.
  8. 8Confirme o destino: hospital habilitado em oncologia com serviço de hematologia e emergência 24 horas. Os prazos legais são de 30 dias para os exames de elucidação e 60 dias do laudo ao primeiro tratamento — que valem como piso de direito, não como ritmo aceitável na leucemia aguda.

20% de blastos

O corte que define leucemia AGUDA nos documentos brasileiros: 20% ou mais de blastos no sangue periférico ou na medula (na LLA Ph+, a redação fala em medula óssea). Quatro alterações citogenéticas dispensam o corte na LMA: t(8;21), inv(16), t(16;16) e t(15;17). Abaixo disso e sem essas alterações, o problema é outro — mielodisplasia, reação, infiltração.

ATRA na suspeita

Única leucemia em que o remédio precede o diagnóstico. Coagulopatia desproporcional à plaquetopenia levanta leucemia promielocítica aguda; o consenso brasileiro manda iniciar ATRA após a suspeita mínima, sem aguardar a confirmação molecular, porque ele não prejudica os outros subtipos de LMA. Cerca de 5% ficam inelegíveis ao tratamento por hemorragia fatal ou ameaçadora que ocorre antes de ele começar.

100.000 leucócitos

O corte adulto de hiperleucocitose que manda à urgência/emergência — com uma exceção nominal: leucemia linfocítica crônica. Linfócito da LLC é pequeno e não adere ao endotélio; blasto mieloide e promielócito são grandes e rígidos, e produzem leucostase. Sintoma respiratório, neurológico ou priapismo com leucocitose vale emergência em qualquer contagem.

5 x 10⁹/L de linfócitos B

O corte da LLC: linfócitos B monoclonais CD5+/CD23+ acima de 5 x 10⁹/L no sangue periférico, por mais de três meses. Abaixo disso, com o mesmo fenótipo, é linfocitose B monoclonal, que só se vigia. Diagnóstico feito no sangue — sem aspirado de medula e sem imagem na rotina. Na triagem da APS, o gatilho é linfocitose acima de 4.000/mm³ com inversão da proporção ou manchas de Gumprecht.

Quem imita leucemia no hemogramaO que copiaO que denuncia a leucemia
Reação leucemoide (infecção grave, corticoide, uso de fator estimulante)Leucocitose alta com desvio à esquerdaReação não faz basofilia absoluta e não escalona a série completa; blasto no sangue periférico não pertence a reação; e a leucocitose reativa some quando a causa some — daí a exigência de dois hemogramas com 2 a 4 semanas de intervalo quando não há gravidade
Mononucleose e outras virosesLinfocitose com adenomegalia e esplenomegaliaNa virose o esfregaço mostra linfócito atípico reativo e as contagens se recuperam em dias; na LLC a linfocitose é persistente por mais de três meses, monoclonal à imunofenotipagem, com manchas de Gumprecht
Linfocitose B monoclonal (MBL)Fenótipo idêntico ao da LLC no sangue periféricoÉ a contagem que separa: acima de 5 x 10⁹/L de linfócitos B monoclonais é LLC; abaixo é MBL, entidade distinta, de progressão baixíssima, que só exige vigilância periódica
Anemia carencial no idosoPalidez, fadiga e queda de hemoglobinaCarência é anemia de série única, com plaqueta normal ou alta; bicitopenia, pancitopenia, esplenomegalia ou blasto no esfregaço tiram o rótulo carencial e mandam à emergência quando há critério de gravidade
Púrpura trombocitopênica imunePetéquias e plaquetopenia isoladaPTI é plaquetopenia ISOLADA em paciente sem visceromegalia; anemia ou neutropenia associadas, blasto no esfregaço ou coagulopatia com fibrinogênio baixo apontam medula ocupada — e, no adulto com coagulopatia, levantam promielocítica
Sepse com coagulação intravascular disseminadaTP e TTPa alargados, D-dímero alto, fibrinogênio baixoA coagulopatia da LPA aparece sem foco infeccioso que a explique, acompanhada de blastos/promielócitos no esfregaço, e responde ao ATRA — o que a CIVD séptica não faz

As quatro leucemias do adulto: o que chega pela porta

LeucemiaIdade e frequênciaHemograma típicoO que confirmaRégua nacional
Mieloide aguda (LMA)Mediana de 66 anos; incidência ajustada de 3,6/100.000/anoCitopenias com blastos; leucometria pode estar alta, normal ou BAIXA; DHL elevada e leucócitos acima de 20.000/mm³ são desfavoráveis20% ou mais de blastos no sangue periférico ou na medula, com imunofenotipagem, citoquímica, citogenética (mínimo de 20 metáfases) e biologia molecular; bastões de Auer na morfologiaDiretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da LMA do Adulto (Portaria SAS/MS nº 705, de 2014)
Promielocítica aguda (LPA)Subtipo de LMA; t(15;17) em mais de 95% dos casosCoagulopatia desproporcional à plaquetopenia; variante hipergranular costuma cursar com leucopenia, a microgranular com leucocitosePML::RARA por citogenética, FISH ou RT-PCR — mas o tratamento não espera o resultado; blastos HLA-DR negativosConsenso brasileiro da ABHH de 2024 (as Diretrizes de 2014 descrevem a doença, mas não fixam o momento do ATRA)
Linfoblástica aguda (LLA)Minoria no adulto; Philadelphia em cerca de 30% acima dos 30 anos e mais de 50% acima dos 65Febre em 50%, sangramento em 50%, dor osteoarticular em 15%; síndrome anêmica em 80% a 100%, esplenomegalia em 60%20% ou mais de linfoblastos na medula; imunofenótipo CD10+, CD19+, TdT+; pesquisa do Philadelphia por cariótipo, FISH ou RT-PCRDiretrizes de imatinibe na LLA Ph+ do Adulto (Portaria Conjunta nº 21, de 2021) — só a forma Ph-positiva tem documento
Mieloide crônica (LMC)15% das leucemias do adulto; mediana de 67 anosLeucocitose de 12 a 1.000 x 10⁹/L (mediana 100), desvio escalonado, basofilia absoluta, eosinofilia, plaquetas de normais a acima de 1.000 x 10⁹/L; blastos abaixo de 2%Cromossomo Philadelphia, t(9;22), gene de fusão BCR::ABL1, por cariótipo ou biologia molecularPCDT da LMC do Adulto (Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 4, de 2021)
Linfocítica crônica (LLC)A mais comum do adulto, cerca de 30%; mediana de 71 anos; 60% assintomáticosLinfocitose persistente; manchas de Gumprecht no esfregaço; hiperleucocitose alta pode ser assintomáticaImunofenotipagem do SANGUE PERIFÉRICO: linfócitos B monoclonais CD5+/CD23+ acima de 5 x 10⁹/L por mais de três meses. Medula e imagem não entram na rotinaSem PCDT nacional — a régua é a recomendação de 2025 do Grupo Brasileiro de LLC da ABHH

Leucocitose NÃO é requisito de leucemia aguda. O leucograma pode estar alto, normal ou baixo, e o achado que importa é o blasto no esfregaço — que só aparece se o laboratório procurar.

Os dois documentos do Ministério não usam a mesma redação para o mesmo corte: as Diretrizes da LMA aceitam 20% ou mais de blastos no sangue periférico OU na medula, enquanto as da LLA Philadelphia positiva falam em 20% ou mais de linfoblastos na medula óssea. Na prática, o mielograma é o exame que fecha as duas.

A exceção da LLC na regra da hiperleucocitose é nominal e está escrita no protocolo de encaminhamento: leucócitos acima de 100.000/mm³ mandam à emergência, exceto em pacientes com leucemia linfocítica crônica.

Na LPA, a leucaférese é contraindicada pelo risco de hemorragia, e heparina profilática, ácido tranexâmico e épsilon-aminocaproico não são recomendados. A citorredução, quando necessária, é medicamentosa.

Hidroxiureia na LMC não é tratamento: o Protocolo autoriza seu uso somente para reduzir leucócitos enquanto os exames confirmatórios estão sendo aguardados. Confirmado o diagnóstico, o imatinibe é a 1ª linha, e o escore de risco não muda a escolha inicial.

Os alvos de reposição da LPA (fibrinogênio acima de 150 mg/dL, plaquetas acima de 50 x 10³/µL, TP e TTPa abaixo de 1,5) são específicos daquela coagulopatia e valem durante toda a indução — não substituem os gatilhos gerais de transfusão, que estão no capítulo de terapia transfusional.

Os dois hemogramas com 2 a 4 semanas de intervalo são exigência de conteúdo do encaminhamento eletivo, e o próprio protocolo abre exceção para hiperleucocitose e outros sinais de gravidade — repetir exame diante de blasto, citopenia grave ou leucostase é atrasar emergência.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O corte de 20% de blastos ainda define leucemia mieloide aguda?

20%, com quatro exceções nominais (régua brasileira vigente)

Exige 20% ou mais de mieloblastos, monoblastos/promonócitos ou megacarioblastos no sangue periférico ou na medula óssea. Abaixo de 20%, o diagnóstico também pode ser feito quando há t(8;21)(q22;q22), inv(16)(p13.1q22), t(16;16)(p13.1;q22) ou t(15;17)(q22;q12). É o documento que o índice de PCDT do Ministério mantém como vigente e o que governa autorização e ressarcimento no SUS.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 705, de 12 de agosto de 2014 — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da Leucemia Mieloide Aguda do Adulto, item 5

Sem corte para a maioria das LMA com genética definidora (OMS, 5ª edição, 2022)

Eliminou a exigência de 20% de blastos para os tipos de LMA com alteração genética definidora, mantendo-a apenas na LMA com fusão BCR::ABL1 e na LMA com mutação CEBPA — na primeira, para não se confundir com a fase blástica inicial da LMC. Manteve o corte de 20% para delimitar a fronteira entre síndrome mielodisplásica e LMA e para as LMA definidas por diferenciação.

Khoury JD, Solary E, Abla O, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Myeloid and Histiocytic/Dendritic Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1703-1719

Na prova

O enunciado entrega o recorte pelo vocabulário. Se a questão fala em porcentagem de blastos, em diretriz do Ministério da Saúde, em critérios de inclusão para quimioterapia no SUS ou em conduta na atenção primária, a resposta é 20%, com as quatro exceções citogenéticas nominais. Se a questão nomeia a classificação da OMS de 2022, fala em 'LMA definida por alteração genética' ou entrega uma medula com 12% de blastos e uma translocação recorrente pedindo o diagnóstico, está operando na régua nova. Sinal de segurança: nas duas réguas, BCR::ABL1 e CEBPA continuam exigindo 20%, e o corte segue valendo para separar mielodisplasia de LMA.

A leucemia mieloide crônica tem três fases ou duas?

Três fases: crônica, de transformação (acelerada) e blástica

Afirma que a LMC ocorre em três fases distintas — crônica, de transformação ou acelerada e blástica ou aguda — e adota a classificação da OMS de 2017 como o sistema mais aceito para diagnóstico e classificação. Lista oito critérios de fase de transformação e liga cada bloco deles à transição que sinaliza. É o texto que orienta a rede do SUS e o registro do procedimento.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 4, de 1º de março de 2021 — PCDT da Leucemia Mieloide Crônica do Adulto, item 3

Duas fases: a acelerada foi suprimida (OMS, 5ª edição, 2022)

Registra que a designação de fase acelerada se tornou menos relevante na era dos inibidores de tirosinoquinase, em que resistência por mutação de ABL1 e alterações citogenéticas adicionais passaram a ser os atributos que importam, e omite a fase acelerada da classificação atual. Mantém como critérios de fase blástica 20% ou mais de blastos mieloides no sangue ou na medula, proliferação extramedular de blastos ou aumento de linfoblastos.

Khoury JD, Solary E, Abla O, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Myeloid and Histiocytic/Dendritic Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1703-1719

Na prova

Questão que cite explicitamente o PCDT, o SUS, a autorização de procedimento ou que ofereça alternativas com 'fase acelerada' entre as opções está na régua nacional: três fases, e a de transformação se define por 10% a 19% de blastos, 20% ou mais de basófilos no sangue periférico, trombocitose acima de 1.000 x 10⁹/L não responsiva ou trombocitopenia persistente abaixo de 100 x 10⁹/L não atribuível à terapia, entre outros critérios. Questão que nomeie a classificação da OMS de 2022 ou que fale em 'resposta ao inibidor de tirosinoquinase' como o eixo que organiza a doença está na régua nova. Nas duas, fase blástica é 20% ou mais de blastos ou proliferação blástica extramedular — quando a alternativa gira em torno desse número, a divergência não decide a questão.

Qual leucometria transforma encaminhamento em emergência de horas?

Acima de 50.000/mm³ — régua pediátrica

Define quatro situações de risco de morte que exigem encaminhamento em poucas horas para tratamento emergencial: sinais de sangramento ativo, plaquetas abaixo de 20.000/mm³, leucócitos acima de 50.000/mm³ e hemoglobina abaixo de 6,0 g/dL. O documento é de oncologia pediátrica e opera sobre a criança sintomática.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de Diagnóstico Precoce para Oncologia Pediátrica. Brasília: MS, 2017

Acima de 100.000/mm³, exceto na LLC — régua do adulto

Manda à urgência/emergência, preferencialmente com suporte de hematologista, a hiperleucocitose definida como leucócitos acima de 100.000 células/mm³, exceto em pacientes com leucemia linfocítica crônica, e também a leucocitose acompanhada de sintomas sugestivos de leucostase — respiratórios, neurológicos ou priapismo. O protocolo do Distrito Federal usa o mesmo gatilho de 100 mil para a emergência, embora chame de hiperleucocitose valores acima de 50 mil.

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Encaminhamento da Atenção Primária para a Atenção Especializada — Hematologia Adulto, versão digital 2023 (protocolos 7 e 11)

Na prova

A idade do paciente na vinheta é o recorte. Criança ou adolescente com suspeita de leucemia e leucócitos acima de 50.000/mm³ está na régua pediátrica do Ministério da Saúde, e a resposta é encaminhamento em poucas horas — ao lado de sangramento ativo, plaquetas abaixo de 20.000/mm³ e hemoglobina abaixo de 6,0 g/dL. Adulto com leucocitose está na régua dos protocolos de encaminhamento hematológico, e o número é 100.000/mm³, com exceção nominal da LLC. Em qualquer idade, sintoma de leucostase — respiratório, neurológico ou priapismo — vale emergência sem depender de contagem, e é a alternativa segura quando o enunciado não deixa clara a régua que está usando.

06

Caso resolvido

Mulher de 47 anos procura o pronto atendimento com cansaço progressivo há três semanas e sangramento gengival ao escovar os dentes há cinco dias. Hoje apareceram equimoses grandes nas coxas, sem trauma que as explique, e um episódio de epistaxe que levou vinte minutos para parar. Nega febre, tosse, disúria ou diarreia. Não usa medicamentos. Exame: pálida, lúcida, afebril, PA 118 x 74 mmHg, FC 96 bpm, saturação 97% em ar ambiente; petéquias em membros inferiores e palato, equimoses extensas em coxas, sem linfonodomegalia, fígado e baço não palpáveis. Hemograma liberado na unidade: hemoglobina 7,8 g/dL, leucócitos 2.900/mm³ com 22% de células imaturas descritas pelo laboratório como blastos de citoplasma granular grosseiro, alguns com feixes de bastonetes, plaquetas 21.000/mm³. Coagulograma: TP com RNI 1,9, TTPa relação 1,6, fibrinogênio 92 mg/dL, D-dímero muito elevado.
o que fecha o quadro
Blastos representando 22% da leucometria — acima do corte de 20% dos documentos brasileiros — em paciente com pancitopenia: é leucemia aguda até prova em contrário, e a leucopenia não desmente nada, porque leucocitose não é requisito. A ausência de visceromegalia e de adenomegalia não afasta: no adulto, elas são achado de LLA e de LLC, não de LMA.
o que aponta o subtipo antes de qualquer exame
A coagulopatia é desproporcional à plaquetopenia. Plaquetas de 21.000 explicam petéquia; não explicam RNI 1,9, TTPa alargado, fibrinogênio de 92 mg/dL e D-dímero muito elevado sem foco infeccioso nenhum. Somado à morfologia descrita — citoplasma granular grosseiro e feixes de bastonetes, as células de Faggot —, o quadro é de leucemia promielocítica aguda.
a decisão que não espera laudo
A suspeita de LPA é emergência médica e implica início imediato do ATRA, sem aguardar o resultado molecular. A justificativa é que o ATRA não prejudica o tratamento dos outros subtipos de LMA: o custo de errar para mais é baixo, e o de esperar é hemorragia intracraniana. Cerca de 5% dos pacientes com LPA acabam inelegíveis ao tratamento por hemorragia fatal ou ameaçadora à vida que ocorre antes de a terapia ser iniciada.
o suporte, com alvos próprios
Reposição de hemocomponentes para manter fibrinogênio acima de 150 mg/dL, plaquetas acima de 50 x 10³/µL e TP e TTPa abaixo de 1,5, mantida durante toda a indução até a resolução clínica e laboratorial da coagulopatia. Fora da lista: heparina profilática, ácido tranexâmico e épsilon-aminocaproico, não recomendados; e leucaférese, contraindicada na LPA pelo risco de hemorragia. Procedimentos invasivos devem ser evitados.
para onde vai
Transferência imediata para hospital habilitado em oncologia com serviço de hematologia e atendimento emergencial 24 horas, com contato direto entre os serviços. Lá se completam mielograma, imunofenotipagem — em que a ausência de HLA-DR reforça a hipótese —, cariótipo e RT-PCR para PML::RARA. Confirmada a t(15;17), mantém-se o ATRA; excluída, ajusta-se para protocolo de LMA clássica.
o que a prova quer ver na resposta
A ordem. Reconhecer leucemia aguda pelo corte de 20%; ler a coagulopatia desproporcional como assinatura da promielocítica; iniciar ATRA na suspeita, antes da confirmação; sustentar a coagulação com hemocomponentes nos alvos certos; e NÃO puncionar, NÃO anticoagular e NÃO fazer leucaférese. Quem responde 'aguardar imunofenotipagem para definir a conduta' está tecnicamente correto em oncologia e errado nesta doença.
07

Agora feche você

Homem de 68 anos, assintomático, traz um hemograma pedido na consulta de rotina do plano de saúde: leucócitos 48.300/mm³, com 82% de linfócitos de aspecto maduro, hemoglobina 13,9 g/dL, plaquetas 214.000/mm³. O laboratório acrescenta uma observação no esfregaço: presença de numerosas manchas de Gumprecht. Ele caminha 40 minutos por dia, não perdeu peso, não tem febre nem sudorese noturna. Exame físico: sem palidez, sem petéquias, dois linfonodos cervicais de 1,5 cm móveis e indolores, baço não palpável. O médico que o recebe considera solicitar tomografia de tórax, abdome e pelve e agendar um mielograma para 'estadiar a leucemia' antes de encaminhar.
achado
Linfocitose absoluta de aproximadamente 39.600/mm³ (82% de 48.300) em homem de 68 anos assintomático, com manchas de Gumprecht no esfregaço e sem citopenias. É o retrato da linfoproliferação crônica: idade compatível com a mediana de 71 anos da LLC, e o achado feito em exame de rotina, como acontece em cerca de 60% dos casos.
por que o número alto NÃO é emergência aqui
A regra da hiperleucocitose que manda à emergência — leucócitos acima de 100.000/mm³ — traz exceção nominal para a leucemia linfocítica crônica, e o paciente sequer chega a esse patamar. Não há sintoma de leucostase (respiratório, neurológico ou priapismo), não há citopenia grave, não há blasto. Nada aqui corre em horas.
risco da conduta reflexa
Tomografia de estadiamento e mielograma são o reflexo de quem trata toda leucemia como leucemia aguda. A recomendação brasileira de 2025 diz que aspirado e biópsia de medula não estão indicados na rotina diagnóstica da LLC e que exames de imagem geralmente não estão indicados no diagnóstico nem na avaliação inicial — pedir os dois expõe o paciente a procedimento e radiação sem mudar conduta, e atrasa o exame que realmente decide.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Esperar leucocitose para pensar em leucemia aguda Atrai porque o nome da doença sugere excesso de leucócitos. Mas a leucemia mieloide aguda se apresenta com frequência como leucopenia com blastos: o que falta é célula funcional, e o total pode estar alto, normal ou baixo. A régua de encaminhamento brasileira não exige leucocitose em lugar nenhum — ela pede blastos e/ou promielócitos no sangue periférico junto com manifestações suspeitas, ou citopenia grave junto com essas manifestações. Um hemograma com 4.000 leucócitos, 8% de blastos, Hb 7,2 e 30.000 plaquetas é emergência.
  2. 2Repetir o hemograma em 2 a 4 semanas quando há sinal de gravidade Atrai porque a exigência de dois hemogramas com esse intervalo está escrita, e escrita mesmo — no conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento ELETIVO. O mesmo parágrafo abre exceção expressa para hiperleucocitose e outros sinais de gravidade. Diante de blasto no esfregaço, plaqueta abaixo de 20.000, hemoglobina abaixo de 7, neutrófilos abaixo de 500 ou sintoma de leucostase, repetir exame é adiar emergência: o encaminhamento sai com o primeiro.
  3. 3Fazer leucaférese na promielocítica Atrai porque a citorredução mecânica é raciocínio correto na hiperleucocitose com leucostase de outras leucemias, e porque a LPA microgranular costuma cursar com leucometria alta. O consenso brasileiro é explícito no sentido oposto: a leucaférese NÃO é indicada na LPA, pelo risco de hemorragia. A citorredução, quando necessária, é medicamentosa — e o controle da coagulopatia se faz com reposição de hemocomponentes, não com procedimento invasivo.
  4. 4Esperar o resultado molecular para começar o ATRA Atrai porque é o hábito correto em oncologia: tratar depois de confirmar. Na LPA a lógica se inverte, e a justificativa está escrita: o ATRA deve ser iniciado após a suspeita mínima, sem aguardar o diagnóstico molecular, porque não tem efeito deletério no tratamento dos demais subtipos de LMA — enquanto a hemorragia intracraniana ou pulmonar mata antes do laudo. Se a t(15;17)/PML::RARA for excluída, ajusta-se o esquema; se for confirmada, já se ganhou tempo.
  5. 5Pedir aspirado de medula e tomografia para diagnosticar LLC Atrai porque toda leucemia aguda exige medula e porque uma linfocitose de 60.000 assusta. A recomendação brasileira de 2025 diz o contrário em duas frases: biópsia e/ou aspirado de medula NÃO são indicados na rotina diagnóstica da LLC — cabem em citopenia, para excluir mielodisplasia, em ensaio clínico ou em dúvida diagnóstica —, e exames de imagem geralmente NÃO estão indicados no diagnóstico ou na avaliação inicial. O diagnóstico é a imunofenotipagem do sangue periférico.
  6. 6Tratar a LLC assintomática porque o número do linfócito é alto Atrai porque contagem alta parece exigir ação. Não há evidência que sustente tratar LLC ao diagnóstico na ausência de sintomas: para Rai 0/Binet A e para Rai I-II/Binet B assintomáticos, a recomendação é conduta expectante, com avaliação clínica e hemograma a cada três meses, especialmente no primeiro ano, e intervalos maiores na doença estável. Some-se a exceção nominal da regra de hiperleucocitose: leucócitos acima de 100.000 mandam à emergência, exceto na LLC.
  7. 7Chamar de reação leucemoide uma leucocitose com basofilia Atrai porque leucocitose alta com desvio à esquerda no contexto de infecção é, quase sempre, reação mesmo. Duas coisas quebram o rótulo. A basofilia absoluta é característica da fase crônica da LMC e não pertence à resposta infecciosa. E o desvio da LMC é escalonado — a série granulocítica aparece completa, com mielócitos e metamielócitos —, enquanto a reação faz o pulo bastonete-segmentado. Junte esplenomegalia e plaquetose e o caso deixou de ser infeccioso.
  8. 8Prescrever imatinibe antes de confirmar a LMC Atrai porque a LMC é a leucemia com tratamento de primeira linha nomeado em protocolo e comprado pelo Ministério da Saúde, e porque a leucometria pede providência. O Protocolo separa as duas coisas com clareza: a hidroxiureia deve ser utilizada somente para reduzir o número de leucócitos enquanto os resultados dos exames confirmatórios estão sendo aguardados; confirmado o diagnóstico, o mesilato de imatinibe é a 1ª linha. E o escore de risco — Sokal, Hasford ou EUTOS — não altera a terapia inicial: serve para predizer a resposta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Leucocitose acentuada com toda a maturação granulocítica, basofilia/eosinofilia, esplenomegalia e FAL diminuída é o quadro clássico de leucemia mieloide crônica (LMC), definida pelo cromossomo Philadelphia t(9;22) / BCR-ABL1. A t(15;17)/PML-RARA é da leucemia promielocítica aguda (LPA). JAK2 V617F ocorre nas outras neoplasias mieloproliferativas (policitemia vera, TE, mielofibrose), não define LMC. A t(8;14)/MYC é do linfoma de Burkitt. Trissomia do 12 associa-se à leucemia linfocítica crônica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os números na ordem do fluxo: leucemias = 12.220 casos novos por ano no Brasil (Estimativa 2026, triênio 2026-2028), risco de 5,71/100 mil, 13ª posição excluída a pele não melanoma; medianas de idade — LMA 66, LMC 67, LLC 71 anos; LMC = 15% e LLC ≈ 30% das leucemias do adulto; leucemia aguda = 20% ou mais de blastos, com quatro exceções (t(8;21), inv(16), t(16;16), t(15;17)); LPA = t(15;17) em mais de 95%, alto risco se leucócitos acima de 10.000, ATRA na suspeita MÍNIMA, leucaférese PROIBIDA, alvos fibrinogênio > 150, plaquetas > 50.000, TP/TTPa < 1,5; hiperleucocitose do adulto = acima de 100.000, EXCETO na LLC; leucostase = respiratório, neurológico, priapismo; citopenia grave = Hb < 7, neutrófilos < 500, plaquetas < 50.000, e plaquetas < 20.000 sozinha; LMC-fase crônica = 12 a 1.000 x 10⁹/L, mediana 100, blastos < 2%, basofilia; fase de transformação = 10% a 19% de blastos ou 20% ou mais de basófilos; fase blástica = 20% ou mais; LLC = linfócitos B monoclonais CD5+/CD23+ acima de 5 x 10⁹/L por mais de 3 meses, sem medula e sem imagem; prazos legais 30 e 60 dias.

em 30 dias

Monte quatro vinhetas e resolva cada uma até a conduta da próxima hora: (1) adulto com pancitopenia, 22% de blastos, RNI 1,9 e fibrinogênio 90 — qual subtipo, o que se prescreve ANTES do laudo e quais três condutas estão vetadas; (2) adulto com 130.000 leucócitos, dispneia sem infiltrado e confusão — por que é emergência independentemente do subtipo, e em que caso o mesmo número não seria; (3) adulto com 62.000 leucócitos, desvio escalonado, 7% de basófilos, baço a 5 cm do rebordo — qual doença, qual exame confirma, qual droga entra agora e qual só depois da confirmação; (4) idoso assintomático com linfocitose de 40.000 e manchas de Gumprecht — qual exame decide, quais dois exames NÃO se pedem e qual é a conduta se ele for Binet A. Depois, refaça de cabeça a tabela dos imitadores dizendo, para cada um, o único achado que denuncia a leucemia.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 47 anos chega ao pronto atendimento com cansaço de três semanas, sangramento gengival e equimoses grandes nas coxas sem trauma. Está pálida, afebril e estável, sem visceromegalia. O hemograma acabou de sair: 2.900 leucócitos com 22% de blastos granulares, hemoglobina 7,8, plaquetas 21.000 — e o coagulograma veio com RNI 1,9, TTPa alargado e fibrinogênio de 92. Conduza o atendimento: diga o que você suspeita e por quê, o que prescreve antes de qualquer confirmação, o que precisa ser reposto e com que alvo, o que NÃO entra na prescrição nem na lista de procedimentos, e como e para onde este caso é transferido. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Leucemias agudas e crônicas – Leucemias no adulto: reconhecimento e triagem — Preparatório para provas | OsceLabs